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DESTINO TROCADO

DESTINO TROCADO

Autor:: RENATA PANTOZO
Gênero: Romance
Um amor que para eles parecia proibido. Apaixonados e impedidos pelo falso laço sanguíneo. Como esconder o amor que sente pelo seu próprio irmão? A fuga parecia a melhor solução, mas o amor ainda existiria.

Capítulo 1 -1

NARRAÇÃO SAULO LOMBARD

Meu dia esta intenso hoje. Parece que todas as mães da cidade resolveram ter seus filhos hoje. Saio de mais um parto e sigo para o vestiário. Pelo caminho posso ouvir a tempestade que bate lá fora. Meu relógio já aponta meia noite, fim do meu plantão. Entro no vestiário e começo a me trocar. Quero a minha cama logo. A porta do vestiário abre e me assusto com a cara da Mercedes.

- O que foi?

- Mulher grávida, acidente de carro.

- Essa merda dessa tempestade.

Respiro fundo colocando a roupa de volta.

- Onde esta Fátima?

- Ainda não chegou.

- Ela nunca chega na hora certa da troca de plantão.

Saio correndo do vestiário e sigo para a porta da emergência, esperar a ambulância. Em segundos ela para e logo a maca é retirada.

- Gestação de gêmeos, 35 semanas. Carro perdeu controle e bateu em uma arvore.

Os paramédicos dizem empurrando a maca.

- Fortes dores e corte na cabeça.

- Por favor! Ajuda a minha mulher.

Um homem desesperado me olha assustado.

- Tentei controlar o carro.

- Qual seu nome?

- Maurício Silva.

- Sr. Silva, vou fazer de tudo pela sua mulher e seus filhos.

- Obrigado!

Quando entramos no corredor outra gritaria começa.

- Mercedes, quero que a levem para a sala de parto e verifiquem se houve rompimento da bolsa.

Ordeno para agilizar atendimento, enquanto vejo o que esta acontecendo.

- Certo!

- Vou ver o que esta acontecendo e já sigo para iniciar os exames.

- Pode deixar, Dr. Lombard!

Ando de volta para a entrada do hospital e vejo um carro parado onde estava a ambulância.

- Alguém me ajude.

Um homem desce com outra gestante e hoje realmente não é meu dia. Pego uma cadeira de rodas e acomodo a mulher enquanto outra enfermeira não vem.

- O que houve?

- Ela caiu da escada.

- Quantas semanas?

- 37 semanas. Ela esta grávida de gêmeos.

Antes que eu comece a fazer perguntas, Fátima surge.

- Deixa comigo.

- Tem certeza?

- Sim, sou a médica que acompanha a Sra. Ribeiro.

- Estou com outra gestante, qualquer coisa me chama.

- Certo!

Corro para a sala de emergência e no caminho posso ver o Sr. Silva desesperado. Ele me observa correr e não diz nada, apenas chora. Entro na sala e posso ouvir os gritos de dor da Sra. Silva.

- Como estamos aqui, Mercedes?

- Vamos ter que fazer cesárea Dr. Lombard. Os batimentos dela estão oscilando e parece que com o impacto, bateu a barriga. Já cuidamos do ferimento na cabeça e a medicamos.

Respiro fundo.

- Vamos prepara-la então.

*************

Com a paciente devidamente anestesiada, inicio o parto. Com o auxílio de um pediatra e uma enfermeira, começo a retirada do primeiro bebê. Assim que o puxo, seu choro forte já começa.

- É um menino...

Digo passando o bebê para o pediatra que já corre para examina-lo.

- Ele esta bem?

A mãe pergunta chorando.

- Aparentemente tudo certo.

Seu choro aumenta.

- Meu Caíque... .

Não consigo tirar o outro bebê. Olho para Mercedes que já entende meu pânico. Ela se afasta e segue para o pediatra. Em segundos ele surge ao meu lado.

- O que houve?

- Cordão...

Começamos um trabalho juntos para não enforcar o bebê que esta todo enrolado. Assim que o segundo bebê sai não escutamos seu choro e ele esta completamente roxo. É uma menina. O pediatra a enrola em um pano e se afasta com ela.

