Sinopse
Bree "Breeze" Delany nunca imaginou que sua vida poderia afundar tanto. Que tal dor intensa poderia fixar residência em seu coração e rasgar sua alma em pedaços. E tudo o que bastou foi uma pequena palavra para arrastar Bree para as profundezas desse desespero, câncer.
Foi necessário somente uma pessoa para puxar Bree da escuridão, seu melhor amigo Harper Somerville. Determinado a mostrar a Breeze a beleza da vida, não importando quão curto ou longo fosse, Harper levaria Bree na viagem da sua vida.
Dane-se o felizes para sempre, talvez a vida fosse feita para ser vivida com felizes para sempre agora...
DEDICATÓRIA:
Para você mãe, te amo do céu ao infinito dona Rose!
Capítulo 1
Eu tremi quando puxei a colcha ao redor dos meus ouvidos, meu corpo se curvou em um travesseiro ao meu lado. Era meio-dia e estava claro lá fora, mas o meu quarto ainda mantinha a escuridão. Com as cortinas fechadas, a luz não podia me tocar. Novembro na costa leste da Austrália significava que era verão, esquentava beirando o calor, mas eu estava congelando. Eu simplesmente não conseguia livrar-me do frio que tinha invadido meu corpo por oito longos meses. Eu tinha perdido tanto peso que estaria sem dúvida mais leve do que um punhado de ar, mas eu me sentia pesada. A minha alma já não estava trilhando águas profundas, ela estava se afogando nela. Eu tinha eclipsado meses de tristeza e agora eu existia em um poço profundo do nada. O mundo em que vivia agora estava em silêncio, meu violão abandonado contra a parede na sala de estar, eu empurrei todos os meus amigos para longe, não havia mais nada além do medo e repugnância. Com uma longa e arrastada respiração, estremecendo, me forcei a sair da cama, eu tinha que fazer xixi. Isso me irritou, minhas funções corporais me impediram de ficar nas confortáveis almofadas e cobertores da minha cama. O espelho foi coberto com um lençol há muito tempo, para evitar que o meu reflexo taciturno olhasse para mim. Eu odiava a menina que olhava para mim daquele espelho. Não era eu, era uma impostora. Meus olhos estavam escuros de alguma forma, minhas bochechas ocas, os meus lábios cheios, estavam rachados e secos e o meu corpo, magro e esguio. O pior de tudo era o couro cabeludo careca que me ridicularizava e insultava, para não mencionar as sobrancelhas e os cílios inexistentes. Os pelos em meus braços e pernas se foram, pelo menos, fui salva da depilação, mas o visual careca que agora
ostentava em baixo, fazia eu me sentir uma maldita estranha. Algumas mulheres pagariam muito dinheiro por esse reflexo, para mim, simplesmente, era como se parecia o câncer. A menina, cujo reflexo era usado para consumir esse espelho, tinha os olhos brilhantes que eram um pouco azuis e um pouco verdes. Seus lábios estavam geralmente coloridos com um batom sabor cereja e suas bochechas altas acentuadas com um traço rápido da cor. Seu cabelo era longo, grosso e dourado. Aquela garota tinha desaparecido.
Quando eu fui ao médico há oito meses reclamando de cansaço e um caroço incomum em meu pescoço, a última coisa que eu esperava ouvir era que estava com câncer. O linfoma de Hodgkin, que foi felizmente descoberto em um estágio inicial. Uma combinação rigorosa de quimio e radioterapia já colecionavam meu corpo, e ninguém me disse que com o meu corpo, eu também iria perder a minha alma. Eu não tinha nenhuma ideia para onde isso foi, eu não poderia mesmo dizer quando isso se foi.
