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Das Cinzas ao Seu Abraço

Das Cinzas ao Seu Abraço

Autor:: Xia Qinnuan
Gênero: Romance
O cano frio de uma arma pressionado contra a minha cabeça. Eu tinha uma última ligação para salvar a minha vida, e escolhi ela: a minha Isa. Mas a mulher que atendeu era uma estranha. Quando eu disse que iam me matar, que o primo dela, Ricardo, tinha armado para mim, ela foi impaciente. "Não tenho tempo para isso", disse ela, a voz como gelo. "Ricardo e eu estamos finalizando os convites da nossa festa de noivado." Noivos. Com o mesmo homem que me queria morto. Implorei, lembrando-a da nossa vida juntos, da perda de memória causada pelo tratamento que a família dela a forçou a fazer. "Eu não tenho amnésia", ela retrucou. "Lembro de tudo que importa. Você é um mecânico de Ribeirão Preto. Eu sou uma herdeira. Vivemos em mundos diferentes." Ela me disse que amava Ricardo, que ele era seu igual e eu não era nada. O clique do telefone desligando foi mais alto que a arma engatilhando atrás de mim. Eu não tinha mais medo de morrer. A mulher que eu amava já tinha me matado. Assim que fechei os olhos, as portas do galpão se escancararam. Uma dúzia de figuras em ternos pretos desarmou meus captores em segundos. Uma mulher alta, em um terninho poderoso, saiu da luz. Ela me ofereceu uma proposta de negócios: um contrato de casamento. Em troca da minha assinatura, ela me daria proteção, recursos e uma fuga completa. Era a minha única saída.

Capítulo 1

O cano frio de uma arma pressionado contra a minha cabeça. Eu tinha uma última ligação para salvar a minha vida, e escolhi ela: a minha Isa.

Mas a mulher que atendeu era uma estranha. Quando eu disse que iam me matar, que o primo dela, Ricardo, tinha armado para mim, ela foi impaciente.

"Não tenho tempo para isso", disse ela, a voz como gelo. "Ricardo e eu estamos finalizando os convites da nossa festa de noivado."

Noivos. Com o mesmo homem que me queria morto. Implorei, lembrando-a da nossa vida juntos, da perda de memória causada pelo tratamento que a família dela a forçou a fazer.

"Eu não tenho amnésia", ela retrucou. "Lembro de tudo que importa. Você é um mecânico de Ribeirão Preto. Eu sou uma herdeira. Vivemos em mundos diferentes."

Ela me disse que amava Ricardo, que ele era seu igual e eu não era nada. O clique do telefone desligando foi mais alto que a arma engatilhando atrás de mim. Eu não tinha mais medo de morrer. A mulher que eu amava já tinha me matado.

Assim que fechei os olhos, as portas do galpão se escancararam. Uma dúzia de figuras em ternos pretos desarmou meus captores em segundos. Uma mulher alta, em um terninho poderoso, saiu da luz.

Ela me ofereceu uma proposta de negócios: um contrato de casamento. Em troca da minha assinatura, ela me daria proteção, recursos e uma fuga completa.

Era a minha única saída.

Capítulo 1

O cano frio de uma arma pressionava a nuca de Elias Almeida.

Dois homens enormes seguravam seus braços, com força suficiente para deixar marcas. Ele sentia o cheiro de cerveja barata e cigarro neles. Do lado de fora do galpão imundo, a chuva batia forte no telhado de zinco.

Ele tinha direito a um telefonema. Uma última chance. Seu polegar pairou sobre o nome do contato: Isa.

Ele apertou o botão de chamada.

O telefone tocou duas vezes antes de ela atender. A voz dela era fria, distante, nada parecida com o calor que ele se lembrava.

"O que você quer, Elias?"

"Isa, estou com problemas", disse ele, a voz tensa. "Eles vão me matar. Você tem que acreditar em mim. Foi o Ricardo que armou tudo isso."

Houve um silêncio do outro lado, preenchido apenas pelo som fraco de música clássica.

"Elias, você bebeu de novo? Estou cansada desses seus joguinhos."

"Não é um jogo", ele implorou, o coração afundando. "Por favor, só escuta-"

"Não tenho tempo para isso", Isadora Navarro o cortou. O tom dela era afiado, impaciente. "Estou ocupada. Ricardo e eu acabamos de finalizar os convites da nossa festa de noivado."

