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Dark Paradise

Dark Paradise

Autor:: Diene Médicci
Gênero: Máfia
Rebeca cresceu entre lixo, ferrugem, graxa e muita simplicidade. Trabalhando desde cedo em um centro de reciclagem e em um ferro-velho, aprendeu a encarar a vida com coragem e silêncio, ela só queria viver sem ser notada. Foi criada pelo tio Antônio, o único porto seguro e familiar que conheceu. Humilde, observadora e discreta, nunca esperou muito do mundo. Suas paixões eram carros, corridas clandestinas e adrenalina. E para ter acesso a isso, ela fazia o que fosse necessário sem medo das consequências. Ela guarda um segredo: um dom raro que herdou da mãe que nunca conheceu. Conforme a juventude avança, esconder esse poder se torna cada vez mais difícil. No meio de perigos, escolhas impulsivas e o primeiro amor vivido ao lado do melhor amigo de infância, sua vida começa a sair do controle. Tudo muda quando ela salva a vida de um homem perigoso, se expondo demais e desenvolvendo um laço muito forte com ele.

Capítulo 1

Rebeca nunca teve uma vida fácil ou comum. Desde pequena ela sabia que era especial, mas não se via assim. Enxergava mais como uma maldição, do que uma benção.

Muitas coisas boas que a maioria dos jovens da idade dela tinham, ela nunca teve, sua vida beirava a pobreza, porém isso nunca a fez se sentir inferior aos outros, ela apenas se achava diferente.

Desde pequena, morava de favor com o tio Antônio em uma área rural, em uma cidade de 3.000 habitantes. Cresceu no meio do "lixo". Moravam em um terreno, onde havia um centro de reciclagem, um ferro-velho e uma oficina ao lado.

Tudo lá era de Célio, mais conhecido como "Rei do Latão". Ele era muito amigo do tio dela e já havia ajudado bastante os dois. Pelo menos era o que ela acreditava.

Célio era ex-policial civil, morava ali perto, cheio de conforto, a casa dele era uma mansão com piscina, área de lazer, campo de futebol. Lá tinha tudo do bom e do melhor.

Rebeca ia muito lá quando criança, brincar com o único e melhor amigo, Neto. Ele perdeu a mãe ainda pequeno, e por isso era bastante mimado, sem limites.

Seu pai o deixava solto, até demais. E ele não era tão ingênuo como Rebeca, ele sempre tinha as piores idéias, quando o assunto era aprontar e ela topava tudo.

Pareciam dois moleques e não era por acaso, Antônio a deixava assim de propósito, com os cabelos ruivos lisos muito curtos, sempre com roupas simples, surradas.

Quando ainda eram crianças, começaram a tomar gosto por esportes, faziam capoeira, jiu-jitsu, e ele outras coisas que seu pai pagava cheio de orgulho. O sonho do Neto, era ser policial e além disso, ele era obcecado por armas.

Aprendeu a atirar muito cedo, e por causa dos interesses dele, Rebeca também gostava das mesmas coisas.

Na pré adolescência entraram em uma fase de brincar muito fora de casa, explorando novos lugares de bicicleta, fazendo muita bagunça. E foi aí que ela percebeu o quanto gostava de coisas diferentes.

Passou a invadir casas, chácaras, só para olhar tudo, sua curiosidade a consumia e o prazer, de imaginar. A deixava em êxtase.

Ela sabia que Neto não iria gostar e ia sozinha, quando ele ia viajar para a casa dos familiares.

Ela sempre foi a única menina no meio dos amigos dele, mas na maioria das vezes nem parecia. Os anos passavam e ela continuava com o cabelo sempre muito curto, toda suja, mal vestida. As vezes ela ficava na oficina ou no desmanche, olhando os carros, e os clientes a olhavam sem nem perceber, que não era um garoto.

Seu corpo já mudava e ela ainda não sabia nada, sobre feminilidade, vaidade, usava o desodorante e perfume tabu, igual ao tio, e achava ótimo.

Quando iam nadar, ela sempre entrava na piscina de roupa. Nunca houve maldade entre eles, pelo menos enquanto Neto a via como uma amiga apenas.

Nas férias do final do ano, Julio primo de Neto foi passar uns dias lá, ele era um pouco mais velho que os dois, e muito mais malicioso.

