Eu a vi. Depois de seis anos mantendo-a morta na minha mente, eu a vi. Desejei, naquele
momento, que a terra tivesse se aberto para eu desabar, afinal, já estava no inferno mesmo.
Foi ontem, sábado.
Desde que me separei de Lílian, há mais ou menos quatro anos, mantenho uma vida livre de
solteiro. Não quero pensar em me envolver novamente. Mulher para mim, a partir de então, existe
apenas porque não consigo ficar sem por questões óbvias.
Saio só com aquelas que sabem que comigo será sexo casual de uma noite; elas precisam ficar
cientes de que não vou me apaixonar, não vou me prender e não vou telefonar no dia seguinte. Não
pensem em arrogância e coração de pedra. Isso é prevenção.
Eu me previno para não cair novamente em cilada. Só um veterano de guerra é capaz de saber o
que um campo de batalha lhe reserva. Antes do casamento, juro que eu não era esse homem
meticuloso no quesito foda. Pelo contrário, não tinha preocupação alguma.
***
Eu bem que queria ter ficado em casa, jogado no sofá coçando o saco, despreocupado,
assistindo a qualquer besteira. Mas fui na conversa de Max e Davi, e acabei vendo o que não queria.
Davi é meu irmão, e Max, nosso amigo. Não só somos amigos de adolescência, como também
conduzimos, em um tríplice poder, a diretoria da AMB - Banco de Investimentos e Consultoria
Financeira.
Três jovens fundaram essa empresa há vinte anos: Assumpção, Meyer e Brant. Agora, dois
faleceram e um está em cima de uma cama. As tragédias não aconteceram ao mesmo tempo. A
primeira foi com o pai de Max. Ele morreu de câncer cinco anos atrás. A segunda foi com meu pai,
que faleceu em um acidente. E, por último, Jonas Assumpção sofreu um infarto agressivo há duas
semanas, mas não morreu. Ele teve de ser afastado da empresa.
Assumpção tem apenas duas filhas. Uma se casou e mora em outra cidade, e a outra filha sumiu
para Deus-sabe-onde, nem mesmo aparecia para visitar o pai ela. Sei muito bem o motivo de ela ter
sumido, e, sinceramente? Isso me mata toda vez que lembro, toda vez que meu corpo cisma em
queimar de saudades daquela garota.
E acho que vocês já perceberam a quem estou me referindo.
Essa coisa de remoer o passado não acontece todos os dias; talvez apenas uma vez no mês.
Sempre acontece quando algo desencadeia uma lembrança dela: um detalhe, uma garota ruiva
passando, uma personagem de quadrinho de cabelos de fogo, ou até mesmo uma ida à casa da
mamãe, onde tudo aconteceu. Então me pego pensando sobre o que aconteceu com ela, por onde
anda, com quem está, se já casou ou virou lésbica, se tem dinheiro ou vive de esmolas. E aí vem a
culpa e o autojulgamento por ter sido um troglodita.
Voltando para o presente: Jonas era o diretor financeiro da AMB, e agora a parte do trabalho
dele ficou sob minha responsabilidade e também do meu irmão Davi.
Conclusão: sem Jonas por lá, nós três somos os legítimos mandachuvas da AMB. É isso mesmo,
os fodões do pedaço.
Sou, modéstia à parte, um conceituadíssimo Controlador Regional de Finanças, Max (que se
chama Maximiliano) é Gerente Tributário Sênior, e Davi, meu irmão, é Consultor Financeiro Sênior.
Não posso falar pelos outros, mas ganho, em média, uma bagatela de 40 a 50 mil por mês. Uma festa
para um homem solteiro que não tem muito com o que gastar. Não sou bilionário, mas digamos que
tenho uma vida confortável, um carro legal, um apartamento legal, em uma parte legal da cidade.
Nós fazemos negócios com boa parte do mundo, com foco no Brasil, no Japão, no Canadá e nos
Estados Unidos. Ajudamos a reerguer empresas que estão no buraco, ou negociamos com novos
compradores. Temos desde clientes pequenos, como aquele casal de idosos que quer investir as
economias em alguma coisa lucrativa, como também clientes raríssimos, que simplesmente
resolveram acreditar nos três jovens empreendedores para investir, ou buscam consultoria com a
gente.
Somos executivos de respeito. Trabalhamos arduamente a semana toda, mas, no final de semana,
nada nos impede de sair e cair na farra. Isso é meio comum no mundo dos engravatados.
No último sábado, à noite, nós três saímos, escolhemos o lugar mais quente e boêmio do Rio, e
fizemos a festa. E, graças a Deus, o Jorge não estava lá.
Jorge é um filho da mãe imbecil, advogado da empresa e queridinho de Jonas Assumpção. Acho
que é afilhado ou sobrinho, uma coisa assim. Ou seja: ele é um pentelho desgraçado e intocável. E
sempre temos o azar de esbarrar com ele em nossas noites de liberdade. Que o infeliz não cruze meu
caminho hoje. Vou logo avisando: fora da empresa, não sou um executivo de respeito, mas apenas um
homem com um punho pesado.
Será que dá para ver todos esses olhares cobiçosos para os três garanhões? Sim, somos
requisitados, e sabemos direitinho a fama que temos pela cidade. Além dos negócios, fazemos
questão de impor nossa imagem nas rodas da alta sociedade, por isso escolhemos lugares
estratégicos para deixar nossa marca. Consequência: lista de espera de pretendentes. Mas a vida não é
só chegar e pegar. Desculpe, gatas, somos seletivos, e, se vocês não tiverem uma boa bunda, ou
peitos apetitosos para compensar, bom caráter não vai nos comprar.
Oi! Espere aí!
Não pare de ler porque fui sincero. Sem essa de ficar com raivinha de mim. Muitos homens, seu
namorado ou marido talvez, não vão dizer essas coisas na sua cara, mas pensam nisso, com certeza.
Mulheres têm um sexto sentido. Homens também, e o sexto sentido masculino tem um nome, ou
melhor, vários: pinto, peru, pau, pênis, pica, etc.
- Ei, cara, será que você já não olhou bundas demais? É hora de escolher uma - Davi adverte
Max. Estamos acomodados em uma mesa, tomando cerveja e observando a movimentação das
pessoas se balançando no centro da boate.
- Calma. Só quero ter cuidado para não ser dedo podre como o Enzo. - Ele olha para mim e
faz um gesto sugestivo com a sobrancelha. - Lembra o que aconteceu com ele semana passada?
Eles falam de mim como se eu nem estivesse aqui.
- Vai se ferrar - insulto, com um tom de voz elevado.
- Tá. Quem se ferrou foi você. Que fora, cara.
- Pelo menos ele descobriu a tempo - Davi fala em meu socorro.
Eles estão falando sobre eu quase ter pegado um travesti na semana passada. Era muito parecido
com uma mulher, e só me dei conta do perigo quando outro igual a ele se aproximou e acabou com a
festa do sujeito, dizendo, com uma voz grossa: - Ei, bicha, conseguiu um gatão, hein?
Eu estava bêbado, mas, mesmo assim, queria acertar a cara do imbecil. Sorte que os rapazes não
permitiram, senão iriam, com certeza, dizer que eu estava sendo preconceituoso. Pra porra com
preconceito. Pego trinta anos de cadeia fácil, mas marmanjo nenhum rela a mão em mim. E pensar
que ele apalpou meu pau... e eu quase o beijei. Não sei o que seria de mim se o tivesse beijado.
- O lugar era outro, aqui não tem esse tipo de gente - ralho de cara feia. Cruzo os braços e
encaro Max de modo ameaçador. Ele nem liga.
- Você está sendo preconceituoso - Max alerta. No rosto dele vejo um repuxar debochado de
lábios.
- Pimenta no cu dos outros é refresco. Deixa um cara desses pegar no seu pau, aí quero ver se
você continuará com essa opinião - gesticulo, bravo. - Que se dane a porra dos direitos humanos.
- Mas seu histórico não é de agora, Enzo - Max continua implicando.
Davi revira os olhos e vira o rosto para duas loiras que estão de olho na gente. Ele me cutuca e
olho também. Daqui não consigo ver direito os rostos, elas estão do outro lado e há luzes, mas por
um momento penso que são familiares. Alguma ex, com certeza; sempre topo com garotas que já
peguei. Dou uma piscadinha para elas e fico mais animado quando pegam as bebidas e vão na direção
de uma mesa onde há uma garota sozinha sentada. Está de costas, mas vejo que é ruiva. Não sei se já
contei, mas tenho um fraco por ruivas. Elas são raras, únicas. São puro fogo.
