A dor me moldou
Saudades, a dor que o tempo não cura
HÉRICA FERNANDES
O anúncio do voo ecoava pelo alto-falante como uma sentença.
Orlando. Portão 17. Última chamada.
Eu fechei os olhos e respirei fundo, sentindo o cheiro de querosene misturado ao da minha própria roupa, ainda manchada do ontem que eu queria esquecer.
Apertei o passaporte entre os dedos, e junto dele, a ultrassonografia amassada.
Aquela pequena sombra dentro de mim era tudo o que restava de um amor que o tempo não teve tempo de salvar.
Eu vou te proteger, meu amorzinho...murmurei, a voz arranhando a garganta.
Não vou deixar ninguém te tocar. Ninguém vai te tirar de mim.
As pessoas passavam apressadas, arrastando malas, trocando sorrisos apáticos.
Ninguém via a mulher que estava ali, só o corpo dela tentando fingir que ainda era inteiro.
Mas eu não era mais.
O som do alto-falante se misturou à lembrança.
O chão frio, o sangue.
O nome dele escapando de mim, como se dissesse um último adeus.
Matteo.
- Luta, por favor... Minha voz voltava como um eco distante dentro da cabeça.
- Você prometeu. A gente vai ter um bebê...
O olhar dele, o mesmo que um dia me fez acreditar em eternidade, foi apagando devagar.
O tempo parou. A cor sumiu.
E eu fiquei ali, tentando reanimar o impossível.
A ambulância chegou tarde demais.
Os passos, as vozes, o barulho metálico das macas, tudo distante, como se o mundo tivesse abaixado o volume pra não ouvir meu grito.
Quando o pai dele apareceu, o ar da rua mudou.
Aquela presença, fria, calculada, vestida de terno preto, carregava poder e sentença.
O homem que decidia o que devia viver e o que devia ser esquecido.
Se eu ficasse, ele tomaria o que era meu.
O bebê seria um Santouro, herdeiro de um império sujo de segredos.
Mas não teria o direito de ser livre.
Então eu corri.
Agora, no aeroporto, as lágrimas desciam sem som.
A aeromoça conferiu meu bilhete e me desejou boa viagem.
Se soubesse o que eu levava comigo, teria dito boa fuga.
Subi as escadas metálicas com o coração batendo fora do peito.
Cada degrau era uma despedida.
Da cidade. Dele. De quem eu fui.
Pela janela do avião, o amanhecer rasgava o céu em tons de cobre.
A cor preferida de Matteo.
Apertei a ultrassonografia contra o peito e sussurrei:
- Eu vou te guardar.
Vou te criar longe das promessas quebradas, longe do sangue que matou teu pai.
As turbinas rugiram.
A cidade encolheu.
E o juramento saiu de mim antes que eu pudesse medir:
- Eu nunca vou voltar.
Mas o destino, como o amor, não entende a palavra nunca.
E naquele voo, entre nuvens e silêncio, começou tudo o que eu passaria a vida tentando esquecer.
STEVEN SANTOURO
Eu não queria estar ali.
O cheiro de flores, vela e chuva me embrulhava o estômago.
Velórios sempre me pareceram uma espécie de castigo público, gente que finge consolar, enquanto cada um carrega a própria ruína por dentro.
Fiquei à sombra de uma árvore, observando o pátio do cemitério encharcado.
O vento frio cortava o rosto, e por um instante, pensei em ir embora.
Mas não fui.
Há dores das quais a gente não foge.
As pessoas chegavam de preto, com guarda-chuvas tremendo como asas de corvos.
Rostos que eu conhecia, outros que fingiam conhecer o morto.
O caixão ainda não tinha chegado.
E naquele intervalo miserável entre a espera e o adeus, eu descobri um lado de mim que ainda não conhecia.
Não era tristeza.
Era raiva.
Bruta, quente, absurda.
Trinta e um anos e um coração já velho demais.
Meu irmão. Matteo, foi tudo o que eu nunca consegui ser.
Calmo, leal, o orgulho da família.
E agora, ele estava dentro de um caixão que a chuva insistia em lavar.