Ele implicava com ela, desde sempre, fez uma brincadeira sobre ela ser feia, enferrujada igual aos carros velhos e "Maria-homem". No mesmo dia, ele a jogou na piscina e pulou em cima, brincando, fazendo com que ela se afogasse. Ela correu para casa e não contou nada ao tio, com medo de ser colocada de castigo.

E isso tudo a fez chorar, se odiar e questionar sozinha em frente ao espelho, o que estava acontecendo, pois além de ciúmes de Neto, ela estava percebendo que queria ser notada, precisava de uma certa validação. E não sabia como, mudar.

Depois ele foi se desculpar, queria que ela saísse com eles, para ir a um encontro de carros, onde faziam campeonatos de arrancadas e corridas clandestinas.

Antônio era mecânico e estava mexendo a semanas em um Maverick lindo, tunado, Neto falou que aquele carro ia correr. Rebeca apenas o ignorou, e ele até disse que a achava linda, mesmo enferrujada. Depois ele se irritou e saiu sozinho.

A mentalidade dele era um pouco diferente e a realidade, muito mais. Enquanto o primo dele, ficou lá nas férias, os dois fizeram novas amizades. Neto aprendeu a dirigir, foi para festas, baladas.

Rebeca se isolou bastante. Passava horas andando sozinha pelas estradas de terra, começou a mexer nos carros, ajudando e aprendendo na oficina, no desmanche.

Um dia ouviu uma conversa, sobre o dono do Maverick, estavam falando mal dele, dizendo que era um playboy irresponsável, que vivia bebendo, dirigindo, batendo o carro. Rebeca era muito de observar e ficar calada, pelos cantos.

A semanas ela estava evitando Neto, recusando os convites para ir jogar, comer fora, ele mudou de escola e era o primeiro ano dos dois, em escolas diferentes, depois de muito tempo, sempre indo e vindo juntos.

Ninguém mexia com ela, por causa dele, que a defendia e, no fundo, ela temia muito que sua vida piorasse.

E piorou, na primeira semana já fizeram comentários sobre as roupas, o cabelo, e ela suportava a tudo calada. Sem contar ao tio ou pedir ajuda.

Neto voltou a se aproximar, quando o primo foi embora, e percebeu que algo tinha mudado. Rebeca não conversava como antes e nem fazia perguntas, ficava sempre quieta o ouvindo falar, sobre o "mundo" que ele conheceu, sem ela.

No primeiro mês de aulas, ele deu uma festinha na piscina para os novos amigos. Convidou duas meninas também. Ele convidou Rebeca com antecedência, deixou claro que ela precisava ir. Estava super animado para que ela os conhecesse.

No dia dessa festinha, Rebeca foi um pouco depois do horário, porque precisou ir buscar na cidade, um livro com uma colega para fazer um trabalho escolar. Ela não tinha celular, acesso à internet e muito menos computador. Todos tinham e Antônio dizia que aquelas coisas eram bobagens.

E que no dia que ela fizesse um perfil, em qualquer rede social, iriam aparecer pessoas más, para pegá-la e usar seu dom, até levá-la à morte. Quando chegou lá na casa de Neto, entrou pelos fundos como de costume. Estavam ouvindo música alta, todos na piscina. Célio estava lá, vigiando a festa, fazendo churrasco. Recebeu-a como de costume e falou para ela ir na sala, porque Neto estava lá jogando videogame.

As meninas estavam de biquíni e maiô, ficaram olhando ela e julgando, rindo das roupas simples meio masculinas. Rebeca ficou reparando também, de longe, porque achou tudo bonito. Ela foi vestida com uma camiseta azul desbotada de personagem de mangá e uma calça jeans um pouco larga que havia ganhado de doação, só os tênis eram mais legais, de marca, mesmo estando bastante gastos. Neto falou oi e continuou jogando, a mandou ir na piscina com as outras, ele queria que ela despertasse um pouco, só não sabia como ajudar.

Ela ficou bastante desconcertada, sentada no cantinho, olhando elas tirando fotos na câmera, fazendo vídeos dançando, algo que ela não sabia e nem gostava de fazer. Foi a primeira festa de verdade de que participou, e foi horrível, Rebeca achou muito chata. Ela era adolescente e depois disso, começou a reparar nas roupas das pessoas. Ficava imaginando o que iria vestir bem nela ou ficar estranho, e olhava vitrines quando ia e vinha da escola.

Rebeca vivia andando no meio da reciclagem e da oficina, depois da escola, porque Neto estava estudando em período integral e ela não tinha nada para fazer em casa. Perguntou a uma moça que trabalhava lá quanto custava uma roupa nova. Ela nunca tinha ido a uma loja comprar roupa ou sapato na vida.

