Natali chora e soluça, um desespero contido de uma criança que ainda não tem certeza de nada em sua vida. Mas algo estranho havia acontecido, era uma debutante ainda e, por descobrir muitas coisas boas no decorrer do caminho, não estava imune às ocorrências falhas dessa caminhada.
Sentia-se desamparada pela própria emoção. Está sentada em um banco feito de cimento em frente de sua casa, dentro uma aglomeração incomum, vizinhos e curiosos. Talvez sentindo pesares pelo ocorrido, ou simplesmente a vontade de ter certeza da novidade.
Seu irmão, Jairo, havia saído no final da tarde para jogar bola, seu costume de todos os dias depois de realizar tarefas e deveres de casa. Ele sonha ainda ser um grande jogador de futebol, o que não é difícil de acontecer, é um ótimo jogador.
Naquele dia, o retorno habitual de Jairo não acontecera. Já era quase noite, sua falta ainda não havia sido sentida, até mesmo por saber que, apesar da pouca idade - apenas doze anos - Jairo era sempre responsável.
Alguém chama no portão da casa de Natali, é o pai de um amigo de Jairo, estava esbaforido, não se sabe se pela correria para chegar até ali, ou pelo teor da notícia.
Natali vai até ao portão, o senhor de olhar sisudo e um pouco desesperado, pergunta:
Sua mãe tá em casa?
– Sim, ela está.
– Quero falar com ela, vá chamar, por favor.
Natali encarou aquele homem, era apenas um conhecido da outra rua, pai de um amigo de Jairo. Era pressente em seu olhar um condutor de más notícias. Era a primeira vez que aquele homem vinha ao portão da sua casa. Imediatamente, Natali vê no semblante daquele senhor a revelação de decepção. Em passos lentos, vai chamar sua mãe.
Dona Joelma, uma mulher de meia idade que, ainda conservava uma vistosa beleza, foi admirada pelo senhor por alguns segundos... logo a notícia é dada sem aviso prévio:
– Seu filho Jairo foi levado ao hospital!
Joelma demora acreditar em uma notícia assim tão rápida. Seu filho sempre teve uma saúde boa, o que o levaria assim, de prontidão, ao hospital?
– Seu moço, o que aconteceu com meu filho?
– Eu posso entrar e me sentar naquele banco?
– Pode!
O senhor entra, se senta no banco onde Natali costuma sentar para pensar. Ele olha para Joelma que permanecera em pé, começa a relatar a história como o seu filho o havia contado:
– Jairo estava jogando bola no campinho, como de costume. Terminaram a partida, regressando para casa, às margens do campinho, Jairo achou um dinheiro, uma nota não muito alta, mas que dava para comprar pão. Todos foram pra padaria, compraram alguns pães e refrigerante, sentaram ali mesmo na calçada, dividiram os pães e o refrigerante, e lancharam. Sobraram ainda dois pães. Jairo, então, resolveu dividir entre todos, fatiando um pedaço para cada um. Estavam a caminho de casa enquanto essa divisão acontecia, mas, Jairo não percebeu que ele e outro garoto ficaram sem pão. Se conformou, afinal, já haviam comido o suficiente. Mas o garoto que também não recebeu o pão ficou com muita raiva e começou a ofender Jairo que, por sua vez, o ignorou, e continuou caminhando.
Joelma já um pouco ansiosa com aquele relato enfadado, disse:
– Moço, o que aconteceu com meu filho?
– Estou tentando lhe contar, pois, se eu não relatar, a senhora não entenderá.
– Pois diga logo, seu moço!
– O garoto ficou mais irado ainda por que Jairo não deu atenção às ofensas. Meteu a mão no bolso e foi atrás de Jairo que estava de costas. Ao chegar perto de Jairo, segurou em seu braço, quando Jairo se virou, num súbito, o garoto puxou a mão do bolso, bateu no peito de Jairo com alguma coisa, e logo começou a sangrar.
Joelma muita aflita com o relato:
– Onde está meu filho?
– Ele está no hospital.
Natali ouve todo o relato sem mencionar uma única palavra, mas já pressentia o pior.
Joelma chora, nervosa, querendo saber o que realmente teria acontecido com seu filho. O senhor também fica nervoso e gagueja palavras sem entendimento. Os vizinhos curiosos vão se aglomerando frente à casa.
