Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > DECLÍNIO
DECLÍNIO

DECLÍNIO

Autor:: escritoracanlip
Gênero: Romance
Raul estava fazendo um favor para o melhor amigo, afinal, ele amava estar entre as nuvens e voar sob as águas do mediterrâneo era como andar de bicicleta para o duque da aviação. Essa seria a última viagem antes do casamento. No entanto, ele não contava com a chuva, a forte ventania e a falta de experiência do seu copiloto. Maria Luíza não deveria estar naquele avião, mas não tinha como evitar, ela estava indo atrás do seu sonho. Após sofrerem um acidente e ficarem presos em uma ilha, Raul e Maria Luíza ficarão entre a razão e o desejo. Toda a tensão piora quando ela descobre a identidade da noiva dele. "

Capítulo 1 Prólogo

RAUL

Estaciono no estacionamento privado do condomínio Avelar, localizado bem de frente a grande construção moderna que minha noiva mora. Antenor, o síndico do lugar desde que comecei a namorar Stella libera minha entrada e subo direto para o apartamento dela no décimo segundo andar.

Nosso casamento está marcado para daqui à oito meses e temo sua reação quando lhe falar da minha transferência.

Aperto a campainha, sorrindo para a senhorinha que passa por mim e me olha maliciosa.

- Hey, você está adiantado. - Stella diz, abrindo a porta do apartamento ainda de roupão.

Sorrio ao visualizar sua imaginem relaxada, ela não era assim no começo, sempre que nos víamos era como se estivesse diante de uma modelo. Tudo nela parecia impecável e harmonioso, por dera, Stella vem de uma família tradicional como a minha e para ela aparência significa muito.

Talvez, por isso, escolheu ser uma cirurgiã plástica.

- Não vai entrar? - Pergunta, e aí percebo que continuo plantado na sua porta perdido em meus pensamentos.

- Como você está? - Pergunto, fechando a porta e indo ao seu encontro, entrelaçando meus braços em sua cintura fina.

- Não faça isso, o creme continua secando. - Afasta o rosto dos meus lábios, evitando que a beije na bochecha e resmungo desgosto.

Balança as mãos em frente o rosto na tentativa de criar algum vento e acelerar a secagem.

- Não ligo. - Digo, voltando a me aproximar para conseguir um beijo.

- Eu, sim, ele precisa ficar completamente seco para que eu possa proteger minha pele da maquiagem. Vá por mim, querido, o gosto é horrível.

Dou de ombros.

- Tudo bem, precisamos conversar.

Ela ergue uma de suas sobrancelhas e me olha especulativa, sabendo pela entonação da minha voz que o assunto é sério.

Bem, pelo menos para mim é.

- Não pode esperar até o jantar?

- Prefiro ser objetivo, não quero sair para beber e me divertir sabendo que teremos uma possível briga quando chegar.

Ela aperta os olhos, mantém uma postura firme e cruza seus braços.

- Muito bem, sobre o que devemos conversar, então? - Fala, deixando seu tom mais frio e distante.

Suspiro, me preparando para uma de suas crises.

- A Belizzi acabou de inaugurar um aeroporto na Espanha, infelizmente um dos pilotos escalados sofreu um acidente de carro e está hospitalizado, felizmente o estado dele não é grave, mas até sua total recuperação fui convidado para ocupar sua vaga e realizar voos internacionais. - Digo tudo de uma vez.

Ela franze as sobrancelhas, desviando seu olhar do meu.

- Eles querem que você vá para a Espanha?

- Sim, por seis meses. Vou ficar com os países europeus, no máximo, viajarei até algum asiático.

- Nosso casamento é daqui a oito meses. - Esbraveja.

- Eu sei, mas é uma oportunidade única. Farei ótimos contatos e farei o meu nome ser conhecido, não por ser filho de quem sou, mas pelo meu próprio trabalho e mérito.

- Você já aceitou. - Murmura, parecendo falar bem mais pra só do que pra mim.

- Sim. - Respondo, mesmo sabendo que não era uma pergunta.

- Não acredito nisso. - Grita, olhando-me com fúria. - Você espera que eu fique aqui e planeje nosso casamento enquanto você fica por aí se divertindo.