O carro fúnebre dobrou a esquina.
O barulho do motor cortou o silêncio como faca.
As vozes baixaram.
O caixão desceu devagar, coberto por flores brancas que logo murchariam.
Fui até ele.
Li o nome gravado na placa dourada.
Matteo Santouro.
Meu irmão.
Meu herói.
O único que ainda acreditava que a gente podia ser bom, mesmo vindo de onde viemos.
Ajoelhei ao lado.
A madeira refletia o céu cinzento, e o meu próprio rosto.
O punho fechou sem que eu percebesse.
Uma lágrima caiu, quente, impaciente, misturada à chuva.
Sussurrei, baixo o bastante pra ninguém ouvir:
- Eles vão pagar.
Porque, dentro de mim, algo havia quebrado de vez.
E o que restou não sabia mais rezar, só prometer.
Quando o padre começou a falar, eu me afastei.
O som das palavras sobre céu e redenção não fazia sentido.
Céu era pra quem acreditava em perdão.
Eu acreditava em dívida.
Meu pai se aproximou logo depois.
O rosto duro, o luto disfarçado de poder.
- Onde você estava, Steven?
- Aqui.
- Honre o seu irmão.
- Cada um honra à sua maneira, pai.
O olhar dele me atravessou.
Talvez naquele instante ele tenha percebido o que eu já sabia:
O filho mais novo tinha herdado a dor, e com ela, a sede de justiça.
Saí antes de ver meu irmão ser enterrado.
Ouvi os passos do meu pai atrás de mim.
Ele me puxou pelo braço com força.
- Volte agora, moleque.
Balancei a cabeça.
- Não dá, pai. Essa não será a última lembrança que terei do meu irmão.
Dei as costas.
- Steven, volte agora! Ele gritou, mas eu continuei andando, com a chuva apagando o som dos passos.
Saí do cemitério enquanto a chuva engrossava.
Atrás de mim, o som das pás de terra batendo na madeira parecia o compasso do que restava do meu coração.
Entrei no carro, olhei pro vidro embaçado e disse pro silêncio do motorista:
- Descansa em paz, meu irmão.
Porque no mundo dos vivos, não haverá paz pra quem te tirou de mim.
A cidade passava lenta pela janela, coberta de cinza e memória.
E foi ali, naquele dia, que eu aprendi:
Quem nasce no fogo, aprende a queimar cedo.
E a dor, quando não mata, ensina a destruir.
Quando o destino marca hora sem avisar
Nove da manhã.
O carro preto cortou o trânsito de Miami e parou diante da fachada espelhada da Santouro Holdings.
Steven desceu, ajeitou o paletó e atravessou o saguão com o mesmo passo de sempre, firme, preciso, o tipo de presença que até o silêncio obedecia.
O elevador o levou direto ao último andar.
O escritório o recebeu com o cheiro habitual de couro novo, café requentado e poder contido.
Daniel, o secretário, o esperava à porta, com um envelope dourado nas mãos, e a cautela de quem já sabia que certas notícias tinham peso demais.
- Senhor, chegaram convites do Global Medical Innovation Summit. A voz de Daniel era polida, como a de quem sabe andar sobre vidro. A empresa é uma das patrocinadoras do evento.
Steven passou por ele sem diminuir o passo.
- Jogue fora.
- Talvez queira reconsiderar. Daniel manteve o tom neutro. O congresso terá cobertura internacional. Sua ausência será notada.
- A ausência é meu melhor marketing. A resposta veio seca, medida. Ele se sentou, girou a cadeira e ficou olhando o horizonte de prédios pela parede de vidro.
Daniel pousou o envelope sobre a mesa, hesitante.
- A médica indicada para o caso do seu pai vai estar lá. Pausa breve. Ela será premiada esta noite.
Steven ergueu o olhar, desconfiado.
- Nome.
- Dra. Hérica Fernandes do Group Orlando Memorial Hospital.
O nome quebrou o ar.
Por um instante, o escritório inteiro pareceu escutar.
Steven o repetiu em silêncio, saboreando o som, Hérica.