Natali imagina com curiosidade, pois, parece já ter vivido aquela situação anteriormente, nada do que estava acontecendo era surpresa para ela.
Precisou falar algo para ver se sua mãe se recuperava:
– Calma mãe, Jairo está bem!
Então, por um instante, Joelma volta a si.
– Tá não, Natali! Mataram Jairo, meu menino!
Natali, no seu íntimo, prevê que a situação é mais do que um simples acontecimento e, Joelma sente também de alguma forma. Era o destino funcionando de maneira traiçoeira, dando informações do mais além que se tornariam decepções permanentes... Joelma só repete:
– Mataram meu filho, furaram meu filho!
– Não, mãe, não mataram. Ele tá vivo! Conta, moço, que ele tá vivo!
Natali segura o braço do homem, apelando para que ele desse uma boa notícia e, dessa forma, Joelma se acalmasse. Ele continua o relato, mas Joelma não presta mais atenção em nada do que ele fala:
– Jairo, quando viu o sangue escorrendo pelo seu corpo, observou um minúsculo ferimento e todo o sangue parecendo fugir do seu corpo, olhou para os outros garotos e desmaiou. No chão, ao lado do corpo, uma pequena ponta de metal com um cabo de madeira improvisado. Eu passava por ali naquele exato momento e ajudei no socorro. Colocamos ele num carro e o levaram para o hospital. Me prontifiquei em avisar a família. Comigo está a faca improvisada.
O homem mete a mão no bolso e tira algo parecido como uma faca. Era pequena, parecia uma ponta de uma velha faca, talvez de cinco a dez centímetros, ou um pouco mais.
Um dos vizinhos que estava ali vê a faquinha e tenta aliviar a tensão:
– Mas isso não mata nem formiga, parece um alfinete, um graveto, só faz cócegas!
Joelma fica mais tranquila. Natali, apesar de ser nova, estava a conduzir a situação com muita habilidade, tinha conseguido acalmar sua mãe.
A própria Joelma resolve não tomar nenhuma providência enquanto seu esposo não chegasse. Edson - seu esposo - é um homem reservado, de poucas palavras, mas quando resolve beber se torna muito falador, fazendo o homem reservado desaparecer.
Quando ele aparece na ponta da rua, é avistado por um vizinho que prontamente anuncia:
– Seu Edson já está chegando!
Edson é um homem robusto e trabalhador, havia conhecido Joelma numa época que ela estava desamparada, com os filhos para criar e abandonada pelo seu antigo parceiro. Era uma mulher com cinco filhos, e apesar disso, era muito jovem e bonita, Natali e Jairo eram filhos do primeiro relacionamento, os outros três eram de um segundo relacionamento, no qual se entregou ao álcool e saiu pelo mundo afora sem deixar rastros. Edson a conheceu e se apaixonou, se responsabilizou pela família, assumindo os filhos dela como seu. Natali era a mais velha, depois vinha Jairo, Cristiano, Reinaldo e Neiva.
Edson percebe a aglomeração em frente de sua casa e ficou preocupado. Apressa os passos pra saber o que tinha acontecido. Joelma o encontra, dá-lhe um abraço e começa a chorar outra vez:
– Furaram o Jairo com uma faca!
Edson gosta de Jairo como se fosse seu próprio filho, já quer saber quem fez a maldade. Sua reação é de um pai revoltado e prontamente pensando em uma vingança, mas Joelma o abraça e o acalma afirmando estar tudo bem, mesmo sem saber de nada.
Imediatamente ele pede para Joelma trocar de roupa para que fossem ao hospital. De todos os enteados, Jairo é por quem ele tem mais afeição. Gosta de ver o garoto jogando, e de sua habilidade com a bola. Gosta da humildade e obediência de Jairo, é um garoto muito inteligente.
Joelma vai trocar de roupa e Edson fica ouvindo aquele senhor contar os detalhes do acontecido, foi ele o primeiro a chegar pra dar a notícia.
Arrumam o carro do vizinho emprestado, quando já estão todos dentro carro, quase saindo, uma viatura da polícia para em frente à casa.
Os policiais descem da viatura procurando saber quem eram os pais do garoto que havia sido estocado, Edson responde:
– Sou eu, o pai.
– A notícia não é boa para você.