- Que porra é essa agora, Max? - Ouço a voz de Davi e viro-me para eles.
- Estou dizendo que seu irmão é amaldiçoado com mulheres. Desde que ele se recusou comer a
louca que o perseguia há uns seis anos.
- Lá vem você com essa conversa de novo, seu filho da puta - vocifero.
- E não é verdade? Você ficou bem abalado com a história. - Ele abana os braços e, fazendose de revoltado, emenda: - Nem quis nos dizer quem era a fulana.
- Vou pegar umas cervejas antes que esse safado coloque a piranha da Lílian no meio, aí o
bagulho vai engrossar, e vamos sair no braço.
Levanto-me e deixo-os na mesa debatendo sobre o fim do meu casamento. Ouço meu irmão
traidor rindo junto com Max.
Sei que, às vezes, eles gostam de zoar comigo pelo fato de minha esposa ter me chifrado com o
motorista da autoescola. Agora, sou um homem de 34 anos e divorciado. Não era nem para eu ter me
casado; não sei onde estava com a cabeça quando arrumei aquele rolo.
Vou direto ao banheiro para urinar, com os sentidos triplicados, em alerta total. Depois da
semana passada, desenvolvi um trauma, e o banheiro masculino é um dos lugares onde o perigo é
maior.
Entro, posiciono-me meio de lado, em frente ao mictório, olhando pra porta e para um cara do
outro lado. Termino e saio rápido. Nem me dou ao luxo de lavar as mãos, afinal, não peguei em nada
mesmo, só no meu pau.
Volto para o bar. De longe, vejo Davi e Max conversando com duas garotas que estão em pé,
perto da mesa deles. Percorro com o olhar o ambiente e deparo com a mesa daquelas garotas que vi
há pouco. As duas loiras já estão acompanhadas por dois caras.
Já era. Elas arrumaram parceiros. Meus pensamentos desanimados me fazem suspirar.
Fico com uma ponta de inveja deles que, hoje, vão mandar ver bonito nas gostosas.
Pego minha cerveja e dou a primeira golada. Estou de costas para o bar, de olho na pista de
dança tentando encontrar uma presa fácil. Então, ouço uma voz macia e suave ao meu lado, meio
gritando por causa do som: - Uma Coca Zero, por favor.
Viro-me e vejo a visão da glória. É a ruiva. Ela está de costas para mim. Usa um vestido sem
mangas, mas comportado, com comprimento um pouco acima dos joelhos, deixando à mostra parte
das pernas perfeitas.
A bunda é um deus nos acuda. Tudo do que um homem precisa para ser feliz; eu dormiria
aconchegado nessa bunda pelo resto da vida. Sinto uma necessidade desgraçada de pegar nos cabelos
dela.
- A noite parece estar fraca. Uma Coca Zero? Fala sério - digo, e ela se vira para me olhar.
Foi aí que eu quis que a terra se abrisse para me engolir. Fui pego no susto e demorei para
recobrar, pelo menos, as batidas cardíacas, porque a respiração já era. Nunca achei que uma pessoa
pudesse ficar mais bonita com o tempo. Quer dizer, bonita é pouco perto dessa força da natureza que
está em minha frente, encarando-me como se eu fosse o pior tipo de homem do mundo.
Devo estar patético: de boca aberta, rosto pálido (apesar das luzes) e mãos trêmulas.
Maria Luíza.
Minha perdição.
Meu inferno.
Meu pior castigo.
A maioria de nós, homens, consegue perceber o perigo, mesmo que, às vezes, caiamos em
ciladas, como caí com o travesti e com a Lílian. Mas também temos aquele sexto sentido que nos
alerta de vez em quando. Pena que nosso sexto sentido não detecta o perigo nas mulheres. Entretanto,
detectei perigo assim que vi a bela e jovem Maria Luíza, Malu, como era chamada. Eu disse que tinha
fraco por ruivas, não é? Pois ela é minha ruiva predileta, uma ruiva legítima. Linda, como se tivesse
saído de uma revista. Parecia uma boneca quando tinha dezoito anos. No dia em que eu a revi, depois
de anos, soube que estava ferrado. Ela me encantou, sorria sempre para mim e começou a me
perseguir. Foi um inferno ter de fugir de Maria Luíza.
Se eu tivesse cedido à minha obsessão, creio que coisas piores poderiam ter acontecido. Meu pai
ainda estava vivo, era o melhor amigo do pai dela, tinham acabado de perder o outro sócio, e a
empresa estava meio cambaleando. Imagine, junto a isso tudo, eu comendo a princesinha deles?
Agora, seis anos depois, ela parece uma serial killer gostosona.
Na época, a melhor saída foi humilhá-la, para que ela me deixasse em paz e eu pudesse remoer
minha paixão doentia sozinho. Agora, já não sei se aquela foi a melhor saída.
- Maria Luíza - sussurro, impressionado. Ela apenas me encara. O homem do bar lhe entrega
o refrigerante, e ela agradece com um sorriso sincero. Quando me olha novamente, não há mais
sorriso. Só um olhar mordaz.
E, então, ela simplesmente vira as costas e sai. Eu poderia ter voltado com o rabo entre as pernas
para minha mesa e pronto. Mas fui um idiota e corri atrás dela, trombando nas pessoas.
- Espera! Malu, você...
Seguro no braço dela. Parando de andar, como naqueles filmes de terror, ela começa a se virar
lentamente. A menina de O Exorcista, sabe? Só falta a baba verde, pois a expressão é a mesma. Noto
que seus dedos em torno da latinha de Coca estão meio esbranquiçados por causa da força que ela
está colocando.
- Pode, por favor, manter sua mão longe de mim? - ela pede, em uma ordem rouca e
compassada.
- Desculpa. - Solto-a imediatamente.
Que bundão estou sendo. O pedido de desculpa saiu tão rápido e automático que nem tive como
impedi-lo.
Ela respira fundo, dá um último olhar aniquilador para mim, um giro rápido nos saltos, passa
pelas pessoas e volta para a mesa.
Toma, distraído. Minha própria mente zomba de mim.
***
- Tô indo pra casa - aviso aos rapazes quando chego à mesa. Há duas garotas com eles e,
incrivelmente, ignoro ambas. Davi é um safado. Ele acabou de voltar com Sophia, e fica se
esfregando com desconhecidas nas baladas.
- Indo embora? Por quê? Pegou outro travesti? - Davi arregala os olhos, e Max dá uma
gargalhada.
- Deixa de ser sonso, Davi. Apenas quero ir.
Saí sem mais explicações, e agora aqui estou.
É segunda-feira de manhã e ainda não consegui tirar aquela expressão de ódio da minha mente.
Passei o dia de ontem, domingo todo, praticamente na cama, só pensando no que havia acontecido.
Mas o que eu poderia esperar? Que ela pulasse em cima de mim e implorasse que a comesse, depois
de eu tê-la chamado de puta e vagabunda?
Nada disso dói tanto como quando descobri que sempre estive errado sobre a reputação de Malu.
Eu tinha de afastá-la e, quando soube que ela, possivelmente, era uma vadia, juntei o útil ao agradável.
Usei isso contra ela, meu maior erro. A mulher pode ser mais rodada do que pneu de caminhão, mas
não quer que um homem jogue isso na cara dela. É como falar que uma gorda é gorda.
Descobri meu engano em um dia qualquer, quando o pai de Malu ainda estava muito bem de
saúde e conversávamos. Ele lamentava o afastamento brusco da filha caçula, sua princesinha. Não
sabia o motivo de ela ter sido tão fria com ele. Foi então que esoltou algo assim: - Eu sempre soube
que ela era igualzinha à mãe, determinada e destemida. Mas não esperava que ela partisse daqui tão
rápido quanto chegou.
Fiquei meio desesperado na hora, claro que entendi certo. Clarisse, a esposa dele, foi a maior
puta que já conheci. Ela até quis dar para mim e para os rapazes uma vez, nós três ao mesmo tempo.
Gulosa.
Não era possível que havia sido um mal-entendido sobre a reputação de Malu.
- Então, Malu é igual à mãe dela? - intrigado, perguntei.
- Não, filho. Não igual. Malu odiou a mãe quando descobriu o que ela fazia pelas minhas
costas. Minha filha tem um controle absurdo, ela tem autorrespeito, e se preocupa com a essência,
acima de tudo. Nunca Malu foi interesseira ou vadia como a mãe.
- Mas achei que ela... - aflito, comecei a falar, mas ele me interrompeu: - Seria um pecado
insinuar que as duas fazem as mesmas coisas. Elas são iguais apenas nessas duas características:
determinação e coragem.
