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De Sol e Sombras

De Sol e Sombras

Autor:: Paula Albertão
Gênero: Romance
Fred vive em uma cidade separada por um rio e por lendas antigas sobre um Reino. De um lado, está o Bairro das Sombras, onde ele vive, e do outro, o Bairro do Sol Nascente. Sempre curioso em saber o que há de interessante no bairro tão iluminado que parece ter um sol particular, Fred se senta na janela todas as noites e observa de longe sem entender por que toda essa divisão se as pessoas são todas iguais. Sua vida muda quando conhece Patrick, um misterioso e refinado garoto que surge inesperadamente e se hospeda na humilde casa de sua família, e os dois passam a ser melhores amigos.

Capítulo 1 O Reino

Houve um tempo em que nossa cidade era um reino. Existem muitas lendas sobre isso, passadas de pessoa para pessoa, sem que nada nunca tenha sido formalizado em papéis. Por isso, existem inúmeras variações de como tudo aconteceu, mas ninguém nunca sabe o que é ou não verdade com precisão.

Vou contar o que sei, o que minha família sempre me contou desde que eu era apenas uma criança – como todas as famílias da cidade costumam fazer.

O Rei era um homem muito forte e orgulhoso, impiedoso, e se casou com uma mulher de caráter impecável e muito amorosa. Com ela, teve dois filhos: Leopoldo e Elisabeth, duas crianças belíssimas, mas muito diferentes.

O menino mais velho, com cabelos loiros e olhos azuis como os da mãe, era um garoto ativo e cheio de energia. Encantava a todos com sua gentileza e simpatia.

A filha, com longos e volumosos cabelos pretos como o do pai, possuía uma única cor arroxeada nos olhos – coisa que ninguém no reino nunca tinha ouvido falar -, e era uma menina quieta. Odiava encontrar com outras pessoas, e se mantinha quase sempre sozinha.

No entanto, os irmãos se davam muito bem. Leopoldo costumava defender Elisabeth de qualquer coisa que necessitasse, fosse de alguma outra criança ou dos pais, e era o único com quem ela aceitava brincar.

Mesmo assim, o garoto gostava do mundo e vez ou outra deixava a irmã para poder viver da forma que mais gostava. Nessas ocasiões, a menina passava todo o tempo sozinha, recusando qualquer aproximação de outra criança.

Com o tempo passando, uma fila de princesas esperava ser escolhida por Leopoldo. Ele havia se tornado um ótimo partido, e o reino era um lugar maravilhoso onde seria ótimo viver. Elisabeth também tinha seus pretendentes, que mal conseguiam alguma conversa. Nenhum deles parecia interessante o suficiente para que ela se abrisse um pouco.

O Rei trouxe uma quantidade imensa de possíveis futuras esposas para Leopoldo conhecer. Foram tempos de bailes belíssimos, cheios de música, comida e dança. Até mesmo Elisabeth começou a se encantar e a participar um pouco mais.

Dizem que foi o tempo que a princesa mais sorriu, encantada com a decoração de luzes e flores, e que dançou como qualquer outra convidada no salão – surpreendendo aos pais e convidados.

Leopoldo, feliz com toda a atenção recebida das jovens vindas de todos os cantos e com a animação da irmã, resolveu enrolar o quanto fosse possível para que os bailes continuassem acontecendo.

A Rainha, feliz com a alegria dos filhos, não se incomodava com o grande número de pessoas que entravam e saiam do castelo, nem com as festas que pareciam sem fim. Mas o Rei, com o tempo, começou a ficar sem paciência.

Ele queria que Leopoldo escolhesse de uma vez por todas quem seria sua esposa, e começou a colocar pressão vinte e quatro horas por dia, o que gerou inúmeras brigas entre os dois – onde a Rainha precisava interceder para que não saíssem de controle.

Com isso, ninguém prestava atenção em Elisabeth.

A jovem, aliviada, passou a andar pelo castelo sem supervisão alguma. E foi num desses passeios que ela conheceu um jovem rapaz que fez seu coração palpitar. Tudo seria maravilhoso, seus pais adorariam casá-la junto com o irmão, mas o tal homem não era um príncipe e nem nada parecido – apenas um criado de uma das famílias de uma pretendente de Leopoldo.

Os dois tinham encontros furtivos pela propriedade e tudo não demorou para evoluir da pior forma possível. Quando Elisabeth percebeu que carregava um herdeiro ilegítimo, correu até a mãe, mas esta, apesar de condoer-se com a situação, não pode esconder o que tinha acontecido do Rei.

