Meu noivo, Caio Menezes, o CEO de tecnologia do momento, me levou ao restaurante mais exclusivo da cidade para o nosso aniversário de três anos.
Então, sua namorada do colégio, Kiara, reapareceu, alegando amnésia. Para ajudá-la a "se recuperar", Caio iniciou um "Desafio dos 100 Encontros" com ela, que viralizou e transformou o reencontro deles num espetáculo nacional.
Eu me tornei a vilã na história de amor deles. Quando reclamei, Caio me trancou numa adega, sabendo da minha claustrofobia severa. Ele deixou Kiara usar o vestido caríssimo da minha falecida mãe e, quando ela o rasgou de propósito, ele jogou seu cartão de crédito para mim e me disse para comprar um novo.
Finalmente decidi ir embora, apenas para ouvir seu verdadeiro plano: ele se casaria comigo pelo status da minha família, mas manteria Kiara como sua amante. Eu nunca fui seu amor; eu era uma ferramenta bonita e de classe para sua ambição.
O ato final veio quando Kiara incendiou meu quarto e me incriminou. Caio gritou que eu era uma psicopata e me deixou para queimar viva.
Enquanto o teto desabava, um estranho arrombou a porta. Ele me carregou para fora daquele inferno e disse: "Sou Heitor Monteiro. Seu marido."
Capítulo 1
O jantar de aniversário foi perfeito, ou assim parecia. Três anos com Caio Menezes, o menino de ouro do mundo da tecnologia, e ele havia reservado o restaurante mais exclusivo de São Paulo, do tipo com uma lista de espera de três meses que ele contornou com um único telefonema. As taças de cristal brilhavam, as luzes da cidade cintilavam lá embaixo, e Caio me olhava com aquele sorriso possessivo que eu costumava confundir com amor.
Tudo estava perfeito até que uma mulher apareceu em nossa mesa.
Ela era linda de uma forma frágil, quebrada, com os olhos arregalados e perdidos.
"Caio?", ela sussurrou, a voz trêmula.
Caio congelou. A taça de vinho em sua mão parou a meio caminho dos lábios. Eu só tinha visto aquele olhar em seu rosto em fotos antigas, um fantasma de um homem que eu nunca conheci.
"Kiara?", ele murmurou.
Kiara Andrade. Sua namorada do colégio. A que partiu seu coração e depois desapareceu cinco anos atrás. Ele me contou a história uma vez, um conto de paixão juvenil e dramática que terminou com ela o deixando por um homem mais rico antes de sumir completamente.
Agora ela estava de volta, alegando ter sofrido um acidente terrível. Ela disse que tinha amnésia, que ver o rosto dele em uma revista tinha acionado um vislumbre de memória, uma tábua de salvação desesperada.
Sua história era uma confusão caótica de hospitais e desorientação, mas Caio bebeu cada palavra. Sua culpa era uma ferida aberta e latejante. Ele havia se tornado um CEO de tecnologia, um titã da indústria, mas naquele momento, ele era apenas um garoto de novo, cara a cara com seu primeiro amor e seu primeiro fracasso.
Para ajudá-la a "recuperar suas memórias", ele elaborou um plano que pareceu um soco no meu estômago. Eles completariam o viral "Desafio dos 100 Encontros" no TikTok. Era para ser uma trend fofa para novos casais, mas para eles, tornou-se um espetáculo nacional.
Da noite para o dia, "Caio e Kiara" viraram uma sensação. O primeiro encontro deles, uma simples visita a uma cafeteria, teve milhões de visualizações. Os comentários choveram.
"Isso é um conto de fadas da vida real! Ele está ajudando seu amor perdido a se lembrar dele!"
"O amor verdadeiro nunca morre. Estou chorando."
"Esqueçam a namorada atual dele, isso é o destino!"
Eu me tornei uma nota de rodapé na minha própria vida, a namorada rica e fria que estava no caminho de um grande romance. A solidão era um peso físico no meu peito.
Finalmente encurralei Caio em seu escritório em casa, os vídeos dele e de Kiara rindo no TikTok passando em loop em seu monitor.
"Caio, isso tem que parar. É humilhante."
Ele se virou para mim, sua expressão não era de desculpa, mas de irritação. Era um olhar com o qual eu estava me familiarizando demais.
"Aurora, você precisa ser mais compreensiva. Não vê o quanto ela está sofrendo? Isso é o mínimo que eu posso fazer."
