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Dama de Prata

Dama de Prata

Autor:: Eduarda Augusto
Gênero: Bilionários
Uma releitura de Cinderella. No mundo corporativo, Cohen Archer domina o setor de tecnologia. CEO de uma das maiores empresas de desenvolvimento do país, ele divide hanking na coluna de solteiros bilionários mais cobiçados de Seattle.Todos sabem do seu império, mas poucos sabem que por trás dele está, Anya Amstrong. A secretária mais eficiente que Cohen já teve. Responsável por cada minuto comprometido do seu dia, e do seu café que só ela sabe como pedir. A vida de Anya resume-se em estudar e manter seu emprego para pagar a faculdade, por isso ela preserva seu profissionalismo, abrindo mão - Muita das vezes. - , até de si mesma. Seus colegas de trabalho a apelidaram de Gata Borralheira. E como no clássico, a fada madrinha da vez é Holly Price, estágiaria em uma famosa alfaiataria. Todos os anos a corporação Archer celebra seu lançamento tecnológico anual com um evento, e para entrar no contexto, a equipe do marketing planejou um baile de máscaras. Anya é claro não iria, se não fosse para ajudar sua amiga que conseguiu um vestido consignado. Muitas queriam uma casquina do anfitrião cobiçado, mas naquela noite, Cohen só tinha olhos para sua Dama de Prata, que surgiu como uma deusa entre a nuvem de fumaça no salão principal. Uma noite que jamais sairá da sua cabeça, então ele decide iniciar uma caçada, e contará com a ajuda da sua secretária, que fará de tudo para ele não descobrir que era ela, ou seu emprego já era.Tudo o que Cohen tem é uma etiqueta de uma alfaiataria, e ao comprar o vestido que fora usado por ela, ele não tem dúvidas de que veria sua Dama dentro dele novamente. Quanto tempo será preciso para Cohen notar que sua gata borralheira é a Dama que domina seus melhores pensamentos? E por quanto tempo Anya conseguirá fugir do desejo incontestável que seu chefe tem de reencontra-la?

Capítulo 1 Gata Borralheira

Anya Amstrong

"Eu vou ser demitida."

Foi só o que consegui pensar quando entrei na cafeteria e vi uma fila quilométrica para fazer o pedido. Isso porque eu estava exatamente dez minutos atrasada, dez minutos que virariam meia hora se eu tivesse que enfrentar aquela fila, não importa se meu pedido era para o dono daquele prédio, eu não tinha passe livre, mas eu tinha o Joe. O atendente que acenou pra mim com um sorriso, mostrando-me meu pedido já pronto no balcão de espera.

- Joe, você acaba de salvar a minha vida! - Disse entregando meu crachá a ele.

A cafeteria é conveniada da empresa, todos que frequentam aqui são funcionários da Archer e claro, convidados e estudantes que visitam todos os dias nossas dependências. Portanto, eu não precisava pagar em dinheiro, bastava que Joe encostasse meu crachá naquela maquininha, e os dois copos diários de café extra forte com dois quartos de leite cremoso adoçado com doce de leite e salpicado com canela, fosse descontado diretamente do meu salário. Ah eu disse dois, bem... isso porque o segundo era a porcaria de um café descafeinado.

Qual a lógica de beber cafeína... sem cafeína? Eu também não conseguia explicar.

Na minha cabeça é a mesma coisa que pedir água gaseificada... sem gás.

- Estão prontos desde às seis e quarenta e cinco em ponto. Esquentei quando vi você entrar correndo pelo saguão. - Brincou com um sorriso tímido de canto me devolvendo o crachá. - Sabe Anya, eu estava pensando se...

- Isso significa que tenho menos de cinco minutos pra chegar lá em cima. - Interrompi as pressas, pegando o combo de dois copos bem lacrados para aguentar a corrida. - Desculpe Joe, muito obrigado e até mais tarde.

Deixei o loiro de cabelos desgrenhados dentro da boina com logomarca marrom para trás. Agradeci pelo meu atraso, se não fosse isso eu teria que - Mais uma vez - explicar por quais motivos não posso me envolver com ninguém agora.

O motivo estava longe de ser algo relacionado a ele, pois admitia constantemente para Holly que Joe era um tremendo de um gatinho, mas seu estranho interesse em mim veio em uma época inoportuna. Estou no último ano da faculdade, minha vida está uma loucura com as penúltimas provas se aproximando e um TCC para começar a pensar, e esse dilema precisava ser resolvido nas minhas poucas horas vagas, pois, na maior parte do meu dia eu me encontrava aqui, dedicando minha disposição e tempo para organizar - e ser uma agenda viva. - , de Cohen Archer.

Ninguém menos, ninguém mais que a mente brilhante que move essa corporação iniciada pelo seu aposentado pai, que viu seu império multiplicar em incontáveis dezenas, talvez centenas de vezes depois que Cohen começou a administrar tudo. Não é um fato incomum saber disso, sua vida está estampada em todas as colunas e tabloides de fofoca, sejam elas com manchetes de "Bilionário solteiro mais cobiçado de Seattle" a "CEO implacável inova mais uma vez no mercado tecnológico."

Ele está em todas!

No começo foi estranho ver o rosto do meu chefe em todas as esquinas e páginas de fofoca que surgiam no meu feed. Era só abrir uma rede social e ele estava lá, ao lado de grandes empresários, modelos e até mesmo os donos das redes sociais, já que a corporação Archer atua na evolução desses aplicativos. Tudo bem que parte dessa exibição constante e exagerada tem a ver com os algoritmos devido as minhas pesquisas em todos os meios possíveis para estar por dentro dos planos de lançamento e expectativas de eventos que sim, eu precisava marcar presença.

São esses pequenos detalhes que garantem minha permanência irrevogável na vaga de secretária pessoal de Cohen Archer há quase dois anos, graças a um estágio da faculdade que me agenciou na empresa terceirizada que empregam os funcionários da corporação Archer. Uma vaga nada planejada e confesso, até um pouco movida pela sorte, já que de última hora, tiveram que mandar alguém para cobrir a última secretária demitida por ele e eu coincidentemente estava na sala do gestor preenchendo meus requisitos.

Sinceramente eu não sei o que Archer viu em mim, já que meu primeiro dia foi um completo desastre, afinal, o que uma estudante de publicidade sabia sobre algoritmos? Nada! Mas, eu tinha um copo de café extremamente doce na mão quando ele reclamou do seu que estava amargo, e consegui por suficientes quinze minutos melhorar seu humor até entender que minha única obrigação naquele dia, era não deixar ninguém entrar na sala dele, fato que eu impeço com meu próprio corpo e vida há quase dois anos, e minha principal ameaça a perder esse feito invicto estava bem ali, prestes a entrar na sua sala quando pisei meus pés no hall do andar presidencial.