Fecho a cara, não gostando da sua escolha de palavras. - Não estarei me divertindo, estou indo trabalhar e agarrar uma ótima oportunidade. Pense no dinheiro que vou ganhar.

Ela bufa.

- Não precisamos de dinheiro. Nossas famílias têm o suficiente para nós e as cinco próximas gerações, querido. - Diz, jogando uma almofada na minha direção.

A seguro antes que acerte meu rosto.

- Prefiro ganhar meu próprio dinheiro, não vou passar a vida na aba dos meus pais. - Ela revira os olhos, cansada do meu discurso.

- Que seja, ainda assim temos dinheiro o suficiente para não se preocupar pelos próximos cinquenta anos de nossas vidas.

Fico em silêncio, sabendo que ela tem razão sobre isso, mas aceitar essa oportunidade é muito mais que ganhar um salário maior, está relacionada com a projeção do meu sonho e carreira.

- É a minha carreira. Meu sonho. Quando estou na cabine de um avião, levando todas aquelas pessoas pra algum destino, tenho a confiança delas comigo, sinto que estou no lugar certo e nada pode me realizar mais.

Vejo a mágoa e o ressentimento passando pelos seus olhos quando termino de falar, me arrependo logo em seguida.

- Sim, está claro que você ama voar mais do que a mim. - Diz, cheia de ressentimento.

Me aproximo, culpado.

- Não é assim, querida. São coisas diferentes. Você será minha mulher.

Ela levanta as vistas pra mim, os olhos se enchendo de lágrimas. Puxo seu corpo para o meu em um abraço, colando seu rosto em meu peito.

Ela parece frágil assim, apesar de toda a pose segura de mulher mais velha.

- Você me ama? - Pergunta manhosa.

A aperto mais em meus braços, deixando um beijo em seus cabelos loiros e já alinhados.

- Claro, querida.

Stella Queiroz é uma mulher linda e independente, apesar do nariz empinando e pose de dondoca é extremamente sensível, com um bom coração. Minha mãe nos apresentou na minha festa de aniversário de vinte oito anos, há 2 anos, fui arrebatado de imediato pela beleza de realeza da mulher, ela é três anos mais velha que eu e, isso nunca foi um problema para nós dois. Apenas nos encaixamos, meus horários loucos se encaixaram com os dela e engatamos um namoro, gosto de sua companhia e é bom ter para quem voltar quando faço uma aterrissagem difícil.

- Vou pedir para que minha mãe lhe ajude com os preparativos de casamento, confio no gosto refinado de vocês duas. Afinal, eu não decidiria em nada se estivesse aqui mesmo. - Ela dá um leve riso, assentindo em seguida.

- Quer saber, Helena está na Itália passeando com as filhas. Você vai passar por lá e encomendar seu terno com um estilista amigo meu, ele é o melhor. Vou pedir que ela te ajude com a escolha.

- Tudo bem.

Capítulo 2 UM

Cinco meses e duas semanas depois.

Dias atuais...

RAUL

-Não sou babá, Théo. Sou um piloto conceituado e sem paciência para adolescentes mimadas.

-Eu sei, cara. Você é meu melhor amigo e só confio em você para trazer minha irmã para casa em segurança. A fedelha é geniosa e meio maluca, mas já não é nenhuma adolescente, por favor, me quebra essa.

Bufo, revirando os olhos. Eu já ouvi isso dele antes. O babaca é especialista em me pedir favor e o engraçado é que sempre consegue o que quer.

-Onde está a droga do seu piloto particular?

-Papai o demitiu, ao que parece ele estava pegando a minha jovem madrasta. -Seu tom é sarcástico e resolvo não adentrar nesse assunto familiar.

-Tudo bem, eu a levo de volta para a Espanha, mas me envie a porra de um bom copiloto.

Ele rir do outro lado do telefone, satisfeito por conseguir o que queria.

-Obrigada, cara. Vou fazer a melhor despedida de solteiro para você. -Diz empolgado.

-Nada de exageros, você atrai escândalos e gosto da minha privacidade.

-Pode deixar. -Ele diz, não me deixando nenhum pouco confiante.

Rosno, sabendo que ele vai aprontar alguma nessa festa. Melhor deixar Gustavo organizar.

Isso, Théo está fora.

