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DESEJOS QUE NÃO PEDEM PERMISSÃO

DESEJOS QUE NÃO PEDEM PERMISSÃO

Autor: Fire Books
Gênero: Romance
Entre encontros que ninguém planejou e desejos que se recusam a obedecer, este box de contos revela casais que se descobrem no instante em que o destino decide brincar. Há ela: mulher de olhar afiado, rotina impecável e corpo que há tempos não se deixa tocar de verdade. E ele: homem de silêncios densos, mãos firmes e uma presença que invade o espaço como se sempre tivesse pertencido ali. Eles não se conheciam. Não deveriam se encontrar. Mas uma noite qualquer - um elevador travado, um bar quase vazio, um erro de endereço - coloca os dois no mesmo pedaço de escuridão. O ar muda. Os olhares se cruzam e não soltam. Ele se aproxima sem pedir permissão, a voz baixa roçando a orelha dela: - Você também sente isso? Ela não responde com palavras. Apenas gira o corpo, prende a gravata dele entre os dedos e o puxa até a boca colidir com a dela. O beijo é voraz, urgente, quase violento de tanta necessidade reprimida. As mãos dele sobem pela cintura dela, apertam, exploram. O corpo dela responde antes da razão, arqueando-se contra o dele, entregando-se ao calor que sobe rápido demais. É só o começo. Nas páginas que seguem, outros casais se encontram da mesma forma: de repente, sem aviso, com atração tão intensa que desafia lógica, orgulho e destino. Histórias curtas, densas e irresistíveis que prendem desde a primeira linha e não soltam até a última. Permita-se mergulhar. Descubra até onde o desejo pode levar quando duas pessoas param de fingir que conseguem resistir.
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Capítulo 1 Conto 1: Desejo Proibido - Prólogo

▪︎Sinopse▪︎

Raika Dumont, dezoito anos, loira de olhos azuis, corpo de diabinha e boca afiada, quer conquistar de uma vez por todas o único homem que a faz tremer: Kevin Dumont, seu tio, irmão mais novo do pai, o homem que a família jurou proteger dela e que ela jurou ter. Desde os dezesseis anos ela provoca, mente, arrisca e se queima para chamar a atenção dele; agora, na véspera do aniversário que a transforma em mulher aos olhos da lei, ela decide parar de brincar e exigir o que deseja - mesmo sabendo que o preço pode ser o ódio da família, a rejeição dele e a destruição de tudo o que ainda a segura.

Até onde uma anjo de cabelos claros e alma rebelde é capaz de ir quando o desejo vira obsessão e o amor proibido vira a única coisa que ainda a faz respirar?

Leitura +18. Contém cenas de sexo explícito, violência, linguagem imprópria e um amor que não pede permissão.

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**▪︎Prólogo▪︎**

Meu nome é Raika Dumont. Tenho um metro e sessenta e cinco, cabelos loiros que caem até a cintura quando soltos, olhos azuis que aprendem rápido a mentir e um corpo que, segundo o próprio Kevin, "não combina com a cara de santinha". Amanhã faço dezoito. E amanhã eu paro de fingir que sou só a sobrinha mimada que ele precisa manter à distância.

Desde os dezesseis eu o quero. Não foi um capricho de adolescente carente. Foi um golpe seco no peito a primeira vez que o vi de verdade, depois de anos de ausência. Kevin voltou da Europa mais alto, mais largo nos ombros, com a barba por fazer e aquela voz baixa que fazia as paredes do escritório do meu pai tremerem quando ele discutia negócios. Eu estava de short curto e blusa colada, cabelo preso num rabo de cavalo bagunçado, e ele olhou para mim como se eu tivesse aparecido do nada no meio da sala. O olhar durou três segundos a mais do que deveria. Foi o suficiente.

Eu senti o calor subir pelo pescoço. Sentí o estômago revirar. Sentí, pela primeira vez, o que era querer alguém de um jeito que doía.