Drizella Hummer, a modelo capa de todos os eventos de lançamento da Archer e claro, perseguidora nata de Cohen Archer.

Corri equilibrando os copos de café como se minha vida dependesse daquilo, e barrei a loira antes que ela conseguisse colocar seus dedos cumpridos e finos na maçaneta lustrada.

- Mas... de onde você saiu, porteira? - Perguntou com a voz estridente evidentemente irritada.

- Da vagina da minha mãe há vinte e três anos atrás. - Respondi afiada. Drizella fez uma careta. - Agora dá meia volta que nem eu entrei nessa sala ainda.

- Não até falar com o Cowl. - Contorci meu rosto com o apelido. - O Evento de lançamento da Archer está chegando e ele ainda não decidiu a paleta de cores, sabe o que isso significa? Que meu vestido ainda não está sendo confeccionado, e se por um acaso eu não estiver na paleta de cores da festa, a culpa vai ser sua.

- Nossa... - dramatizei minha entonação, encenando importância ao seu dilema. - Isso é um problemão, mas se nem eu sei qual é, então te garanto que o senhor Cohen sabe menos ainda.

- Para de ser cínica garota, e sai da minha frente. - Ordenou entredentes.

- Não, ninguém chega no Cohen se não passar por mim, já barrei muitos marmanjos, não vai ser seus um e setenta e seis de altura que vão conseguir. Volta mais tarde Drizella, o café dele está esfriando e se eu não estiver dentro da sala em cinquenta segundos, garanto que a paleta de cores vai ser bem fúnebre. Você não vai querer ir de pretinho básico vai?

Como se aquilo realmente fosse a maior preocupação da sua vida, a loira bufou e deu as costas, mas antes de entrar no elevador se virou de volta pra mim.

- Você é muito especifica com números e isso é assustador! - Reclamou, irritada não pelo fato, mas por talvez surgir efeito esperado.

- Sabe o que é mais especifico? Os centavos no boleto da minha faculdade, e acredite, eu gosto de ver os zeros no saldo devedor do mês depois que eu pago, faz os dezenove segundos que faltam para eu estar dentro da sala valerem a pena.

Drizella bufou mais uma vez e finalmente sumiu do meu alcance de vista. Suspirei recuperando a postura e finalmente me vi de frente para a porta exageradamente grande e assustadoramente preta e cinza espacial em um único detalhe de recorte da curva de Hipérbole em que brilhava tanto quando lustrado, que mais parecia um espelho. Esse mesmo design estava nos logotipos espalhados pelo prédio inteiro e qualquer coisa que tinha como criador e desenvolvedor, o nome Archer.

- É o seu recorde de quase atraso. - Despejou Cohen assim que entrei na sala. Ele estava digitando algo em seu notebook e os olhos nem se deram ao trabalho de me fitar. Agradeci, pois eu ainda estava acelerada pela corrida nada comum para uma sedentária assumida.

- Não seria se não tivesse que barrar a entrada da senhorita pavor por cálculos. - Respondi caminhando diretamente para o bar-café da sua gigantesca sala, onde abri seu copo térmico e despejei o pobre do café descafeínado em uma xícara, agradecendo por ainda estar quente. Em seguida, abri o meu e com a ajuda de uma colher descartável, misturei uma única colher no seu e caminhei com uma habilidade aprimorada de caminhar enquanto equilibrava uma xícara cheia até a boca.

- Eu ouvi. Isso me lembra de pedir para colocar acústico na porta, odeio aquele apelido! - Murmurou pegando o café da minha mão e bebericando, para então praticamente gemer aprovando o gosto da bebida. Cohen olhou por cima dos cílios e piscou, sorrindo ainda que seus lábios estivessem novamente encobertos pela porcelana branca.

Não preciso dizer que já tive sonhos bem quentes com esse mesmo sorriso prazeroso, mas encoberto por outra coisa.

Sacudi meus pensamentos começando a recolher os papéis espalhados pela sua mesa e enfileirado do seu lado, separando o que era lixo do que eu precisaria para ser lançado, dado baixa e agendado.

O fato é que a fama de Cohen não dependia somente do seu império e nome, ainda que ele não tivesse esses bônus, continuaria sendo um gostoso. Lembro da primeira vez que dei de cara com ele, vergonhoso é pouco para resumir esse encontro, pois pela primeira vez na vida eu esqueci como falava, eu esqueci meu nome, esqueci como andava. Tudo o que eu via eram incríveis íris negras que me fitavam debaixo de linhas endurecidas. Eu só não sabia que aquele era o Cohen CEO, propositalmente intimidador. Com a convivência, conheci aos poucos um homem ainda jovem que precisava usar suas artimanhas a seu favor, e para somente alguns, mostrava sua veia de humor presente atrás desse sorriso que poucos tinham acesso.

É claro que também não me lembro de como o conquistei, mas creio que foi quando admiti para mim mesma, que Cohen Archer era meu chefe, e uma linha invisível que limitava meus interesses foi estabelecida. Bem, pelo menos era nisso que eu acreditava, me comparando com as mulheres dando em cima dele, e o tratamento que elas recebiam. Cohen é maleável, e como disse, até sarcástico quando quer, mas é preciso saber que quando seu modo CEO estava ativo, seu fodido profissionalismo era quem respondia por ele.

- Não é tão ruim, se não fosse pelo fato de que seu nome é curto suficiente para não ser apelidado.

- Engraçado ouvir isso de quem tem uma letra a menos que a minha no nome e mesmo assim consegue ser apelidada. - Disse voltando a digitar freneticamente, sem tirar os olhos escuros da tela.

- E depois me perguntam por que sou tão especifica com números. - Murmurei empurrando algumas bolinhas de papeis para a lata de lixo. A mesa dele pela manhã era uma completa e inexplicável bagunça.

- Ser de exatas não significa que você precisa viver de exatas.

- Eu ouvi isso de um bilionário tecnólogo que vive de algoritmos? - Ironizei, arrancando uma risada gostosa abafada mais uma vez pela xícara de café na sua boca.

- Anya, nem eu sabia que o desenho da porta era uma curva da matemática. - Cohen se levantou de repente, caminhando até o bar onde meu copo ainda intocado de café descansava. - Ainda quero saber que mistura é essa que você chama de café, que é suficientemente doce para adoçar e saborizar o meu. - Disse pegando meu copo na mão e analisando.

