Por cinco anos, fui a esposa de Caio Sampaio, o intocável "Príncipe Dourado" de São Paulo. Eu era uma consultora de lealdade, paga cinquenta milhões de reais para fazê-lo se apaixonar, mas fui eu quem acabou se apaixonando de verdade por ele.
Então, sua antiga paixão, Fabiana, reapareceu. Quando contei a ele que estava grávida do nosso filho, seu rosto se tornou uma máscara de pedra. Fabiana sorriu com desdém dos degraus de seu jatinho particular.
"Esse bebê veio na hora errada", ele disse, sua voz fria como gelo. "Precisa ser abortado."
Ele fez seus homens me arrastarem para uma clínica. Enquanto a anestesia fazia efeito, eu o ouvi dar uma ordem final e cruel ao médico: "Uma histerectomia. Quero garantir que não haja mais... surpresas inconvenientes."
Ele destruiu meu corpo e nosso filho por outra mulher. Deitada naquela sala estéril, meu amor se transformou em ódio glacial. Peguei um celular descartável que não tocava há anos e enviei uma única mensagem para um contato misterioso. A resposta foi instantânea: "Vou te buscar em quinze dias."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Elisa Guimarães:
Meu nome é Elisa Guimarães, e sou uma consultora de lealdade profissional. Meu trabalho, em essência, é testar a fidelidade dos ricos e poderosos, um serviço que presto por uma taxa que faria a maioria das pessoas engasgar. Por cinco anos, fui a melhor do ramo, um fantasma nas gaiolas douradas da elite de São Paulo.
Minha carreira nasceu do desespero. Minha avó, a única família que eu tinha, estava sendo lentamente consumida por uma rara doença degenerativa. Os tratamentos experimentais que ofereciam um pingo de esperança vinham com um preço astronômico, muito além do que minhas economias podiam cobrir. Então, usei meu único e verdadeiro trunfo: uma habilidade incrível de ler as pessoas, de me tornar o que elas mais desejavam ou temiam. Tornei-me um camaleão, uma sereia, uma tentação ambulante. E eu era muito boa nisso.
Minha última e mais lendária missão foi uma aposta de cinquenta milhões de reais. O alvo era Caio Sampaio, o intocável "Príncipe Dourado" de uma dinastia filantrópica tão poderosa que seu nome estava gravado na própria estrutura da cidade de São Paulo. O desafio, lançado por um grupo de seus rivais ricos e entediados, era simples: fazer o famoso estoico e ascético Caio Sampaio se apaixonar. Quebrar sua fachada.
Contra todas as probabilidades, eu consegui.
No momento em que ele me pediu em casamento, na vasta propriedade ancestral da família Sampaio, a alta sociedade da cidade ficou em silêncio, atônita. Ele estava diante de mim, o sol da tarde brilhando em seus cabelos dourados, e deslizou o anel de sinete dos Sampaio em meu dedo. Em seu próprio pulso estava o japamala de sândalo que ele nunca era visto sem, um símbolo de sua espiritualidade cultivada. Por mim, ele o havia removido, um gesto que gritava compromisso.
Claro, os perdedores vingativos da aposta não podiam deixar minha vitória passar em branco. Em nosso casamento, um espetáculo de dinheiro antigo e novo poder, eles expuseram meus verdadeiros motivos. Na frente de centenas de convidados, eles tocaram gravações de minhas reuniões iniciais, mostraram o contrato, a aposta, a natureza fria e calculada de todo o nosso namoro. Um suspiro coletivo percorreu a catedral. Fiquei paralisada, meu vestido branco de repente parecendo uma mortalha. Esperei que Caio recuasse, que me olhasse com o nojo que de repente senti por mim mesma.
Em vez disso, em uma chocante demonstração de devoção que silenciou a todos, ele pegou minha mão. Seu aperto era firme, inabalável. Ele não olhou para a multidão, mas diretamente em meus olhos, e sua voz, clara e ressonante, encheu o espaço sagrado. "Eu sabia", ele declarou. "Eu sabia desde o início. Eu entrei de bom grado na armadilha dela."
Ele então pagou os cinquenta milhões de reais ele mesmo, não para os homens que haviam perdido a aposta, mas diretamente em minha conta. Ele me disse que era meu dote. Meu preço.