***
Agora, estou destruído. Depois da confissão de Jonas, sofri mais do que condenado, culpandome. Por minha causa, Malu foi humilhada e se distanciou do pai, que nem conhece o motivo do
afastamento. Será que ele sabe que ela está na cidade? Hoje mesmo vou visitar Jonas.
Termino de me vestir e saio do meu apartamento. Com a cabeça cheia de pensamentos
perturbadores, dirijo meu Mercedes conversível top fodão até o prédio comercial da AMB.
Davi e Max, com cara de ressaca, me esperam na recepção. Estão cochichando sentados na sala
de espera, inclinados para frente, um em direção ao outro. Um deles tem o cenho franzido, e o outro,
os olhos arregalados. Eles param de conversar assim que me veem, e se levantam prontamente.
- Jorge tem um plano maligno - Davi atira primeiro.
Coloco meus pensamentos em ordem. Guardo, por um instante, tudo o que diz respeito a Malu e
sua família, e relembro os assuntos relacionados com nosso distinto advogado. Por que ele não
apronta na rua? Sabe que, aqui dentro, não posso bater nele.
- Jorge - digo, como para me situar. - O que ele fez agora?
- Há uma reunião da presidência, ele que marcou - Max anuncia.
- Como assim? - Percorro rápido meu olhar chocado entre os dois. - Nós três somos a
presidência. Ele não pode mandar nem na mulher que limpa os corredores; é só a porra de um
advogado.
- Eu também disse isso a ele. Acontece que ele foi muito presunçoso e convencido ao esfregar
na minha cara um comunicado escrito e assinado pelo próprio Jonas - Davi explica, magoado.
- Então quer dizer que...
- Não sei ao certo, Enzo, mas o que presumo é... - Davi para de falar e olha para Max.
- Que a parte dos Assumpção pode passar para as mãos do bunda-mole - Max conclui, sem
medo de falar.
- Isso não pode acontecer. Jonas não pode, simplesmente, colocar qualquer merda na diretoria.
- Olha eu começando a ficar nervoso. Que ser humano pode aguentar passar por isso em plena
segunda de manhã?
- Acho que pode, desde que a pessoa tenha uma procuração - Davi revida.
- Caralho! Estamos fodidos, então?
- Como nunca estivemos - Max concorda e anda na direção dos elevadores, acompanhado
por mim e Davi, calados e taciturnos, como se estivéssemos indo para a forca. Estamos desesperados,
e ferrados por aquele perdedor, o porre da empresa.
Não vou conseguir suportar aquele cara. Acabarei amassando o rosto imbecil dele com meu
punho, e terei um processo nas costas tramitando em algum tribunal. Posso prever isso.
Não sei, ao certo quando começou nossa repulsa por Jorge. Ele nunca fez nada diretamente pra
gente. Acho que foi mais por ciúmes. Vou explicar o porquê: eu e Davi conhecemos Max por quase
nossa vida toda. Ele, sendo filho único, não saía lá de casa. Estudamos juntos, fomos juntos para a
faculdade, compramos briga um pelo outro, e, se um não quer mais uma mulher, passa para o outro
experimentar.
Sempre saímos juntos, sem precisar de outros caras. Afinal, mais de três homens juntos pela
noite não ia ficar muito bem.
É sábado na balada, e sexta à noite na casa de algum dos três. Sexta é a noite dos homens.
Fazemos campeonatos de Fifa no Xbox, ou jogamos baralho enquanto secamos algumas caixas de
cerveja. Se algum de nós estiver com uma garota, ela precisa entender e abrir mão da sexta-feira.
Simples assim, e tudo sai bem.
Então, de repente, chega um sujeitinho do nada, vem de outra cidade e simplesmente começa a
ser o favorito de Jonas e dos nossos pais. Jorge é aquela pessoa mosca-morta que quer agradar a
todo mundo, quer ser o melhor, e que, provavelmente, limpa o pau em lenços umedecidos depois de
gozar. Sou bem capaz de afirmar que ele usa duas toalhas no banho, uma nos cabelos e outra no
corpo. E pronto. Foi apenas isso, e o ódio bateu.
***
Corro, antes da reunião, até a minha sala, pego o telefone para ligar para Jonas e saber que
absurdo é esse. Ele prometeu que eu cuidaria de tudo enquanto ele estivesse afastado. Pelo amor de
Deus! Tenho a procuração; ele deveria ter me comunicado antes de avisar todos.
Antes de a ligação se completar, Marisa, a secretária, coloca a cabeça para dentro da porta.
- Enzo, o pessoal te espera na sala do senhor Jonas.
- Claro - assinto; desligo o celular e corro para a sala que, antes, Jonas ocupava. Agora ela
está vazia, ninguém foi para lá. Fico indignado em pensar que aquele merda quer sentar na cadeira de
um dos patriarcas da empresa.
Abro a porta, cumprimento cordialmente cada um dos presentes e me sento ao lado de Davi. Não
vejo Jorge por perto.
- Cadê o babaca? - cochicho. Davi encolhe os ombros.
Imaginem só isto: nós três, os homens mais poderosos desta empresa, os caras mais cobiçados
da cidade, sentados como a ralé, à espera da digníssima presença do ilustre Jorge. Dá vontade de
esmurrar a parede.
Não tenho tempo para nervosismo. A porta se abre e Jorge entra. Cumprimenta calorosamente
todos e olha de modo fixo para mim, com aquela cara de deboche. Ele sabe que, dos três, eu sou o
que mais o odeia.
- Bom dia a todos. - Ele se posiciona atrás da mesa de Jonas, mas não se senta. - Estou aqui
em nome do querido Jonas Assumpção para dizer que ele tomou uma decisão sobre seu cargo aqui
na empresa.
Ele para de falar, olha para nós três e, em seguida, para o pessoal do conselho administrativo.
- Até ontem, Enzo Brant e Davi Brant cuidavam dos interesses do senhor Jonas, mas informo,
agora, que a procuração que foi dada a eles não tem mais poder legal algum.
- Explique isso direito, George - Max fala, dobrando a língua e pronunciando o nome em
inglês, só para provocar.
- Eu, como advogado da empresa e sobrinho de Jonas...
- Meio sobrinho - Davi interfere.
- Tanto faz. - Ele esnoba Davi e continua, imponente: - O caso é que Jonas confiou em mim
para dar a seguinte notícia: a partir de hoje haverá, por tempo indeterminado, alguém ocupando esta
cadeira. - Ele pega um papel e passa para a gente. - Essa é a procuração legal. A nova integrante
deste conselho terá o mesmo poder que vocês três têm aqui dentro.
Antes mesmo de ler, levanto os olhos e o encaro.
- Não é você?
- Não. Lógico que não. - Um ar vitorioso passa pelo rosto dele.
- Sou eu - diz uma voz que vem da porta, e todos se viram. Menos eu. Conheço a voz, até
mesmo entre os gritos de dor no inferno. Sinto uma batida falha no meu peito, e um nó aperta minha
garganta.
OK. O universo estava de boa cuidando da sua vida quando, de repente, pensa: Eu poderia me
unir ao destino para foder com a vida de um humano. Vamos fazer um sorteio com o nome de todo
mundo, e voilá! Enzo Brant vai ser ferrar a partir de segunda-feira.
- Maria Luíza? Você não estava estudando fora? - Davi pergunta. Levanto os olhos e ela já
está atrás da mesa, ao lado do merdinha do advogado. Os dois trocam sorrisos, e fico estático.
- Aparentemente, já estou no Brasil de novo - ela ironiza, sem perder a pose.
Está mais linda do que no sábado. O cabelo preso no alto da cabeça, com mechas avermelhadas
caindo macias pelos ombros. A camisa de seda que ela usa é comportada, e mantém os seios lindos e
redondos bem discretos. Ela olha para mim e só há uma reação: desprezo.
- Para quem não me conhece, sou Maria Luíza Assumpção. Me formei em economia, e meu pai
está muito orgulhoso por eu ter aceitado assumir o lugar dele. - Ela sorri cheia de charme, mas
algo me diz que o sorriso é falso. - Creio que o peso estava muito grande para os irmãos Brant.
