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De Quebrada a Amada, Minha Jornada

De Quebrada a Amada, Minha Jornada

Autor:: A Li
Gênero: Moderno
Meu marido, André Guedes, era um senador recém-eleito, e eu, uma chef de cozinha renomada, grávida do nosso primeiro filho. Na noite da sua vitória, nosso mundo deveria ser perfeito. Em vez disso, eu o assisti ao vivo na TV, com o braço ao redor de sua amante grávida, enquanto ele anunciava o relacionamento deles para o mundo. Ele então olhou para a câmera e chamou minha própria gravidez de mentira, uma invenção para criar um escândalo. Sua família poderosa, junto com meus próprios pais adotivos, me trancou em nossa casa. Eles levaram a amante dele para o meu quarto e planejaram me forçar a fazer um aborto para proteger sua carreira. Sua mãe me olhou com olhos frios. "É para o seu bem, Kiara. Sem pontas soltas." Eu estava presa, traída por todos, enfrentando o assassinato do meu filho que ainda nem havia nascido. Mas eles cometeram um erro: me devolveram meu celular. Com as mãos trêmulas, encontrei um número há muito esquecido e disquei. A voz de um homem atendeu. "Meu nome é Kiara Moraes", eu disse com a voz embargada. "Acho que você pode ser meu pai. Eles vão tirar o meu bebê."

Capítulo 1

Meu marido, André Guedes, era um senador recém-eleito, e eu, uma chef de cozinha renomada, grávida do nosso primeiro filho. Na noite da sua vitória, nosso mundo deveria ser perfeito.

Em vez disso, eu o assisti ao vivo na TV, com o braço ao redor de sua amante grávida, enquanto ele anunciava o relacionamento deles para o mundo. Ele então olhou para a câmera e chamou minha própria gravidez de mentira, uma invenção para criar um escândalo.

Sua família poderosa, junto com meus próprios pais adotivos, me trancou em nossa casa. Eles levaram a amante dele para o meu quarto e planejaram me forçar a fazer um aborto para proteger sua carreira.

Sua mãe me olhou com olhos frios.

"É para o seu bem, Kiara. Sem pontas soltas."

Eu estava presa, traída por todos, enfrentando o assassinato do meu filho que ainda nem havia nascido.

Mas eles cometeram um erro: me devolveram meu celular. Com as mãos trêmulas, encontrei um número há muito esquecido e disquei. A voz de um homem atendeu.

"Meu nome é Kiara Moraes", eu disse com a voz embargada. "Acho que você pode ser meu pai. Eles vão tirar o meu bebê."

Capítulo 1

Meu marido, André Guedes, era o senador eleito, e eu o observava na tela da TV. Seu rosto brilhava com a vitória. Meu coração, no entanto, já era um túmulo. Meu nome é Kiara Moraes. Eu era uma chef de cozinha renomada. Naquela noite, o mundo soube de sua vitória nas primárias, mas eu descobri que ele havia me substituído.

As taças de champanhe tilintavam ao meu redor no salão de festas lotado do hotel de luxo. A festa da vitória de André estava a todo vapor. Todos sorriam, conversavam e riam. Meu próprio sorriso parecia colado no meu rosto. Por dentro, um segredo pesado florescia, pressionando minhas costelas. Uma nova vida. Nossa vida. Ou o que eu pensava ser nossa vida.

Uma repórter, uma mulher de olhos atentos e um microfone, abriu caminho em minha direção. Ela contornou a multidão risonha, seu olhar fixo em mim. "Sra. Guedes! Kiara! Você pode confirmar os rumores sobre o senador eleito Guedes e sua gerente de campanha, Cássia Galvão?"

O barulho do salão se transformou em um zumbido abafado. O champanhe em minha mão de repente pareceu pesado, como chumbo líquido. Meu sangue gelou e ferveu ao mesmo tempo. Rumores?