A mulher respondeu:

- Não dá para comprar nada com menos de R$ 50,00. O que você queria?

Rebeca falou que precisava de uma blusa melhor e uma calça jeans do tamanho dela de verdade. A moça ficou com pena, levou a calça para apertar, mediu certinho antes e trouxe mais agarradinha. Também levou uma jaqueta jeans que era dela e um sutiã de bojo pequeno. Todos lá tinham pena dela e achavam estranho o modo de Antonio a criar, a deixando tão largada como um menino. E ele simplesmente ignorava quando Rebeca queria algo diferente, e a enchia de medo, fazendo ela crescer ingênua em uma bolha.

Capítulo 2

Rebeca achou engraçado, porque quase nem tinha seios, por ser magrinha, mas ficou super feliz e foi logo para a escola vestindo tudo. Na hora do recreio, estava correndo quando o sutiã abriu nas costas por estar largo. Passou vergonha. Ficaram rindo dela, zombando, falando que ela havia roubado das vizinhas. Só de raiva, ela não tirou.

Foi para casa e não conseguiu tirar sozinha. Não queria que o tio visse, com medo dele a repreender por estar querendo mudar. Ficou o dia todo de blusa de frio. Quando Neto chegou da escola, ela foi correndo até a casa dele. Estava muito calor. Ele perguntou, surpreso, se ela estava doente. Disse que iria chamá-la para nadar. Envergonhada, ela não falou nada.

Ele foi nadar, e Rebeca ficou feito boba, com vontade, só molhando os pés. Depois tirou a blusa e entrou na piscina de shorts e camiseta. Ficou se escondendo embaixo da água. Quando ele viu o sutiã, começou a rir, zombando. Ela saiu correndo, com vergonha e muita raiva. Foi ao banheiro pegar uma toalha para ir embora logo.

Neto foi até a porta do banheiro se desculpar. Falou bem de boa, que só riu porque não sabia que ela já tinha peitos, mas que sempre soube que ela era uma menina, que toda menina tinha peitos um dia e era normal. Disse que não iria ficar tirando sarro dela por causa daquilo.

Chorando, Rebeca falou com a porta trancada:

- Não tenho peitos ainda e quero tirar essa porcaria, mas não estou conseguindo.

Ele respondeu que podia tirar. Na inocência de bons amigos, ela abriu a porta e saiu para fora. Neto levantou a camiseta dela um pouco e, sutilmente, soltou o fecho. Falou para ela ir ao banheiro tirar. Enquanto Rebeca tirava, de porta fechada, ele ficou falando do lado de fora:

- Já mexi várias vezes nas coisas da minha mãe. Meu pai guarda tudo. Quando você tiver peitos, posso pegar um sutiã lá para você.

Rebeca gritou para ele calar a boca. Ele só quis saber se ainda iam nadar. Ela falou que não queria mais e foi embora brava, irritada. Se sentindo inferiorizada e feia, aos olhos dele.

Usou aquelas roupas todos os dias que deu, só tirava para lavar mesmo. Sempre achava coisas legais lá na reciclagem: bijuterias, livros, revistas e guardava. Começou a procurar coisas que as meninas tinham, mas nunca sabia o que era bonito ou ultrapassado, já que estava tudo no lixo. Logo parou de tentar se arrumar, muito frustrada. Não tinha tanto interesse nisso mesmo.

Depois daquele dia na piscina, ficou sem ir ver Neto. Na época, vivia irritada com tudo e todos, sentindo-se um pouco triste, frustrada. Ficou mais dentro de casa e seu tio no fundo gostava, dela sempre isolada. Eram os hormônios, a TPM. Nada fazia sentido, tudo parecia meio ruim, quando ela ficou "mocinha".

Tomou um susto. Já tinha ouvido falar na escola quando mais nova, uma colega super pra frente, vivia dizendo que queria menstruar logo para ter corpão, usar esmalte vermelho. E Rebeca não queria virar nunca, odiou desde o começo.

O tio era meio rústico. Não falava daquelas coisas com ela. Só explicou que devia se limpar direito no banheiro, tomar banho todos os dias, usar sabonete e esponja diferentes dos dele, andar sempre com roupa limpa, mesmo que velha e surrada, passar desodorante e perfume. Os dois usavam o mesmo: Tabu.