Joelma cai em prantos e desmaia. Entende que seu filho havia falecido, mesmo sem o policial falar nada. Os vizinhos a socorrem, tomando os devidos cuidados. Jairo mal completara doze anos e tinha sido arrancado dessa existência de uma forma trágica e covarde. Mas Edson ainda mantinha uma esperança de apenas um estado grave e pergunta com uma voz trêmula:
– Como ele está, seu policial?
– O senhor é o pai do garoto?
– Sou e não sou.
– O que o senhor é dele?
– Sou padrasto, mas o tenho como se fosse um filho.
– Infelizmente ele não resistiu ao ferimento e veio a óbito. O objeto que o perfurou, ainda não identificado, atingiu um ponto vital do coração. Chegou ao hospital sem vida.
Joelma recobra os sentidos quando ouve as últimas palavras do policial:
– Não, meu garotinho não!
Ela grita desesperada e fora de si. Edson já não sabe o que fazer. Fica desnorteado com a situação.
A casa então se enche com vizinhos e curiosos, alguns acontecimentos na vida que é o momento propício para descobrir se as pessoas realmente se importam conosco ou se somos meramente um espetáculo do caos. Todos choravam, os irmãos de Natali sabem que perderam o seu irmão, Jairo. Mas não sentem ainda a certeza da separação através da morte e o sofrimento que ela causa., Edson chora junto com Joelma.
Natali vai para fora da casa, para a parte da frente. Senta-se naquele banco de cimento, é seu habitual costume estar ali, agora solitariamente. Soluça e chora com lágrimas de sangue que enegreciam sua alma. Apenas um pedaço de pão fez parte de uma triste trajetória na vida de seu irmão que dissiparam, uma vida de apenas doze anos.
O pão que alimenta, foi a causa da perda de uma vida. Desse momento em diante, Natali não é mais a mesma garota. A fatalidade acabara de impactar sua vida profundamente. Ela pensa também no garoto que tinha ceifado a vida de Jairo, talvez tivesse sido um ato repentino, sem pensar, um ato que transformara mais uma vida, ou muitas.
Natali chora e pensa no quão doloroso é perder alguém que se ama muito. Nunca havia imaginado a morte em si mesma, somente em noticiários ou até mesmo de algum vizinho, mas com ela seria impossível acontecer, assim pensam os jovens atuais, possuem a síndrome da vida eterna,
O fato é contatado pela dor repentina, sem aviso a morte invade o derredor da vida, levando Jairo para sempre, uma vida que não se concluiu, sonhos interrompidos.
Ela pensa no destino que as vezes é cruel, pensa como será o destino dela. Teria chance de ir mais além? Ou simplesmente seria retirado sem estimativa, assim como o do seu irmão?
Às vezes o destino se completa por irônica teimosia da vida, muitos passam por essa vida apenas por passarem, não almejam sonhos, somente para cumprirem tabela.
Ela adormece naquele banquinho de cimento que estava gelado, mas ela nada sente, até que alguém percebe, a coloca no colo e a leva para dentro.
Tudo foi organizado, o velório acontecera no próprio cemitério, depois do enterro somente o pensar de recomeçar sem Jairo. Até aquele momento ninguém da família pensara no garoto que havia ceifado a vida de Jairo. Quem é ele? Essa informação foi esquecida momentaneamente, mas agora as mentes se aguçam por saber.
Ali, junto com a família, está Daniel, um amigo de Jairo, o melhor talvez. Estavam sempre juntos, e estavam juntos quando tudo aconteceu. Daniel é um pouco mais velho do que Jairo, e tinha um interesse oculto por Natali.
Daniel relata toda a história com detalhes, revela quem é o garoto. Quando Natali ouve o nome, uma ira sobe por todo o seu corpo ao saber que o garoto que tinha tirado a vida de Jairo era seu melhor amigo. Um garoto pelo qual ela nutria uma paixão secreta. Ela, enfurecida, vai até a cozinha, pega uma faca na gaveta do armário, sai correndo em direção a casa do garoto. Está cega pelo ódio, nesse momento seu desejo é de extrema vingança.
Corre alguns metros com a faca na mão, até chegar a uma casa situada na outra rua. Sem pedir licença, tenta abrir o portão que está trancando e começa a gritar:
– Hélio, seu covarde, venha até aqui! Quero fazer a mesma coisa que você fez com Jairo!
Ela já estava escalando o portão quando seu padrasto a puxa de volta:
– Natali, você tá doida?
