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Dançando com o Diabo

Dançando com o Diabo

Autor:: Lauriana
Gênero: Romance
Tudo começa no passado, uma maldição que assolou a vida de Aurora, sua mãe passa de geração em geração. Era mais um dia normal na vida de Laura Silva, até ela perceber que não estava em sua cama e que suas roupas, não eram as mesmas com que havia dormido.Os móveis amadeirados e gastos não combinavam com os que tinha em seu quarto, tinha algo muito errado. Laura foi até a janela e percebeu que estava em uma fazenda e homens e mulheres acorrentados trabalhavam no local, eram escravos?Isso seria impossível, pois a escravidão havia acabado há mais de cem anos e o ano era 2019! O que Laura fará quando descobrir que de uma forma até então inexplicável, ela viajou no tempo e foi parar em 1850? Uma maldição, um triângulo amoroso e uma luta pela vida.Nesse jogo, alguém poderá sair ganhando?

Capítulo 1 Prólogo

⁠"Quando estou em outro tempo, estou invertido, transformado numa versão desesperada de mim. Viro um ladrão, um andarilho, um bicho que corre e se esconde. Assusto velhas e assombro crianças. Sou um truque, uma ilusão da mais alta ordem. É incrível eu ser mesmo real."

A Mulher do Viajante no Tempo.

FLASHBACK

Peguei mais uma vez a caneta, ansiosa em razão da turbulência em meu coração. Tenho de me livrar dessa paixão que me consome, mas não sei como.

Você veio até mim esta noite. Senti sua presença e seu calor antes mesmo de ouvir seus passos, pois meus sentidos estão altamente condicionados a captar sua aproximação. Seu encanto me escravizou com mais eficiência do que qualquer grilhão.

Você murmura meu nome e eu me viro em sua direção. Seus olhos negros são intensos, questionadores. Retribuo o olhar, enfeitiçada. É só você me olhar e sou tomada por uma torrente de prazer.

Deixo-me cair em seus braços, a ponto de sentir dor por tanto amor e desespero. Seu toque é como um bálsamo, sua mão em meu seio ao mesmo tempo conforta e excita.

Fecho os olhos, sentindo sua virilidade, seu vigor contra minha fragilidade. Você bem sabe como sou vulnerável a você, à sua paixão selvagem. Sinto meu corpo se incendiar. Fico trêmula ao sentir a carícia dos seus lábios, o calor da sua respiração, a habilidade dos seus dedos ao me despir.

Seu roupão cai, descendo ao chão. À luz de velas de essência de almíscar, seu corpo nu bruxuleia com graça e força, a maior de todas as fantasias femininas.

Sua mão toca levemente meus quadris e sinto o corpo todo estremecer. Em resposta, agarro seu membro cada vez mais duro e grosso. Não sinto nenhuma vergonha. Com você aprendi sobre os desejos da carne, e você tornou meu corpo sensível ao prazer, neutralizando qualquer inibição.

Sinto-me fluindo, minha fenda está quente e pulsante, desprendendo líquidos ao seu toque, quando você se deita comigo. Seus olhos têm um ar de desafio e desejo, você vem por cima de mim e desliza para dentro, me penetrando profundamente. Solto um grito rouco de satisfação enquanto arqueio o corpo e me rendo.

Você controla meus sentidos. Estou desesperada, faminta para prová-lo, inebriada com seu ópio, com a necessidade de preencher e ser preenchida.

Você me inunda com sua paixão. Estou me afogando e o puxo para se afogar comigo.

A seguir, nos deitamos próximos um do outro, nossas respirações ofegantes se misturam, a pele suada e grudenta. Sinto você silenciar enquanto prova o sal das minhas lágrimas. Erguendo-se diante de mim, você me olha nos olhos e vê a dor no coração que sou incapaz de ocultar.

Seu beijo violento tem a intenção de acalmar, mas apenas aprofunda o conflito que parte meu coração.

A escolha é minha, você diz. Você me oferece a liberdade, uma preciosa dádiva. Já que minha felicidade é mais importante para você do que a sua, você vai me deixar livre.

Mas serei capaz de viver sem você?

Será que essa escolha é realmente minha?

E

ra uma cena selvagem: o homem seminu e acorrentado, com o torso forte bronzeado pelo sol do Caribe. Encostado nos altos mastros do navio, ele mantinha o ar desafiador e firme.

Por um breve instante, lady Aurora Demming sentiu o coração vacilar enquanto olhava pelo gradil da fragata.

Ele poderia muito bem ser uma estátua entalhada por um grande escultor, com músculos bem contornados, ágeis e resistentes, a não ser pelo fato de se tratar de um homem de carne e osso - e bem vivo, por sinal. A luz do sol aquecia os traços brutos de seu corpo e fazia reluzir seu cabelo dourado escuro.

O tom louro-dourado lhe era bastante familiar. À primeira vista, Aurora vacilou diante da memória de outro rosto perdido para sempre. Mas aquele homem insolente e quase nu era um estranho para ela, possuidor de uma masculinidade crua, totalmente diferente do homem que lhe fora prometido em casamento.

Ele vestia somente o culote, mas apesar de estar acorrentado como um prisioneiro, mantinha-se firme, com o olhar impassível e distante enquanto observava o cais. Mesmo à distância, os olhos dele pareciam tremeluzir perigosamente, passando a impressão de uma raiva latente que por pouco não saía do controle.

Ao sentir-se observado, o foco de sua visão aos poucos foi se deslocando até se fixar nela. A azáfama e o barulho da orla de repente sumiram. Durante um breve momento, o tempo parou e apenas os dois existiam.

A intensidade do olhar dele a deixou sem movimento, e, ainda assim, Aurora sentiu-se trêmula, e seu coração repentinamente começou a bater em um ritmo dolorido e quase selvagem.

- Aurora?

Ela tomou um susto quando seu primo Percy a chamou para perto dele. Ela estava no cais do porto de Basseterre, na ilha de São Cristóvão, diante do escritório da companhia marítima, castigada pelo quente sol do Caribe. A mistura acre do cheiro de peixe e de alcatrão permeava a maresia junto com o canto estridente das gaivotas. Para além do movimentado cais era possível observar as águas calmas e de um azul-esverdeado brilhante, enquanto à distância emergia a exuberante e montanhosa ilha de Névis.

O primo acompanhou seu olhar na direção do prisioneiro da fragata.

- O que tanto chamou sua atenção? - perguntou ele.

- Aquele homem - murmurou Aurora. - Por um momento ele me fez lembrar de Geoffrey.

Percy semicerrou os olhos para enxergar por sobre o cais.

- Como você pode dizer isso a uma distância dessas? - questionou ele, franzindo a sobrancelha. - Talvez a cor do cabelo seja parecida, mas qualquer outra semelhança é superficial. Não consigo imaginar o falecido conde de March como um condenado, você consegue?

