Deitada na cama do hospital, agarrei meu ventre vazio, as palavras do médico sobre o meu aborto ainda ecoando na minha mente como um pesadelo sem fim.
Liguei para o meu marido, desesperada por qualquer migalha de conforto, mas a voz dele soou irritada, quase agressiva.
"Alice, agora não", Érico retrucou, impaciente. "A cachorra da Babi está vomitando. A Babi está histérica. Pegue um táxi e pare de ser tão dramática."
Ele desligou na cara da esposa que acabara de perder o filho deles para consolar o Lulu da Pomerânia da amante.
Quando arrastei meu corpo quebrado para casa, ele não me abraçou. Ele me forçou a pedir desculpas para a cachorra.
Então veio o golpe final: assisti pela TV enquanto ele presenteava sua amante com todo o meu portfólio de fotografia, alegando ser trabalho dela, enquanto me entregava um frasco de perfume ao qual ele sabia que eu era mortalmente alérgica.
Destruída, fui a uma clínica radical para ter minhas memórias dele apagadas para sempre.
Mas o procedimento não me deixou em branco. Ele destrancou uma porta que eu nem sabia que existia.
Eu não era a órfã Alice Dias.
Eu era Alice Albuquerque, a herdeira bilionária desaparecida.
E eu cansei de pedir desculpas.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alice Dias:
O mundo entrou em foco, um caleidoscópio borrado de branco. Paredes brancas, lençóis brancos, o uniforme branco e engomado da enfermeira curvada sobre mim. Mas o branco mais gritante era o espaço vazio onde a esperança costumava habitar. As palavras do médico ecoaram, frias e clínicas, revirando minhas entranhas.
"Fizemos tudo o que podíamos, Sra. Dias."
Minha respiração falhou. "Meu bebê?" Não foi uma pergunta, mas uma súplica sufocada.
A enfermeira, uma mulher de olhos cansados e gentileza treinada, evitou meu olhar. Ela ajustou o soro, o tubo de plástico gelado contra meu braço. Um médico, jovem e insensível, deu um passo à frente. Sua voz era plana, desprovida de qualquer calor humano.
"A perda de sangue foi significativa, o trauma no abdômen muito severo. Ele era muito pequeno para sobreviver ao impacto. E dada a exposição prolongada à tempestade... nós o perdemos."
Perdemos. A palavra foi um golpe brutal, estilhaçando a casca frágil da minha realidade. Minha mão voou instintivamente para o meu estômago, agora uma paisagem plana e desolada. A pequena protuberância cheia de esperança, os chutes sutis que eu tinha acabado de começar a sentir... se foram. Simples assim. Uma lágrima escorreu pela minha têmpora, quente contra minha pele gelada.
"E seus ferimentos", continuou o médico, alheio à minha agonia. "A hemorragia interna está sob controle, mas as cicatrizes serão extensas. Você tem sorte de estar viva, Sra. Dias."
Sorte. A palavra tinha gosto de cinzas na minha boca. Virei o pescoço, vislumbrando meu reflexo na janela escura do hospital. Um rosto pálido e abatido me encarava de volta, olhos fundos, emoldurados por cabelos embaraçados. Uma mancha carmesim profunda aparecia sob a borda da minha camisola, um lembrete cruel do que eu havia perdido. Meu corpo inteiro doía, uma dor profunda e contundente que ia além do físico. Era uma dor oca, um vazio que ecoava o que havia dentro de mim.
O desespero, espesso e sufocante, envolveu-me. Eu estava sozinha aqui, total e tragicamente sozinha. O quarto estéril amplificava o silêncio, zombando dos gritos presos na minha garganta.
Então, meu celular vibrou na mesa de cabeceira, uma intrusão irritante. Eu me encolhi, minha mão tremendo enquanto a estendia para pegá-lo. A tela brilhou, exibindo o nome de Érico. A esperança cintilou, dolorosa. Ele estaria aqui. Ele me confortaria. Ele entenderia.
Apertei o botão de atender, minha voz um sussurro em carne viva. "Érico?"
A voz dele, geralmente tão suave e melódica, estava tensa de irritação. "Alice? Onde você está? O que está acontecendo? A Princesa, a cachorra da Babi, está com dor de barriga e a Babi está completamente histérica. Ela precisa de mim."