Por cinco anos, ele me cobriu com um amor tão profundo, tão abrangente, que as linhas do meu próprio jogo se confundiram e depois desapareceram completamente. Eu, que entrei no jogo por dinheiro, me apaixonei genuinamente, desesperadamente. Esqueci a consultora e me tornei a esposa. Abracei nosso casamento, nossa vida, a narrativa perfeita que ele havia tecido ao nosso redor.
Nosso mundo se despedaçou com a chegada de Fabiana Valente.
Ela veio do Rio de Janeiro como um furacão, a herdeira implacável e imprevisível de um império de negócios poderoso e notoriamente obscuro. Ela era todo glamour cintilante e arestas afiadas, uma criatura de impulso e imenso privilégio. Ela queria a ajuda de Caio com uma crise nos negócios da família, algo sobre uma aquisição hostil.
Caio inicialmente recusou. "Eu tenho uma esposa, Fabiana. Meu tempo não é meu."
Mas Fabiana era persistente, sua vulnerabilidade uma arma. "Por favor, Caio. Você é o único em quem posso confiar. É o legado da minha mãe. Eles vão destruí-lo."
Ele finalmente cedeu, mas com uma condição. "Três dias. É tudo que posso te dar."
Esses três dias se estenderam por uma semana, depois duas. Quando Caio finalmente voltou, dirigi até o aeroporto particular eu mesma, meu coração um tambor frenético contra minhas costelas. Eu tinha notícias, notícias maravilhosas, o tipo de notícia que cimentaria nossa vida perfeita para sempre.
A porta do jato se abriu e ele desceu os degraus. Ele parecia diferente. O calor em seus olhos havia sumido, substituído por uma distância fria e indecifrável.
Corri para ele, minha alegria efervescente. "Caio! Senti tanto a sua falta! E tenho a notícia mais incrível." Respirei fundo, minha mão instintivamente indo para minha barriga ainda lisa. "Estou grávida."
Ele congelou.
Seu rosto, o rosto que eu havia memorizado, o rosto que eu adorava, tornou-se uma máscara de pedra. Não havia alegria. Nenhuma surpresa. Apenas um vazio arrepiante.
Meus olhos caíram em seu pulso.
O japamala de sândalo estava de volta.
Meu sorriso vacilou. "Caio? O que foi? O que há de errado?"
Fabiana apareceu no topo da escada do jato, uma mão possessiva no corrimão, um sorriso triunfante brincando em seus lábios. "Ele não te contou?", ela ronronou. "Caio me fez uma promessa."
Olhei de volta para meu marido, meu coração começando uma queda lenta e dolorosa. "Uma promessa?"
A voz de Fabiana pingava condescendência. "Que eu serei a única a carregar o herdeiro da família Sampaio. Seu timing é simplesmente... inconveniente."
Meu mundo girou. O zumbido do motor do jato se tornou um rugido em meus ouvidos. Virei-me para Caio, implorando com os olhos para que ele negasse, para que risse daquilo como uma das piadas cruéis de Fabiana.
Ele olhou para mim, sua voz tão fria quanto o ar de julho. "Fabiana está certa", ele disse, as palavras como cacos de vidro. "O bebê veio na hora errada."
Lágrimas brotaram em meus olhos. "Na hora errada? Caio, este é o nosso bebê. Nosso filho."
"Precisa ser abortado", ele afirmou, não como uma sugestão, mas como uma ordem.
"Não", sussurrei, balançando a cabeça em descrença. "Não, Caio, você não pode estar falando sério. Eu não vou."
Sua mandíbula se contraiu. "Você vai."
"Você não pode me obrigar", solucei, agarrando minha barriga.
"Eu posso", ele disse, seus olhos desprovidos de qualquer emoção que eu reconhecesse. Ele gesticulou para dois de seus seguranças que estavam por perto. "Levem-na para a clínica."
Eles se moveram em minha direção. Eu gritei, um som cru e animal de terror e traição. "Caio, não! Por favor! Não faça isso!"
Ele simplesmente observou, seu rosto impassível, enquanto seus homens agarravam meus braços. Eu lutei, chutei, arranhei, meus apelos ecoando pelo asfalto, mas era inútil. Eles estavam me arrastando para um carro preto, meus saltos raspando no chão.
