Meu marido bilionário caiu no feitiço de uma guru da Nova Era que deixou minha mãe morrer, chamando seu câncer de "dívida kármica".
A devoção dele por ela se tornou meu inferno pessoal. Ele me trancou em um quarto cheio de cobras, arrancou um pedaço de carne do meu braço como um sacrifício ritual e, por fim, mandou matar meu cachorro e me forçou a comer os restos.
O homem que um dia jurou me proteger se tornou meu carrasco.
Mas ele cometeu um erro fatal.
Ele não percebeu que nosso divórcio tinha acabado de ser finalizado.
Então, eu saí daquela casa, fui direto para o aeroporto e comecei uma transmissão ao vivo para queimar seu império inteiro até as cinzas.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alina Campos:
Todos conheciam a história de como meu marido, o bilionário da tecnologia João Ricardo Monteiro, salvou minha vida. Era um conto de fadas moderno, estampado em capas de revistas e programas de auditório. Alina Campos, a garota comum, e João Ricardo Monteiro, o CEO genial que a tirou dos destroços de um acidente de carro e jurou devoção eterna. Por três anos, esse conto de fadas foi a minha realidade.
Então, seis meses atrás, tudo mudou.
Descobri que meu casamento havia acabado da mesma forma que o resto do mundo: por um alerta de notícias que piscou na tela do meu celular.
João Ricardo Monteiro, CEO da "Éter", é Visto com a Misteriosa Guru de Bem-Estar Gênesis Luz. Fontes Dizem que São "Chamas Gêmeas".
A foto anexada mostrava João Ricardo, o meu João Ricardo, olhando para uma mulher com uma adoração que eu não via em seus olhos há meses. Era um olhar cru, desprotegido, um que ele costumava reservar apenas para mim.
A mulher, Gênesis Luz, era etérea. Ela usava linho branco esvoaçante, pulseiras de turquesa empilhadas em seus braços e um sorriso sereno que parecia ensaiado. A mídia a chamava de visionária da Nova Era. Diziam que ela podia ler campos de energia e se comunicar com o universo. Ela falava com uma voz hipnótica e suave sobre karma, energia e cura natural.
João Ricardo se tornou seu discípulo mais fervoroso. Ele investiu centenas de milhões em seu "santuário de bem-estar", um complexo gigantesco no interior. Ele frequentava seus seminários, citava seus ensinamentos e, lentamente, metodicamente, começou a me apagar de sua vida.
Meu coração parecia um bloco de gelo no peito enquanto eu rolava por artigo após artigo. A dor era algo físico, um peso frio que dificultava a respiração. Eu precisava ouvir dele. Precisava olhá-lo nos olhos e fazê-lo dizer.
Naquela noite, esperei por ele na vasta e estéril sala de estar da nossa mansão no Morumbi, o silêncio me pressionando.
Ele entrou logo depois da meia-noite, seus passos silenciosos no piso de mármore. Ele não pareceu surpreso em me ver. Não havia culpa em seus olhos, apenas uma calma distante e plácida. Era o mesmo olhar que ele tinha nas fotos com ela.
"João Ricardo", comecei, minha voz tremendo. "Precisamos conversar."
Ele me olhou, seus olhos escuros indecifráveis. "Sobre o que há para conversar, Alina?"
Eu levantei meu celular, a foto dele e de Gênesis brilhando na luz fraca. "Isso. Ela. O que é isso?"
Ele nem sequer vacilou. "Essa é Gênesis", disse ele, sua voz suave, quase reverente. "Ela é... meu tudo."
As palavras me atingiram como um golpe físico. Eu cambaleei para trás, minha mão voando para a boca. Minha visão embaçou. "Seu tudo? E o que eu sou, João Ricardo? E nós?"
"Eu encontrei minha chama gêmea, Alina. Isso muda as coisas."
Eu o encarei, meu corpo tremendo. Meu rosto estava pálido, todo o sangue se esvaindo. "Então você está me deixando?"