Um momento tudo estava bem, então no próximo, parecia que o mundo estava me esmagando. Oitenta e sete por cento dos diagnosticados sobrevivem passado à marca de cinco anos após o tratamento. Eu era bastante saudável na época do meu diagnóstico, que foi precoce, assim como o Dr. Kwan me garantiu, e a perspectiva era positiva. Meu cérebro se recusou a receber essa informação. Por alguma razão, tudo que eu poderia focar era o talvez e os fatos pessimistas. Eu sabia que estava deprimida, sabia que a pena de mim mesma tinha ficado muito mais tempo do que deveria, mas eu não conseguia sair dessa droga. Eu estava presa. Enquanto eu lavava minhas mãos, olhei para a camiseta que cobria o cesto de roupas no canto do banheiro e meu peito doeu de uma forma totalmente nova. Ela pertencia a Harper, meu melhor amigo, o cara que gostei a minha vida inteira. Eu não apenas gostava dele, eu era apaixonada por ele. Harper, seu primo Sean e eu tínhamos praticamente crescido juntos. Nós três fomos inseparáveis até Harper começar a surfar no torneio mundial. Essa parte da vida de Harper era um enigma para mim, me esmagava e eu estava contente em permanecer em silêncio e não me envolver. E agora Sean estava morando em Sydney, Harper estava no torneio e eu não tinha ouvido falar de nenhum deles em oito longos meses. Harper normalmente voltaria para casa agora. Na verdade, ele normalmente ia e vinha algumas vezes. Sua ausência deixava mais
fácil para eu manter meu segredo e os poucos e-mails brandos e enfadonhos que eu tinha enviado, sem dúvida, mantinha a ilusão de que tudo estava bem em Gold Coast. A traição de Harper que aconteceu em março, também fez mais fácil para eu ignorá-lo. Eu chamo de traição, mas não havia realmente nada para ele trair. Não havia "nós". Éramos amigos, puro e simples. Infelizmente, Harper tinha tentado fazer mais disso. Depois de uma noite de bebedeira, um deslize da palavra "A" e um beijo de abalar a terra depois, a nossa relação mudou irrevogavelmente. Eu não queria ser o erro bêbado de Harper, então eu o havia empurrado direto para os braços de sua amiga de foda sempre confiável, Naomi. Naomi, a única pessoa que eu jamais poderia admitir verdadeira aversão. Ela ficou com dois caras que eu queria para mim, agora e eu estava começando a pensar que talvez ela estivesse fazendo isso comigo por um motivo. Talvez eu tenha matado o seu gato ou algo assim?
Então, enquanto Harper estava festejando e navegando por seus caminhos ao redor do mundo e, sem dúvida, Sean estaria transando em Sydney, nenhum deles sabia nada sobre a garota feia que tinha invadido meu corpo. George tinha ameaçando chamar Harper, se eu não me levantasse e deixasse o apartamento em breve e eu teimosamente fiquei dentro de casa. Pobre George, que sacrificou tanto por mim, era o mais próximo de um pai que eu tive. Minha mãe era uma hippie, uma verdadeira maconheira hippie – ela vivia em uma comunidade no meio do deserto, pelo amor de Deus. Ela não tinha ideia de quem era meu pai, aparentemente, vários homens tinham essa possibilidade, e eu tinha decidido que todos os homens que viviam na "mãe pátria" eram um bando de pervertidos sexuais que ansiavam por qualquer coisa. George foi o perfeito pai adotivo. Ele morava no corredor em frente ao meu apartamento e de Harper.
Lembrei-me bem do dia em que nos conhecemos, George estava vestido com uma velha camiseta surrada e bermuda de surf, seu cabelo era uma bagunça caótica; parecia como se tivesse acabado de sair da cama. Ele saiu do seu apartamento quando Harper e eu saímos do elevador, com os braços cheios de caixas. Ele foi direto até mim e pegou as caixas dos meus braços. - Olá vizinhos, deixe-me ajudar - Harper e eu ficamos um pouco em estado de choque, olhando para George quando ele se virou e caminhou através da nossa
porta aberta como se fosse dono do lugar. Então ele se apresentou e nos ajudou a levar o resto das nossas caixas e pertences antes de cozinhar o jantar para nós. Na manhã seguinte, ele foi bater à nossa porta, com os braços cheios de tudo que era necessário para fazer panquecas de banana. Tínhamos todos nos tornados amigos instantaneamente, e de alguma forma, ele tinha se encaixado com facilidade no papel de uma figura paterna.