Minha última visão foi de Caio, parado ao lado de seu jato, nem mesmo olhando para mim. Ele estava olhando para Fabiana, um sorriso suave e tranquilizador em seu rosto enquanto estendia a mão para alisar uma mecha de cabelo de sua bochecha.
O mundo escureceu.
Fui levada para uma clínica particular, uma sala branca e estéril que cheirava a antisséptico e desespero. Caio chegou mais tarde, parecendo tão impecável e composto como sempre. Ele parou ao lado da minha cama, o médico ao seu lado.
"Você está fazendo uma cena, Elisa", ele disse, sua voz um murmúrio baixo. "Isso é para o melhor."
"Melhor para quem, Caio?", cuspi, as lágrimas quentes em meu rosto. "Para você? Para ela?"
Ele me ignorou, virando-se para o médico. "Prossiga com a interrupção."
Meu sangue gelou. Mas o verdadeiro horror ainda estava por vir. Enquanto a anestesia começava a se infiltrar em minhas veias, ouvi sua voz, um sussurro baixo e cruel para o médico, não destinado aos meus ouvidos.
"E já que está aí", disse Caio, seu tom casual, como se estivesse pedindo um café, "uma histerectomia. Quero garantir que não haja mais... surpresas inconvenientes. Fabiana é delicada. Ela não pode lidar com esse tipo de estresse."
As palavras perfuraram a névoa das drogas. Um grito se formou em minha garganta, mas foi engolido pela escuridão que se aproximava. Meu corpo, meu futuro, minha própria feminilidade - ele estava destruindo tudo. Por outra mulher.
Quando acordei, a dor física era uma pontada surda e latejante no meu baixo-ventre, um vazio oco que era mais do que físico. Era uma caverna esculpida em minha alma. Eu estava quebrada. Traída. Um recipiente esvaziado de seu propósito, de sua esperança.
Caio veio me ver no dia seguinte. Ele trouxe flores, lírios caros e sem cheiro que pareciam fantasmas.
"Está feito", ele disse, colocando-as na mesa de cabeceira. "Agora podemos seguir em frente."
Eu encarei o teto, meus olhos secos. Não havia mais lágrimas. "Não existe 'nós'", eu disse, minha voz um arranhado morto. "Não mais."
Ele suspirou, um som de paciência teatral. "Não seja dramática, Elisa. Você ainda é minha esposa. Nada precisa mudar."
Tudo havia mudado. O amor que eu sentia por ele, antes um sol escaldante, havia se extinguido, deixando para trás apenas o vácuo negro e gelado do ódio. Ele saiu, prometendo voltar mais tarde, deixando-me sozinha na sala silenciosa e branca.
Minha mão tremeu quando alcancei minha bolsa. Dentro havia um celular descartável, um aparelho não rastreável que eu não tocava há cinco anos. Ele continha um único contato criptografado. Uma tábua de salvação.
Cinco anos atrás, pouco antes de eu aceitar o trabalho com Caio Sampaio, este contato me ofereceu uma soma astronômica por uma missão diferente, uma que eu acabei recusando. Os detalhes eram vagos, o cliente anônimo, mas a oferta era um testemunho de imenso poder.
Encontrei o fio de mensagens criptografadas. Meus dedos, desajeitados e fracos, digitaram uma nova proposta.
`Preciso de uma identidade nova e não rastreável. O preço não é problema. Este é o meu pagamento.`
Apertei enviar.
A resposta foi instantânea, como se ele estivesse esperando.
`Vou te buscar em quinze dias.`
Ponto de Vista de Elisa Guimarães:
Os quinze dias foram uma descida a um tipo especial de inferno. Caio me mudou da clínica de volta para nossa cobertura, a gaiola dourada onde eu um dia acreditei ser feliz. Meu corpo era uma paisagem de dor, os pontos da histerectomia um lembrete constante e latejante do que ele havia roubado de mim. A dor fantasma de uma gravidez perdida era ainda pior, um luto que não tinha forma, nem voz.
Fabiana, claro, estava sempre presente. Ela havia se mudado para a cobertura, sua risada ecoando pelos corredores, seus perfumes caros pairando no ar como um miasma. Caio a mimava, cada ação sua uma torção da faca em minhas entranhas.