Abracei as pastas empilhadas de trabalho que me ocupariam por uma manhã inteira e caminhei diretamente até ele, tomando minha bebida da sua mão.

- Não vai saber. Ainda acho que é essa mistura que segura meu emprego, e não o fato de eu saber que o logotipo da empresa é uma Hipérbole. - Declarei me retirando da sala, mas ainda antes de sair, Cohen chamou minha atenção novamente.

- Anya... - Virei-me equilibrando as pastas e o copo de café com uma mão só, já que a outra segurava a maçaneta. - Quem é Joe? - Perguntou forçando sua vista para ler algo no copo que eu jurava ter jogado fora. Quando ele finalmente me mostrou, vi uma inscrição em manuscrito do que parecia ser, um número de telefone.

- Deve estar pedindo emprego. Ele sabe que esse café é seu. - Mais uma vez ele riu, jogando o copo de volta no lixo, recostando-se no bar me encarando enquanto eu me esforçava para fechar a porta. - Eu vou matar o Joe!

- Agenda com o cara do acústico. - A voz do Cohen chegou abafada até mim, mas chegou.

Exprimi os lábios e larguei a pilha de de pastas na mesa, dando finalmente uma golada no meu café perfeitamente doce, mas não doce melado, doce na medida certa, pois o gosto predominante era do leite e o café, mesmo que ainda forte, apenas saborizava minha bebida que podia ser bebida quente ou gelada.

Meu dia não foi muito diferente de uma quarta-feira qualquer. Aprovei compromissos, confirmei presença em alguns eventos; Reuniões; Palestras; Até reiterar mais uma vez, que essa vida no cotidiano tem muito mais contras do que prós, afinal, do que adianta tanto dinheiro e status se não tem tempo para aproveita-lo de alguma maneira? A verdade seja dita, faz dois anos que estou aqui e já tive mais férias que Cohen.

Bem, deve ser por isso que ele é um bilionário e não eu.

Minha cabeça estava prestes a escorregar da mão já que eu apoiava o peso da mesa sobre os cotovelos na mesa, quando meu computador brilhou em um e-mail que ficava sempre em primeira tela. Era Cohen, e o assunto principal tinha como titulo "Caso ela volte". Quando abri o e-mail, avistei a paleta de cores que eu deveria entregar a Drizella caso ela voltasse, não tive tempo de dizer que estava curiosa, pois nesse momento eu estava mais surpresa e horrorizada do que qualquer coisa.

- Fúnebre? - Perguntou Holly boquiaberta olhando a paleta de cores que Cohen me enviou para enviar aos organizadores do evento.

Eu tinha acabado de chegar em casa após mais um dia de aulas noturnas, o único horário que me sobrava para frequentar a universidade. Holly geralmente já estava dormindo nesse horário, mas hoje em questão ela me esperava para uma noite regada a pizza e vinho.

Dividimos apartamento em um bairro próximo a universidade, e longe do meu trabalho, mas como chegar tarde é mais perigoso do que sair mais cedo, tive que definir minhas prioridades. Não tive tempo de contar a ela como foi meu dia, tampouco ressaltar um detalhe sobre o baile de mascaras que a corporação daria para celebrar seu próximo lançamento, mas acontece que Holly é atendente e assistente da Stella Valêncio, uma estilista francesa famosa com um único ateliê em toda Seattle, que estaria na cidade somente por causa da alta procura devido ao evento anual da Archer. Ela foi uma das estilistas entre as grandes marcas da alta costura que receberam a paleta de cores para preparar seus croquis e estoque de tecidos.

- Não é o tema do baile, Holly, só a paleta de cores entre cinza e preto. - Respondi bebericando meu vinho enquanto minha mão livre pescava outro pedaço de pizza no chão da sala onde estávamos jogadas.

- Mas você mesma disse que ele te enviou a paleta depois dizendo que adorou a ideia do fúnebre.

- Não peça que eu entenda um cara que toma café descafeínado. - Resmunguei já me sentindo zonza pelas duas taças de vinho. - Deve ser algum tipo de conceito, tipo moda de passarela que na realidade ninguém usa, você estuda e trabalha com isso, deveria saber.

- É faz sentido se ele quiser enterrar algum seguimentos ou produto. Vai entender. - Foi sua vez de dar uma longa golada no vinho depois de dar ombros. - Mas, e você vai usar o quê?

- Pijama. - Respondi, sabendo que ela tornaria a insistir pelo segundo ano consecutivo que eu deveria ir. - No conforto da minha cama aguardando pelo próximo dia útil caótico em que todos da empresa vão estar de ressaca.

- Para de ser velha, Anya, todo mundo do seu trabalho vai estar lá, menos você, gata borralheira. - Tirei a almofada do meu colo e lancei em direção a ela.

- Todos os funcionários da Archer vão estar, mas eu não sou uma funcionária da Archer, sou terceirizada pela agencia, portanto não tenho a obrigação de ir. - Declarei triunfante, brindando com uma taça no ar.

- Essa sua aversão a festas me da sono. - Disse ela se levantando para provavelmente ir dormir.

- Falou a pessoa que vai dormir até onze horas amanhã pois só trabalha meio período. Experimenta passar dezesseis horas do dia fora de casa, dormir apenas seis e ainda ter uma amiga cobrando vida social. - Falei enquanto ela já caminhava para o seu quarto.

- Depois não diga que não aproveitou nada da sua vida acadêmica. Festas em fraternidade? Nunca nem chegou perto. Estou avisando Anya, é seu último ano na universidade, vai se formar para provavelmente enriquecer os bolsos de outra pessoa igual você faz todos os dias facilitando a vida do seu chefe gostoso enquanto perde a sua.

- Uau, você me motiva tanto.

- Motivo? Bem, essa não era minha intenção. É seu último ano na faculdade, consequentemente é seu último ano como secretária do Cohen gostoso Archer. Sabe aquele lance de livros que você precisa ler antes de morrer? Então, você tem uma pequena lista de coisas para fazer antes de se formar, e isso inclui ir a uma festa da fraternidade, participar de um evento no qual você nunca mais terá oportunidade de ir porque nunca vai ser convidada e dar para o seu chefe. - Me engasguei com o último tópico da sua lista.

- Holly!

- Tá legal, to bêbada, posso ter sido extrema na lista, esquece a fraternidade, coisa de calouros. - Gargalhei desacreditada.

- Eu não vou dar pro meu chefe! - Comentei enfática.