"Não", disse ele, e por um momento, uma esperança selvagem e estúpida brilhou em meu peito. "Não tenho intenção de me divorciar de você. Você ainda é a Sra. Monteiro. Mas preciso que você entenda. Gênesis é a outra metade da minha alma. Não vou desistir dela. Você não vai interferir."
A esperança morreu tão rápido quanto veio, substituída por uma raiva fria e cortante. "Você quer que eu simplesmente... aceite isso? Que eu fique parada enquanto você desfila com essa mulher como o amor da sua vida? Depois de tudo que passamos? Depois que você jurou que me amaria para sempre?"
Minha voz falhou. Senti um soluço se formando na minha garganta, quente e apertado.
Eu queria gritar, chorar, jogar alguma coisa, mas meu corpo não obedecia. Eu estava congelada, presa em um pesadelo.
Uma parte de mim, uma parte desesperada e patética, ainda se agarrava ao homem que ele costumava ser. Sussurrava que isso era apenas uma fase, que ele iria acordar e voltar para mim.
Essa esperança patética foi o começo do meu fim.
João Ricardo trouxe Gênesis para nossa casa. Ela deslizava pelos cômodos como se fossem dela, seu sorriso sereno nunca vacilando. Ela reorganizou os móveis para "melhorar o fluxo de energia". Ela substituiu minhas fotos pessoais por cristais e incensários. João Ricardo a observava com devoção cega, concedendo-lhe todos os caprichos.
Então minha mãe ficou doente. Um câncer súbito e agressivo. Os médicos disseram que sua única chance era um tratamento experimental, mas era astronomicamente caro.
Eu estava desesperada. Fui até Gênesis, a quem João Ricardo havia colocado no comando das finanças da casa, e implorei pelo dinheiro.
Ela ouviu com aquele mesmo sorriso plácido, seus olhos vazios de qualquer emoção real. "Sinto muito, Alina", disse ela, sua voz como sinos suaves. "Mas João Ricardo e eu já discutimos isso. A doença da sua mãe é uma dívida kármica. Não podemos interferir no plano do universo para ela."
"Um plano? Ela está morrendo!" gritei, meu controle finalmente se quebrando. "Isso não é karma, é câncer! Nós temos o dinheiro para salvá-la!"
"A medicina moderna é um veneno", disse Gênesis calmamente, balançando a cabeça. "Ela perturba a energia natural do corpo. A melhor coisa para sua mãe é aceitar sua jornada. Eu irei ao hospital e a ajudarei a meditar. Vou guiar sua transição para o próximo plano."
"Fique longe da minha mãe", rosnei, avançando para ela.
Meus dedos mal haviam roçado sua manga de linho quando João Ricardo apareceu na porta. Ele viu minha mão levantada, viu as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ele viu Gênesis cambalear para trás, um lampejo de medo em seus olhos.
"João Ricardo, graças a Deus", sussurrou Gênesis, sua voz tremendo enquanto corria para o lado dele. "Eu só estava tentando explicar para a Alina que a jornada de sua mãe é sagrada, mas ela se tornou tão... violenta. A energia dela está muito escura agora."
O rosto de João Ricardo era uma máscara de fúria fria. Ele nem sequer olhou para mim. "Levem a Alina para o quarto dela", ordenou aos dois seguranças que estavam atrás dele. "Tranquem a porta. Ela não deve sair até aprender a respeitar a Gênesis."
"João Ricardo, não!" gritei, estendendo a mão para ele. "Minha mãe está morrendo! Por favor, você tem que ajudá-la. Você prometeu que sempre cuidaria de mim, da minha família!"
Ele olhou para mim então, seus olhos tão frios e duros quanto pedra. Ele arrancou meus dedos de seu braço, um por um. "Eu fiz uma promessa para Gênesis agora", disse ele, sua voz monótona. "E farei qualquer coisa para provar meu amor por ela."
