Me tornar CEO da família Dylon foi maravilhoso porque me deu o controle de tudo... menos da minha própria vida. Desde o dia em que fui escolhido para cuidar dos negócios da família, assumi a maior responsabilidade do mundo, e isso me fez abandonar minha vida de mulherengo. Eu adorava sair com várias mulheres diferentes, e hoje tenho que me contentar em escolher uma qualquer, só para satisfazer meus desejos.
Minha fama de ex-mulherengo levantou um alerta para minha tia casamenteira, que enfiou na cabeça que preciso me casar porque completei 36 anos. Mal sabe ela que um casamento, a essa altura da vida, seria mais um problema para a minha lista.
Por isso, fujo das mulheres que a tia Leide me apresenta. Ela me pinta como o homem mais perfeito do mundo, mas estou longe de ser. Prefiro ficar solteiro.
Hoje é minha folga, e decidi praticar exercícios no clube de tênis. A caminho de lá, muito pensativo, observo a cidade inteira já decorada para o Natal. As ruas estão mais iluminadas que o habitual, e casais se reúnem com os filhos para tirar fotos, colecionando memórias em álbuns de família.
Ao chegar no clube, encontrei meu primo Haniel e logo começamos a jogar. Como sempre, eu estava ganhando. Entre um movimento e outro, paramos para beber água.
- Já cansou de perder, Haniel? - pergunto.
- Estou cansado, sim. Fazia tempo que não vinha aqui. É bom você ir aproveitando, porque um dia ainda vou te vencer! Dylon, você vai ao aniversário da tia Leide neste fim de semana? - Haniel pergunta.
- Não recebi o convite, graças a Deus! - digo, levantando as mãos para o céu. Haniel sorri.
- Recebeu com certeza! Eu recebi, por que você não receberia? O convite é luxuoso, procure no meio das correspondências que está lá. - A fala de Haniel muda meu semblante, pois minha secretária sempre me avisa sobre as correspondências.
- Lembrei agora que há correspondências para ler. Esses eventos são uma porta de entrada para ela querer me casar. Quando estamos reunidos, a tia não perde a oportunidade de me apresentar alguma moça de família - falo, desanimado.
- Casamento é problema, eu sei. Mas, um dia antes do aniversário, a tia Leide liga para a família inteira, lembrando a todos. Então, não vai fazer diferença ter ou não recebido o convite - Haniel dá de ombros.
Como não tenho saída, vou ter que ir ao aniversário dela. Pedirei à minha secretária para providenciar o melhor presente para a tia Leide. Continuei a jogar com Haniel, que hoje só saiu de casa para perder para mim.
Depois do jogo, Haniel foi embora. Quando peguei minha bolsa para ir também, comecei a sentir um formigamento nos braços e um suor frio. Voltei rapidamente e me sentei em um banco. Olhei ao redor para ver se não tinha ninguém me vendo, pois não estava bem. Nunca tinha sentido algo assim antes. "Não deve ser nada demais", pensei. "Estou muito estressado e peguei pesado no tênis hoje."
Após uma leve melhora, voltei para casa. Ao chegar, pedi as correspondências à minha secretária e vi o convite do aniversário no meio das cartas. O abri e enviei uma mensagem imediatamente para a tia Leide, confirmando minha presença.
Não sei o que o aniversário deste ano me reserva. Uma coisa é certa: estou até ansioso para ir, quem sabe eu também me livro de ter que comemorar o Natal com eles.
Anoiteceu e fui para uma boate dançar e aproveitar a folga. Encontrei alguns amigos dos tempos de colégio e, claro, não poderia passar a noite sem a companhia de uma mulher para suprir minhas carências e desejos. Enquanto beijava a desconhecida, relaxava. Os sintomas que senti hoje são, com certeza, apenas falta de viajar e curtir a vida como antes.
