Eu era filha de um magnata, perdidamente apaixonada pelo meu noivo, Conrado. Mas no dia do nosso casamento, ele prendeu meu pai.
Meu relacionamento de dez anos era uma farsa. Ele era um agente da Polícia Federal, e minha melhor amiga, Boni, era sua cúmplice.
A traição me aniquilou. Fui forçada a fazer terapia de eletrochoque, que apagou meu talento para o design de arquitetura - a única coisa que era verdadeiramente minha. Minha vida desmoronou.
Depois de uma tentativa de suicídio fracassada, fui salva por um estranho gentil e pelas últimas palavras do meu pai. Reconstruí minha vida das cinzas, tornando-me uma fotógrafa de sucesso.
Anos depois, Conrado reapareceu, cheio de um falso arrependimento, implorando por uma segunda chance.
Olhei para o homem que me destruiu e o comparei a um gato que uma vez me mordeu. "Eu te perdoei", disse a ele, "mas nunca mais confiarei em você."
Meu amigo Caio, agindo como meu falso marido, defendeu minha honra socando Conrado no rosto.
No fim, a carreira de Conrado implodiu por causa de um escândalo envolvendo Boni. Ele estava arruinado.
Quanto a mim? Eu estava em Paris, minha carreira de fotógrafa decolando, quando peguei um caderno de desenho. Milagrosamente, as linhas fluíram. Meu dom estava voltando. Eu estava finalmente no controle da minha própria história.
Capítulo 1
A palavra "marido" pairava no ar. Não era verdade.
Mas a mentira parecia um escudo sólido. Foi bom quando o vi do outro lado do saguão lotado do prédio da Justiça Federal, um homem cuja carreira inteira foi construída sobre os escombros da minha vida.
Conrado Keller. Um fantasma de um passado que lutei por anos para enterrar.
Uma mulher, toda angulosa e com olhares de desaprovação, se aproximou de Caio. "Você não deveria deixar sua esposa vagando sozinha por um lugar como este", ela disse, com os olhos fixos em mim.
Caio, abençoado seja, apenas sorriu. "Ah, ela não está vagando. Ela sabe exatamente o que está fazendo."
Ele passou um braço pela minha cintura. Era casual, fraternal, mas o suficiente para vender a encenação.
A mulher estalou a língua. "Mesmo assim, uma coisinha tão bonita..." Seu olhar se demorou na pasta em minha mão.
Eu só queria acabar logo com isso. Os assuntos legais do meu pai. Eram complicados, mesmo após sua morte.
Então eu ouvi. Uma voz, baixa e familiar, cortou o zumbido do saguão.
"Elisa?"
Meu nome, vindo dele. Caiu como uma pedra em um lago calmo, enviando ondas de desconforto.
Eu congelei.
O braço de Caio se apertou instintivamente. Ele também sentiu, aquela mudança súbita no ar.
Virei-me lentamente. Conrado estava lá. Mais alto do que eu me lembrava, mais largo nos ombros. O terno caro não fazia nada para suavizar a linha dura de sua mandíbula. Seus olhos, o mesmo azul penetrante que um dia fez meu coração disparar, estavam fixos em mim.
Ele deu um passo à frente.
"Elisa, é você mesmo?" Sua voz estava áspera, como uma lixa.
Tirei minha mão da de Caio. Eu não queria envolvê-lo nisso.
"Conrado." Minha voz era neutra. Sem emoção. Era uma habilidade que eu havia aperfeiçoado.
Ele parou, a poucos metros de distância. Seu olhar caiu para minha mão esquerda, depois para Caio. Ele não perdeu a intimidade casual. Caio não recuou. Ele apenas ficou ali, sólido como uma rocha.
"O que você está fazendo aqui?" Os olhos de Conrado estavam arregalados, surpresos. A pergunta soou ansiosa demais, familiar demais.
Levantei a pasta de documentos. Parecia pesada. "Finalizando uns assuntos."
Não ofereci mais detalhes. Eu não lhe devia explicações.
Ele hesitou, um músculo se contraindo em sua bochecha. "Assuntos? Que tipo de assuntos?"
Eu apenas olhei para ele. O silêncio se estendeu, denso e desconfortável.
Meu celular vibrou no bolso. O sinal silencioso de Caio.
"Preciso ir." Apontei com a cabeça para a saída.
Conrado entrou no meu caminho. "Espere. Podemos conversar? Só por um minuto?"
Sua mão se estendeu e depois caiu, como se ele tivesse pensado melhor. Mas seus olhos imploravam.
Eu ignorei. Suas súplicas não significavam nada agora.
"Não há nada para conversar." Minha voz era um sussurro, mas carregava todo o peso de uma década de dor.
Tentei contorná-lo. Ele me bloqueou novamente, seu corpo uma parede sólida.
"Elisa, por favor. Só me diga que você está bem. Você parece... Eu não te vejo há tanto tempo." Seu olhar percorreu meu corpo, uma mistura de preocupação e algo mais que eu não conseguia, não queria, nomear. Algo como arrependimento.
Arrependimento não apagava o que ele havia feito.