-Estou falando sério, seu bastardo. Gustavo vai te monitorar de perto, não apronte nada de surreal.

Ele passa a gargalhar alto.

-Cara, me dê algum crédito. Sou o seu melhor amigo e ninguém te conhece melhor.

-Tudo bem, mas ainda vou mandar Gustavo ficar de olho. -Digo, encerrando a ligação.

Procuro no celular o endereço que Stella me enviou mais cedo, ao que parece Helena já está me esperando para irmos ao tal estilista. Dei sorte de arranjar uma folga justamente no mesmo fim de semana que a mulher retornou a Veneza, da outra vez estava ocupado demais e não pude cumprir o cronograma que ela e minha noiva organizaram.

Cacete, não era só um terno?

Desço do carro e sigo para a casa, a fachada em tom areia tem o mesmo estilo das outras por aqui, embora pareça mais sofisticada que as demais. Aperto a campainha e espero pela mulher.

Encontrei Helena poucas vezes e em todas ela estava acompanhada do marido, um homem na faixa dos cinquenta e de aparência meio ranzinza. A maioria dos encontros foram reuniões sociais organizadas por Stella, mas eu nunca tive mais que quinze minutos de conversa com a mulher, no entanto, tenho ouvido muito dela desde que passei a namorar sua melhor amiga.

Aparentemente as duas se conheceram na adolescência e frequentavam a mesma escola, mesmo Helena sendo cinco anos mais velha que minha noiva, a interação entre as duas sempre foi de igual para igual, uma amizade bonita e que sobreviveu ao tempo, sempre lembro de mim e Théo quando as vejo juntas.

Aperto a campainha novamente, já duvidando que tenha alguém em casa, a temperatura parece aumentar a cada segundo e começo a ficar impaciente.

A porta se abre quando dou as costas para ir embora.

-Raul? -Uma voz feminina pergunta e me viro.

-Bom dia, Helena. Chego em uma hora ruim? Sinto muito, pensei que Stella tinha avisado que eu viria.

A mulher balança a cabeça, dando espaço para que eu entre. Aceito, adentrando a casa e me surpreendendo com a decoração refinada.

-Sim, ela avisou. Eu, que ando com a cabeça cheia, vou só pegar a bolsa. Quer algo para beber? Um suco, água, refrigerante...

-Água seria bom.

-Vou pedir para a empregada trazer, um minuto, querido. Fique à vontade. -Fala, adentrando um corredor longo.

Fico parado nos primeiros segundos, admirando alguns retratos na parede. Stella me contou algo sobre Helena ter duas filhas, naquela noite nós falávamos de como foi nossas infâncias, sou filho único, então a ideia de crescer com um irmão sempre me encheu os olhos.

-Você é o noivo bonitão da Dinda? -Uma voz infantil fala e olho direto para escada, uma menina com uma aparência de uma garota com dez anos no máximo me olha curiosa.

-Sua dinda?

-É, minha madrinha Stella.

A olho confuso, identificando os traços delicados com a da menina da foto.

-É você? -Pergunto, apontando com o queixo para foto.

Ela olha para onde mostro e faz careta.

-Não, essa é minha irmã com doze anos. -Diz, ainda encarando o retrato.

-Ah, você parece com ela.

-Se você diz. -A menina dá de ombros, fazendo uma cara de entediada.

Sorrio, ela parece uma garotinha excêntrica.

-Então, você é ele?

-Quem?

Ela revira os olhos, demostrando impaciência.

-O noivo da minha Dinda.

-Ah, sim. Sou o noivo da sua madrinha sim. Raul, prazer. -Falo, erguendo a mão para cumprimentá-la. -Seus olhos brilham, gostando do tratamento adulto que estou lhe dando.

-Briana, prazer. -Diz, apertando firme minha mão.

Sorrio pra ela.

-Com licença. -Uma jovem mulher aparece com um copo de água em uma bandeja e me entrega.

-Obrigada. -Digo.

-Algo mais, Senhor?

-Não, muito obrigada... -Pauso, esperando que me diga seu nome.

-Hellen. -Briana fala se adiantando.

-Bem, então, muito obrigada Hellen.

A moça sai, levando o copo vazio junto dela. Briana corre para pegar uma foto sua de quando era bebê, mas acaba trazendo muitas medalhas junto.