Estou certa, senhores? - Levanto os olhos mais uma vez e assinto. Nossos olhares se encontram,
mas ela nem parece afetada. - Então, isso é tudo. Marquei esta reunião apenas para informá-los da
minha presença de agora em diante. Não quero que me tratem como se eu fosse meu pai. Sou uma
mulher normal, comunicativa e carismática. Quero manter uma boa relação com vocês, e também
que sigam as mesmas regras que meu pai e os senhores Augusto Meyer e Otavio Brant decretaram no
início. Exijo respeito acima de tudo, não só a mim, mas também a todos os funcionários, do faxineiro
aos membros da diretoria. - Ela se cala, passa os olhos por todos na sala e respira fundo para
continuar a falar: - A partir de hoje, ficarei nesta sala até meu pai voltar. Quando esse dia chegar,
não sairei da empresa, apenas me afastarei deste cargo. Alguma pergunta?
- Por mim, tudo bem - Max diz, de olho nos peitos dela. Davi também concorda. Eu escolho o
silêncio.
- Só mais uma coisa - ela levanta um dedo. - Antes de dispensá-los, quero tratar de um
pequeno assunto meio constrangedor.
Maria Luíza olha para Jorge, depois para mim. Fica alguns segundos mirando meus olhos,
depois diz, um tanto calma: - É sobre relacionamentos amorosos entre funcionários da AMB.
Nem olhe pra mim. Não estou comendo ninguém aqui dentro, penso, tentando lembrar se houve
algum deslize e meu pau acabou escapando sem querer das calças. Não tem como, a maior parte dos
funcionários é formada por homens e, neste andar, a única mulher é Marisa, casada e com cinquenta
anos.
- Essa regra não é nova; nós a seguimos com rigor - Davi antecipa.
- Eu sei. - Ela sorri para meu irmão, e é o sorriso mais lindo que já vi. Eu tinha me esquecido
de como é maravilhoso vê-la sorrir. Sabe uma sensação de paz? É o que o mundo sente quando Malu
sorri. Mas ai, quando ela olha pra mim... paz é o caralho! Guerra é o que vejo.
- Quero avisar vocês sobre o meu relacionamento. Não comecei a namorar alguém; já cheguei
namorando uma pessoa que trabalha aqui.
Arregalo os olhos. Agora sim preciso de um desfibrilador. Ela se prepara para foder geral,
enfiou a cabecinha. Um suspense total toma conta apenas de mim. Fixo meus olhos nos dela, exijo
resposta. Ela me fita, destemida. Desde que entrou na sala, passamos um bom tempo mantendo
contato visual.
Malu pigarreia, olha para Jorge e sorri.
- Jorge, além de advogado da empresa, é meu namorado. - Pronto. Socou tudo até o talo. -
Estou comunicando apenas para isso não ficar chato entre a gente. Em todo caso, prometemos manter
decoro na empresa. Prometo que ninguém vai presenciar cenas desconcertantes. Pronto. A reunião
está encerrada; tenham um bom dia.
Estou estático, olhando para os dois sorridentes, e sinto gosto de fel na boca. Me trollou legal.
Todos começam a se levantar. Antes de saírem, fazem uma fila para cumprimentá-la. Eu ainda
estou sentado, com os dentes trincados e o maxilar rígido e dolorido. Semicerro os olhos na direção
do casal perfeito. Ela não poderia ter escolhido uma forma mais cruel e baixa de me apunhalar.
Namorar esse cuzão? Como ela pôde descer tão baixo?
Faço uma análise rápida.
Maria Luíza voltou com tudo.
Bonitona.
Corpão de mulher.
Competente.
Determinada.
E traiçoeira. Ela tem um plano maquiavélico. Qualquer um com cérebro pode ver. Menos meu
irmão e Max, que já estão sorrindo de orelha a orelha diante da minha mais nova parceira de
negócios e rival ao mesmo tempo.
***
Sozinho na minha sala, estou quase afundando o chão de tanto andar. Já tomei umas três doses de
uísque.
Hum, delícia! Aquela bunda... Estou salivando.
Tô ferrado. Isso é fato. Não só terei de lidar com meu caso crônico de pau duro toda vez que
cruzar com ela andando por aí, como vou ter de tentar controlar as explosões de raiva quando eu a
vir com aquele merda. É sério isso? Malu e Jorge? Deus me faça acordar agora, porque não quero
viver neste mundo cruel.
Será que ela ainda sente por mim a mesma obsessão de seis anos atrás? O que terei de fazer para
descobrir isso?
Colocar Maria Luíza contra a parede e tentar arrancar isso dela talvez seja difícil, mas de certo
maravilhoso. Coloco mais uma dose de uísque no copo e caio no sofá. Camisa pra fora da calça,
meio desabotoada, e gravata folgada no pescoço.
No momento, só quero remoer. Pensarei com racionalidade mais tarde.
Nunca imaginei que um dia fosse trabalhar na AMB. Na verdade, sempre quis seguir o balé
clássico. Mas, depois do que o cafajeste falou pra mim quando eu tinha apenas dezoito anos, minha
cabeça mudou. Fiz das tripas coração, e me reinventei nesses últimos seis anos.
Queria voltar e mostrar àquele miserável que ele sempre esteve enganado a meu respeito. Era
uma necessidade doentia fazê-lo enxergar isso. E, Deus me perdoe, mas papai adoeceu em um
momento oportuno. Eu não poderia ter voltado em um cargo melhor: igual a Enzo, no mesmo nível.
Estou radiante de felicidade.
Apenas duas coisas me incomodam. A primeira é que Enzo está um arraso de tão lindo. É quase
ilegal. Nada mais de rosto liso; agora ele usa uma barba cultivada por uns cinco dias, bem-aparada.
Coisa de deixar qualquer mulher louca. Merda! O cara ficou gostoso demais, e tenho medo de que
isso possa me prejudicar. E a segunda diz respeito ao namoro meio forçado com Jorge.
Ele é meu primo, uma boa pessoa, e fico meio chateada em ter de enganá-lo, mas, segundo as
meninas, é isso ou ter de encarar o desgraçado do Enzo como se eu fosse uma incompetente sem
ninguém na vida. Deixarei esse papel para ele, agora que está divorciado.
Ah, sim. Quase me esqueci de debochar sobre isso. Ele foi traído. Corneado. Chifrado. Quando
eu soube, senti vontade de vir ao Rio para rir na cara dele. Mas me controlei e fiquei de longe, só
observando.
***
Esta noite eu não dormi direito, só na expectativa. E minha chegada foi melhor do que sonhei:
triunfal, mágica, quase um eclipse total. Adorei cada momento, cada expressão de Enzo, cada
arregalar de olhos. Fiquei horas na cama, relembrando com o sorriso do coringa estampado na
minha cara.
Levantei-me como uma diva. Tomei banho, preparei café, me vesti adequadamente e arrumei
meus cabelos. Tudo ao som da minha voz cantando, como em um musical da Broadway, sentindo-me
a Barbra Streisand em Funny Girl. Tentem, algum dia, pisar nos adversários com salto quinze. É
rejuvenescedor.
***
Júlia me preveniu que, devido ao histórico de cara de pau de Enzo, é bem capaz de eu receber
uma visita a qualquer momento. Homens simplesmente não sabem perder, e não querem ser
ignorados. E dei todos os motivos para Enzo ficar desconfortável. Ignorei-o, voltei linda, poderosa, e
ainda namorando o cara que ele mais odeia.
Rá! Fiz a lição de casa direitinho e, quando soube que ele e os amigos nutrem sentimentos ruins
em relação a Jorge, não pensei duas vezes: aproximei-me do meu primo e agora estamos juntos, há,
exatamente, dois meses. Não vou dizer que é ruim. Jorge é bonitinho, carinhoso e independente. Não
é perigoso, selvagem, nem gostoso como Enzo, claro, mas está valendo. O importante é que
funcionou.
É impagável a cara que os três fizeram quando apresentei Jorge como meu namorado. Eu queria
tanto ter tirado uma foto e mandado para Júlia. Ela iria fazer um pôster e colocar em sua sala.
Júlia e Dani conhecem todos os babados a respeito desses três. Davi está namorando agora,
voltou com uma namorada antiga; Max e Enzo tentam corromper o coitado. Júlia e Dani vêm
observando-os há tempos, e Júlia meio que desenvolveu um sentimento platônico por Max. Não
consigo entender como alguém tão centrada, esperta e amorosa como Júlia pode se interessar por um
homem bonito e rico, mas que usa o pênis para raciocinar. Dos três, suspeito que Max seja o mais
idiota. Ou é o Enzo? Ou Davi? Deixa pra lá, são todos da mesma laia.
***
Minhas primeiras horas na empresa foram satisfatórias. Marisa e Jorge me levaram para
conhecer todo o prédio. Depois, desempacotei algumas coisas e organizei-as na minha nova sala.