As palavras o atingiram com mais força que qualquer golpe físico. Noivos. Com o primo dela, Ricardo. O homem que havia destruído sistematicamente sua vida.

"Isa, não. Você não pode. Você me ama. Você me disse que amava."

"Amar você?" Uma risada seca e sem humor ecoou pelo telefone. "Elias, olhe para si mesmo. Você é um mecânico de uma cidade esquecida no interior de São Paulo. Eu sou uma herdeira. Vivemos em mundos diferentes. Pare com essas ilusões patéticas."

"Não é uma ilusão! Sua memória... o tratamento... você não se lembra de nós. Tínhamos uma vida juntos. Você prometeu que enfrentaríamos sua família juntos."

Ele se lembrou dela, encolhida em seu pequeno apartamento, apavorada com o julgamento da família, as mãos tremendo enquanto segurava as dele. "Você é minha âncora, Elias", ela sussurrara. "Com você, eu posso tudo."

"Eu não tenho amnésia", ela retrucou, a voz pingando desprezo. "Lembro de tudo que importa. E você não faz parte disso."

"Você está mentindo", ele sussurrou, uma lágrima finalmente escapando, traçando um caminho pela graxa em sua bochecha.

"Eu não sou mentirosa", disse ela, a voz se tornando venenosa. "Você é quem tem me perseguido, me assediado, usando essas histórias patéticas para tentar se aproximar de mim. Ricardo me avisou que você era instável."

Ele podia ouvir a convicção na voz dela. Ricardo tinha envenenado completamente sua mente.

"Eu amo o Ricardo", ela declarou, e cada palavra era um prego em seu caixão. "Ele é meu igual, meu parceiro. Ele me entende. Você não é nada."

Uma voz abafada falou ao fundo do lado dela. Uma secretária, talvez.

"Sra. Navarro, o buffet está na linha um."

"Diga para esperarem", ordenou Isadora. Então, sua voz voltou ao telefone, ainda mais fria do que antes. "Preciso ir. Estou escolhendo os arranjos de flores para a minha festa de noivado. Não me ligue mais. Se ligar, vou conseguir uma ordem de restrição."

A linha ficou muda.

O clique surdo ecoou no galpão silencioso.

Elias abaixou o telefone, a mão tremendo. Os homens que o seguravam riram.

Lágrimas escorriam por seu rosto agora, quentes e silenciosas. Ele não estava chorando porque ia morrer. Estava chorando porque a mulher que amava acabara de matá-lo.

Ele se lembrava dela antes de tudo isso. Antes de sua família forçá-la à terapia eletroconvulsiva experimental para sua ansiedade severa. Ela nem sempre fora esse monstro frio.

A Isadora que ele conhecia, sua Isa, era gentil. Ela o encontrara em sua pequena cidade no interior de São Paulo durante uma viagem pelo país, quando seu carro antigo quebrou. Ela estava se escondendo de sua vida sufocante na capital, de seus pais elitistas que a viam como um ativo de negócios.

Ele consertara o carro dela, e ela ficara. Ela amava a simplicidade da vida dele, a graxa sob suas unhas, a força silenciosa em suas mãos. Ele amava a vulnerabilidade dela, o jeito como ela se aninhava contra ele depois de um ataque de pânico, sentindo-se segura pela primeira vez.

Ela é que era a corajosa. Quando os investigadores particulares de sua família a encontraram, ela se postou na frente de Elias, protegendo-o com seu corpo pequeno.

"Ele é a minha vida", ela dissera a eles, a voz trêmula, mas firme. "Se vocês o machucarem, me matam."

Foi esse amor feroz que a fez concordar com a TEC. Seus pais prometeram que curaria sua ansiedade, que a tornaria forte o suficiente para enfrentá-los. Prometeram que não afetaria sua memória.

Todos eles mentiram.

Ela voltou do tratamento uma pessoa diferente. Uma lousa em branco. Seus olhos lindos e expressivos agora estavam vazios, frios. E Ricardo, seu primo ciumento, estava lá para escrever sua própria história naquela lousa.

Ele pintou Elias como um perseguidor de classe baixa, um predador que se aproveitara dela durante um momento de fraqueza. E ela acreditou nele. Toda a família Navarro acreditou nele.