-Essa daqui foi quando ganhei o concurso de soletração da minha escola. -Diz, apontando para uma medalha pequena, dourada com o nome campeão entalhado na superfície lisa.

-Filha, você não está sufocando o Raul, está? -Helena fala, vindo para perto da escada, onde estou sentado junto de sua filha.

Sorrio para a mulher. -Não é incomodo, estou impressionado com sua filha. Ela tem muitas medalhas.

Os olhos da mãe brilham com meu comentário, deixando a amostra seu lado coruja.

-Sim, minhas filhas são muito inteligentes e centradas.

-Papai disse que Malu é rebelde. -A garota fala, arrancando uma cara de reprovação da mãe.

-BRIANA. -Ela fala.

-O quê? Papai que disse. -A menina se defende, recolhendo a medalha da minha mão e juntando as outras.

-Não escute tudo o que seu pai diz, então, às vezes ele fala sem pensar pelo calor do momento.

A mulher tenta consertar e me sinto desconfortável com a situação.

-Ela largou a faculdade. -A menina retruca e a mãe a fulmina com os olhos, prometendo um castigo só com o olhar.

-Desculpa, vou guardar essas coisas. -A mais nova murmura, recolhendo tudo que estava espalhado pelo chão e indo devolver ao lugar certo.

-Sinto muito, por isso. Minha filha mais nova ainda não sabe guardar a língua dentro da boca.

-Tudo bem. -Digo, realmente constrangido pela situação toda.

-A irmã, minha filha mais velha, largou a faculdade sem nenhum aviso e voltou para Itália. Esse é o motivo deu ter voltado esse fim de semana, a sina de toda mãe é colocar um pouco de juízo na cabeça dos filhos.

-Sinto muito. -Digo, sem saber muito o que dizer.

-Tudo bem, aquela garota adora testar minha paciência, mas sempre foi independente e nunca agiu com imprudência, o que acalma minha alma é saber que ela nunca faz nada sem ter um plano reserva. Só espero que seja um bom que o pai não surte como da última vez.

Ela fala e assinto, não deixando escapar que ela falou como da última vez, na certa, a garota é um desses adolescentes problemas que adoram causar dor de cabeça aos pais.

Deus me livre ter mais de que um filho.

Um é o suficiente, apenas para não falarem que sou um insensível desalmado.

-Vamos? -Briana fala, segurando a mão da mãe em expectativa.

Capítulo 3 DOIS

RAUL

Dois dias depois

Adentro o aeroporto de Turim, onde o pai de Théo mantém seu jatinho guardado carregando apenas minha mala pessoal e devidamente uniformizado, embora esteja fazendo um favor pessoal para um amigo, gosto de estar devidamente padronizado, além do enorme orgulho que sinto de mim cada vez que ponho esse uniforme, não foi uma tarefa fácil largar a carreira de engenheiro civil e convencer o Sr. Alberto Rabello de Alcântara que esse era o futuro do seu único filho.

Sorrio, avistando de longe seu Leopoldo, o homem que conheço desde garoto e hoje em dia garante a manutenção do jatinho particular dos Mourão. Não avisto sinal nenhum da irmã de Théo, apesar de tê-la visto pela última vez, quando era só uma garota e tendo quase certeza de que não a reconheceria hoje.

- Ei, garoto. Théo me contou que você seria o piloto, então, gostou dessa belezura. - O homem aponta com a cabeça rumo a aeronave e fico sem palavras.

- Aquele bastardo não me contou que seria essa lindeza que eu pilotaria, se tivesse me falado antes teria economizado muito latim. - Digo, fazendo Seu Leopoldo gargalhar divertido.

Rio junto, ainda admirando o modelo Phenom 300 da Embraer, branco com detalhes em azul nas asas. Pelo que li, essa belezinha é veloz e já estou louco para colocá-la no ar.

- Onde está Pâmela? - Pergunto pela irmã de Théo e o franze as sobrancelhas, olhando ao redor confuso.

- Ela estava aqui nesse minuto. - Coça os cabelos, bagunçando os fios já grisalhos enquanto continua sua busca com os olhos. Deixe-me mandar alguém checar no banheiro, um minuto.