Meu coração, já fraturado, se partiu ainda mais. "Érico", tentei novamente, minha voz quase inaudível. "Eu sofri um acidente. A tempestade... eu perdi o bebê."
Um momento de silêncio. Não de choque, nem de luto, mas de aborrecimento. "O bebê? Alice, agora realmente não é hora para isso. A Princesa está vomitando e a Babi está chorando. Você sabe como ela é sensível." A voz dele ficou mais fria. "Olha, você só precisa ir para casa. A Babi diz que a Princesa precisa de silêncio. E ela quer que você peça desculpas por ter deixado a cachorra nervosa. Apenas... resolva isso."
Meu sangue gelou. Pedir desculpas? Por deixar uma cachorra nervosa? Enquanto eu estava deitada em uma cama de hospital, tendo acabado de perder nosso filho? O mundo inclinou.
"Érico, por favor", implorei, um lamento desesperado e infantil preso na garganta. "Estou no hospital. Estou ferida."
"Eu já te disse, Alice, a Babi precisa de mim agora. E, francamente, você é sempre tão dramática." O tom dele endureceu ainda mais. "Apenas vá para casa. E limpe qualquer bagunça que você tenha feito no caminho."
E então, um clique. Ele desligou. Simples assim. O telefone escorregou dos meus dedos dormentes, batendo suavemente contra a grade da cama. O sinal de linha ecoou no silêncio estéril. O choramingo de Babi, um som fraco e distante ao fundo da ligação dele, pareceu um golpe deliberado.
Meus olhos ardiam, mas não saíam mais lágrimas. Eu não sentia nada além de um vasto e aterrorizante vazio. Uma mão invisível apertava meu peito, espremendo os últimos vestígios de ar dos meus pulmões.
"Sra. Dias?", perguntou a enfermeira, com a voz tingida de preocupação. "Você está bem? Você parece muito pálida."
Eu a ignorei. Meu marido, o homem que eu amava, tinha acabado de desligar na minha cara. Ele escolheu uma cachorra em vez de seu filho morto, escolheu uma influenciadora manipuladora em vez de sua esposa ferida.
"Eu preciso ir", raspei, forçando-me a levantar, apesar da dor lancinante no meu abdômen.
A enfermeira correu para frente. "Sra. Dias, você não pode. Você acabou de passar por uma grande cirurgia. Precisa descansar."
"Eu preciso ir", repeti, minha voz mais forte agora, carregada de uma nova e gelada determinação. "Ele precisa que eu peça desculpas."
"Pedir desculpas?" A enfermeira parecia perplexa.
Balancei as pernas para fora da cama, o movimento enviando uma nova onda de agonia pelo meu corpo. Cerrei os dentes, ignorando a tontura, ignorando os protestos frenéticos da equipe médica. As palavras deles se transformaram em um zumbido indistinto. Meu corpo gritava, mas minha mente estava assustadoramente quieta.
Vesti as roupas que tinham deixado para mim - uma blusa larga e calça de moletom, rígidas de sangue seco. Cada movimento era uma batalha, mas lutei contra isso. Eu tinha que ir para casa. Eu tinha que pedir desculpas.
As portas do hospital se abriram, revelando o frio amargo da tempestade que ainda castigava a cidade. A chuva gelada açoitava meu rosto. O vento uivava, um choro lúgubre que combinava com o que estava preso dentro de mim. Meu corpo latejava, cada nervo gritando em protesto.
Manquei até o meio-fio, tremendo violentamente. Táxis eram escassos naquele tempo. Meu celular estava sem bateria. Eu não tinha dinheiro, nem casaco, apenas as roupas finas e o peso esmagador da indiferença de Érico. O pânico surgiu. Eu tinha que voltar. Ele estava esperando. Babi estava esperando. A Princesa estava esperando.
Um ônibus público passou roncando, expelindo fumaça. Fiz sinal, minha voz fraca, mas o motorista parou. Subi com dificuldade, segurando meu lado, a dor como uma faixa de fogo através do meu abdômen. O calor dentro do ônibus foi uma pequena misericórdia, mas não conseguiu descongelar o gelo que se espalhava pelas minhas veias.
A viagem foi interminável, cada solavanco do ônibus enviando novos choques de agonia. Fechei os olhos, tentando bloquear a dor, tentando bloquear a imagem do rosto de Érico, frio e indiferente.