Ele é irmão do meu pai. Onze anos mais velho. O "tio Kevin" que a família tratava com respeito e distância. O homem que nunca se casou, que viajava demais, que cheirava a madeira e a cigarro quando se aproximava. Eu me apaixonei como quem se joga de um prédio sem olhar para baixo.

No começo eu tentei esconder. Sorrisos educados, perguntas sobre a viagem, a mão trêmula quando ele me cumprimentava. Depois eu cansei de fingir. Comecei a inventar desculpas para ficar sozinha com ele. Esquecia o casaco no escritório dele só para voltar. Passava na frente da casa dele "por acaso". Usava roupas cada vez mais curtas quando sabia que ele viria jantar. Uma vez, numa festa da família, empurrei uma prima que estava rindo alto demais perto dele. Outra vez, bebi demais de propósito e "caí" no colo dele no sofá da sala. Ele me segurou pelos braços, os dedos fortes demais, a respiração quente perto do meu ouvido, e sussurrou:

- Para com isso, Raika. Você não sabe o que está fazendo.

Eu sabia. Eu sabia exatamente.

Ele me empurrava com palavras e com o corpo. Me chamava de menina. De criança mimada. De sobrinha que ainda não entendia o mundo. Cada rejeição só aumentava a fome. Eu queria provar que ele estava errado. Que o corpo que ele olhava de soslaio quando achava que eu não via era de mulher. Que a boca que ele evitava não era mais a de uma adolescente ingênua.

Houve noites em que eu me trancava no quarto e chorava de raiva e desejo ao mesmo tempo. Houve manhãs em que eu me olhava no espelho e praticava o que diria se ele me beijasse. Houve dias em que eu odiava a mim mesma por querer tanto alguém que a sociedade e a família consideravam proibido. Mas o ódio nunca durava. O desejo voltava mais forte, mais sujo, mais teimoso.

Agora tenho quase dezoito. Amanhã a lei me considera adulta. Amanhã eu paro de pedir permissão para sentir o que sinto.

Eu planejei tudo. O jantar de aniversário vai ser na casa dos meus pais. Kevin vai aparecer, como sempre. Vai trazer o presente caro e a conversa educada. Vai me cumprimentar com um beijo seco na testa, como se eu ainda fosse a menina de saia plissada. Eu não vou aceitar.

Vou esperar todo mundo se distrair. Vou puxá-lo para o escritório do meu pai, o mesmo lugar onde ele me olhou pela primeira vez daquele jeito. Vou trancar a porta. Vou olhar nos olhos dele e dizer, sem rodeios, sem choro, sem o drama que ele tanto despreza:

- Eu te quero. Não como tio. Não como amigo da família. Eu te quero na minha cama, na minha vida, na minha boca. E se você continuar fingindo que não sente o mesmo, pelo menos tenha a coragem de me rejeitar olhando nos meus olhos.

Eu já ensaiiei as palavras tantas vezes que elas queimam na língua. Eu já imaginei a reação dele: o maxilar travando, os olhos escurecendo, a mão subindo para me afastar... ou para me puxar. Eu já preparei o corpo para qualquer resposta. Se ele me beijar, eu devolvo o beijo com tudo o que guardei. Se ele me empurrar, eu não vou chorar na frente dele. Vou sair dali de cabeça erguida e depois, sozinha, vou decidir se ainda vale a pena continuar existindo no mesmo mundo que ele.

Porque amar Kevin Dumont não é romance de livro. É sangue na boca. É medo de ser descoberta. É o peso constante de saber que, se alguém da família descobrir, o estrago será permanente. Meu pai odiaria. Minha mãe desmaiaria. Os primos fofocariam. E ele... ele poderia me odiar de verdade.

Ainda assim eu vou.

