Por nove anos, eu fui o segredo de Heitor Alcântara. Fui seu saco de pancadas emocional, a substituta conveniente para minha irmã gêmea, Heloísa - a mulher que ele realmente amava. Suportei sua crueldade, me convencendo de que seu controle era uma forma distorcida de amor.
Então, pouco antes de ele anunciar o noivado deles, Heloísa me enviou uma gravação. Era Heitor, sua voz suave e desdenhosa.
"A Helena? Ela é útil", ele disse a Heloísa. "Uma válvula de escape emocional. Preciso descontar em alguém para poder ser o homem perfeito para você."
A verdade fria me despedaçou. Eu não era uma pessoa, nem mesmo uma substituta. Eu era uma ferramenta. Naquela noite, ele poliu o anel de noivado de Heloísa bem na minha frente, antes de terminar nosso "joguinho" de nove anos com uma única e entediada ligação.
Ele nunca soube que fui eu a garota que o salvou em um acampamento de verão tantos anos atrás, não Heloísa. Ele chamou minhas tentativas de contar a verdade de "patéticas".
Então, fiz uma única mala e desapareci na noite, deixando sua gaiola de ouro por uma fazenda tranquila na Serra da Mantiqueira. Mas, assim que comecei a me curar, ele me encontrou, segurando a prova da minha história em sua mão, implorando por uma segunda chance que eu não tinha a menor intenção de dar.
Capítulo 1
Heitor chegou tarde, como sempre. O clique familiar da chave na fechadura enviou um arrepio pela minha espinha, uma mistura de antecipação e pavor que havia se tornado meu ritual noturno. Era quase meia-noite, mas para ele, a noite estava apenas começando.
Ele entrou na sala de estar, o paletó do terno já retirado, a gravata afrouxada. Seus olhos, afiados e avaliadores, pousaram em mim.
"Você ainda está acordada." Não era uma pergunta.
Minhas mãos, que estavam agarrando um livro que eu não estava lendo, se apertaram. "Eu estava esperando por você."
Ele ergueu uma sobrancelha. "Lealdade, suponho. Ou tédio?" Sua voz era suave, com um ceticismo familiar. Ele sempre questionava minhas motivações, até as mais simples.
Baixei o olhar, um nó se formando no meu estômago. "Nenhum dos dois. Só... esperando." As palavras pareceram pequenas, insignificantes. Sempre pareciam quando eu falava com ele.
Um sorriso fraco e sem humor tocou seus lábios. "Não faz essa cara de choro, Helena. Não combina com você." Ele passou por mim, seu perfume importado caro enchendo o ar, um cheiro que eu amava e odiava porque sempre precedia suas exigências.
Permaneci em silêncio, rígida no meio da sala. Era mais fácil assim. Menos chance de dizer a coisa errada.
"Vem aqui." Sua voz era baixa, uma ordem.
Meus pés se moveram antes que meu cérebro desse o comando. Nove anos. Nove anos de obediência automática.
Ele parou em frente ao espelho que ia do chão ao teto. Seu reflexo, alto e poderoso, pairava sobre o meu. Ele passou a mão pela mandíbula. "Você parece cansada. Olheiras." Ele inclinou meu queixo para cima, o polegar roçando sob meu olho. "E um pouco... apagada."
Meu peito se apertou. Apagada. Essa era eu, eu acho. A versão sem cor.
"Você sabe o que é isso, não sabe, Helena?" Ele não esperou por uma resposta. "Você é minha válvula de escape. Aquela em quem eu desconto, para que eu possa ser perfeito para ela."
A verdade fria se assentou sobre mim como um cobertor pesado. Ela. Heloísa. Sempre Heloísa.
Ele se virou, de costas para o espelho, me puxando para mais perto. "Me diga, Helena. Por que você ainda está aqui? O que faz você valer a pena?"
Minha mente voltou nove anos, para o acampamento de verão onde o vi pela primeira vez. Ele era um turbilhão de energia raivosa, rasgando a mata depois de uma briga com o pai. Eu, uma voluntária recém-saída do orfanato, o encontrei furioso, chutando árvores. Aproximei-me dele, não com medo, mas com uma compreensão silenciosa. Eu já tinha visto aquele tipo de dor crua antes. Ofereci a ele uma pequena e gasta medalha de São Cristóvão, dizendo que era para proteção. Ele zombou, jogou-a de volta, mas eu a peguei e coloquei em seu bolso, uma oração silenciosa para que ele encontrasse paz.
