Era uma noite fria, eu estava no casebre abandonado e com cheiro de mofo da minha casa, sentindo que algo não estava bem. Ouço o choro estridente da minha irmã de 3 anos, enquanto a minha mãe quicava com ela em seus braços tentando conter o choro da Liza. Eu não entendia porque minha mãe estava tão irritada com minha irmã, será que ela estava sentindo dor? Será que aconteceu alguma coisa? Meu papai saiu já faz um tempo, eles gritaram um com o outro, meu pai com raiva me empurrou de lado e bate a porta de madeira estraçalhada que só fechava com uma corrente e cadeado.
O bip do Nokia da mamãe toca, ela larga a Liza dormindo na cama suja do barraco, atende o telefone fala meia dúzia de palavras e meio grog, vem até mim, exige gritando que eu tome conta da minha irmã e me diz que já volta, saindo quase correndo de casa com o rosto banhado de lágrimas.
Eu estava sentado no sofá pequeno, assistindo meu desenho preferido na televisão, eu não estava entendendo nada, apenas permaneci sentado esperando papai e mamãe voltarem, mamãe não colocou minha comida e eu estava com muita fome, passo a mão na minha barriga, já era noite, eu só queria minha janta. Me assusto quando um barulho estrondoso do trovão faz clarão no céu acordando minha irmã, que levanta a cabeça e não enxerga ninguém, vou correndo até ela e faço o que minha mãe pediu, me deito em seu lado e ela me olha sonolenta. Com tapinhas em seu bumbum, a faço dormir novamente, exatamente como mamãe fazia.
A chuva aumentava lá fora, os trovões e relâmpagos se tornam frequentes e a janela de madeira abre devido ao vento forte. Corro para fechar e observo alguns homens armados em volta da minha casa, olhando curiosos para dentro, não entendo e decido falar:
- O que vocês querem? Meus pais vão chegar daqui a pouco! Vão embora, eu não gosto de armas! - Digo amendrontado.
- Cala a porra da boca, seu moleque! Estamos só esperando teu pai, e se ele não chegar, vai ser vocês mesmo que vamos levar. Ninguém mandou ele se meter com o Sam, ele sabia onde estava se metendo! - O homem diz e eu nego. Eles devem estar achando que é outro pai, não o meu.
Bato a janela de madeira, e continuo sentado esperando meus pais com o coração acelerado. Passam horas, e eles não voltam.
E nem nunca mais voltaram.
Naquela mesma noite chuvosa, homens arrombaram a porta da minha casa, me puxaram pelo braço fino, pegaram minha irmã pelos cabelos, que acordou assustada e chorando sentindo dor. Era um bebê! Me balanço raivosamente tentando sair dos braços daqueles homens, tentando pegar minha irmã que a todo momento gritava "Enxo".
- Por favor, deixem minha irmã, nós estamos esperando meus pais. - Grito assustado, chorando e desesperado.
- O pai de vocês já tão até mortos, cala a boca filho da puta. - O cara encapuzado bate na minha cabeça e eu choro mais.
- É mentira! Você é um cuzão mentiroso! - Grito sentindo ódio, cuspindo enquanto eles me afundam em um carro.
Mas antes de me colocarem dentro do carro, sinto golpes na barriga, na costela, no peito, na cabeça, na barriga, eles me chutam, me socam, me dão tapa e eu fico delirando.
- "Imão" - Minha irmã berrava, chorava. Ela era a única força pra eu enfrentar tudo isso. Depois de me espancarem, eles me jogam com minha irmã na parte de trás do carro, completamente molhado da chuva e não dou um pio, apenas abraço minha irmã. Com medo, com ódio, com dor. O carro é grande, nós parecemos duas mercadorias porque não conseguimos ver quem dirige e muito menos o que tem do lado de fora, estávamos em uma caçamba de um carro.
Olho para Liza, que olha tudo assustada, eu estava com uma ideia mas ela não vai conseguir agir tão rápido quanto eu. Penso, penso e penso, rápido, olho pra ela novamente e digo, sussurrando:
- Liz, vamos fazer uma coisa agora, mas você precisa ser corajosa pra gente poder fugir desses homens maus, tá bom? - Digo rápido, ela olha pra mim, olha em direção as vozes de homens na parte da frente do carro, e assente.
Ok.
Seguro em sua mão, porque se eu colocar ela no colo, pode ser pior, podemos nos machucar mais do que já vamos.
Olho pra maçaneta dos fundos do carro, puxo devagarzinho e noto que está aberta. Olho pra Liza, e quando digo 3, abro completamente a porta dos fundos do carro, puxo a Liza e me jogo pra fora. Caio, bato com o cotovelo no chão, grito de dor e Liza há 2 metros de mim, chora com a pancada. Levanto rápido quando vejo que o carro muito mais a frente, para, possivelmente notando algo de diferente.
Desesperado, pego a Liz nos meus braços e corro mato a dentro. Estávamos em uma estrada, e caímos próximo a um rio sujo, em volta muito mato alto. Corro pelo matagal, tentando encontrar uma saída, algo que nos proteja, peço pra Liz não chorar e ficar em silêncio, ela me obedece e quando canso de correr, me jogo no chão e puxo a Liza pra deitar do meu lado, tapando sua boca.
Ouço vozes distantes gritando, aperto os olhos com muito medo de que eles nos encontrem. Ainda com bastante dor das pancadas, rolo pra uma parte mais escura e puxo a Liz.
Acho que eles desistem, pois ouço as vozes se afastarem e o pneu queimando no asfalto com a aceleração. Respiro um pouco mais leve, aperto minha irmã em meus braços e sem perceber, fecho meus olhos e me embriago em um sono profundo.
Acordo sentindo minha irmã cutucar meu rosto, olho em volta e percebo que estamos mais próximos do rio que deveríamos, levando sentindo muitas dores, mas não consigo permanecer em pé, me sento novamente e respiro fundo.
- Que foi, imão? - Liz pergunta.
- Muita dor, Liz... - Choramingo.