– Não, eu só quero vingar a morte do meu irmão.
– Vamos para casa. Sua mãe tá passando mal.
Edson toma a faca dela e guarda na cintura. Nesse momento, aparece na porta um homem com um semblante muito triste, falando com a voz trêmula, com a convicção que seu filho era um assassino. Mas era seu filho, não tinha culpa pela ação impensada dele:
– Por favor, seu Edson, leve sua filha daqui. Estamos sofrendo muito por causa da fatalidade.
Natali se enfurece mais ainda.
– Fatalidade para nós, não pra vocês!
– Por favor, garota, vá embora. Tenho certeza que você não quer errar como meu filho errou.
– Eu quero é matar ele!
– Seu Edson, leve sua filha daqui ela está muito nervosa.
O pai do garoto aparentemente era uma pessoa calma, conhecia Joelma desde a juventude, eram da mesma cidade e praticamente saíram de lá na mesma época. Por coincidência, acabaram se tornando vizinhos, depois de um longo tempo sem se verem.
Natali parece uma onça furiosa, tenta se desgarrar dos braços do seu padrasto de todas as formas. Hélio coloca a cara no cantinho da janela, acreditando que ninguém conseguiria ver. Observa toda a cena, Natali então o visualiza, e grita:
– Vem aqui, seu covarde. Estou te vendo, eu sabia que você tinha inveja de Jairo. Nunca falava bem dele, era sempre com inveja, covarde!
Hélio sai da janela, ela continua falando:
– Hélio, você vai me pagar. Eu juro por toda minha vida, enquanto eu existir, você nunca mais terá sossego nessa tua vida mesquinha! Eu juro, eu juro!
Natali consegue desvencilhar-se dos braços do seu padrasto, e para sua surpresa, ela começa a jurar ajoelhada:
– Ande por onde andar, se for até para o inferno, eu irei atrás de ti, seu covarde! Eu juro por tudo o que é sagrado nessa vida e pelo que não é também, sua vida agora é minha.
Palavras fortes para uma garota de apenas quatorze anos. Um juramento com muito ódio, uma transformação de duas vidas envolvidas, num juramento adolescente.
Ela jura e chora com lágrimas de ira. Edson a pega nos braços e a carrega de volta para casa, era uma cena muito triste, desde o começo, e acompanhada por vários curiosos.
Hélio, dentro de casa, havia escutado cada palavra de Natali. Era como se cada palavra fosse a mesma estocada que ele deu no coração de Jairo. Ele derrama lágrimas congeladas num choro contido, para o próprio arrependimento. Aquela garota era sua paixão secreta, que um dia sonhara em revelar a ela, mas não dessa forma. Um assassino, e ainda do irmão dela. Agora se tornara sua inimiga revelada, uma jura de perseguição e de morte.
Hélio ainda não tinha quinze anos, por essa razão, seu pai decide procurar a justiça. O advogado que consegue permissão para que ele fosse para outra cidade, mas sempre com justificativas de seu paradeiro até completar a maioridade.
O pai de Hélio é um homem muito cauteloso, depois daquela cena no portão decide tomar essa decisão, mesmo que para isso fosse necessário ficar longe do seu filho.
Manda-o para casa de um irmão que não tinha filhos e que mora numa fazenda na sua cidade Natal. Uma situação provisória, até que se resolvesse tudo.
Depois de alguns dias, Natali se acostumara com ausência de Jairo, se sente mais conformada. Soube que Hélio havia sido mandado embora para casa de uma tia que morava muito distante, mas sua intuição dizia que Hélio estava na cidade onde sua mãe havia nascido, e comenta:
– Um dia ele voltará, e eu estarei aqui esperando por ele. Se ele não voltar, eu irei atrás dele, o encontrarei e me vingarei!
Natali disse essas palavras com um sorriso sinistro, quase que diabólico, cruel. Daniel, quem trouxe a notícia, fica um pouco receoso com tal atitude. É muito rancor e dor ao mesmo tempo. Ele agora vê uma Natali diferente. Antes de Jairo morrer, era uma garota doce e gentil, agora parecia calculista e vingativa.
Daniel tem a mesma idade de Natali, era muito amigo de Jairo, apesar de ser mais velho. Os dois se davam muito bem, só que agora com Natali está sendo diferente. Ele tenta se aproximar, mas ela parece não pertencer a esse mundo, talvez com o tempo melhore.