"E o meu sofrimento?", minha voz falhou. "Ela é sua ex-namorada, Caio. Nós deveríamos nos casar."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo perfeitamente penteado. O gesto era para parecer estressado, mas era apenas impaciência.
"Nós ainda vamos nos casar. Isso é só... um desvio. Assim que as memórias da Kiara voltarem, tudo voltará ao normal. Apenas seja paciente."
Mas enquanto eu esperava, eu os via nos noticiários, em sites de fofoca, no meu próprio feed de redes sociais. Eu o vi segurar a mão dela, enxugar uma lágrima de seu olho e olhá-la com uma intensidade que ele não me mostrava há anos. A esperança à qual eu me agarrava começou a se desfazer.
Minha vida estava se desfazendo em outra frente também. Um telefonema da minha mãe adotiva, Eleonora Almeida, estilhaçou a última ilusão do meu mundo estável.
"Aurora, está na hora."
Sua voz era fria, transacional. Sempre era.
Eu sabia o que ela queria dizer.
"Clara faz dezoito anos no próximo mês", ela continuou, sem esperar minha resposta. "O pacto com os Monteiro deve ser honrado."
Eu não era uma Almeida de sangue. Fui adotada, um fato que os Almeida fizeram questão que eu nunca esquecesse. Eu era a substituta deles, bonita, elegante e bem-educada. Um ativo social. Mas agora a filha biológica deles, Clara, estava atingindo a maioridade, e eu me tornara um fardo.
O pacto era um acordo antiquado feito por meus pais biológicos antes de morrerem, uma promessa de que a filha deles se casaria com o herdeiro da família Monteiro para solidificar uma antiga aliança familiar. Por anos, os Almeida se agarraram a isso e, por extensão, a mim, pelo status que lhes proporcionava. Agora, era a estratégia de saída deles. Meu casamento arranjado com um homem que eu nunca conheci, um pequeno empreiteiro de uma cidade do interior chamado Heitor Monteiro, era a maneira deles de lavar as mãos de mim.
Eu havia aceitado meu destino. Que escolha eu tinha? Meu relacionamento com Caio era um desastre, e minha família me via como uma mercadoria. Casar com um estranho em uma cidade pequena parecia uma fuga, um fim silencioso para uma vida barulhenta e dolorosa.
Eu já acreditei tolamente que Caio era minha verdadeira fuga. Hesitei em contar a ele sobre o pacto, agarrando-me à esperança de que nosso amor era real, que ele lutaria por mim. Que tola eu fui.
Agora, com o coração em pedaços, o casamento arranjado parecia o único caminho que restava. Decidi contar a Caio, terminar as coisas oficialmente, acabar com isso de uma vez.
Fui até a cobertura dele, minha chave ainda funcionava. Estava prestes a chamá-lo quando ouvi vozes da sala de estar. Era Caio e seu melhor amigo, Léo.
Congelei atrás da parede, minha mão ainda na maçaneta.
"Você vai mesmo continuar com isso?", perguntou Léo. Sua voz estava carregada de incredulidade. "Essa coisa dos 100 Encontros é uma coisa, mas você está destruindo a Aurora."
"A Kiara precisa de mim", disse Caio, a voz firme. "É minha culpa ela estar assim. Eu tenho que consertar isso."
"Enrolando a mulher com quem você deveria se casar?", Léo retrucou. "A Aurora é uma Almeida. Você sabe o que a família dela significa nesta cidade. Você vai mesmo jogar tudo isso fora por um fantasma?"
Então vieram as palavras que pararam meu coração.
"Quem disse que eu vou jogar fora?", a voz de Caio era casual, fria e absolutamente aterrorizante. "A Aurora é perfeita. Bonita, de classe, da família certa. Ela é a esposa perfeita. Assim que a Kiara estiver estável, eu me casarei com a Aurora. Ela será a Sra. Menezes, a anfitriã das minhas festas, o rosto do meu sucesso."
Léo ficou em silêncio por um momento. "E a Kiara?"
Uma risada suave e cruel. "A Kiara é o meu coração. Ela será minha amante. Terei as duas. A esposa perfeita e a mulher que eu realmente amo. É o plano perfeito."
O ar me faltou. Meu mundo inclinou, a cobertura cintilante se transformando em uma jaula. Ele não me amava. Ele nunca me amou. Eu era uma posse, um nome, uma ferramenta para sua ambição.
Afastei-me da porta, meus movimentos silenciosos. Eu não precisava de uma conversa final. Eu não precisava dizer adeus. Ele já tinha dito tudo.
Minha nova vida, seja ela qual fosse, começaria agora.