Finalmente, cheguei ao nosso prédio. A fachada imponente, geralmente tão acolhedora, agora parecia pairar sobre mim, um juiz silencioso. Empurrei as portas pesadas, minhas pernas tremendo. O saguão estava quente, mas eu não sentia nada além de um frio profundo e penetrante.
Subi pelo elevador, o silêncio ensurdecedor. Cada andar que subia parecia mais um passo em direção a um abismo. Minha mão tremia enquanto digitava o código da nossa cobertura. A porta se abriu.
Érico estava lá, de pé na sala de estar, de costas para mim. Babi estava jogada no sofá, um lenço de seda impecável enrolado no pescoço, enxugando os olhos com um lenço de renda delicado. Princesa, uma Lulu da Pomerânia branca e fofa, estava sentada regiamente em seu colo, parecendo perfeitamente bem. A cena era perfeitamente encenada, um quadro de angústia fabricada.
"Érico", sussurrei, minha voz falha e crua. Estendi a mão, querendo tocá-lo, sentir alguma conexão, algum calor.
Ele se virou, os olhos se estreitando. "Você finalmente chegou." Não havia alívio em sua voz, apenas uma impaciência gelada.
Ele não se moveu em minha direção. Não perguntou se eu estava bem. Nem sequer notou a mancha de sangue nas minhas roupas ou a palidez do meu rosto. Ele apenas olhou, seu olhar frio, desprovido de qualquer reconhecimento da mulher que acabara de perder seu filho.
Minha mão caiu, inerte e inútil.
Ponto de Vista de Alice Dias:
Os olhos de Érico, desprovidos de calor, pousaram na minha mão estendida, depois se desviaram, me dispensando. A rejeição foi um golpe físico, um novo hematoma na minha alma já surrada. Tropecei, meu corpo ferido protestando, e quase caí. Foi Babi quem falou primeiro, sua voz carregada de uma preocupação doce e enjoativa.
"Oh, Alice, querida, você está com uma aparência horrível. Você está bem mesmo? A Princesa estava tão preocupada com você." Ela fez bico, sua mão perfeitamente manicurada acariciando a cabeça fofa da cachorra. Princesa, sentindo a deixa, soltou um latido minúsculo e agressivo, mostrando dentes em miniatura para mim.
Recuei, o latido cortando os restos frágeis da minha compostura. Então, tão rapidamente quanto começou, Princesa colocou o rabo entre as pernas e choramingou, enterrando a cabeça no peito de Babi, uma imagem de angústia inocente. Babi olhou para Érico, com os olhos arregalados e cheios de lágrimas.
"Oh, Érico, olha. A Alice chateou a Princesa. Ela é tão delicada."
O maxilar de Érico endureceu. Ele nem olhou para mim. Seu olhar estava fixo em Babi, em sua angústia fingida, na cachorra que ele parecia valorizar mais do que sua própria família.
"Alice", disse ele, sua voz um rosnado baixo. "O que eu te disse? Você sempre consegue chatear a Babi, ou a Princesa. Você não pode ser mais cuidadosa?"
Minha respiração falhou. "Cuidadosa?" Eu o encarei, minha visão embaçando. "Érico, olhe para mim. Eu acabei de sofrer um acidente de carro. Eu perdi nosso bebê. Estou sangrando." Gesticulei descontroladamente para a mancha nas minhas roupas, um apelo desesperado para que ele me visse.
Babi arfou dramaticamente, as mãos voando para a boca. "Ai, meu Deus! Alice, você está tentando chamar atenção? Você sabe como o estômago da Princesa é delicado. Ela já levou um susto tão grande."
Os olhos frios de Érico finalmente varreram meu corpo, demorando-se por uma fração de segundo no tecido ensanguentado. Então, sua boca se contorceu em desgosto. "Você está uma bagunça, Alice. Como sempre."
Ele caminhou em minha direção, não com preocupação, não com conforto, mas com uma raiva aterrorizante. Preparei-me, esperando uma palavra dura, um empurrão. Em vez disso, ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte, enviando um choque de dor pelo meu lado já dolorido.
"Você precisa pedir desculpas para a Babi", ordenou ele, a voz crua de fúria. "Agora. Por chatear a Princesa. E por fazer essa cena toda."