- Tá, tá que seja, mas você vai nessa festa!

Não eu não iria, mas fiz o que ela mesmo me aconselhou e resolvi não discutir com o teor alcoólico. Na vida real, na minha vida, a vida não é um baile que acaba à meia noite, e ainda que acabasse, eu tenho muito mais a perder do que um sapatinho de cristal.

Capítulo 2 Ratinhas Secretárias

- Uma curiosidade, Anya. - Disse Joe enquanto preparava meu café atrás do balcão.

Para não correr o risco de repetir o atraso de ontem, cheguei ainda mais cedo que o comum, mesmo lutando contra uma dor de cabeça terrível graças a última taça de vinho. Neste momento, éramos apenas Joe e eu na cafeteria enquanto os outros funcionários batiam cartão. Ele é quem abria então por isso se tornou a primeira pessoa com quem tenho contato dentro da empresa. Assim como eu, Joe não é funcionário direto da Archer, portanto podíamos falar mal da empresa sem correr o risco de ser pego por algum supervisor ou responsável.

Bem, não tinha muito o que falar, já que a remuneração é ótima e os benefícios são vários. - Minha saúde bucal que o diga. - Então, nosso único assunto de manhã era falar mal de Cohen Archer.

- Pode falar.

- Ele ressarce os cafés que caem no seu salário? - Perguntou, passando meu crachá no leitor de comandas. Meu cérebro não estava a todo vapor, por isso demorei um pouco para raciocinar a sua pergunta, e para obter uma resposta, eu também precisava de uma.

- Joe, depois de todo esse tempo, você me diz agora que passa os dois cafés na minha comanda, sabendo que um deles é para o dono desse prédio inteiro?! - O garoto sorriu, mas não de um jeito animado.

- Eu preciso lançar de alguma forma, e você nunca me deu outra comanda senão a sua. - Explicou-se receoso. Outros longos segundos antecederam meus cálculos mentais de quanta grana eu perdia para alguém que pode ter uma cafeteria inteira por dia.

- Ele nunca me deu um crachá, ele só me deu uma ordem, e eu achei que ser o dono era suficiente pra você descontar em sei lá... no aluguel.

- Ele pode ser o dono, mas eu não. - Gargalhou depois de me empurrar dois cafés e meu crachá de volta.

- Eu vou pedir o ressarcimento. Joe são quase dois anos bancando o café diário de um cara que ainda precisa de uma colher do meu café, para ter o seu adoçado. - Mais uma vez ele sorriu, riscando algo que eu sabia ser seu número de telefone na luva de copo, antes de encaixa-la.

- Veja pelo lado bom, você fez sem querer, uma economia.

- Tem razão. Se ele me devolver com juros e correção monetária eu ainda posso pagar pela minha formatura. - Acrescentei com falso entusiasmo.

- Você não vai pedir de volta né? - Neguei com também um sorriso tímido.

- Preciso desse trabalho. É bem capaz dele dizer, tudo bem, aqui está seu ressarcimento e suas prestações de contas. - Tentei imitar seu jeito presunçoso de dizer que não precisava das pessoas.

- Até parece. - Desdenhou, apoiando seus cotovelos no balcão entre nós. - O cara lá de cima não vive mais sem você.

- Com o dinheiro dele, ele paga dez secretárias simultâneas se quiser. Mas, ele ainda não paga pelo meu café. Joe você precisa prometer que jamais vai vender a minha mistura exclusiva pra outra pessoa. Esse vai ser o castigo do Cohen por tomar café as minhas custas.

- Eu prometo. - Garantiu com a mesma entonação dramatizada que a minha. - Mas, como você disse, com grana dele, ele pode contratar todos os baristas de Seattle até acertarem no gosto. - Relaxei os ombros, contraindo os lábios com lamentação.

- Felicidade de pobre dura pouco, eu sei. Está na minha hora. Até mais tarde Joe. - Me despedi descendo da banqueta sob o olhar atento do barista.

- Até mais tarde... Anya.

Não precisei correr dessa vez, estava com tempo livre, portanto meu caminho até o andar presidencial foi tranquilo, ou, teria sido se eu não tivesse dividido elevador com umas secretárias pomposas dos andares inferiores que invadiram o mesmo em uma conversa nada discreta. Parecia ser um trio sob encomenda, sendo uma ruiva, uma morena e uma loira.

- A Andrea já deu pro Zack, eu já dei pro Bill, você é a única que ainda não deu pro seu chefe Hannah. - Uma delas disse à garota de cabelos castanhos.

As três se olhavam e arrumavam alguma parte do corpo no espelho. Me empertiguei discretamente para o lado, me encolhendo mais ao canto do elevador enquanto elas conversavam como se eu nem estivesse ali.

- Fazem apenas duas semanas que estou com o Winter, não vou arriscar meu emprego. Além do mais, ele nem me olhou diferente ainda. - Protestou a garota

Eu sabia quem eram as três. Mesmo que meu contato com os funcionários seja um pouco limitado, por falta de tempo e disposição, Andrea, Hannah e Ruby são conhecidas por serem as ratinhas dessa empresa. As que tudo sabem, e as que tudo veem. E isso acontecia pela troca constante de setores e departamentos.

- Ele não vai olhar diferente pro seu rostinho, linda, ele vai olhar diferente pra sua bunda! - Estreitei meus olhos franzindo a testa, expulsando o desejo repentino, quase incontrolável, de olhar para minha própria bunda.

- Se olha eu não sei, estou de costas, e olhar para bunda é uma obrigação universal dos homens, mas você sabe que existe interesse somente quando eles olham para o seu decote.

Inconscientemente olhei para o meu decote inexistente, e sem querer funguei com deboche, atraindo olhares do trio.

- Está com alergia docinho? - Perguntou Ruby, a mais alta entre elas.

- Ao machismo enraizado em mulheres? Desde sempre. - Sintetizei, arrancando uma risadinha unissono delas.

- Isso não é machismo gata, é a realidade. - Rebateu a ruiva, Andrea.

- A sua realidade. Meu chefe não olha para minha bunda, tampouco para o meu decote. - Dessa vez elas reprimiram uma risada.

- Deve ser porque não tem muito o que olhar. - Disse a morena, Hannah, me olhando dos pés a cabeça. Encolhi-me e apertei a bolsa debaixo do braço.

- Não tem a ver com minha aparência, tem a ver com integridade. - Defendi.

- Não estou falando da sua aparência gata borralheira, mas o jeito como você não ressalta ela. - Soltei uma risada nasal forçada.