Não vou redecorar, apenas trouxe umas coisinhas minhas para enfeitar o lugar. Papai me deu carta
branca para fazer o que eu julgasse melhor, nunca o vi tão feliz em toda minha vida. Esqueci tudo o
que Enzo me disse sobre a comparação com minha mãe, pois acho que meu pai não faria isso; foi
invenção do babaca do Enzo. Com certeza.
Como sou a Diretora Financeira, preciso dar uma olhada nas contas da empresa e nas dos
principais clientes. Marisa me informou que Enzo cuida dessa parte, e ele está em posse das contas
dos principais clientes.
Como ainda não estou pronta para ir atrás dele, comecei a fazer outras coisas.
***
Então, mais tarde, aconteceu justamente o que Júlia e Dani previram.
Ele sumiu o dia todo, mas, às quatro e meia da tarde, apareceu, quando eu estava na mesa de
Marisa tentando remarcar uma reunião com investidores para amanhã à tarde, já que agora precisava
ir para casa ver papai. Jorge vai comigo e jantaremos lá.
Ouço um discreto pigarro atrás de mim. Fico meio sem graça, pois estava em uma posição
pouco confortável, quase debruçada sobre a mesa, com a bunda empinada. Assim que vejo a
expressão de Marisa se iluminar, entendo quem é.
Ajeito-me e viro.
- Gostaria de conversar com você - Enzo fala. Está meio aflito, meio inseguro. Gosto de ver
essa cara dele.
Não respondo. Volto-me para Marisa.
- Me chame se conseguir algo.
- Deixa comigo, Malu.
Viro para ele. Lembro-me de manter o queixo empinado e o olhar firme. Nada de brechas.
- Venha até minha sala - digo.
- A gente podia sair... já está quase no fim do expediente - Enzo propõe, demonstrando um
comedimento que não é comum nele.
Olha só, a putinha mimada está sendo convidada para sair. Se eu ainda fosse aquela besta,
certamente sairia correndo atrás dele.
Queria dar uma resposta maldosa, mas, como as meninas aconselharam, não posso brigar, nem
ser mal-educada, ou acabarei dando a impressão de que ainda estou ressentida, de que ainda guardo
alguma coisa do passado. Posso até guardar, afinal, uma paixão não se esquece fácil, mas ninguém
precisa saber o que se passa dentro de mim, certo?
Olhando-o tão de perto, sinto um arrepio. O homem é a virilidade em pessoa.
Geralmente homens têm um defeito odioso: eles ficam mais belos com o passar do tempo.
Sem dar pinta de estar nervosa, falo devagar:
- Não vai dar, Enzo. Vou jantar com Jorge. - Olho para meu relógio. - Tenho quinze
minutos. Venha para a minha sala.
Ele assente. Viro-me nos saltos quinze e começo a andar na frente dele. É uma necessidade
insuportável fazê-lo ver o que perdeu. Mexo os quadris para lá e para cá, e avançamos pelo corredor
sem dizer nada. Sedução sutil é o meu lema. Tenho de deixá-lo enlouquecido, só para pisar nele.
Entramos na sala, vou para trás da mesa e espero que ele feche a porta. O cara está um escândalo
em um terno cinza-claro e gravata azul. Os cabelos não viram pente hoje, acho que ele os ajeitou
apenas com a mão, e está tão sexy que chega a ser um absurdo. Uma perdição. Ainda bem que eu já
estava preparada.
- Sente-se, Enzo - indico a cadeira de frente para mim. Ele se senta, então me sento na cadeira
executiva do meu pai. - Sou toda ouvidos. É algo com a empresa que eu deva saber?
- Não. Quero falar sobre a gente - ele retruca rápido e sucinto.
Passo a mão pelos cabelos, jogo-os para o lado, deixando minha orelha à mostra. Cruzo as
pernas e seguro meu pequeno brinco, acariciando-o com o polegar e o indicador.
O que ele tem de beleza, tem de cara de pau.
- Sobre a gente? Como assim? Não entendi - arqueio as sobrancelhas.
- Malu, nós não tivemos a melhor despedida anos atrás, e antes, por longos meses, ficamos
numa relação meio platônica. Você queria...
- Eu era menina, Enzo. Como você disse, aconteceu anos atrás - interrompo-o. Nunca vou
deixá-lo se desculpar, para depois agir como se tudo estivesse acertado entre a gente.
- Sei bem o que eu disse.
- Que bom. Então, que fique bem claro, não há nada entre a gente. Eu mal te conheço; vamos
apenas trabalhar juntos e seguir nossas vidas - afirmo, deixando meu brinco de lado e cruzando as
mãos sobre a mesa.
Ele engole em seco e franze o cenho.
- Mal me conhece? Quase morei na sua casa.
- Vai por mim, não nos conhecemos.
Ele bate na perna e olha para os lados. Sua mão passa rapidamente pela boca e depois sobe para
os cabelos. Está começando a perder a paciência.
- Só queria que não houvesse um clima estranho entre a gente. - Ele volta a me encarar. -
Como eu disse, não tivemos uma boa despedida - Enzo ressalta.
- Acredite, não haverá clima algum entre a gente - contraponho, séria.
Ele se mexe desconfortável na cadeira.
- Espere, Malu, me deixe falar. Eu preciso... me desculpar...
- Não há o que desculpar - antecipo.
Ele me encara, parece que prendeu a respiração. Por um instante, sinto pena de Enzo, mas
depois, quando lembro quem ele é, a alegria em vê-lo assim me invade.
Ele passa a mão na testa, como se a massageasse.
- A gente vai ter uma convivência agora... Preciso esclarecer as coisas...
- Enzo...
- Não, Malu, espere. - Ele coloca a mão na frente. - Eu disse coisas... estava nervoso.
Descruzo as pernas e me recosto na cadeira. Em silêncio, lembro-me daquele dia humilhante. A
crueldade que vi nos olhos dele não demonstrava nervosismo, mas, sim, ódio.
Estou coçando para insultá-lo, mas abro a boca e digo:
- Compreendo. Era o seu dia, estava se casando com a mulher que você ama, então...
- Não a amo - ele interrompe, brusco e hostil.
Isso soa como música para os meus ouvidos. Quero pular em cima da mesa e sambar, entretanto
me faço de horrorizada.
- Não ama sua esposa?
Após ouvir o que eu disse, presencio nos olhos cinza dele a sombra de uma raiva selvagem,
quase como aquela que vi no dia do casamento.
- Não se faça de cínica, Maria Luíza - irritado, ele gesticula impaciente. - Você sabe que não
estou mais casado.
- Não está mais casado? - Faço uma cara inocente, espantada até. - Por que eu saberia?
Fiquei fora durante seis anos e não fiz questão de te seguir no Twitter. Não vi suas atualizações.
Enzo se cala, a boca contraída e os lábios formando uma linha. Ele é tão lindo quando está
zangado. É lindo de qualquer forma. Sábado, na boate, quase joguei tudo pelos ares e agarrei esse
homem gostoso que me tira do sério. Se ele soubesse disso...
- Então, não está mais casado. - Meu tom é refletivo. - Não me diga que foi uma tragédia -
coloco a mão no peito e arregalo os olhos muito dramática. As meninas chorariam de rir com minha
atuação. - Lílian está bem?
A cabeça dele se inclina para o lado e os lábios repuxam. É um sorriso de irritação.
- Você é inacreditável. Sabe muito bem que ela me traiu.
- Oh, Deus! - murmuro, chocada. É claro que sabia, mas ouvi-lo confessar é a melhor coisa.
Que vontade de virar passista de escola de samba e sair pulando feito doida. - Enzo, sinto muito. -
Junto as sobrancelhas para demonstrar pena. - Você deve estar sofrendo bastante, afinal, se amavam
tanto. Ela era um exemplo de mulher.
Ele se levanta bruscamente e a cadeira quase cai. A expressão de ódio no rosto faria qualquer um
se afastar. Menos eu.
- O que houve? - Fico também em pé.
- Está me punindo, não é? Rindo de mim, debochando da minha situação.
Claro que estou, querido. Tenho vontade de aplaudir de pé a atuação de Lílian. O patife falou de
mim e acabou se casando com uma puta sênior. Mas não digo nada disso a ele. Quero deixá-lo pirado
fazendo-me de boazinha.
- Pare! Pare já com isso! - ralho com raiva na voz. Raiva falsa, claro. - Não estou
entendendo o que está acontecendo aqui. Por que ficou nervoso? Por eu ter dito que você amava sua
esposa? Isso é um fato, você mesmo me disse.