Os guardas me arrastaram, meus gritos ecoando pela casa cavernosa. Eles me jogaram no meu quarto e a fechadura estalou.
Eu desabei no chão, soluçando. Lembrei-me da noite do acidente. Ele segurou minha mão na ambulância, seu rosto manchado de sujeira e lágrimas, e sussurrou: "Eu nunca vou deixar nada te machucar de novo, Alina. Eu juro."
Fiquei trancada naquele quarto a noite toda, o silêncio quebrado apenas por minhas próprias orações desesperadas.
Na manhã seguinte, a porta se abriu. Gênesis estava lá, segurando um tablet.
"Sua mãe faleceu há uma hora", disse ela, sua voz desprovida de simpatia. "A dívida kármica dela foi paga."
Uma onda de náusea e uma dor tão profunda que parecia a morte me atingiu. Eu não conseguia falar. Não conseguia respirar.
"João Ricardo achou melhor cuidar dos arranjos rapidamente, para evitar que qualquer energia negativa permanecesse", continuou ela, deslizando um dedo pela tela do tablet. "Ele providenciou um funeral celestial. É um processo lindo e natural onde o corpo é devolvido aos elementos."
Ela virou o tablet para mim.
Na tela havia um vídeo. Um planalto alto e ventoso. O corpo da minha mãe, deitado sobre uma plataforma de pedra. Abutres descendo do céu.
Eu vi. Eu os vi rasgando a carne dela.
Um grito gutural rasgou minha garganta. Eu me lancei sobre Gênesis, minha dor e fúria uma explosão incandescente. Eu queria rasgar seu rosto sereno em pedaços.
João Ricardo apareceu em um instante, me afastando dela, seu aperto como aço. "Alina, pare com isso!"
"Ela profanou minha mãe!" gritei, lutando contra ele. "Você deixou ela fazer isso!"
"Foi um ritual sagrado", disse João Ricardo, sua voz tensa enquanto segurava a soluçante Gênesis atrás dele. Ele enfiou a mão no bolso e tirou um talão de cheques. "Eu sei que você está chateada. Aqui. Isso deve cobrir sua dor e sofrimento."
Ele rabiscou um número com tantos zeros que eu não conseguia contar e tentou enfiar o cheque na minha mão.
O insulto, a pura crueldade daquilo, quebrou algo dentro de mim. Um gosto quente e metálico encheu minha boca. Olhei para baixo e vi uma mancha carmesim no chão de mármore branco.
Eu tossi, e mais sangue saiu.
A última coisa que vi antes que o mundo ficasse preto foi o rosto de João Ricardo, um lampejo de algo - era choque? alarme? - em seus olhos frios. Lembrei-me do jeito que ele costumava me olhar, com tanto amor que parecia o sol.
Então, nada. Meu coração, finalmente, estava morto. Eu decidi naquele exato momento. Este casamento tinha que acabar.
Ponto de Vista de Alina Campos:
Uma semana depois, entrei na reluzente torre de vidro da Éter, o império tecnológico de João Ricardo. Meu coração era um peso morto no peito, um espaço oco onde antes havia amor.
A recepcionista, uma jovem que sempre fora gentil comigo, ergueu os olhos com pena. "Sra. Monteiro, sinto muito, mas o Sr. Monteiro está em uma reunião muito importante. Ele não pode ser incomodado."
Claro que estava. Ele estava sempre ocupado. Ocupado demais para uma sogra moribunda, ocupado demais para sua esposa de luto. Mas nunca, eu suspeitava, ocupado demais para Gênesis.
Afundei em um sofá de couro macio no saguão, minhas mãos agarrando um envelope pardo. Eu não sentia nada. A dor era uma pontada constante e surda, mas as arestas afiadas da dor haviam sido suavizadas. Eu estava apenas... vazia.