Eu não sou mais a menina que se jogava no colo dele só para sentir o cheiro. Não sou mais a adolescente que inventava brigas com outras garotas só para ele me olhar. Eu cresci. Aprendi a segurar a língua. Aprendi a sorrir quando queria gritar. Aprendi a guardar o desejo até ele ficar quase insuportável.

Amanhã eu libero.

Estou deitada na cama agora, olhando o teto do meu quarto. A luz da rua entra pela fresta da cortina e desenha uma faixa clara no chão. Meu coração bate forte demais. As mãos estão frias. Eu aperto o lençol entre os dedos e sinto o tecido rasgar um pouco sob a unha.

Eu fecho os olhos e vejo o rosto dele. A barba por fazer. A boca fechada. O olhar que sempre me avisava para parar antes que fosse tarde.

Amanhã eu não paro.

Eu me levanto da cama. Os pés descalços tocam o chão frio. Eu caminho até o espelho e me olho de frente. Cabelo solto. Olhos azuis. Boca fechada. O corpo que ele disse uma vez, bêbado, que era "perigo demais para uma sobrinha".

Eu passo a mão pelo próprio pescoço, sentindo o pulso acelerado sob a pele. Depois desço a mão até o peito, até a cintura, até a curva do quadril. Eu me toco com a certeza de quem já decidiu.

Amanhã eu vou até ele.

Amanhã eu fecho a porta do escritório atrás de nós dois, olho nos olhos de Kevin Dumont e digo o que nunca disse em voz alta:

- Eu não sou mais a sua sobrinha. E você não vai mais fingir que não me quer.

O silêncio do quarto responde. Eu abro a gaveta da cômoda, pego o vestido curto e preto que comprei escondida, e o coloco sobre a cadeira. Depois me deito de novo, mas desta vez de lado, de frente para a porta, como se já estivesse esperando o dia nascer.

Meu coração bate tão forte que sinto o eco no ouvido. Eu aperto os dedos no travesseiro até as unhas doerem. E, pela primeira vez em dois anos, eu sorrio no escuro - um sorriso pequeno, afiado, de quem finalmente parou de pedir licença para desejar.

Capítulo 2 O pecado chegou

Dois anos atrás.

A batida na porta veio cedo demais.

- Raika, Raika...

A voz da minha mãe atravessou a madeira como se o mundo estivesse acabando. Eu enterrei o rosto no travesseiro e grunhi. Acordar um adolescente no fim de semana deveria ser crime. Abri a porta de mal humor, cabelo bagunçado, short de dormir curto demais e o sutiã torto.

- O que foi, mãe? Alguém morreu?

Ela cruzou os braços, o olhar de sempre: metade carinho, metade cobrança.

- Não acredito que você se esqueceu. Seu tio chega hoje para morar conosco. Seu pai pediu para estarmos todos reunidos.

Levantei a mão, interrompendo.

- Entendi. Vou me arrumar. Quando ele chegar estarei lindíssima e de braços abertos.

O sarcasmo saiu solto. Ela balançou a cabeça, fechou a porta e me deixou sozinha com o coração já acelerado por motivo nenhum. A última vez que vi Kevin eu tinha dez anos. Lembrava só de um homem alto que cheirava a cigarro e a madeira, que me dava presentes caros e sumia por meses. Agora ele vinha morar aqui. Em Brasília. Na mesma casa. No quarto de frente ao meu.

Tomei banho rápido, escolhi um vestido florido curto, fresco o bastante para o calor escaldante, e desci a escada. As vozes na sala me atingiram antes mesmo de eu virar a esquina. Meu pai ria. Minha mãe falava alto demais. E então eu o vi.

Um metro e noventa. Cabelos castanhos escuros, barba por fazer, olhos cor de mel iguais aos do meu pai, mas mais escuros, mais perigosos. O corpo era o que me prendeu: ombros largos, braços marcados sob a camisa preta, cintura estreita, pernas longas. Pecado em pessoa. Deus grego que a família chamava de tio.

