"Carrie, venha logo! Seu irmão biológico está aqui!", disse Amanda Murphy, sua voz agitada e apreensiva.
Ao atender o telefonema da mãe adotiva, Caroline Murphy sentiu o coração disparar. Não perguntou mais nada, desligou, pegou a bolsa e saiu.
Desceu as escadas correndo, mas parou no meio do caminho - a cena na sala de estar, lá embaixo, a fez congelar.
Deanna Harvey, sua sogra, estava sentada na poltrona. No sofá, encontravam-se seu marido, Isaac Harvey, e uma jovem que ela nunca tinha visto antes.
Vestindo uma camisa preta sob medida e com o perfil frio e austero, Isaac se inclinou levemente para a frente, entregando um copo de água morna à mulher ao seu lado em um gesto que revelava uma paciência rara.
Três anos de casamento, Caroline mal conhecia o próprio marido, e essa era a segunda vez que o via desde o dia do casamento.
Tudo começara com uma noite, três anos atrás, e a avó de Isaac, Susan Harvey, pressionara o neto a se casar. Ele partiu para o exterior logo depois, e desde então nunca mais dera notícia.
Caroline desviou o olhar lentamente para a desconhecida.
A moça segurava o copo com ambas as mãos, exibindo um sorriso discreto, e a forma como Isaac a tratava transbordava uma ternura incomum.
Vendo isso, um sorriso de zombaria surgiu no rosto de Caroline - começou a entender tudo.
Um ano antes, Isaac quase morrera após ser atacado no exterior e, segundo os boatos, uma mulher chamada Talia Howard salvara sua vida pagando um preço alto por isso.
Agora ela estava ali, sentada ao seu lado.
"Que pressa é essa? Não sabe mesmo se comportar?"
O som que veio da escada chamou a atenção de Deanna, que, ao ver Caroline, estampou no rosto um olhar de desprezo.
"É a cara da filha de uma empregada. Tem aquela pobreza enfiada nos ossos e nunca vai ter classe suficiente para frequentar os nossos círculos."
Caroline apertou a alça da bolsa com força, mas não disse uma palavra, pois seu único desejo agora era ir para a casa de Amanda, sem qualquer energia para discutir com Deanna.
Em seguida, a voz fria de Isaac ecoou pela sala. "Venha ao meu escritório. Agora."
Dito isso, ele se levantou do sofá e subiu as escadas sem sequer olhar para ela.
De lábios cerrados, Caroline acompanhou-o em silêncio até o escritório. No instante em que a porta se fechou, o som das vozes lá de baixo foi cortado.
Do outro lado da mesa, Caroline mantinha o olhar fixo em Isaac, em silêncio.
Três anos o transformaram, apagando os traços de sua juventude e tornando-o mais maduro e imponente.
"Leia e assine", disse Isaac, entregando-lhe um documento.
As palavras em negrito imediatamente chamaram a atenção dela: Acordo de Divórcio.
Olhando para Caroline, a indiferença ilustrava o olhar de Isaac. "Talia ficou com a perna paralisada porque me salvou. Devo isso a ela."
Caroline já havia imaginado esse dia inúmeras vezes nos últimos três anos. Mesmo assim, ouvir essas palavras ainda lhe causava uma dor aguda no peito.
Respirando fundo, ela se acalmou, pois não queria que esse casamento terminasse de uma forma tão humilhante. Além disso, não queria que Isaac a odiasse pelo resto da vida.
"Antes de finalizarmos isso, pode pelo menos me ouvir?", ela perguntou, com seus olhos ficando vermelhos. "O que aconteceu há três anos não foi o que você pensa. Eu nunca te droguei naquela noite..."
"Já estou farto disso", disse Isaac, interrompendo-a com irritação e um olhar de desprezo. "Três anos já se passaram, Caroline. Acha mesmo que se fazer de vítima agora vai mudar alguma coisa?"
Diante dessas palavras, um arrepio a percorreu.