Ele guarda um certo interesse por Natali e, por essa razão, ainda persistia na amizade. Uma tentativa de preencher o vazio que Jairo havia deixado.
O tempo passou, Natali está se transformando em uma bela mulher. Quase um ano havia se passado da morte de Jairo. Daniel se tornara seu melhor amigo, conversavam bastante. Ela agora com quinze anos, o desejo de vingar a morte de Jairo parece ter sido guardado e esquecido em alguma gaveta do seu coração.
Edson, o padrasto dela, também havia mudado muito. Não para mais em emprego nenhum, vive de fazer um serviço aqui outro ali. Quando aparece, o dinheiro que ganha é só para beber. Se tornara praticamente um alcoólatra. Joelma agora trabalha fora pra poder ajudar. A vida se tornara dura, mas ainda conservava muita beleza.
Edson, quanto mais ociosidade tem, mais enche a cara, muitas vezes é carregado pra casa pelos amigos de bar.
Joelma sente falta do homem que conhecera no passado. Era dedicado à família, mesmo os filhos não sendo dele. Sempre os tratou como se fossem seus, mas depois da morte de Jairo ele se transformara, era outro homem, totalmente irresponsável, as vezes até depravado.
Joelma sai cedo para trabalhar, já são quase meio dia, ela não está se sentindo muito bem e pede permissão pra sair mais cedo. Na parte da manhã, somente Natali fica em casa, os outros estudam nesse período.
Joelma chega em casa sem fazer barulho, qualquer barulho aumenta a dor de cabeça. Ela tem o pisar muito leve, quando abre a porta e olha pra cima do banheiro - o único lugar que tinha forro na casa - e toma um susto quando vê Edson em cima do forro, ele se assusta mais ainda:
– O que você tá fazendo aí cima, homem?
– Acho que vi um rato aqui em cima.
Edson desce com muita pressa:
– Conseguiu matar ele?
– Não, ele foi muito rápido.
– Depois tem que colocar uma ratoeira lá.
– E você, mulher, o que houve pra chegar cedo em casa?
– Estou sentindo uma dor de cabeça muito forte, pedi pra ser dispensada hoje.
– Mãe, a senhora já chegou?
Era voz de Natali dentro do banheiro.
– Sou eu, filha, saí mais cedo.
– Que bom, mãe!
– Você tá tomando banho, filha?
– Sim, mãe!
– Tem muito tempo que você está no banho?
– Uma meia hora, por que, mãe?
– Nada não, filha, é só pra saber.
– Eu já estou saindo!
Natali, depois de alguns minutos, sai do banho enrolada numa toalha, mostrando suas costas nuas e suas coxas:
– Oi, mãe, a senhora tá bem?
– Só uma dor de cabeça forte, por isso cheguei mais cedo.
– Tome um banho e vá deitar, vou me arrumar, depois faço um chá pra senhora.
Natali vai para o quarto se arrumar. Edson ainda está sentado na cadeira, a que lhe serviu de apoio pra ele subir até ao forro do banheiro. Joelma olha para ele com cara de poucos amigos, mas sem proferir palavra alguma, apenas pensa consigo mesma que algo muito estranho estava acontecendo em sua casa, e falou:
– Estou me sentindo meio cansada, vou tomar um banho e me deitar.
Edson fica na sala, depois sai para dar uma volta, quem sabe fazer uma visita ao bar. O dia passa, mas Joelma não tira aquela cena da cabeça...Edson em cima do forro do banheiro, bem na hora que Natali tomava banho..., mas logo tudo se segue normalmente.
Alguns dias se passaram e chega ao final de semana. Os meninos haviam saído pra brincar na rua, Edson também foi fazer sua visita habitual ao bar, estavam em casa somente Joelma e Natali.
Joelma vai até o quintal pega uma pequena escada, leva pra sala, coloca no mesmo lugar que viu Edson em cima do forro, sobe e de lá vê um furo que dava para visualizar o interior do banheiro. Ela chama Natali que está no quarto e pede a ela pra entrar no banheiro e fechar a porta. Natali atende seu pedido, apesar de achar muito estranho. Mais estranho ainda quando Joelma pede:
– Natali, tire a roupa.
– Por que, mãe? Eu não vou tomar banho.
– Não questione, Natali, só tire a roupa.