O nome não lhe dizia nada. Mas o silêncio depois dele dizia tudo.
Um leve incômodo atravessou o peito, como se o destino tivesse soprado uma nota que ele ainda não sabia decifrar.
- Pode sair. Disse, recostando-se na cadeira.
Daniel obedeceu, e o escritório voltou a ser o mesmo espaço caro e estéril de sempre.
Steven pegou o convite, girou-o entre os dedos, leu o nome impresso e o deixou de lado.
Não respondeu se iria.
O telefone tocou.
No visor: Pai.
- Já falou com ela? Perguntou Domênico Santouro, sem sequer um cumprimento.
- Ainda não.
- Quero que me traga resposta hoje.
- Está bem.
- Hoje, Steven. A voz veio rouca, firme, como aço. Pague o que for preciso, faça o que for preciso, mas traga essa mulher até mim.
A ligação terminou.
O silêncio ficou.
Steven olhou o celular, imóvel, o incômodo crescendo como um eco antigo.
Virou o convite na mesa. O nome da médica permanecia ali, Hérica Fernandes, pulsando dentro dele como uma promessa que não havia feito, mas que o destino já cobrava.
Enquanto em Orlando o dia morria, o som era outro: zumbido de monitores, respiração filtrada por máscaras, o compasso ritmado do bisturi elétrico.
Hérica conduzia a cirurgia como quem comanda uma orquestra.
Cérebro exposto, luz intensa, foco absoluto.
- Aspiração leve. Pediu.
- Sim, doutora. Respondeu o residente.
O tumor parecia um nó de sombra entre vasos rosados.
A pinça bipolar brilhou. O tecido respondeu.
O cheiro metálico do sangue se misturou ao do álcool hospitalar.
Ela sabia que o bisturi cortava mais que carne, cortava a distância entre a vida e o arrependimento.
Três horas depois, a hemorragia estancou. O monitor cardíaco voltou a marcar ritmo regular.
- Fechamento padrão. Anunciou com calma.
O silêncio da equipe era o de quem acabara de ver um milagre e fingia ser rotina.
No vestiário, já sem o gorro, ela prendeu o cabelo num coque simples e se olhou no espelho.
A pele pálida, o olhar exausto.
O relógio marcava quase seis da tarde. O evento começaria em duas horas.
Na sala de descanso, a equipe comemorava.
- Doutora, vai se atrasar pro prêmio! Brincou Megan, empolgada.
- Se eu pudesse, trocava o palco por café, vinho, um bom livro e cama. Respondeu, tentando sorrir.
As risadas preencheram o ambiente.
- A senhora precisa sair mais. Insistiu Megan.
- Eu saio. Todos os dias. Para o centro cirúrgico.
- Não é disso que estou falando. Megan sorriu. Falo de viver. De dançar, se permitir... beijar na boca, talvez.
Hérica levantou o olhar, o rosto sereno, mas a voz distante.
- Eu já vejo gente demais. E isso é mais do que suficiente.
As risadas cessaram.
Ela pegou a bolsa, desligou o celular e saiu.
Não havia tempo, nem espaço, para o que chamavam de vida.
Em Miami, o sol se escondia atrás dos prédios quando Steven entrou no closet.
Camisa branca, terno escuro, relógio herdado do pai.
Não era vaidade, era armadura.
Daniel o esperava no hall.
- Vai mesmo? Perguntou.
Steven ajeitou o paletó.
- Tenho uma promessa a cumprir.
O motorista abriu a porta do carro.
No reflexo do vidro, o homem que olhou de volta parecia pronto pra qualquer coisa, menos pra sentir.
Em Orlando, Hérica chegou em casa com o tempo contado.
O vestido azul-petróleo refletia sob a luz do abajur: decote discreto, tecido fluido, elegância sem esforço, o tipo que não busca atenção, mas prende o olhar.
Prendeu o cabelo num coque baixo, colocou o colar de pérolas que fora da mãe.
O relógio marcava sete.
Pegou a bolsa e saiu, o som dos saltos ecoando pelo corredor.