Eles usaram seu dinheiro e poder para esmagá-lo. Fizeram com que fosse demitido de seu emprego, espalharam boatos que arruinaram sua reputação e garantiram que todas as portas se fechassem em sua cara. Amigos que ele tinha há anos viraram as costas para ele.

Agora, isso. Ricardo contratara esses bandidos para terminar o serviço.

Elias fechou os olhos, um sentimento de derrota o invadindo. Ele lutara por tanto tempo, agarrando-se à esperança de que a verdadeira Isa ainda estivesse lá em algum lugar.

Ele estava errado.

"Acabem logo com isso", disse ele, a voz um sussurro oco.

O homem atrás dele engatilhou a arma.

Elias não se mexeu. Apenas esperou. Tinha acabado.

De repente, as portas do galpão se escancararam, inundando o espaço escuro com faróis ofuscantes.

Uma dúzia de figuras em ternos pretos impecáveis invadiu o local, movendo-se com precisão disciplinada. Os dois bandidos que seguravam Elias foram desarmados e jogados no chão antes que pudessem reagir.

Elias piscou, desorientado.

Uma mulher saiu da luz. Ela era alta, vestida com um terninho poderoso que parecia mais caro que sua oficina inteira. Seu cabelo era cortado em um chanel severo e prático, e seus olhos eram aguçados, inteligentes e totalmente desprovidos de emoção.

"Elias Almeida?", ela perguntou. Sua voz era calma e imponente.

Elias assentiu, ainda tentando processar o que estava acontecendo.

"Meu nome é Beatriz Lobo", disse ela, estendendo a mão não para um aperto de mão, mas para exibir um documento. "Tenho uma proposta de negócios para você. Envolve um contrato de casamento."

Ela não esperou por uma resposta.

"O testamento do meu pai estipula que devo estar casada até o meu próximo aniversário para herdar o controle acionário de sua empresa. Você se encaixa nos critérios que ele delineou. Em troca de sua assinatura, fornecerei proteção, recursos financeiros e uma extração completa de suas circunstâncias atuais."

Elias a encarou, boquiaberto.

"Por que eu?", ele conseguiu perguntar.

"Você está vivo, é solteiro e não tem laços familiares poderosos que complicariam o arranjo. Para os meus propósitos, você é perfeito." O olhar dela era penetrante. "E, a julgar pela sua situação, você não tem ofertas melhores. Esta é sua única fuga."

Ela estava certa.

Sua vida estava em ruínas. Seu amor se fora. Sua esperança estava morta. Essa estranha, essa mulher poderosa e pragmática, estava lhe oferecendo uma tábua de salvação. Uma tábua de salvação fria e transacional, mas ainda assim uma tábua de salvação.

Ele olhou para os bandidos choramingando no chão, depois para o rosto impassível de Beatriz Lobo.

Não havia mais nada para ele aqui. Isa deixara isso claro.

Ele respirou fundo, trêmulo.

"Eu aceito."

Beatriz Lobo deu um leve, quase imperceptível, aceno de cabeça. "Bom. Minha equipe jurídica cuidará dos detalhes. Você estará em um jato particular para São Paulo dentro de uma hora."

Ela se virou para sair, seu trabalho ali terminado.

Enquanto era escoltado para fora, na chuva, em direção a um carro preto elegante, Elias se permitiu um último olhar para o galpão, para os destroços de sua antiga vida.

Ele pensou em Isadora, escolhendo flores para sua festa com Ricardo. Uma última e amarga lágrima se misturou com a chuva em seu rosto.

Seja feliz, Isa, ele pensou, as palavras uma prece silenciosa de despedida. Seja feliz com a vida que você escolheu.

Então ele entrou no carro e não olhou para trás.

Capítulo 2

A cobertura que Beatriz Lobo providenciou era um mundo à parte de seu pequeno apartamento em Ribeirão Preto. Era toda de vidro e aço, com vistas panorâmicas do horizonte de São Paulo. Parecia fria, estéril e vazia. Assim como ele.

Nos primeiros dias, Elias não fez nada. Apenas sentou-se em um sofá de couro branco, olhando para a cidade, enquanto a equipe de Beatriz cuidava dele silenciosamente. Um médico veio e tratou os hematomas e cortes do galpão. Um alfaiate tirou suas medidas para roupas novas. Um chef preparou refeições que ele mal tocou.