Ele esfrega o rosto com as mãos, depois leva os dedos aos cabelos lisos e os joga para trás.
Meus seios enrijecem, expressando minha excitação, junto com minha xoxota. É difícil ser uma
mulher tola e apaixonada.
Enquanto isso, Enzo caminha em minha direção. Os olhos suplicantes, os lábios meio
esbranquiçados.
- Você não pode apenas ignorar tudo? Seis anos atrás você disse que...
- Enzo, estamos trabalhando juntos agora. Quero e preciso ser profissional. - Cheia de
charme, cruzo os braços e recosto meu quadril na mesa. - Nada de seis anos atrás existe dentro desta
empresa. Não quero saber da sua vida e vou seguir a minha. Tenho um namorado e odiaria levantar
qualquer tipo de suspeita. Podemos apenas nos ignorar, assim sairemos bem disso tudo. O que me
diz?
Ele se vira de costas e coloca as duas mãos na cabeça. Vejo que respira fundo, transtornado.
Posso apenas admirar a vista. Já comentei que ele tem uma bunda de dar palpitações em qualquer
coraçãozinho?
Enzo se volta para mim.
- Sabe... sobre o que eu disse aquele dia... no dia do casamento...
- Não. - Ergo minha mão. - Não se precipite e peça desculpas. Você não me conhece. Posso,
sim, ser igual a minha mãe, uma vadia vagabunda - com uma calma cirúrgica o alerto.
- Sei que não é - ele se apressa em me interromper. Ignoro as palavras e continuo:
- Dou para qualquer um e fico frustrada quando um cara não quer me comer. Eu te entendo
agora. Você estava apaixonado e ia se casar com uma mulher maravilhosa, mas uma putinha queria
interromper seus planos.
- Não fale isso...
- Fique tranquilo. Se veio aqui me pedir que me afaste, se estiver com medo de que eu possa te
perseguir ou tentar qualquer coisa, não se preocupe, pois não vai acontecer. Afinal, putas também têm
amor próprio. - Espero que meu olhar esteja adequado às minhas palavras; ensaiei esse momento
por horas a fio.
- Você entendeu tudo errado. Não vim aqui para isso...
Antes de ele continuar, a porta se abre e Jorge entra. Ele olha para nós dois e sorrio para ele.
- Oi, querido. Já veio me buscar?
- Sim. Está pronta? - Temeroso, Jorge entra de olho em Enzo.
- Sim. - Pego minha bolsa e olho amigável para Enzo, que está pálido. - Enzo veio saber
sobre o papai, mas já está de saída.
Caminho para perto de Jorge. Ele envolve possessivamente minha cintura e sorri gracioso para
Enzo.
- Até mais, Brant.
***
Saio de mãos dadas com Jorge. Por dentro, estou como gelatina pura, mas me preparei para esse
reencontro. Eu tinha de parecer forte. E, com toda certeza, consegui. A expressão de arrependimento
de Enzo vai alimentar minha sede de vingança por enquanto.
Ainda não tenho um plano. As meninas querem que eu o sabote de alguma forma aqui dentro,
mas não sei se consigo fazer isso. Se eu sabotar Enzo, o prejuízo será de toda a empresa.
Porém, como sou sócia majoritária, no momento posso interferir em qualquer plano dele. Posso
tentar vetar algum projeto, ou algum caso novo que caia nas mãos dele. Ou melhor, posso indicar um
cliente bom para Max.
Esfregar minha beleza na cara dele não é suficiente, muito menos fazê-lo engolir Jorge. Preciso
de mais. Preciso de uma mente brilhante pensando por mim. Preciso ligar para Júlia.
- Divagando, meu bem? - Jorge acaricia minha mão quando paramos diante do elevador.
Levanto meu olhar para ele e dou um sorriso. Estou me sentindo culpada por estar usando o coitado.
- Estou pensando em alguns assuntos que Enzo comentou.
- Aquele cara já quer te empurrar problemas no primeiro dia? Puta que pariu, como ele é mala
- Jorge resmunga, verdadeiramente revoltado.
- Faz parte, Jorge. Até ontem, ele cuidava das coisas do papai. Creio que amanhã nós dois
passaremos o dia juntos, pois ele precisa me explicar todos os casos das contas do papai.
Pensar em passar o dia com um homem que desejo espancar e beijar ao mesmo tempo é meio
complicado. Não sei qual das duas opções vou acabar escolhendo.
- Tenha cuidado com aqueles três estúpidos. Eles são daquele tipo de caras que comem tudo o
que se mexe.
Sim, isso não posso contestar. Sinto um arrepio. Meio que segui Enzo por algumas semanas, e
me dá nojo só em lembrar a quantidade de mulheres que ele pegou.
- Enzo me pareceu sério - reflito.
O elevador abre, esperamos as pessoas saírem para a gente entrar.
- Sério é o cacete. Depois que a vadia da esposa dele o traiu, o cara se jogou no mundo da
putaria.
Sinto outro arrepio. Não sei por quê, mas a imagem de Enzo esbaldando-se com outras
mulheres me deixa meio inquieta.
- Eu sei me cuidar, Jorge. Mas, me diga, o que sabe sobre o casamento dele?
- Não muito. Quando o assunto é a vida pessoal, ele sabe ser bem discreto. Sei que ficaram
casados por um ano e meio, e, depois, ele descobriu que a mulher nunca terminou o relacionamento
com o outro cara.
Uau! Disso eu não sabia.
Entramos no elevador e ele me pergunta se eu vou passar em algum andar antes. Respondo que
não. Jorge escolhe o botão do térreo e aperta.
- Então, ela se casou mesmo estando com outro?
- Sim. Enzo, o irmão e o amigo fizeram da vida dela um inferno. Ela saiu do casamento quase
sem nada.
As portas estão quase se fechando, quando uma mão se espreme na abertura mínima e as portas
se abrem novamente.
Enzo olha para mim e Jorge. Nós dois damos um passo para trás ao mesmo tempo, assim que
ele entra no elevador, como se fosse um alerta de perigo.
As portas se fecham e ele se vira para mim, dá um sorriso tipo psicopata ou semelhante a
quando alguém pega outro no flagra. Engulo em seco.
- Brant, se você estiver muito ocupado amanhã, não precisa se preocupar, eu mesmo passo os
relatórios de Jonas para Malu. Conheço todas as contas - Jorge resolve intervir a meu favor. Não
sei se lhe agradeço ou se bato nele. Não sei se quero passar o dia com Enzo, ou se quero manter
distância dele. Contradição devia ser meu nome.
Enzo tira os olhos de mim e os vira, com interesse mortal, para Jorge.
- Acho que não conhece tanto quanto eu, que lido com os clientes. Você apenas lê os contratos.
- E não é o suficiente? - Jorge provoca. Sinto que uma retaliação vai começar.
Olha lá, o sorriso cínico.
- Ah, Jorge! Estou tão decepcionado - Enzo começa. - Trabalha há tanto tempo aqui e não
sabe que nossos clientes são mais do que pedaços de papel? Temos que ir a jantares ou almoços com
eles e saber, pelo menos, o básico sobre suas personalidades, seus costumes e sua família. - Enzo se
vira para mim. - Creio que nada disso será problema para você, certo, Maria Luíza?
Durante milésimos de segundos, nós dois fazemos o mundo deixar de existir. Olhamo-nos
fixamente, olho no olho, e somente com esse olhar dizemos muito. Falo como ainda estou ressentida
e como o odeio, e ele me diz que está ansioso por mudar a impressão que tenho dele. Enzo considera
isso um jogo. É nítido no brilho que lhe cobriu os olhos, sombreando um pouco o tom de cinza.
- Certo, Enzo - concordo.
Ele estende a mão para mim.
- Deixe eu te dar meu telefone. Me empresta seu celular.
Sem contestar, pego o celular e o entrego a ele.
O elevador chega ao andar e nós três saímos. Enzo, de cabeça baixa, digita o número de telefone
dele, mas demora um pouco demais fazer isso. Jorge aperta possessivamente o braço na minha
cintura e, mesmo sem olhar, Enzo se enrijece; noto um nervo saltar no maxilar dele. Em seguida me
entrega o celular, dá um meio sorriso para Jorge e faz um modesto gesto de cabeça para mim.
Depois, vira-se e sai sem olhar para trás, com o andar poderoso e esguio. Ele deve ter 1,90m. Um
porte físico fantástico que dá inveja aos homens, e desperta desejo nas mulheres. É incrível como
esse homem ainda tem esse poder sobre meu corpo.