- Será que é por que estou em um ambiente de trabalho?! - Sugeri o óbvio.

- Escuta, leva isso como um conselho para vida tá? - Disse Hannah.

- Assim como nós, você não vai ficar nessa empresa a vida toda. Se quisesse crescer de cargo estaria aqui como estagiária, não como secretária. Sabe qual vai ser a sua chance de transar com alguém como o seu chefe? Nenhuma, sua única oportunidade de ter a melhor foda da sua vida está dentro daquela sala, e você desperdiça isso com esse monte de pano que esconde o que você tem ai embaixo. Não tenha medo de perder o emprego, quando ele pensar em te demitir é só oferecer umas coisinhas. Me diz ai gracinha, pra quem você trabalha?

Nesse momento, a porta do elevador se abriu no andar presidencial, e por algum motivo, as expressões das três mulheres cederam. Horrorizada, sai do elevador abraçando ainda mais a bolsa contra meu corpo, sabendo que isso bastava como resposta.

É claro que eu não guardei uma só palavra do que elas me disseram. Muito embora aquele discurso seja coincidentemente parecido com o conceito da Holly de aproveitar a vida antes de realmente começa-la. Conselhos que com toda certeza não serviam pra mim, nem se aplicavam a minha realidade. Meu chefe ser um pedaço de mal caminho, não diminui meu senso de juízo e integridade. Eu jamais arriscaria meu emprego por uma transa, principalmente porque conheço Cohen em seu modo CEO ativo, sei o que ele pode fazer com quem arrisca manchar a sua imagem, é inclusive o motivo de demissão da última funcionária.

Os rumores são de que a coitada hoje trabalha em uma lanchonete, pois teve a ficha manchada no mercado de trabalho corporativo. É por esses e outros motivos que eu mantenho minha admiração por Cohen Archer no mais profundo devaneio, sonhos eróticos que eu sequer tinha controle, pois, estando em sã consciência, não há nada mais importante do que me formar na universidade para poder voltar para minha cidade.

Antes mesmo de entrar na sala do Cohen, senti meu celular vibrar em uma mensagem da Holly, dizendo estar eufórica com a chegada de Stella Valêncio no ateliê onde trabalha. Seria a grande chance da minha amiga de mostrar o seu trabalho. Respondi que estava na torcida e, como sempre, dei duas batidinhas na porta do Cohen antes de entrar. Avistei-o de relance no mesmo lugar de sempre, em seu contraste com a vidraça atrás da sua cadeira.

O cumprimentei de longe, mas não percebi que continuei na mira do seu olhar intrigado enquanto eu adoçava o seu café, com uma colher do meu misturado, que logo após dei uma grande golada, pois uma dor de cabeça irritante estava começando a latejar, indicando uma leve ressaca.

Com meu copo em uma mão, e a xícara do Cohen na outra, caminhei até sua mesa fitando aquela bagunça. Deixei a xícara sobre a superfície a sua frente e comecei a recolher os papeis bagunçados na mesma como todos os dias, me perguntado quanto tempo antes de mim ele chegava para conseguir fazer essa bagunça, dado que antes de ir embora, logo depois que ele também vai, eu confiro e deixo tudo em ordem.

Não percebi que no meio dos meus cálculos mentais, Cohen pescou meu copo para ler a inscrição na luva, até que sua voz chegou em mim com um tom engraçado.

- Dessa vez ele acertou o copo. - Fitei rapidamente meu café entre seus dedos e o peguei, arrancando a luva de copo com o número do Joe e o jogando no lixo junto com as bolinhas de papeis que juntei encima da mesa.

- Ele erra de propósito. Já disse, dá um emprego para o pobre coitado. - Ele riu empilhando mais uma pasta na pilha que eu deveria levar para minha mesa.

- Joe, Joe, Joe... Não lembro desse nome, mas se ele está todos os dias na cafeteria significa que ele já é um contratado. Devia ligar pra ele, me parece bem empenhado. - Parei de manusear as pastas para observa-lo de escanteio com a testa franzida.

Não me lembro de quando nossa relação patrão e funcionária ganhou uma nota subjacente de amizade para ele opinar na minha vida pessoal dessa forma. Quando eu digo que estabeleci limites, estou dizendo que Cohen também só conhece uma única versão da Anya, a profissional, ainda que vez ou outra nos cutucássemos com piadinhas de trabalho, ironias e sarcasmo, nunca ultrapassamos esses limites.

- Você tem uma reunião em dez minutos na sala de conferência com a equipe de marketing e organizadores da festa. - Mudei descaradamente de assunto.

Uma linha apareceu no canto da sua boca, quando ele a repuxou em um sorriso de lado.

- Bem lembrado. Você vai né? Por que não chama o Joe pra ir com você? - Eu finalmente parei o que estava fazendo para encara-lo. Mais do que meter o bedelho, Cohen parecia querer desafiar a personagem que eu sustentava todos os dias diante dele, a versão da Anya que jamais falaria de assuntos pessoais.

Não é a primeira vez que ele faz isso, ele parecia testar meu profissionalismo quebrando a barreira da amizade que não deveria existir entre nós, me deixando sempre insegura acerca da sua confiança, e consequentemente, minha estabilidade nessa vaga, algo que eu prezava com minha própria vida.

- Eu não vou, acho que isso responde as duas perguntas. - Respondi apenas, notando seu meio sorriso sumir dando lugar a um vinco intrigado entre as sobrancelhas.

- Pensei ter sido claro quando disse que queria presente todos os funcionários da Archer. Acontece que eu não sou funcionária da Archer, sou agenciada. E não se preocupe que seja lá qual for seu lançamento, eu vou estudar sobre. - Eu fiz isso ano passado.

- Tudo bem. - disse depois de longos segundos. - Não vou perguntar porquê e correr o risco de ouvir que sua vida pessoal não me diz respeito.

- Eu jamais lhe daria uma resposta dessas, tenho amor ao meu emprego. - Brinquei.

- Então por que não vai ao evento de lançamento? - Desafiou-me sério, esperando mais do que alguém como ele geralmente esperava para uma resposta.

- Tenho prova na faculdade. - Menti, voltando ao que eu estava fazendo, chutando minha curiosidade por saber se acreditou ou não para longe.

Cohen escondeu seu semblante com a xícara, e levantou-se indo deixar a mesma já vazia sobre o bar entre algumas garrafas de Whisky, onde todos os dias a faxineira do andar presidencial sabia que haveria uma xícara. Terminei de pegar as pastas e deixei sua sala abraçando as mesmas. Larguei tudo sobre minha mesa e me sentei pronta para começar meu dia, se não fosse pelo Cohen versão CEO saindo daquela sala.