Enquanto eu saía do prédio, meu celular vibrou com um alerta. Era um novo TikTok da conta de Kiara. Ela estava em um campo de flores silvestres, Caio atrás dela, uma mão protetora em seu ombro.
A legenda dizia: "Encontro #27: Ele lembrou que sou alérgica a rosas e encontrou estas para mim. Ele sempre sabe como cuidar de mim. ❤️"
O sorriso dela era doce e inocente. Uma performance perfeita.
Eu ri, um som amargo e quebrado na rua vazia. Cliquei no botão "bloquear", meu polegar pressionando com finalidade.
Deixe que eles tenham seu conto de fadas. Eu cansei de ser um personagem nele.
O som da porta do meu quarto se abrindo com um estrondo me acordou de um sono agitado. Era pouco depois do amanhecer, mas a força da invasão pareceu um golpe físico.
Caio estava na porta, o rosto uma máscara de fúria. Ele vestia um terno sob medida, parecendo ter acabado de sair de uma reunião de diretoria, mas seus olhos estavam selvagens.
"Onde você estava?", ele exigiu, marchando em direção à cama. "Eu te liguei a noite toda. Você não tem ideia de como a Kiara ficou preocupada."
Kiara. Não ele. Kiara.
"Eu estava aqui", eu disse, minha voz vazia. O homem na minha frente era um estranho. O homem gentil e amoroso que eu pensei conhecer tinha sido uma ilusão cuidadosamente construída. Em seu lugar estava este tirano.
"Não minta para mim, Aurora!", ele agarrou meu braço, seus dedos cravando na minha pele. "Você deveria estar no evento de caridade comigo. Você me envergonhou. Você envergonhou a Kiara."
Seu aperto se intensificou, e eu recuei. Ele nunca tinha sido rude comigo antes. Zangado, sim. Desdenhoso, muitas vezes. Mas nunca assim.
Ele pareceu perceber que havia cruzado uma linha, soltando meu braço como se tivesse se queimado.
"Olha, eu sei que isso é difícil para você", disse ele, seu tom mudando para um de paciência forçada. "Mas a Kiara está frágil agora. Sua cena de ontem à noite a deixou com um ataque de pânico."
"Minha cena?", perguntei, minha voz se elevando. "Eu não fiz nada. Eu estava na minha própria casa."
"Exatamente!", ele retrucou. "Você deveria estar ao meu lado, mostrando a todos que somos uma frente unida. Que você me apoia nisso."
"Apoiá-lo em namorar sua ex-namorada na frente do mundo inteiro?", eu ri, um som oco e sem humor. "Você está delirando."
Seu rosto escureceu novamente, mas antes que ele pudesse responder, uma voz suave e chorosa veio do corredor.
"Caio? Está tudo bem? Ouvi gritos."
Kiara apareceu, envolta em um dos roupões de seda de Caio, o rosto pálido e os olhos vermelhos. Ela parecia uma boneca assustada.
"Me desculpe, Aurora", ela sussurrou, agarrando o roupão com mais força. "Eu não queria causar problemas. Eu só... fico com tanto medo quando ele não está comigo."
Todo o comportamento de Caio se suavizou em um instante. Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços.
"Está tudo bem, meu bem. Não é sua culpa", ele murmurou, acariciando seu cabelo. "Não é sua culpa."
Ele me lançou um olhar venenoso por cima do ombro dela.
"Olha o que você fez", ele articulou silenciosamente.
Ele prometeu a ela que resolveria, que faria com que eu entendesse o meu lugar. Suas palavras eram uma ameaça envolta em uma promessa de proteção para ela.
"Ela precisa aprender uma lição", ele sussurrou para Kiara, alto o suficiente para eu ouvir.
Ele se virou para os dois seguranças enormes que haviam aparecido silenciosamente no corredor atrás de Kiara.
"Levem-na para baixo. Para a adega. Ela pode ficar lá até estar pronta para se desculpar."
Meu sangue gelou. A adega.
"Não", eu sussurrei, recuando contra a cabeceira da cama. "Caio, você não pode."
Ele sabia. Ele sabia sobre a adega. Sobre minha claustrofobia.
Meus guardas, inexpressivos e eficientes, moveram-se em minha direção. Eu lutei, chutando e arranhando, um animal selvagem e encurralado.
"Caio, por favor!", eu gritei, meus olhos fixos nos dele.
Mas ele não olhou para mim. Ele já estava se virando, seu braço protetoramente em volta de Kiara, levando-a pelo corredor como se a estivesse escoltando para longe de um monstro.