Viajei o mundo em uma missão com um grupo de amigos médicos, logo após o término de um longo namoro. Eu vivia totalmente dependente, e essa viagem veio como uma válvula de escape para tentar sobreviver à dor que me consumia. Nela, vivi experiências que jamais esquecerei, e tudo ficou registrado na minha câmera fotográfica. Embora eu trabalhe com odontopediatria há anos, nessas missões atendi pessoas de todas as idades que precisavam de cuidados. Em momentos em que me sentia um "nada", um abraço de agradecimento me fazia sentir viva e, às vezes, até importante para o mundo.
Hoje estou no Peru. Já faz um ano que viajo de país em país, participando de projetos sociais voltados para a saúde bucal. Senti na pele o que a desigualdade social faz com os seres humanos, mas também aprendi que minha dor é sempre menor que a do outro. Sempre há alguém sofrendo mais do que eu.
Nesse tempo longe da minha família, meus pais me pediam para voltar para casa, com saudades. Eu sempre os respondia mostrando o belo trabalho que estava fazendo e dizia que milhares de pessoas precisavam de mim. Mesmo como filha única e rica, levo uma vida simples, seguindo meu próprio caminho em busca de fazer o bem.
Depois de mais um dia de trabalho voluntário, tomei banho e durante todo esse tempo descobri que o dinheiro não é tudo. Quando ele não preencheu, muitas das vezes, o vazio que senti. E num quarto no hotel, tomei um banho e tive a coragem de me encarar no espelho. Vi o quanto emagreci sem fazer dieta maluca. Eu sempre lutei com a balança, pois nunca fui nem magra, nem gorda, mas sempre tive medidas a mais, o que me fazia ter uma autoestima baixa por não me encaixar nos padrões de uma mulher de capa de revista. Para agradar os outros, eu tentava ser vaidosa ao máximo, em vez de me agradar. Durante essa missão, evitei me olhar no espelho e me larguei totalmente. No entanto, ao me encarar, percebi o quanto meu corpo está legal. Dany entrou no quarto e me olhou com uma cara estranha.
- Ariana, está tudo bem com você? - perguntou, tocando em meu braço, assustada.
- Sim! - respondi, virando-me para ela.
- Confesso que me assustei. Você estava parada em frente ao espelho sem piscar.
- Estou admirada com o quanto emagreci. Você, mais do que ninguém, sabe que nunca fui magra! - falei, saindo da frente do espelho.
- Está perfeita. Ariana, você é linda. Esse ano viajando de um lado para o outro, longe de tudo que era tóxico, permitiu que você fosse você mesma. Pelo menos para alguma coisa o fim do seu namoro serviu.
- Pelo menos isso. Quando eu voltar para os Estados Unidos, vou precisar renovar o meu guarda-roupa - comentei, desanimada.
- Ariana, me escuta! Está na hora de você sair e conhecer alguém novo. Não é porque o "tal lá" te trocou por outra que você vai passar a vida toda nessa tristeza. Olhe para esse corpo! Saiba que você é o sonho de alguém - Dany disse, animada, enquanto arrumava a mala dela.
Hoje foi nosso último dia de missão no Peru, e eu também arrumei minha mala para retornar, já que o Natal se aproxima e nada mais justo do que passar essa data ao lado da minha família. Enviei uma mensagem para os meus pais avisando que estava voltando, e eles ficaram muito felizes.
Já era mais do que a hora de voltar. Esse ano longe de tudo me transformou em uma nova mulher. Alguém que se aceita do jeito que é, sem máscaras, sem perder o que há de mais lindo em mim, que é a simplicidade e a forma como acolho as novas pessoas que surgem na minha vida.
No dia seguinte, de malas prontas, viajamos todos juntos, assim como viemos. A equipe toda estava sorrindo, com a sensação de dever cumprido.
Após horas de viagem e escalas, chegamos a Orlando. Meus pais estavam lá, de braços abertos e com os olhos cheios de lágrimas. Eu os abracei forte, como se fosse nosso último abraço. Eles ficaram admirados ao ver o quanto emagreci e me encheram de elogios.
