Não sou uma garota normal, aos 18 anos saí do meu país em busca de autoconhecimento ou talvez fugir de mim mesma, cruzei o atlântico com uma mala e muitos pesadelos nem eram sonhos, complexada desde criança por não ter o corpo "padrão" e por viver na cidade mais erótica e caliente da Espanha, sempre quis fugir dela. Sou maluca? Talvez, mas viver em um lugar por toda a vida, que respira s3xo e não se sentir atraente e bonita é uma m3rda.
Há quase oito anos que vivo aqui em Los Angeles, e claro que isso não mudou em nada os meus complexos e pesadelos, continuo com minhas sessões de terapia com as quais convivo desde a adolescência, o que mudou somente foi a profissional que me trata e a língua que domino com perfeição sem nenhum sotaque.
Não achei que aceitar a sugestão da minha psiquiatra seria tão excitante, quer dizer, nunca tinha entrado em um clube BDSM, mas como ela sugeriu essa última alternativa para ajudar com meus traumas, mergulhei de cabeça nisso. Caramba e como adorei o lugar! Não é tão assustador como nas minhas pesquisas no google, ao contrário, me senti parte daquele ambiente de cara, não eu Estela Valente, mas outra pessoa, uma mulher que eu nem sabia que existia, talvez meu alterego, não sei ainda, mas quero descobrir. Quem sabe esse pedaço perdido que tanto me falta seja isso, me tornar essa pessoa que não conheço e que está presente, forte, poderosa, sabendo exatamente o que quer e o que a faz sentir prazer, uma Dominante na cama e fora dela.
Me levanto enlouquecido da poltrona de couro indo e vou até o bar, preciso de uma bebida e uma forte, para ver se acalmo minha respiração e o meu p@u. P*rra! Que performance foi essa? Minhas cabeças pulsam. E quem era aquela mulher? Ela agia como se fosse a dona desse clube, monopolizou todos os olhares, inclusive o meu, por isso não entendi.
Nunca me atraiu esse tipo de mulher, dominante, exibida e arrogante, ah sim! Ela tinha um olhar altivo de quem sabia que todos a desejavam e queriam estar no lugar do escravo que dava prazer a ela, sério, e o corpo dela nem é o que costumo me interessar, mas p*rra é lindo, exuberante, cheio de curvas e redondinho nos lugares certos.
- Ei cara, me vê um whisky duplo sem gelo? - Quando o barman retorna com a bebida, eu solto:
- Quem é a dominante que acabou de sair do salão?
- Malena Herrera? É a atração do clube, é sua primeira vez em um clube desses?
Recebo um sorriso displicente, noto o flerte. Respondo amigavelmente, mas de uma forma que ele entenda que ele não é meu tipo.
- Não, não, eu jogo há anos, mas nesse é a primeira vez. Quero vê-la, conversar com ela. Avise que Logan Taylor quer contratá-la para uma audiência.
- Você está vendo aquela pilha de cartões vermelhos no canto do balcão? - Aceno afirmativamente.
- São todas as pessoas que solicitaram 'Uma audiência'. – Isso mesmo ele responde fazendo o sinal de aspas nessa palavra.
- Posso te colocar na fila se deseja candidatar-se como um possível escravo, claro se assim ela te escolher, senhora Malena não faz shows privés - Derrubo meu whisky em um gole rápido e solto afiado e furioso:
- Escravo? Tenho cara de escravo? Não me conhece?
- Desculpe, senhor. Compramos o clube há pouco tempo, não conhecemos os clientes.
- Meu nome, é Logan Taylor. E ouça bem, não sou escravo, nem switcher, eu sou um Dominador. E se ela não aceitar rebolar aquele rabo para mim, compro essa porc@ria com você, ela e o c@ralho todo!
Com isso pago o drink atirando a nota no balcão e saio pisando duro irritado pela porta afora. Vociferando a palavra 'escravo' até meu carro. Jamais seria capacho de uma mulher, mesmo uma que fez meu p@u pulsar sem ao menos me olhar. Quem é ela para me ignorar?
Malena Herrera que me aguarde, quero um show particular e vou ter, ou não me chamo, Logan Taylor.
Estela – Quatro anos antes
Nunca pensei que minha rotina aqui em Los Angeles viraria uma 'rotina' maçante, não que seja ruim esse sossego ou essa vida sem emoções, porque tenho tudo o que preciso, uma boa casa, moro sozinha, não devo satisfações a ninguém e tenho liberdade de ir e vir.
Meu trabalho de escritora que começou como um hobby, já me rendeu uma boa grana e não dependo mais da mesada de papai, mas minha vida social poderia ser mais agitada, penso eu.
Não tenho amigos para me divertir, fora o pessoal do meu antigo emprego nessa cafeteria, nenhum. E todas essas pessoas não têm a minha idade, não consigo me abrir com eles, nossas conversas não têm um ponto em comum, mesmo os conhecendo há anos e eles me tratando com um membro da família.
Os Miller, donos desse café me acolheram há quatro anos, quando cheguei perguntando uma vaga de garçonete, estava assustada com a falta de vagas para estrangeiros, insegura com as incertezas de viver sozinha pela primeira vez, mas eu propus me desafiar, precisava disso. Me deram a vaga, ensinaram-me o ofício e me ajudaram a encontrar uma casa não muito longe do trabalho, um bairro bom, tranquilo e agradável de viver. Depois que decidi deixar o emprego para me dedicar à escrita, eles me apoiaram e continuaram meus amigos como se nada tivesse mudado.
Sou muito grata a esse casal. Mas a emoção da novidade de um país estrangeiro já não impulsiona mais os meus dias, já dominei a língua, estudei anos, contratei até uma fonoaudióloga para que eu não tivesse nenhum sotaque da minha língua materna.
Porém, meus problemas não resolvidos na Espanha continuam sem solução, meus complexos e pesadelos, minha reclusão da vida social não mudaram. Lá eu tinha tudo isso, mas tinha minha família e minha melhor amiga para pelo menos conversar, tudo bem que fazemos chamadas de vídeo e ligações toda semana, mas não é a mesma coisa.
Eu achei que era isso que eu precisava para me encontrar, ficar longe da minha zona de conforto. Não que papai tenha facilitado, fez questão de me bancar até há alguns meses atrás, compreendo suas preocupações, o segmento de perfumaria vai de vento em popa na Europa e ele é um dos melhores perfumistas da Espanha, os negócios iam bem na época que vim e ele queria garantir meu bem-estar mesmo longe de mim, essa foi a condição para me deixar esse tempo sozinha da família e eu concordei.
Mas depois de anos aqui, sinto que estou desanimando de viver em L.A, preciso conversar com minha psiquiatra sobre esses sentimentos estranhos.
É o que farei em minha próxima consulta.