"Caio, querido", Fabiana arrulhou uma noite, jogando-se sobre seus ombros enquanto ele lia. "O torneio anual de polo da Fundação Sampaio é na próxima semana. Eu simplesmente preciso ir. E quero montar."
"Claro", disse Caio, sem levantar os olhos do livro. "Vou providenciar."
Os olhos de Fabiana, brilhando com malícia, me encontraram onde eu estava encolhida em um sofá, um cobertor de caxemira puxado até o queixo. "Elisa deveria ir também. Vai ser tão bom para ela tomar um ar fresco."
A ideia das multidões, dos sorrisos educados, do espetáculo público, fez meu estômago se contrair. "Não estou bem o suficiente", eu disse, minha voz mal um sussurro.
Caio finalmente olhou para mim, seu olhar frio. "Fabiana está certa. Você já está se lamentando há tempo demais. Você vai."
O dia do torneio de polo estava claro e frio. Os gramados bem cuidados do Helvetia Polo Club estavam repletos da elite de São Paulo, um mar de linho pastel e chapéus de abas largas. Eu me sentia como um fantasma assombrando uma festa, meu vestido escuro um contraste gritante com as cores vibrantes ao meu redor.
No meio da multidão, eu os vi. Os homens que haviam feito a aposta original. Eles estavam em um pequeno círculo sorridente, seus olhos me seguindo com diversão predatória. Um deles, um magnata imobiliário engomadinho chamado Marcos Tavares, veio em minha direção.
"Ora, ora, veja o que o gato trouxe", ele disse arrastado, seus olhos me percorrendo com desprezo. "Tenho que admitir, Guimarães. Você jogou o jogo longo. Mas parece que seu tempo acabou. Trocando você por um modelo mais novo, não é?"
Suas palavras foram um açoitamento público. Eu podia sentir os olhares, ouvir os sussurros. Fiquei ali parada, minhas mãos cerradas em punhos, a humilhação um peso físico me pressionando.
Fabiana, vestida com um impecável traje de montaria branco, parecia uma deusa. Ela se jogou em um magnífico garanhão preto, seus movimentos fluidos e confiantes. "Oh, Elisa", ela chamou, sua voz ecoando pelo campo. "Você não quer montar? Pedi para o Caio arranjar um cavalo só para você. Um bem mansinho."
Ela apontou para uma égua de aparência triste amarrada por perto.
"Eu não posso", eu disse, a memória da cirurgia uma nova pontada de dor. "Eu fiz... uma operação."
A testa de Fabiana se franziu em falsa preocupação antes de seus lábios se curvarem em um sorriso cruel. "Ah, é verdade. O procedimento. Que falta de jeito a minha esquecer. Bem, certamente um trotezinho não vai fazer mal."
Caio apareceu ao meu lado, sua mão agarrando meu braço. "Não seja difícil, Elisa. Fabiana se deu ao trabalho de arranjar. Suba no cavalo."
"Caio, eu não posso", implorei, minha voz quebrando. "O médico disse-"
"Eu estou mandando você subir no cavalo", ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. Seus dedos cravaram em meu braço, uma ameaça silenciosa.
Derrotada, permiti que um tratador me ajudasse a subir na égua. Cada movimento enviava um choque de agonia pelo meu abdômen. A multidão observava, uma mistura de pena e curiosidade mórbida em seus rostos.
Fabiana, enquanto isso, era uma visão de graça equestre. Ela galopava pelo campo, sua risada ecoando enquanto a multidão aplaudia. Caio a observava, seu rosto iluminado de orgulho e adoração. Ele jogou um beijo para ela, uma declaração pública de que eu era o passado e ela era o futuro.
Minhas próprias tentativas de montar foram um desastre desajeitado e doloroso. A égua era arisca e meu corpo estava fraco demais para controlá-la adequadamente. Tornei-me motivo de chacota, a esposa desgraçada lutando para acompanhar.
Em um ponto, a égua tropeçou, me jogando no chão. Caí com força de lado, um grito de dor escapando dos meus lábios. O impacto rasgou algo dentro de mim; uma agonia aguda e lancinante irrompeu na parte inferior do meu corpo.
Caio nem sequer olhou em minha direção. Ele estava muito ocupado parabenizando Fabiana por sua volta da vitória, envolvendo-a em um abraço apaixonado enquanto a multidão aplaudia.