3 ANOS DEPOIS
Liz segura minha mão forte, correndo, enquanto carrego dentro de uma bolsa, diversos biscoitos e danones roubados que estavam na dispensa do Orfanato. Meu coração acelerado com medo de ser pego, eu planejava essa fuga desde que cheguei aqui nesse lugar deplorável. Eu estava no Orfanato com minha irmã, mas nada do mundo me separaria dela como já tentaram fazer diversas vezes.
Depois de nos perdermos no matagal, achamos a volta da estrada e sem esperar, estávamos no Centro do Rio de Janeiro. Dormimos na rua e eu pedia esmola pra alimentar minha irmã, eu tinha que proteger ela, minha mãe me exigiu, ela era minha única parceira. Mas logo a Assistente Social bateu, eu tentei correr, mas esqueci da Liz deitada, em frente a Candelária, num pano que encontrei na rua.
Tive que buscá-la, mas foi tarde demais, eles já tinham nos cercado e sem querer, nos colocaram dentro de um carro com mais outras crianças para ir pro abrigo. Meu pior pesadelo.
Saímos do Orfanato, e pelo menos, de barriga cheia e abastecidos, não se sabia por quanto tempo iríamos vagar pelas ruas. Subi pela parte de trás do ônibus com minha irmã, e dei um grito de agradecimento ao motorista. Me sentei com a Liz, ofegantes e suados, mas com sorriso de vitória em meus lábios.
Pulamos para fora do ônibus quando ele chegou no ponto final, e eu nem ao menos sabia onde estávamos, mas descobri que estávamos num lugar com movimentação estranha, homens armados na entrada de uma subida. Minha irmã alterna o olhar entre mim e eles, aperto suas mãos e vamos pro lado oposto daquela subida, entramos numa rua sem saída, com apenas alguns feirantes despejando seus lixos.
Encontro o lugar perto, debaixo de um telhado e um meio fio espaçoso. Estendo o lençol que trouxe do Orfanato, e sento com minha irmã, pego a garrafa de 2 litros com água e bebo um pouco, ela pega e bebe também, ainda com os olhos atentos a mim.
- Irmão, a gente vai ficar aqui? - Pergunta, e eu assinto. - Não tem outros lugar? Eu tô com medo. - Ela sussurra.
- Liz, não temos mais pai, não temos mais mãe, só temos um ao outro, então a gente vai ter que ficar aqui até... - Me perco nas palavras, ela entende e encosta o rosto no meu ombro.
Ela já tinha entendido que só tínhamos um ao outro, no inicio foi difícil, ela chorava querendo nossa mãe, mas ela nunca voltou, e conforme eu crescia, a minha raiva só aumentava. Eu roubava pra sobreviver, e depois de 1 ano vagando nas ruas, uma feirante nos parou, ela já era uma moça na casa dos 40, com pena da nossa situação, da nossa sujeira, ela falou que levaria a gente para casa dela.
De início eu não aceitei, mas a Liz já estava com 6 anos, eu já estava com 12. Minha barriga doía com fome, Liz fedia e eu também, minha irmã tinha os pés pretos, o rosto, e o corpo sujo, e eu mais ainda, já que era eu que roubava e andava em sol quente pra poder dar uma comida digna pra minha irmã. Assim que entramos e subimos aquele morro, descobri que aquele lugar se chamava Complexo do Alemão. Minha nova e eterna casa.
Entramos e a dona Luzia, que era a moça que me resgatou, cuidou de nós como se fôssemos filhos. Eu fiz amizade com os filhos dela, o Leon e a Daniele, e automaticamente, com o amigo do Leon, o Lucca. Nos tornamos inseparáveis, infelizmente tomamos caminhos em que a tia Luzia não se orgulha, mas já estava na minha veia, e depois que eu e o Leon vimos o tanto de dinheiro que dava, não pensamos nem duas vezes em tomar toda posse do morro, mesmo que não premeditado.
Anos mais tarde, depois de virar vaporzinho com 16 anos, consegui tirar minha irmã da casa da tia Luzia, consegui uma casinha boa e confortável pra eu e minha irmã ficar, com 2 quartos pra ter privacidade pra ambos. Eu sempre fui muito tranquilo, minha irmã estava terminando a escola eu a contragosto frequentei até me formar, e modesta a parte, eu gostava de estudar e era até um dos melhores alunos. Porém, o mundo do crime me escolheu e eu não tinha força de vontade pra lutar contra isso. A minha irmã tinha sonhos, vontade de ser Arquiteta e eu a apoiava e incentivava, já ela, tinha ciência do que eu fazia, não gostava mas respeitava. Até porque, era isso que trazia conforto e estabilidade em nossas vidas, mesmo que em um dia eu pudesse estar aqui e noutro, não.
Sobre nossos pais, eu nunca tive notícia deles, eles evaporaram igual vento e eu sinceramente não lembro como gostaria do rosto dos meus pais, vagamente traços do meu pai, mas a mágoa era tão grande que eu não queria nem pensar em como eles estavam... Eu sentia no coração que meus pais estavam vivos, apenas não foram nos procurar.
Tive algumas (muitas) mulheres nessa vida do crime, quanto mais você tinha, mais elas jogavam. Eu nunca vi tanta disposição de comer mulher como eu, degustei todos os tipos de buceta nesse morro. As irmãs dos meus amigos, primas, tias e até algumas mães. Meu apelido Bradock, apareceu simplesmente, não sei de onde e nem como, só simplesmente apareceu. Assim como o LN do Leon e Pitbull do Lucca. Nós éramos o trio parada dura, inseparáveis e a minha única família.
Infelizmente, com tudo que passei nessa vida, eu me fechei pra amores e pra relacionamentos no geral. Sou grosso, com pavio curto e não tenho paciência pra palhaçadas alheias, odeio gente que blefa e quando você entra pro mundo do crime, o sangue que corre nas suas veias, automaticamente, se transforma em mecanismo de defesa. Qualquer alvo ou ameaça, é motivo para que seus olhos se atentem dobrado, eu praticamente durmo com uma arma debaixo do travesseiro, porque qualquer movimento estranho, é bala.