As portas do elevador se abriram com um som suave, e Gênesis saiu. Ela estava vestida de seda creme, parecendo radiante e serena. Ela me viu e seu sorriso se alargou.
"Alina, que surpresa", disse ela, sua voz pingando falsa preocupação. "Você está se sentindo melhor? O universo nos testa, mas apenas para nos tornar mais fortes."
"Estou tão bem quanto jamais estarei", respondi, minha voz monótona.
Estendi o envelope para ela. "Preciso que você entregue isso para o João Ricardo. Eles não me deixam entrar."
Suas sobrancelhas perfeitamente esculpidas se ergueram ligeiramente. "Claro. O que é?"
"Os papéis do divórcio", eu disse, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. Uma risada amarga escapou dos meus lábios. "Acontece que até as chamas gêmeas precisam lidar com as legalidades terrenas."
"Por que você não entrega a ele pessoalmente?" ela perguntou, um toque de desafio em seu tom. Ela estava gostando disso, gostando de seu poder sobre mim.
Encontrei seu olhar, meus próprios olhos frios e mortos. "Porque ele não vai me ver, Gênesis. Mas ele sempre verá você."
Um lampejo de triunfo cruzou seu rosto antes que ela o mascarasse com um suspiro de compaixão. "Pobrezinha. Claro, eu ajudo."
Ela pegou o envelope e caminhou em direção à sala de reuniões, seu vestido de seda sussurrando contra o chão. Ela não bateu. Apenas empurrou as pesadas portas de vidro e entrou.
Através do vidro fosco, pude ver a silhueta de João Ricardo na cabeceira de uma longa mesa, cercado por seus executivos. Ele ergueu os olhos quando Gênesis entrou, e a tensão em seus ombros imediatamente se suavizou. Ele sorriu. Um sorriso real e caloroso.
Gênesis se inclinou e sussurrou algo em seu ouvido, entregando-lhe o envelope.
Ele o pegou sem desviar o olhar dela. Ele não o abriu. Nem sequer olhou para as palavras estampadas na frente. Ele simplesmente pegou uma caneta da mesa, virou para a última página e assinou seu nome.
Então ele a puxou para seu colo, bem ali na frente de todo o seu conselho, e a beijou.
Eu assisti, meu corpo completamente imóvel, meu coração uma pedra. O homem que uma vez jurou que não poderia viver sem mim tinha acabado de assinar o fim do nosso casamento sem pensar duas vezes, sua atenção totalmente voltada para outra mulher.
Gênesis saiu um momento depois, os papéis assinados em sua mão. Ela me ofereceu outro sorriso de pena. "Está feito. Lembre-se, Alina, deixar ir é o primeiro passo para a cura. O universo tem um novo caminho para você."
Peguei o envelope de sua mão, nossos dedos se roçando. A pele dela estava quente. A minha estava gelada.
Virei-me e saí do prédio sem dizer mais uma palavra.
O advogado confirmou que a assinatura era válida. Havia um período de reflexão de trinta dias. Mais trinta dias naquela casa, um fantasma assombrando as ruínas da minha própria vida.
Todos os dias, eu via João Ricardo mimar Gênesis. Ele levava café da manhã para ela na cama. Comprava presentes extravagantes. Ele se agarrava a cada palavra dela sobre energia e iluminação. Eu era invisível.
Embalei os pertences da minha mãe, que finalmente haviam sido entregues de seu apartamento. Eles chegaram em uma única caixa pequena. Segurei sua xícara de chá de porcelana favorita em minhas mãos, seu delicado padrão uma dolorosa lembrança de seu espírito gentil. A dor, aguda e crua, me invadiu, e eu caí no chão, agarrando a caixa e soluçando.
"Por que você está chorando?"
Eu ergui os olhos. Gênesis estava na porta, uma carranca marcando seu rosto perfeito.
A governanta, Maria, que estava conosco há anos, respondeu suavemente. "A mãe dela, Srta. Luz. Ela está de luto."