A própria Beatriz era um fantasma. Ele sabia que ela estava na cobertura, em seu escritório no segundo andar, mas nunca a via. Ela era uma presença que ele sentia, mas não podia ver, uma força silenciosa reorganizando sua vida à distância.

Uma noite, incapaz de dormir, ele saiu para o terraço. A cidade brilhava abaixo, uma galáxia de luzes. Ele sentiu uma profunda sensação de deslocamento, como se fosse um astronauta à deriva no espaço.

Ele os viu então. Do outro lado do parque, em outro imponente prédio de vidro, ficava a sede do Grupo Navarro. Uma luz estava acesa no escritório do último andar. O escritório de Isadora.

Ele mal conseguia distinguir duas figuras lá dentro, silhuetas contra a luz brilhante. Uma mulher e um homem. Eles estavam próximos, o braço do homem envolvendo a cintura da mulher. Ele viu o homem se inclinar e beijá-la.

Mesmo àquela distância, ele sabia. Eram Isadora e Ricardo.

A cena foi um golpe físico. Ele cambaleou para trás, a mão agarrando o peito como se para manter o coração unido. A dor foi aguda, imediata.

Ele fugiu de volta para dentro, a respiração saindo em arquejos irregulares.

Ele viu o rosto dela em sua mente, não a máscara fria e cruel que ela usava agora, mas o rosto de sua Isa. O sorriso dela, o jeito como seus olhos se iluminavam quando o viam, o jeito como ela se agarrava a ele como se ele fosse sua única âncora em uma tempestade.

"Você é a minha luz, Elias", ela sussurrara uma vez, o hálito quente em seu pescoço. "Sem você, estou perdida no escuro."

Agora ela estava com Ricardo, o mesmo homem que havia arquitetado sua escuridão.

"Eu morreria por você, Elias", ela jurara a ele, os olhos ferozes com um amor que ele acreditava ser inquebrável.

E, de certa forma, ela morrera. A Isa que ele amava estava morta. Beatriz Lobo lhe oferecera uma fuga, mas não havia como escapar das memórias. Elas eram parte dele, um membro fantasma que doía com uma dor que ninguém mais podia ver.

Ele cambaleou pela enorme cobertura até encontrar seu quarto. Sua velha mala de lona, a única coisa que ele tinha de sua vida anterior, estava no canto. Ele se ajoelhou e abriu o zíper. Dentro, sob algumas camisetas gastas, havia uma pequena caixa de madeira.

Ele a abriu. Estava cheia de cartas. Cartas que Isadora escrevera para ele durante o tempo que passaram juntos. A caligrafia dela era uma escrita delicada e floreada, cheia de vida e amor.

Ele pegou uma ao acaso.

Meu querido Elias,

Estou te observando trabalhar na oficina pela janela. Você não tem ideia de como é lindo quando está concentrado, com aquela pequena mancha de graxa no nariz. Eu te amo mais do que as palavras podem dizer. Você é o meu lar.

Para sempre sua,

Isa

Sua visão ficou turva. Ele não conseguia mais ler.

Isso era uma mentira. Tudo isso. A mulher que escreveu essas palavras se fora, substituída por uma estranha que o desprezava.

Ele tinha que deixá-la ir. Tinha que matar o fantasma que o assombrava.

Ele encontrou uma lixeira de metal pesada no canto do quarto. Levou-a para a pequena lareira ecológica. Uma por uma, ele pegou as cartas da caixa e as jogou na lixeira. Suas mãos tremiam. Cada carta era uma memória, um pedaço de seu coração.

Ele pegou um isqueiro, um Zippo simples que ela lhe dera de aniversário. Ele o abriu. A chama dançou na luz fraca.

Ele estava prestes a jogá-lo na lixeira quando o interfone na parede tocou.

Uma voz nítida e formal falou. "Sr. Almeida, minhas desculpas pela hora tardia. Há uma Sra. Isadora Navarro no saguão exigindo vê-lo. Ela está acompanhada pelo Sr. Ricardo Navarro. Eles estão causando um tumulto. As instruções da Sra. Lobo são para negar a entrada, mas a Sra. Navarro está ameaçando chamar a imprensa."