Algumas semanas depois, ele me encontrou de novo, não no acampamento, mas trabalhando em uma pequena horta comunitária. Ele se apresentou como Heitor Alcântara, um nome que logo se tornaria sinônimo de poder e riqueza em São Paulo. Ele tinha voltado, disse, porque não conseguia parar de pensar na garota que não tinha medo dele. Ele tinha me visto de verdade então, ou assim eu pensei.
Lembro-me de pensar que eu poderia ser a única. A única a acalmar suas tempestades, a ser seu santuário. Eu o procurei, cautelosamente no início, depois com um desespero ansioso nascido da solidão e do anseio por estabilidade. Acreditei que sua possessividade era amor. Que seu controle era cuidado.
Mas então vieram as noites, logo no começo, quando ele me abraçava forte, seu corpo pressionado contra o meu, e sussurrava outro nome. Heloísa. Sempre Heloísa. Era uma facada toda vez. Um lembrete silencioso e excruciante de que eu era uma substituta, uma sombra.
"Helena?" A voz de Heitor cortou minhas memórias, impaciente.
Meus olhos encontraram os dele no espelho. Meu reflexo me encarava de volta, um fantasma. "Porque... eu estou aqui." Era a única resposta que me restava. A única verdade.
Ele suspirou, um som de aborrecimento tolerante. "Certo. Bem, amanhã vai ser um dia longo. Você vai precisar estar descansada." Ele me soltou, caminhando em direção à cozinha. "O jantar está na mesa, vou descascar seus camarões."
Ele se sentou, pegando um camarão rosa e brilhante. Ele removeu cuidadosamente a casca, um gesto que, em outra vida, poderia ter sido terno. Ele o colocou no meu prato.
Eu o encarei, a confusão se agitando. Ele estava sendo... gentil. O que era isso? Uma gentileza final antes do golpe de misericórdia?
"Coma, Helena." Sua voz era firme, quebrando meu transe.
Peguei o camarão, o gosto de sal e amargura enchendo minha boca, espelhando o gosto em meu coração. Ele costumava rir, me observando devorar pratos de frutos do mar. Ele costumava limpar uma mancha da minha bochecha com o polegar. Aqueles lampejos de afeto genuíno, eu sabia agora, eram apenas parte da performance.
Meu olhar se desviou para sua mão esquerda, descansando casualmente sobre a mesa. Ele estava polindo algo distraidamente em seu dedo anelar. Não era seu anel de sinete de sempre. Este era muito mais delicado, com um design intrincado. Um diamante, brilhando sob as luzes fracas da cozinha. Um anel de noivado.
Minha respiração falhou. Ele estava limpando o anel de noivado de Heloísa.
A amargura se intensificou, tão forte que queimou minha garganta. Engoli em seco, o camarão de repente com gosto de cinzas. Isso não era gentileza. Era um ensaio. Ele estava praticando ser o noivo perfeito para ela, e eu era sua plateia, sua substituta esquecida.
Heitor terminou sua refeição em silêncio, uma ocorrência rara. Normalmente, ele falava de negócios, ou reclamava de sua família, ou às vezes, em ocasiões ainda mais raras, ele não falava de nada, apenas contente com minha presença silenciosa. Naquela noite, ele estava distante. Seu telefone vibrava intermitentemente, mas ele o ignorava, sua atenção fixa em algum ponto invisível além da janela. Então, com um aceno de cabeça seco, ele se levantou.
"Estou de saída." Era a primeira vez em semanas que ele não ficava. A mudança repentina na rotina foi um soco no estômago, confirmando a premonição gélida que vinha crescendo dentro de mim. Ele estava se afastando, se preparando para sua vida real.
"Sua agenda para amanhã?", ele perguntou, sem se virar para me encarar. "Preciso providenciar alguma coisa?"
Minha mente disparou. Eu não podia dizer a ele que planejava ir embora. Não podia dizer que passei o dia cancelando compromissos, limpando minha agenda. "Não", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Apenas algumas reuniões online. Nada demais."
Ele resmungou, aparentemente satisfeito. Ele nunca se dava ao trabalho de verificar. Seu controle era tão absoluto que ele assumia que eu não ousaria desafiá-lo. "Vou mandar um carro te buscar se precisar ir a algum lugar."
"Não, obrigada", eu disse rapidamente, talvez rápido demais. "Eu... eu me viro."
Ele parou na porta, a mão na maçaneta. Eu sabia que essa era minha chance. Minha última chance de dizer algo, qualquer coisa, para quebrar o silêncio sufocante do nosso fim não dito.