A expressão de Gênesis se suavizou naquela familiar máscara de sabedoria espiritual. "Oh, Alina. Você não deveria estar triste. Sua mãe foi libertada de sua forma física. Sua alma está livre. Você deveria estar celebrando a libertação dela."
"Ela foi assassinada", engasguei, minha voz grossa de lágrimas e raiva. "Você e sua dívida kármica a assassinaram."
Abracei a caixa com mais força, virando-me para longe dela. Eu não suportava vê-la, não suportava o som de sua voz. Eu só queria ser deixada em paz com os últimos pedaços da minha mãe.
Gênesis observou minhas costas se afastando, e pela primeira vez, vi um lampejo de algo além de iluminação serena em seus olhos. Era frio, duro e malicioso.
Um novo pensamento pareceu se formar em sua mente. Uma maneira de me "ajudar". Uma maneira de purgar minha "energia escura".
Mais tarde naquela noite, ouvi-a falando com um dos jardineiros em voz baixa e urgente.
"Preciso que você encontre algumas cobras. Várias delas. Não venenosas, claro. Vamos ajudar a Sra. Monteiro a confrontar seus medos mais profundos."
O jardineiro hesitou. "Mas, Srta. Luz... a Sra. Monteiro tem pavor de cobras. Pavor."
"João Ricardo quer que ela se cure", disse Gênesis, sua voz endurecendo, tingida com a autoridade que ela sabia que agora possuía. "E eu sei o que é melhor para ela. Faça isso."
O jardineiro baixou a cabeça, derrotado.
Naquela noite, caí em um sono exausto, agarrando a xícara de chá da minha mãe.
Em algum momento no meio da noite, eu estava vagamente ciente da porta do meu quarto se abrindo. Eu estava dormindo muito profundamente para acordar completamente.
Então, eu senti. Algo frio, liso e pesado deslizando pela minha perna nua.
Ponto de Vista de Alina Campos:
Meus olhos se abriram de repente. Um grito primal ficou preso na minha garganta. Tateei em busca do interruptor da lâmpada na mesa de cabeceira, meus dedos tremendo tanto que precisei de três tentativas.
A luz inundou o quarto, e o grito rasgou meus pulmões, cru e rouco.
Elas estavam por toda parte.
Cobras. Dezenas delas. Deslizando sobre os lençóis de seda, enroladas no tapete felpudo, penduradas na poltrona no canto. Suas escamas brilhavam à luz da lâmpada, suas línguas bifurcadas se movendo para dentro e para fora, provando o ar. O meu ar.
O pânico, frio e absoluto, me dominou. Saí da cama às pressas, cambaleando para trás até minhas costas baterem na parede. Tentei a maçaneta da porta. Trancada. Claro que estava trancada.
"Gênesis!" gritei, batendo na madeira pesada com os punhos. "Gênesis, sua psicopata, me deixe sair! Me deixe sair daqui!"
Meus gritos desesperados foram recebidos com silêncio. Bati novamente, meus nós dos dedos gritando em protesto. "Me deixe sair! Por favor, alguém me ajude!"
Uma voz suave e calma veio do outro lado da porta. "Alina, você está perturbando a paz da casa. João Ricardo está meditando."
Era ela. Gênesis.
"Você fez isso!" gritei, minha voz rachando de histeria. "Sua monstra doente, tire-as daqui!"
"Eu fiz isso por você, Alina", disse ela, seu tom irritantemente gentil. "O medo é um bloqueio de energia. Você deve confrontá-lo para liberá-lo. Abrace as cobras. Sinta a conexão delas com a terra. Elas estão aqui para te curar."
Minha mente se fragmentou. Eu não conseguia mais formar palavras, apenas sons desesperados e animais de terror. "João Ricardo! João Ricardo, me ajude! Por favor, João Ricardo!"