Mas mesmo George, que me amava como um pai, não pode impedir que o câncer devastasse o meu corpo. O que ele poderia fazer era cuidar de mim, e foi exatamente o que ele fez. Ele começou a trabalhar em casa; fazia algo com investimentos do qual eu não sabia nada, mas de acordo com Harper, ele era bom nisso. Depois de vender meu carro para pagar minhas contas médicas, George levava-me para as minhas consultas. Ele cozinhava para mim e limpava o apartamento quando eu estava cansada demais para sair da cama. George era a minha rocha e eu sabia que esta depressão estava destruindo-o também e eu me odiava ainda mais por isso. Eu tinha certeza de que George iria honrar o meu desejo de não chamar Harper. Mesmo assim, havia uma pequena parte minha que precisava desesperadamente do meu melhor amigo e eu esperava que George cumprisse sua ameaça. Tirei minha camiseta e coloquei a camiseta de Harper. Cheirava como ele e isso me dava um pouco de algo semelhante a paz que eu sentia quando ele estava perto de mim. Arrastando-me de volta para o meu quarto, instintivamente apertei o botão play no meu iPod que se conectou com os alto-falantes em uma mesa grande de estilo retro, pintada em um tom empeirado de amarelo desgastado. Eu amava a minha mesa e agora ela estava enterrada sob um mar de papéis, contas e roupas. A desordem me incomodava, e me deixava maluca, mas agora eu não conseguia reunir a energia necessária para resgatar minha mesa preciosa da bagunça. A voz de Avril Lavigne encheu meu quarto enquanto eu mergulhava debaixo das cobertas e as puxava firmemente ao redor dos meus ouvidos. Sua balada, Wish You Were Here, entrava pelos meus ouvidos, se enrolhava ao redor da minha mente e enviava uma dor no meu coração tão forte que eu pensei que poderia finalmente quebrar. Eu sabia que essa música era uma forma de tortura em minha alma escura, mas as palavras estavam cheias com tanta verdade que eu não poderia ignorá-las, não poderia não ouvi-las. Com a canção me arrastando ainda mais
longe da felicidade, peguei um caderno de couro desgastado, recheado com um segredo sujo, debaixo do meu travesseiro. Este caderno costumava estar cheio de amor, felicidade e alma. Agora suas páginas estavam manchadas com as trevas da tristeza e da morte. Este era o lugar onde eu esvaziava os pensamentos nublados da minha mente, era aqui que eu confessava a verdade da minha dor e tristeza. Com a caneta na mão eu deixei a dor se derramar de mim.
"Agora só há poeira
Onde, a música uma vez encheu o ar, vazio, silêncio.
Sozinha em um buraco negro de desistência, uma sombra da vida uma vez que floresceu por dentro, esperança estabelece dormente, os não me provando de longe. Derrotada, extinta. Adiantando em um mar esmagador desvastação, um fragmento fantasmagórico de meu antigo eu."
Quando as lágrimas começaram a cair de novo, fechei o caderno, prendendo todo o horror no seu interior, enfiando de volta debaixo do meu travesseiro e afundado no colchão. Forcei meus olhos a se fecharem, tentando desesperadamente, segurar as lágrimas dentro de minhas pálpebras fechadas e permiti que a música suave ao fundo me acalmasse em um lugar de desapego, o sono. Nos braços de Morfeu eu estava entorpecida, completamente alheia ao desastre em que o meu mundo tinha caído. O sono era onde eu queria viver agora, e mais uma vez eu dormi.
Eu fui retirada de um abismo profundo, minha consciência arranhando seu caminho de volta para um mundo de luz e, consequentemente, de dor. Eu lutei contra isso, lutei, odiando aquele mundo onde meu coração estava perdido para dor constante. Inevitavelmente a luz venceu e meus olhos se abriram, depois se fecharam em protesto. A realidade invadiu os meus pensamentos e eu percebi que a luz suave vinha do abajur ao lado da minha cama. George teria sorrateiramente o ligado enquanto eu dormia em uma tentativa de me acordar?
Meus olhos se abriram mais uma vez e fui recebida com uma visão que inundou o meu corpo com conforto imediato. Deveria estar sonhando novamente, por que vi a imagem de Harper sentado ao meu lado. Eu tinha sonhado com ele ultimamente. Ele parecia bem, embora cansado. Seu cabelo estava uma bagunça despreocupada, seus olhos, tão azuis que lutaram contra o oceano pela supremacia, pareciam cansados e vigilantes. Seu rosto era uma bagunça desalinhada sugerindo que ele não se barbeava há alguns dias e seus lábios cheios se transformaram em uma cara feia irritada. Meus olhos acariciaram delicadamente o seu corpo, que parecia tão forte - seus ombros largos esculpidos por intermináveis horas de surf, o peito também era largo, diminuindo para uma cintura estreita e pernas longas e poderosas.
