Liana, a mulher que sacrificou cada sonho pela família Alencar e pelo marido Heitor, esperava-o no décimo aniversário de casamento. A casa, impregnada com o aroma do seu prato favorito, moqueca. Eu era a imagem da esposa perfeita, vestida no seda que ele me deu, à espera da noite ideal.
Mas a mentira chegou com um telefonema: "Emergência com distribuidores internacionais. Não vou conseguir chegar para o jantar." Momentos depois, a televisão: Heitor, com o nosso filho Tiago, aplaudindo Isabella, a nova estrela da Bossa Nova que acabara de ganhar o prémio. A traição que eu suspeitava há meses, confirmada em rede nacional. Não só a amante, mas também o filho deles? E depois, a Isabella a confrontar-me, a gabar-se da sua gravidez e de que me iria substituir, com a aprovação silenciosa de toda a família dele.
'Mamã, porque é que o papá disse que a tia Bella é a nova rainha da casa?', Tiago perguntou. 'Ela disse que o Liana parecia uma peça de museu. Bonita, mas fria. Sem vida. Ele está farto dela.' Ele disse isso sobre mim, a mulher que lhe deu a vida, a herança, tudo. A dor era física, roubando-me o ar. Mas as lágrimas não vieram. Em vez disso, uma frieza gelada assaltou-me.
Como pude ser tão cega, tão ingénua? Não haveria divórcio escandaloso. Nem brigas públicas. Não, eu iria desaparecer. Lembrei-me do segredo da minha avó: uma conta secreta, um fundo de emergência. A pesquisa foi rápida: 'Agência Fênix'. 'Eu quero morrer', anunciei. 'Quero que seja um acidente de carro. Na Rodovia dos Imigrantes. E que o meu marido, Heitor, seja o motorista que o provoca.' A minha nova vida começava em Lisboa. A minha vingança também.
O ar da casa estava impregnado com o aroma de moqueca, o prato favorito de Heitor.
Na mesa de jantar, duas taças de cristal refletiam a luz suave das velas, ao lado de uma garrafa da nossa cachaça mais premiada, a "Herança".
Hoje era o nosso décimo aniversário de casamento.
Eu vestia um vestido de seda que ele me deu, o cabelo preso num coque elegante, exatamente como ele gostava.
Eu era Liana, a imagem da Cachaçaria Alencar, a herdeira que carregava o peso de gerações.
Para o mundo, eu era a esposa perfeita do CEO perfeito, Heitor. Uma mulher de negócios bem-sucedida, elegante, o pilar de uma tradição familiar.
Mas a verdade era outra.
Abandonei os meus sonhos para que os dele pudessem florescer. Acreditei no conto de fadas, e ele construiu o seu império sobre os meus sacrifícios.
O meu telemóvel tocou. Era ele.
"Liana, meu amor, peço desculpa. Aconteceu uma emergência com os distribuidores internacionais. Não vou conseguir chegar para o jantar."
A voz dele era suave, cheia de um falso arrependimento que eu já conhecia bem.
"Está tudo bem, querido. O trabalho primeiro."
Menti.
Desliguei a chamada e o silêncio da casa tornou-se ensurdecedor.
Sentei-me no sofá, a comida a arrefecer na mesa. Liguei a televisão sem pensar, apenas para preencher o vazio.
Era a transmissão ao vivo do Prêmio da Música Brasileira.
E então, eu vi.
A câmara passeou pela plateia. No fundo do palco, vi o meu marido, Heitor.
Ao lado dele, o nosso filho de seis anos, Tiago.
Ambos aplaudiam, com os rostos iluminados por uma alegria pura, eufórica.
Aplaudiam Isabella, a nova estrela da Bossa Nova, que acabava de ganhar o prêmio de "Artista Revelação".
Heitor não estava numa reunião de emergência.
Ele estava lá, com o nosso filho, a celebrar a vitória da sua amante.
A traição, que eu suspeitava há meses, foi confirmada. Não com uma mensagem suspeita ou uma mancha de batom. Mas na tela da televisão, para todo o Brasil ver.
O meu mundo, construído com tanto cuidado, desabou.
A dor foi física, uma pressão no peito que me roubou o ar. Mas as lágrimas não vieram.
Em vez de dor, uma frieza tomou conta de mim.
Não haveria divórcio escandaloso. Não haveria brigas públicas nem partilha de bens.
Eu ia desaparecer.
Lembrei-me do segredo da minha avó. Uma conta bancária secreta, um fundo de emergência substancial. "Para o dia em que precisares de começar de novo, minha neta", ela disse-me antes de morrer.