- Vê o porquê de eu não gostar dele? - Jorge reclama. Ainda estamos parados, como tolos,
olhando Enzo se afastar.
Caminhamos para perto do carro de Jorge.
- Ele só estava te provocando, Jorge. Não crie caso. É isso o que ele quer.
Abro a bolsa para guardar o celular, mas noto uma mensagem que acabou de chegar.
Enzo gostosão é o nome que aparece. Não acredito que ele salvou o nome assim no meu celular.
Reviro os olhos com desdém. Tão infantil. Nem parece que tem 34 anos.
Fico congelada quando começo a ler. Puta merda. É oficial. Preciso me encontrar com Júlia.
Sinto que Enzo vai querer virar o jogo. Ele é perspicaz, percebeu que estou jogando e comprou as
fichas para a próxima partida.
Calma, Malu. Respire fundo, você é como Barbra Streisand. Não vai chover no seu desfile,
convenço-me interiormente. Peito pra fora, barriga pra dentro e nariz empinado. Guerra é guerra.
Nos vemos amanhã, Maria Luíza. Aproveite o jantar com seu namoradinho lindinho, pois amanhã
terá um almoço comigo.
A propósito, se quiser saber da minha vida pessoal, me pergunte, não fique de fofoquinha no
elevador. É feio e contra as normas da empresa.
O Vou comer aquela desgraçada. Tudo o que quis fazer seis anos atrás, vou fazer agora. Isso
PLANO
não é uma suposição, é uma afirmação. Vou fazê-la gritar como louca.
Agora ela não é mais criança, e Jonas está afastado. Nada mais me impede. Preciso de um plano
urgente.
Por que esse desejo repentino e doentio? Cara, só eu percebi que a safada veio para tentar me
provocar? Vou atacar primeiro, antes que ela pense em respirar. E também estou com muita raiva por
aquele perdedor do Jorge estar com ela.
Minha mão está doendo e, com a outra, aperto um saco de gelo contra os nós dos dedos.
Cacete! Por que diabos tive de socar a parede com tanta força? Poderia ter xingado alguém ou
chutado algumas latas de lixo. Mas não, o esperto aqui preferiu ferir a mão quando chegou em casa.
Ainda bem que o soco não pegou no meu aparelho de home theater. Se isso acontecesse, o bagulho
iria esquentar pro lado de Jorge. Não sei por quê, apenas acho que ele é culpado e pronto.
Estou com tanto ódio dele que sinto a mesma dor dos dedos arder na barriga. É algo visceral, o
coração chega a pesar ao bombear tanto sangue maligno. Eu já o odiava antes disso, agora, saber que
ele está comendo a garota das minhas fantasias, é muita coisa para lidar. Tenho um inimigo número
um.
***
Por que vocês estão olhando para mim assim, como se estivesse enlouquecido de repente? Eu tô
cagando pro fato de estar expondo meus sentimentos. Estou, sim, com ciúmes; estou, sim, querendo-a
para mim, sempre a quis. Nunca deixei de desejar aquela megera dos infernos.
E, agora, estou puto com ela pelo que está fazendo; estou com raiva só pelo fato de ser tão
gostosa. Queria arrastá-la daquele elevador pelos cabelos. Queria encostá-la na parede e beijá-la em
busca de perdão, bem na frente do namoradinho.
Deus! Eu poderia aceitar se ela escolhesse um cara fodão, desses que têm cavanhaque e dirigem
um Corvette 1963. Eu sofreria menos se fosse o Max, ou até mesmo o cara do andaime que limpa as
janelas. Mas... Jorge? O universo quer me ferrar. Só pode.
Dou mais um murro, agora nas almofadas.
Ela sabia, tenho certeza de que ela sabia sobre todos nós odiarmos aquele baba-ovo. Maria Luíza
não veio apenas para trabalhar; ela queria ser bailarina, e não a porra de uma executiva. Estudou
bastante sobre o que acontece na empresa, e estudou minha vida e continua estudando. Ela deve
querer minha rola como prêmio, e as bolas de Max e Davi como brinde. Pilantra gostosa do capeta.
Levanto-me e pego o celular. Digito o número e rápido a pessoa atende.
- Pode vir aqui em casa? Não... agora. Por quê? Que se dane a pizza, preciso de vocês aqui.
É... rápido, porra. Venha logo. Traga o Max com você.
Jogo o celular longe e vou até a cozinha.
Moro em um apartamento na Gávea, bonito, amplo, moderno. Um achado - meio caro, claro,
mas você tem ideia do preço de um apartamento do tamanho do meu na Gávea? Não? Milhões.
Decorei do jeito que gosto, com a ajuda de uma designer, que me deu algumas sugestões e desenhou
a sala como eu queria. Parece um cinema.
Coloquei caixas de som acústicas em pontos estratégicos, para os filmes ficarem mais realistas.
A TV enorme de plasma foi a escolha perfeita. Mônica, a designer, fez uma parte na estante como
uma videoteca, com todos meus filmes preferidos, desde pornôs a séries de TV.
Depois de me separar da Lílian piranha, eu queria um lugar com a minha cara, onde pudesse
fazer o que quisesse, até mijar no chão do banheiro, se achasse necessário. Sem ordens, sem gritos,
sem histeria de mulher. Posso deixar meu sabonete com pelos, posso jogar minha toalha molhada
onde quiser, e posso colocar latas de cerveja na mesinha da sala.
Isso é uma vida que todo homem deveria experimentar.
A safada da designer pensou, inclusive, na iluminação de toda a casa, desde janelas a claraboias
e luzes. Ah! Moro na cobertura, lógico.
Depois que ela terminou o serviço, inauguramos a casa. Eu a comi por toda parte. Desde a
poltrona reclinável até a bancada da cozinha. Foi fantástico. Não vi Mônica mais; até que era
gostosinha, mas casada.
***
Depois de ter ligado para os rapazes, telefonei para um restaurante e pedi umas porcarias para a
gente comer e eles não ficarem de cara amarrada dizendo que, na minha casa, só tem cerveja na
geladeira.
Os dois chegam ao mesmo tempo. E com cara amarrada.
- Você devia experimentar ser um pouco menos egoísta e mimado - Max diz, passando por
mim na porta. Davi me olha, meio inalterado, mas sei que ele está igualmente bravo.
- As outras pessoas têm uma vida pra cuidar, irmão. Não podem ficar a seu dispor o dia todo.
- Deixem de conversinha; parecem duas meninas mal-comidas - repreendo-os e os sigo para
dentro de casa.
Max se joga no sofá e Davi vai direto até a cozinha.
- Pedi umas bobagens pra gente comer - grito para ele. - Tem cerveja na geladeira.
- Qual a emergência? Quem você quer comer, e precisa da nossa ajuda? - Max solta, sem
paciência, sem sequer me olhar. Está folheando uma revista que encontrou no sofá.
- Estou desapontado. Como você pode pensar isso de mim? - Sento-me na frente dele.
- Para de enrolar, Enzo. Como se eu não te conhecesse.
- É a Maria Luíza, filha de Jonas - declaro.
Ao ouvir o nome, ele paralisa e me encara com uma expressão julgadora.
- Você não perde tempo, não é? - Max inclina-se para frente e me acusa com os olhos em
brasas. - Cara, a mulher acabou de chegar e está namorando o merdinha.
- Esse é mais um motivo por que ele deve comer Maria Luíza. - Davi entra na sala, entrega
uma cerveja para Max e se senta ao meu lado. - Diga como podemos ajudá-lo a colocar uma
galhada na cabeça daquele imbecil.
- E por que ele? Também tenho capacidade de comer a mulher dos outros - Max reclama. Só
em ouvi-lo falar isso, e sabendo que a mulher a quem ele se refere é Malu, fico eriçado de raiva. Mas
não digo nada, afinal, posso extravasar ciúmes quando estiver sozinho. Em público, ainda é cedo.
- Bom, não posso porque estou com Sophia novamente, e Enzo deu a ideia. Portanto, a boceta
da ruiva é dele - Davi rebate e sacode os ombros, como se fosse o óbvio a se fazer.
- Deem um tempo, vocês dois. Não é bem dessa maneira. Vou explicar com cuidado. - Dou
um tempo para eles se acalmarem e começo: - Vocês lembram o caso da garota que me perseguiu
anos atrás? - pergunto, e eles se animam visivelmente.
- Aquela que queria trepar com você, e até se escondeu no seu banheiro algumas vezes? -
Davi resmunga.
- Essa mesmo - confirmo.
- A garota que você não queria pegar porque era mais velho, e ela tinha apenas dezoito anos?