"Vamos resolver isso sem complicações. Seu pai adotivo recebeu tratamento através dos recursos da família Harvey nos últimos três anos, e você se aproveitou de três anos de prestígio como senhora Harvey. Você deveria saber a hora de parar", continuou Isaac.
Caroline mordeu o lábio inferior até sentir o gosto de sangue.
Antes daquela noite, quando a mãe de Caroline ainda era empregada de Susan, ela e Isaac haviam crescido juntos.
Por uma década, Caroline manteve seus sentimentos trancados a sete chaves. Consciente da distância e das diferenças de status entre eles, jamais cogitou a ideia de recorrer a meios desprezíveis para forçar um casamento.
Infelizmente, Isaac nunca aceitou sua explicação. Para ele, ela não passava de uma mulher interesseira.
Caroline notou o escárnio e o desgosto nos olhos de Isaac, e o último resquício de esperança dentro dela se desfez, fazendo-a desistir completamente.
"Está bem." Sem adicionar mais nada, ela pegou a caneta na mesa, foi até a página de assinatura e assinou seu nome sem hesitar.
A reação dela pegou Isaac de surpresa, pois esperava que ela fosse cair no choro ou se apegar a ele desesperadamente.
"A família Harvey continuará arcando com as despesas médicas do seu pai adotivo. Considere isso como uma retribuição por sua mãe ter salvado a vida da minha avó naquela época", disse ele em um tom suave.
Caroline colocou a caneta sobre a mesa, seu rosto desprovido de qualquer expressão.
"Obrigada, senhor Harvey", ela disse, sua voz educada e distante.
Então, ela se virou e saiu. No entanto, logo deu de cara com Deanna e Talia e no corredor.
Deanna percebeu o contrato na mão de Caroline, e um sorriso de satisfação surgiu no seu rosto.
"Então você finalmente sabe qual é o seu lugar. Por três anos, você se agarrou a algo que nunca foi seu", bufou Deanna.
Com uma expressão neutra, Caroline deu um passo à frente, na intenção de passar por elas e descer as escadas.
"Deanna, não seja tão cruel com Caroline. Ela deve estar passando por um momento difícil", disse Talia, tocando levemente o braço da mulher mais velha. "Você não ia ajudá-la a fazer as malas? Vou ficar aqui com ela."
"Isso mesmo. Vou dar uma olhada no quarto dela. Não podemos deixá-la levar nada que pertença a esta família!", exclamou Deanna, lançando um olhar ameaçador para Caroline antes de ir para o quarto.
Com o corredor agora vazio, exceto por elas duas jovens, Talia descartou instantaneamente sua máscara de fragilidade e inocência, erguendo o queixo para medi-la com um olhar de pura arrogância.
"Então você é a mulher que armou uma armadilha para Isaac?", Talia perguntou com um sorriso zombeteiro, com seus olhos cheios de desprezo. "Não vejo nada de especial em você. Mas, por causa de alguém como você, Isaac passou os últimos três anos sofrendo."
Caroline só queria ver seu irmão biológico, sem qualquer interesse em perder tempo com essa mulher.
"Saia da frente", ela disse, sua voz fria, e tentou passar por Talia para descer as escadas.
Bem no momento em que Caroline passou por ela, Talia de repente agarrou o pulso dela.
"O que está fazendo? Me solte!", Caroline disse, franzindo a testa.
Antes que Caroline pudesse fazer qualquer movimento, um sorriso estranho surgiu nos lábios de Talia, que então a soltou.
No instante seguinte, um grito agudo ecoou pelo corredor, e Talia caiu para trás, caindo no chão com força.
A porta do escritório se abriu imediatamente, e Isaac saiu.
Ao ver Talia no chão, o choque estampou seu rosto. Ele correu até ela e se ajoelhou para abraçá-la. "Talia, o que aconteceu?"
Talia se recostou nele enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Com uma mão segurando sua perna esquerda, seu corpo tremia da cabeça aos pés. "Isaac, minha perna está doendo tanto... Será que piorei minha lesão quando caí? Não estou aguentando a dor..."