Encarei seus olhos, fria e direta. "Estou bem, Conrado. Melhor do que bem."
Olhei para a aliança de ouro em sua mão esquerda. Brilhava, um lembrete gritante de sua nova vida. De Boni.
Um gosto amargo encheu minha boca. Ele era casado. E estava tentando se reconectar comigo. Que audácia.
Endireitei os ombros. "Agora, se me dá licença, meu marido está esperando."
A palavra "marido" foi como um golpe de martelo. Atingiu-o em cheio no peito. Seu rosto perdeu a cor. Ele se encolheu, como se eu o tivesse atingido fisicamente.
"Marido?" Sua voz era quase um sopro.
Eu não respondi. Caio deu um passo à frente, sua expressão dura. "Ela disse que precisa ir."
Os olhos de Conrado saltaram entre nós. Ele abriu a boca, depois a fechou. Parecia perdido. Parecia... magoado.
Ótimo.
"Vamos, Caio." Virei as costas para ele. Eu queria ouvir seu suspiro de dor, sentir a ferroada de sua surpresa. Eu queria que ele sentisse apenas uma fração do que me fez passar.
Caio me guiou para longe dele, seu braço firme em minha cintura novamente. Ele não disse uma palavra, apenas me conduziu pela multidão.
A voz de Conrado, rouca, nos seguiu. "Elisa, não faça isso."
Eu não olhei para trás.
Saímos do prédio. A luz do sol bateu em meu rosto, forte e ofuscante.
O carro de Caio estava esperando bem na calçada, como se ele tivesse planejado. Ele abriu a porta do passageiro para mim.
Antes de entrar, virei a cabeça o suficiente para vislumbrar Conrado. Ele estava parado junto às portas de vidro, sozinho, nos observando. Seus ombros estavam caídos.
"Adeus, Conrado", sussurrei, apenas para mim.
Entrei no carro. Caio deslizou para o banco do motorista. Ele deu a partida.
Enquanto nos afastávamos, eu o vi novamente pelo retrovisor. Ainda parado ali. Menor agora, recuando.
Uma parte de mim queria que ele desaparecesse completamente. Que se dissolvesse no fundo como o pesadelo que ele era.
Mas eu sabia que ele não iria. Ainda não.
O mundo fora do prédio da Justiça Federal parecia barulhento demais, brilhante demais, depois da calma forçada lá dentro. A figura de Conrado, encolhendo no retrovisor, finalmente desapareceu quando viramos uma esquina. Foi um suspiro visual que eu nem sabia que estava segurando.
Caio olhou para mim, os nós dos dedos brancos no volante. Ele tinha visto tudo.
"Então, 'marido', hein?", ele disse, um sorriso irônico tocando seus lábios. Ele sempre foi bom em quebrar a tensão.
Inclinei a cabeça para trás no assento. "Simplesmente saiu."
"Simplesmente saiu?" Ele riu, um som genuíno e caloroso. "Foi como assistir a um mergulho perfeitamente executado. Nota dez."
Ele olhou para mim novamente, seu sorriso desaparecendo um pouco. "Ele parecia ter visto um fantasma, Elisa."
"E viu." Minha voz era neutra.
"Ele ficou nos observando o tempo todo, sabia?" Caio diminuiu a velocidade para um sinal vermelho. "Como se não conseguisse desviar os olhos. Quem era aquele cara?"
Fechei os olhos por um momento. O nome ainda tinha gosto de cinzas.
"Conrado Keller."
Caio pisou no freio com um pouco de força demais, fazendo o carro dar um solavanco. Ele soltou um assobio baixo. "Conrado Keller? O Conrado Keller? O queridinho da PF? Aquele que eles chamam de 'o assassino silencioso' por desvendar aqueles casos impossíveis de colarinho branco?"
Eu assenti, meus olhos ainda fechados. "Ele mesmo."
"Espera, então esse é o cara que... meu Deus, Elisa. Ele trabalhou no caso Lacerda, não foi? Ele era o agente principal, o que derrubou... espera. Lacerda. Seu sobrenome. Não pode ser." A voz de Caio era uma mistura de incredulidade e horror crescente.
"Vai com calma, Caio", eu disse, meus olhos ainda fechados. "Você vai fazer a gente ser parado."
Ele me ignorou, sua voz ganhando velocidade. "O caso Lacerda! Foi gigantesco. Notícia nacional por meses. O magnata financeiro, o esquema Ponzi... qual era o nome dele mesmo? Sr. Lacer...da? Era seu pai, não era?"
Abri os olhos e olhei para frente. O trânsito estava engarrafado.
"Sim", eu disse. "Ele era meu pai."
O queixo de Caio caiu. O carro atrás de nós buzinou. Ele mal notou.
"E o Keller... foi ele quem o prendeu. Certo? Tipo, levou o crédito pessoal pela prisão?"
Virei a cabeça para olhá-lo. Seu rosto era uma máscara de choque.
"Ele não apenas o prendeu, Caio", eu disse, minha voz vazia. "Ele se casou com a filha dele primeiro."