Em um dos dias que estava menstruada, foi para a escola e a roupa manchou, porque ela colocou o absorvente errado. Tassiane uma colega emprestou a blusa para ela amarrar na cintura. Foi até a diretoria com Rebeca pedir um absorvente. Ela ia precisar de outra roupa ou que alguém fosse buscá-la para ir embora mais cedo.

Sabia que o tio nem ficava com o celular. Era bem antigo, ele raramente usava, e se fosse até a escola iria demorar muito. A colega falou que iria ligar para a mãe dela. Como todos na secretaria sabiam da vida de Rebeca, deixaram.

Bem rápido, a mãe da colega chegou com duas calças, uma calcinha e três pacotes de absorventes diferentes: um noturno, um com abas e um sem abas. Ela ficou conversando com a diretora e uma professora, olhando para Rebeca de longe. Rebeca sabia que estavam falando dela. Pôde ver e sentir o olhar de pena delas. Aquilo a marcou bastante. Foi tudo muito constrangedor.

Quando voltou para a sala, todos estavam sabendo e rindo dela. Ficou morrendo de vergonha, mas a colega a defendeu. Xingou todo mundo, disse que iria pegar na saída.

Tassiane era meio doidinha. Sentava na frente, tinha boas notas, conversava com todo mundo, até com os professores. Sempre estava metida em brigas, defendendo alguém ou atacando, toda debochada e pirracenta. Não eram amigas ainda, só colegas.

Rebeca nem sabia fazer amizade e, por ter uma condição mais humilde, não ficava com a galera no intervalo, porque sempre compravam coisas na cantina e ela não tinha dinheiro. Se pedisse, talvez o tio desse, mas não tinha coragem, por achar que a situação em casa era difícil.

No intervalo, ela sempre comia a merenda, independentemente do que fosse de lanche, e ia ficar sentada no canto, observando a todos. Antes ficava com Neto, mas depois que ele mudou de escola, teve dificuldade em se ajustar à nova rotina e sempre mentia para ele, quando tocava no assunto, dizendo que tinha amigos novos.

Em casa, só tinha café preto de manhã. Era o que tomava antes de ir para a aula. Por isso, sempre aproveitava o lanche que davam para comer.

Capítulo 3

Depois da escola, Rebeca foi direto para casa. O tio já tinha almoçado e voltado a trabalhar. Ela comeu, tomou um remédio que lhe deram e foi deitar. Acabou dormindo e não limpou a casa como de costume.

Quando o tio voltou no final do dia, foi perguntar se ela estava se sentindo mal. Ele notou que havia algo errado acontecendo. Rebeca falou que estava com dor. Ele ficou sem jeito, pensando em como conversar, mas ela contou que já sabia sempre o que fazer, que tinham lhe dado toda a assistência na escola.

O tio se ofereceu para ir à farmácia com ela. Rebeca pediu para ir sozinha no dia seguinte. Como já tinha ganhado absorventes e remédio, foi procurar outra coisa para comprar, algo que o tio não fosse notar. Foi à farmácia e não achou nada interessante. Quase pegou um batom em formato de morango, que todo mundo tinha na escola, mas achou caro. Comprou doces e guardou o troco.

Quase ficou esperando Neto chegar da escola, mas achou melhor evitar vê-lo, porque ele iria querer nadar, ir andar de bicicleta, e ela não queria fazer nada daquilo. Pensou que seria muito estranho contar para ele o que tinha acontecido.

Faltou à escola por dias. O tio ficou com dó e nem fez questão que ela fosse. Na verdade, ele nunca fez questão, ela é que gostava de ir.

Neto foi chamá-la para ajudar com o carro que ele estava mexendo, ajudando o pai dele. E disse que se terminasse o pai ia deixá-lo sair de carro a noite. Ela foi com ele, mas não quis fazer nada. Ele se irritou com ela e disse que estava estranha, muito chata, que devia estar com ciúmes e inveja dos novos amigos dele, porque toda vez que estavam lá, ela não queria ir ficar junto.

Rebeca respondeu:

- Então vai encontrar com os seus novos amigos.

E foi embora.

Ele ficou todo bravo, reclamando, criticando, mas não foi atrás. Ficaram semanas sem conversar, o primo dele foi pra lá e juntos iam a corridas ver o pessoal tirando rachas.

Ele até foi chamá-la duas vezes, mas Rebeca ignorou. Falou que não podia sair.

Neto entrou de férias e foi viajar para a casa da avó. Nem se despediram. Ele estava amadurecendo muito e ela ainda não, mas ela via que a amizade estava mudando e muito, Ficou achando que ia até acabar.