Enquanto falava, ela lançava um olhar discreto para Caroline antes de balançar a cabeça rapidamente. "Não foi culpa de Caroline. Eu escorreguei sozinha. Ela não quis me empurrar..."
Que ato de inocência impecável...
Um arrepio percorreu Isaac, e uma fúria sombria surgiu em seu rosto quando ele ergueu a cabeça para encarar Caroline, que permanecia parada ali.
"Peça desculpas!"
"Não vou pedir desculpas. Não empurrei Talia! Ela caiu sozinha!", Caroline disse, sua postura firme.
Embora suas mãos tremessem levemente ao lado do corpo, ela se recusou a desviar o olhar dos dois.
"Isaac, por favor, não culpe Caroline...", Talia começou, toda coitadinha. "Perdi o equilíbrio. Sou só um fardo que não consegue nem ficar de pé. A culpa não foi da Caroline. Por favor, não a force a pedir desculpas, senão vocês dois vão acabar brigando de novo..."
Ela segurava a barra da camisa de Isaac, enquanto seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar.
Suas palavras soaram como uma falsa tentativa de acalmar a situação, mas na verdade só deixaram Isaac mais furioso, já que ela fez questão de lembrar que sua perna ferida foi o sacrifício feito para salvá-lo.
Os olhos de Isaac se fixaram em Caroline, transbordando decepção e repulsa.
Com uma voz profunda e incisiva, ele disse: "Caroline, você não muda nunca. Continua sendo a mesma de três anos atrás. Sempre comete erros, mas nunca admite."
Caroline sentiu uma dor surda no peito e a respiração falhar, tornando até mesmo o ato de respirar algo insuportável.
Três anos de casamento e dez anos o amando em segredo. Mas mesmo assim, aos olhos de Isaac, ela não passava de uma mulher calculista e teimosa.
Encostando-se em Isaac e escondendo o rosto contra seu peito, Talia permitiu-se um sorriso de satisfação, longe da vista dele.
Alguém com o passado de Caroline jamais poderia realmente competir com ela por Isaac.
De repente, um barulho alto veio do outro lado do corredor.
Arrastando uma mala atrás de si, Deanna saiu e, ao ver Talia chorando nos braços de Isaac, a raiva estampou seu rosto imediatamente.
Apontando o dedo para Caroline, ela exclamou: "Sua desgraçada, Caroline! Você só causa problemas! Talia salvou a vida de Isaac, e você ainda teve a coragem de bater nela? Como pode ser tão cruel? Não é de se admirar que você tenha usado métodos desprezíveis para entrar na cama de Isaac e forçá-lo a se casar com você naquela época!"
"Mãe, já chega", disse Isaac, uma carranca se formando no seu rosto.
Diante dos insultos, Caroline atingiu o limite e, de olhos vermelhos, elevou a voz, encarando Isaac de frente. "Nunca fui para a cama com ele de propósito! Esta é a última vez que vou explicar isso. Alguém adulterou minha bebida naquela noite. Eu não sabia que você estava naquele quarto e nunca tive a intenção de te forçar a se casar comigo!"
"Já chega!", Isaac a interrompeu sem hesitar, seus olhos cheios de irritação e impaciência.
Olhando para ela com uma indiferença gélida, como se ela fosse ridícula, ele continuou: "Caroline, deixei de acreditar nessa desculpa há três anos. Ouvir você repeti-la agora só te faz parecer ainda pior."
Caroline ficou ali em silêncio, um frio intenso se espalhando pelo seu corpo, e o último resquício de orgulho que lhe restava desmoronou completamente.
Isaac não acreditava em uma única palavra que ela dizia. Os dez anos em que se conheciam desde a infância não significavam nada para ele.
"Por que ainda está parada aí?!" Vendo a raiva de Isaac, Deanna aproveitou a oportunidade e jogou a mala em Caroline.
A mala bateu forte na panturrilha de Caroline, desequilibrando-a e espalhando roupas velhas pelo chão em uma cena deprimente.