Antes que eu pudesse responder, um telão gigante acima do palco, que geralmente exibia o rosto sorridente de André, mostrou uma nova imagem. Era um close, uma foto de revista. André. E Cássia. A cabeça dela estava aninhada em seu ombro. O braço dele envolvia firmemente a cintura dela. Uma faixa passava por baixo: "Senador eleito Guedes e gerente de campanha grávida Cássia Galvão confirmam relacionamento. Esperando o primeiro filho."

Meu estômago se contraiu. Uma dor aguda, lancinante, que me rasgava por dentro. Minha visão ficou turva. O mundo ao meu redor girou. O chão polido pareceu inclinar.

Os cochichos começaram, ficando mais altos, como um zumbido de moscas. Os olhos se voltaram para mim. Eles não sorriam mais. Eram olhares de pena. Curiosidade. Julgamento. Senti-me nua, exposta sob seus olhares.

Então, meus olhos os encontraram. No palco. André. Cássia. Eles estavam lá. Ao vivo. Ela se inclinava para ele, um gesto suave e possessivo. Sua mão repousava sobre sua barriga visivelmente arredondada. A mão dele cobria a dela. Uma imagem perfeita de felicidade doméstica. Uma imagem destinada a me esmagar.

Minha respiração falhou. Eles estavam brincando de casinha. Com a minha vida. Meu papel, meu futuro, meu filho, tudo roubado. Minha visão do nosso futuro, meu sonho de abrir nosso restaurante, o quarto do meu bebê – tudo se tornou dela. Ela estava vestindo o meu sonho. Vivendo a minha vida.

"Sra. Guedes!" A voz da repórter cortou a névoa. "É verdade? O senador eleito Guedes está te deixando pela Sra. Galvão? E os seus próprios planos de família?"

A cabeça de André se ergueu bruscamente. Seus olhos, geralmente tão confiantes e afiados, se arregalaram quando encontraram os meus. Um lampejo de pânico cruzou seu rosto. Ele parecia um animal acuado, sem saber para onde correr. Sua mão caiu da barriga de Cássia.

Seus ombros ficaram tensos. Sua mandíbula se contraiu. Ele tentou esconder, mas eu vi o suor brotar em sua testa, a forma como seus dedos se fecharam em punhos. Ele estava tentando descobrir seu próximo movimento. Sempre um estrategista, mesmo quando pego em flagrante.

Nossos olhos se encontraram através do salão. Por uma fração de segundo, vi o fantasma do homem que eu amava. O homem que me pediu em casamento em nossa pequena cozinha, prometendo uma vida inteira de sonhos compartilhados. Aquele homem se foi, substituído por este estranho, este político calculista. A memória foi outra punhalada, torcendo-se mais fundo. Meu amor por ele morreu naquele momento. Não foi um desvanecimento lento. Foi uma execução.

O choque deu lugar a uma raiva fria, dura como gelo. Não queimava. Congelava. Meu corpo parecia de gelo, mas minha mente estava mais clara do que nunca. Chega de lágrimas. Chega de súplicas. Apenas uma determinação profunda e arrepiante.

Endireitei a coluna. A taça de champanhe escorregou dos meus dedos dormentes, quebrando-se silenciosamente no carpete. Ninguém nem notou. Meus pés se moveram, um na frente do outro. A multidão se abriu para mim como o Mar Vermelho. Caminhei em direção a ele, cada passo deliberado, uma batida de fúria em meus ouvidos.

Parei na frente dele, perto o suficiente para sentir o perfume barato que ele sempre usava em aparições públicas. Meu olhar cravou no dele. "André." Minha voz era um rosnado baixo, quase um sussurro. "Explique isso. Agora."

Ele gaguejou, seu carisma o abandonando. "Kiara, querida, não é o que parece. É... um mal-entendido. Uma manobra política. Eu posso explicar tudo." Seus olhos correram para as câmeras, para Berenice Valter, sua consultora implacável, que agora estava sutilmente sinalizando para ele.

Eu não o deixei terminar. Minha mão voou, a palma atingindo sua bochecha com um tapa retumbante. O som ecoou no silêncio súbito do salão. Sua cabeça virou para o lado. Uma marca vermelha brilhante floresceu em sua pele pálida.