Ele usava uma camisa que exibia seus braços fortes, poderosos coberto de uma série de tatuagens que eu ansiava alcançar e correr meus dedos sobre elas. Suas pernas estavam revestidas num jeans desgastado com um pequeno rasgo no joelho. Eu suspirei, de todos os sonhos, esse era o melhor. Eu poderia até sentir o cheiro dele, uma mistura sutil de cera de surf, mar e areia. Ele cheirava limpo e vivo. Minha mão timidamente estendeu a mão para tocá-lo. Por que eu estava tão relutante? Sonhar era seguro. Nos meus sonhos eu poderia amar Harper do jeito que sempre quis. Seus olhos observavam a minha mão, que finalmente alcançou o seu braço e meu dedo traçou a curva de seu bíceps, até o cotovelo, ao longo de seu braço e, finalmente, a sua mão. Eu enfiei meus dedos nos dele deleitando-me com o calor e o conforto que senti quando ele apertou minha mão de volta com um suspiro suave.
- Você parece tão real - Eu sussurrei.
- Porque eu sou real, gatinha, eu vim para casa assim que descobri - Minha testa ficou franzida pela confusão. Eu estava sonhando? Sentei-me devagar e puxei minha mão. Eu senti falta do contato imediatamente.
- Harper? - Ele pegou a minha mão de novo, levando-a aos lábios, onde colocou um beijo demorado em volta dos meus dedos. Minha respiração ficou presa e eu só podia respirar, morbidamente fascinada com a dor que parecia estar gravada em suas feições.
- Eu estou tão chateado com você agora, garotinha. Eu quero gritar, urrar e bater na sua bunda até ficar vermelha. Mas você sabe o que é pior do que sentir toda essa raiva? - Eu balancei a cabeça em confusão. Ele soltou a minha mão, com os olhos baixos, com tristeza e decepção. Ele parecia tão abatido, tão desamparado. Meu coração doía por outro motivo agora, a culpa. Como se eu precisasse de mais uma razão para me odiar. Uma lágrima escapou dos meus olhos e fez uma trilha solitária pela minha bochecha.
- Você não me disse. Pensei que eu fosse seu amigo. Que inferno, eu pensei que eu era seu melhor amigo - Ele passou as mãos pelos cabelos em agitação. Meus lábios tremiam. Aquela lágrima solitária não ficaria sozinha por muito tempo.
- Sinto muito - Eu sussurrei e um soluço rapidamente se seguiu. O olhar cabisbaixo de Harper rapidamente desapareceu, substituído por trás de um olhar feroz de determinação e força. Ele estendeu a mão para mim e me arrastou debaixo do meu casulo de cobertores, me colocando em seu colo enquanto seus braços fortes me rodeavam. Meu choro foi ficando horrível e incontrolável. Harper estava aqui e não só estava louco como o inferno, ele também estava ferido. - Sinto muito - Eu chorei. Seus braços se apertaram mais fortes e quase doía, mas era uma dor boa. Era Harper, ele estava aqui e eu estava em seus braços, finalmente.
- Shhhhh, calma, Breeze, você vai ficar bem - Suas mãos esfregaram minhas costas enquanto eu tentava me controlar. Isso não ia acontecer. Quando a tristeza me envolvia assim, eu poderia chorar por horas. - Está tudo bem, gatinha, eu estou aqui agora e isso é tudo que importa - Sua voz tremia e eu sabia que ele estava a alguns minutos de perder a cabeça. Harper nunca perdia o controle, ele era o seu mestre e eu me recusava a deixá-lo desmoronar por minha causa. Obriguei-me a tomar algumas respirações profundas e gradualmente encontrei alguma compostura.
- Eu deveria ter dito a você - Eu disse com uma voz fraca.
- E eu deveria ter ligado. Eu sabia que algo estava acontecendo pelos e- mails que me mandou e eu ainda assim não me liguei. Estou me sentindo tão culpado - Seus braços ainda me cercavam com uma determinação firme. Eu descansei minha cabeça contra o peito dele, saboreando o som estável do seu batimento cardíaco.
- Está com fome? - Ele finalmente perguntou depois de um longo silêncio. Eu estava morrendo de fome, mas de uma forma egoísta não estava pronta para deixá-lo ir. Sem aviso, Harper levantou-me com ele. Não cambaleou ou vacilou com o meu peso.
- Eu posso andar - Meu protesto foi fraco na melhor das hipóteses.