- O que aconteceu?

A paciente grita ao ver o pediatra correndo.

- É uma linda menina, que precisa de cuidado.

- Ela esta viva? Ela vai ficar bem?

Não sei o que responder.

- Esta em boas mãos Sra. Silva.

Termino a sutura e arrumamos a paciente. Ando até ela que parece em choque por tudo e apavorada pelos filhos.

- Vamos leva-la para o pós parto e logo estará no quarto.

- Quero ver meus filhos?

- Quando estiver bem o pediatra passará para conversar com vocês e dizer como estão.

Seguro sua mão.

- Ele vai fazer de tudo pelos seus bebês.

Sorri e logo é levada. Saio da sala já arrancando minhas roupas. Vejo o Sr. Silva e o Sr. Ribeiro sentados na sala de espera. O Sr. Silva se levanta e me olha.

- Um menino e uma menina.

Começa a chorar.

- Como eles estão?

- Estão sobe os cuidados do pediatra. O menino não teve problemas algum, mas a menina estava sufocando com o cordão.

- Ela esta bem?

- Ainda não sei.

- A culpa é minha. Estava dirigindo aquele carro...

- Sr. Silva o cordão no pescoço não tem nada ligado ao acidente. Talvez o acidente tenha evitado algo pior se a gestação prosseguisse.

- Obrigado!

- Não precisa agradecer.

Agora chegou minha hora de ir.

*************

Entro no vestiário e escuto a discussão.

- Como você pode fazer isso Fátima?

- Cala a boca Torres.

- Você tem noção da dor que vai causar a uma família com isso?

- Você queria o que? Que fosse processada por essa família rica, dona da merda da cidade toda por matar a filha deles?

- E por isso você troca uma menina saudável de família pobre por uma morta?

- Será melhor pra eles cuidar apenas de um.

Vou até o canto assustado com o que ouvi.

- O que vocês fizeram?

O pediatra que estava comigo na sala de parto me olha assustado.

- Nada.

Fátima diz olhando pra ele.

- Me diz que a garota trocada não é a que lutei agora pouco pra manter viva.

Seus olhos descem para o chão.

- Você trocou a menina dos Silva pela dos Ribeiro?

- Lombard, fizemos a coisa certa.

- Coisa certa Fátima?

Grito avançando nela.

- Tem um homem lá fora cheio de culpa, doido pra abraçar sua garotinha.

- Ele vai ter o garoto pra abraçar.

Agarro o braço dela com força.

- Os dois são filhos dele.

- Não vou ser processada por perder uma criança.

- Se você é uma merda de uma médica o problema é seu, mas essa família não pode sofrer por culpa sua.

A solto sentindo a raiva crescer em meu peito.

- Já esta feito! A garota agora é uma Ribeiro. Vai ter um belo futuro pela frente.

- Você é louca!

Aponto o dedo em sua cara.

- Se não contar a verdade, eu conto.

Fátima agora me olha de um jeito feroz.

- Ninguém vai contar nada.

- Eu vou...

Quando me viro para sair e desfazer a merda, sinto uma pancada na cabeça e tudo se apaga.

********************

16 ANOS DEPOIS

NARRAÇÃO FERNANDO RIBEIRO

Escuto batidas na porta.

- Entra!

A porta se abre e Clara surge linda. Esta usando um vestido vermelho e seus cabelos longos castanhos estão soltos. Sorri ao me ver em frente ao espelho.

- Quer ajuda?

Fecha a porta e vem em minha direção. Para na minha frente e coloca a mão em minha camisa. Fecho meus olhos e aspiro seu doce cheiro. Amo tanto o cheiro dela. Na verdade amo tudo nela e isso é estranho. Sei que somos irmãos e é errado, mas meu corpo não entende isso. Clara começa a fechar os botões da minha camisa.

- Estamos fazendo 16 anos. Acredita nisso?