O sangue de Elias gelou. Ele caminhou até o interfone. "Não os deixe subir."

"Entendido, senhor. Nós vamos resolver... um momento." Houve uma pausa, um som abafado de comoção. A voz voltou, agitada. "Senhor, eles forçaram a passagem pela segurança do saguão. Estão no elevador. Repito, estão a caminho."

Um momento depois, a porta de seu apartamento foi escancarada. Não arrombada à força, mas destrancada por um cartão-chave que Ricardo segurava descaradamente no ar - uma chave mestra provavelmente roubada da mesa da segurança no caos. Ricardo Navarro estava lá, um sorriso presunçoso e triunfante no rosto. Isadora estava logo atrás dele, de braços cruzados, a expressão impaciente.

"O que temos aqui?", Ricardo arrastou as palavras, seus olhos fixos nas cartas na lixeira.

"Saiam", disse Elias, a voz baixa e perigosa.

Ricardo entrou no quarto, ignorando-o. "Queimando cartas de amor antigas? Que patético. Tentando destruir as provas da sua pequena e triste obsessão?"

Ele enfiou a mão na lixeira e pegou um punhado de cartas antes que Elias pudesse reagir.

"Vamos ver que tipo de baboseira você andou escrevendo para si mesmo." Os olhos de Ricardo percorreram a página, e seu sorriso se alargou. "Ah, isso é impagável. Tão sentimental. 'Meu querido Elias...' Você é mesmo um nojento."

Então seus olhos caíram no final da página. A assinatura. "Para sempre sua, Isa."

O rosto de Ricardo empalideceu. O sorriso desapareceu, substituído por uma expressão de puro choque e fúria.

"Onde você conseguiu isso?", ele sibilou, a voz tensa.

"Ela as escreveu para mim", disse Elias, a voz vazia. "Antes de você e os pais dela a destruírem."

O choque de Ricardo rapidamente se transformou em raiva. Ele amassou a carta na mão.

"Você é um mentiroso! Você forjou isso! Seu perseguidor doente e pervertido!" Ele se lançou sobre Elias, tentando pegar o resto das cartas.

Elias o empurrou para trás. "Saia da minha vida, Ricardo."

"Esta é a minha vida! A Isa é minha!", Ricardo gritou, seu verniz polido de playboy rachando para revelar o ciúme frenético por baixo. "Você não é nada! Um lixo da sarjeta!"

Ele insistia que as cartas eram falsificações, sua voz ficando mais alta, mais histérica. Ele era um animal encurralado, atacando em uma tentativa desesperada de proteger suas mentiras.

Capítulo 3

Elias já tinha tentado explicar antes. Tentara contar aos amigos de Isadora, aos pais dela, a qualquer um que quisesse ouvir. Contou-lhes sobre a vida deles em Ribeirão Preto, sobre as promessas que fizeram, sobre o amor que fora tão real.

Ninguém acreditou.

A família Navarro era poderosa. Eles haviam limpado o passado de Isadora. Os registros de seu colapso em Ribeirão Preto, os investigadores particulares que enviaram, o tempo que ela passou morando em seu pequeno apartamento - tudo se fora, enterrado sob uma montanha de dinheiro e influência. Para o mundo, ela simplesmente tirara um curto período sabático antes de retornar aos negócios da família, revigorada e pronta. Elias Almeida era um ninguém, uma nota de rodapé com a qual ninguém se importava.

"Olhe a caligrafia", disse Elias agora, a voz cansada. Ele ergueu uma das cartas. "Nem você pode negar que essa é a assinatura dela."

Os olhos de Ricardo se voltaram para a carta, um lampejo de incerteza neles. Mas desapareceu em um instante, substituído por um sorriso de escárnio.

"Fácil de forjar. Você teve muito tempo para praticar, não é? Olhando para as fotos dela, tentando copiar a caligrafia. É patético." Ele deu um passo mais perto, a voz baixando para um sussurro venenoso. "Você está tentando usar isso para chegar até ela, para seduzi-la. Não vai funcionar."

Foi a presença de Isadora na porta que deu a Ricardo a abertura de que precisava, e agora lhe dava sua plateia. Ele sabia que ela estava observando, ouvindo.