- Eu sei, deixe-me cuidar de você, por favor - Eu deitei a minha cabeça em seu ombro enquanto ele me levava pelo longo corredor e na sala de estar
aberta. Quando ele me colocou em um banquinho e acendeu a luz, eu me tornei desconfortavelmente ciente do fato de que a minha cabeça estava nua diante dele. Sem proteção, sem chapéu, sem cabelo. Em pânico eu saltei nervosamente do banco. Harper me olhou com um olhar interrogativo.
- Banheiro - Eu sussurrei enquanto desaparecia rapidamente de volta do jeito que tinha chegado. No banheiro, peguei um lenço e habilmente enrolei em minha cabeça. Meu cabelo loiro comprido geralmente ficava em um coque bagunçado em cima da minha cabeça. Eu nunca fui entusiasmada mais do que um rabo de cavalo alto, mas desde que eu o perdi, eu havia me tornado uma conhecedora de decoração de cabeça. Quando olhei para baixo, percebi que estava usando nada mais do que a camiseta de Harper e uma calcinha muito comum. Eu me vesti com uma camiseta minha e um shortinho de algodão. Lavei o rosto em uma tentativa de ficar meio decente, o que era ridículo, eu nunca ia chegar perto disso. Inferno, eu era careca, magra, pálida e tinha chorado uma tempestade inteira. Deveria estar parecida com a morte. Em um encolher de ombros e um suspiro, caminhei de volta para a cozinha, pronta para enfrentar Harper, assim, quase pronta.
Dropping In
Dropping é quando um surfista "desce" ou pega uma onda sem
prioridade
- Queijo e torrada com Vegemite1? - Perguntou Harper, olhando para minha mudança de roupa e a adição na minha cabeça. Eu balancei a cabeça, enquanto nervosamente puxava o lenço para me certificar de que estava no lugar.
- Você não precisa disso, sabe - Harper disse tranquilamente e se virou de costas para mim e começou a preparar as nossas tortas.
- Eu não estou acostumada a ficar perto das pessoas sem isso. George é a única pessoa que me viu sem - Harper olhou por cima do ombro para mim e parecia chateado.
- Sim, mas eu conheço você um inferno de muito mais tempo do que ele, então pensei que você não precisasse esconder isso de mim Breeze - Eu não conseguia segurar seu olhar decepcionado, e então, muito rapidamente eu desviei o olhar. Como eu diria que era mais importante que ele não me visse assim? Eu não ligava para o que George pensava sobre minha aparência. Embora eu me importasse com o que Harper pensasse. Não deveria importar, nós éramos amigos e além do mais, ele já tinha me visto doente antes, apenas não este tipo de doença.
1 Vegemite - marca registada de uma pasta de untar de carácter alimentício, de cor castanha escura, de sabor salgado e elaborado a partir de extrato de levedura.
- O que aconteceu com o sofá? - A pergunta de Harper quebrou meus pensamentos e me trouxe de volta ao momento presente com a consciência dolorosa.
- O sofá estragou - Eu sussurrei, sem maiores explicações. Estragado nem começava a explicar o quanto eu odiava aquele sofá velho. Bem ali, na nossa sala de estar, no sofá velho que, na verdade estava em perfeitas condições, Harper tinha transado com Naomi. Naquela noite que ele veio até mim e disse que me amava, ele tinha me beijado, então em seguida esteve com ela. Eu não queria tropeçar neles naquela noite. Deus, eu gostaria de poder apagar a visão da minha mente. Tive que obrigar George a despejar o sofá maldito na calçada e então eu tinha comprado um novo. Um "limpo".
- Eu gosto disso. É grande - Continuou Harper, empurrando a torrada com Vegemite e queijo por cima do balcão para mim. Ele tinha cortado em triângulos, do jeito que eu gostava. - Então, vamos falar sobre o elefante na sala? - Eu não tinha ideia de que elefante ele estava se referindo, porque já havia alguns. Na verdade, a sala estava ficando muito lotada e eu estava começando a me sentir um pouco claustrofóbica. - Quão doente você está? - Fiquei aliviada, este era o elefante em questão. Era mais fácil de lidar. Poderia assustar-me pra caralho esse assunto, minha confiança já tinha sido arrastada para as profundezas do inferno, mas era mais fácil do que lidar com meus sentimentos por Harper e seu acidente embriagado.
- Bem, eu suponho que George ligou para você, então suponho que ele contou o básico.
Harper assentiu. - Ele contou, e agora eu quero tudo, então me conte o
resto.