Esse dia tinha chegado.
Peguei no meu computador portátil. A pesquisa foi rápida.
"Agência Fênix."
Um serviço clandestino, exclusivo para a elite. Eles não ajudavam pessoas a fugir. Eles simulavam mortes.
O e-mail que enviei foi curto e direto.
"Preciso dos vossos serviços. Tenho os recursos necessários."
A resposta chegou em minutos. Uma videochamada foi agendada para a manhã seguinte.
O homem na tela era discreto, profissional. O seu nome era apenas "O Gestor".
"Senhora Alencar. Em que podemos ajudá-la?"
"Eu quero morrer."
Ele não pestanejou.
"Compreendo. Temos vários pacotes. Afogamento, desaparecimento em alto mar, overdose acidental..."
"Não", interrompi. "Eu tenho uma exigência específica."
Ele ouviu, em silêncio.
"Quero que seja um acidente de carro. Na Rodovia dos Imigrantes. E quero que o meu marido, Heitor, seja o motorista que o provoca."
Pela primeira vez, vi um vislumbre de surpresa nos olhos do Gestor.
"Isso é... invulgarmente específico. E complexo. Aumenta o custo consideravelmente."
"O dinheiro não é problema."
Abri a aplicação do banco no meu telemóvel e mostrei-lhe o saldo da conta da minha avó.
Ele acenou com a cabeça, satisfeito.
"Considera-o feito. A sua nova vida começa dentro de uma semana."
Desliguei a chamada e olhei pela janela. A fachada de mulher de negócios bem-sucedida tinha rachado, revelando algo que nem eu sabia que existia.
Uma mulher disposta a tudo para se libertar.
Lembrei-me do início. Heitor, jovem e ambicioso, a cortejar-me não só a mim, mas à minha herança. As suas promessas de amor eterno, os seus planos para expandir a cachaçaria.
"Juntos, Liana, vamos levar o nome da tua família ao mundo."
E eu acreditei.
Dei-lhe o controlo das finanças, da expansão. Fiquei com a imagem pública, o rosto sorridente em revistas, a guardiã da tradição.
Sacrifiquei a minha ambição de ser uma mestre destiladora, de criar as minhas próprias cachaças, para ser o seu pilar.
A felicidade do passado era agora uma memória amarga.
A prova da traição estava em todo o lado, agora que os meus olhos estavam abertos. As viagens de negócios "de última hora". Os telefonemas secretos. O perfume dela no carro dele.
A minha dor transformou-se numa determinação gelada.
Comecei a esvaziar a nossa casa. Não de forma óbvia.
Comecei a doar peças históricas da família para o Museu da Cachaça. Peças que Heitor adorava exibir.
Primeiro, o alambique de cobre original do meu bisavô.
Depois, as primeiras garrafas rotuladas à mão.
Por fim, o diário do fundador, o meu tataravô. A alma da nossa história.
Heitor e Tiago voltaram para casa na manhã seguinte. Heitor trazia um presente de "desculpas".
Uma caixa de veludo. Dentro, uma palheta de guitarra rara.
"Para a minha guitarrista favorita", disse ele, sorrindo.
Eu não tocava guitarra há dez anos.
Sabia que aquele presente era para Isabella. Provavelmente, ela rejeitou-o.
"Obrigada, querido. É lindo."
A minha voz era calma, vazia.
Eles notaram a casa mais vazia. As paredes nuas onde antes estavam os quadros dos antepassados.
"Liana, onde está o retrato do teu avô?", perguntou Heitor, a sua voz tensa.
"Doei-o ao museu. É o seu lugar de direito, não achas? A história deve ser partilhada."
Ele olhou para mim, confuso, tentando decifrar a minha nova atitude.
"Mas... podias ter-me dito."
"Foi uma decisão de momento."
Virei-lhe as costas e fui para a cozinha. Ele tentou manipular Tiago.
"Olha, filho, a mamã está a fazer uma grande limpeza de primavera! Para termos mais espaço para brincar!"
Tiago, inocente, sorriu.
"A mamã está a deitar fora as coisas velhas?"
"Exatamente", respondi da cozinha, a minha voz fria. "É hora de nos livrarmos do que já não serve."
Heitor ficou pálido. Ele sentiu a ameaça nas minhas palavras, mas não conseguia entender.
Ele tentou abraçar-me, um gesto para restaurar a normalidade.
Afastei-me.
"Estou cansada. Vou deitar-me."
No quarto, o meu telemóvel vibrou. Um áudio de um número desconhecido.
Era Isabella.