Ele me encarou, chocado, a mão voando para a bochecha avermelhada. Sua máscara política havia rachado, revelando uma vulnerabilidade crua e assustada. Por uma fração de segundo, ele pareceu verdadeiramente perdido.

"Oh, André!" A voz de Cássia, estridente e teatral, cortou o silêncio. Ela agarrou o estômago. "Minha cabeça... estou tonta." Ela balançou, apoiando-se pesadamente em André, que instintivamente colocou o braço ao redor dela. Seus olhos encontraram os meus por cima do ombro dele, um brilho triunfante e venenoso neles.

Minha raiva, temporariamente apaziguada, explodiu novamente. Mas desta vez, veio com lágrimas. Lágrimas quentes e ardentes que escorriam pelo meu rosto. Meu corpo tremia com a força delas. A humilhação era esmagadora. A traição, profunda demais para suportar.

André estendeu a mão para mim. "Kiara, não. Por favor. Vamos conversar."

Eu recuei como se seu toque fosse queimar minha pele. A ideia de suas mãos em mim, depois de terem estado nela, fez meu estômago revirar.

Berenice, sempre à espreita, deu um passo à frente. Ela sussurrou algo urgente para André. Seus olhos endureceram. O breve momento de pânico se foi, substituído por uma determinação fria e calculista. Foi como ver um interruptor ser acionado.

Ele limpou a garganta, puxando Cássia para mais perto. Olhou diretamente para a massa de câmeras, sua voz clara e ressonante, o político perfeito. "Meus amigos, meus apoiadores, peço desculpas por este... incidente imprevisto. Houve muitos rumores esta noite. Alguns deles são verdadeiros." Ele fez uma pausa, um showman magistral. "Cássia e eu encontramos o amor no calor desta campanha. Estamos esperando um filho juntos, uma nova vida linda que ambos valorizamos." Ele fez outra pausa, depois olhou para mim, um brilho de algo indecifrável em seus olhos. "Quanto a Kiara, suas ações esta noite falam por si. Este é um momento difícil para ela. Ela não está... bem. E suas alegações de gravidez são, lamentavelmente, totalmente falsas. Uma invenção, acredito eu, para criar um escândalo de paternidade que simplesmente não existe."

Cássia enterrou o rosto no peito dele, seus ombros tremendo com o que fingiam ser soluços. Era uma performance patética, digna de um Oscar.

"Meu bebê?" Minha voz era um sussurro cru e quebrado. "E o nosso bebê, André? Aquele que está crescendo dentro de mim?" Agarrei minha própria barriga, um apelo desesperado para que ele a reconhecesse.

Ele me ignorou. Simplesmente acenou para sua equipe de segurança. Eles se moveram, formando uma parede protetora ao redor dele e de Cássia. Ele se virou, de costas para mim, e saiu do palco, com Cássia agarrada a ele, seu sorriso triunfante visível para mim, mas escondido das câmeras.

Eu fiquei lá, sozinha, abandonada no palco. Os holofotes pareciam mil olhos ardentes. Os cochichos começaram novamente, mais altos agora, cheios de desprezo. "Ela mentiu? Como ela pôde?" "André sempre foi bom demais para ela." As palavras me perfuraram, uma por uma.

Minhas pernas cederam. Caí no chão, o mármore duro implacável contra meus joelhos. Meu peito parecia uma cavidade vazia, meus pulmões lutando por ar. Cada respiração tinha gosto de cinzas. Meu bebê. Nosso bebê. Ele tinha acabado de nos apagar.

Ele não cometeu um erro. Ele não foi pego. Ele escolheu. Ele a escolheu. Ele escolheu sua ambição. E ele escolheu me destruir, publicamente, para garantir seu futuro. Meu filho ainda não nascido, nosso filho, era um dano colateral em sua ascensão implacável.

Mãos fortes agarraram meus braços. Segurança. Não os dele. Os meus, eu suponho. Eles estavam me levantando, me arrastando para fora do palco, para longe das luzes piscantes e dos olhos julgadores. Eu era apenas um problema a ser removido, um escândalo a ser varrido para debaixo do tapete.