- Acho que também não.

No entanto, ela não conseguia tirar os olhos do prisioneiro louro. E nem ele dela, aparentemente. Ele continuava observando-a enquanto estava parado no alto da prancha de desembarque aguardando sua vez. Tinha as mãos acorrentadas e era escoltado por dois marinheiros fortes e armados da marinha britânica, mas parecia não dar a menor atenção a seus captores até um deles puxar violentamente a corrente que prendia seus pulsos.

Dor ou fúria fizeram seus punhos se fecharem, mas ele não ofereceu mais nenhum sinal de luta enquanto era escoltado pela prancha à mira de um mosquete.

Uma vez mais Aurora ouviu seu nome ser chamado, dessa vez com mais firmeza.

O primo a tocou no braço, com o olhar cheio de simpatia.

- Geoffrey se foi, Aurora. Não vai lhe fazer nenhum bem remoer a perda. E seu luto não fará nada além de prejudicar seu casamento. Tenho certeza de que seu futuro marido não apreciará seu luto por outro homem. Para seu próprio bem, você deve aprender a reprimir seus sentimentos.

Ela não estava pensando em sua perda, tinha vergonha de admitir, nem no casamento indesejado ao qual seu pai queria obrigá-la, mas assentiu para agradar o primo. Ela não tinha nada a ganhar demonstrando interesse por um estranho quase sem roupa. Um criminoso, para dizer o mínimo. Alguém que evidentemente havia cometido algum crime hediondo para ser punido de maneira tão brutal.

Dando de ombros, Aurora forçou-se a desviar a atenção. Aquela demonstração tão primitiva não era coisa para uma donzela, ainda mais para a filha de um duque. Em poucas ocasiões na vida ela vira tantas partes desnudas de um corpo masculino. Certamente nunca havia sido sacudida por um homem da maneira como fora momentos antes, quando ele a fisgou pelo olhar.

Como que se punindo, ela virou-se, permitindo que o primo a puxasse pela mão até a carruagem aberta. Ela iria com Percy às docas para confirmar sua passagem para a Inglaterra. Por causa do conflito na América e dos perigos da pirataria, havia poucos navios deixando as Índias Ocidentais. O navio de passageiros seguinte deveria partir da ilha de São Cristóvão somente dali a três dias e estava esperando somente uma escolta militar.

Ela temia voltar para casa e retardou o regresso o máximo que pôde, por meses além do planejado originalmente, com a desculpa de que era perigoso viajar com uma guerra em andamento. Mas o pai dela estava determinado a fazer com que aparecesse de uma vez por todas para se preparar para o casamento com o nobre que havia escolhido para ela. Em sua última carta, o pai havia ameaçado viajar pessoalmente para buscá-la, caso ela não honrasse o acordo que ele havia feito em nome dela.

Capítulo 2 Lembranças de Aurora

Aurora estava com um pé no degrau da carruagem quando um barulho no outro lado do cais a fez parar. O prisioneiro havia chegado ao fim da prancha e estava recebendo ordem para subir em uma carroça ali parada, o que era obviamente difícil por causa das correntes.

Ao se mover devagar demais, levou um violento empurrão que o fez tropeçar e quase ficar de joelhos. Agarrando-se na parte de trás da carroça, tomou impulso e conseguiu ficar de pé novamente, voltando-se para os guardas com um olhar de desdém.

Sua insolência carregada de indiferença pareceu enfurecer seus algozes, rendendo-lhe um golpe com a coronha do mosquete nas costelas, o que fez com que se curvasse de dor.

Um grito de protesto contra o ataque covarde alojou-se na garganta de Aurora no momento em que o prisioneiro balançou as correntes na direção dos guardas. Foi um gesto vão de desafio, pois ele estava preso de uma maneira que dificultava seus movimentos, incapaz de causar algum dano real, mas seu ato de rebeldia aparentemente foi a desculpa que os guardas esperavam.

Os dois marinheiros o golpearam com a coronha de seus mosquetes, lançando-o contra o calçamento de pedra aos gritos de "cão sarnento" e "escória do mar".

Aurora recuou, mostrando-se horrorizada por presenciar alguém sendo tratado de maneira tão violenta, sem misericórdia.

- Por misericórdia, Percy - murmurou roucamente. - Faça-os parar!

- É um problema da marinha - respondeu o primo, em um tom cruel, em seu papel de vicegovernador de São Cristóvão. - Não tenho nenhuma justificativa para interferir.

- Meu Deus, eles vão espancá-lo até a morte...

Sem esperar resposta, Aurora ergueu um pouco as saias, ajustando-as para poder andar melhor, e seguiu apressadamente na direção da confusão.

- Aurora!

Ela ouviu Percy chamar seu nome e praguejar baixinho, mas não diminuiu o passo nem parou para pensar no perigo ou na loucura de interferir na violenta disputa.

Ela não estava armada e não tinha nenhum plano claro a não ser tentar salvar o homem, mas quando se aproximou dos guardas, bateu com a bolsinha no agressor mais próximo, conseguindo atingi-lo no lado do rosto.

- Mas que porcaria é...?

Quando o perplexo marinheiro hesitou diante do inesperado ataque, Aurora aproveitou para forçar a passagem e ficar entre o prisioneiro e os agressores. Ocultando o próprio medo, ela se ajoelhou cobrindo parcialmente o homem quase inconsciente com o próprio corpo para impedir que ele fosse atacado novamente.

O guarda blasfemou de maneira vulgar.

Fria e furiosa, Aurora levantou o queixo e o encarou, desafiando-o em silêncio a agredi-la.

- Madame, a senhora não tem nada o que fazer aqui - ele disse furioso. - Este homem é um pirata cruel.

- Você, meu senhor, deve se dirigir a mim como milady - respondeu ela, com a voz normalmente serena soando quase feroz ao recorrer ao poder de seu status. - Meu pai é o duque de Eversley e tem o príncipe regente e o lorde almirante como pessoas muito próximas.

Ela pôde perceber o marinheiro avaliando seus trajes e observando-a; seu elegante bonnet adornado de seda e o vestido de passeio eram cinzentos, representando um semiluto, com apenas um toque de lilás nas lapelas do casaquinho para quebrar a sobriedade.

- E este cavalheiro - prosseguiu ela quando Percy chegou apressadamente a seu lado - é meu primo Percy Osborne, que, por acaso, é o vice-governador de Névis e de São Cristóvão. Eu pensaria duas vezes antes de desafiá-lo.

Percy cerrou os dentes com o comentário dela e murmurou uma reprimenda:

- Aurora, isso é totalmente inapropriado. Você está dando um show.