Ricardo congelou, os olhos arregalados de pânico. Ele olhou para as cartas em sua mão, depois para a lixeira cheia delas. Ele não podia deixá-la ver aquilo. Mesmo com a memória dela apagada, a caligrafia, o volume de cartas, poderia plantar uma semente de dúvida que ele não podia se permitir.

Em um movimento rápido e desesperado, ele se lançou em direção à lareira e enfiou as cartas que segurava na lixeira. Ele pegou o Zippo da mão de Elias e o jogou dentro. As cartas pegaram fogo instantaneamente.

Então, ele fez algo que Elias jamais esperaria. Ricardo soltou um grito e se jogou para trás, batendo em uma pequena mesa e derrubando um abajur. Ele caiu no chão em um amontoado.

A lixeira de metal tombou, derramando cartas em chamas e brasas incandescentes no tapete felpudo.

A porta se abriu ainda mais.

Isadora entrou correndo, os olhos arregalados de alarme. Ela viu o pequeno incêndio, o abajur derrubado e Ricardo no chão. Então ela viu Elias, de pé sobre ele.

Sem um momento de hesitação, ela empurrou Elias para o lado, o rosto uma máscara de fúria.

"Fique longe dele!", ela gritou.

Ela se ajoelhou ao lado de Ricardo, as mãos pairando sobre ele. "Ricardo, você está ferido? O que ele fez com você?"

Ricardo tossiu, encenando uma performance magistral de vítima. Ele apontou um dedo trêmulo para Elias.

"Isa... ele... ele me escreveu essas cartas de amor nojentas", ele engasgou, a voz cheia de repulsa fingida. "Ele tentou forçá-las em mim. Quando eu recusei, ele... ele ficou violento. Ele me empurrou e ateou fogo nelas para destruir as provas."

A cabeça de Isadora se virou bruscamente, seus olhos ardendo com um ódio tão puro que roubou o fôlego de Elias.

"Seu... monstro", ela cuspiu.

"Não foi isso que aconteceu", disse Elias, a voz rouca. "Ele está mentindo."

"Mentindo?" Isadora se levantou, o corpo inteiro tremendo de raiva. "Eu vi com meus próprios olhos! Você estava de pé sobre ele enquanto ele estava no chão!"

"Ele mesmo ateou o fogo!", insistiu Elias. "Ele estava tentando destruir as cartas que você me escreveu!"

Ricardo soltou um gemido de dor. "Isa, meu tornozelo... acho que quebrou. Ele me empurrou com tanta força."

"Está vendo?" A voz de Isadora estava cheia de uma certeza arrepiante. "Você é um ser humano violento e desprezível." Ela olhou para Elias como se ele fosse algo que ela tivesse raspado do sapato. "Primeiro você me persegue, e agora ataca meu noivo? Você é obcecado e perigoso."

Elias apenas a encarou, o coração se partindo em um milhão de pedaços. A mulher que ele amava, a mulher que ele protegera e cuidara, estava olhando para ele com os olhos de uma estranha, convencida de que ele era um vilão.

Sua própria dor, seu próprio sofrimento, não significavam nada para ela. A história fabricada de Ricardo era sua verdade absoluta.

Uma rajada de vento da porta aberta do terraço soprou pela sala. Agitou as cinzas na lareira, enviando um único pedaço de papel meio queimado flutuando pelo ar.

Pousou aos pés de Isadora.

Ela olhou para baixo, irritada. Por um segundo, seus olhos registraram a escrita familiar e floreada no papel carbonizado. Sua própria caligrafia. Um lampejo de confusão cruzou seu rosto, uma rachadura momentânea em sua armadura de certeza.

Ela escreveu aquilo? Parecia... familiar.

"Isa", Ricardo choramingou do chão, agarrando o tornozelo. "Está doendo."

A rachadura se fechou instantaneamente. Sua dúvida passageira foi esquecida. Ela a afastou, seu foco voltando para Ricardo, sua prioridade.

"Estou aqui", disse ela suavemente, virando as costas para Elias completamente. Ela ajudou Ricardo a se levantar, o braço envolvendo-o protetoramente. "Vamos levar você a um médico."

Ela o guiou para fora do quarto sem um único olhar para trás.

Elias foi deixado sozinho no meio da bagunça. O cheiro de fumaça, as cinzas espalhadas de suas memórias, o frio persistente do ódio dela.