- Não tem o número dela? - Pergunto, querendo ganhar tempo. Além de estar louco para pilotar a aeronave, também tenho que pegar o vôo de volta para o Brasil ainda essa noite.

Stella e eu resolvemos antecipar o casamento para o começo do próximo mês e estamos correndo contra o tempo, felizmente meu trabalho por aqui foi tão bem-sucedido que a filial me quer fixo para os vôo internacionais lá no Brasil e estou adiantando minhas férias por conta da cerimônia e lua de mel. O piloto que eu estava substituindo também voltou as ativas semana passada, antes do esperado e todos saímos ganhando.

- Não, senhor. - Faço cara feia ao ouvir o termo utilizado por ele.

- Não me chame assim, Leopoldo. Você praticamente me viu crescer, livrou a minha pele e de Théo muitas vezes. Com todo respeito, te tenho como uma espécie de pai. - Os olhos do homem me encaram com comoção, meio constrangido. O puxo para um abraço e ele corresponde meio sem jeito, até meio tímido.

- Certo, menino. Agora deixe de sentimentalismo que eu vou atrás daquela menina.

O solto, sorrindo pelo seu jeito atrapalhado.

- Como ela é? - Pergunto, me referindo a Pâmela. - Tem muito tempo que não a vejo.

Sinto que ele estranha minha pergunta pelo vincar de suas sobrancelhas, deve pensar que por ser tão chegado a Théo também seria da garota. Acontece que quando Théo se mudou para a Espanha no fim da adolescência temos nos encontrado pouco, apesar de mantermos o contato frequentemente e estarmos comemorando um com outras datas importantes. No bem da verdade, Théo sempre manteve a irmã protegida de baixo de suas asas e longe dos amigos.

- A menina Pâmela se tornou uma mulher bonita, divertia, bem-humorada e boa pessoa.

Tento repuxar a imagem da menina na cabeça e reformular, mas tenho poucas informações e resolvo deixar para lá.

- Tudo bem. Sabe do meu copiloto? Preciso organizar umas coisas com ele primeiro.- Pergunto, antes que ele parta.

Desvia o olhar do meu e encara o lugar onde dois garotos conversam de forma distraída.

- O garoto é novo, mas aprende rápido e está super empolgado por trabalhar com você. Tem admiradores por aí, rapaz. - Diz, já saindo.

Continuo encarando os dois garotos sem acreditar, não sabendo identificar qual é mais novo. Parece a porra de dois adolescentes, caralho. Devem até ter espinhas no rosto.

Pego meu telefone e clico no número do idiota do Théo para reclamar, gosto de viajar com pessoas experientes e ele me garantiu isso.

- Ei, você é Raul Rabello, correto? O duque do avião. - Um rapaz franzino, com olhos verdes mostrando empolgação, fala. O encaro por alguns segundos, avaliando o que suponho ser meu copiloto.

- Sou, e você é? - Estico minha mão, ainda cabreiro com a idade do menino.

- Júlio. - Responde em um espanhol nativo, mostrando todos os dentes enquanto sorrir.

Assinto.

- Você será meu copiloto hoje?

- Sim, senhor. Será uma honra. - Diz, fazendo reverência, parecendo nervoso de repente.

Ignoro a reverência e foco no que realmente importa.

- Você já esteve em uma aeronave dando suporte para o primeiro piloto antes? - Questiono e o vejo engolir a seco.

Droga.

- Você sabe que se algo me acontecer vai ter que assumir o controle, não é? - Olhos assustados me encaram e penso que o menino está prestes a vomitar.

- Você é realmente um duque? - Pergunta, olhando-me com curiosidade e admiração.

Quero lhe dizer que isso não interessa, mas me contenho e mantenho a pose profissional.

- Responda a minha pergunta. - Digo firme, levando a sério a possibilidade de subir na aeronave sozinho.

- Sei, sim senhor. Prometo não decepcionar. - A voz trêmula entrega o seu medo evidente, porém a coragem do garoto despertam lembranças do meu início nesse ramo e resolvo lhe dá uma chance.

- Tudo bem.

Ando em direção ao jatinho e percebo uma comoção perto da cabine, vozes agitadas despertam minha atenção e foco nos cabelos loiros que estão sendo agitados pelo vento.