- Filha, você está perfeita! Saiba que você é nosso orgulho - disse minha mãe, emocionada.
- Amo vocês! - falei, olhando para os dois.
- Ariana, nunca mais inventa de passar tanto tempo longe de nós. Eu não aguento mais ficar longe da minha princesa - meu pai falou.
- Vim para ficar com vocês, prometo que não vou viajar tão cedo.
- Já temos um evento em família para ir no fim de semana, o aniversário da Leide Dylon - minha mãe disse, e eu me lembrei da aniversariante.
Enquanto íamos para o carro, minha mãe já estava tentando me convencer a ir a essa festa com eles. A Leide faz parte da maior família da cidade, e eu não conheço nem a metade.
No caminho para casa, vi a cidade enfeitada. Amo a magia que o Natal traz nessa época. É algo que transmite amor, paz e união. A cidade, como sempre, estava linda, e eu me apaixonei por cada detalhe, sonhando com dias melhores para todo o mundo.
O final de semana chegou e eu estou em busca do melhor smoking no closet. Afinal, eu sei que toda a sociedade estará presente no famoso aniversário da tia Leide. Visto-me e, diante do espelho, penteio os cabelos. Passei meu forte perfume, pois já é hora de ir.
Eu me dirigi até a mansão de Leide Dylon, a minha única tia que não tem filhos, mas que confia em mim como ninguém. Afinal, fui criado por ela e confio que ela me confiou para cuidar de tudo que é dela.
Quando cheguei na mansão e vi tudo reluzindo como ouro, acenei para a tia Leide e fui em sua direção.
- Tia, parabéns! A festa está perfeita - Falo, abraçando-a. Em seguida, ela me encara.
- Que bom que veio! Eu amei o presente que enviou esta manhã. Falei para mim mesma que só ia agradecer a você pessoalmente. Estou muito feliz com a sua presença aqui, você tem que me visitar mais vezes. - A minha tia fala.
- A minha vida nunca mais foi a mesma depois que assumi a presidência. A senhora me entende, não é? - Pergunto, piscando para ela.
- Entendo perfeitamente. Está com saudade da vida de mulherengo que levava. Alguém tinha que criar juízo para cuidar da riqueza da família.
A tia Leide foi recepcionar o restante dos convidados e eu fico bebendo uma taça de champanhe, olhando ao meu redor. Já vejo belas mulheres chegando. Alguns primos, ao me verem, fazem-me companhia e, bastante animados, fomos dançar juntos.
Quando voltei para a mesa, Haniel já se encontrava na festa, acompanhado de seus dois filhos. Ficamos fazendo companhia um ao outro, conversando com os demais convidados. Quando ficamos a sós, ele pergunta:
- A tia Leide ainda não te apresentou nenhuma mulher? Ela convidou a cidade inteira.
- Ainda não. É bom que ela não invente de vir me apresentar ninguém, porque não quero ninguém no meu pé nessa festa, querendo entrar na minha vida à força - Falo, deixando Haniel sozinho e indo para a pista de dança.
Dancei duas músicas animadas. Tia Leide é pioneira em realizar festas maravilhosas, e essa, para mim, está sendo a melhor. Hoje tem algo diferente aqui. De repente, a tia segura minha mão.
- Venha comigo um instante - Tia Leide fala ao meu ouvido.
- Para onde, tia? Aqui na pista de dança está tão bom - Resmungo.
- Preciso te apresentar a uma garota maravilhosa - Tia Leide fala, me puxando em meio às pessoas. Eu reviro os olhos.
- Ah, não, tia. Estou bem solteiro - Resmungo e Haniel ri de mim ao me ver sendo arrastado por ela.
Acompanhei a tia Leide até onde uma mulher de estatura mediana estava em pé, usando um vestido longo verde-escuro, com os cabelos castanhos levemente presos. Com um ar de timidez, ela nos olha, surpresa, com seus olhos arredondados. Uma linda mulher.