Meu pai me puxou pela mão.

- Desceu na hora certa, filha. Seu tio acabou de chegar.

Kevin se virou. O olhar desceu por mim uma fração de segundo a mais do que deveria - vestido curto, pernas à mostra, cabelo loiro ainda úmido - e depois subiu de novo, educado, distante. Ele sorriu com a boca, não com os olhos.

- Raika. Cresceu.

A voz era grave, baixa, o tipo de voz que fazia a pele arrepiar. Eu respondi alguma coisa educada, mas por dentro o sangue já batia diferente. Naquele instante eu não era mais a filha única mimada que reclamava de acordar cedo. Eu era uma menina de dezesseis anos olhando para o homem que, daquela hora em diante, iria ocupar cada pensamento sujo que eu ainda não sabia que tinha.

O quarto dele ficava bem em frente ao meu. Só um corredor estreito e uma porta separavam nós dois. Eu ouvia a água do banheiro quando ele tomava banho. Sentia o cheiro do aftershave quando ele passava. À noite, deitada na cama, eu ficava imaginando se ele dormia de camiseta ou sem.

A primeira semana passou numa tensão silenciosa. Ele trabalhava no escritório do meu pai, saía cedo, voltava tarde. Eu inventava desculpas para cruzar o corredor na hora certa. Ele me tratava com educação excessiva, como se eu fosse de cristal. Eu provocava com olhares longos demais, com perguntas inocentes que não eram inocentes, com o corpo sempre um pouco mais à mostra do que o necessário. Ele desviava. Sempre desviava.

Na sexta-feira à noite eu o convidei para o luau no Pontão do Lago. Meus amigos iam. Música, fogueira, lago escuro, cerveja escondida. Ele aceitou com um meio sorriso, como se estivesse fazendo um favor à sobrinha.

Às sete e meia alguém bateu na porta do meu quarto.

- Entra - gritei, achando que era minha mãe.

A porta se abriu. Kevin parou no vão. Eu estava só de calcinha preta e sutiã, o cabelo solto, o corpo ainda úmido do banho. O olhar dele desceu, travou, subiu de novo. As maçãs do rosto escureceram. Ele virou o rosto para a parede tão rápido que quase bateu a cabeça.

- Sua... mãe pediu para te chamar - a voz saiu rouca, quebrada.

Eu agarrei a toalha, o rosto queimando, o coração disparado.

- Desculpa, tio. Achei que fosse ela.

Ele saiu sem olhar para trás. Fechei a porta e me apoiei nela, respirando pela boca. A vergonha misturada com algo quente e sujo entre as pernas. Eu tinha visto o desejo no olhar dele, mesmo que por um segundo. E isso mudou tudo.

No luau ele ficou deslocado. Meus amigos tinham entre dezesseis e vinte anos; ele, vinte e sete, alto demais, sério demais, bonito demais. Bebeu uma cerveja, conversou pouco, depois sumiu entre as árvores dizendo que ia dar uma volta. Combinamos de nos encontrar duas horas depois em frente ao carro do meu pai.

Eu me despedi dos amigos e segui o caminho de terra entre as árvores. O ar cheirava a lago e a fogueira. O som da música ficava cada vez mais distante. E então eu o vi.

Kevin estava encostado numa árvore, uma mulher colada nele. Loira, mais velha, vestido curto. As mãos dela desciam pela camisa dele, entravam pela cintura da calça. A boca deles se devorava sem pudor. Beijo molhado, profundo, o tipo de beijo que faz barulho. Ele a puxou pelo cabelo, virou o rosto dela e mordeu o pescoço. A mão dela desceu mais, apertou a frente da calça dele. Eu ouvi o gemido baixo que ele soltou.