Ouvi seus passos se aproximando no corredor. Um fio de esperança, agudo e doloroso, perfurou meu pânico. Ele iria parar com isso. Ele tinha que parar. Ele não deixaria isso acontecer.
"O que está acontecendo?" Sua voz estava pesada de sono e irritação.
"João Ricardo, graças a Deus!" solucei, pressionando meu rosto contra a porta. "É a Gênesis! Ela encheu meu quarto de cobras! Por favor, faça ela me deixar sair!"
Ouvi o murmúrio suave de Gênesis. "Querido, eu só estava tentando ajudar. A aura dela está tão nublada pela dor e pela raiva. Pensei que uma terapia de imersão natural ajudaria a purgar a negatividade."
"Ela está tentando me matar!" gritei. "Eu tenho pavor de cobras, você sabe disso!"
Houve uma longa pausa. Eu podia ouvir minha própria respiração ofegante, o sussurro suave e sinistro de escamas no tapete. Prendi a respiração, esperando que João Ricardo ordenasse que a porta se abrisse. Esperando que ele me salvasse.
Sua voz, quando veio, era fria e distante, filtrada pela madeira grossa da porta.
"Gênesis sabe o que é melhor, Alina."
O mundo parou. O ar saiu dos meus pulmões em uma corrida.
"O quê?" sussurrei, minha voz quase inaudível.
"Ela é uma curandeira", disse ele, sua voz ganhando convicção. "Se ela diz que isso vai te ajudar, então vai. Você só precisa se acostumar."
Se acostumar.
As palavras ecoaram no silêncio aterrorizante do quarto. Se acostumar.
Ouvi-o colocar o braço em volta de Gênesis. Ouvi seus passos se afastando pelo corredor.
Ele estava me deixando. Ele estava me deixando aqui dentro.
Um desespero tão profundo que parecia afogamento me puxou para baixo. Deslizei pela porta, minhas pernas cedendo, e me encolhi em uma bola apertada no chão. Eu estava soluçando, mas nenhum som saía. Meu corpo era sacudido por convulsões silenciosas e agonizantes de terror.
Uma das cobras, uma grande píton escura, deslizou lentamente em minha direção. Ela se enrolou em minha perna, seu corpo grosso e musculoso. Fechei os olhos com força, meu corpo inteiro rígido de medo.
Então senti uma dor aguda e penetrante na minha panturrilha.
Olhei para baixo. A cobra tinha me picado. Duas pequenas perfurações estavam vertendo sangue.
O mundo inclinou, as bordas da minha visão ficando cinzas e embaçadas. Meu último pensamento coerente foi em João Ricardo. No homem que me tirou de um carro em chamas, que jurou me proteger.
Que acabara de me sentenciar à morte em um poço de cobras.
Acordei na enfermaria na ala oeste da casa. Minha cabeça latejava, e minha panturrilha estava enfaixada e pulsando.
João Ricardo estava sentado em uma cadeira ao lado da cama, rolando o feed do celular. Ele ergueu os olhos quando me mexi.
"Você acordou", disse ele, seu tom neutro. "O médico disse que foi uma picada não venenosa. Você apenas desmaiou com o choque."
Eu o encarei, minha garganta arranhando. "Você me deixou lá para morrer."
Ele suspirou, um lampejo de aborrecimento cruzando seu rosto. "Não seja dramática, Alina. Eu sabia que não eram venenosas. Gênesis nunca te colocaria em perigo real."
Ele se levantou e caminhou até a janela, de costas para mim. "Preciso que você entenda uma coisa. Gênesis será uma parte permanente da minha vida. Das nossas vidas. Preciso que você aceite isso. Preciso que você pare de tornar as coisas tão difíceis."
Eu apenas encarei suas costas, um nó frio e duro de algo novo se formando em meu peito. Não era amor. Não era nem mesmo ódio. Era uma certeza arrepiante e absoluta.
Eu tinha que sair. Mas primeiro, eu tinha que sobreviver.