- Pâmela? - Arrisco, fazendo com que duas garotas virem e me encarem, posso jurar que uma delas ou ambas suspiram ao me olhar.

- Você é a irmã do Théo? - Pergunto a loira, que aparenta surpresa com minha pergunta.

Penso ter me confundido, mas entre as duas ela aparenta ser a mais jovem e a amiga logo acrescenta:

- Sim, é ela. Amiga, tenho que ir agora, ok? Não esquece de me ligar assim que chegar. - Pisca.

Pâmela encara a amiga com incredulidade, olhando entre mim e a morena de cabelos curtos, parecendo incomodada com minha presença.

- Você não vem comigo? - Sussurra, apertando os lábios grossos um no outro.

- Não posso, esqueceu que preciso encontrar Guiseppe? Meu italiano lindo está me esperando, te mando notícias. - A morena fala, estalando um beijo na bochecha da irmã de Théo.

Então, ela parte, deixando um clima estranho e pesado.

Tusso, desconfortável. Como eu posso não ter intimidade com a irmã do meu melhor amigo? Vi essa menina comer barro, merda!

- Lembra de mim? - Pergunto, tomando de volta sua atenção. Querendo por algum motivo quebrar o clima estranho que ficou.

- Sim. - Ela responde, não me olhando nos olhos.

Isso me incomoda para um caralho.

- Quantos anos tem? - Não sei por qual motivo estou perguntando isso, simplesmente saiu.

Só quero que ela me olhe, assim de lado não consigo assimilar com a menina que via na infância. Os cabelos loiros são longos e chegam até o meio da cintura, o nariz é bastante miúdo, ela está vestindo roupa casual e por isso não consigo analisar muito. Porém, a calça jeans está moldando o que parece ser uma bunda perfeita.

Não que eu tenha reparado nisso, tenho uma noiva me esperando e essa é a irmã mais nova do meu melhor amigo.

- Vinte e um. - Responde, ainda olhando na direção pra onde a amiga foi.

- Onde está sua mala? - Continuo tentando uma conversa.

- No avião.

Me irrito, querendo forçar o rosto dela na minha direção.

Abro a boca para falar algo que a faça me olhar, nem que seja porque está ofendida.

- Socorro, me ajudem. Por favor! - Uma mulher com sotaque italiano diz ofegante.

Isso ganha a atenção de Pâmela rápido e de repente a garota está dando suporte a mulher e perguntando o que ocorreu, parecendo verdadeiramente preocupada.

- Ele...- Ela diz ofegante, olhando pra trás a todo momento. Começo a achar a situação estranha e fico em alerta.

- Calma, respira. - Pâmela sussurra.

- Não dá, ele está vindo. Vocês precisam me ajudar. - A mulher diz, parecendo desesperada.

- Ele quem? - Pergunto, olhando pra onde ela olha.

- Mio marito. - Diz, intercalando palavras no seu idioma com o inglês que estamos usando pra falar com ela.

Isso me deixa ainda mais desconfiado, puxo as duas mulheres para mais próximo da aeronave, em um ponto menos visível.

- Quem é você? - Pergunto.

- Vuole prendere mia figlia. - Diz, apertando com mais força a menina em seus braços.

- Em inglês, por favor. - Digo, um pouco alto, assustando ainda mais a mulher que se encolhe.

- Cacete, sinto muito. É que preciso saber quem são vocês. - Digo em um tom mais baixo.

- Egli sta arrivando. - Diz, agitada. Espremendo com mais força a bebê enrolada em uma mata.

- Temos que ir. - Pâmela diz. Puxando a mulher para dentro da aeronave e não me dando escolha.

Cacete!

- Júlio, vamos! - Grito para meu copiloto.

Vejo homens de terno preto correndo em nossa direção e trinco o maxilar.

- Agora, Júlio! - Bato no metal do jatinho, assustando meu copiloto.

Subimos todos rápido, sigo para a cabine e peço permissão para alçar vôo.

Ligo as turbinas e assim que recebo a confirmação dou a partida, deixando o chão dentro de alguns segundos.

- Porra! - Solto, ainda sobre o efeito da adrenalina e irritado por não saber a merda que estou me metendo.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022