"Você já assinou o divórcio, então pegue esse lixo e vá embora!", disse Deanna, encarando Caroline com total desdém.
Caroline nem olhou para as roupas espalhadas pelo chão. Lentamente, ela se endireitou, seu olhar passando por Deanna antes de se fixar no rosto frio de Isaac.
"Isaac, não se esqueça do que vou dizer - não vou admitir algo que nunca fiz. Não vou pedir desculpas a você, nem a ela. Nem agora, nem nunca", disse Caroline, com uma voz estranhamente calma.
Dito isso, deixou as roupas onde estavam, pegou sua bolsa de lona gasta e, sem olhar para trás, desceu as escadas.
Isaac a observou se afastar, suas sobrancelhas se franzindo. Sem motivo aparente, uma sensação incômoda de irritação cresceu dentro dele.
...
Do lado de fora da mansão, uma brisa fresca soprava na noite.
Quando Caroline saiu, viu uma longa fileira de Rolls-Royce Phantom pretos, todos idênticos, estacionados na ampla entrada da Vila Harvey.
Mesmo no auge do sucesso da família Harvey, nunca haviam feito uma ostentação tão extravagante.
De repente, a porta do carro do meio se abriu e uma pessoa familiar saiu rapidamente.
"Carrie!", Amanda exclamou, correndo em direção a ela.
A luz da rua revelou o rosto pálido e os olhos vermelhos de Caroline.
No momento em que Amanda viu o estado da filha, sua expressão ficou sombria. "Aqueles bastardos da família Harvey te intimidaram de novo?! Eles têm a cara de pau de intimidar minha filha! Vou acabar com Deanna!"
"Mãe, não!" Caroline segurou o pulso de Amanda e balançou a cabeça, as lágrimas ameaçando cair novamente. "Já assinei o divórcio. De agora em diante, não tenho mais nada a ver com os Harvey. Por favor, não perca seu tempo com eles. Eles não merecem."
Com o cansaço transparecendo na voz, Caroline não queria que Amanda continuasse a sofrer por ela e, mais do que isso, jamais daria à família Harvey o prazer de zombar delas novamente.
Ao ouvir a palavra "divórcio", Amanda congelou, mas logo ergueu a voz e disse: "Ótimo! Aquele idiota nunca mereceu minha filha mesmo!"
Caroline não disse nada, pois sua atenção se desviou para a fileira de carros de luxo estacionados atrás de Amanda. "Mãe, o que está acontecendo com todos esses carros? Você me disse por telefone que meu irmão biológico veio me procurar?"
Ela era órfã, e Amanda a adotou quando ela ainda era criança.
Mais de vinte anos se passaram desde então. Como um irmão biológico poderia aparecer do nada agora?
A julgar por essa exibição, era óbvio que seu status estava longe de ser comum.
Soltando um suspiro, Amanda pegou a mão de Caroline e a conduziu até o carro. "Este não é o lugar certo para essa conversa. Venha comigo. Entre no carro primeiro. É uma longa história, e explicarei tudo assim que entrarmos."
Caroline estava cheia de perguntas, mas seguiu a mãe em silêncio e se sentou no banco de trás do Rolls-Royce.
Bem quando a porta do carro se fechava, do outro lado, o portão da frente da vila se abria.
Após se certificar de que Talia estava acomodada, Isaac saiu com Deanna.
Preocupada com uma possível desistência do divórcio, Deanna correu para instruir os seguranças a impedirem a entrada de Caroline. No entanto, ao sair, flagrou Amanda e Caroline entrando num Rolls-Royce. E momentos depois, o comboio partiu com uma presença imponente.
Os olhos de Deanna se arregalaram imediatamente, e uma expressão maliciosa se espalhou pelo seu rosto.
"Então é por isso que ela aceitou o divórcio tão rápido!", exclamou ela com um sorriso de escárnio, se virando para Isaac. "Olhe só, Isaac. Amanda não mudou nada depois de todos esses anos. Ela ainda está usando a filha para obter benefícios. Ela deve ter entregado Caroline para algum velho rico para mantê-lo entretido. Tal mãe, tal filha. As duas são nojentas!"