- Mais inapropriado ainda seria ficarmos parados enquanto esses covardes matam um homem desarmado.

Ignorando o olhar do guarda, ela observou o prisioneiro ferido. Os olhos estavam fechados, mas ele parecia estar consciente, pois tinha o maxilar retesado pela dor. Ele ainda tinha uma aparência um tanto selvagem - a pele cintilava numa mistura de suor e sangue, e uma barba escura por fazer cobria parte do rosto.

Os piores danos pareciam ter sido causados à cabeça. Não apenas a têmpora sangrava em profusão, mas também o cabelo castigado pelo sol, de um dourado muito mais escuro que o dela, ficou com um tom enegrecido pelo sangue ressecado, evidentemente originado por um ferimento anterior.

Aurora ficou tensa enquanto olhava para baixo, sentindo os batimentos cardíacos acelerarem. A rude masculinidade que a havia afetado à distância era ainda mais óbvia de perto, a sólida musculatura do corpo era inconfundível. O peito era bronzeado pelo sol e os ombros envoltos por músculos, enquanto o culote de lona abraçava suas coxas fortes.

Ele então abriu os olhos, fixando-os nela. Eram escuros, de uma cor viva, com tons café e âmbar misturados. Seu olhar atento proporcionou a mesma sensação que tomara conta dela antes, abalando-a mais uma vez: a sensação de estar totalmente sozinha com ele, além da consciência aguçada da sua feminilidade.

Quase tão estranha para ela também era a terna sensação de proteção que os ferimentos dele lhe proporcionavam. Gentilmente, Aurora esticou-se para secar a mancha de sangue na testa dele.

Ouviu-se o som metálico das correntes e ele agarrou o pulso dela murmurando com a voz rouca:

- Não. Fique fora disso. Você vai se machucar.

Ela sentiu a pele queimar quando os dedos dele a tocaram, mas tentou ignorar a sensação, da mesma forma que não obedeceu ao seu pedido. Naquele momento ela estava mais preocupada com a vida dele do que com proteger a si mesma.

- Você não esperava que eu ficasse olhando enquanto você era assassinado, esperava?

Ela pôde vislumbrar um sorriso dolorido quando ele soltou seu pulso e tentou se erguer, impulsionando o cotovelo. Por um momento, ele fechou os olhos, como se sentisse tontura.

- Você precisa de um médico - disse Aurora, assustada.

- Não, eu tenho uma cabeça dura.

- Está claro que não é tão dura assim.

Ela já tinha se esquecido de que eles não estavam sozinhos quando o primo se inclinou sobre os ombros dela e exclamou consternado:

- Pelo amor de Deus! É o Sabine!

- Você o conhece? - Aurora perguntou.

- De fato, eu o conheço. Ele é dono de metade dos navios mercantes do Caribe. É americano. Nick, mas que porcaria você está fazendo aqui?

Ele fez uma careta de dor.

- Um infeliz encontro com a marinha britânica, acho.

Aurora percebeu que a fala dele era mais macia e rápida do que os sons entrecortados que ela emitia enquanto o primo voltava-se para os guardas e exigia uma explicação.

- O que significa isso? Por que este homem está acorrentado?

Os guardas foram poupados de responder quando o superior deles se aproximou. Aurora lembrava-se de ter conhecido o capitão Richard Gerrod em algum evento pomposo do governo algumas semanas antes.

- Posso lhe responder, vossa Excelência - disse Gerrod calmamente. - Ele está acorrentado porque é um prisioneiro de guerra, condenado ao enforcamento por pirataria e assassinato.

- Assassinato, capitão? Francamente, isso é um absurdo. Você já deve ter ouvido falar de Nicholas Sabine - insistiu Percy, pronunciando o sobrenome do americano Sa-bin. - Ele é um herói por essas bandas, e não um assassino. Obviamente você o confundiu com outra pessoa.

- Posso lhe assegurar que não o confundi com ninguém. Ele foi reconhecido por um de meus oficiais em Montserrat, onde ele foi atrevido e arrogante o suficiente para visitar uma mulher no meio de uma guerra. Ele provavelmente é o capitão Sabre, o notório pirata. Ele não apenas pilhou pelo menos dois navios mercantes britânicos desde o início da guerra, como também afundou o Barton, o navio de Sua Majestade, no mês passado.

- É do meu conhecimento - disse Percy - que a tripulação do Barton foi salva do afogamento pelo mesmo pirata e deixada na ilha mais próxima.

- Sim, mas um marinheiro morreu naquele episódio e muitos outros ficaram feridos. E Sabine quase matou um de meus comandados ontem, quando resistia à prisão. Ele realmente perpetrou atos de guerra contra a Coroa, sir Percy. Atos passíveis de serem punidos com a morte.

Percy voltou-se para o homem caído e perguntou:

- Isso é verdade, Sabine? Você é um pirata?

O sorriso amarelo de Sabine demonstrava uma raiva contida.

- Na América usamos o termo corsário, e jamais abrimos mão do direito de proteger nossos próprios navios. O Barton estava atacando um de meus navios mercantes e eu intervim. Quanto à pilhagem dos seus navios, considero essa uma troca justa pela perda de duas das minhas embarcações.

Aurora não estava tão horrorizada quanto talvez devesse com a acusação de pirataria. Pelo fato de os dois países estarem em guerra, a Grã-Bretanha considerava culpado qualquer navio americano. E Sabine realmente tinha o direito de defender seus navios. Ela sabia que o primo concordava. Apesar de essas crenças políticas serem consideradas desleais à Coroa, Percy considerava aquela guerra um erro e acreditava que a Grã-Bretanha era a principal culpada por instigá-la. A acusação de assassinato, no entanto, a deixou muito perturbada.

- Pirata ou não - disse Percy ao capitão, obviamente perturbado -, haverá consequências pelo fato de este homem ter sido feito prisioneiro. O senhor está ciente de que o senhor Sabine possui muitas conexões com a Coroa? Incluindo diversos governadores das ilhas e o comandante da Frota do Caribe?

O capitão falou com uma expressão carrancuda:

- As conexões dele foram justamente o que me impediram de enforcá-lo imediatamente. Mas duvido que venham salvá-lo. Quando o almirante Foley souber dos crimes dele, tenho certeza de que a ordem será executá-lo.

Com um ar sombrio, o capitão Gerrod olhou para Aurora.

- Minha senhora, é melhor ficar longe. Ele é um homem perigoso.

Ela suspeitava que o americano fosse realmente perigoso, mas aquele não era um argumento que justificasse a cruel brutalidade dos guardas.

- Sim, de fato - disse ela com ar de desdém, levantando-se para encarar o capitão. - Tão perigoso que sua tripulação precisou espancá-lo até que perdesse os sentidos, mesmo com ele amarrado como um peru de Natal. Realmente, eu temo pela minha vida.