Tinha acabado. Qualquer esperança a que ele se agarrara se fora, transformada em cinzas e pisoteada no tapete.

Ele tinha que sair. Tinha que aceitar o acordo da mulher estranha e poderosa que aparecera como um fantasma. Era sua única saída.

Ele saiu do quarto, deixando os últimos resquícios de seu passado para queimar.

No dia seguinte, uma equipe da empresa de Beatriz Lobo chegou. Eles trouxeram caixas. Dezenas delas. Estavam cheias de presentes para ele, disseram. Ternos feitos sob medida, sapatos italianos feitos à mão, uma coleção de relógios que provavelmente custava mais que sua cidade natal inteira.

Um homem educado e impecavelmente vestido, que se apresentou como o assistente de Beatriz, Sr. Monteiro, supervisionou a entrega. Atrás dele, dois consultores de segurança de rosto sério instalaram uma nova fechadura de alta tecnologia na porta de Elias.

"A Sra. Lobo insistiu que você tivesse isso", disse o Sr. Monteiro com uma reverência respeitosa. "Ela acredita que seu futuro marido não deve querer nada. Ela também envia suas profundas desculpas pela falha de segurança da noite passada. Não acontecerá novamente. Na verdade, ela nos instruiu a fornecer-lhe isto." Ele ofereceu a Elias um relógio de pulso elegante e pesado. "Ele contém um rastreador GPS discreto e um botão de pânico. Uma precaução necessária, dadas as circunstâncias."

Elias olhou para a montanha de artigos de luxo, sentindo-se completamente sobrecarregado. Ele era um homem que possuía dois pares de jeans e uma coleção de camisas de trabalho manchadas de graxa. Aquilo era uma língua estrangeira.

"Ela também queria que eu transmitisse suas desculpas por sua ausência", continuou o Sr. Monteiro. "Uma tentativa de aquisição hostil exige sua total atenção. No entanto, ela liberou sua agenda para o seu casamento."

Elias apenas assentiu, entorpecido, colocando o relógio no pulso.

Ele sabia que deveria estar grato. Aquela era sua salvação. Mas parecia que estava trocando uma jaula por outra, embora muito mais dourada.

Ele sentiu uma necessidade súbita de fazer algo, qualquer coisa, para sentir que ainda tinha algum controle sobre sua própria vida. Ele tinha que dar a ela um presente em troca. Era uma questão de princípio. Ele não podia ser apenas um homem sustentado.

"Sr. Monteiro", disse Elias, encontrando sua voz. "Preciso sair. Preciso comprar um presente para a Sra. Lobo."

O Sr. Monteiro pareceu momentaneamente surpreso, mas se recuperou rapidamente. "Claro, Sr. Almeida. O carro está à sua disposição."

Elias se viu em uma limusine, sendo levado pela Avenida Faria Lima. Ele pediu ao motorista para parar em frente a uma famosa e ridiculamente cara joalheria na Rua Oscar Freire. Ele saiu, suas roupas simples parecendo completamente deslocadas entre os casacos de pele e bolsas de grife.

Os vendedores lá dentro deram uma olhada em sua jaqueta e jeans gastos e imediatamente o descartaram. Eles cumprimentavam outros clientes com sorrisos servis, mas o ignoravam completamente, seus rostos frios de desdém.

Elias não se importou. Ele não estava lá por eles. Ele caminhou lentamente pelas vitrines de vidro, procurando por algo que parecesse certo para uma mulher como Beatriz Lobo. Algo poderoso, elegante, mas não chamativo.

Ele estava tão focado que não notou o grupo de jovens entrando na loja até que o cercaram. Ele os reconheceu instantaneamente. Eram os amigos de Ricardo, os mesmos que o haviam provocado do lado de fora do prédio de Isadora semanas atrás.

"Ora, ora, ora", um deles zombou. Seu nome era Rodrigo, um mauricinho com uma boca cruel. "Olha o que o lixo trouxe. Batendo perna na Oscar Freire, Almeida?"

"Deixem-me em paz", disse Elias, virando-se para ir embora.

Eles bloquearam seu caminho.

"Não tão rápido", disse outro, Gustavo, empurrando-o levemente. "Ouvimos dizer que você encostou no Ricardo. Não gostamos disso. Estamos aqui para te ensinar uma lição."

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