Seu sorriso é encantador, mas não tanto quanto seus olhos azuis. Ela é tão perfeita. Olho o relógio e começo a rir.

- Na verdade eu estou fazendo 16 anos, você ainda não nasceu.

Fecha o ultimo botão e desce a mão passando pelo meu peito que queima.

- Você adora ser o mais velho.

- Sim... É sinal que mando em você.

Revira os olhos e não tem como rir.

- Fecha os olhos!

Pede e ergo minha sobrancelha, questionando o porque disso.

- Fecha logo, Fernando.

Fecho meus olhos e a sinto pegar minha mão. Coloca algo sobre ela.

- Abra...

Assim que abro meus olhos, vejo uma corrente com a letra C.

- Para nunca se esquecer de mim.

Abro um enorme sorriso.

- Esquecer como se me persegue desde o meu nascimento.

- Grosso!

Leva a mão ao pescoço e puxa a corrente que usa de dentro do vestido.

- Estará sempre comigo também.

Alisa com seu dedo a letra F de sua corrente. Olho o relógio.

- Acho que agora posso te dar parabéns. Oficialmente já nasceu.

Nos abraçamos e permaneço com o rosto em seu pescoço, aproveitando seu corpo no meu.

- Eu te amo!

Sussurra e me solta de seu abraço.

- Agora é minha vez de dar o presente.

- Adoro os presentes que me dá.

- Eu sei, fecha os olhos.

Clara fecha os olhos e respiro fundo. Me aproximo, colando nossos corpos. Sua respiração acelera.

Seguro seu rosto em minhas mãos. Deslizo meu nariz sobre o dela, então selo nossos lábios. Sua boca é quente, seus lábios são macios. Não me rejeitou o que é bom, já que somos irmãos. Coloca a mão em meu peito e agarra minha camisa, me puxando para continuar. Sua boca se abre e deslizo minha língua para dentro dela, em busca de sua língua. Clara me entrega sem hesitar e começamos o melhor beijo da minha vida. Nossos lábios se encaixam perfeitamente. Paro de beija-la sentindo o desespero de mais.

- Por que fez isso?

Sussurra com a testa colada a minha.

- Por que eu te amo e te quero!

- Sou sua irmã, já conversamos sobre isso. Não confunda seu amor de irmão.

- Eu te desejo como um homem e sei que isso é errado, mas não posso controlar.

Abre os olhos e me encara.

- Me diz que não sente nada quando esta perto de mim e nunca mais te toco.

Seus olhos se enchem de lágrimas.

- Isso que sentimos um pelo outro não é amor de irmão.

- É sim...

Aproximo meus lábios de seu pescoço. Apenas passo ele de leve em sua pele sensível que arrepia e ela geme.

- Seu corpo não reconhece o meu como de irmãos.

Sigo beijando seu pescoço até seus lábios. Beijo-a novamente para sentir seu gosto e seu calor.

- Para!

Me empurra nos afastando.

- Isso é errado.

- Não pra mim.

Segue para a porta.

- Clara!

Pega na maçaneta da porta e posso ouvir seu choro.

- Estou indo para Londres em 30 dias.

- O que?

- Já conversei com nossos pais, vou estudar em Londres.

Capítulo 2 -2

30 DIAS DEPOIS

Faz 30 dias que não olho ou falo com Clara. Ainda não consegui engolir o fato de fugir assim para Londres. Como ela pode simplesmente ir e ignorar tudo assim? Me jogo na cama e encaro o teto.

- Fernando!

Minha mãe me chama batendo na porta.

- Vem jantar com a gente, filho. É o último jantar com a nossa Clara.

Me viro de lado na cama, ignorando a porta e a merda desse jantar.

- Filho!

Minha mãe diz com a voz triste.

- Estamos tristes também, mas você tem que aceitar a escolha de sua irmã e apoia-la.

Minha vontade é de gritar que ela esta fugindo de mim, de nós. Que nos amamos desde sempre, mas que para a nossa infelicidade somos irmãos. Fecho meus olhos e decido apenas permanecer calado.

- Estamos te esperando.

Fala e posso ouvir seus passos se afastando da porta. Meu celular vibra com uma mensagem.

De: Clara

Para: Fernando

Não quero ir embora sem falar com você.

De: Fernando

Para: Clara

Não quero que vá embora.

Espero sua resposta, mas ela não vem. Jogo o celular na cama e encaro o teto novamente. Sei que nossa história é impossível, mas tem que ter uma solução. Nós podemos fugir e viver esse amor proibido longe daqui, dos olhos e julgamentos de todos. Não consigo me sentir culpado por esse sentimento, diferente de Clara. Ela sempre tentou esconder ou ignorar, dizendo que estávamos confundindo com amor de irmão. Não tem noção do quanto meu corpo grita pelo dela e isso não é coisa de irmão. Fecho meus olhos me lembrando de quantas vezes tentei alguma coisa com uma garota e não consegui nada por pensar nela. Sou o único virgem entre meus amigos e a culpa é dela que não sai da minha cabeça. Consegui afastar os garotos de sua vida, mas ela em Londres não vou poder fazer nada. O ciúmes cresce em meu peito imaginando-a com alguma pessoa. Odeio esse sentimento. Odeio ser irmão dela.

*************

Olho o relógio e são 2:45 da madrugada e ainda não preguei meu olho. O voo de Clara sai às 08hs. Escuto batidas na porta.

- Fernando, abre a porta.

Clara pede sussurrando, mas não vou abrir. Quem sabe a culpa não a faça desistir.

- Você precisa me entender.

A voz dela é de choro. Meu coração esta doendo pra caramba, mas não posso. Ela não diz mais nada e acho que foi embora. Em menos de seis horas não estará mais aqui. Vou perder a minha Clara. Me levanto da cama, determinado a fazer ela ficar. Saio do meu quarto rumo ao dela.

Coloco a mão na maçaneta da porta e sinto que meu coração vai sair pela boca. É agora Fernando... Faça ela ficar com você e não a deixe ir. Abro a porta de seu quarto e entro. Clara me olha e vejo seus olhos vermelhos de chorar. Tranco a porta e a observo. Meu corpo automaticamente segue até o dela, nossos olhos sem desviar.

- Fica...

Peço parado a sua frente.

- Como?

Ela começa a chorar de novo.

- Como posso ficar aqui com isso?

Ergue os braços nervosa.

- Nós vamos dar um jeito.

- Que jeito Fernando? Sou sua irmã e isso nunca vai mudar.

- A gente foge. Vamos embora daqui e começamos uma vida diferente.

Se afasta de mim ficando de costas.

- Vamos fugir dos olhos dos outros, mas...

Se vira pra mim.

- Não vamos fugir do sentimento de errado e culpa.

Tenta tocar meu rosto, mas a impeço.

- Esse sentimento é só seu, Clara. Não me sinto culpado por te amar.

- Eu sou sua irmã...

Grita levando a mão a cabeça.

- Isso é errado de todas as formas possíveis.

- E sua solução é fugir de mim?

- Sim...

Ando até ela e toco seu rosto.

- Mesmo você longe, ainda vou te amar.

- Não fala isso.

- Pode fugir pra qualquer lugar do mundo. Eu ainda vou te amar.

Puxo sua cabeça de encontro a minha e a beijo. Não rejeita e me devolve o beijo na mesma intensidade. Assim que solto seus lábios, observo seu rosto.

- Esquece o mundo lá fora.

Toco seu braço e encaro seus olhos.

- Somos só nós dois aqui dentro.

Avanço em sua boca e volto a beija-la com amor, com tudo o que sinto, implorando para que ela seja minha e fique. Suas mãos estão em meu peito, me permitindo fazer o que quiser com ela, como se estivesse entregando seu corpo e sua alma a mim. Começo a me abaixar beijando seu pescoço, o meio de seus seios sobre a camiseta e minha mão desce para sua bermuda. A desço e vejo sua calcinha. Beijo sua perna e ela geme. Subo os beijos até sua boca novamente.

- Ergue os braços.