– Tá bom, mas acho que a senhora não tá muito bem!
Natali tira toda a roupa, Joelma a ver de corpo inteiro, era uma visão plena da nudez de Natali.
– Safado! Safado!
– O que foi, mãe?
– Pode se vestir, minha filha.
– A senhora não tá bem mesmo!
Natali sem entender a atitude da mãe, veste a roupa rapidamente, e sai do banheiro encontrando sua mãe furiosa, falando palavrões sem entendimento, Natali não consegue entender a situação:
– Mãe porque a senhora tá assim? O que a senhora viu? Eu fiz alguma coisa errada?
– Nada não, filha. Estou com muita raiva, depois eu te explico.
Joelma vai para o quarto, talvez para pensar na situação, como resolveria. Nem tirou a escada da sala. Natali, ainda confusa, olha para a escada e resolve investigar o que estava acontecendo. Queria entender a causa de toda a ira de sua mãe, então, decide subir até o forro e de lá ver aquele pequeno furo. Até que descobre que dava pra visualizar o interior do banheiro. Naquele momento ela consegue compreender o motivo de tanta raiva de sua mãe.
Ela se lembrou do episódio do rato que seu padrasto havia perseguido enquanto ela tomava banho e das perguntas que Joelma fez a ela. Liga os fatos e conclui que Edson a "curiava" enquanto tomava banho.
Natali era ainda de uma pureza nunca antes tocada, mas como toda garota de sua idade, já conhecia as malícias da vida. Os pais educam, mas as mídias estragam. Pode depender muito de uma postura dos próprios jovens.
Ela não é de fato tão inocente, conhece as malícias da mente de um homem e uma mulher.
Natali é uma garota precisa em seus pensamentos, tem o conhecimento das coisas, da realidade. Às vezes, chega a duvidar de si mesma, do que seria capaz de fazer para perder toda a sua pureza. Seus pensamentos viajam muito, em fantasias que só ela mesma sabe.
Fica a pensar em toda a situação, sente muito nojo do seu padrasto, um homem que ela tinha como um pai e, agora presenciando atos que ela jamais aceitaria. Nesse momento, o vínculo de pai e filha estavam se rompendo, seu sentimento é de asco.
Passa-se um dia inebriado pelas descobertas dos fatos. Edson, depois de beber bastante, retorna embriagado para casa. Entra e se deita num sofá na sala.
Joelma passa toda a parte da manhã refletindo a situação, pensando como procederia. Ao ver Edson ali, quase apagado, deitado no sofá, todo o refletir da manhã evapora num segundo. Sem pensar mais nada, profere palavrões a Edson, ele sem nada entender, senta-se no sofá.
– Tu tá doida, mulher?
Ela continua chamando-o de safado, idiota e outros palavrões.
– Mulher, eu que bebo e tu que fica bêbada?
– Tu és um safado!
– Mulher, não estou entendendo nada. Você nunca me xinga por eu beber. Pirou, eu não sou safado!
– Não está satisfeito comigo, agora quer minha filha também?
– De que tu tá falando, mulher?
Joelma para de falar palavrões e chora com muita raiva, sua vontade era matar aquele homem. Ele não era mais o homem gentil e amoroso que ela havia conhecido no passado, era um trapo de imundice:
– Edson, eu confiava em você, e agora se revela um homem sem escrúpulos, fazendo coisas que eu jamais imaginaria vindo de você.
– Mulher, tu tá doida mesmo, não estou entendendo nada.
– Hoje descobri o que você anda fazendo...
– O que eu fiz, mulher maluca?
– Você fica curiando minha filha enquanto ela toma banho.
Ele escuta sem reação nenhuma, mas com um certo ar de cinismo.
– Há é isso?
Joelma não se contém, parte pra cima, arranhando o rosto dele. Ele reage dando um soco em Joelma, que cai desmaiada. Natali quando ouve o baque, sai do quarto. aflita. Ela e os irmão ouviram a discussão dentro do quarto, em silêncio. Edson repete desnorteado:
– Em cara de homem não se bate!
Natali vê Joelma caída, desfalecida:
– Seu covarde, você matou minha mãe!
– Você é a culpada de tudo isso estar acontecendo!
– Você vive enchendo a cara, virou alcoólatra, eu que sou a culpada?