André havia escolhido. Ele escolheu sua narrativa cuidadosamente elaborada, seu futuro político e sua amante grávida. Eu, e a criança que eu carregava, não éramos nada além de obstáculos a serem esmagados. Ele havia declarado isso em rede nacional. Minha vida, como eu a conhecia, havia acabado.

Capítulo 2

O caminho de volta para nossa casa, antes compartilhada, foi um borrão de luzes piscantes e vozes abafadas. O carro parecia um caixão, me isolando do mundo, mas o julgamento do mundo ainda se infiltrava por todas as frestas. Eu olhava pela janela, mas as luzes da cidade não ofereciam conforto, apenas um reflexo distorcido do meu próprio rosto despedaçado. Minha mente estava entorpecida, meu corpo uma casca vazia.

Saí do carro, a fachada grandiosa da mansão dos Guedes se erguendo sobre mim. Não era mais um lar. Era uma gaiola dourada. Um monumento a uma mentira. A pesada porta de carvalho se abriu, e lá estava ele, parado no hall de entrada como se esperasse uma esposa obediente voltar de um recado. Seu terno ainda estava perfeitamente passado, seu cabelo bem penteado. A marca vermelha em sua bochecha era a única evidência da tempestade que tínhamos acabado de enfrentar.

"Kiara", disse André, sua voz suave, quase gentil. "Vamos conversar. Por favor."

Passei por ele, meu olhar fixo na escadaria ornamentada. Eu não conseguia olhá-lo. Cada fibra do meu ser gritava por fuga. Parei junto à grande janela com vista para os jardins bem cuidados, a imagem perfeita de uma vida à qual eu não pertencia mais.

"Kiara, eu sei que você está magoada", ele continuou, com uma sinceridade ensaiada em seu tom. "Mas você tem que entender. Minha carreira, nosso futuro... está tudo ligado a isso. Tínhamos que controlar a narrativa."

Eu zombei, um som seco e sem humor. "Nosso futuro? Você acabou de declarar nosso futuro morto em rede nacional, André. Você me fez de mentirosa, de louca. Você negou nosso filho."

"Foi pela campanha, Kiara!" Ele se aproximou, sua voz aumentando em frustração. "Pelo Senado! Você não entende o que está em jogo aqui? Um escândalo, e tudo pelo que trabalhei, tudo pelo que trabalhamos, desmorona."

"Tudo pelo que você trabalhou?" Eu finalmente me virei, meus olhos em chamas. "Não se atreva a dizer 'nós'. Eu cozinhei suas refeições, organizei seus eventos de arrecadação de fundos, sorri para todas as câmeras e coloquei meus próprios sonhos em espera pela sua ambição. Eu era a esposa perfeita do Senador! E você me pagou me humilhando publicamente, negando a própria vida que criamos!"

"Foi um mal necessário!" ele praticamente gritou. "Cássia está grávida. Isso ia vazar eventualmente. Precisávamos nos antecipar. Mudar a história. Mostrar força e uma nova direção." Ele passou a mão pelo cabelo, agitado. "Você não entende como este jogo é jogado, Kiara. É brutal."

"Brutal?" Eu ri, um som agudo e amargo. "Brutal é negar seu próprio sangue por um cargo político. Brutal é ficar ao lado de sua amante, exibindo a gravidez dela, enquanto sua esposa carrega seu filho. Você ao menos se escuta, André? E o bebê dela, André? Aquele que você tão orgulhosamente reivindicou? E o meu? Aquele que você jogou fora como lixo de ontem?"

Minhas palavras pareceram atingi-lo. Ele recuou ligeiramente, seu rosto se contorcendo. Por um momento, um lampejo genuíno de dor, ou talvez apenas desconforto, cruzou suas feições.

Ele respirou fundo, depois se ajoelhou. Literalmente. Meu marido, o menino de ouro da política, ajoelhou-se diante de mim, com as mãos postas. "Kiara, por favor. Eu te amo. De verdade. Não era assim que eu queria. Mas podemos consertar isso. Você e eu, somos uma equipe."

Seu toque, quando ele alcançou minha mão, pareceu estranho. Frio. Repulsivo. A conexão estava rompida. Puxei minha mão como se ele fosse um estranho. Ele era.

"Eu tenho um plano", disse ele, sua voz desesperada, mas ainda com um toque de seu charme calculado habitual. "É audacioso, eu sei, mas é a única maneira de salvar tudo."

Meu estômago revirou. Um plano. Vindo de André, isso sempre significava que outra pessoa se machucaria. "Que plano?" perguntei, minha voz sem expressão.

"Você continua sua gravidez", disse ele, seus olhos brilhando com o que ele achava ser genialidade. "Discretamente. Longe dos olhos do público. E Cássia... Cássia terá o bebê dela. Então, quando a eleição acabar, quando eu estiver firme no Senado, anunciamos que você sofreu um trágico aborto espontâneo. E então, nós 'adotamos' o filho de Cássia. Nosso filho. Ele se torna nosso filho, Kiara. O público vai nos adorar. Uma narrativa simpática. Uma família unida pela tragédia e pelo amor."

Meu queixo caiu. A pura audácia. A crueldade. "Você quer que eu finja um aborto espontâneo? E depois finja adotar meu próprio filho? Da sua amante?" Minha voz subia a cada palavra, incrédula.

"É a única maneira, Kiara!" ele insistiu, levantando-se de um salto. "Todos concordam. Minha mãe, meu pai, até... até seus pais. Todos eles veem o quadro geral. O legado. O poder."

Meus pais. Meus pais adotivos. A dor mais aguda até então. Eles sempre estiveram mais interessados no nome Guedes do que em mim. Agora, por status, por proximidade com o poder, eles trairiam sua própria filha. Engoli um soluço.

"Você falou com meus pais sobre este... este esquema monstruoso?" sussurrei, minha voz grossa de traição. "Antes mesmo de falar comigo?"

"Eles entendem", disse ele, ignorando minha pergunta, suas palavras ganhando impulso. "Isso é maior do que nós, Kiara. Maior do que nossos sentimentos pessoais. Trata-se do legado da família, do poder político. É uma corporação, uma dinastia. E você é uma peça-chave."

"Eu sou uma mulher carregando nosso bebê!" gritei, os últimos vestígios da minha compostura se quebrando. "Não uma 'peça-chave' no seu jogo doentio e distorcido! Isso é sobre a vida, André! Sobre uma criança que merece ser reconhecida, amada, valorizada!"

"E ela será!" ele rebateu, sua voz agora afiada, perdendo o tom desesperado. "Como filho de um Senador da República! Uma criança privilegiada! Você está deixando suas emoções nublarem seu julgamento, Kiara. Pense logicamente."

"Logicamente?" Eu o encarei, meus olhos ardendo. "Você quer que eu aborte minha identidade, aborte minha maternidade, aborte minha dignidade, tudo para que sua narrativa política possa sobreviver? Você quer que eu sacrifique a própria legitimidade do meu filho pela sua carreira?"

"Kiara Moraes", disse ele, usando meu nome completo. Seu tom era frio, formal. "Não seja dramática. Esta é uma decisão de negócios. Um movimento estratégico. Você é uma mulher inteligente. Você vai entender."

"Não." Minha voz era baixa, mas firme. "Eu não entendo. E eu quero o divórcio."

Seus olhos se arregalaram novamente, mas desta vez, foi com um cálculo arrepiante. "Divórcio? Kiara, não seja tola. Isso seria um desastre. Para nós dois. Especialmente para seus sonhos de restaurante. Você sabe o quanto eu investi."

"Eu não me importo mais com o restaurante. Eu não me importo com nada que você construiu sobre mentiras."

Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Você vai se importar, Kiara. Porque se você tentar ir embora, se tentar me expor, eu vou garantir que você perca tudo. Seu nome, sua carreira, sua reputação. Você será uma pária. E esse bebê, seu 'filho do amor', não terá pai, nem nome, e certamente nenhum prestígio." Seus olhos, geralmente charmosos, agora estavam duros, desprovidos de qualquer calor. "Você fará o que eu digo. Você não tem escolha."