Minha mente girou. Pedir desculpas? Pelo quê? Por sangrar? Por perder um filho? Por existir? A amargura subiu na minha garganta, um gosto metálico. Eu podia sentir o ressentimento ardente borbulhando, misturado com uma sensação avassaladora de impotência. Lágrimas, quentes e furiosas, finalmente escorreram pelo meu rosto.
"Pedir desculpas?", engasguei, tentando soltar meu braço. "Érico, como você pode? Eu perdi nosso bebê. Nosso filho."
Babi soltou um soluço teatral. "Oh, Érico, ela é tão cruel! Ela sabe o quanto eu adoro a Princesa. E agora ela está tentando me fazer sentir mal pelo probleminha de estômago da Princesa!" Ela ergueu uma pequena caixa primorosamente embrulhada. "E olha o que ela fez com isso! Encontrei no chão lá embaixo. Meu novo colar de diamantes de edição limitada. Ela deve ter deixado cair na entrada, esperando quebrá-lo!"
Meu olhar caiu sobre a caixa. Era a mesma sobre a qual Érico falava há semanas, aquela que ele dizia ser cara demais, rara demais, para qualquer pessoa que não fosse "sua musa". Ele a tinha dado para Babi momentos antes de eu chegar. E agora, ela estava usando isso para me acusar.
"Não, eu não fiz isso", sussurrei, minha voz apenas um fio. "Eu encontrei. Eu guardei para proteger."
"Ah, Alice, não minta", fungou Babi, os olhos disparando para Érico. "Você está com ciúmes. Você sempre está."
"Alice", disse Érico, a voz perigosamente baixa. "Você vai pedir desculpas. Você vai parar de mentir. E você vai parar de causar problemas. Você entendeu?"
Balancei a cabeça, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Érico, por favor. Confie em mim. Não foi isso que aconteceu. Estou ferida. Preciso da sua ajuda." Olhei nos olhos dele, procurando um lampejo do homem que conheci um dia, o homem que me salvou, o homem a quem jurei minha vida.
Ele deu um passo mais perto, e meu coração inexplicavelmente disparou. Ele estava vindo até mim. Ele veria. Ele acreditaria em mim.
Mas então, sua mão disparou, não para confortar, mas para empurrar. Ele me empurrou com força, me fazendo cair para trás. O impacto enviou uma nova agonia lancinante pelo meu abdômen. Gritei, dobrando-me, minhas mãos agarrando meu lado ferido.
"Peça desculpas!", ele rugiu, o rosto contorcido em uma máscara de fúria. "Peça desculpas para a Babi agora mesmo, ou você vai se arrepender!"
Desabei no chão, ofegante, a dor um fogo branco e cegante. Através da névoa, ouvi a risadinha triunfante de Babi.
"Eu... eu não consigo", sussurrei, as palavras mal escapando dos meus lábios. Minha visão afunilou. A sala girou. Tudo o que eu conseguia sentir era a queimação no meu estômago, a dor vazia no meu útero e o peso esmagador da traição de Érico.
"Você vai, Alice", ele rosnou, curvando-se, o rosto uma máscara aterrorizante. "Você vai pedir desculpas por chatear a Princesa, e chatear a Babi, e fazer essa noite inteira ser sobre você."
Ele tinha esquecido. Ele tinha esquecido o bebê. Ele tinha esquecido de mim. Ele tinha esquecido tudo, exceto sua preciosa Babi e sua cachorra mimada.
A compreensão me atingiu com a força de um golpe físico. Isso não era um mal-entendido. Isso não era um dia ruim. Esse não era o homem que eu amava, perdido para o estresse ou a ambição. Esse era o Érico. E ele sempre tinha sido cruel assim, egoísta assim. Eu apenas tinha sido cega demais, desesperada demais para ver. Ele nunca me amou de verdade. Ele só amava o que eu podia fazer por ele.
Uma calma fria e aterrorizante se instalou sobre mim. As lágrimas pararam. A dor, embora ainda intensa, parecia distante. Um interruptor virou dentro de mim. Eu tinha dado tudo a ele. Minha vida, meus talentos, meu próprio eu. E ele tinha esmagado tudo, pedaço por pedaço, sob o calcanhar de sua indiferença.