A última coisa que vi foi suas costas desaparecendo na esquina.
Os guardas me arrastaram pela escada em espiral até o porão. A pesada porta de ferro forjado da adega se erguia na minha frente. Eles me empurraram para dentro, o cheiro de terra úmida e vinho velho enchendo minhas narinas.
A porta bateu. A fechadura clicou, um som de finalidade que ecoou no pequeno e escuro espaço.
Escuridão. Escuridão apertada, sufocante.
Minha respiração engasgou. Meu coração martelava contra minhas costelas como um pássaro preso. As paredes estavam se fechando, o ar rareando. Eu era uma criança de novo, trancada em um armário pelo meu irmão adotivo como uma piada cruel.
Tinha sido meu décimo aniversário. Os Almeida deram uma festa luxuosa. O filho deles, Juliano, mais velho e sempre ressentido com a minha presença, decidiu que seria engraçado me trancar no armário de roupas de cama durante uma brincadeira de esconde-esconde. Ele se esqueceu de mim.
Fiquei lá por horas. A escuridão pressionava, o ar ficava viciado. Gritei até minha garganta ficar em carne viva, arranhei a porta até meus dedos sangrarem. Quando me encontraram, eu estava inconsciente, encolhida em uma bola apertada no chão.
A claustrofobia fazia parte de mim desde então. Era um terror físico, visceral - um aperto no peito, falta de ar, um suor frio que encharcava minha pele. Era minha fraqueza secreta.
E Caio sabia.
Anos atrás, em um de nossos primeiros encontros, ficamos presos em um elevador. Tive um ataque de pânico completo. Chorei em seus braços, envergonhada e aterrorizada, e contei a ele a história sobre o armário.
Ele me abraçou, acariciou meu cabelo e sussurrou promessas.
"Eu nunca vou deixar nada parecido acontecer com você de novo. Eu sempre vou te proteger. Serei seu porto seguro."
Agora, era ele quem havia trancado a porta. Ele era o monstro no escuro.
A promessa foi quebrada. O porto seguro era uma jaula.
Deslizei pela parede fria de pedra, envolvendo os braços em volta dos joelhos, tentando me fazer menor enquanto a escuridão me consumia. As lágrimas vieram, quentes e silenciosas, um rio de luto pelo homem que eu pensei que ele era e pelo amor que eu pensei que tínhamos.
Era tudo uma mentira.
Horas depois, a fechadura clicou novamente. Um dos guardas abriu a porta, o rosto impassível. "O Sr. Menezes disse que você pode sair agora."
Minhas pernas estavam rígidas, meu corpo tremendo com os tremores do terror. Eu me sentia esvaziada, minha garganta arranhada por gritos silenciosos. Tropecei escada acima, meus olhos piscando contra a luz repentina, meu corpo doendo como se eu tivesse sido espancada.
A cobertura estava silenciosa. Entrei na suíte principal, desejando o simples conforto de um banho, de lavar o cheiro de umidade e medo.
E então eu a vi.
Kiara estava em frente ao espelho de corpo inteiro, virando-se de um lado para o outro. Ela estava usando o vestido da minha mãe.
Era um Dior vintage, um vestido de seda atemporal dos anos 50. Era a única coisa que eu tinha da minha mãe biológica, uma mulher que eu nunca conheci. Era inestimável, não por causa do estilista, mas por causa do fantasma da mulher que o usou. Era minha posse mais sagrada.
Minha respiração ficou presa na garganta. Uma onda de raiva pura e quente me invadiu, queimando o medo e o esgotamento.
"O que você está fazendo?", minha voz era um rosnado baixo.
Kiara se virou, um olhar pequeno e assustado em seu rosto. "Ah, Aurora. Você saiu." Ela alisou a seda. "Não é lindo? Encontrei no fundo do armário. Espero que não se importe."
"Importar?", eu avancei em sua direção, meus olhos fixos no vestido. "Tire isso. Agora."
Ela fingiu um olhar magoado. "Mas é só um vestido. O Caio disse que eu podia pegar emprestado o que quisesse. Ele disse que você não se importaria."
"Ele estava errado", eu disse, minha voz tremendo de fúria. Eu podia ver que ela sabia exatamente o que estava fazendo. Havia um brilho de triunfo em seus olhos que ela não conseguia esconder completamente.
"Saia do meu vestido."
Ela fez beicinho, o lábio inferior tremendo. "Você está sendo má. Eu só queria me sentir bonita."