Isaac continuou olhando para o comboio que partia, sua expressão sombria.
Aqueles não eram Rolls-Royces comuns, e a influência representada por aquela placa já era suficiente para fazer até a família Harvey pensar duas vezes.
Com quem Caroline havia se envolvido?
Enquanto isso, Deanna continuava a lançar insultos atrás de insultos, e cada palavra só alimentava a raiva estranha que se acumulava dentro de Isaac.
"Cale a boca!", ele disse bruscamente, sua voz tão fria que deixava as pessoas desconfortáveis.
Deanna encarou o filho em choque, se sentindo injustiçada e irritada. "Por que está gritando comigo? Eu disse algo errado?"
Isaac não lhe deu atenção e, com uma irritação evidente, afrouxou a gravata e voltou para a mansão.
Deanna ficou parada ali, a frustração estampando seu rosto enquanto ela batia o pé.
Enquanto isso, Talia estava na varanda do segundo andar, seus olhos fixos na direção onde o comboio desapareceu.
No exato momento em que as luzes do carro se acenderam para receber Caroline, ela vislumbrou a figura no banco traseiro. O homem tinha um rosto marcante e atraente, emanando uma autoridade inata, como um líder nato.
Por um segundo, lembrou-se do irmão mais velho, Caleb Howard, que morava em Ylerton. No entanto, o pensamento mal surgiu e ela o descartou.
Impossível!
A família Howard tinha sede em Ylerton. Pelo que ela sabia, Caleb nunca visitara aquela cidade. Alguém como Caroline, criada por uma empregada, não tinha sequer o direito de se aproximar dos Howard. Como poderia ter alguma ligação com Caleb?
"Devo ter imaginado...", Talia murmurou para si, balançando levemente a cabeça.
Então, um sorriso de vitória iluminou seu rosto.
Não importava em que carro Caroline fora embora. Para ela, agora que Caroline estava fora do caminho, Isaac seria seu, e somente seu.
Um silêncio sufocante tomou conta do carro.
Sendo um dos modelos mais luxuosos da Rolls-Royce, o isolamento acústico era excepcional, e não se ouvia o menor ruído da brisa noturna.
Caroline apertava a bolsa de lona contra o corpo, sentada no amplo assento de couro, com os músculos tensos.
Só depois de entrar percebeu que o carro já estava ocupado: um jovem desconhecido sentado à sua frente, no banco do motorista.
Ele vestia um terno preto sob medida, que lhe caía perfeitamente, e tinha uma das pernas cruzadas sobre a outra, num gesto casual.
A luz dos postes que passavam lá fora iluminava seu rosto de forma intermitente, revelando traços extremamente bonitos: olhos profundos e penetrantes, nariz reto e bem definido.
Em silêncio, ele transmitia a presença imponente de quem passara anos no poder.
Amanda, sempre direta e enérgica, agora estava encolhida perto da porta, os dedos mexendo na barra da roupa.
Com o rosto tenso, engoliu em seco ao notar o olhar fixo de Caroline no homem, e então falou: "Carrie, me deixe te apresentar esse cavalheiro."
Ela apontou para o homem. "Este é seu irmão biológico, Caleb."
Ao ouvir isso, a mente de Caroline ficou em branco.
Irmão... biológico?
Ela ficou completamente imóvel, o choque fazendo seus olhos se arregalarem.
Sabia desde pequena que fora adotada de um orfanato.
Por mais de vinte anos, imaginara sua família biológica inúmeras vezes, como seriam seus pais.
Mas agora que o momento chegara, não sabia como reagir. Do nada, um irmão aparecia, sentado bem à sua frente.
A mente de Caroline estava em completa desordem, sem qualquer alegria, apenas uma imensa confusão invadindo seu coração. apenas uma imensa confusão invadindo seu coração.
Caleb observava a expressão perplexa dela, e viu que seus olhos estavam avermelhados, o que fez surgir em seus olhos um lampejo de pena.