Peço e Clara ergue. Retiro minha camiseta e em seguida puxo a dela. Ela apenas me observa hipnotizada. Esta sem sutiã e mantém as mãos para cima. Nossos olhares não se desviam, desço minha mão em seu corpo quente e perfeito. Sinto seus seios e cada contorno de seu mamilo endurecendo ao meu toque. Estamos os dois ofegantes.

- Eu nunca...

Calo seus lábios com o meu.

- Eu também não e fico feliz que seja com você.

A puxo para mim evolvendo meus braços em seu corpo.

- Você é minha e eu sou seu.

Sussurro em seu ouvido e ando com ela até a cama.

- Apenas não fuja, Clara...

Deito seu corpo com calma na cama e beijo seu pescoço, ouvindo seus gemidos de prazer. Desço beijando seus seios e sua barriga. Os seios dela são tão firmes e perfeitos. Quando chego perto de sua calcinha sigo com a mão para dentro dela.

- Fernando!

Geme meu nome quando a toco e posso senti-la molhada. Me lembro que não tenho camisinha.

- Não estamos com camisinha.

Sussurro beijando sua barriga.

- Mamãe me faz tomar remédio.

A menção de nossa mãe faz Clara ficar tensa e não quero que ela pense nisso. Me arrasto sobre seu corpo e a beijo. Posso senti-la voltar pra mim. Suas mãos descem para minha calça e começa a puxar, levando junto à cueca. Esta com as mãos tremendo e coloco a minha sobre a dela acalmando-a. Já mais calma e com a minha ajuda, retiramos o resto das nossas roupas. Me acomodo entre suas pernas e ela me olha. Tão linda... Direciono em sua entrada e suas pernas envolvem minha cintura. Sua mão segura a minha e empurro, fazendo-o entrar nela. Nós dois soltamos um gemido alto quando estou completamente dentro dela. Não me movo, apenas sentindo seu aperto e como ela é quente. Quando percebo que esta bem, começo a me mover. Busco seus lábios enquanto a amo. Estou amando com meu corpo a minha Clara...

- Fernando...

- Clara...

Beijo seu pescoço e volto para seus lábios, sem deixar de me mover. Passa as mãos em minhas costas me puxando mais para o seu corpo. Quando meu peito toca o dela e nossos corações praticamente se escutam, nossos corpos se libertam e o sinto pulsar dentro dela, junto com seu aperto em torno dele. Isso é amor de homem e mulher... Não pode ser de irmãos. Quando nossos corpos se acalmam, saio de cima da Clara. Estamos ofegantes encarando o teto do quarto. Sem dizer nada, completos, nossas mãos se encontram. Então se vira pra mim e não consigo tirar o sorriso idiota do meu rosto. Ela apenas ergue a mão e toca minha bochecha. Não diz nada e deita sobre o meu peito. Suspira e deixa um leve beijo.

- Fica aqui! Você viu que o que temos vai além do sangue.

Digo beijando sua cabeça. O silêncio é sua resposta, mas sei que dentro dela existe uma briga entre ficar e fugir. Só espero que ela fique.

*************

Tento abrir meus olhos, mas a claridade do quarto é forte. Clara nunca fecha a cortina. Minha mente automaticamente já me traz as lembranças dessa noite. Me viro para ver Clara e não a encontro.

- Clara...

Olho em volta e nada. Olho o relógio e vejo que são 9hs.

- Clara...

O desespero começa a crescer dentro de mim. Me levanto e encontro sobre as minhas roupas dobradas um papel. Meu coração acelera. Pego o papel com a letra da Clara.

" Me desculpa...

Não posso fazer isso.

A culpa sempre vai existir e me impedirá

de te amar como deve ser.

Vai ser melhor assim.

Com amor...

Clara"

Capítulo 3 -3

09 ANOS DEPOIS

Encaro os 04 contratos a minha frente sem a menor vontade de olha-los. Meu telefone toca e dou graças a Deus que vou poder empurra-los pra depois.

- Pronto!

- Sr. Ribeiro!

- Fala, Andrea!