O homem ficou irado, quebrou metade do quarto de Elisabeth enquanto gritava, e ordenou que ela fosse banida do castelo. Com a paciência no limite, ao mesmo tempo, escolheu quem seria a esposa de Leopoldo e finalizou toda a temporada de bailes.

Elisabeth foi levada até o outro lado do rio que cortava as terras da família. Ela chorava e pedia para não ser deixada pela família, mas o Rei estava irredutível, e arrastou a Rainha e Leopoldo para que começassem a organização do casamento.

O príncipe se casou apenas dois dias depois com uma jovem miúda e assustada chamada Louisa. Dizem que ele estava de coração partido pela irmã e nem parecia o mesmo, completamente desinteressado por qualquer comemoração.

A Rainha, arrasada e arrependida de ter revelado o segredo da filha caçula, morreu pouco tempo depois, deixando o Rei e Leopoldo completamente arrasados.

O reino não era mais o mesmo. Todos pareciam calados demais, mesmo fora do castelo, e a tristeza era quase algo sólido circulando pelo ar.

Todas as versões do que aconteceu, param por aí. Ninguém fala sobre o que aconteceu com a família real, nem como cresceram seus possíveis descendentes – principalmente o filho bastardo de Elisabeth. Tudo que se sabe é que a região onde antes havia o castelo, se tornou o bairro mais prospero da cidade – o bairro do Sol Nascente – e a região depois do lago, para onde Elisabeth foi banida, a região mais afastada e esquecida da cidade – o bairro das Sombras.

Eu nasci no bairro das Sombras.

Capítulo 2 O Bairro das Sombras

O meu bairro não era ruim, como poderia parecer ao povo do outro lado do rio. Éramos, sim, um pouco menos abastados, mas a vida seguia como em qualquer outro lugar.

Eu era o filho mais velho de um casal apaixonado e unido, tinha três irmãs mais novas e todos nós vivíamos em uma pequena casa. Meu quarto era o menor de todos, mas tinha a melhor vista e não era preciso dividir o espaço – benefícios de ser o único menino.

Gostava de lá, mesmo com todos os problemas que enfrentávamos. Gostava de ajudar meu pai com as coisas que plantava, gostava de acompanhar minha mãe até a escola onde ela ensinava as crianças pequenas, gostava de me sentar junto com todos ao redor de nossa mesa gasta e dividir um jantar que muitas vezes era bem escasso.

Sim, haviam vários garotos vivendo na rua e alguns adultos. Isso gerava alguns problemas, mas eu já estava tão habituado que não me assustava. Nós aprendíamos a nos cuidar desde muito pequenos e evitar certos lugares.

O bairro das Sombras, como o próprio nome sugere, tinha um certo aspecto frio e escuro. As casas eram todas pintadas em tons de cinza e azul, haviam grandes árvores com copas espessas por todas as ruas e ventava bastante.

Toda noite eu me sentava na janela do quarto, que ficava no andar superior, e observava as pequenas casas iluminadas ao longe – o bairro do Sol Nascente. Não poderíamos ser tão diferentes, poderíamos? Todos éramos pessoas e o reino deixou de existir muito tempo antes.

No entanto, eu nunca tinha ido até lá e nunca tinha visto ninguém de lá aqui. Era como se houvesse um acordo implícito de que os herdeiros de Elisabeth jamais retornassem ao "castelo" e aos herdeiros que Leopoldo supostamente criou do outro lado do rio.

Não havia motivos para acreditarmos nisso, é claro. Não havia registro sobre nenhum Rei que expulsou a filha do castelo, muito menos de um bebê que foi criado por uma mulher de cabelos pretos e olhos roxos.

Tudo não passava de suposição e apenas tradição passada de geração a geração. Até que eu nasci e as coisas passaram a ser um pouco mais formais.

Eu era o único do bairro que tinha olhos roxos. Não só de toda minha família e meus antepassados, mas de todo o lugar. A primeira criança em tempo indeterminado a nascer com os olhos de Elisabeth.

Passei a ser visto como um herdeiro distante. As pessoas me olhavam diferente, alguns até com adoração, como se eu realmente pudesse fazer parte da família real. Mas isso, na verdade, não importa porque, se tal ligação existisse, minha família não passa de uma vertente ilegítima criada por Elisabeth e o tal empregado.