No instante seguinte, percebeu que o corpo dela tremia ligeiramente.
A respiração de Caleb prendeu-se por um momento, e um súbito pânico o invadiu ao pensar que a assustara.
Imediatamente lembrou-se das inúmeras advertências que seu assistente pessoal, que trabalhava com ele há dez anos, lhe dera antes de sair: "Senhor Howard! Quando for conhecer sua irmã, livre-se dessa presença intimidadora de chefão! Pare de ficar com essa cara fechada! Os irmãos de famílias comuns são gentis e amigáveis! Se você olhar para sua irmã como olha para os membros da máfia durante um interrogatório, vai acabar assustando-a antes mesmo de conhecê-la!"
A família Howard enriquecera em Ylerton. Por gerações, seus antepassados foram figuras notórias do submundo. Embora com o tempo tivessem migrado para negócios lícitos, a ferocidade e a agressividade nos genes nunca desapareceram por completo.
Antes da viagem, toda a família se reunira e chegara a um consenso: Caroline não poderia, sob nenhuma hipótese, descobrir o passado mafioso. Suas verdadeiras origens deveriam permanecer ocultas até que ela se adaptasse e criasse laços com eles, momento em que a verdade finalmente seria revelada.
Com isso em mente, Caleb endireitou-se, respirou fundo, relaxou a tensão do rosto e suavizou o olhar intimidador. Esforçou-se para esboçar o que acreditava ser um sorriso caloroso e disse, em tom baixo e macio, diminuindo o ritmo da fala: "Carrie, não fique nervosa. Sou seu irmão mais velho, Caleb."
Caroline olhou para o sorriso tenso no rosto dele, mas percebeu a expectativa ansiosa e a esperança escondidas por trás dos seus olhos.
"V-você é mesmo meu irmão?", perguntou ela com a voz ligeiramente rouca, enquanto as pontas dos dedos pressionavam com força as palmas das mãos. "Mas estou longe há mais de vinte anos. Há tantas pessoas parecidas comigo nesse mundo. Tem certeza de que encontrou a pessoa certa? Não tenho nada que possa provar quem sou..."
"Não há a menor possibilidade de erro", Caleb disse, com expressão firme, colocando a mão no bolso interno e entregando a ela um documento. "Este é o teste de DNA. Além disso, você tem uma mancha de nascença vermelha do tamanho de uma moeda abaixo do ombro esquerdo, não tem?"
Ao ouvir isso, Caroline ficou chocada - além dela e de Amanda, ninguém mais sabia sobre essa marca de nascença.
As palavras "Relação Biológica Confirmada" estavam impressas em negrito no relatório, e chamaram sua atenção.
Toda a dor que ela enterrara por anos, toda a confusão que nunca a abandonara, toda a frieza que Isaac trouxera para sua vida, tudo a invadiu de uma vez.
Mas o calor dos laços de sangue foi, aos poucos, dissipando aquela angústia, porque ela realmente encontrara sua família.
Caroline respirou fundo várias vezes, tentando conter o nó na garganta. Foi só então que finalmente aceitou a verdade.
Segurando a alça da bolsa de lona com jeito desajeitado, ergueu a cabeça e perguntou em tom suave: "Caleb, e a mamãe e o papai? Por que eles não vieram hoje?"
Ao ouvir a voz doce e delicada chamá-lo, o coração de Caleb acelerou e a alegria quase o dominou a ponto de querer gritar, mas ele se conteve.
"A mamãe não está bem de saúde", explicou ele. "Depois de te perder há tantos anos, ela ficou tão triste que desenvolveu uma doença cardíaca crônica, então não consegue viajar para muito longe. O papai ficou em Ylerton para cuidar dela."
Olhando para a irmã com uma gentileza rara nos olhos, Caleb continuou: "Os dois queriam vir, mas os convenci a ficar em casa. Vim para te buscar. Seus outros dois irmãos estão viajando a trabalho hoje, mas pegarão um voo amanhã de manhã para te ver."
"Então tenho mais dois irmãos?", Caroline perguntou, surpresa.