- Eu tenho câncer, o linfoma de Hodgkin. Eu tenho me submetido à quimioterapia e radioterapia. Eu terminei a minha última sessão de radiação há duas semanas e agora eu tenho que esperar.
- Esperar o quê? - Ele perguntou com um pouco de impaciência.
- Haverá consultas de acompanhamento e mais exames de sangue. Mesmo que o câncer tenha sumido desta vez, há uma chance de que possa voltar. A taxa de sobrevivência em adultos com idade inferior a vinte e cinco anos é alta e eu estava razoavelmente em forma e saudável antes - O silêncio encheu a ampla sala de estar, até que eu finalmente quebrei o silencio com a dura realidade da minha situação. - Mas não há garantias quando se trata de câncer. O câncer sempre pode voltar. Eu posso viver meses ou anos - Eu balancei a cabeça em frustração. - Eu preciso me preparar mentalmente para isso. Eu preciso de alguma forma colocar na minha cabeça o fato de que vou morrer mais cedo ou mais tarde - Harper ficou puto de raiva novamente. Seus olhos se focaram em mim com uma intensidade que me fez literalmente me contorcer.
- Então, o que? Você aceita toda essa merda? Você sempre foi tão positiva, esse não é mais o seu estilo? Você só vai aceitar que está morrendo e desistir? - Suas palavras me machucaram, porque elas eram as verdadeiras. Eu sempre tinha vivido com convicção e otimismo e sabia que a minha atitude agora era destrutiva, mas era a verdade. Eu não podia sequer começar a me imaginar morrendo. Os últimos oito meses deveriam ter me preparado, mas tudo o que eles fizeram foi me aterrorizar.
- Não é desistir, é aceitar a realidade! - Argumentei com a minha voz dura e amarga.
Harper pegou meu prato vazio e jogou na pia com força desnecessária. Em seguida, ele passou por mim e pegou meu violão que estava encostado na parede como um amigo perdido há muito tempo. Eu não tocava havia meses. Enquanto eu ainda gostava de ouvir música, o desejo de tocar parecia ter fugido do meu corpo. Harper caiu de costas no sofá e começou a dedilhar o violão em uma melodia preguiçosa que não se parecia com qualquer música, apenas os acordes aleatórios. Sob suas mãos, o violão cantava como nenhum outro, na verdade, foi Harper que me ensinou a tocar. Ninguém mais era tão bom quanto ele. Harper não tinha vontade de tocar na frente das pessoas e por incrível que pudesse parecer, eu ficava emocionada que este era o nosso pequeno segredo. Era algo que eu tinha de Harper que ninguém mais poderia ter. Até que ele
encontrasse sua Sra. Somerville. Certamente ele iria tocar para ela, a garota que seria sua para sempre. O pensamento de que ele iria partilhar a sua música e vida com outra pessoa doía como uma picada.
- Bem, Breeze estou adotando uma atitude diferente - Ele disse em voz alta. Olhei para ele sentado no sofá como se nunca tivesse saído. Como se não existissem as águas turvas que foram colocadas entre nós. - Eu não vou aceitar que você vá morrer mais cedo ou mais tarde. Só vou aceitar a vida - Eu suspirei e esfreguei minhas têmporas com a esperança de aliviar a dor de cabeça maçante que havia montado acampamento ali.
- Você está com dor de cabeça? George disse que você anda sentindo dores de cabeça? - Harper perguntou com seus dedos hesitantes sobre as cordas do violão.
- Não, eu estou bem. Você chegou há apenas uma hora e já esta me irritando - Eu afundei na grande poltrona que estava no canto da sala. Era o meu lugar favorito para sentar no meu silêncio sombrio, olhando para o belo mundo além das enormes portas de vidro e janelas que se estendiam pelo apartamento. O apartamento de Harper, o nosso apartamento tinha vista para o mar e eu poderia me sentar por horas e só ver as ondas rolarem o dia inteiro.
- Disponha - Harper sorriu. Confiava nele para encontrar alegria na minha frustração. - Então, onde está Danny McDick? Eu pensei que ele fosse aconchegante e tivesse mudado para cá - Como os dedos, Harper começou a dedilhar uma melodia suave, uma melodia muito mais irritada zumbia através do meu corpo. A traição de Danny tinha magoado, embora não tanto quanto Harper. Quem eu estava enganando, Harper nunca tinha me traído. Ele não era meu, eu tinha tornado isso muito óbvio quando lhe disse que não poderia cruzar a linha. Que a nossa amizade significava mais para mim do que o romance, enquanto lá dentro eu realmente amava esse homem, com todo o meu coração. Mas foi isso que me manteve firme em toda essa coisa de amizade.