Fiquei deitada na grama, o mundo girando, dor e humilhação me inundando em ondas. Ninguém veio ajudar. Eventualmente, arrastei-me para ficar de pé, meu vestido manchado de grama e sujeira, e manquei de volta para o clube, uma figura solitária e quebrada.
Quando pedi a um dos funcionários de Caio um kit de primeiros socorros, ele me olhou com desdém aberto. "O Sr. Sampaio está com a Sra. Valente. Ele deixou instruções para não ser perturbado."
O resto da noite foi um borrão de dor. Encontrei um canto deserto e me encolhi em uma cadeira, observando Caio e Fabiana na pista de dança, seus corpos pressionados, seus lábios sussurrando em seu ouvido. Mais tarde, vi uma foto deles em um blog de sociedade, postada apenas alguns minutos antes. A legenda dizia: "Amor Reunido: Caio Sampaio e Fabiana Valente, o casal que todos esperávamos."
Meu coração, que eu pensei que não poderia se quebrar mais, se estilhaçou em mil outros pedaços.
Ponto de Vista de Elisa Guimarães:
A imagem de Caio e Fabiana dançando, seus corpos siluetados contra as luzes cintilantes do clube de polo, estava gravada em meu cérebro. Passei a noite encarando o teto do meu quarto frio e vazio, a dor em meu abdômen um contraponto surdo e latejante à agonia aguda em meu peito. Cada tique-taque do relógio de pêndulo no corredor era um segundo mais perto da minha fuga.
Finalmente consegui mancar de volta para a cobertura nas primeiras horas da manhã, meu corpo gritando em protesto a cada passo. Eu só queria rastejar para a cama e deixar a escuridão me levar.
Caio estava na sala de estar, um copo de uísque na mão. Por um momento fugaz, um lampejo de preocupação cruzou seu rosto quando me viu entrar mancando, meu rosto pálido e abatido. "Você está bem?"
Antes que eu pudesse responder, a porta da suíte principal se abriu e Fabiana saiu furiosa, seu rosto uma máscara de fúria teatral. Ela segurava um pequeno e requintado anjo barroco de Aleijadinho, uma das peças de colecionador mais valiosas de Caio.
"Caio!", ela gritou, sua voz rachando com lágrimas fabricadas. "Sumiu! A pequena safira que ficava no topo - desapareceu!" Ela jogou a peça no tapete felpudo, o objeto delicado felizmente permanecendo intacto. "Era a peça favorita da minha mãe na sua coleção! Ela sempre dizia que a lembrava dos meus olhos."
Fabiana então apontou um dedo trêmulo para mim. "Foi ela! Eu a vi rondando a vitrine ontem! Ela está com ciúmes! Ela está tentando destruir tudo que eu amo!"
O breve momento de preocupação de Caio por mim evaporou. Ele correu para o lado de Fabiana, sua expressão endurecendo enquanto olhava para mim. "Elisa? Você pegou?"
"Claro que não", eu disse, minha voz cansada. "Fabiana, eu nem cheguei perto daquela vitrine."
"Mentirosa!", ela soluçou, enterrando o rosto no peito de Caio. "Ela me odeia, Caio. Ela odeia que você me ame."
Os braços de Caio envolveram Fabiana protetoramente. Ele olhou por cima da cabeça dela para mim, seus olhos cheios de suspeita e desprezo. Ele emitiu um novo decreto, sua voz tingida de gelo. "De agora em diante, você não deve tocar em nada nesta casa que pertença a mim ou a Fabiana. Você é uma convidada aqui, Elisa. Uma temporária. Você entende?"
As palavras me atingiram com a força de um golpe físico. Uma convidada. Na casa que eu compartilhei com ele por cinco anos. Na cama onde eu concebi seu filho.
Ele levou a ainda soluçante Fabiana de volta para o quarto deles, sussurrando palavras calmantes para ela, palavras que ele um dia sussurrou para mim.
Fabiana, no entanto, não havia terminado. Ela parou na porta, seus olhos, vermelhos de lágrimas de crocodilo, fixos em mim. "Caio, querido", ela choramingou. "Estou tão chateada, não consigo comer nada. Mas estou com desejo daqueles bolinhos de amêndoa da confeitaria do Fasano. Aqueles com as flores de marzipã."