"Heitor." Meu nome era um sussurro, uma súplica.
Ele se virou, sua expressão um lampejo de leve surpresa. "Sim, Helena?" Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, e eu quase pude ver a imagem de Heloísa sobreposta ao meu rosto. O mundo do lado de fora da janela era brilhante e nítido, um contraste gritante com minha paisagem interna desvanecendo. Ele era feito para aquele mundo, para ela. Eu era feita para este apartamento silencioso e sombrio.
As palavras morreram na minha garganta. O que havia para dizer? Não me deixe? Me ame, não ela? Seria patético. Já era.
"Nada", consegui dizer, forçando um pequeno sorriso. "Só... dirija com cuidado."
Ele deu uma risada suave, quase indulgente. "Sempre, Helena." Ele saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Eu não esperei. No segundo em que o clique da fechadura ecoou, eu me virei e me apoiei na porta, meu corpo tremendo. Envolvi meus braços em volta de mim mesma, tentando manter os pedaços juntos. Ele não tinha me chamado pelo nome. Nenhuma vez, em todos esses anos, em todas essas despedidas. Ele nunca tinha realmente me chamado pelo nome, não do jeito que chamava o dela.
O apartamento, antes preenchido com seu cheiro persistente, de repente parecia estéril, frio. Agi no automático, limpando os pratos do jantar, esfregando as bancadas até brilharem. Eu havia aprendido suas preferências rapidamente, absorvendo-as em minha própria existência. Sem toques pessoais nas áreas comuns. Sem cores vivas. Sem fotografias.
Uma vez, no início do nosso relacionamento, eu comprei uma pequena orquídea em um vaso, pensando que traria um pouco de vida às paredes brancas e austeras. Ele a viu e sua mandíbula se contraiu. "Livre-se disso", ele disse, sua voz baixa, mas firme. "Não combina com a estética." Quando hesitei, ele acrescentou: "Se você quiser continuar enchendo este lugar com suas... coisas, eu encontrarei outro lugar para ficar." A ameaça era clara. Ele iria embora. E eu, desesperada por um lar, por ele, havia obedecido. Joguei a orquídea fora.
Mais tarde, vi uma orquídea semelhante no escritório de Heloísa, um toque vibrante de cor contra um fundo minimalista. A secretária dele comentou como ela combinava bem com o "toque artístico" de Heloísa. Parei de tentar adicionar qualquer coisa de mim a este apartamento depois disso.
Minha mão roçou uma pequena caixa de veludo escondida no fundo de uma gaveta. Continha uma delicada medalha de prata de São Cristóvão. A que eu lhe dera no acampamento anos atrás. Ele a devolveu para mim depois de alguns meses, alegando que era "infantil" e "sem sentido", uma pequena e pontiaguda alfinetada que doeu mais do que ele imaginava. Lembrei-me das horas que passei fazendo bicos para comprar aquela medalha, a crença de que ela realmente o protegeria. Ele nunca soube do sacrifício. Ele nunca se importou.
Eu deveria ser uma influenciadora famosa, uma personalidade das redes sociais que ele havia meticulosamente criado. Ele construiu minha marca, gerenciou meus contratos, até ditou minhas postagens. Não era o que eu queria. Eu amava plantas, a terra, o zumbido silencioso do crescimento. Mas ele me queria brilhante, visível, um reflexo de seu poder. E eu, patética e desejando sua aprovação, havia concordado.
Um suspiro profundo escapou de mim, sacudindo minhas costelas. Peguei a medalha, seu metal frio um contraste gritante com a queimação em meu peito. Era isso. O fim da minha farsa patética.
Meu telefone vibrou, me assustando. Quase deixei a medalha cair.
Eu tateei em busca do meu telefone, meu coração martelando contra minhas costelas. Um número bloqueado. Hesitante, atendi.
"Helena?" Uma voz suave, familiar, mas distante, sussurrou no telefone. "É a Heloísa."
Meu sangue gelou. Heloísa. Minha irmã gêmea. O mero som de sua voz, uma voz tão parecida com a minha, me causou arrepios. Compartilhávamos um rosto, uma voz, um passado, mas nossas vidas haviam divergido espetacularmente, especialmente depois que ela foi adotada por uma família rica e eu permaneci à deriva no sistema. Mantivemos uma conexão frágil e secreta ao longo dos anos, algumas ligações sussurradas, sempre com ela me lembrando: "Não conte ao Heitor. Ele acha que fui eu que o salvei."