Eu já tinha visto Harper com as mulheres, ele passava por elas como um rato em uma missão. Quantidade obviamente superava qualidade e eu não queria me tornar apenas um número. Eu não poderia viver sem ele, então se
mantê-lo um pouco longe significaria tê-lo para sempre, esse seria um sacrifício que eu faria. Quando finalmente olhei para cima, Harper tinha parado de tocar novamente e aqueles belos olhos azuis tinham ficado frios.
- O que aquele filho da puta fez? - Ele rosnou. Eu amava sua devoção, sua paixão, a preocupação com raiva.
- Nada que você não imaginou no momento em que o conheci - Eu podia ver sua mão apertando forte ao redor do pescoço do meu violão e eu torci como o inferno para ele não estrangulá-lo, esmagá-lo ou algo assim. Era um violão caro, um Maton Messiah, exclusivamente australiano, caro pra caramba e valia cada centavo, felizmente Harper o deixou intacto.
- Breeze, não seja vaga. Eu acho que tem havido segredos suficientes este ano - Minha raiva queimou. Não demorava muito para acordar a raiva dentro de mim nestes dias. Embora eu tivesse segurado uma enorme barra esse ano, me permitia perder a paciência de vez em quando. E o comentário sarcástico de Harper certamente me irritou de uma forma que era melhor ficar sozinha. Eu tinha mantido a minha doença em segredo por muitos motivos. Primeiro e mais importante era permitir Harper "o chutador de traseiro" do ano ser o que queria, "o chutador de traseiro" do ano que ganhou o Quicksilver Pro2 aqui na Gold Coast, sua terra natal. Mesmo se não tivesse acontecido a declaração de amor, o beijo, Naomi, eu ainda teria o deixado ter o seu ano.
- Você realmente quer os detalhes sujos e sórdidos do nosso rompimento, Harper? - Eu gritei. Harper pareceu surpreso com minha raiva e com razão. Esta não era eu, essa raiva, essa turbulência, essa não era a Breeze que ele conhecia, eu não era a Breeze que eu conhecia.
- O mês depois que meu cabelo começou a cair eu fui ao seu apartamento para jantar, sem aviso prévio. Eu tinha estado muito mal durante toda a semana, e estava tendo um bom dia, então pensei que podia surpreendê- lo. Má ideia da minha parte, ou talvez tenha sido uma boa, pelo menos aprendi a verdade sobre Danny McDick. Ele estava fodendo com Naomi no seu sofá, as
2 Quicksilver Pro – é um evento da associação mundial dos surfistas profissionais (ASP).
pernas dela estavam penduradas nos ombros dele enquanto ele transava com ela, enquanto eu estava lá como uma idiota horrível e careca - Eu tinha jogado uma bomba na cara do Harper, que provavelmente chocou como o inferno. Eu não praguejei, mas foda-se se não eu me sentia bem. Minha voz tremeu quando a imagem do meu namorado transando com outra menina encheu minha mente. Isso fez eu me sentir mal e, principalmente, porque me lembrou de encontrar Harper na exata posição. Deus, essa imagem ficou queimado em meu cérebro como um clipe de filme doentio em repetição. Eu odiava isso, odiava e neste momento eu quase o odiava também. - Parece que Naomi tem essa coisa para foder todos os homens da minha vida em sofás - Eu tinha dito, minhas emoções torcidas, meu coração dividido bem no meio. As lágrimas começaram a cair em uma cadência fácil que eu estava muito acostumada. Harper parecia atordoado, mortificado enquanto seus olhos corriam para o novo sofá depois de volta para mim. - Eu vi você - Eu soluçava em derrota. - Você disse que me amava, então estava com ela - Admitir a minha dor não era apenas sobre a traição de Danny, e eu sentia como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros caídos. Esta dor era sobre a traição de Harper. Ele passou a mão pelo rosto, incapaz de olhar para mim por mais tempo, e por que olharia? Eu tinha acabado de expor outro elefante na sala, o tipo de elefante que você não vê por ai. Foi muito estranho, muito emocional. Esse foi o erro bêbado de Harper voltando para mordê-lo na bunda. Isso ia fazer essas águas turvas do nosso relacionamento muito mais sombrias. Por que não eu tinha mantido minha boca fechada? Nós poderíamos ter evitado todo esse confronto feio. Eu já tinha o suficiente para lidar, não precisava disso também. Levantei e rapidamente sai da sala, deixando Harper sozinho por um tempo que tinha certeza de que ele precisava. Com minhas lágrimas fluindo com a força de uma tempestade, eu corri de novo para o meu quarto e voltei para a minha cama. Eu estava chorando tanto que nem sequer ouvi o barulho da minha porta quando ele a abriu, e quase não notei quando ele se deitou na cama atrás de mim. Harper rastejou para debaixo dos lençóis. Passou os braços em volta de mim e me puxou para perto. Mesmo se eu quisesse, estava exausta demais para lutar contra o seu abraço.