Meu sangue gelou. Eu tenho uma alergia severa e fatal a amêndoas. Choque anafilático. Caio sabia disso melhor do que ninguém. Ele esteve lá uma vez, anos atrás, quando eu acidentalmente ingeri um traço e tive que ser levada às pressas para o pronto-socorro. Ele segurou minha mão o tempo todo, seu rosto pálido de medo.
"Claro, meu amor", disse Caio imediatamente. "Vou pedir para a cozinha prepará-los."
"Não", disse Fabiana, sua voz se tornando astuta. "Quero compartilhá-los com a Elisa. Como uma oferta de paz. É hora de enterrarmos a machadinha, não acha?" O olhar que ela me deu era puro veneno.
"Fabiana, isso não é uma boa ideia", eu disse, minha voz tremendo. "Caio, você sabe que eu não posso-"
"Ela está tentando fazer as pazes, Elisa", interrompeu Caio, seu tom afiado de irritação. "O mínimo que você pode fazer é aceitar o pedido de desculpas dela."
"Não é um pedido de desculpas, é uma sentença de morte!", gritei, o desespero arranhando minha garganta. "Eu sou alérgica, Caio! Perigosamente alérgica!"
Fabiana olhou para ele com olhos grandes e inocentes. "Alérgica? Oh, eu não tinha ideia. Ela está dizendo a verdade?"
A expressão de Caio era indecifrável. "É uma sensibilidade leve. Ela está sendo dramática." Ele se virou para mim, sua voz baixando para um comando baixo. "Você vai se sentar com a Fabiana, e você vai comer o bolo que ela te oferecer. Vamos pôr um fim a essa briga ridícula esta noite."
"Não", eu disse, recuando. "Você não pode me obrigar."
Ele deu um passo em minha direção, seu rosto uma nuvem de tempestade. "Eu posso e vou." Ele agarrou meu braço, seu aperto como um torno. "Não me faça te forçar, Elisa."
"Eu não vou fazer isso!", gritei, tentando me afastar.
Sua paciência se esgotou. Com um rugido gutural de frustração, ele torceu meu braço atrás das minhas costas e me empurrou em direção à mesa de jantar. Dois seguranças apareceram como que do nada, me segurando em uma cadeira.
Alguns minutos depois, um prato foi colocado diante de mim. Nele, um delicado bolo de amêndoa, seu cheiro doce e enjoativo enchendo o ar, um cheiro que para mim era o cheiro da morte. Fabiana sentou-se à minha frente, um sorriso triunfante no rosto.
Caio ficou atrás de mim. "Coma", ele ordenou.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto. "Por favor, Caio. Não faça isso."
Ele pegou um garfo, pegou um pedaço do bolo e o levou aos meus lábios. "Abra a boca."
Fechei a mandíbula com força, balançando a cabeça freneticamente. Ele praguejou baixinho e sinalizou para um dos guardas. O homem apertou meu nariz, forçando minha boca a se abrir para respirar. Naquele instante, Caio enfiou o bolo dentro.
Eu engasguei, gaguejei, tentando cuspir, mas ele apertou uma mão sobre minha boca, forçando-me a engolir.
A reação foi imediata e violenta. Minha garganta começou a fechar, o ar se transformando em fogo em meus pulmões. Minha pele irrompeu em urticárias vermelhas e raivosas. Arranhei meu pescoço, desesperada por ar, minha visão começando a embaçar nas bordas.
Através do rugido em meus ouvidos, eu podia ouvir a risada leve e tilintante de Fabiana. "Oh, céus", ela disse, fingindo preocupação. "Talvez ela não estivesse exagerando, afinal."
A última coisa que vi antes de desmaiar foi Caio, parado sobre mim, seu rosto não de preocupação ou pânico, mas de observação fria e clínica. Ele tinha um telefone no ouvido. "Sim, Dr. Evans. Parece que temos uma reação alérgica. Pode subir agora."
Ele havia planejado. Ele tinha o médico de prontidão. Ele queria ver por si mesmo. Ele queria provar um ponto.
E naquele momento, eu soube. Seu amor não havia apenas morrido. Havia se transformado em algo monstruoso.