Lutei contra seu aperto, mas foi inútil. Ele era mais forte. Eu estava presa. Presa nesta casa, presa neste casamento, presa em sua teia de enganos. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro preso batendo as asas descontroladamente. Um pavor frio se infiltrou em meus ossos. Ele não estava pedindo. Ele estava mandando.

De repente, a campainha tocou, um som educado e insistente que quebrou o silêncio tenso. O aperto de André afrouxou. Ele soltou meu braço, seu rosto recuperando parte de sua compostura.

A porta se abriu. Berenice Valter estava lá, flanqueada pela imponente mãe de André, Evelyn Guedes. E atrás deles, meus pais adotivos, Haroldo e Sônia Moraes, parecendo pálidos e desconfortáveis. E então eu a vi. Cássia. Ela estava lá, uma pequena mala de viagem a seus pés, um olhar recatado e inocente no rosto.

Evelyn Guedes entrou no hall, seus olhos me avaliando com desdém. "André, querido, estamos aqui para ajudar. Cássia, querida, entre. Esta é sua casa agora." Ela se virou para mim, seus lábios uma linha fina e cruel. "Kiara, querida, acredito que nossa convidada precisará do seu quarto principal. É o mais sensato, dada a sua condição delicada."

Meu mundo inclinou novamente. Minha casa. Meu quarto. Minha vida. Tudo sendo sistematicamente arrancado de mim. Eu não era mais uma esposa, uma parceira, uma futura mãe. Eu era um inconveniente. Um problema a ser gerenciado. Uma ocupante temporária. Meu destino estava selado.

Capítulo 3

As palavras de Evelyn Guedes pairaram no ar, uma declaração de guerra disfarçada de comando educado. "Kiara, querida, acredito que nossa convidada precisará do seu quarto principal. É o mais sensato, dada a sua condição delicada." André ficou em silêncio ao lado de sua mãe, seu olhar evitando cuidadosamente o meu, mas os olhos de Cássia, brilhando de triunfo, encontraram os meus e os seguraram. Um sorriso lento e sutil brincou em seus lábios.

Minha mãe adotiva, Sônia, correu para frente, não para mim, mas para Cássia. "Oh, Cássia, querida! Você está bem? Deve estar exausta." Ela se preocupou com ela, alisando seu cabelo, suas mãos pairando delicadamente sobre a barriga crescente de Cássia. Era uma pantomima grotesca de preocupação maternal.

Meu pai adotivo, Haroldo, apenas me ofereceu um olhar fraco e desdenhoso. Sua expressão dizia tudo: Você já causou problemas suficientes. Apenas coopere. A lealdade deles, sempre condicional, havia se deslocado inteiramente para a família Guedes, para o nome poderoso, para a promessa de contínua ascensão social. Eu era uma baixa.

"Meu quarto?" sussurrei, as palavras presas na garganta. Este era meu santuário, meu espaço privado. Agora, até isso estava sendo invadido. A injustiça me sufocou.

Antes que eu pudesse protestar mais, uma empregada, com o rosto impassível, começou a carregar uma caixa com meus pertences pessoais do quarto principal. Minhas roupas, meus livros, minhas fotografias – tudo sendo sistematicamente removido, abrindo espaço para a mulher que havia roubado minha vida. Era um ato tangível de apagamento.

André finalmente falou, sua voz cuidadosamente neutra. "É só por um tempo, Kiara. Pelas aparências. Até as coisas se acalmarem." Ele não olhou para mim quando disse isso.

"Aparências?" retruquei, minha voz tremendo de raiva contida. "Então, eu desapareço da minha própria vida, da minha própria casa, por 'aparências'? De quem são as aparências que estamos mantendo, André? As suas? Ou as dela?" Meu olhar se voltou para Cássia, que agora estava sendo levada escada acima por Sônia, uma expressão presunçosa no rosto.

"É sobre a narrativa, Kiara", respondeu André, seu tom ficando impaciente. "Precisamos de uma história limpa e simpática para a eleição geral. Você entende isso. A verdade é... secundária à imagem."

"Então a verdade não significa nada?" perguntei, minha voz quase inaudível. O vazio ecoou no grande salão.

"A verdade é o que nós fazemos dela, Kiara", disse ele, seus olhos agora frios e distantes, já calculando como distorcer isso ainda mais. "E agora, nossa verdade precisa ser simples: o candidato enlutado, encontrando amor e uma nova família em meio a turbulências pessoais. Uma história de resiliência e esperança."

Minha vida se tornou um pesadelo sufocante. André era um fantasma, sempre ocupado, sempre trabalhando, sempre com Cássia. Eles eram uma frente unida, aparecendo em eventos, de mãos dadas, pintando um quadro de amor recém-descoberto para as câmeras. Evelyn Guedes assumiu a casa, administrando-a como uma operação militar, atendendo a todos os caprichos de Cássia. Sucos orgânicos, massagens pré-natais especiais, roupas de maternidade sob medida – Cássia recebia tudo. Minha própria gravidez, enquanto isso, era tratada como se não existisse. Ignorada. Apagada.

Tentei falar com André, apelar para qualquer resquício de humanidade que restasse nele. Ele sempre tinha uma desculpa: uma reunião, um telefonema, uma sessão de estratégia noturna com Berenice. Ele nunca estava disponível. Nunca estava lá. Meus pais adotivos, antes minha única família, pareciam ter esquecido completamente que eu existia, absorvidos pela glória refletida da máquina Guedes. Eu estava completamente sozinha, uma prisioneira em minha própria casa. Meu mundo encolheu para os confins do meu pequeno quarto de hóspedes.

Uma tarde, desci até meu antigo estúdio, aquele em que eu havia derramado meu coração, imaginando-o como a cozinha de testes para o meu restaurante dos sonhos. A porta estava entreaberta. E lá estava ela. Cássia. Ela estava parada no meio do meu espaço, admirando o forno industrial que eu havia escolhido meticulosamente, as bancadas de preparo feitas sob medida, as prateleiras repletas de meus livros de receitas.

"Oh, Kiara", ela ronronou, virando-se, um sorriso sacarino no rosto. "Isso é simplesmente encantador. André disse que você tinha um pequeno hobby. Eu não tinha ideia de que você era tão... ambiciosa." Ela pegou uma das minhas panelas de cobre, virando-a nas mãos como se fosse um brinquedo. "Coisas tão lindas. Imagine, uma cozinha adequada para preparar refeições nutritivas para o meu bebê. E talvez, quando as coisas se acalmarem, eu possa aprender algumas coisas com seus livros de receitas." Seus olhos brilhavam com uma malícia consciente. "Imagino que você não vai mais precisar deles, não é? Com todos os seus... novos arranjos."

Uma onda fria me percorreu. Ela estava insinuando que meu restaurante, minha paixão, minha identidade, era o próximo na lista de corte. "Saia", eu disse, minha voz baixa e trêmula.

Cássia apenas arqueou uma sobrancelha. "Oh, mas querida, André disse que este espaço seria perfeito para minha ioga e meditação. E talvez, mais tarde, um berçário. É tão claro e arejado." Ela olhou ao redor, já redesenhando meu sonho em sua mente. "Uma pena que você não tenha feito melhor uso dele, realmente."

Um grito primal se formou em meu peito. Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu avancei, um borrão de fúria pura e inalterada. Eu queria arrancar aquele olhar presunçoso de seu rosto. Eu queria arranhar seus olhos. Eu queria fazê-la sentir uma fração da dor que ela havia me infligido.

Mas antes que eu pudesse alcançá-la, André invadiu a sala. Ele me agarrou, me puxando para trás com uma força que me surpreendeu. "Kiara! O que você está fazendo?!" ele rugiu, seu rosto contorcido de raiva. Ele me empurrou para longe, depois se virou para Cássia, envolvendo-a com um braço protetor.

Cássia, aproveitando seu momento, desabou dramaticamente contra ele, soluçando histericamente. "Ela... ela me atacou, André! Ela tentou machucar o bebê! Oh, minha cabeça, meu bebê..." Sua performance foi impecável.

André me fuzilou com o olhar, seus olhos cheios de desprezo. "Como você pôde, Kiara? Você está completamente louca? Atacando uma mulher grávida? Minha esposa grávida?"

"Ela não é sua esposa!" gritei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Eu sou! E estou grávida! Com seu bebê! Ela estava zombando de mim, André! Ela estava tomando meu estúdio, minha vida!"

Ele não ouviu. Apenas segurou Cássia mais forte, murmurando palavras de consolo em seu cabelo. Ele acariciou suas costas enquanto ela continuava seus soluços falsos. Naquele momento, eu soube. Eu havia perdido. Completamente. Ele sempre acreditaria nela. Ele sempre a protegeria. E eu sempre seria a vilã.

Mais tarde naquela noite, a casa estava silenciosa. Eu estava deitada na cama, olhando para o teto, o vazio familiar em meu peito uma companhia constante. Uma batida suave na porta quebrou o silêncio. Evelyn Guedes, a mãe de André, entrou sem esperar por uma resposta. Ela estava vestida com um robe de seda, seu cabelo prateado perfeitamente penteado, mesmo àquela hora tardia. Sua presença sempre parecia uma corrente de ar frio.

"Kiara", disse ela, sua voz desprovida de calor. "Precisamos conversar. Seu comportamento hoje foi... inaceitável. Você está se tornando um problema."

Sentei-me, meu coração batendo forte. "Eu fui provocada! Ela estava no meu estúdio, ameaçando tomar tudo!"

Evelyn apenas ergueu uma sobrancelha perfeitamente esculpida. "Sempre há dois lados em uma história, querida, mas apenas um que importa. O de André. E o da família. Você está tornando as coisas incrivelmente difíceis." Ela enfiou a mão no robe e tirou uma pilha de papéis, colocando-os na minha mesa de cabeceira. Um documento legal.

"Isso descreve os termos da sua... partida", afirmou ela, seu olhar inabalável. "Um acordo generoso, considerando. É muito menos do que você poderia esperar, é claro, dado o que sabemos agora."

"O que vocês sabem?" perguntei, minha voz trêmula.

"Temos provas, Kiara, provas de suas... indiscrições", disse ela, sua voz pingando acusação. "Um escândalo de paternidade fabricado, de fato. Parece que você não era tão leal quanto André acreditava. Uma noite com um chef desconhecido, não foi? Que pena. A reputação de André, quase manchada por sua imprudência."

Meu sangue gelou. "Isso é mentira! Eu nunca-"

"Chega", ela me cortou, sua voz de repente afiada. "O ponto é que não podemos arcar com mais complicações. Não agora. Não com a eleição geral tão próxima. E certamente não com... um potencial escândalo de paternidade que poderia realmente ser verdade, apesar da negação pública de André." Seus olhos se estreitaram. "Você vai assinar isso. E quanto à sua... condição..." Ela gesticulou vagamente para minha barriga. "Isso será resolvido. Silenciosamente. Discretamente. Amanhã de manhã, você tem um compromisso."

"Um compromisso?" Minha voz era um suspiro sufocado. Eu já sabia.

Os lábios de Evelyn se afinaram. "Sim. Para interromper a gravidez. É para o bem de todos, Kiara. Para todos. Sem pontas soltas. Sem perguntas. Sem escândalos. Apenas um novo começo para André e sua família."

"Não!" gritei, agarrando minha barriga. "Eu não vou! Este é o meu bebê! Meu filho!"

"Você vai", disse Evelyn, sua voz gélida. "Ou nós garantiremos que aconteça de qualquer maneira. André tem conexões poderosas. Médicos. Hospitais. Você não terá escolha. Isso não é um pedido, Kiara. É uma ordem."

A porta se fechou atrás dela, me deixando no silêncio sufocante. Minha respiração vinha em arquejos irregulares. Eles queriam matar meu bebê. Eles queriam me forçar a abortar meu próprio filho. A família Guedes, meu marido, meus pais adotivos – todos eram cúmplices. Eu estava verdadeiramente, completamente sozinha, enfrentando um horror além da imaginação.

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