- Foi por isso que você substituiu o sofá - Ele sussurrou o reconhecimento. - Droga gatinha, sinto muito. Eu estava bêbado, foi um
momento idiota de proporções épicas e se eu pudesse voltar e fazer tudo diferente, eu faria. Embora Harper precisasse dizer isso, precisando limpar o ar, meu coração quebrou ainda mais. Ele disse que me amava me beijou e agora estava arrependido. - Eu não deveria ter dito nada, você não merecia ser tratada da maneira que eu fiz - Ele fez uma pausa e eu percebi que estava segurando a minha respiração. - Mas eu queria dizer o que disse a você, Breeze. Aquela coisa com Naomi foi uma combinação de bebida e orgulho ferido. Espere, ele não se arrependeu de me dizer que me amava? Rolei um pouco para que eu pudesse ver seu rosto. - Foi por isso que você não me ligou? - A preocupação em seus olhos me dizia o quanto ele lamentava por sua indiscrição, que não era realmente uma nenhuma indiscrição.
- Não - Eu sussurrei com a minha voz rouca de tanto chorar. - Eu não queria estragar o seu ano, você estava tão animado depois do Quicksilver Pro; eu não podia destruir o que você estava trabalhando tanto para construir.
- Breeze... - Harper suspirou quando descansou sua testa na minha. Ele estava tão perto que eu podia sentir seu hálito quente na minha bochecha.
- E eu não quero que você me veja assim - Eu confessei. Após um momento de silêncio, ele me virou para que eu ficasse de frente para ele. Eu tentei, mas era tão difícil ignorar seus belos olhos azuis, mas não tinha jeito, eu fui atraída por eles com tanta força que era assustador.
- Eu vi você vomitar ate colocar as tripas para fora, Breeze, não foi nenhuma dificuldade pra mim, e ainda não é - Eu balancei a cabeça, aturdida que outra lágrima conseguiu escapar do canto do meu olho. Eu chorei lágrimas suficientes nesta vida para me afogar várias vezes. Eu não podia acreditar que elas ainda continuavam caindo. Harper as enxugou com os polegares, segurando meu rosto e forçando minha atenção para ele. Lentamente, uma de suas mãos subiu para o lenço que eu usava e eu agarrei seu pulso para detê-lo.
- Não, Breeze baby. Sou eu, o seu melhor amigo Harper, nós não escondemos nada um do outro - Eu não larguei seu pulso, mas isso não o impediu de tirar suavemente o pano de mim. Minhas pálpebras se fecharam, com um constrangimento que inundou a minha alma. Então eu senti os lábios
macios de Harper na minha testa quando ele pressionou-os lá por algum tempo. Finalmente, ele se afastou e eu fui capaz de abrir os olhos. Ele sorriu para mim com os olhos cheios de sinceridade e malícia.
- Ajudaria se eu raspasse a minha cabeça? - Ele perguntou. De alguma forma, eu consegui sorrir um pouco e parecia tão real que me chocou. Eu balancei minha cabeça.
- Não, eu gosto do seu cabelo, não o estrague por mim - Harper balançou a cabeça e riu.
- Bobagem, menina teimosa, é só cabelo, ele vai voltar a crescer - Harper rolou e me puxou para o seu peito, puxando os cobertores para envolvê- los ao redor dos meus ombros.
- Durma um pouco, baby - Fiquei ali por muito tempo simplesmente ouvindo a batida forte do seu coração, como uma melodia que cantava a vida e a felicidade, até que finalmente comecei a adormecer. Desta vez não se tratava de escapar da dor. Sentia-me feliz, calma e tranquila e não queria nada mais do que descansar no abraço forte de Harper, mesmo que fosse só por uma noite.