Caio ficou em silêncio por um longo momento. Ele finalmente arrancou no sinal, mas seu olhar continuava se voltando para mim. Ele estava tentando processar. Tudo aquilo.
"Ele se casou... com você?", ele finalmente conseguiu dizer, sua voz mal um sussurro.
"Sim", confirmei, a palavra como uma lápide. "Ele se casou comigo."
"E então ele prendeu seu pai?" O horror estava de volta em sua voz.
"No dia do nosso casamento", esclareci.
O carro se encheu de um silêncio pesado, quebrado apenas pelo zumbido do motor e pelo ruído distante da cidade. Caio agarrou o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos novamente. Ele não sabia o que dizer. Não havia nada a dizer.
Ele olhou para mim, depois desviou o olhar rapidamente. O peso daquela informação parecia pressioná-lo. Eu podia ver as perguntas se formando em sua mente, mas ele não ousava perguntar. Ainda não.
O silêncio no carro depois da minha confissão sobre Conrado e meu pai era denso e pesado, como um cobertor sufocante. Caio manteve os olhos na estrada, mas eu podia sentir seu desconforto. Seus leves movimentos no assento, o jeito como seus dedos tamborilavam no volante. Ele estava processando. Ele era gentil, sempre foi.
"Elisa, eu... sinto muito. Eu não sabia." Sua voz era baixa, cheia de um arrependimento genuíno. "Eu não deveria ter me metido."
Eu balancei a cabeça. "Tudo bem, Caio. Você não sabia. A maioria das pessoas não sabe."
Eu realmente não estava triste. Não mais. A dor crua, o choque, a traição - essas arestas afiadas há muito haviam se tornado cegas. O que restava era uma dor familiar, um membro fantasma de uma vida passada.
"Aconteceu há muito tempo", eu disse, quase para mim mesma. "Parece a história de outra pessoa agora. Uma história que li em um livro."
Caio não insistiu. Ele apenas dirigiu, navegando cuidadosamente pelo trânsito da cidade. O ar no carro permaneceu carregado, apesar da minha tentativa de indiferença. Ele claramente sentia o peso do meu passado.
Seus olhos se voltaram para a pasta de documentos que eu ainda segurava. Era a única coisa que eu não havia soltado.
"Então", ele disse, pigarreando, sua tentativa de mudar de assunto quase comicamente transparente. "Essa pasta. Era por isso que você estava no prédio da Justiça Federal? Resolvendo algo para o seu pai?"
Passei o dedo sobre o selo federal em relevo na capa. Era frio sob meu polegar. "Sim. O testamento dele. E algumas outras coisas."
"Ah." Caio assentiu lentamente. "Entendi."
Ele não perguntou o que mais. Ele sabia.
"Meu pai morreu no mês passado", eu disse, as palavras saindo secas. "Na prisão."
A cabeça de Caio virou em minha direção, seus olhos arregalados de surpresa novamente. "Oh, Elisa... sinto muito."
"Ele teve um derrame. Foi repentino. Encontraram-no em sua cela. Ele estava doente há um tempo, eu acho. Uma forma agressiva de câncer que só descobriram alguns meses atrás." Minha voz era monótona, recitando fatos, não sentimentos. "Ele pediu liberdade condicional por compaixão, mas era tarde demais. Ele não sobreviveu à burocracia."
Olhei pela janela. As luzes da cidade se transformaram em borrões de cor.
"Suas últimas palavras para mim, ao telefone, foram: 'Viva bem, Elisa. Viva livre. E nunca deixe aquele desgraçado vencer.'" Um pequeno sorriso sem humor tocou meus lábios. "Ele nunca perdoou Conrado pelo que fez."
Meu pai. Um criminoso, sim. Um golpista que construiu um império sobre mentiras. Mas para mim, ele sempre foi apenas "pai". O homem que lia histórias para eu dormir, que me ensinou a andar de bicicleta, que sempre me disse que eu poderia alcançar qualquer coisa. Ele nunca me culpou por nada. Ele sempre tentou me proteger de seu mundo, mesmo enquanto me puxava para dentro dele. Ele recusou visitas por anos, dizia ele, porque não queria que eu o visse daquele jeito. Ele não queria que eu carregasse esse fardo.
Uma pontada, aguda e súbita, perfurou a dormência. Uma tristeza passageira, rapidamente suprimida.
"É... complicado", eu disse, passando a mão pelo cabelo. "Minha história, quero dizer. Não é simples. Não é preto no branco."
Caio estendeu a mão e apertou meu braço gentilmente. "Estou aqui para ouvir, Elisa. Quando você estiver pronta."
Respirei fundo. "Talvez eu esteja pronta. É uma longa história, no entanto. Sobre como a filha de um notório criminoso de colarinho branco, que já foi casada com o agente da PF que o prendeu, acabou aqui. Com um jovem modelo em ascensão agindo como seu falso marido."
Caio sorriu, um flash de seu habitual jeito brincalhão. "Eu aguento uma longa história. Especialmente uma com reviravoltas tão suculentas."
Consegui retribuir com um leve sorriso. Eu estava pronta. Pronta para finalmente contar a história, não como uma vítima, mas como alguém que sobreviveu.