"Heloísa", eu sussurrei, minha voz quase inaudível.
"Meu Deus, você parece péssima." Seu tom se suavizou, um lampejo de preocupação genuína. "Você está bem, mana?"
Mana. A palavra soou estranha, emocionante e dolorosa ao mesmo tempo. Ela raramente me chamava assim.
Antes que eu pudesse responder, sua voz baixou, uma pitada de aço sob o veludo. "Olha, eu sei que é repentino, mas o Heitor está furioso. Seus contratos foram todos cancelados. Suas contas de redes sociais... sumiram."
Meu coração despencou. Eu sabia que isso estava por vir. A "limpeza", como a equipe implacável de Heitor chamaria. Removendo quaisquer conexões inconvenientes antes de seu grande anúncio de noivado.
"Eu sei", eu disse, as palavras uma dor surda. "Eu vi."
"Você sabe?" Sua voz se elevou ligeiramente. "Por que você não disse nada? Por que não me ligou? Não ligou para o Heitor?" Havia irritação em sua voz agora, um flash de sua natureza pragmática e orientada para resultados.
De repente, a voz de Heitor, carregada de fúria fria, explodiu pelo telefone. "Helena! Quem é? Por que você não está atendendo minhas ligações?" Ele deve ter pego o telefone de Heloísa. "O que está acontecendo, Helena? Por que a Heloísa está me dizendo que sua conta foi desativada?"
Trinquei os dentes. Ele sabia agora. Sabia o que ele mesmo havia orquestrado. A hipocrisia era um gosto amargo na minha boca.
"Eu não queria te incomodar", consegui dizer, minha voz vazia.
"Me incomodar?" Sua voz era um rosnado baixo, vibrando com raiva possessiva. "Você acha que ter sua carreira inteira destruída não é um incômodo? Por que você não veio até mim? Eu poderia consertar isso. Eu posso consertar isso. Você sabe que eu posso." Suas palavras eram uma ameaça, uma promessa de controle absoluto. "Não se atreva a tentar lidar com isso sozinha. Você é uma inútil sem mim."
A voz de Heloísa, suave e calmante, veio do fundo. "Heitor, querido, deixe-me falar com ela. Ela está chateada."
"Eu não te contei", insisti, minha voz ganhando um tom desesperado, "porque eu não quero consertar. Eu não quero mais fazer isso."
A linha ficou em silêncio por um instante. Então a voz de Heitor, mais fria do que eu já tinha ouvido. "O que você disse?"
"Eu disse... eu não quero mais ser uma influenciadora", repeti, as palavras ganhando força ao saírem da minha boca. "Eu não quero essa vida."
"Não seja ridícula", ele retrucou. "Você vai ao escritório amanhã de manhã. Vamos resolver isso."
"Não!" A palavra explodiu de mim, crua e desafiadora.
"Helena, eu disse para vir ao escritório!" Sua voz era um trovão, acostumada à obediência instantânea.
Meus olhos se encheram de lágrimas quentes e ardentes. "Por que, Heitor?", forcei-me a perguntar, minha voz tremendo. "Por que eu tenho que ir? Eu sou apenas... uma substituta conveniente? Uma versão mais fácil de outra pessoa?" As palavras jorraram, anos de dor finalmente se libertando.
Uma inspiração aguda do outro lado. "Como você me chamou?", ele exigiu, sua voz perigosamente suave.
"Heitor", sussurrei, o nome soando estranho na minha língua. "Você nunca me chama pelo meu nome quando está com raiva. Só quando está... sendo gentil. Ou quando está com ela. Você sempre me chama de 'amor' ou 'querida'. Nunca apenas Helena. Isso me faz sentir como se eu fosse qualquer uma. Como se eu não fosse ninguém." Minha voz falhou. "Eu sou apenas alguém que você pode moldar, alguém que se parece muito com a Heloísa, para que você não precise procurar tanto por ela?"
Sua respiração estava pesada, irregular. "Que porra há de errado com você, Helena? Por que você está agindo assim?"
Enxuguei furiosamente minhas lágrimas. "Porque eu não quero mais ser uma substituta!" A verdade estava dita, feia e sem verniz. "Eu não quero ser seu saco de pancadas emocional para que você possa ser charmoso para sua namorada de verdade. Eu não quero mais fingir."
Uma risada fria e sem humor ecoou pelo telefone. "Substituta? Não se elogie tanto, Helena. Estou entediado com esse joguinho. Acabou."
A linha ficou muda.