***
Era um domingo de manhã, eu já estava com 20 anos, e tinha virado sub-dono do Morro. O Peixe, atual dono do Morro, tinha um Confronto marcado com um batalhão militar, mas já estava sacaneando muita gente, faltando com abastecimento necessário aos moradores, e era algo que fugia do meu controle porque mesmo sendo sub-dono, a última palavra era dele. Eu podia ter até autonomia com algumas coisas, mas o grosso era ele que fazia e ele simplesmente estava pouco se fodendo pro bem estar de todo mundo.
Então, já estava decidido. Era nesse confronto que eu tomaria o Morro, que eu seria dono da porra toda e faria de tudo para que todos estivessem bem, porque não tive uma infância boa e faria o possível pra não deixar ninguém passando fome ou com falta de água.
O confronto começou, o LN me cobria enquanto eu mirava na cabeça de alguns militares. Corremos a via, subimos e ultrapassamos algumas vielas, passamos por diversas casas e diversos corpos foram dissepados por nós, que mantínhamos o controle da situação. Subi pra laje da tia Luzia, ouvia apenas as rezas dela e me entregava aquelas rezas, beijei meu pingente de cruz e pulei pra outra laje com o coração acelerado.
A adrenalina bombeava nas minhas veias, meu coração acelerava e foi aí que eu vi ele. Peixe estava abaixado, sozinho, mirando em algum dos policiais. Olho pro Leon, que me olha, assente e abaixa mais ainda. Vou pro cantinho de uma das lajes, me equilibro no canto e o Leon me dá cobertura, miro na cabeça do Peixe, certeiro e não causaria dor, embora ele merecesse.
Mirei, acertei, ele caiu e eu abaixei pra ninguém me ver. Olho em volta.
- Alguém viu? - Pergunto eufórico.
- Não, viado. Bora logo pegar o corpo dele. - Ele diz, abaixa e corremos pro outro lado do terraço que ele estava ensanguentado.
Coloquei ele nas minhas costas e saí dali de cima descendo pelas escadas do terreno, que estava abandonado. Assim que entrei na principal, fui correndo pelo cantinho subindo todo morro em direção a Boca, e quando cheguei, coloquei ele na porta e voltei para a operação, o morro agora dependia de mim. Vocês podem achar que foi impiedoso, mas saberão que ele foi um tremendo de um filho da puta com muita gente dentro desse morro.
Pegava todo dinheiro que lucrávamos, invés dele abastecer o posto do morro, consertar o campo das crianças, a pracinha que estava caindo os pedaços ou a escola pras crianças estudarem, ele gastava tudo com puta e torrava apostando em jogos de cavalo, álcool e drogas. Obviamente, quando você lida com uma quantidade pesada de drogas, você usa mas tendo ciência que não é pra consumo ao menos que você pague, e ele usava o dinheiro do lucro da droga comprando mais droga pra uso próprio, era um ciclo vicioso que não tinha fim e não estava mais dando lucro ao próprio morro.
Depois que eu anunciei a morte dele e automaticamente virei dono, foi uma festa. O morro voltou a respirar em paz, porque enquanto o Peixe era dono, as pessoas tinham medo de ao menos ficar na calçada. Ele intimidava e esculachava muita gente, doidão de pó. Eu tentava segurar, mas ele não queria saber nem de mim e muito menos dos outros.
Pitbull virou o sub junto com o LN, eu não queria saber, o posto seria deles dois. E eles tinham autonomia pra exatamente tudo, eram a minha família, meu alicerce e por eles eu faria exatamente tudo. A venda de drogas aumentaram, o lucro sobre os comércios que Peixe exigia, eu flexibilizei. Agora invés deles pagarem um valor altíssimo, o valor abaixou 88%. A economia voltou a andar e graças a Deus, o Complexo do Chapadão respirava em paz, tudo estava mais colorido porque eu fiz questão de contratar grafiteiros pra poder colorir o morro, a praça e os campos de futebol.
O UPA que era deixado de lado, agora tinham profissionais de saúde competentes e abastecidos com os melhores instrumentos e remédios, afinal, numa favela, é mais que essencial a importância do hospital. E eu, mesmo não demonstrando as emoções da forma como as pessoas esperavam, porque elas vêem minha cara de mau e comentam, mesmo não sendo proposital, eu estava feliz para o caralho de ver minha favela daquele jeito.
Dei um terreno para que minha tia Luzia, mãe do Leon, pudesse construir sua casa e sua pensão que tanto sonhava. Eu paguei pra reformar uma casa que tinha no alto do Morro, que era do Peixe, largada e fedia tanto que chega me enjoava a porra do estômago. Minha irmã reformou do jeito que ela sonhou, com os móveis que ela sonhou e eu não podia estar mais feliz de vê-la radiante daquele jeito.
De alguma forma, minha missão estava sendo cumprida.
Há algum tempo atrás, tinha uma moça, espírita, que pegou um santo na porta do boca e exigia falar comigo. Eu nunca nem tinha visto na vida, era negra, com grandes cabelos cacheados e parecia estar na casa dos 50, ela bateu o pé na frente dos soldados que ficavam fazendo vigia na frente do casebre abandonado, ela gargalhava, ria e gritava querendo dar uma palavra com o Bradock.
- Que porra é essa, aí? - Pergunto com a arma na cintura, me arrepiei dos pés a cabeça quando ela me olhou, entortou a cabeça e deu um sorriso presunçoso.
Ela se aproximou, alisou meu peito e deu dois tapinhas no meu rosto. Mas, eu não conseguia ficar com raiva, sentia que tinha alguma coisa errada. Então ela se curvou, bateu os pés e disse:
- Filho meu! - Gargalhava, segurava a barriga. Olhei desconfiada junto com Leon, Pit e alguns soldados que testemunhavam assustados.
- Ela tá encorporada, mané. - Um soldado comentou.
- Cala a boca, porra. - Outro deu um porradão no peito do Pett, que falou anteriormente.
- Filho meu! Há muitas coisas boas chegando na sua vida... - Ela batia o pé no chão, suspirava e continuava. - Sou sábio, filho meu, pode ter certeza. Há coisas boas chegando na sua vida, algo que te fará flutuar e sentir coisas inexplicáveis, você pode ter certeza, filho meu. - Ela repetia "filho meu" e eu me assustava mais ainda. Que porra era aquela, irmão?
Eu respeitava todo tipo de religião, e qualquer uma era válida desde que houvesse fé e perseverança.