- Ariana, deixa eu te apresentar o meu sobrinho, Dylon. Ele é o CEO do grupo Dylon. Ariana é dentista e chegou esses dias de uma missão voluntária que fez em outros países - A tia Leide me apresenta a garota, empolgada.
- Prazer em conhecer você, Dylon - Ariana fala, estendendo a mão para eu segurar.
Eu segurei sua delicada mão e a apertei, encarando seu olhar profundamente. Um homem vem até onde estamos e chama a tia Leide, que sai, nos deixando a sós. Aproveitei esse momento para descartar a hipótese de que eu e essa tal de Ariana seríamos um casal, porque a minha tia escolhe a dedo as pretendentes.
- Ariana, eu vou ser sincero. Não sei o que a minha tia falou de mim para você, mas saiba que não estou querendo namorar ninguém, e muito menos buscando um relacionamento sério para casar. Estou solteiro por opção mesmo, a tia Leide é quem está sempre querendo me arrumar uma namorada - Falo, olhando nos olhos da garota e soltando a sua mão. Ela calmamente me responde:
- Eu também não estou em busca de relacionamento, muito menos de um casamento. Por favor, fique tranquilo. Fomos somente apresentados. A sua tia não falou nada de você para mim. A minha mãe, assim como a sua tia, vive querendo arrumar um namorado para mim. E está tudo certo! Pode voltar a curtir a festa, longe de mim querer atrapalhar a noite de alguém - Ariana me tranquiliza.
Virei as costas para ela e saí da sua frente, meio que desconcertado com o que a tal Ariana acabou de me falar. Ela não se insinuou para mim e nem fez questão de tentar ao menos conversar, como as outras mulheres fazem ao me ver. A calma dela, me pedindo para eu ir curtir a festa, foi um tanto quanto esquisita. Ela deve ser lésbica, ou as mulheres estão perdendo o interesse em mim. Cheguei na mesa em que Haniel estava.
- Está tudo bem? Pelo que vi, hoje foi a sua conversa mais curta com uma mulher - Haniel fala, me observando.
- Minha tia me apresentou a tal Ariana e eu a dispensei, mas, ao invés de ela insistir para me conhecer, ela me dispensou - Falo num tom irritado.
- Pelo que vi, ela anda acompanhada de Lucíola e Joel, o casal do grupo Lx Têxtil. Eles tiveram só uma filha, creio que deve ser a moça. Não sou muito ligado na vida da sociedade, cuido somente da minha vida - Haniel fala sério, bebendo sua bebida.
Fiquei um pouco na sua companhia e depois fui curtir o resto da minha noite. Ao andar pelo salão, vejo a tal Ariana sentada sozinha em uma mesa, rodeada de algumas crianças. Ela estava dando atenção a todas. "O que pensa uma mulher dessas? Vir para uma festa dessa dimensão para passar a noite sentada, conversando com crianças que, inclusive, algumas são da minha família?". Balancei a cabeça em negação, observando-a, e fui curtir o resto da minha noite.
Estou conversando com um grupo de empresários e algumas mulheres. A tia Leide chegou, pedindo licença e me puxou para o canto.
- Dylon, o que achou da Ariana? Ela é tão linda.
- Não achei nada! Ela, assim como eu, não está buscando relacionamentos. Tia, a senhora é maravilhosa, mas não estou em busca de ninguém, eu quero paz!
- Não se tornaram nem amigos? - Tia Leide pergunta.
- Não! - Respondo, seco.
- Vamos aproveitar a festa então. Prometo que Ariana foi a última mulher que te apresentei nessa vida, só quero a sua felicidade - A tia Leide me abraça e sai.
Ela falou tão sério que fiquei pensativo. Não sou muito de ter paranoias na cabeça. "Será que a tia está adivinhando alguma coisa? Nada está normal esta noite".
Se precisar de mais alguma coisa, é só me dizer.