Fiquei escondida atrás de um tronco, o peito subindo e descendo rápido demais. O calor subiu pelo estômago, espalhou entre as pernas, apertou a garganta. Eu queria ser aquela mulher. Queria aqueles dedos nos meus cabelos, aquela boca na minha, aquele gemido por minha causa. O desejo veio sujo, urgente, proibido. Eu apertei as coxas uma contra a outra e senti a calcinha úmida.

Eles se separaram. Trocaram números. Ela riu baixo e sumiu entre as árvores. Kevin ficou sozinho, ajustando a camisa, a respiração ainda pesada. Eu dei um passo para trás. O galho quebrou sob o meu pé.

O estalo ecoou como um tiro.

Ele se virou. Os olhos cor de mel me encontraram no escuro. O rosto passou de prazer residual para choque em menos de um segundo.

- Raika?

A voz saiu baixa, perigosa. Ele veio em minha direção com passos largos. Eu engoli seco, inventei a mentira na hora.

- Eu... estava indo para o carro. Coincidência.

Ele parou a um metro de mim. O cheiro dele - madeira, suor, perfume da mulher - me atingiu em cheio. Os olhos desceram pela minha boca, pelo meu pescoço, pelo vestido curto, e voltaram. Havia raiva ali. Havia vergonha. E havia algo mais escuro que nenhum dos dois queria nomear.

- Hum. Sei. - Ele passou a mão pelo cabelo, a mandíbula travada. - Vamos. Já está tarde. Seu pai deve estar preocupado.

- Sim, titio.

A palavra saiu doce demais, provocadora demais. Ele me lançou um olhar afiado, mas não respondeu. Viramos juntos em direção ao carro. Eu caminhava meio passo atrás, o corpo ainda latejando, a imagem da mão daquela mulher na calça dele gravada atrás dos olhos.

No banco do passageiro eu apertei as mãos no colo até as unhas doerem. O silêncio dentro do carro era denso, carregado. Kevin dirigia com os dedos firmes no volante, o olhar reto na estrada, a respiração ainda um pouco irregular. Eu olhei de lado, vi o perfil dele cortado pela luz dos postes, a boca ainda um pouco inchada do beijo, e senti o desejo subir de novo, mais forte, mais teimoso.

Quando o carro parou na frente de casa, ele desligou o motor e ficou alguns segundos parado, as duas mãos no volante, como se precisasse se recompor. Eu abri a porta, desci, e antes de fechar me virei.

- Boa noite, tio.

Ele me olhou por cima do ombro. Os olhos mel estavam mais escuros.

- Boa noite, Raika.

Eu subi as escadas sem olhar para trás. Entrei no quarto, fechei a porta, tirei o vestido e fiquei só de calcinha de novo. O espelho me devolveu a imagem: cabelo loiro bagunçado, olhos azuis brilhantes demais, boca entreaberta, peito subindo rápido. Eu passei a mão pela própria garganta, desci até o peito, apertou o tecido úmido entre as pernas e soltei um gemido baixo, abafado pelo travesseiro.

Do outro lado do corredor, a porta do quarto dele se fechou com um estrondo seco.

Eu sorri no escuro, os dedos ainda apertando a calcinha, o coração batendo tão forte que doía no peito, e murmurei para mim mesma, a voz rouca de desejo e decisão:

- Ele vai ser meu. E eu não vou esperar mais dois anos para provar esse beijo.

Capítulo 3 A armadilha

Raika Dumont, loira de olhos azuis e corpo feito para provocar, tinha um único alvo há quinze dias: arrancar de Kevin Dumont - seu tio, o homem que a evitava como se ela fosse fogo - o beijo, o toque e o gemido que ele dera àquela mulher no luau, mesmo sabendo que a idade, o parentesco e o medo dele eram muralhas que ela teria de derrubar a força.

Quinze dias depois.

Eu não me reconhecia mais. Na sala de aula o professor falava de equações e eu só conseguia sentir a língua imaginária de Kevin percorrendo minha pele, descendo pelo pescoço, apertando os seios, entrando entre as pernas. Eu, que sempre fora a aluna excelente, a filha única que tirava dez sem esforço, agora rabiscava o caderno com o nome dele e apertava as coxas uma contra a outra até doer. O desejo era sujo, constante, e crescia cada vez que ele desviava o olhar.

Desde a noite do luau, Kevin corria de mim como o diabo foge da cruz. Eu sabia que ele tinha me visto escondida entre as árvores. Sabia que o choque no rosto dele não fora só vergonha de ser pego - fora o reconhecimento de que a sobrinha de dezesseis anos olhava para ele com a mesma fome que aquela mulher. Por isso ele não conseguia mais me encarar direito. Chegava tarde, saía cedo, jantava em pé na cozinha e sumia para o quarto antes que eu pudesse abrir a boca.

Eu não desisti. Todas as noites eu tomava banho perto do horário em que ele costumava chegar. Deixava a porta do banheiro entreaberta, saía só de toalha, o cabelo loiro escorrendo água pelas costas, o tecido curto demais cobrindo quase nada. Consegui esbarrar nele duas vezes. Nas duas ele parou no meio do corredor, os olhos cor de mel descendo pelo meu corpo como se estivessem queimando a pele, a respiração presa. Nas duas ele murmurou um "desculpa" rouco e trancou a porta do quarto sem descer para jantar.

Hoje ele não escaparia.

Meus pais tinham ido para uma pousada com amigos. Eu menti com a cara mais limpa do mundo: trabalho enorme para segunda-feira, ia passar o fim de semana na casa da Stefanini. Minha mãe acreditou. Meu pai beijou minha testa e pediu que eu me comportasse. Eu sorri e prometi. Mentira gostosa. Mentira necessária.

Assim que o portão da casa se fechou atrás deles, o silêncio ficou pesado e delicioso. Eu subi, abri a gaveta onde escondia a lingerie preta minúscula - a que comprei escondida depois daquela noite - e me vesti só com aquilo. Sutiã que quase não cobria os seios, calcinha de renda que sumia entre as nádegas. O espelho me devolveu uma imagem que eu mal reconhecia: olhos azuis brilhantes de nervoso e tesão, boca pintada de vermelho vivo, corpo de menina que já não queria ser menina.

Ouvi os passos dele subindo a escada. O coração disparou. Posicionei-me de costas para a porta, perto da cama, e comecei. Tirei uma alça do sutiã, depois a outra, rebolando lento. Os dedos foram ao fecho nas costas. O sutiã caiu aos meus pés. Coloquei as mãos na lateral da calcinha e desci o tecido com uma lentidão cruel, o tecido roçando a pele sensível.

- Caralho...

A palavra saiu baixa, quase um gemido. Eu me virei, as mãos em X cobrindo os seios, o sorriso inocente no rosto.

- Oi, tio. Não sabia que já estava em casa.

Ele estava parado no vão da porta como uma estátua. Os olhos famintos percorriam cada centímetro nu. A mandíbula travada. A mão apertando o batente com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos. Eu retirei as mãos. Os seios ficaram empinados, os bicos duros com o ar-condicionado e com o olhar dele. Dei um passo. Outro. O cheiro dele - madeira, suor de final de expediente, o aftershave que eu já conhecia de cor - me atingiu.

Kevin saiu do transe num sobressalto.

- Desculpa. Achei que não tivesse ninguém.

Virou-se, entrou no próprio quarto e bateu a porta com força. O estrondo ecoou pelo corredor. Eu fiquei nua no meio do meu quarto, o peito subindo e descendo rápido, o calor latejando entre as pernas. Ele fugiu. De novo. Mas a voz dele quando xingou ainda vibrava no ar, e eu sabia que tinha vencido aquela rodada.

Vista a lingerie de novo, joguei por cima um vestido branco solto e absurdamente curto. Se eu me abaixasse um pouco, a bunda ficava completamente exposta. Passei o batom vermelho outra vez, mais grosso, e bati na porta dele.