- Você vai ser recompensado pelo bem que faz ao povo, sua vida mudará, sentimentos florescerão e situações virão à tona. Esteja pronto, filho meu! - Ela diz e vira as costas, descendo a vila do casebre. Eu, LN e Pit olhando um pro outro, sem entender um caralho de asa e eu volto pra dentro, tá doido. Me tremo todo, e ouço risadas.
Mas, depois de algumas semanas, eu entendi exatamente tudo que aquela senhora falou, nada foi em vão, nunca é.
3192/5000
- Luara Cavalcanti -
Meu nome é Luara Cavalcanti, até os meus 6 anos de idade, meus pais me chamavam de Lua, mas depois da morte deles, meu mundo acabou. Com eles eu tinha liberdade, amigos e uma vida inteira repleta de felicidades e sonhos.
Completei 18 anos há um dia atrás. Vivi 12 anos em um Convento, me preparando pra ser uma Freira bem religiosa da forma como a minha tia sempre sonhou pro meu futuro, ela dizia que foi o último pedido da minha mãe, eu desconfio, mas tenho que acreditar. Titia sempre disse que era pro meu bem e que em breve eu saberei o motivo dela ter me colocado no Convento, mas diz que me poupa de muita coisa e acredito muito no que minha tia Helga diz, além do mais, ela é minha única família, a única que me protegeu todo esse tempo. Eu devo tudo à ela.
No Convento, eu não tenho muitas amizades, as Freiras que têm aqui não deixa nenhuma menina ficar próxima uma da outra, no máximo, aos finais de semana, elas liberam o jardim do terreno para que possamos respirar o ar livre e nos comunicar com outras pessoas. Toda segunda, quarta e terça, rezamos 4 vezes o terço, isso une um pouco mais as meninas do Convento; Aqui, não podemos ficar sem usar o nosso vestido, ele é todo preto, tem uma manta sobre a cabeça, cobre todo o braço e toda a perna, eu não entendo o motivo de ter que usar sempre, mas as Irmãs dizem que se não vestir algo que cubra nosso corpo, seremos pecadoras. Na hora de dormir, minha tia Helga comprou um casaco e uma calça pra eu vestir, simples, grande e confortável, da forma como eu gosto.
Eu sempre quis conhecer o mundo lá fora, e sempre que eu expresso isso a alguém, me advertem. Dizem que o mundo é cercado de coisas ruins, de pessoas ruins e que devemos sempre nos prevenir, ficar na Igreja ou dentro de casa, que é o que as mulheres boas e puras fazem, mas eu sempre quis conhecer. Nesses 12 anos eu nunca coloquei o pé pro lado de fora do Convento, titia diz que fica em uma área rural do Rio de Janeiro, longe de toda turbulência urbana e que conhecer o mundo não será meu caminho, quando eu sair daqui, ela disse que eu iria viver de casa para Igreja, que o tempo de estudar acabou e que está na hora de eu ir pra a Igreja e ser a "serva do Senhor". Eu nunca entendi o motivo de toda essa proteção, será mesmo que o mundo é tão pecador assim para que minha tia queira me manter só em casa e na Igreja? Será que as pessoass são tão ruins assim?
Saio dos meus pensamentos ao ouvir a Irmã Luzia me chamando:
- Menina, venha aqui. Sua tia acabou de chegar, vá conhecer sua casa! Que o Senhor Jesus ilumine sua vida e te proteja de todo mal! – Disse ela dando um beijo materno na minha testa. A Irmã Luzia é como uma segunda mãe, ela sempre fez quase tudo que eu queria. Levava a comida ao meu quarto e tirava alimentos da cozinha no meio da madrugada quando eu a acordava com fome, sorrio com os pensamentos, irei sentir muita a sua falta.
- Já tô indo! – Respondo recolhendo minha mochila já que eu não tinha muitas roupas para colocar em uma mala. Ao sair pela porta do meu quarto, vejo a Irmã Luzia com lágrima nos olhos. Corro até ela e me jogo em seus braços num abraço apertado, choro tristemente em ter que deixá-la. – Irei sentir muito sua falta, minha segunda mãe! Nunca se esqueça disso, você estará marcada pra sempre no meu coração! – Ela chora ainda mais e eu dou um beijo estalado em sua testa.
- Fica com Deus, minha querida. Venha me visitar! Sentirei sua falta! - Ela responde e eu aceno saindo pelas grades do Convento, indo em direção ao táxi que minha tia pegou pra vir me buscar.
- Que demora, Luara! Na próxima vez em que eu te chamar, trate de vir o mais rápido possível! – Titia diz entrando no carro e me chamando pra sentar ao seu lado na parte de trás, apenas concordo e entro desajeitadamente, ficando encolhida num canto.
Minha tia sempre foi assim, meio séria demais e afastada de todo mundo, tenho muito medo dela, nunca houve demonstração de carinho e afeto da sua parte, sinto muito a falta dos meus pais. O carro dá a partida e eu olho pela janela, parece que estamos em um local bem distante, já que demoramos cerca de 40 minutos num local rural e com poucas pessoas. Ao chegar na cidade, olho atentamente cada detalhe com os olhos brilhando, é de manhã e o sol brilha despertando uma vontade imensa de uma praia, uma piscina... Mas eu só fico na vontade mesmo, já que além de nunca ter ido, sou proibida.
Passo por uns locais com grandes prédios bem arquitetados, postes com fios elétricos, casas, vários centros comerciais e muitas pessoas com a parte do corpo descobertos, segundo o Convento, são todos pecadores, mas parecem estar tão felizes. Eu lembro que quando era pequena usava roupas curtas igual aos meus pais e nunca foi pecado, éramos felizes, mas nunca comentei nada com ninguém, até porque, eu seria castigada como já fui diversas vezes. Sim, apesar de não saber quase nada de nada, eu sempre fui uma garota um pouco rebelde, com uma personalidade bem forte, as irmãs ficavam loucas comigo.