Como ela queria dinheiro para comprar mais roupas, Rebeca perguntou ao tio se podia ajudar na oficina, na reciclagem. Também falou que não tinha com quem ficar nas férias. Ele deixou, e ela começou a trabalhar, ajudando no desmanche, fazendo lavagens, separando lixo.

Era tudo muito sujo, ela sentiu o cansaço e o tédio, de estar sozinha, mas logo recebeu pelos 15 dias trabalhados e ficou super feliz. Célio, dono de tudo e pai de Neto, fez todo o procedimento de chamá-la para receber como chamou os outros. Tratava-a muito bem e disse estar orgulhoso dela.

O pagamento pareceu muito dinheiro. Rebeca nem sabia o que comprar primeiro. Não tinha noção de qual loja poderia ir, nem do real valor do dinheiro. O tio perguntou o que ela pretendia fazer com tanto dinheiro. Foi irônico, mas na época ela nem notou. Toda animada, contou que queria roupas.

Ele falou pra ela chamar a moça que trabalhava lá, para ir a uma loja.

No dia seguinte, foram bem cedo. A mulher a levou a uma loja que tinha peças mais baratas, com defeitos. Rebeca comprou poucas peças. Achou o máximo aquela sensação de vestir algo que se encaixava perfeitamente em seu corpo.

Ela também estava de férias e não tinha onde usar a roupa nova. A ansiedade era tanta que se ofereceu para ir à igreja com a moça que trabalhava lá, mentiu e foi ver as famosas corridas que Neto tanto falava. Foi bem legal, ela passou horas só observando de longe. Rebeca se sentiu mais normal que o comum. Ninguém ficou reparando nela, todos eram mais velhos, estavam bebendo e dançando.

Ela se animou para trabalhar. Esforçou-se bastante, começou a levar a sério. Célio voltou de viagem sem Neto. Contou que ele iria ficar fora até o final das férias. Rebeca ficou triste, porque ele era o único amigo dela.

Célio entregou uma cartinha de Neto. Ele escreveu que logo voltaria e que sempre seriam os melhores amigos, mesmo longe. Desenhou os dois juntos.

Rebeca não tinha costume de chorar por nada. Nunca. Mas naquele dia chorou, porque teve certeza de que ele não iria voltar e, se voltasse, seria "outra" pessoa. Na casa da avó dele, a vida era muito boa. Tinham boas condições e ele com certeza teria amigos iguais a ele, mais interessantes que ela.

Às vezes, Célio mandava recados de Neto. Até ofereceu o celular dele para que os dois conversassem por ligação, mas Rebeca não quis. Tinha vergonha de pegar as coisas dos outros e nem sabia mexer naquele celular. Também ficou pensando que seria muito ruim saber como a vida dele estava ótima longe dela, com amigos novos.

Continuou trabalhando e quando as aulas voltaram ela continuou indo meio período e, às vezes, as unhas ficavam sujas. Na escola, sempre sentava na última mesa, no fundo da sala, porque não gostava de ser notada. Como Neto sumiu por meses, começaram a fazer piadinhas comuns sobre ela. Falavam sobre o cabelo dela, que estava crescendo bastante acobreado, sobre a letra feia, sobre as notas péssimas.

Um dia, Rebeca estava realmente prestando atenção na aula quando jogaram uma bolinha de papel nela. Ela só olhou brava e voltou a prestar atenção. Logo a aula acabou. Foi para o intervalo comer.

Quando voltaram para a sala, havia um desenho que parecia ser ela, colado na lousa, com unhas enormes, pretas, e cabelo arrepiado, feio, bagunçado. Rebeca ignorou e voltou a sentar.

Quando Tassiane entrou, tirou a folha da lousa e falou para todo mundo ouvir:

- Isso parece desenho de criança de cinco anos.

Rebeca ficou quieta no canto dela. Depois, quando estava arrumando o material para ir embora, viu que tinham colocado várias bolinhas de papel dentro da mochila. Deu para ver que era um desenho.

Abriu uma para ver melhor. Era um desenho muito bonito dela. Abriu outra, também era, só que diferente: ela sentada na sala, ela lá fora encostada na árvore em que sempre ficava.

Rebeca amassou tudo e jogou no lixo.

No dia seguinte, foi para a escola de coque no cabelo, com vontade de cortar curtinho de novo e limpou as unhas até machucar os dedos.

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