Ela cantava uma nova canção, a sua voz suave e provocadora. E ao fundo, a voz de Heitor.
"És a minha musa, Isabella. A minha única musa."
A dor voltou, aguda e profunda.
Lembrei-me das nossas noites no início, quando ele me chamava de sua musa, quando as suas mãos percorriam o meu corpo com um desejo que eu pensava ser amor.
O áudio continuou.
"Ele diz que a Liana parece uma peça de museu. Bonita, mas fria. Sem vida. Ele está farto dela."
A minha mão tremeu. Eu era uma peça de museu? Eu, que lhe dei a minha vida, a minha herança, o meu corpo?
A ilusão estilhaçou-se completamente.
Eu não era a sua esposa. Era um obstáculo.
Heitor entrou no quarto, sorrindo.
"Estás a sentir-te melhor, meu amor?"
Ele tentou beijar-me.
Ele ainda tinha o cheiro do perfume dela.
Ele trocava mensagens com ela debaixo do mesmo teto onde eu dormia.
Ele saía a meio da noite, dizendo que ia resolver problemas na destilaria.
Mas era para os braços dela que ele corria.
Naquela noite, Tiago veio ter comigo, os seus olhos sonolentos.
"Mamã, porque é que o papá disse que a tia Bella é a nova rainha da casa?"
O mundo parou.
A inocência do meu filho foi a faca final.
"O que mais disse ele, meu amor?"
"Disse que em breve a tia Bella vai morar connosco e que vamos ser uma família muito mais divertida."
A dor foi tão intensa que me curvei, como se tivesse levado um soco.
Levantei-me e fui para o quarto de hóspedes.
Tranquei a porta.
Deitei-me na cama e olhei para o teto.
A traição não era apenas de Heitor. Era de todos.
E a minha vingança também seria para todos.
No dia seguinte, agi como se nada tivesse acontecido.
Ignorei os olhares confusos de Heitor, as suas tentativas de conversa.
Às dez da manhã, recebi um e-mail encriptado.
"Agência Fênix. Confirmação de pagamento recebida. O veículo duplicado e a 'duplicata biológica' estão em preparação. A sua nova identidade e documentos de viagem estarão prontos em 48 horas."
Respondi com uma única frase.
"Obrigada pela vossa eficiência."
Fui ao cofre do escritório e retirei a minha pulseira de esmeraldas. A primeira joia que Heitor me deu.
"Para que te lembres sempre que és a minha rainha", disse ele na altura.
Coloquei-a numa pequena caixa e enviei-a por um mensageiro para o escritório da Agência Fênix.
Era a peça final do puzzle. A "duplicata biológica" usaria a pulseira no momento do "acidente".
Enquanto almoçava sozinha num pequeno café, ouvi duas mulheres na mesa ao lado.
"Viste a Liana Alencar na revista? Parece tão triste. Ter tudo não significa ter felicidade."
"Dizem que o marido tem um caso com aquela cantora, a Isabella."
Sorri para o meu café. Eles não sabiam de nada.
O amor, pensei, era como uma cachaça mal envelhecida. Começa com fogo, mas se não for cuidado, torna-se amargo e intragável.
O destino, contudo, tem um sentido de humor perverso.
Naquela tarde, fui a um leilão de antiguidades. Estava à procura de uma peça específica para a minha nova vida em Lisboa.
E lá estavam eles.
Heitor, Isabella e Tiago. Uma família feliz em público.
Isabella viu-me primeiro. O seu sorriso era de puro triunfo.
Ela aproximou-se, segurando a mão de Tiago.
"Liana, que coincidência! Viemos ver umas peças para a nossa nova casa."
A nossa.
Heitor apressou-se, o pânico nos seus olhos.
"Bella, não incomodes a Liana."
"Não estou a incomodar, querido. Estamos apenas a conversar, como uma família."
Tiago olhou para mim, os seus olhos cheios de confusão.
"Mamã, a tia Bella disse que tu vais fazer uma viagem muito longa."
"É verdade, meu amor. A mamã precisa de descansar."
A minha voz era serena. Por dentro, o meu coração estava a ser esmagado.
Heitor tentou pegar no meu braço.
"Liana, vamos conversar."
Afastei-me.
"Não temos nada para conversar."
O leilão começou. E então, vi-o.
Um magnífico alambique de cobre do século XIX. Pertenceu ao meu avô. A família vendeu-o numa época de dificuldades, muito antes de eu nascer.
Era a peça que faltava na coleção do museu.
Levantei a minha placa.
Isabella sussurrou algo ao ouvido de Heitor. Ele levantou a sua placa.