Passamos pela orla da praia, mulheres com uma tipo de short jeans curto e blusas com alças finas mostrando seus braços e suas pernas, homens com shorts e camisas de pouca manga... Não vejo problemas, mas segundo o convento, está faltando pano ali, lá tinha pessoas correndo com seus cachorros, e do outro lado, a praia. Eu nunca vi a praia tão de perto, é tão mágico, tão lindo! Dou uma risada animada. Será que titia deixaria eu ir lá pra sentir a sensação da areia nos meus pés? Ou então será que ela vai deixar eu entrar na água salgada? Com um largo sorriso, observo tudo atentamente. Pessoas usando um sutiã e calcinha na praia, pessoas usando roupas íntimas! Abro a boca pelo espanto e cutuco minha tia.
- Por que eles estão usando poucas roupas assim? É normal isso? – Aponto para as pessoas e olho para minha tia.
- Não, não é normal! Isso é pecado! Deus castiga. – Ela me olha com desprezo e retruca.
Permaneço observando tudo, realmente, a paisagem é muito bonita, pessoas alegres conversando uma com a outra, só não entendi a parte de homens e mulheres andando de mãos dadas, homens com homens, mulheres com mulheres...
Lá no Convento, não podíamos tocar em ninguém, e eu só toquei na Irmã Luzia porque já possuímos um alto grau de intimidade. Não perguntarei titia para ela não ficar ainda mais irritada comigo. Ouço a voz dela um tempo depois dizendo que chegamos, olho novamente em volta e reparo que chegamos em uma casa simples, porém bonita, com muros baixos, um portão de ferro, a casa é branca e tem uma Cruz em cima da porta, o local é um pouco deserto, não tem muitas pessoas e a casa fica uns 50m longe uma da outra. Solto um suspiro, essa será minha nova casa, terei que me acostumar.
Pego minha pequena mochila e adentro na casa de minha tia, observo em volta e a casa é ainda mais simples na parte de dentro, porém, bem grande. Tem um sofá de couro preto, uma mesa de centro simples e os móveis são todos de madeira antiga, a casa aparenta ser um pouco antiga e assombrada, observo tudo atentamente e olho pra um corredor com 3 portas tentando decifrar qual será o meu quarto.
***
- Do canto esquerdo, é o meu e o seu quarto. Seu quarto ficará próximo ao meu, e essa porta à frente do meu quarto, é o banheiro. No seu quarto, comprei algumas roupas apropriadas pra você, presente de 18 anos. – Ela dá um sorriso falso, sem mostrar os dentes – Irei para o meu quarto, o almoço será servido pela Lena às 13h da tarde, esteja pronta, logo após você poderá descansar caso eu não precisar da sua ajuda em casa. Agora são 12:25, você tem 35 minutos para se ajeitar e vir almoçar comigo, horário de almoço não será servido depois das 13h, esteja pronta.
Ela sai de perto e vai pro quarto. Observo os cômodos e vou pro lado esquerdo da sala que tem uma porta, abro a mesma e me deparo com uma mulher nova até, bonita porém descuidada, deve ter lá seus 40 e poucos anos, fazendo o almoço. Ela me olha, dá um sorriso e volta a fazer a comida, deve ser a tal Lena e pelo que eu vi, ela não é muito comunicativa.
Saio dali e decido ir ao meu quarto, passo pelo corredor e entro no pequeno cômodo com a cor branca, uma cama de madeira com um colchão fofo, um guarda roupa antigo de madeira, um criado-mudo de madeira e uma penteadeira em frente à minha cama de madeira também, acho que Helga tem apreço a decorações rústicas. Dou um risinho abafado.
Vou em direção ao guarda roupa e abro o mesmo, me deparo com muitas roupas escuras, torço o rosto numa careta. Vestidos longos com mangas longas, saias jeans até o pé com casacos pretos, moletom marrom, calça jeans largas com a cor desbotada e grande blusas com mangas longas, opto por vestir uma vestido longo com mangas longas e um sapatênis preto já que eu não tenho muitas opções, pego uma toalha e vou para o banheiro. Tomo banho por uns 10 minutos com água fria, molho os cabelos e passo um sabonete inodoro no corpo. Ao ouvir minha tia gritar, desligo o chuveiro e saio do boxe desesperada, ponho minhas roupas íntimas e meu vestido, penteio meu cabelo e faço um coque nele, calço meu sapato, estendo minha toalha no gancho e saio do banheiro correndo à cozinha.
- Até que enfim, menina. Achei que tivesse morrido naquele banheiro. – Minha tia diz irritada e eu me contenho, meu prato já está feito, é sopa de legumes. Como silenciosamente e a observo falando – Após comer, vamos ao mercado fazer algumas comprar que estou precisando aqui para casa. - Assinto já terminando de comer, ponho meu prato na pia e saio para escovar os dentes.
Volto alguns minutos depois, titia já está pronta pra irmos ao mercado, ela pega sua bolsa de ombro e vamos andando para o mercado que fica +/- uns 15 minutos andando, eu não reclamei, adoro andar e é bom conhecer o ambiente, mesmo sendo completamente deserto. Chegamos no mercado, acho que era o maior pela região porque estava cheio, e até que era movimentado, as pessoas estavam com a parte do corpo descoberto, olho com espanto enquanto elas também me olhavam da mesma forma, uns cochichavam e outros riam, eu não entendi mas preferi ficar quieta.
Titia me pede para procurar Ades e pede pra eu ficar a vontade na hora de escolher sabor, sorrio e ando distraída em busca do tal Ades, depois de 5 minutos rodando as fileiras do mercado, encontro junto com outras bebidas que eu não conhecia, olho atentamente aos sabores e sem querer esbarro com uma moça bem bonita com uma garrafa de vidro na mão e o líquido transparente, olho para ela e depois para garrafa, era algo parecido com "Smirnoff", acho que é uma agua diferente, já que é transparente.
- Poxa, colega, olha pra onde anda. – Ela diz me olhando de cima a baixo. - Você é freira? – segura o riso e eu assinto. - Deu pra perceber, sua roupa é horrorosa. Quantos anos você tem? 35? – arqueio as sobrancelhas.
- N..n-ão, tenho 18 anos. E minha tia quer que eu seja freira, tô treinando pra isso. – Olho retraída, e depois desvio o olhar.