Gerrod cerrou os lábios com raiva, mas Percy interveio rapidamente.

- O que você pretende fazer com ele, capitão?

- Ele será entregue ao comandante da guarnição e ficará preso na fortaleza até o dia da execução.

Aurora sentiu o coração apertado ao pensar naquele homem vigoroso perdendo a vida.

- Percy - implorou ela, encarando-o.

- Agradecerei, excelência - disse Gerrod em tom sombrio -, se não houver interferência no desempenho de minhas obrigações. Levante-se, pirata.

Sabine cerrou os lábios, e seu ódio pelo capitão era evidente no calor de seus olhos negros. Mas sua fúria continuava controlada enquanto levantava-se com dificuldade, apoiando-se nos joelhos.

Aurora o ajudou a se levantar, apoiando-o quando perdeu o equilíbrio, e sentiu o pulso acelerar quando o corpo pesado dele momentaneamente inclinou-se sobre o dela. Mesmo ferido e ensanguentado, sua irresistível masculinidade a afetava.

Seu primo deve ter sido lembrado da impropriedade daquele comportamento, pois Percy delicadamente a pegou pelo braço e afastou-a.

- Venha, minha querida.

Retesado pela dor, Sabine seguiu em direção à carroça. Aurora vacilou ao ver as marcas de sangue que cobriam seus ombros largos e as costas musculosas e, mais uma vez, um dos truculentos guardas agarrou-o pelo braço e o forçou para dentro da carroça.

Impotente, Aurora mordeu o lábio para segurar mais um grito de protesto.

O capitão Gerrod lançou um olhar duro a Aurora enquanto os dois guardas subiam atrás do prisioneiro, mas as palavras que disse foram dirigidas ao primo:

- Eu não pretendia escoltar o prisioneiro até a fortaleza. Eu deveria estar preparando minha fragata para ir até o litoral americano e participar do bloqueio naval. Mas vejo que preciso assegurar que minhas ordens sejam cumpridas com perfeição.

- Pretendo visitar a fortaleza pessoalmente - ameaçou Aurora precipitadamente, temendo pelo que fariam ao prisioneiro uma vez que estivessem sozinhos com ele. - Se ousarem espancá-lo ainda mais, prometo que vão se arrepender.

Ela sentiu os dedos do primo pressionarem seu braço e por pouco não se conteve de resistir ao apertão.

O capitão fez uma reverência dura, em que manifestou claramente seu descontentamento, depois subiu ao banco da frente da carroça e ordenou ao velho condutor negro que pusesse o veículo em marcha. Aurora e Percy ficaram olhando enquanto a dupla de cavalos de carga levava a carroça para longe.

- Você não vai se envolver ainda mais nisso, Aurora - murmurou Percy.

Obstinada, ela libertou o braço da mão firme do primo.

- Você não aprova esses tratamentos cruéis! Tenho certeza disso. Se o senhor Sabine fosse um prisioneiro inglês nas mãos dos americanos, você esperaria que ele fosse tratado com humanidade.

- Certamente que sim.

- O que vai acontecer com ele? - perguntou Aurora, com a voz repentinamente rouca.

Percy não respondeu imediatamente, o que confirmava seus piores temores.

- Certamente haverá um julgamento - protestou Aurora. - Não enforcariam alguém importante como ele assim, sem mais, enforcariam?

- Talvez ele não venha a ser enforcado - respondeu o primo soturnamente. - O almirante pode muito bem mostrar clemência.

- E se isso não acontecer? Você pode interferir?

- Tenho poder para derrubar uma ordem do almirante, mas colocar essa prerrogativa em prática talvez significasse o fim da minha carreira política. Minhas opiniões sobre a guerra já causam desconfiança. Libertar um prisioneiro condenado provavelmente acabaria sendo considerado uma traição. Pirataria e assassinato são acusações graves, minha querida.

Aurora olhou para Percy desolada.

- Você podia pelo menos mandar um médico para ver os ferimentos dele.

- É claro. Vou conversar pessoalmente com o comandante da guarnição e garantir que Sabine receba os cuidados médicos adequados.

Aurora olhou nos olhos azuis de Percy, tão parecidos com os dela, e conseguiu ler a preocupação que havia ali - assim como o comentário que ele não fez.

Que diferença faria as feridas de Nicholas Sabine serem tratadas se em breve ele seria enforcado?

A esposa de Percy ficou assustada com todo o sangue no vestido de Aurora, mas menos chocada com o motivo do que se esperava que ela ficasse.

- Não sei se eu teria coragem para interferir - disse Jane depois de refletir sobre a história que tinha acabado de ouvir.

As duas mulheres estavam sozinhas no quarto de Aurora. Depois de Percy tê-la acompanhado até a casa da fazenda e partido para cumprir sua promessa em relação ao tratamento médico do prisioneiro, a criada de Aurora a ajudou a trocar de vestido, levando o sujo para lavar. Lady Osborne ficou para receber um relato privado e mais detalhado dos acontecimentos daquela manhã.

- Não considero corajoso impedir que um homem seja espancado até a morte - retorquiu Aurora, ainda indignada com o incidente matinal. - E minha intervenção parece ter contribuído pouco para mudar o destino dele.

- O senhor Sabine tem uma família proeminente na Inglaterra - disse Jane, tentando confortar Aurora. - Ele é primo de segundo grau do conde de Wycliff. Além de possuir enorme riqueza, Wycliff sempre foi um homem de grande influência nos círculos governamentais. Ele poderia muito bem interceder em favor do primo.

- Talvez ele seja enforcado antes de a notícia de que foi preso chegar à Inglaterra - respondeu Aurora em tom sombrio.

- Aurora, você desenvolveu uma afeição por Sabine, não é?

Ela se sentiu ruborizar.

- E como eu poderia ter me afeiçoado a ele? Conheci esse homem somente hoje pela manhã, e estive com ele apenas por alguns instantes. Não chegamos nem a ser formalmente apresentados.

- Que bom! Porque, francamente, ele está longe de ser o tipo adequado de cavalheiro, apesar de suas conexões. Na verdade, suspeito até que ele seja um tanto perigoso.

- Perigoso?

- Para o nosso sexo, quero dizer. Ele é aventureiro e um tanto libertino - e além de tudo é americano.

- Percy disse que ele é um herói.

- Creio que seja mesmo. Ele salvou a vida de mais de duzentos plantadores durante uma revolta de escravos em Santa Lúcia alguns anos atrás. Mas isso não o tornou mais, digamos, aceitável. Dizem por aí que ele é a ovelha negra da família, que passou a vida adulta viajando por terras estrangeiras e participando de explorações bárbaras. Apenas depois da morte do pai tornou-se minimamente respeitável - e apenas por ter herdado uma fortuna e assumido os negócios da família.