Enquanto falava, ela deu um passo para trás, prendendo deliberadamente o tecido delicado na quina da penteadeira. Ouvi o som repugnante da seda rasgando. Um rasgo longo e irregular agora corria pela lateral da saia.
Meu mundo ficou vermelho.
Antes que eu pudesse pensar, minha mão voou e acertou sua bochecha. O som do tapa ecoou na sala silenciosa.
Kiara ofegou, seus olhos se arregalando em choque teatral. Ela levou a mão ao rosto, lágrimas brotando instantaneamente.
"Você me bateu", ela sussurrou.
"Você fez isso de propósito", eu sibilei, meus olhos no vestido arruinado. O rasgo era uma ferida mortal.
Ela se inclinou para perto, sua voz caindo para um sussurro venenoso, o ato de vítima momentaneamente esquecido. "Claro que fiz. Não passa de um trapo velho. Caio pode te comprar cem novos." Seus lábios se torceram em um sorriso de escárnio. "Ele vai me comprar cem mais."
"O que está acontecendo aqui?"
A voz de Caio soou da porta. Ele tinha entrado bem a tempo de ver as lágrimas de Kiara e a marca vermelha florescendo em sua bochecha.
Ele avaliou a cena em um único olhar: eu, parada ali tremendo de raiva; Kiara, soluçando piedosamente.
"Aurora, que diabos você fez?", ele rugiu, correndo para o lado de Kiara.
"Ela me bateu, Caio", Kiara chorou, enterrando o rosto em seu peito. "Tudo o que eu fiz foi experimentar um vestido, e ela me atacou."
Ele a abraçou, seus olhos ardendo para mim. "Você enlouqueceu? Olhe para ela, ela está apavorada com você."
"Ela rasgou o vestido da minha mãe!", eu gritei, minha voz quebrando. "Olhe para ele! Ela fez de propósito!"
Apontei para o vestido, para o rasgo feio que parecia um rasgo na minha própria pele. "Caio, você sabe o que esse vestido significa para mim. Você prometeu que o manteria seguro."
Kiara, sempre a mestra da manipulação, espiou por trás do ombro de Caio. "Sinto muito", ela choramingou. "Eu não sabia que era especial. Vou tirá-lo agora mesmo."
"Não", disse Caio, a voz firme, o braço apertando-a. "Você não vai fazer nada disso. Você está linda nele."
Ele olhou para mim, o rosto frio e desdenhoso. "É um pedaço de tecido, Aurora. Acalme-se." Ele enfiou a mão no bolso, tirou a carteira e jogou um cartão de crédito preto na cama.
"Aqui. Vá comprar um novo. Compre dez. Eu não me importo. Apenas pare de agir como uma criança."
Eu olhei para o cartão de crédito, depois para o rosto dele. A crueldade casual de seu gesto roubou o ar dos meus pulmões.
Anos atrás, quando lhe mostrei o vestido pela primeira vez, ele traçou as costuras delicadas com um dedo reverente. Ele ouviu enquanto eu lhe dizia que era tudo o que eu tinha da minha mãe. Ele havia prometido construir uma caixa climatizada para ele, para protegê-lo para sempre. Ele entendia que seu valor não estava em dinheiro, mas em memória.
Agora, ele estava jogando dinheiro em mim como se isso pudesse consertar o buraco que ele e Kiara haviam rasgado na minha vida.
Ele me deu as costas completamente, sua atenção focada apenas em Kiara. "Vamos, querida. Vamos tirar você daqui."
Enquanto ele a levava para fora do quarto, eu podia ouvi-lo murmurando para ela, sua voz suave e reconfortante. "Não se preocupe, eu te levo para fazer compras. Vamos comprar um guarda-roupa novo inteiro para você, tudo o que você quiser."
Fiquei sozinha na sala silenciosa, com o vestido arruinado e o cartão de crédito preto na cama. Um monumento às suas promessas quebradas.
Caí no chão, meu corpo sacudido por soluços que não tinham som. Não era mais apenas sobre o vestido. Era sobre cada promessa, cada "eu te amo" sussurrado, cada sonho compartilhado.
Ele havia pegado todos eles e os incendiado.
Lentamente, me levantei. Fui até a cama, peguei o cartão de crédito e, com uma onda de fúria fria e clara, o quebrei ao meio. O estalo agudo foi o som do meu coração se partindo pela última vez.
Ele não era apenas um mentiroso. Ele era um monstro. E eu cansei de ser sua vítima.