- Vamos Eliza, não temos muito tempo. Já peguei o Big Apple, o Relíquia tá esperando nós lá fora. – Ele diz olhado pra nós e quando me vê, arqueia a sobrancelha, sinto meu rosto ficar quente e abaixo a cabeça. Esse moço é bem bonito.
- Sua tia quer que você seja, mas e você? Você quer ser? Você parece ser legal, mas suas roupas são horríveis pra gente da sua idade, tem 18 anos e deveria se cuidar mais. Vou indo, nos esbarramos por aí. – Ela sai com o moço bonito e ele permanece me encarando e logo some da minha vista. Fico confusa, como assim "eu quero ser?", eu não tenho opção. Pego um Ades de pêssego e uva, vou em direção a fileira que minha tia se encontra.
- Você é lenta demais, Luara. – Ela diz indo pro caixa pagar a mercadoria. No caixa ao lado vejo a menina que me parou, ela parece tão contente com suas roupas curtas e seus rabiscos no corpo, o olhar dela se cruza com o meu e eu dou meio sorriso, ela pisca pra mim e sai do mercado.
Volto pra casa com esses pensamentos na cabeça, se o mundo é tão injusto e as mulheres que exibem seu corpo são pecadores e impuras, porque ela veio tentar me ajudar e foi legal comigo? Eu gostei dela, queria ter uma amiga, me sinto muito sozinha. Vou pra minha casa e agarro meu travesseiro já na minha cama. Será mesmo que eu não sou obrigada a ser freira? Titia diz que eu não tenho escolha, mas meu coração diz que eu posso ser uma profissional como mamãe era.. Adormeço com esses pensamentos.
Acordo, e noto que já escureceu, busco um casaco e uma calça de moletom larga e vou ao banheiro tomar banho, lavo meus cabelos e decido deixá-los soltos, nunca deixei solto, apenas para dormir no meu quarto no Convento sozinha. Desço para sala e a mesa já está posta, decido esperar por titia mas ela não aparece, como estou com muita fome, me sirvo da sopa que a Lena fez e ataco tudo, na hora de tirar o prato da mesa, Helga me puxa pelo braço com muita brutalidade.
- Por que não me esperou para jantar? Por que não foi lá em cima e me chamou? Ninguém janta sem mim nessa casa! – Ela diz com muita raiva, me puxa pelos cabelos e vai em direção ao meu quarto comigo, me joga no chão e fecha porta trancando logo depois. Meu Deus, o que eu fiz?
Titia está magoada comigo.
Choro baixinho e adomerço no chão do quarto. Acordo no meio da madrugada com muitos zumbidos na parte de fora da casa, forço minha vista pra enxergar que horas são e percebo que é apenas 23:00 da noite. Abro a janela do meu quarto com delicadeza e vejo uma menina com a pele branquinha, baixinha e com um cabelo enorme sentada encolhida na calçada chorando, me dá um aperto no peito e eu sinto necessidade de ir até lá e dar um abraço.
Pego o banquinho da penteadeira e posiciono na frente da janela, com cuidado dou um pulo pra fora da janela e por pouco, não caio com a testa no chão. Vou andando com passos lentos até a menina que ao me notar, se encolhe e chora ainda mais. Me agacho na sua frente e quando reparo, pude perceber que é aquela menina do mercado.
- Eliza?
- Luara Cavalcanti -
- Eliza? – Indago, nervosa. Ela me olha e respira fundo, como se tivesse aliviada, logo me surpreendo com um abraço. É pecado tocar em outra pessoa, segundo minha tia e todas as leis do Convento? Era. Mas eu não gostei de ver a Eliza daquela forma, logo a retribui com um abraço apertado e carinho nos cabelos.
- Oi, Freira. – Ela ri tristonha e continua – Pega meu celular, preciso ir embora, eu me perdi aqui, vim ficar com um carinha e ele me deu um perdido. Pega o meu celular e liga pro meu irmão, por favor.
- Como assim você ficou? Carinha? Perdido? Do que você tá faland...– Ela me entrega um aparelho grande que deduzo ser um celular, já vi um desses numa revista que peguei escondido da Irmã Luzia, é bem legal de perto, mas não sei mexer. – Eu não sei mexer nisso. – Empurro o aparelho pro seu colo e ela me olha assustada, logo após explode numa gargalhada. Fico magoada pela forma como ela riu de mim e me levanto pronta pra ir embora.
- Calma. Como é seu nome? Como assim você não sabe mexer num celular? Não sabe o que é ficar e afins? Você ficou quanto tempo no Convento? – Ela tagarela sem parar.
- Meu nome é Luara, mas pode me chamar de Lua e eu não sei o que é ficar, nem mexer em celular. Morei 12 anos no Convento e nunca pisei o pé pra fora. – Digo dura e ela se espanta. Será que fui grossa demais?
- Vamos pd minha casa? Lá eu te ensino algumas coisas. – Ela diz batendo palmas e sorrindo.
- Não podia nem sair do meu quarto, quanto mais ir pra sua casa, se minha tia descobre, eu tô perdida. – Digo fazendo bico, eu queria muito sair pra casa dela, conhecer novos lugares....
- Vamos, Lua! Prometo te ensinar muitas coisas e voltar com você antes mesmo da sua tia acordar. – Diz ela com expectativa. Acho que não faz mal, assinto e ela liga para o irmão chamado "Bradock"
- Vamos, Lua. Meu irmão já tá chegando! – Ela abre um sorrisão contagiante e eu sorrio junto.
- É rápido, hein? Eu não posso demorar. – Murmuro e de repente bate curiosidade. – Eliza, porque seu irmão se chama Bradock? – Pergunto pensativa e ela cai na gargalhada de novo, olho pra ela divertida, rindo junto.
- Não Lua, não é nome, é apelido que demos a ele. Seu nome é Luara, sua família te chama de Lua, certo? Então, seu apelido pros próximos é Lua, é a mesma coisa com Bradock. – Na hora que eu ia responder, uma carro bem grande e branco para do nosso lado, Eliza me puxa pela mão e me coloca dentro do carro e entra logo em seguida.