- Tio... a janta está pronta. Fiz a macarronada que você gosta. Vem antes que esfrie.

A porta se abriu. Kevin apareceu de camisa social ainda abotoada, a gravata frouxa, o cabelo um pouco bagunçado como se tivesse passado a mão nele várias vezes. O olhar desceu até minha boca, travou no batom, desceu mais pelo decote generoso e voltou. Eu sorri, largo, confiante.

- Não estou com fome. Vou sair com uns colegas. Barzinho.

A decepção no meu rosto foi ensaiada, mas o aperto no peito foi real. Eu não podia deixar ele escapar. Não hoje. Não com a casa só nossa.

- Poxa... fiz com tanto carinho. Sua preferida.

Fiz a cara de cachorro abandonado que sempre funcionava com meu pai. Kevin hesitou. Os olhos oscilaram entre minha boca e a porta atrás de mim.

- Tudo bem. Depois do jantar eu saio. Vou só avisar o Pedrão que chego mais tarde.

Ele tirou o celular do bolso. Eu desci em direção à cozinha, mas parei no final do corredor, escondida, o coração martelando. Ouvi a voz dele baixa, tensa:

- Então tá, Pedrão. Não sei direito onde é o bar, mas vou de táxi. Primeiro Bar, não é? Preciso sair de casa... espairecer um pouco. Ok. Até já.

Espairecer. Fugir de mim. A raiva e o desejo se misturaram num calor que subiu pelo pescoço. Eu corri para a cozinha, coloquei os pratos, servi a macarronada fumegante e esperei.

Quando ele entrou, o ar ficou denso.

- Você não ia dormir na casa da amiga? - perguntou, desconfiado, puxando a cadeira.

- Vou. Ela tinha um compromisso mais cedo. A gente se encontra depois. Estou com o tempo estourado, inclusive.

Nossas mãos se tocaram quando eu entreguei o prato. Ele quase deixou cair. O contato foi elétrico, quente, proibido. Eu senti o tremor nos dedos dele. Sentei na frente, cruzei as pernas de propósito, o vestido subindo até a raiz da coxa.

- Pode ficar tranquilo, titio. Sei me cuidar muito bem. Já sou grandinha... acho que você deve ter percebido.

O sarcasmo saiu doce. Pisquei. Kevin parou com o garfo no ar, os olhos presos na minha língua quando eu lambi o lábio inferior, sentindo o gosto do batom. A macarronada escorreu do garfo e caiu direto na calça jeans dele, bem na altura da virilha.

- Que porra!

Ele se levantou num sobressalto. Eu também. Peguei o guardanapo e me abaixei antes que ele pudesse reagir. O tecido branco pressionou o volume duro e quente sob a calça. Eu senti o tamanho, a rigidez, o calor que atravessava o jeans. Meu dedo mindinho roçou de propósito. Kevin soltou um som baixo, quase um gemido engolido. Os olhos dele me encontraram quando eu levantei o rosto. Havia fome ali. Havia raiva. Havia medo.

Ele agarrou meu pulso e afastou minha mão com força.

- Tenho que ir.

A voz saiu rouca, quebrada. Virou-se e saiu da cozinha em passos largos, sem olhar para trás. A porta da frente bateu segundos depois. O táxi deve ter sido chamado ainda no corredor.

Eu fiquei parada no meio da cozinha, o guardanapo ainda na mão, o cheiro da macarronada misturado ao cheiro dele. O coração batia tão forte que eu sentia o eco no ouvido. Entre as pernas a calcinha estava encharcada. Eu apertei as coxas, soltei um gemido baixo e frustrado, e olhei para a porta pela qual ele fugira.

Com os dedos ainda tremendo de tesão e raiva, eu peguei o celular, digitei o nome do bar que ele mencionou e sorri no escuro da cozinha vazia, a respiração quente contra o próprio peito.

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