- Você não o acusou de ser muito pior do que metade dos rapazes da Inglaterra.

- Ele é incontestavelmente pior, posso lhe garantir. Caso contrário, jamais teria sido aceito na famosa Liga Fogo do Inferno, apesar de ela ser patrocinada pelo primo dele, lorde Wycliff.

Aurora sabia que a Liga Fogo do Inferno era um círculo fechado e exclusivo, restrito aos homens mais libertinos da Inglaterra, dedicados ao prazer e à devassidão. Se Sabine realmente pertencia àquela associação licenciosa, ele era mesmo um pervertido.

- E você não pode deixar de lado o fato - acrescentou Jane - de que ele é um pirata condenado, com sangue nas mãos.

Aurora baixou o olhar para suas mãos. Jane, uma de suas amigas mais queridas, era atenciosa e astuta o suficiente para analisar objetivamente uma situação - atributos esses que faziam dela a esposa perfeita para um político. Percy muito corretamente a adorava, sentimento esse que era recíproco.

- Aurora - disse Jane -, existe a possibilidade de você ter sido absorvida por esse homem para fugir dos seus próprios problemas? Talvez você esteja tentando ignorar seu sofrimento ao se envolver no destino de um estranho.

Aurora enlaçou os dedos com força. Era bastante possível que sua simpatia por Sabine fosse maior em razão de sua própria situação delicada. Ela podia identificar-se com ele; conhecia a sensação de se sentir impotente para definir seu futuro, de não ser a dona do próprio nariz. Ele estava à mercê de seus captores, enquanto ela estava sujeita aos ditames do pai - e muito em breve seria apanhada na armadilha de um casamento extremamente desagradável.

Jane deve ter lido a verdade em sua expressão, pois disse gentilmente:

- Você tem preocupações muito maiores do que o destino de um pirata. Será muito melhor para você esquecer tudo isso.

Jane levantou-se com um leve silvo do seu vestido de seda.

- Desça para almoçar quando estiver pronta. Você vai melhorar depois que comer, ouso dizer.

Aurora, porém, não se sentia melhor, nem tinha apetite. Apenas brincou com a comida enquanto aguardava ansiosamente o regresso do primo.

Quando finalmente chegou a mensagem de seu escritório em Basseterre, o bilhete de Percy não continha nada além da reafirmação de que ele tinha conversado com o comandante da guarnição, que prometera pedir ao médico da fortaleza que examinasse os ferimentos do prisioneiro.

Aurora mostrou o bilhete a Jane e fingiu não pensar mais no assunto. Pouco depois, ela pediu licença, dizendo que precisava organizar suas coisas para fazer as malas e voltar para a Inglaterra. Mas não fez nada disso. Em vez de arrumar as malas, ficou olhando para o chão, lembrando-se do par de olhos negros que a observou atentamente e a tremedeira que provocou nela.

"Pelo amor de Deus, pare de pensar nele", repreendeu-se Aurora intimamente.

Logicamente ela concordava com Jane. Era muito mais sábio tirar o famoso pirata da cabeça. Ela iria embora de São Cristóvão dentro de alguns dias. E já precisava lidar com seus próprios e sérios problemas - mais precisamente seu compromisso com um homem nobre e dominador mais de vinte anos mais velho do que ela. Um homem que ela não apenas não amava, mas de quem realmente não gostava por causa de seus modos soberbos e autoritários e de sua estrita, quase puritana, fidelidade às convenções. Um anúncio público do seu noivado seria feito assim que retornasse à Inglaterra.

Por um momento, Aurora sentiu o mesmo pânico que sempre sentia quando pensava em seu futuro casamento. Assim que estivessem casados, ela se tornaria, na prática, uma prisioneira do decoro. Na realidade, poderia se sentir feliz se tivesse permissão para ter um pensamento original. Mas, como já vinha fazendo havia meses, forçou-se a pensar em outra coisa.

Abandonando a ideia de organizar sua viagem, Aurora pegou um livro de poesia. Mas quando tentou ler, não conseguia focalizar a página. Em vez disso, via as formas ensanguentadas de Nicholas Sabine no momento em que ele estava aos seus pés, impotente, seminu, acorrentado. Tentou tirá-lo do pensamento, mas fracassou completamente.

Ela não precisava fechar os olhos para imaginá-lo deitado em uma cela de prisão, ferido e com dores, talvez até próximo da morte. Teria ele pelo menos um cobertor para cobrir o corpo quase nu? Apesar do calor do sol caribenho, ainda era inverno. A brisa oceânica vinda do Atlântico podia tornar as noites bem frias. E a fortaleza de Brimstone Hill, para onde ele tinha sido levado, foi erguida bem no alto de um penhasco, exposta ao frio.

Ainda mais assustador era o fato de um prisioneiro poder desaparecer para sempre no vasto labirinto de câmaras escuras e corredores estreitos do lugar. A imponente cidadela da fortaleza era defendida por muros de rochas vulcânicas com mais de dois metros de espessura e levou décadas para ser construída.

Aurora chegou a comparecer a uma recepção militar na fortaleza de Brimstone Hill com Percy e Jane, e considerou desconfortáveis até mesmo os alojamentos dos oficiais. Estremeceu ao imaginar como seriam as acomodações dos prisioneiros.

Não era consolador lembrar a si mesma que havia feito tudo o que pôde por ele. Inútil argumentar consigo e exigir que fosse sensata. Ela nunca havia abandonado alguém em uma posição tão vulnerável.

Os últimos anos teriam sido mais fáceis se ela tivesse sido capaz de ignorar sua consciência, de controlar seus instintos protetores. Se tivesse conseguido manter um distanciamento adequado quando o pai despejou sua ira em seus infelizes dependentes. Mas ela jamais conseguiria ser tão insensível.

E agora só conseguia pensar em Nicholas Sabine, vulnerável e impotente, à mercê de seus brutais captores.

Talvez se o tivesse visitado, ainda que brevemente, apenas para ter certeza de que ele estava sendo bem tratado, ela pudesse aliviar a consciência a ponto de esquecê-lo...

Sentindo a ansiedade diminuir pela primeira vez desde o perturbador incidente no cais, Aurora calmamente baixou o livro. Seu coração começou a bater de forma errática com a perspectiva de ver o americano novamente, apesar de tentar reprimir o sentimento proibido quando pegou o sino para chamar a criada.

Ela combateria o decoro com uma vingança, talvez correndo o risco de um escândalo, ao visitar um pirata condenado, mas aquele poderia ser um dos últimos atos de independência que teria a oportunidade de realizar.