- Sua mãe no telefone.

Respiro fundo sabendo bem qual o motivo dessa ligação.

- Pode passar.

Em segundos escuto sua voz.

- Filho!

- Oi, mãe!

- Parabéns, meu bem!

- Obrigado, mãe!

Ela começa a chorar no telefone.

- Mãe, não chora.

- É que eu me lembro da noite que tive vocês.

- Era pra você se lembrar e ficar feliz.

- Eu sei.

Suspira se acalmando.

- Estou ligando para avisar que esta tudo certo para o jantar de hoje.

- Obrigado!

- Estou tentando ver se sua irmã vem hoje.

- Mãe, faz 9 anos que ela não coloca os pés em São Paulo.

- Ela disse que talvez viria.

- Diz isso todos os anos.

Digo olhando a minha foto e de Clara no porta retrato sobre a minha mesa. Minha mãe me deu no nosso aniversário de 21 anos. Passo a mão em minha testa tentando afastar as lembranças daquele dia de merda.

- Queria saber o que aconteceu para vocês se tornarem dois estranhos assim.

- Ela foi para Londres.

"E fodeu com a possibilidade de sermos felizes juntos."Tenho vontade de dizer, mas permaneço calado.

- O amor de vocês era tão lindo.

- Mãe, você quer mais alguma coisa?

- Sim...

Suspira nervosa.

- O que foi?

- Você vai mesmo ficar noivo dessa menina?

- Já falamos sobre isso.

- Fernando, você não a ama.

- Aprendo a amar.

- Aprende a amar antes de tomar uma decisão dessas.

- Você mesma vive dizendo que na minha idade já estava casada e grávida.

- Já tinha seu pai e o amava.

- Ela é legal, não me irrita e estamos juntos há 06 meses.

- Meu filho olha a forma como você fala desse relacionamento.

Me repreende e me arrependo de ter fugido dos contratos para falar com a minha mãe.

- Vou ficar noivo da Carla e pronto. Se não for nesse jantar vai ser longe de vocês.

- Não faça isso.

- Então para de me irritar e aceita a minha decisão.

- Esta bem!

Respiro aliviado por ela não continuar no assunto.

- Você já ligou pra sua irmã?

Fecho meus olhos e conto até 10.

- Fernando...

- Não, mãe! Há 9 anos não falo com a Clara e você sabe disso.

- Ela precisa saber que vai noivar. É algo importante e...

- Mãe preciso desligar. Beijos!

Desligo o telefone sentindo que minha cabeça vai explodir. A merda desse dia não pode ser pior.

***********

Termino meu banho e me encaro no espelho. Uma sensação estranha cresce em meu peito como se alguma coisa fosse acontecer. Ignoro o sentimento e sigo para o meu quarto. Começo a me vestir e meu celular vibra com uma mensagem.

De: Carla

Para: Fernando

Parabéns Fernando...

Hoje será um dia importante para nós dois. Estou ansiosa!

Te amo!

Jogo o celular na cama ignorando a mensagem melosa da Carla. Coloco meu sapato e sigo para a minha camisa. Meu celular começa a tocar e assim que olho, vejo um número desconhecido. Pego o celular e atendo.

- Alô!

- Oi!

Meu corpo todo arrepia. Me sento na cama com o coração acelerado.

- Fernando...

- Fala!

Digo ainda não acreditando que é Clara. Ela suspira e acho que assim como eu, esta nervosa.

- Só queria te dar os parabéns.

- Acho que você perdeu alguns aniversários.

- Tentei te ligar.

Encaro o chão e todo aquele sentimento guardado por esses anos começa a me sufocar.

- Me desculpa Clara, mas não posso falar agora.

- Uma hora vamos ter que conversar.

- Ótimo! Para de se esconder em Londres.

Desligo o telefone e o jogo na parede. Por que ela tinha ligar hoje? Estava bem ignorando tudo e tentando viver minha vida. Passei um bom tempo socando essa merda toda em uma caixa e agora ela vem querendo soltar. Preciso beber alguma coisa.

***************

Chego na casa dos meus pais e minha mãe logo me olha assustada.

- O que aconteceu com você?

- Nada.

- Você esta cheirando bebida.

Pega meu braço e me carrega para dentro do meu antigo quarto.

- Vai para o chuveiro.

- Não.

- Você esta um lixo no dia do seu aniversário e seu noivado.

- Que se dane meu aniversário e esse noivado de merda.

Digo sendo empurrado para o banheiro e rapidamente minha mãe liga a ducha, fazendo a água fria bater em meu corpo.

- Acho que é a bebida falando. Tome um banho enquanto arrumo uma roupa do seu pai pra você.

Assim que ela sai do banheiro, me sento no chão frio e sinto as lágrimas escorrendo. Merda de vida!!!!

***************

Termino de me arrumar sobe o olhar da minha mãe.

- O que aconteceu?

- Nada...

- Fernando, sou sua mãe.

Ajeito minha camisa.

- Vamos descer.

Ela se aproxima e coloca a mão em meu peito.

- Sinto falta do meu filho.

Diz com os olhos marejados.

- Ele desapareceu há 9 anos.

- Deve ter ido pra Londres com a Clara.

Me afasto e sigo para fora do quarto. Assim que desço a escada, vejo Carla e seus pais na sala. Respiro fundo e sigo até eles. Estendo minha mão para seu pai que sorri ao me cumprimentar. Sua mãe me abraça toda sorridente. Quando chego em Carla, desvio de sua boca e beijo seu rosto. Ela me olha sem entender nada e nem eu entendo a merda que fiz, mas a sensação de que não posso beija-la surge em mim. É culpa da merda da ligação da Clara. Esta de novo em meu corpo e minha mente.

- Tudo bem?

Carla pergunta me olhando.

- Sim, só um dia de merda.

Sorri de forma suave e nos sentamos. A conversa flui entre nossos pais, mas estou distante demais. Talvez em Londres.

- O jantar esta servido.

Minha mãe anuncia e seguimos para a sala de jantar. Assim que nos sentamos, sinto a mão da minha namorada em minha perna e isso me incomoda. Retiro sua mão e sei que esta me olhando, mas a ignoro.

- Batatas?

Minha mãe pergunta apontando para as batatas assadas.

- Não... obrigado!

- Eram as preferidas da Clara e suas.

- Faz 9 anos que não como essas batatas, mãe.

Não diz nada e continua conversando com a mãe da Carla.

***************

Após o jantar seguimos para a sala para um licor. Minha mãe me proibi de beber e fico apenas no café.

- Como anda os negócios, Fernando?

- Muito bem!

- Carla me contou que sua empresa vem ganhando espaço no mercado.

- Não é fácil trabalhar com Marketing, mas estou saindo bem.

- Fernando é muito inteligente e extremamente competente.

- Uma mulher apaixonada.

A mãe da Carla comenta e ignoro. Minha mãe se aproxima, sem ninguém perceber.

- Não vai fazer o pedido?

- Que pedido?

- A mão da Carla.

- Esqueci.

Me olha brava e reviro os olhos.

- Como se esquece de pedir a mão de sua futura esposa?

Ignoro sua pergunta, seu olhar e me levanto.

- Gostaria da atenção de todos.

Digo alto e todos me olham.

- Hoje é um dia especial para mim e gostaria de torná-lo ainda mais especial.

Enfio a mão em meu bolso e antes de puxar a caixinha, a porta da sala de abre. Todos se viram assustados para a porta, para ver o que esta acontecendo e meu coração para de bater por segundos ao vê-la entrar.

- Oi!

Diz timidamente e solta sua mala.

- Clara!

Minha mãe diz correndo até ela. Abraça minha irmã forte e vejo meu pai indo até elas. Não consigo pensar ou me mexer. Seus olhos encontram os meus e me sinto totalmente vulnerável. Anda até mim e sinto que meu coração bate no ritmo de seu caminhar. Para a minha frente. Minha mão segue para o seu rosto, para ver se ela realmente esta aqui.

- Oi!

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