Enquanto em Miami a noite se acendia, o salão principal do Global Medical Innovation Summit fervilhava.
Telões, flashes, jornalistas, o som metálico de taças e vozes.
Steven entrou pelo fundo, o olhar de quem avalia um campo de guerra.
Sentou-se em um camarote lateral, afastado o bastante para observar sem ser notado.
O mestre de cerimônias subiu ao palco.
- Senhoras e senhores, boa noite. Daremos início à homenagem aos profissionais que revolucionaram a medicina nos últimos anos.
O público aplaudiu.
Steven manteve-se imóvel, as mãos unidas, o olhar fixo no palco.
Esperava apenas o nome que já sabia que viria.
- E agora, o prêmio de excelência em neurocirurgia vai para a Dra. Hérica Fernandes, do Orlando Medical Center!
Aplausos. Luzes. Câmeras.
O som subiu, o salão respirou junto.
Hérica subiu os degraus lentamente.
De costas, o vestido azul movia-se como mar sob vidro e luz.
Cumprimentou o apresentador, recebeu o troféu.
O cerimonialista estendeu a mão para ajudá-la a se posicionar diante do microfone.
Ela respirou fundo, ajeitou o cabelo.
E virou-se para a plateia.
O som dos aplausos pareceu pulsar dentro dele.
Cada batida lembrava o compasso de algo que Steven não queria sentir.
O rosto dela, o mesmo traço de firmeza que Matteo tinha descrito anos atrás, e então tudo parou.
Steven ergueu o olhar.
O nome, o rosto, o tom de voz, tudo se encaixou num golpe surdo, como se o passado o tivesse encontrado no meio da multidão.
O ar pareceu rarefeito.
O som do público virou ruído distante.
A mulher que o pai queria que o salvasse.
A mulher que ele não sabia que já o estava salvando.
O impacto não veio do prêmio.
Veio do reconhecimento.
Do destino, que enfim marcara hora, sem avisar.
Onde o reconhecimento toca a ferida certa
STEVEN SANTOURO
Eu nunca gostei de eventos sociais, mas aprendi a suportá-los como quem suporta um corte, firme, sem reclamar. Depois da premiação, o salão em Miami virou exatamente o que eu esperava: luzes douradas, champagne, gente sorrindo alto para disfarçar o vazio.
De cima, da galeria, observei o salão.
Os jornalistas circulavam como abelhas em volta de gente perfumada demais.
E no centro, ela, Hérica Fernandes, falava com o diretor da clínica e dois médicos estrangeiros.
Ela segurava a taça de champagne com a delicadeza de quem tem o controle até do gesto mais simples.
Não tentava chamar atenção; mesmo assim, era impossível não notar.
Enquanto eles falavam, ela ouvia com o queixo levemente inclinado, um meio sorriso contido.
Nada no corpo dela denunciava vaidade, mas tudo gritava presença.
A cada palavra que o diretor dizia, ela reagia com um aceno breve, uma concordância sutil, como se calculasse o tempo exato entre a razão e a cortesia.
Quando um dos médicos se aproximou demais, ela recuou um passo, não por recato, mas por hábito de defesa.
E eu entendi que aquela mulher carregava mais segredos do que títulos.
Eu me encostei no corrimão da galeria, observando-a como quem lê algo que ainda não sabe se deve compreender.
O vestido azul petróleo se movia a cada passo; o tecido refletia a luz das luminárias de cristal.
Os olhos, mesmo à distância, pareciam absorver tudo, atentos, mas longe.
Não havia vaidade, mas havia uma muralha de controle.
E aquilo me intrigou mais do que qualquer beleza.
Uma garçonete parou ao meu lado oferecendo champagne. Peguei a taça sem olhar.
No reflexo dourado do líquido, vi o rosto dela.
E por um instante, senti o tipo de curiosidade que eu costumava reprimir.
Não era interesse. Era uma sensação antiga, como se eu reconhecesse algo que nunca vi.
Decidi descer.
Caminhei devagar entre os grupos, fingindo ouvir cumprimentos.
O ar estava carregado de perfume e sons falsos, risadas ensaiadas, elogios caros.