Não costumava pensar nisso, afinal tinha coisas demais para fazer em casa do que fantasiar. Nós não tínhamos muito tempo para ficar saboreando fantasias, precisávamos cuidar das nossas hortas e ficar de olho nas crianças pequenas. Mas toda noite eu me permitia sonhar enquanto observava o outro lado do rio.

- Fred? – minha mãe abriu a porta do quarto – O que ainda faz acordado? – seus olhos cansados estavam circundados por olheiras profundas.

- Nada. – rapidamente desci da janela – Estava sem sono, mas já vou dormir.

- Suas irmãs já estão quietas, não faça nenhum barulho. – eu sempre podia notar a preocupação de mamãe com dormir tão pouco.

- Claro. – concordei rapidamente.

Me afundei nas cobertas no mesmo instante. Escutei o suspiro dela e depois seus passos arrastados pelo chão.

- Durma bem, querido. – seus lábios pousaram um beijo suave em minha testa.

- Você também.

Assim que a porta se fechou e seus passos sumiram, eu me levantei outra vez e fui para a janela. As luzes do bairro do Sol Nascentes eram fortes, se comparadas as nossas, mesmo tarde da noite. Parecia que lá realmente sempre tinha um sol, e aqui sempre as sombras, mesmo ao meio dia.

Quando eu era criança, costumava ficar nas margens do rio. Meu sonho era atravessá-lo e chegar na outra margem, de onde eu poderia explorar todos os cantos misteriosos.

Foi por isso que, aos sete anos, mergulhei nas águas. Foi um banho gelado e aterrorizante, porque fui arrastado pela correnteza sem chance alguma de controlar o lado para o qual estava indo.

Um homem me salvou e eu nunca mais o vi. Meus pais ficaram tão bravos que nunca mais tive permissão para chegar tão perto do rio, muito menos minhas irmãs mais novas – algumas ainda nem nascidas.

As únicas formas de chegar no bairro do Sol Nascente eram através do rio, de barco, ou por uma ponte onde só passa o trem. Nunca vi um só barco boiando nas águas agitadas, e o trem não fazia parada aqui – ele era exclusivo meio de transporte do lado mais rico da cidade.

Capítulo 3 O dia que o trem parou

Acordei com um estrondo estranho e dei um pulo para fora da cama com o coração aos pulos. Coloquei a cabeça para fora da janela no exato instante em que escutei passos pela casa. O barulho havia acordado minhas irmãs, e logo meus pais estariam em pé também.

Não foi difícil notar que a agitação fora causada pelo trem. Ele estava lá, inerte sob o sol que subia no horizonte. Agitado, corri para fora do quarto e desci os degraus de madeira. Eu precisava ser rápido, se meus pais aparecessem iriam me proibir de sair.

Haviam várias pessoas espiando de suas casas, a maioria com medo demais de se aproximar, mas outras, assim como eu, andavam decididas até o trem.

- Fred! - escutei a voz de minha mãe, provavelmente da janela do quarto, atrás de mim, mas fingi que não estava escutando.

Meus olhos estavam fixos no trem. Ele era muito maior do que parecia de longe e em movimento. Era metade vermelho e metade de um cinza reluzente, muito diferente das cores que eu estava costumado.

- Alfredo! - a voz do meu pai soou mais forte, realmente brava.

Na falta de uma opção melhor, corri. Já estaria encrencado de qualquer forma, então não custava chegar bem pertinho e ver melhor algo que jamais aconteceria.

Dava para ver os vultos dos passageiros se movendo lá dentro, e até algumas vozes reclamando pela parada incomum. Algumas pessoas pareciam verdadeiramente descontentes por estarem paradas no Bairro das Sombras.

Contornei o trem pelo fundo e fui para o outro lado, totalmente fora da vista das outras pessoas, tanto de dentro do trem quanto as curiosas como eu. Ninguém mais se atreveu a ir tão longe, então o lugar estava completamente silencioso.

Uma porta se abriu com um rangido, bem no fundo do trem, e uma cabeça surgiu. Era um garoto, tremendamente loiro, e seus olhos se arregalaram quando me viu.

- Acho que você não devia estar aqui. - seu tom foi um pouco arrogante.

- Eu só estou no meu bairro. - dei de ombros.

Ele fechou a porta e pulou do trem. Depois caminhou até mim com passos decididos.

- Você mora aqui?