"Sim. Lance e Jaime. Você é a mais nova", disse Caleb, olhando para ela com um carinho evidente nos olhos.
Caroline assentiu levemente, e a inquietação que afligia seu coração se aliviou um pouco.
Após um momento de hesitação, ela olhou para a luxuosa frota de Rolls-Royces ao redor deles e não pôde deixar de perguntar: "Caleb, que tipo de negócio nossa família tem?"
Esse nível de riqueza era chocante. Até Isaac nunca havia viajado com tanto luxo.
Caleb congelou por um segundo.
Lá vinha a pergunta que seu assistente o avisara para preparar.
Ele pigarreou e respondeu com a maior seriedade: "Nada demais. Nossa família só administra uma pequena empresa."
"Uma pequena empresa?", indagou Caroline.
"Isso mesmo. Uma pequena empresa", respondeu Caleb, continuando a inventar a história com uma expressão perfeitamente calma. "Temos uma empresa modesta e eu só cuido de algumas tarefas básicas de gerenciamento lá. Tivemos um ano bom e ganhamos um pouco de dinheiro extra. Não queria que a sua chegada parecesse muito humilde, então aluguei essa frota para a ocasião."
Em seguida, ele continuou a contar a história da família que havia inventado: "Seu segundo irmão é médico e trabalha em um hospital, e seu terceiro irmão é advogado em um escritório de advocacia. Nossa família é bem de vida, então você nunca terá que se preocupar com dinheiro."
Sentada ao lado de Caroline, Amanda soltou um longo suspiro.
"Então a família é rica. Isso é uma boa notícia", ela pensou.
Deu um tapinha no peito, aliviada, e apertou a mão de Caroline com força. "Ah, Carrie, estou tão feliz por ter persistido tantos anos e insistido em te colocar naquela escola de prestígio com o Isaac. Você aprendeu a tocar piano lá e até se tornou fluente em quatro idiomas. Posso ser só uma empregada, mas nunca te criei de forma rude ou mal-educada. Olhe para você agora, tão educada. Quando voltar para a família Howard, nunca os envergonhará. Com tudo o que aprendeu, ninguém ousará te desprezar."
As palavras de Amanda emocionaram Caroline.
Em retribuição, ela apertou a mão da mulher com a mesma firmeza. "Mãe, não importa de qual família eu venha. Você sempre será minha mãe. Nada jamais mudará isso."
Do outro lado do carro, Caleb ouvia a conversa em silêncio, com uma leve carranca entre as sobrancelhas.
Isaac? Esse nome lhe parecia familiar, pois já o havia visto nos relatórios de investigação sobre Amanda.
Isaac era o jovem herdeiro da família Harvey em Yeufield, e sua reputação de arrogância era bem conhecida.
Os olhos de Caleb se desviaram lentamente para baixo, se fixando na panturrilha levemente inchada de Caroline, onde um hematoma escuro estava visível - deixado ali quando Deanna a atingiu com a mala mais cedo.
Em seguida, seus olhos se voltaram para os olhos avermelhados de Caroline, e depois para a velha bolsa de lona que ela carregava.
Nesse momento, a expressão gentil no rosto de Caleb desapareceu. Num instante, o lado ameaçador que ele escondia emergiu, e a aura de um líder do submundo pareceu emanar de todo o seu ser.
A temperatura dentro do carro pareceu cair.
"Carrie", chamou Caleb, e seus olhos ficaram assustadoramente sombrios.
Ele olhou na direção onde a Vila Harvey havia desaparecido de vista há muito tempo, sua voz carregada de um tom ameaçador. "Eles te expulsaram de casa?"
Enquanto falava, suas mãos se cerraram lentamente, com uma força tão intensa que os nós dos seus dedos estalaram. Nesse momento, inúmeras maneiras de jogar Isaac no mar e apagar a Vila Harvey do mapa surgiram na sua mente.
Tudo o que era necessário era um único sinal de Caroline - se ela quisesse, a família Harvey não sobreviveria à noite.