"Sinto muito", raspei, as palavras com gosto de veneno. "Sinto muito, Babi. Por chatear a Princesa. E por tudo." Cada palavra era um pequeno pedaço da minha alma, quebrando e caindo no abismo.
Babi sorriu radiante, um sorriso vitorioso no rosto. Érico se endireitou, um olhar de satisfação sombria em suas feições. Ele não ofereceu a mão para me ajudar a levantar. Ele nem olhou para mim novamente. Ele apenas se virou para Babi, acariciando o cabelo dela, sussurrando garantias.
Fiquei deitada lá por um longo momento, o chão de mármore frio contra minha bochecha. O lustre cintilante acima parecia zombar de mim, seu brilho destacando a realidade nua e crua da minha humilhação. Minha percepção da realidade borrou nas bordas. Essa não podia ser minha vida. Esse não podia ser o homem a quem eu tinha dado tudo.
Um pensamento, um pensamento desesperado e aterrorizante, floresceu no deserto da minha mente. E se eu pudesse apenas... apagar tudo? Apagar ele? Apagar a dor? As memórias, o amor, a traição. Tudo isso.
Eu tinha ouvido sussurros sobre uma terapia neurológica radical. Um último recurso para aqueles assombrados por traumas indizíveis. Uma chance de limpar a lousa.
Eu precisava esquecer Érico. Cada memória.
Ponto de Vista de Alice Dias:
O médico sentou-se à minha frente, sua expressão séria, quase simpática. Dr. Elias Viana, um homem renomado por suas terapias controversas e de ponta. Ele segurava uma varredura holográfica do meu cérebro, uma nebulosa rodopiante de dados.
"Sra. Dias", começou ele, com a voz calma, "preciso confirmar sua decisão. Este procedimento é irreversível. O apagamento de memória não é como deletar arquivos de um computador. É... profundo. Você tem certeza absoluta de que quer prosseguir?"
Olhei para ele, depois para a imagem rodopiante da minha própria mente. Minha mente, uma prisão de dor. "Tenho certeza", disse eu, minha voz plana, vazia de emoção.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos. "Só realizamos isso em pacientes com TEPT extremo e debilitante, onde a terapia tradicional falhou. É um último recurso." Ele fez uma pausa, o olhar suavizando. "Você é jovem. Seu cérebro ainda é notavelmente neuroplástico. Há uma chance... uma pequena chance, de que este procedimento possa ter efeitos colaterais imprevistos. Que ele possa até desbloquear caminhos adormecidos."
Eu apenas balancei a cabeça. "Eu não me importo. Preciso esquecê-lo. Tudo isso."
Os olhos dele demoraram nos meus. "Você mencionou que foi encontrada há cinco anos, após um acidente. Amnésia."
"Sim", confirmei, um eco distante de um passado esquecido se agitando dentro de mim. Parecia outra vida. Fui encontrada em uma praia, machucada e ferida, sem nenhuma lembrança de quem eu era ou de onde vinha. Érico Alencar, um pianista em dificuldades na época, me descobriu. Ele foi gentil, doce, e me acolheu. Ele me deu o nome de Alice Dias. Parecia um novo começo.
"Ele foi meu salvador", continuei, as palavras uma dor surda. "Meu cavaleiro. Ele me ensinou tudo. Como viver de novo. Como amar."
Nossos primeiros dias foram um borrão de sonhos compartilhados e intimidade silenciosa. Passávamos horas em seu apartamento pequeno e bagunçado, eu desenhando as mãos dele enquanto ele tocava, ele compondo melodias que fluíam de sua alma. Ele cozinhava refeições simples, e eu limpava seu pequeno espaço, fazendo com que parecesse um lar. Éramos uma equipe, uma unidade contra o mundo. Ele era meu mundo.
"Tornei-me a fotógrafa dele", expliquei, um fantasma de sorriso tocando meus lábios. "Capturei a essência dele, a paixão dele. As capas dos álbuns, as fotos promocionais... eram todas obra minha. Ele era o artista, eu era sua musa silenciosa, sua maior apoiadora."
O público o adorava. Chamavam-no de "Príncipe do Piano", cativados por seu talento e pela história romântica da mulher misteriosa ao seu lado. Eles nunca souberam meu nome. Nunca souberam da minha contribuição. E por muito tempo, eu não me importei. O sucesso dele era o meu sucesso. A felicidade dele era a minha.