Capítulo 3 Lembranças de Aurora, parte 2

Eu deveria estar tremendo de medo, mas o toque dele deixou-me encantada.

Ele estava sonhando novamente. Com ela. Sua cabeça passou a latejar com menos intensidade quando ela se inclinou sobre ele. A terna carícia dos dedos dela em sua testa febril era gentil e consoladora,

mas o toque dela provocou um latejamento pior nas costas.

Ela era a essência de toda a fantasia masculina: angelical, valquíria, deusa, sereia do mar. Tentação dourada e tormenta primitiva. Ele queria trazê-la para baixo, para junto dele, e beber na fonte dos seus lábios. Mas ela mantinha distância, fora de alcance:

- Ei, você!

Ele acordou assustado, com a lembrança e a dor o inundando com uma intensidade brutal. Sentindo tontura, Nicholas levou a mão à cabeça dolorida e sentiu o curativo nela. Ele estava deitado em um catre sem lençóis e não estava mais acorrentado. A coronha do mosquete pressionando suas costelas feridas, porém, era lamentavelmente familiar, assim como o guarda forte que pairava sobre ele.

- Você aí, recomponha-se!

Sua visão borrada se firmou. Tinha sido feito prisioneiro, lembrava-se, e fora levado até a fortaleza em São Cristóvão, onde provavelmente seria enforcado por pirataria e assassinato. De início, ele andou pela cela como se fosse um animal ferido, com o pensamento desvairado concentrado em sua meia-irmã e no fato de não ter conseguido cumprir a promessa de protegê-la. Mas o cansaço e a dor finalmente o obrigaram a se deitar. Tinha caído em um torpor torturante, apenas para começar a sonhar com a bela mulher de cabelo dourado que o tinha defendido com tanta valentia no cais.

Que diabos estava havendo com ele? Nick xingou a si mesmo. Desejar uma desconhecida, independentemente da beleza ou da coragem dela, era totalmente insano nessas circunstâncias. Em vez disso, ele deveria concentrar-se em sua irmã e em cuidar dela, tentando imaginar alguma maneira de garantir a segurança dela depois de sua morte...

- Eu mandei se recompor! Tem uma senhora aqui querendo ver você.

Nicholas ergueu-se lentamente com a ajuda dos cotovelos. Além do guarda, a porta da cela estava parcialmente aberta... Ele fixou o olhar e seu coração pareceu parar de bater.

Ela estava ali, dentro da câmara escura, alta, esbelta, majestosa como uma princesa. Mesmo que o capuz do manto negro recobrisse suas belas formas nas sombras, ele sabia quem era ela. Muito diferente do anjo vingador do qual ele lembrava no cais, ela parecia hesitante, indecisa. Cautelosa.

- Vou deixar a porta entreaberta, milady. Se ele lhe causar algum problema, é só chamar.

- Obrigada.

A voz dela era baixa e melodiosa, mas ela não disse nada mais, mesmo depois que o guarda saiu da cela.

Desconfiado de que sua visão não passasse de uma ilusão, Nicholas sentou-se lentamente. Os tênues raios de sol atravessavam a pequena janela com grades e iluminavam as partículas de poeira que dançavam ao redor da saia escura que ela usava, mas pouco contribuíam para iluminar suas feições.

Ela então colocou para trás o capuz de seu manto, revelando o cabelo brilhante, delicadamente preso, proporcionando a Nick um choque de consciência sexual. Sua beleza incomum parecia iluminar a cela escura.

Ela era bastante real, a fantasia viva de seus sonhos... a não ser que ele tivesse morrido e aquela fosse a versão dela no paraíso. Seguidores da fé islâmica acreditavam que um homem abençoado estaria cercado de formosas virgens quando fosse acolhido no paraíso. A dor dos seus ferimentos, porém, fez Nicholas suspeitar que ainda habitava seu corpo.

Ela o olhava surpresa, estudando o rosto dele. Então, como se tivesse percebido que o encarava, ela corou um pouco e voltou o olhar para a bandagem enrolada na cabeça dele.

- Vejo que eles pelo menos chamaram um médico. Temi que não fossem fazer isso. Não, por favor, não se levante por minha causa - disse ela quando ele tentou se erguer. - Você não está em condições de se ater a formalidades.

- O que... - sua voz saiu muito rouca; então ele limpou a garganta e começou novamente. - Por que veio aqui?

- Eu queria ter a certeza de que você estava bem - respondeu ela.

Nicholas franziu o cenho, tentando organizar a confusão em sua cabeça dolorida. Talvez os golpes realmente tivessem afetado seu cérebro.

Nenhuma dama colocaria em risco sua reputação para se emaranhar nas entranhas de uma prisão por causa de um estranho. E ele sabia que ela era uma dama da cabeça aos pés - sangue azul até os ossos. De fato, não tinha ela afirmado ser filha de um duque enquanto esculhambava aquele marinheiro pela manhã?

Nicholas olhou-a, pensando se não teria perdido alguma pista fundamental sobre o enigma representado por ela. Eis que um pensamento veio a ele repentinamente.

Seria possível que ela estivesse ali para enganá-lo? Estaria o bastardo do Gerrod recorrendo a algum ardil, usando-a para obter informações?

Desconfiado, Nick estreitou o olhar. Seu navio ainda estava em algum lugar do Caribe, pois ele fora sozinho a Montserrat buscar a irmã - a bordo de um brigue holandês - e não quis arriscar a vida de sua tripulação em uma missão pessoal. Mas o capitão Gerrod estava bastante determinado a descobrir o paradeiro da escuna daquele americano.

A captura de um navio inimigo tinha o potencial de catapultar a carreira naval do capitão - o que, segundo as suspeitas de Nick, era um provável motivo para que ele não tivesse sido imediatamente enforcado. Isso e o fato de Gerrod ter optado por não cometer nenhum deslize político ofendendo alguma ilustre conexão do prisioneiro.

De cara amarrada, Nicholas contemplava a bela e inesperada visita. Estaria ela de alguma maneira em conluio com Gerrod? A compaixão dela tinha parecido totalmente genuína naquela manhã, assim como sua animosidade em relação ao capitão. Mas existia a possibilidade de ela ter sido de alguma maneira persuadida a trabalhar com Gerrod e contra ele.

Será que ela tinha sido enviada até ali para atormentá-lo? Tentar um condenado como se promete água a um homem que morre de sede no deserto? A cruel possibilidade de um ser de tamanha beleza e doçura fazer parte de um estratagema encheu Nick de raiva.

Ele cerrou os dentes. Faria bem se lembrasse de que suas nações estavam em guerra. Por ser inglesa, ela era sua inimiga, e seria melhor para ele permanecer na defensiva.