- Você vem comigo, Anya. - Anunciou passando por mim.

- Aonde? - Perguntei ainda sentada.

- A reunião, sinto muito se está de mau humor, mas preciso de você naquela sala, então vamos. - Chamou fechando o blazer. Bufei discretamente e pesquei minha agenda, táblet e caneta na mesa, acompanhando Cohen, prestes a atravessar sua própria empresa.

Odiava quando tinha que acompanha-lo até uma dessas salas, geralmente ele me avisa previamente que necessitaria da minha presença, eu já o aguardava na mesma, mas como não tenho bola de cristal aqui estou eu, andando com a cara colada no táblet fazendo anotações que ele me pedia enquanto pela minha visão panorâmica eu notava os olhares sobre Cohen. Alguns cumprimentos e até pessoas desviando do seu caminho para não ficar no dele.

Eu costumava dizer que esse era o ápice da minha rotina humilhante, pois com Cohen ao meu lado, eu me tornava uma insignificante e invisível assistente.

Estar dentro de uma sala repleta de subordinados dele só piorava, pois, ele literalmente só me trazia para ser sua anotação ambulante. E nessa tarefa não dava para selecionar o que era ou não importante para ele, portanto eu precisava anotar tudo o que era mencionado e somente depois, quando precisasse de alguma dessas informações é que eu deveria estar preparada. Até tentei ser mais seletiva uma época, mas o que parecia ser importante para mim, não era para ele, então decidi que era mais fácil ter tudo do que ter metade.

O assunto resumiu-se no baile de máscaras que seria em preto e cinza devido ao lançamento de algum projeto que já estava sendo testado por algumas empresas, e a tabela de cores é realmente um conceito fúnebre de enterrar os antigos para o nascimento do novo. Uma era digital mais rápida, eficiente, interativa e blá, blá, blá.

Isso podia ser interessante aos outros, mas para mim parecia ser sempre a mesma coisa com um 2.0 ou upgrade na frente.

No fim da tarde, quando Cohen já estava de volta no silêncio da sua sala me deixando sozinha com uma pilha de pastas acumuladas, pensei que teria um minuto de paz, mas um trio de mulheres entraram no hall a minha procura.

- Você é a Anya Amstrong, não é? - Perguntou a ruiva apoiando-se no balcão que limitava o acesso a minha mesa. As três estavam com suas expressões exasperadas.

- Sim. - Ponderei em confirmar.

- Ah, minha nossa. Sabe, aquilo que você ouviu no elevador, amiga, esqueça completamente. - Pediu a ruiva, com uma entonação conselheira. - Olha, não é que você não tenha requisitos para ser uma de nós, mas o problema aqui é o seu chefe, que vem a ser o chefe de todas nós. Entende o que eu digo?

A medida que eu me lembrava, sentia meu rosto esquentar, enquanto elas tratavam daquilo com uma importância veemente.

- Aqueles conselhos são válidos para qualquer pessoa, menos Cohen Archer. - Completou a loira. - A última pobre coitada que tentou usa-los, acabou demitida e seu nome foi para um banco de más recomendações.

- Eu não considerei...

- Escuta. - Me interrompeu a morena. - Algumas pessoas dizem que ele é gay.

Meu queixo despencou a medida que aquela conversa ficava cada vez mais estranha. Meus olhos arregalados, e o estarrecimento por minha parte era evidente.

- Mas a verdade é que nós sabemos que ele só não se envolve com a ralé. E com ralé eu quero dizer, nós... ratinhas secretárias, acredite, nós somos os olhos e ouvidos da Archer, então por favor, continue sendo exatamente quem você é, porque os nossos conselhos não são válidos para quem só come magrelas da alta sociedade.

- O-olha essa conversa está bem inapropriada. - Me desesperei, e até me atrapalhei com o porta canetas que nem vi ter esbarrado. - A-a-a vida pessoal do meu chefe não me diz respeito, e esses conselhos, se é que posso chamar isso de conselho, não servem pra mim ainda que ele não fosse o Cohen.

- Claro que servem! Nos vemos na festa Anya, lá sim nós vamos encontrar alguém pra você.

- Eu não... - Tentei dizer que não ia, mas elas não me deram oportunidade. Deram meia volta conversando entre si como se eu fosse uma experiência a ser testada e comprovada. - Espero que publicidade não tenha tanta gente bizarra.

Levei outro susto quando a porta do Cohen se abriu. Seus olhos caíram sobre mim com aversão, não sabia exatamente o motivo, portando não ousei perguntar, o que não precisou pois ele logo disse:

- Ligou pro cara do acústico? - Perguntou, dando a entender que ele tinha ouvido absolutamente tudo.

- Eu vou ligar. - Garanti sem reação alguma. De uma coisa eu sabia, não tentaria explicar!

Capítulo 3 Projeto Cinderella

A lua já despontava no céu escuro, enquanto uma garoa fina caia. Eu estava de frente para a enorme porta giratória do paredão de vidraça fumê que compunha a fachada da Archer, protegida no canto da extensão de lona preta que protegia o manobrista dos carros, mas ainda assim fui golpeada por uma rajada de vento que trouxe a garoa quase vaporizada e embaçou meus óculos. Quando o limpei e coloquei novamente, percebi que a luz não era da lua, e sim do poste.

Ri sozinha me dando conta disso, não percebendo que bem ao meu lado passou Cohen Archer, direto para o seu carro que o manobrista estava estacionando. Quando ele finalmente pegou suas chaves, prestes a entrar no carro, seus olhos me encontraram, e pude jurar que ele diria alguma coisa se uma buzina familiar não tivesse me assustado. Era Holly, seu carro estava há alguns metros de distancia e uma corridinha foi necessária para chegar até ela e entrar com pressa no seu automóvel preto.

- O Ateliê está uma loucura! - Se explicou, me pegando em frente ao prédio da empresa. Era caminho para ela vir me buscar no fim do seu expediente e assim irmos juntas para a faculdade. - Desculpa pelo atraso, trouxe sua janta.

Apontou para o embrulho de um restaurante mexicano, e pelo cheiro eu presumia que fosse taco.

- Tudo bem, acabei de descer, pelo mesmo motivo. Meu trabalho dobrou igual ao ano passado agora que estamos na semana do evento. - Murmurei saboreando a primeira mordida. E quando me dei conta, Holly me olhava de escanteio reprimindo um sorriso catatônico. - O que foi?