- Claro. - respondi observando suas bochechas avermelhadas na pele clara - Você mora no Bairro do Sol Nascente?

- Eu moro em todo lugar. Mas, se quer saber se conheço o bairro, a resposta é sim.

- Mas nunca esteve aqui?

- Aqui não.

Algumas vozes alteradas cortaram o silêncio, junto com passos pesados dentro do trem. Os olhos do garoto se alarmaram.

- Certo, garoto das sombras. Estou adorando essa nossa conversa, mas haveria algum lugar onde poderíamos nos esconder?

Olhei ao redor, para a vegetação escassa, e a única coisa que conclui foi nos deitar atrás dos arbustos.

- Venha. – o chamei.

O garoto obedeceu sem questionar, nem mesmo pareceu incomodado em deitar com suas roupas limpas na terra. Ficamos com as cabeças lado a lado, em silêncio, e notei como ele parecia ter usado algum perfume recentemente.

- Nada, chefe! – uma voz gritou bem perto de onde estávamos – Acho que ele não está por aqui.

- As pessoas estão começando a reclamar. É melhor continuar o caminho. – completou outra.

Escutei a porta do trem abrir e fechar outra vez, mas nenhum de nós se moveu. Cerca de cinco minutos depois o trem voltou a funcionar com toda a força.

- É, isso foi encantador. – o garoto se levantou e espanou a roupa com as mãos – Você, quem é?

- Fred. – o imitei, embora não me preocupasse com o estado de minhas roupas – E você?

- Patrick. Muito prazer. – ele estendeu a mão para mim – E obrigado pela ajuda.

- Não foi nada. – aceitei sua mão, era grande e com dedos longos.

- Alfredo! – escutei uma voz esbravejando perto demais.

Meus pais estavam chegando, ambos com expressões assustadoras, seguidos por minhas irmãs.

- Droga. – resmunguei.

- Alfredo? – Patrick ergueu uma sobrancelha para mim.

- Fred é apelido. – expliquei rapidamente.

- Alfredo, como você pode fazer algo assim! – mamãe exclamou, mas então percebeu o garoto ao meu lado e freou um pouco – Oh, olá.

- Olá, senhora. Meu nome é Patrick. – ele pareceu tão simpático que até meu pai suavizou a expressão.

- Sou Carolina. – minha mãe se apresentou – Esse é Roger.

- Muito prazer, senhor.

Meu pai apertou a mão sem muita certeza.

- Eu sou Adela. – minha irmã, um ano mais nova que eu, deu um passo a frente com uma expressão estranha.

- Olá, senhorita. – os olhos de Patrick brilharam – Por acaso vocês são gêmeos? – ele olhou para mim com surpresa.

- Não. Eu sou mais velho por um ano. – esclareci, ainda estranhando a expressão de Adela.

- Eu sou Arabella. – a próxima irmã se colocou ao lado da mais velha. Também tinha um olhar vidrado.

- Olá. – repetiu Patrick, agora um pouco mais distraído – E você, pequena?

A caçula o olhava com a boca entreaberta. Era pequena demais, suponho, para imitar a expressão das outras duas.

- Anastasia. – ela respondeu num sussurro, ainda o encarando.

Meu pai resolveu tomar as rédeas da situação diante do comportamento pouco comum das filhas.

- Vamos para casa. – ordenou, pegando a pequena Anastasia pela mão.

- Isso, meninas. – minha mãe se apressou em concordar – E você também, Fred.

Contrariadas, minhas irmãs deram meia volta e os seguiram. Fui mais atrás e Patrick se colocou ao meu lado.

- Família grande, meu caro.

- É, pois é. – dei de ombros.

Ele não saiu do meu lado até que estivéssemos em casa. Pensei várias vezes em fazer perguntas sobre sua vida, principalmente sobre o que ele sabia do bairro do Sol Nascente, mas meus pais estavam pertos demais.

Adela, sem perder a oportunidade, girou graciosamente em direção a Patrick e sorriu:

- Gostaria de tomar um café com a gente?

Meu pai franziu a sobrancelha, afinal o café da manhã mal dava para nós seis, mas ele seria incapaz de ser grosseiro com um rapaz tão educado como aquele. Minha mãe, sorriu meio sem graça.

- Eu adoraria! – Patrick respondeu com um sorriso deslumbrante – Se não for atrapalhar. – acrescentou, olhando para meus pais.

- Não, claro que não. – meu pai se apressou em dizer – É nosso convidado.

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