Ela parecia desconfortável com a maneira como ele a observava, e quando ele deliberadamente baixou os olhos e demorou-se admirando seus seios, teve a impressão de vê-la corar apesar da luz fraca.

- Creio que não fomos apresentados de maneira adequada, madame - provocou ele.

- Não. Não houve tempo. Sou Aurora Demming.

Um nome adequado, pensou ele despretensiosamente.

- Lady Aurora. Eu lembro. Você mencionou isso no cais.

- Eu não tinha certeza de que você estava consciente do que acontecia ao seu redor.

Ao lembrar-se das agressões, Nicholas ergueu a mão para sentir a bandagem.

- Temo que você tenha me encontrado em desvantagem. Um silêncio constrangedor pairou entre os dois.

- Trouxe algumas coisas que talvez você possa precisar - ela disse finalmente.

Quando ela deu um passo em direção a ele, Nick se concentrou no pacote que ela trazia nos braços. Ela parecia estranhamente nervosa enquanto colocava sua oferenda sobre o catre e olhava ao redor da cela espartana e mal iluminada.

- Eu deveria ter trazido velas. Não pensei nisso. Mas aqui tem um cobertor... e um pouco de comida.

Os olhos dela cruzaram brevemente com os dele e depois se desviaram.

- Também trouxe uma camisa e um casaco do supervisor de Percy. Você pareceu ser maior que meu primo...

Nicholas percebeu que era seu estado de seminudez que a mantinha quieta. Se ela fosse como outras senhoritas de sua estirpe, dificilmente estaria habituada a visitar um homem seminu ou a fazer estimativas sobre seu porte físico.

- Como você passou pelos guardas? - perguntou ele com cautela.

Ela pareceu grata pela mudança de assunto.

- Aproveitei-me do comandante da guarnição, senhor Sabine - disse ela com um sorriso discreto. - Na verdade, recorri a uma pequena mentira. Dei a entender que meu primo Percy me havia mandado aqui.

- E ele mandou você aqui?

- Não exatamente.

- Pensei que Gerrod tivesse proibido que eu recebesse visitas.

- O capitão Gerrod não tem autoridade sobre o comandante da guarnição, e também ninguém gosta muito dele aqui na ilha.

- Então ele não mandou você aqui para me interrogar?

Um olhar de confusão uniu as finas sobrancelhas dela.

- Não. Por que você acha isso?

Nicholas encolheu os ombros. Ficaria muito surpreso se ela estivesse dissimulando. Mas se ela tinha algum motivo oculto para estar ali, ele era incapaz de perscrutar. Será que ela queria alguma coisa dele?

Quando ele se esticou para pegar o pacote que ela tinha trazido, Aurora recuou um passo, como se temesse a aproximação dele. Ele pegou a camisa e a vestiu cuidadosamente, contraindo os músculos doloridos.

- Perdoe-me, milady - pensou ele em voz alta -, mas não consigo entender o motivo de me defender assim, um estrangeiro, um prisioneiro condenado.

- Não me importaria em ver um homem ser assassinado diante de meus olhos. Pareceu-me que o capitão estava ansioso demais por encontrar uma desculpa para matá-lo. No mínimo, os homens dele teriam espancado você até deixá-lo inconsciente.

- Isso ainda não é motivo para bancar a dama generosa, guiada pela gentileza e pela boa ação.

O cinismo daquela frase a fez mudar um pouco as feições.

- Não estava convencida de que iriam cuidar de você.

- E você quer tornar meus últimos dias de vida mais confortáveis? Por quê?

"Então, por que mesmo?", Aurora se perguntava. Era impossível explicar a afinidade que sentiu com ele. Seria mais difícil ainda negar. Ele era um corsário, e isso para dizer o mínimo. Um homem violento. Um homem com sangue nas mãos.

E agora que não estava mais indefeso, o efeito dele sobre ela era ainda mais forte. Suas feridas tinham sido limpas, o sangue lavado, e sua beleza era deslumbrante apesar da barba por fazer. Aquilo somado à faixa de musselina cobrindo sua cabeça dava a ele uma aparência suja, deixando-o realmente parecido com um pirata fora da lei.

Ela era plenamente capaz de entender por que o primo Percy o considerava perigoso para as donzelas. Ele possuía a sedução pecaminosa de um anjo caído, com os cabelos cor de âmbar e um rosto cujos ângulos e curvas eram perfeitamente esculpidos. A insolência de seus ombros bronzeados e de seus braços musculosos provocava um frio estranho em sua barriga.

Naquele momento, porém, ele tinha o rosto petrificado, e a fria insolência do seu olhar a pegou de surpresa. Ele parecia extremamente desconfiado em relação aos motivos dela - o que não era muito surpreendente, uma vez que ela mesma não tinha muita certeza.

A reação de Aurora ao espancamento de Nicholas naquela manhã tinha sido puramente instintiva, talvez pelo fato de sua intervenção em disputas violentas ter se tornado um hábito arraigado nela. Mais vezes do que era capaz de calcular, ela já havia dado um passo à frente para proteger serviçais indefesos da fúria irracional de seu pai na propriedade da família.

Mas nada daquilo explicava a urgência que sentia em estar ciente do bem-estar dele. Talvez sua afinidade com esse estrangeiro - essa inexplicável familiaridade - derivasse exclusivamente do fato de a cor dele lembrar tanto a de seu falecido noivo, um homem que ela amou ternamente.

- Presumo que eu tenha vindo porque você me lembra alguém que me era muito querido - respondeu Aurora um pouco sem jeito.

Quando ele lhe lançou um olhar cético, Aurora desviou o olhar da pele queimada de sol do seu peito nu, que se mantinha à mostra por ele estar com a camisa aberta.

Aurora permaneceu parada enquanto os olhos de Nicholas observavam cada centímetro do seu corpo, chegando aos seus seios em um escrutínio insolente. Era como se ele estivesse vendo através do casaco o vestido cinza-escuro, de corte severo, feito de bombazina.

- Você veste um semiluto - comentou ele. - É viúva?

- Não. Meu noivo desapareceu no mar há mais de oito meses.

- Eu não me lembro de tê-la visto em São Cristóvão antes.

- Cheguei no verão passado. Meu primo e a esposa dele estavam visitando a família na Inglaterra pouco depois da tragédia ter acontecido. Eles acharam que uma mudança de ares poderia me ajudar a esquecer minha tristeza e então me convidaram para voltar com eles para o Caribe. Embarcamos antes da notícia da declaração de guerra na América ter chegado à Inglaterra. Se eu soubesse, jamais teria vindo. Na verdade, voltarei para casa dentro de alguns dias.

Aurora estava ciente de que falava em tom baixo e sabia que ele devia ter percebido a nota oculta da relutância que ela não conseguia disfarçar. A última coisa que ela desejava era voltar para a Inglaterra e encarar o destino que lá a aguardava.