- Porra, Eliza! Tá de sacanagem, cara? Me fez sair do morro, da minha cama, meu dia de folga pra fazer eu te buscar das tuas farras? Toma juízo, garota! – O tom de voz do tal Polegar é rouco e mandão, não sei por qual motivo, mas me arrepio da cabeça aos pés ao ouvir e me encolho no canto.
- Vai se foder, Bradock! Não me enche. Você tá sempre quieto, quase nunca fala nada e quando fala é pra atazanar minha mente? Vai comer uma mulher! – Ela diz isso e eu olho os dois brigando, alternamente.
- Me respeita que eu sou mais velho, piranha! Te estouro na porrada e com você eu falo o tempo todo. – Ele diz com o rosto fervendo. – Agora me conta, quem é essa múmia aí? Ela não fala? Não tem boca? – Olho abismada para ele. Múmia?! Que idiota!
- Ei. Como assim múmia? Por que tá me chamando assim? – Olho frustrada e ele permanece sério.
- Polegar, não provoca, ela tá sendo criada pra ser freira, morou 12 anos no convento e saiu de lá tem poucos dias, não sabe nada da vida. – Eliza diz pro seu irmão e eu fico apenas observando a paisagem do lado de fora.
- Impossivel ela não saber nada da vida, Liz. Ela pode ser ingênua, mas alguma coisa ela deve saber. Já beijou na boca, menina? – Fico pensativa, nunca beijei como meus pais beijavam, mas eu tinha um amigo que quando fui embora ele me deu um beijo na boca e desde então, nunca mais falei com ele.
- Bom, eu nunca beijo como os meus pais se beijavam, com língua e tudo mais. Mas, quando eu fui embora pro convento, eu tive um amigo que me deu um beijinho na boca. – Meu rosto esquenta. – Acho que só, nunca mais tive contato com nenhum garoto. Mas no Convento, diziam que abraçar, beijar, e fazer outras coisas que eu não sei, nos tornaríamos impuras.
- Como assim impuras? Beijar, abraçar e sexo todo mundo faz! Todo mundo pode ter um namorado e se apaixonar. Faz parte da vida, somos um só, temos que aproveitar o máximo possível. Tira essas coisas da sua cabeça que não fazem bem. – Eliza diz revirando os olhos e Bradock permanece serio.
- Ah, ok. Eu também sempre quis ter uma família igual aos meus pais. Quando fui pro Convento, sempre soube que tinha algo errado e que eu não nasci pra ser freira. – Fico pensativa e a Liza ri.
- Isso aí, Lua! Vou te ensinar a fazer muitas coisas e logo mais você vai morar comigo, se sua tia maluca souber de nós, ela vai te trancar e não vai te deixar sair, então boca fechada. Vamos tomar cuidado. Gostei de você!
- Eu também gostei de você, Eliza. – Sorrio. E assim sei que nasceria uma amizade linda
***
Chegamos em um lugar que eu não sei onde é, as ruas aparentam ter pedras no chão, espécie de retângulo, observo assustada alguns homens rodando com a arma atravessada nas costas, mulheres com roupas curtíssimas, crianças jogando bola na rua... Sorri observado aquilo tudo, bares, lanchonetes e outros comércios. O irmão da Eliza passa direto e muito rápido sem dar pra ver quase nada.
Chegamos em uma casa que tinha um portão branco e elétrico que se movia com um controle, a faixada tinha muros altos da cor amarela. Na parte de dentro fiquei encantada, era uma casa dúplex. No segundo andar, tinham duas varandas de quarto com persianas enormes. Na parte de baixo tinha um caminho com pedrinhas e um jardim bem fofo, tinha pilastra de mármore que sustentava o segunda andar e pequenos degraus com uma calçada estreita para porta central que era grande e feita por uma madeira clara, com uma maçaneta prateada. Na lateral da casa tinha uma piscina enorme e bem do lado uma outra ponta que descendo a rampa, dava numa garagem. Olhei com a boca aberta a Eliza riu de mim. Entramos na garagem e tinha muitos carros e motos, eles devem ser podres de rico, o tal Polegar estacionou e saiu, acompanhamos.
Assim que eu o vi, paralisei. Era o homem mais bonito que eu já tinha visto em toda a minha vida! Ele tava há uns 5cm longe de mim, me olhou dos pés à cabeça e eu fiquei vermelha, com o rosto queimando, depois olhou bem no fundo dos meus olhos e sua expressão era vazia. Ele tinha a barba um pouco grande e um brinco no nariz, arqueei as sobrancelhas e o vi sumindo da minha vista, devo ter dado um susto nele com minha feiura.
Tomei um outro susto quando a Eliza pegou na minha mão e me puxou para dentro da casa dela falando, mas eu não prestei atenção em nada, o irmão dela ainda estava na minha cabeça. Tão bonito, pena que é um bruto sem coração.
- Você tem que aprender muitas coisas, Lua. Não é pecado você andar de roupas curtas, não é pecado você querer uma vida fora da Igreja. Você pode ter uma vida normal e ir as missas aos domingos, porque não? Sua tia te força, te esconde, você deve pensar nisso. – Olhei com espanto. Oi? Como assim?
- Eliza, vou pro meu quarto, qualquer coisa chama. – Ela assente e acena com a cabeça pra mim, fico vermelha e encaro meus pés. Não sei porque tenho essa sensação com ele, esse frio no fundo da barriga, coisa estranha, será que estou doente?
- Lua, presta atenção em mim, poxa! Não é pecado viver fora da Igreja, sua tia quer te manter em cativeiro. Não é pecador sair na rua com roupas curtas, é verão, todas as pessoas fazem isso! Você tem 18 anos, precisa curtir sua liberdade, sua juventude, precisa trocar de roupas e ser feliz. – Ela passa o restante da noite me contando o quanto a vida é uma caixinha de surpresas e que eu não preciso viver na Igreja para ser uma pessoa abençoada.
Aprendo muitas coisas com Eliza e descubro que amizades é isso, amizade é união, é compaixão e que também não é pecado encostar, abraçar. Não quero voltar para casa da Helga, Eliza me mostrou tantas coisas legais na internet, que agora eu sei o que é e amei. Como vou conseguir viver longe disso sendo proibida de tanta coisa? Me sinto uma perversa, bem no fundo.