Mas o mundo pareceu silenciar quando o Dr. Miles Anderson se virou e pousou a mão no ombro dela.
Ela o olhou com respeito, inclinando levemente a cabeça, e foi então que ele me notou.
- Senhor Santouro? Disse Miles, surpreso. Que honra! Achei que não tivesse vindo. Não o vi chegar.
- Eu estava na galeria superior. Respondi. Observando. Parabéns pelo evento.
Ele assentiu, orgulhoso, e sorriu.
Então tocou no ombro dela, chamando sua atenção.
- Doutora Hérica, preciso apresentá-la a alguém especial. Este é Steven Santouro, nosso maior patrocinador internacional.
Ela virou.
Foi rápido. Um segundo, talvez menos.
Mas foi o suficiente.
A luz refletida no salão desenhou seus olhos com uma intensidade quase irreal, azuis. Não claros e vazios, mas profundos, como se escondessem mar e tempestade.
Pele clara. Cabelos loiros presos em um coque baixo impecável.
O vestido azul petróleo abraçando o corpo sem exagero.
Ela me encarou.
Sem vacilar.
E sorriu o suficiente para desestabilizar a minha calma.
- Prazer. Disse.
- O prazer é meu, senhorita Fernandes. Respondi, sentindo algo estranho percorrer meu estômago. Aliás, peço licença para roubar a doutora por um instante. Preciso de uma palavra a sós.
Miles sorriu.
- Claro, claro. Ela é toda sua. Mas não por muito tempo, a imprensa já está esperando.
E se afastou.
Ficamos frente a frente.
Silêncio de meio segundo. Longo demais para ser casual.
- Primeiro, parabéns pelo prêmio. Falei. Segundo... você é muito mais jovem do que eu imaginava. E mais linda do que qualquer reportagem descreveu.
Ela pareceu não saber se agradecia ou desviava.
- E terceiro, e mais importante, não estou aqui pelo evento. Vim para conhecê-la. Em nome do meu pai, Domênico Santouro, gostaria de convidá-la a ir ao hospital onde ele está internado. Ele tem um tumor cerebral. Quer... que você o opere.
O cristal da taça dela tremeu levemente.
Só quem observa demais percebe isso.
Ela piscou devagar.
- Desculpe, senhor Santouro... Você... me pegou de surpresa.
- Me chame de Steven. Interrompi. Sei que estou diante de uma menina, mas só tenho quarenta anos.
Ela olhou para o chão, mordeu o lábio antes de responder, quase rindo da ironia.
- Senh... Steven. Minha agenda é apertada. Posso analisar o caso, mas vocês poderiam levar o prontuário à clínica. Eu entro muito cedo, saio muito tarde... e ainda tenho um filho de nove anos que quase não vejo.
Filho.
A palavra atravessou o ar.
- Então você é casada? Perguntei sem pensar.
- Não. Ela enrijeceu. Meu... namorado morreu. Justamente na noite em que eu daria a notícia da gravidez. Ele... não sobreviveu.
Silêncio.
Aquela dor não era encenada. Era sutil e verdadeira, como quem sangra por dentro, todo dia.
Eu respirei fundo.
- Quer... ir comigo lá fora? Só um minuto. Prometo não roubar muito do seu tempo.
Ela hesitou.
Olhou o salão lotado. Olhou para mim.
- Promete?
- Sim.
Ela colocou a taça na mesa.
- Tudo bem.
Caminhamos lado a lado até a porta lateral.
A noite de Miami tinha cheiro de grama molhada e mar distante. O jardim estava quase vazio, luzes baixas, vento leve.
Parei no bar externo, pedi um vinho tinto.
- Duas taças, por favor.
Ela ficou de braços cruzados, observando.
Sentamos em um banco de madeira sob uma árvore iluminada.
Entreguei a taça.
- Às vidas difíceis. Disse, erguendo a minha.
Ela encostou sua taça na minha, sem desviar os olhos.
- Aos começos difíceis.
O vidro tilintou.
E por algum motivo que eu não sei explicar... aquele som ficou preso dentro de mim.