"Lembro-me de uma vez", contei, uma dor aguda perfurando a névoa, "ele estava praticando até tarde e se esforçou demais. Ele desmaiou. Chamei uma ambulância, frenética. Ele estava com tanto medo. Ficava murmurando sobre as mãos, suas mãos preciosas. Elas estavam seguradas por milhões, mesmo naquela época."
O Dr. Viana ouvia pacientemente.
"Ele segurou minha mão com tanta força na ambulância", continuei, um tremor na voz. "Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, e disse: 'Alice, você é minha âncora. Meu tudo. Não consigo fazer isso sem você.' Ele me prometeu o para sempre. Prometeu que sempre me protegeria."
Eu acreditei nele. Com cada fibra do meu ser, eu acreditei nele. Construiríamos uma vida juntos, uma sinfonia linda e harmoniosa.
Mas então, os aplausos ficaram mais altos. Os palcos ficaram maiores. O dinheiro entrou. E Érico mudou.
O ponto de virada foi sutil, uma mudança gradual. Ele começou a passar mais tempo fora, a "negócios". Ficou distante, distraído. Dizia que era a pressão, as exigências da fama. Eu aceitei. Eu sempre aceitava.
Então veio a noite da tempestade. O acidente de carro. Minha ligação desesperada para Érico, minha voz tremendo, contando a ele sobre o acidente, sobre o bebê.
O bebê. Mesmo agora, uma dor fantasma se instalou no meu útero.
"Ele atendeu", disse ao Dr. Viana, minha voz um sussurro oco. "Mas ele não estava sozinho. Ouvi uma voz suave e ronronante ao fundo, uma risadinha. Era a Babi. Ouvi ela dizer: 'Ah, Érico, sua esposa é tão dramática. Diga a ela que a Princesa precisa mais de você.'"
Meu sangue gelou naquele momento. Ele deu uma desculpa, uma desculpa esfarrapada, sobre estar preso no trânsito. Mas eu sabia. Eu tinha aquela sensação nauseante no estômago.
Mais tarde, da minha cama de hospital, eu pesquisei. A rede social privada dele, aquela que ele dizia ser apenas para "amigos próximos e família". Ele tinha postado uma foto de um jantar à luz de velas, brindando com champanhe com a Babi. A legenda dizia: "Celebrando com minha verdadeira musa. A inspiração por trás de tudo."
Quando ele finalmente me ligou de volta, horas depois, parecia cansado, irritado. "Alice, você está exagerando. A Babi é apenas uma colega. Estávamos discutindo um novo projeto. Você sabe como minha imagem é importante. Você não pode simplesmente me acusar." A voz dele estava carregada de uma condescendência que fez minha pele arrepiar. "E o que é isso sobre um bebê? Você sabe que concordamos em esperar."
Lembrei-me de forçar um sorriso, fingindo acreditar nas mentiras dele. Fingindo não ouvir a inflexão sutil na voz dele, a maneira como ela se elevava quando ele falava o nome dela, a possessividade que nunca esteve lá para mim. Mas uma parte de mim, uma parte pequena e teimosa, sabia a verdade.
"Eu só precisava saber", eu tinha dito, minha voz tremendo, "que você ainda está aqui. Que estamos bem."
Ele suspirou, um som de profunda exasperação. "Claro, Alice. Sempre." As palavras eram ocas, ecoando no espaço vazio entre nós.
Agora, sentada no consultório do Dr. Viana, a memória parecia uma ferida aberta. Ele nunca tinha sido verdadeiramente meu. Ele tinha sido uma miragem, um truque cruel de uma memória danificada.
"Eu quero que suma", repeti, meu olhar fixo na varredura do meu cérebro. "Cada memória dele. Cada toque, cada palavra, cada mentira. Quero tudo apagado."
O Dr. Viana assentiu lentamente. "Entendido. O procedimento está agendado para a próxima terça-feira. Você... quer uma última memória? Um último gesto antes?"
Um último gesto. Um adeus final a uma vida que nunca tinha sido verdadeiramente minha. Fechei os olhos, imaginando a cobertura, o piano, os cantos silenciosos onde eu tinha encontrado consolo.
"Sim", disse finalmente, "acho que sim."
O Dr. Viana confirmou os arranjos. "Tudo bem, Sra. Dias. Terça-feira, então. Descanse."