- Liza, não quero voltar pra casa dela. – Abraço-a e encosto minha cabeça em seu ombro.
- Fica aqui comigo, Lua. Você sabe que pode ficar. Tô feliz em poder te ajudar, em ser sua amiga. – Ela retribui meu abraço e afaga meus cabelos.
- Não quero ser um incômodo. – Choramingo.
- Você não é um incômodo, para com isso! Aquela bruxa quer te manter presa, mas isso não vai acontecer. Prometo.
- Obrigada, Liza. Acho que descobri em somente uma noite em como o mundo pode ser bom, mas não sei se minha tia deixa eu sair de casa. – Olho e dou um sorriso triste. Ela traz um sanduíche com coca cola, eu nuca tinha comido uma coisa tão gostosa. Vimos um filme que eu nunca tinha visto e dormimos, sem nem perceber.
***
Acordo e reparo que estou na casa da Eliza, me desespero com os olhos arregalados, corro pro quarto pra fazer minhas necessidades e desço voada pra ver se encontro minha amiga.
- Meu Deus! Minha tia vai me matar. Tem misericórdia de mim, Senhor! – Grito desesperada e junto minhas mãos em forma de oração olhando pro céu. Ouço um baralho e desvio minha atenção pra cozinha, me assusto em ver o irmão da Lua comendo um sanduíche e sem blusa. Meu coração acelera.
- Oh... Des-desculpa. Bom dia. – Ele me olha cima a baixo com apenas um moletom uma blusa de alcinha, acena a cabeça e vira as costas. Esse homem só sabe acenar a cabeça? Ele não tem língua? Não fala? O acompanho pensativa, preciso voltar pra casa e Eliza não tá aqui.
- Olha, perdão incomodar mas eu gostaria de saber se você pode me levar para casa. Minha tia vai me bater muito. – Olho pra baixo e ele faz careta pensativo.
- Cadê Eliza? Por que veio pra cá se não pode? Puta que pariu, ein! Dá próxima vez pensa bem antes de vir, tenho obrigações, não da pra ser seu motorista particular. – Ele fala e eu dou de ombros. Que homem bruto. Ele sai e volta com uma blusa. – Vamos logo antes que eu meta o pé pra rua e te deixe aí. – Sigo ele até o carro e vou na parte de trás.
- Você é bem bruto, né? Grosso e ignorante.
- Olha, aprendeu novos adjetivos, to vendo que a Liza te ensinou bastante coisa durante a noite. – Ele disse irônico.
- Posso vir do Convento, mas não sou idiota. – Rolo os olhos e permaneço quieta. Não falamos mais nada em todo o caminho, chegamos na minha casa, agradeço correndo e saio.
Ao chegar perto da janela do meu quarto que antes estava aberta, agora encontra-se fechada, engulo seco e absorvo toda coragem do mundo pra bater na porta da frente. Quando minha tia me vê, me puxa pelos cabelos e me dá um tapa no rosto, arregalo os olhos.
- Tá ficando louca? – Grito sentindo outro tapa.
- Garota, eu falei para não sair! Não quero você saindo, escutou? E por que está gritando comigo? Ficou maluca? – Puxa mais meus cabelos e eu nego. – Ficarei te olhando 24h. – Ela fala e sai. Corro para meu quarto chorando, ela me bateu!
Não poderei mais ver a Eliza! Agarro meu travesseiro tentando encontrar uma solução e adormeço. Acordo e olho pra minha escrivaninha com um relógio sobre ela, noto que são 18:30 e que faltam 30min pro jantar, levanto e vou pro banheiro tomar banho, minha cara está inchada de tanto chorar e meu rosto tá vermelho, fico cerca de 15 minutos sentindo a água morna pelo meu corpo, saio do banho e visto uma saia jeans até a canela, um casaco fechado vermelho e meu sapatênis, essa roupa é horrível em comparação com as roupas da Liza, lembro dela e fico triste. Será que ela vem me ver? Não sei chegar na casa dela. Ouço os gritos da bruxa, como diz Liza, e vou até a cozinha.
- Coma essa comida! Estou de saída. – Ela pega sua pequena bolsa e aponta para o prato. – Se pensar em sair, vai se ver comigo.
- Mas para onde você vai, tia? – Pergunto colocando um pouco do arroz com feijão na boca.
- Para nenhum lugar que te interessa. – Empina o nariz e sai andando. Essa mulher tem problemas, penso. Ao acabar com minha comida, subo para o meu quarto e me assusto ao ver Eliza montada em um moto preta, muito bonita. Aproximo-me da janela rindo.
- Sua louca, o que está fazendo aqui?
- Estamos parecendo casal de adolescente que saem escondido na madrugada. – Ela ri e pisca.
- Casal tipo minha mãe e meu pai? – Indago.
- Sim, Lua. É quando duas pessoas se apaixonam uma pela outra e namoram. Fazem muitas coisas boa juntos, quando você descobrir, vai saber quem é essa pessoa especial. Agora vamos pro Morro, comprei umas coisas para você! – Ela abre um largo sorriso e eu encaro o chão. – Que foi, Lua?
- Helga está no meu pé, não posso sair, ontem ela me bateu! E se ela quiser me levar pra longe de você? Você é minha única amiga, não quero te perder como aconteceu com papai e mamãe. – Com os olhos marejados, permaneço encarando o chão. Ela sai de cima da sua máquina e vem em minha direção e como a janela é baixa, ela levanta meu queixo e me olha.
- Tá bom Lua, vou te dar um celular e o carregador, seu chip é de conta, pode mexer nas suas redes sociais e me mandar mensagem. – Redes sociais? Mensagem? Eu nunca nem toquei em um telefone, como ela quer que eu mexa assim? Ela parece pensativa e ri. – Esqueci que você é novata nessas coisas. Aqui já estão baixados algumas coisas, WhatsApp e Facebook. Pesquisa sobre eles que você vai descobrir. Quando eu te mandar mensagem, você clica, desbloqueia e me responde. Prometo que vou voltar mais vezes pra te ver e daqui uns dias te levar pra minha casa, agora vou embora. – Ela sobe em cima o e sai dando um tchauzinho com a mão. Faço a mesma coisa que ela e fecho a janela.