Nicholas Sabine continuava estudando Aurora, como se tentasse estabelecer a veracidade dela. - Você não me parece muito ansiosa para voltar para casa, milady. Acho que você estaria impaciente depois de todo esse tempo fora.

Ela sorriu de maneira sofrida.

- Suponho que minha falta de entusiasmo se dê em razão do casamento que meu pai me arranjou.

- Ah! - exclamou ele com ares de sabedoria. - Um contrato de casamento. A nobreza britânica adora vender suas filhas pelo casamento.

Aurora empertigou-se com a presunção de Nicholas. Ela não queria trocar confidências com o senhor Sabine, nem tinha gostado do tom de intimidade da conversa.

- Não estou sendo vendida, posso lhe assegurar. É mais uma questão de conveniência social. E meu pai deseja me ver bem estabelecida.

- Mas você também não quer exatamente isso, não é verdade?

- Não, eu não teria escolhido a mesma pessoa para marido - admitiu ela em tom baixo.

- Imagino que você não tenha considerado a possibilidade de se rebelar. Você não me parece ser do tipo dócil. No cais, hoje de manhã, você foi uma verdadeira tigresa.

- Não era uma situação comum - respondeu Aurora, corando. - Não tenho o hábito de desafiar as convenções.

- Não? Mas mesmo assim você está aqui. Seria insensato arriscar assim sua reputação, você precisa admitir. Lá de onde venho, damas não visitam condenados na prisão.

- Na Inglaterra também não - respondeu Aurora, forçando um sorriso irônico. - Estou plenamente ciente da inconveniência do meu ato... e normalmente sou bastante sensata nesse sentido. Mas minha criada veio comigo, pelo menos. Ela está esperando do lado de fora, no corredor, junto com o guarda.

A pontual recordação do guarda pareceu não surtir nenhum efeito sobre o senhor Sabine. Ele abotoou lentamente a camisa, olhando-a sob suas longas pestanas escuras.

Quando ele se levantou, ela deu um passo cauteloso para trás. Ela era alta o bastante para que ele não a apequenasse com seus ombros largos e seus membros longos, mas daquela distância tão curta sua masculinidade era quase irresistível. Sua proximidade era uma ameaça.

- Você não está com medo de mim, está? - perguntou ele em um tom suave que a deixou arrepiada.

Agitada, Aurora lutou para controlar as sensações de conflito enquanto se mantinha em seu lugar.

Estava com medo dele. De sua intensidade. Do modo como sua virilidade bruta fazia seu coração bater. - Você não me parece ser o tipo de homem que machucaria uma mulher - respondeu ela, sem ter certeza.

- Eu poderia fazê-la refém. Você tinha pensando nisso?

Os olhos dela se arregalaram e sua agitação aumentou.

- Não, eu não tinha pensado nisso. Percy me disse que você é um cavalheiro - acrescentou ela, acometida de uma dúvida repentina.

O sorriso dele se iluminou no momento em que encurtou a distância entre eles.

- Alguém deveria tê-la ensinado a não ter tanta confiança assim.

Aproximando-se ainda mais, ele segurou o pulso dela, agarrando-o suavemente. Os dedos de Nicholas pareciam queimar a pele de Aurora, mas ela continuava determinada a não demonstrar como se sentia ao toque dele.

- Alguém deveria ter ensinado bons modos a você - retorquiu ela com indiferença, assumindo seu ar mais majestoso. Como ele não a soltava, ela o enfrentou. - Eu não esperava necessariamente gratidão, senhor Sabine, mas também não esperava ser maltratada dessa forma.

A dureza dos olhos escuros de Nicholas diminuiu um pouco enquanto ele soltava a mão dela. Muitos batimentos cardíacos depois ele desfez o ar zombeteiro.

- Perdoe-me. Eu me comportei de modo inadequado.

Distraidamente, ela esfregou o próprio pulso, onde o toque dele a havia marcado.

- Compreendo que o senhor esteja em uma situação difícil. E você é americano, afinal.

Ele lançou um sorriso de deboche.

- Ah, sim, um colonizado bárbaro.

- Você deve admitir que é muito... direto.

- E você deveria entender que homens condenados são induzidos a atos de desespero.

A expressão dela tornou-se sóbria ao lembrar-se de que ele seria enforcado.

- Percy deseja usar a influência dele em seu favor, mas ele também pode perder seu posto se exigir sua libertação. Ele já está sob suspeita de simpatizar com a causa americana. Acredita que essa guerra é absurda e que nós, britânicos, temos mais culpa por ela do que vocês, americanos.

Nicholas olhou fixamente para baixo, contemplando o lindo rosto dela inclinado para trás, para contemplá-lo, o queixo para cima. Se ela era inocente e estava sendo honesta, ele havia se enganado redondamente sobre ela. Ele sentia uma raiva enorme de alguns dos compatriotas dela, mas jamais poderia ter-se permitido descontar nela sua fúria e seu ressentimento.

- Perdoe-me - pediu ele relutantemente. - Estou realmente em dívida com você. Se de alguma forma eu pudesse retribuir esse favor...

Ele deixou a frase no ar, ciente da improbabilidade de um dia estar em posição de retribuir a gentileza dela.

Uma repentina tristeza encheu os olhos de Aurora.

- Eu queria que houvesse mais alguma coisa que eu pudesse fazer.

- Você já fez o bastante.

Ela mordeu os lábios.

- Eu suponho que deveria ir.

Nicholas percebeu-se olhando para a boca dela.

- Sim.

- Tem alguma coisa de que precise? - ela perguntou.

Ele deu um sorriso ao mesmo tempo irônico e sinistro.

- Fora a chave da cela e um navio rápido para conseguir fugir? Uma garrafa de rum também não faria mal.

- Eu... vou tentar.

- Não, não vai. Eu estava fazendo troça.

Ele passou as costas das mãos suavemente pelo rosto de Aurora. Os lábios dela se abriram e ele ouviu sua respiração suave. Nicholas sentiu-se excitar.

- Você não deveria estar aqui - disse ele tranquilamente. - Para o seu próprio bem, você deveria ficar longe.

Ela assentiu e deu um passo para trás. Seus olhos azuis se embaçaram. Como se fosse incapaz de falar, ela virou-se sem dizer mais nada e fugiu da cela sombria.

A porta rangeu atrás dela, sem dúvida empurrada pelo carcereiro. Nick amaldiçoou a lembrança de seu aprisionamento.

Por um momento, ele permaneceu ali, respirando a sutil fragrância floral que ela havia deixado para trás e desejando esmurrar alguma coisa. Desejou intensamente que ela não tivesse vindo. Intencionalmente ou não, ela o tinha deixado em chamas.

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