- O que foi que eu tenho uma novidade, e não vou aguentar você terminar de comer pra contar então segura esse taco na boca, porque sua melhor amiga recebeu uma oferta de produção da Stella Valencio.

Não cuspir tudo foi quase uma missão, e a surpresa boa me fez esquecer como engolia.

- Holly! - Gritei de boca cheia. - Isso é incrível! - E eu sabia o quando minha amiga estava esperando por essa oportunidade.

- Eu sei! - Concordou com um gritinho estridente. Se não estivéssemos as duas presas por cintos de segurança, uma com a atenção na estrada e a outra em não morrer engasgada, estaríamos agora gritando, pulando e comemorando.

- Como aconteceu? - Inquiri após engolir.

- Bem, ela passou no ateliê mais cedo, e acabou encontrando meus croquis. Ela se encantou por um modelo e quer vê-lo pronto em alguns dias, disse que tinha uma proposta de lançamento e se seu feeling não falhar, aquele modelo seria perfeito. - Despejou entusiasmada.

- Proposta de lançamento?

- Sim, e pasme, tem a ver com o baile de máscaras preto e cinza da Archer. - Disse, ganhando totalmente minha atenção. - Se chama projeto Cinderella. Basicamente, ela quer consignar o modelo a uma pessoa oculta, visando enaltecer somente o vestido e a figura de uma mulher sexy dentro dele. O conceito baile de máscaras era, na verdade, o que ela estava esperando para o seu próximo lançamento de passarela, modelos sexys que fazem uma mulher se sentir desejada e ser dentro dele quem ela quiser, como se sua identidade não importasse. E é nesse momento que eu conto que preciso da sua ajuda.

Prestei atenção enquanto devorava um taco que seria então minha última refeição do dia.

- Quer que eu consiga alguém que aceite o consignado pra você? - Perguntei de boca cheia. O que não era muito difícil já que eu tenho a lista de contato inteiro da Archer no meu computador da empresa.

- Na verdade, eu disse a Stella que tinha a pessoa perfeita. - Pontuou. - Digamos que todos os convidados vão estar mascarados, então algumas identidades vão ficar ocultas, a menos é claro, por celebridades inconfundíveis. Ela quer uma pessoa anônima, convidada porém, que ninguém cogite sua identidade por baixo do vestido. - Ainda com a boca cheia, comecei a listar umas dezenas de funcionárias da Archer que topariam fazer isso. - E essa pessoa é você.

Me engasguei com pedaços de tomate que desceram pela minha garganta sem minha autorização. E foi após longas tossidas nada femininas que me recuperei com os olhos cheio de lagrimas.

- Eu usar aquele vestido? Nunca, Holly, essas coisas não são pra mim não. - Vi os ombros da minha melhor amiga cederem.

- Anya, por favor, você é a única pessoa que conheço que toparia fazer isso por mim, e quando a Stella explicou o que queria eu imediatamente pensei em você.

- É loucura, amiga, eu disse que não queria ir. Aquele lugar não é pra mim, só vai ter gente chique e eu... Sou só uma secretária.

- Não é loucura quando absolutamente todos os funcionários, fornecedores, parceiros e prestadores de serviço da Archer foram convidados. E é justamente por isso que você é tão perfeita, ninguém nem espera mais que você apareça, tem alguém mais improvável e oculta que você? Eu duvido.

- Olha, eu prometo pensar tá legal? Mas, por favor procura outra pessoa porque se você tiver um plano b, eu não vou me importar. - Ela me olhou com um sorriso sem graça.

- Eu garanti a Stella que conseguiria te convencer.

Soprei uma risada desacreditada e anui verdadeiramente compreensiva. Não era falta de vontade, eu faria qualquer coisa para ajudar minha amiga que já me ajudou inúmeras vezes, inclusive me chamando para morar com ela quando me viu desempregada há dois anos atrás. Eu devia muito a Holly, e mesmo que não devesse, ela merece, somente por isso prometi pensar.

É claro que nesse meio tempo eu procuraria outra pessoa para ir no meu lugar, mas quando me vi dentro do vestido prata, dias depois para seus ajustes, foi inevitável não me sentir tentada, principalmente com uma mascara de dominó cobrindo meus olhos e metade da face em uma renda misteriosa.

Pela primeira vez na vida, me senti outra pessoa, ainda que o vestido não estivesse pronto, eu podia admirar seu tecido cintilante e o caimento perfeito que valorizava minhas curvas. Aceitei provar para ajudar a Holly em uma sexta-feira movimentada na hora do meu almoço, o único horário que ela teria para finalizar o vestido digno de um conto de fadas erótico, pois, marcando meus seios em um caimento leve e as costas nuas, eu me sentia sexy.

- Holly, é lindo! - Minha voz saiu macia, o mundo dentro dele parecia girar mais lentamente, como se ele pedisse para ser apreciado. O toque do tecido não parecia ser digno da minha pele, ele me acariciava e o movimento era tão sublime, que eu me sentia excitada. A iluminação ajudava, pois ela quis simular o salão de festas que eu sabia que estaria em baixa iluminação com uma fumaça predominante deixando o ambiente ainda mais obscuro e atraente.

- A Stella quer ver. - Estalei meus olhos observando minha amiga com o semblante apreensivo. Ela roía uma unha enquanto uma fita métrica circundava seu pescoço e uma pulseira de alfinetes abraçava seu pulso.

- Stella Valencio? Ela está aqui? - Perguntei boquiaberta.

- É a chance da minha vida amiga. Se ela decidir etiquetar um croqui meu, vai ser o dia mais feliz da minha existência. - Seus olhos castanhos se encheram de lágrimas enquanto eu queria pular nos braços da minha melhor amiga e parabeniza-la, e só não fiz isso, pois a cortina da sala de ajustes foi aberta, e ninguém menos que a estilista Stella Valencio adentrou a sala, detendo seu olhar sobre o vestido, analisando-o dos meus pés a cabeça.

Seu olhar foi indecifrável, o silêncio deixava tudo mais agonizante. A testa da Holly suava enquanto sua chefe com as chaves principais da porta do seu futuro me circundava. Sem dizer nada, Stella foi até uma mesa de apoio, onde pescou um palito de cabelo e o trouxe até estar atrás de mim, dividindo o reflexo do espelho comigo. Ali ela juntou meu cabelo em um coque despojado e o prendeu no alto da minha cabeça, deixando meu colo livre.

- Perfect! Holly, isso é uma obra de arte no corpo de uma sedutora. Sabe o poder que esse vestido tem? - Perguntou com a voz no meu ouvido, olhando fixamente em meus olhos através do espelho. Arfei levemente tremula e neguei com a cabeça.