– Você só falta ficar nua na minha frente, eu sei que você quer me seduzir
– Você enlouqueceu, eu lhe tenho como um pai, e os meus irmãos e minha irmã também, você me viu crescer.
– Mas agora você é uma mulher!
– Como pode você nutrir desejos por mim, sou como filha para você!
Edson estava dominado pelo álcool, tenta agarrar Natali forçosamente, rasgando sua blusa:
– Eu te amo Natali, eu te amo!
– Você tá louco, fora daqui!
– Essa casa é minha!
Nesse momento, Cristiano e Reinaldo resolvem sair do quarto. Edson se assusta e sai de casa muito rápido. Os dois irmãos ainda não entendiam muita coisa, mas quando viram sua mãe no chão, acharam que ela estava morta.
Toda essa gritaria chama atenção dos curiosos, parece tela de cinema vista dos cantos das janelas.
Reinaldo e Cristiano ficam sem saber o que fazer e, sem nada entender o porquê aquele homem que tinham como um pai estava agindo de uma forma tão diferente. Joelma se recupera, abre os olhos e respira, procurando a presença de Edson. Era primeira vez que ele encostava a mão nela de forma violenta. Joelma sente um pouco de culpa, ela iniciou com violência, tinha perdido o controle de si. Isso não tirava a culpa de Edson, ele estava agindo de forma errada com relação a Natali.
Quando Joelma começa a abrir os olhos, Natali, muito rápida, vai ao quarto e troca de blusa para que sua mãe não se preocupasse mais ainda. Reinaldo pergunta pra sua mãe:
– Mãe, o que aconteceu?
– Nada, filho, é essa bebedeira do Edson... ele está perdendo o controle, está ficando sem limites
Cristiano pergunta:
– Ele bateu na senhora?
– Eu fui culpada, filho. Eu avancei nele, ele se defendeu.
– Mas ele não podia bater na senhora.
– Onde ele está?
– Quando eu e Cristiano saímos do quarto, ele saiu quase correndo de casa. Acho que ele estava com vergonha.
– Onde está Natali?
– Ela foi pro quarto, acho que ele tentou machucar ela.
Natali aparece na porta do quarto, olha para os dois, com o dedo na boca em forma de silêncio pedindo pra que eles não relatassem mais nada. Os irmãos entendem que Natali não queria mais preocupar a mãe. Joelma não percebe.
Anoitece e todos vão dormir.
No dia seguinte, antes de irem a escola, os dois irmãos procuram Natali para saberem realmente o que tinha acontecido. Ela enrola um pouco até que eles desistem, somente confirma o que Joelma já havia falado, Cristiano comenta:
– Mas você estava com sua blusa rasgada, parecia que ele estava tentando te agarrar. Eu o ouvi falar que te amava.
– Não, Cristiano. Foi quando eu o vi dando o soco na nossa mãe. Eu fui pra cima dele, pra defender ela, ele segurou minha blusa, eu puxei, por isso rasgou.
– Mas porque ele dizia "te amo"?
– Ele estava bêbado, não sabia o que estava fazendo, acho que ele pensava que estava falando com a nossa mãe.
Reinaldo pergunta para Natali:
– Onde será que meu pai se meteu?
– Ele deve ter passado a noite bebendo e emendando o dia. Daqui a pouco aparece aqui com cara de arrependido.
Depois dessa conversa os meninos e Neiva tomam café da manhã e vão para escola. Natali se sente satisfeita com as explicações que tinha dado aos seus irmãos, apesar da mentira. Não queria mais causar preocupação a sua mãe, mas agora sente uma culpa inconsciente por ser bonita. Cada palavra que Edson tinha falado, penetrou no seu cérebro, fazendo Natali sentir culpa desejada. Ela pensava que talvez ele tivesse razão. Sem perceber, quando andava de toalha dentro de casa, de alguma forma, estivesse seduzindo-o. Podia ser uma vaidade disfarçada., Natali se culpava.
Os meninos amam Edson como um pai, somente Natali não o chama de pai, não se acostumou por ser a mais velha.
Depois da morte de Jairo, Edson mudara de atitude. Parece que a morte de Jairo o havia afetado profundamente, seu relacionamento com a família tinha se transformado.
O dia passa e todos continuam em suas rotinas habituais. Natali retorna da escola e encontra sua mãe em casa depois de um dia de trabalho:
– Oi mãe, como está a senhora, tá melhor?