Começou uma guerra de lances entre o meu marido e eu.
O preço subiu.
Isabella, frustrada, puxou o braço de Heitor.
"Deixa-a ficar com o raio do alambique! É um pedaço de lixo velho!"
"Cala-te, Isabella!", sibilou Heitor.
Tiago começou a chorar.
"Eu quero o alambique para a mamã!"
O meu coração partiu-se um pouco mais.
"Eu quero-o", disse eu, a minha voz firme, olhando diretamente para Heitor.
Ele hesitou, depois baixou a sua placa.
"Vendido à senhora Alencar!"
Arrematei o alambique. Heitor repreendeu Isabella e Tiago em voz baixa.
Depois, ele seguiu-a para fora da sala de leilões.
A curiosidade, ou talvez a necessidade de mais uma prova, fez-me segui-los.
Encontrei-os numa sala vazia.
Eles estavam a beijar-se, as mãos de Heitor por todo o corpo dela.
"Porque é que a deixaste ganhar?", exigiu Isabella, ofegante.
"Eu preciso de a manter calma por mais uns tempos, Bella. O lançamento da nova cachaça é na próxima semana. Depois disso, ela é história."
"Prometes? Divórcio?"
"Prometo. Tu e o nosso filho serão a minha única família."
Nosso filho.
Ela estava grávida.
A dor foi tão avassaladora que tive de me apoiar na parede para não cair.
Fugi dali, o som das suas promessas a ecoar nos meus ouvidos.
Cheguei a casa e fui direta para o chuveiro. Deixei a água quente cair sobre mim, tentando lavar a sujidade da traição.
Lembrei-me de como não tínhamos intimidade há meses. Ele sempre dizia que estava cansado, stressado com o trabalho.
Agora eu sabia porquê.
O meu telemóvel vibrou. Uma foto de Isabella.
Ela estava no nosso iate, usando um dos meus biquínis. A legenda: "A aproveitar o que é meu por direito."
Respirei fundo.
Ela era apenas um peão. Um peão que eu usaria para a minha jogada final.
Tiago bateu à porta do meu quarto.
"Mamã? Posso dormir contigo? Tenho medo do escuro."
Abri a porta. Ele abraçou-me com força.
"Tenho medo que vás embora, como a avó."
Abracei-o de volta, o meu coração a despedaçar-se.
"Eu estarei sempre contigo, meu amor. No teu coração."
Heitor chegou mais tarde, o cheiro a mar e a Isabella impregnado nele.
"Ele teve um pesadelo?", perguntou, tentando parecer um pai preocupado.
Não respondi.
Na manhã seguinte, acordei com febre. O stress tinha finalmente cobrado o seu preço.
Heitor e Tiago cuidaram de mim. Trouxeram-me sopa, leram-me histórias.
Uma performance perfeita de uma família perfeita.
Era quase cómico.
No meio da tarde, a campainha tocou.
Heitor foi atender. Ouvi a voz de Isabella.
"Heitor, temos de conversar. Estou grávida. Quero que peças o divórcio. Agora."
Levantei-me da cama. Fui até à sala.
Isabella estava lá, a mão a proteger a sua barriga lisa. Um desafio nos seus olhos.
"Liana. Acho que temos um assunto a resolver."
Sorri. Um sorriso genuíno, pela primeira vez em meses.
"Não temos nada a resolver, Isabella."
Heitor entrou em pânico.
"Isabella, o que estás a fazer aqui? Vai-te embora!"
"Não vou a lado nenhum até teres o que é meu!"
Ela virou-se para Tiago.
"Querido, não queres ter um irmãozinho?"
Heitor agarrou-a pelo braço.
"Eu disse para ires embora!"
Ele empurrou-a para fora e fechou a porta.
Voltou-se para mim, o desespero no seu rosto.
"Liana, eu posso explicar."
"Não precisas."
Ele tentou abraçar-me, beijar-me.
"Eu amo-te, Liana. Só a ti."
Empurrei-o.
"Não me toques."
Tiago, confuso, imitou o gesto do pai e tentou abraçar-me.
"Eu também te amo, mamã."
Beijei-lhe a testa.
"Eu sei, meu amor."
Heitor saiu, dizendo que precisava de "resolver as coisas".
Sabia que ele ia ter com ela.
Uma hora depois, o meu telemóvel vibrou.
Uma notificação do Instagram.
Isabella tinha publicado uma foto. Um teste de gravidez positivo. A legenda: "O futuro é nosso. @HeitorAlencar".
Ela marcou-o.
Ela queria guerra.
Mal sabia ela que a guerra já tinha sido ganha por mim.