Pela visão no canto do olho vi uma lágrima emocionada da minha amiga que continha sua comemoração e empolgação exagerada, mas ela a reduziu em um único sorriso.

- O poder de deixar qualquer homem de joelhos, implorando para te proporcionar prazer dentro dele.

Esvaziei o ar dos meus pulmões pela boca.

- Isso foi um sim? - Indagou Holly, foi quando Stella, conhecida por seus modelos exuberantes e sexys sorriu soltando meu cabelo.

- Eu etiqueto seu vestido Holly, ele poderá ser vendido aqui no ateliê com sua assinatura. - Anunciou cruzando os braços, ainda namorando o modelo. - Mas ele precisa estar no corpo dela na festa!

***

Não pude esperar para comemorar com a Holly como ela merecia, mas prometi me render ao seu pedido de comemoração em um bar depois que sairmos do trabalho, já que hoje não teríamos aula na faculdade.

Meu cabelo se manteve preso como Stella havia deixado, e confesso que eu estava até animada para sair mais tarde depois da dose de auto estima que ganhei no ateliê da mesma. Eu me sentia bem, de uma forma estranha. Um pouco mais confiante, até considerando realmente usar aquele vestido contradizendo minha vontade. Mas tudo caiu por terra quando cheguei novamente no andar presidencial e dei de cara com Drizella aguardando sentada no sofá de couro preto para espera.

Ela notou quando me aproximei, e se levantou com uma risadinha.

- A porta está trancada, porteira, e antes que impeça minha passagem, eu coloquei meu nome na agenda. Ou seja, você deve me anunciar ao Cohen. - Despejou andando em passos precisos em minha direção.

- Anunciar é uma coisa, se ele vai permitir sua entrada é outra. - Falei, dando a volta no balcão discando o ramal da sala do Cohen. Longos segundos se passaram sem que ninguém respondesse. - Ele não deve ter voltado ainda, ninguém atende.

- Fala a verdade gata borralheira, você nem ligou. - Desdenhou dando a volta no balcão tentando discar ela mesma, mas soquei o telefone no gancho não permitindo.

- Não me chama assim! - Ordenei olhando no fundo dos seus olhos azuis que eu morreria sem saber se eram lentes. Drizella soltou uma risada forçava ficando praticamente cara a cara comigo.

- Como? Gata Borralheira? Mas é isso que você é, ou prefere rata subordinada?

- Ele não está, vai embora Drizella. - Pedi, engolindo minha raiva cada vez mais evidente.

- Prendeu o cabelo e está se sentindo gente? - Zombou, puxando do meu cabelo o palito personalizado do ateliê Stella Valencio, e por ler sua inscrição, a loira riu enquanto meu coque se desmanchava nos ombros. - Isso aqui não é pra gentinha como você, Anya, mas... guarda de recordação. - Disse colocando o prendedor palito no meu porta canetas. - É tudo o que seus valiosos centavos que sobram no fim do mês podem comprar.

Fechei os olhos quando uma ardência indicou que em breve eles estariam turvos.

- Quer que eu anote recado? - Perguntei, tentando não me rebaixar.

- Quero, diz ao Cohen que eu volto de noite para bagunçarmos a mesa que você arruma todos os dias. - Disse me olhando com acidez enquanto meu rosto esquentava em raiva. A palma da minha mão ardeu para esfolar aquela cara pálida.

- Anotado. - Declarei, apertando o telefone contra o gancho com ainda mais força ao vê-la sumir do hall com seu andar apelativo.

Dessa vez, não controlei a vontade de me olhar pelo reflexo da vidraça, e encarar uma temporária fracassada que vivia em prol dos outros. Me sentei sem vontade na cadeira, espalhando meu cabelo pelo ombro, e arrumando meus óculos que escorregavam constantemente pelo nariz. Fitei o porta retrato sobre minha bancada com a foto da minha família e sorri, mesmo que muito desanimada. Era por eles, sempre foi e sempre vai ser.

Mamãe, papai e Tom, meu irmão caçula de apenas 9 anos de idade que estava sendo beneficiado com o plano de saúde da Archer. Com o tratamento avançado, em breve meu garotinho teria a oportunidade de escutar pela primeira vez na vida, e era por ele que eu saia da cama todos os dias, sabendo que a cada passo mais perto de me formar, mais perto eu ficava de voltar para Minnesota e cuidar de todos eles.

Estava pronta para me entregar a lágrimas frustradas quando o aparelho do ramal tocou, ascendendo em uma luz que indicava estar vindo de dentro daquela sala.

- Tá de brincadeira com a minha cara! - Protestei me levantando as pressas, abrindo a porta gigantesca agora destrancada, invadindo a sala dando de cara com Cohen sentado na sua poltrona de CEO empoderado que só ele tinha. - Com todo respeito senhor Cohen, mas eu não sou paga pra levar esporro das suas amantes enquanto você finge que não tem ninguém na sala. - Despejei sob o olhar avido de Cohen Archer e sua postura autoritária. - Adoraria dizer que sou paga para anotar recado, mas graças a sua porta sem acústico eu suponho que isso não seja necessário, o que me livra da vergonha de dizer que sua amante incapaz de me chamar pelo meu curto nome com apenas quatro letras que dispensa apelidos como os que ela me batiza, marcou presença em cima dos relatórios que eu organizo e folheio todos os dias.

Um silêncio perdurou por longos minutos enquanto eu me recuperava e admitia que descontei no meu chefe, minha fodida vida.

- Anya. - Começou, soprando meu nome. - Não atendi a senhorita Hummer porque eu posso sim, fingir que não tem ninguém na sala, e eu faria isso pela tarde toda, se não tivesse acabado de receber uma resposta da agencia que você trabalha.

Dei um passo para trás apreensiva com seu tom sério e o semblante endurecido.

- Uma resposta... - Repeti, agora dez tons abaixo de quando entrei nessa sala. - Para qual pergunta?

Meu coração tamborilava contra as costelas em um aviso de mau presságio.

- Não sou o cara que pergunta, sou o cara que pede. E eu pedi para que você fosse desligada da agencia. - Declarou, arrancando todo o calor do meu sangue, que eu já nem sentia mais correr pelo meu corpo paralisado.

A única coisa que consegui pensar, foi no meu último ano da universidade, eu estava no meu fodido último semestre, com os pés na minha formatura, recebendo praticamente a noticia de que eu não poderia mais paga-la.

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