– Meu rosto ainda dói, um pouco dolorido. Estou muito receosa...
– A senhora acha que ele ainda vai continuar com essas coisas?
– Quando ele retornar você tem que tomar cuidado, não fique sozinha em casa com ele. Quando os meninos saírem de manhã, vá pra casa da sua prima. Eu não confio mais nele, mas nós temos que aguentar, a casa é dele, e não podemos fazer nada. Não tenho condição de pagar um aluguel, então, o jeito é continuar aguentando-o. Tomara que um dia aconteça um milagre em nossas vidas e não precisaremos mais morar aqui.
– Mãe, acho que ele age assim por causa da bebida. Eu me lembro que ele era um homem bom, se ele parasse de beber, tudo melhoraria.
– Minha filha, você é muito boa. Edson não vai parar de beber, ele está perdendo o juízo, o perigo está aí, perdeu a noção de tudo.
– Não tem outra solução, mãe?
–Talvez eu mude seu horário de estudar, ou mudo os dos meninos, seria uma solução. Todos estudando no mesmo horário pra você não ficar sozinha com ele.
– Se ele pelos menos arrumasse um trabalho permanente...
– Amanhã eu vou resolver essa situação, tudo será resolvido.
Depois de alguns dias, Edson aparece em casa todo sujo, parecendo um mendigo, estava fedendo, porém estava sóbrio. Vai direto ao banheiro e toma um banho. Joelma pega roupas limpas e entrega a ele. Se alimenta como se tivesse a muitos dias sem comer nada. Chama Joelma para uma conversa, mas antes dá um abraço em cada um dos meninos, menos em Natali, ela se retira antes.
Joelma e ele vão para o quarto e conversam. Edson pede perdão por tudo que tinha acontecido, diz que a casa não é dele, e sim, das crianças e dela. Diz que passará a casa para o nome dela. Ele não se lembra de quase nada do que tinha acontecido. Passara vários dias no meio do mato, igual bicho. E uma coisa ele não conseguia mais: olhar para Natali. Toda vez que ela estava junto, ele desviava olhar pro nada, fingia que ela não estava ali. por parte de Natali, era bom esse proceder. Resolvem então, dar mais uma chance a ele.
Depois de um mês, Edson realmente dá uma guinada em sua vida. Desde que retornara a sua casa, não bebe mais. Consegue arrumar um emprego fixo, agora está em harmonia com a família. Menos com Natali, mais parecem dois estranhos morando na mesma casa. Não se falam, só a olha para quando ela percebendo-se distrai. Joelma acha melhor assim, essa falta de intimidade dos dois é, de certa forma, proteção para Natali.
Natali e Joelma, deitadas na cama e conversando, quando do nada, Natali faz uma pergunta para sua mãe:
– Mãe, por que eu não consigo lembrar do meu pai?
– Você era muito novinha quando ele saiu pelo mundo afora.
– Mas, o Jairo lembrava dele, e ele era mais novo do que eu. Eu deveria ter de oito a nove anos quando ele foi embora... não é normal, acho que tive um bloqueio pois, Jairo lembrava dele perfeitamente.
– Natali, eu não gosto de falar do seu pai.
Joelma sente um nervosismo e tenta fugir do assunto que, parece incomodar.
– Mas por que não lembro dele?
Joelma se levanta meia trêmula e sai do quarto com um semblante muito estranho. Natali vai atrás:
– Mãe! Mãe, a senhora tá passando mal?
Ela realmente mudara sua feição devido aquele assunto, parecia uma fuga que, agora veio à tona com lembranças indesejáveis:
– Não, filha, eu não estou bem.
– Foi o assunto do meu pai?
– Não, alguma coisa me fez mal, meu estômago tá doendo.
– Deita aí no sofá, eu vou fazer um chá de camomila pra senhora.
Joelma deita no sofá com um sentimento de lembranças que pensava estarem apagadas, mas agora surgiram todas de uma vez só, como se tudo estivesse acontecido ontem.
Natali acha tudo muito estranho. Sua mãe havia mudado o semblante, estava alegre, conversando e sorrindo. Foi só tocar no assunto do seu pai, que ela mudou completamente. Existia alguma coisa mal contada nessa história. Natali acha estranho não ter lembrança do pai, da memória simplesmente não existir mais.
"Como pode uma criança de oito anos esquecer tudo?" Pensa ela.