- Max indaga, cínico.
- Sim.
- Cara, você é o maior boiola que eu conheço - ele acusa em seguida.
- A garota era Maria Luíza - corto depressa o comentário de Max. - É um bom motivo para
eu não ter pegado ela?
Eles dois se entreolham e depois se voltam surpresos para mim.
- Malu era a garota? - Davi tosse, quase engasgando com a cerveja.
- Sim.
- Essa Malu, ruiva, gostosona, namorada do cuzão? - Max continua, ainda desacreditando.
- Sim. Já falei - grito.
Com uma cara engraçada de surpresa, Davi me analisa.
- Porra, cara. Você está ferrado agora! Ela não parece querer alguma coisa com você - ele
diz, sério demais.
- Talvez seja por eu ter chamado ela de puta e vagabunda no dia do meu casamento.
- Você chamou a garota de puta? - Davi arregala os olhos e troca uma expressão chocada
com Max.
- Então, meio que tipo, Deus fez você pagar por sua língua - Max diz, raciocinando. -
Chamou a garota de puta e acabou se casando com uma puta pior ainda, mais rodada que...
- É. Eu sei. Não me lembre disso - coloco minha mão na frente para ele se calar.
Engulo minha irritação e conto a ambos toda a história, do início ao fim, desde a primeira vez
que vi Malu. Conto como fiquei desorientado, com vontade de levá-la para cama, como precisei ter
controle para não sucumbir ao desejo meu e dela. E conto como ela chegou, desesperada, no dia do
casamento, tentando me fazer mudar de ideia.
Termino de narrar, e os dois estão mudos. Desviam o olhar, bebem um gole de cerveja e
continuam calados.
- E aí, não vão dizer nada?
- É meio complicado, Enzo - Davi, com seu tom aguçado, começa a falar. - Você a tratou
mal e agora ela está de volta, gostosa, tipo mega, ultra, super. E o pior de tudo é que ela te odeia e te
despreza. Não há muito o que fazer.
- E está namorando o cara que a gente mais detesta - Max faz questão de lembrar.
- Essa é a pior parte - concordo com ele. - Mas acho que três cabeças pensam melhor do que
uma. Vamos pensar em uma solução.
- O que você quer, de verdade? - Max pergunta. Ele se recosta no sofá, e cruza as pernas nos
calcanhares.
- Quero que ela me escute. Tentei falar com ela hoje, mas Malu está muito ressentida.
- É de se esperar. Se eu fosse ela, dava um tiro no seu pau - Max diz, enquanto toma um gole
de cerveja.
- Conversar? Só isso? - Davi, mais interessado, ignora Max e me pergunta.
Dou de ombros.
- Quero o perdão dela.
- Só isso? - agora é a vez de Max indagar.
Olho para eles. Estão atentos, os olhos fixos em mim. Acho que ainda não consegui convencêlos do que quero de verdade.
- Ela precisa entender que, naquela época, era diferente - gesticulo nervoso.
- E é só isso? - os dois perguntam, quase ao mesmo tempo.
Levanto-me bruscamente e esparramo meus cabelos com a mão. Eles me conhecem mais do que
eu mesmo. Quem desejo enganar?
- Tá! Como vocês já imaginam, eu quero transar com ela. Muito, demais. Até perder os
sentidos. Quero fazer com ela tudo o que sonhei seis anos atrás. De quatro, de pé, na banheira, na
cama, em todo lugar. Satisfeitos?
- Agora acredito em você! - Max exclama, feliz.
- Esse é um bom motivo para a gente te ajudar - Davi concorda. Em seguida, os dois dão
risada, e eu abano a cabeça.
- Tenho um pinguinho de esperança. Ela não está me ignorando totalmente. Hoje, mais cedo, eu
a flagrei perguntando para Jorge sobre meu casamento, queria saber como tudo aconteceu. Se ela
quer saber da minha vida, então tenho uma pequena chance, não é? - Volto a me sentar, desta vez
perto de Davi, que está no sofá de três lugares.
- Agora a coisa ficou melhor. Ela não te despreza. Malu pode estar tentando te pegar na tocaia,
sapatear na sua cara, te provocar, mostrar uma coisa que você nunca vai ter. Essas coisas que
mulheres fazem e no fim acabam deixando pra lá.
- E o que faço?
- Papel e caneta - Davi pede.
Corro e trago para ele um caderno pequeno, tipo ata, e uma caneta. Max se levanta e vem sentarse com a gente, os três no mesmo sofá. Davi no meio.
Ele escreve: Plano para Enzo traçar Malu.
- Você tem um plano? - pergunto, admirado.
Ele reflete um pouco antes de me responder: - Estou pensando em umas coisas. - Davi coça a
barba, pensa mais e continua: - São vários planos em um só. Primeiro, vamos dar uma garantia a
Malu.
- Garantia? - balbucio, curioso - Uma garantia de que você não vai ser um cachorro safado
que quer trepar com ela.
- Eu quero trepar com ela - rebato, meio desentendido sobre aonde ele quer chegar.
- Sim, mas ela não pode saber. Vamos arrumar uma namorada falsa para você.
- Uma namorada? Cacete! Ficou louco, Davi? Quero me aproximar de Malu, não assustar a
garota.
- Fique tranquilo. Desafio, essa é a palavra. Isso deixará Malu intrigada e frustrada. A cabeça
das mulheres funciona quase igual à nossa. Ela vai, automaticamente, querer vencer o desafio de
tomar você de uma suposta namorada, para depois te dar um pé na bunda. Vou encontrar uma pessoa.
Pode ser até uma acompanhante de aluguel.
Estou horrorizado.
- Vou namorar uma garota de programa? E como sabe que Malu vai me dar um pé na bunda?
- pergunto, mesmo sabendo que não terei resposta.
- Que plano mais tranquilizador - Max ironiza em um sussurro reflexivo.
Davi pensa e escreve no caderninho de capa preta: 1-Encontrar uma namorada falsa para Enzo.
Ele levanta os olhos para mim, já com outra questão pronta.
- Agora, devemos investigar e descobrir quem são as melhores amigas dela. Melhores amigas
sabem de tudo, conhecem tudo da pessoa. E precisamos de alguém assim do nosso lado, tipo uma
informante.
Ele fala e escreve ao mesmo tempo: 2-Encontrar a melhor amiga de Malu e se aproximar dela.
- Se são melhores amigas, acha mesmo que elas vão dar bola para mim? Maria Luíza já deve
ter feito o inferno falando de mim para elas - retruco, tentando acompanhar o plano do meu irmão.
- Não é você, seu tolo, é o Max.
- Eu? - Max se sobressalta do outro lado, com os olhos arregalados. Davi se vira para ele e se
prepara para começar a explicar: - Sim, porque já sou comprometido. Você vai atrás de uma amiga
de Malu e se envolve com ela; se possível faça sexo com ela, e descubra o máximo que conseguir.
Mulheres têm uma fraqueza: elas confiam em homens muito carinhosos e apaixonantes. Seja
bonzinho com ela, faça um sexo bem legal, e ela vai te entregar tudo de bandeja.
- E se for uma baranga? - Max olha para Davi e depois para mim, o tom de medo expresso na
voz. Ele faz qualquer coisa, menos pegar baranga. Que exemplo de homem.
- Finja que é um padre para não comê-la. Sei lá, pense em algo.
Impaciente, Davi escreve: 3-Max conquista a confiança da amiga de Malu.
- Não entendo por que precisamos de uma amiga dela - Max murmura, meio zangado por ter
sido colocado no bolo.
- Para ser nossa aliada, porra! Já falei. Vai chegar um momento em que precisaremos que ela
interceda. Então, você tem de fazer seu dever de casa direitinho e vai conquistar mesmo a safada.
Entendeu, Maximiliano?
- Tá, entendi. E não me chame assim, é constrangedor.
- Fique tranquilo, rapaz - Davi o acalma. - Tenho quase certeza de que a melhor amiga de
Maria Luíza é Júlia Bittencourt. - Ele olha para mim. - Você se lembra-se dela, Enzo? Sempre ia à
casa do Jonas.
- Sim, me lembro, mas nunca mais a vi. Também tem a Danielle. Acho que Max vai acabar
comendo uma dessas.
- Se for quem eu estou pensando... - Max reflete, meio animado.
- E então, qual é o próximo passo? - Olho do caderninho para Davi. Ele pensa um pouco,
acaricia a maldita barba, depois o nariz, e fala em tom categórico: - O mais difícil. Afastar Jorge da
Malu, pelo menos por um ou dois dias.
- E como faremos isso? