Todos no Rio de Janeiro esperavam pela piada que eu, Danna Perez, me tornaria.
Esperei por sete anos, dedicada a Hugo, vivendo à sombra de sua ex, Lilith Gordon.
Hoje, era o dia do nosso casamento civil, a terceira vez que Hugo me deixava plantada no cartório.
O sol queimava minha pele enquanto meu coração, antes ardente como um samba, virava cinzas.
Ele estava no aeroporto, não para me encontrar, mas para buscar Lilith.
Ela voltou e, em meu apartamento, jogou na minha cara o quanto conhecia Hugo, cada detalhe íntimo que eu, sua noiva, não conhecia.
E Hugo? Ele nem percebeu a facada.
Naquela noite, depois de ele me usar e me abandonar para socorrer Lilith, entendi: eu era a segunda opção, a conveniência.
A dor e a humilhação eram demais para suportar.
Como pude ser tão cega, tão insignificante na vida dele?
Decidi que já bastava.
Rasguei o formulário de casamento, joguei fora o vestido insosso que me lembrava Lilith, e vesti o vermelho vivo da minha verdadeira essência.
Não haveria mais noiva.
Haveria uma artista livre.
Peguei o trem para Munique, decidida a dançar para mim mesma e para o mundo, deixando para trás um amor que nunca foi meu.
Todos no Rio de Janeiro esperavam para ver a piada que Danna Perez se tornaria.
Eles esperavam o dia em que Lilith Gordon voltasse da Noruega, e Hugo Contreras a abandonasse sem pensar duas vezes.
A própria Danna também esperava por esse dia.
Hoje era o dia que tinham combinado para ir ao cartório registar o casamento.
Hugo faltou pela terceira vez.
Danna ficou na porta do cartório por horas, o sol do Rio queimando sua pele. Ela ligou para ele mais de dez vezes, mas todas as chamadas foram rejeitadas.
O coração dela, que antes ardia como o samba, agora estava frio e cinzento. Com um gesto final, ela rasgou o formulário de casamento em pedaços minúsculos, que o vento espalhou pela calçada.
Ela decidiu acabar com aquele amor humilhante.
Mais tarde, no estúdio de dança, enquanto tentava focar nos passos, ela viu a foto no Instagram de um amigo em comum.
Hugo não tinha atendido suas ligações porque estava no aeroporto.
Ele foi buscar Lilith, que acabara de voltar.
Na foto, Hugo e Lilith estavam sentados lado a lado no lounge do aeroporto, ele com seu terno impecável e ela com seu sorriso sereno. Pareciam um casal de capa de revista.
O coração de Danna morreu de vez.
Ela não foi para casa. Em vez disso, mergulhou no trabalho, aceitando a enorme responsabilidade de coreografar o desfile das campeãs do Carnaval do Rio. O suor e a música eram sua única fuga.
Naquela noite, a campainha do seu apartamento tocou. Era Lilith, apoiando um Hugo completamente bêbado.
"Ele bebeu demais com os amigos para comemorar minha volta," disse Lilith, com um tom de quem era a dona da situação, enquanto o ajudava a sentar-se no sofá de Danna.
Lilith começou a andar pelo apartamento, tocando nos objetos de Danna, seu olhar avaliando tudo.
"O Hugo não gosta de café forte de manhã, só o fraco. E ele odeia coentro, você sabia? Ele também tem o sono leve, qualquer barulho o acorda."
Cada palavra era uma afirmação de posse, uma maneira de dizer: "Você nunca o conhecerá como eu conheço."
Danna cruzou os braços, a calma em seu rosto contrastando com a tempestade em seu peito.
"Lilith, você foi embora. Fui eu quem aprendeu a fazer o café dele, a tirar o coentro da comida e a andar na ponta dos pés pela casa. Você não tem mais o direito de ditar as regras aqui."
Lilith ficou sem palavras por um momento, seu sorriso forçado vacilou. Ela deixou Hugo no sofá e foi embora sem dizer mais nada.
Mais tarde, na escuridão do quarto, Hugo se mexeu. Ele a puxou para perto, seu hálito cheirando a álcool.
"Lilith...", ele sussurrou contra seu cabelo, "eu senti tanto a sua falta."
Ele a beijou, e naquele momento de confusão e dor, Danna cedeu.
Na manhã seguinte, a luz do sol invadiu o quarto. Hugo já estava de pé, vestindo sua camisa. Ele não a olhou nos olhos.
"Não se esqueça de tomar a pílula do dia seguinte," ele disse, com a voz fria e distante.
Ele fez uma pausa na porta.
"Ah, e desculpe por ter perdido o cartório de novo. Tive um imprevisto."
Danna não respondeu. Ela apenas se levantou, foi até o banheiro e engoliu a pílula com um copo de água, o gosto amargo preenchendo sua boca. Era um ato final para cortar qualquer laço que ainda pudesse existir.
Hugo a observou da porta, sua expressão indecifrável.
"Sobre o casamento... podemos adiar por um tempo. O trabalho está muito corrido agora," ele disse, como se estivesse falando do tempo.
"Tudo bem," Danna respondeu, sua voz vazia de emoção. Ela já tinha aceitado que o casamento nunca aconteceria.
No dia seguinte, ela cancelou a licença de casamento que havia solicitado no trabalho. Em vez disso, entrou em contato com o diretor de um renomado estúdio de dança em Munique, na Alemanha.
"A oferta de três anos ainda está de pé?", ela perguntou durante a chamada de vídeo.
"Danna! Claro que sim! Estávamos esperando por você!", o diretor respondeu, entusiasmado.
"Eu aceito," ela disse, com uma determinação que não sentia há muito tempo.
À noite, Hugo chegou em casa mais cedo que o normal. Ele parecia desconfortável.
"Lilith vai começar a trabalhar na Petrobras. No meu departamento, na verdade," ele disse, evitando o olhar dela.
Danna riu, um som seco e sem alegria.
"Claro que vai. Onde mais a maior geóloga marinha do país trabalharia?"
Hugo pareceu surpreso com a falta de drama. "É só profissional. Não significa nada."
"Eu sei," ela mentiu.
No fim de semana, haveria a festa de aniversário de Lilith, na casa dos pais dela. Uma mansão na zona sul que Danna conhecia desde criança.
Enquanto se arrumava, Danna olhou para o seu guarda-roupa. Estava cheio de vestidos de cores neutras, de cortes simples, uma tentativa inconsciente de imitar o estilo discreto e elegante de Lilith.
Ela empurrou todos para o lado.
No fundo do armário, ela encontrou o que procurava. Um vestido de samba vermelho-fogo, justo, com babados que se moviam a cada passo. Era o vestido que ela usara na sua primeira apresentação solo. Era a verdadeira Danna.
Ela completou o visual com um batom vermelho vibrante e saltos altos.
Quando chegou à festa, todos os olhares se voltaram para ela. Os amigos de Hugo, um círculo de engenheiros, médicos e advogados, a olharam com uma mistura de surpresa e desdém.
Ela ouviu um deles cochichar para outro: "O que deu nela? Parece que vai dançar no meio da festa."
Hugo, que estava ao lado de Lilith, franziu a testa ao vê-la.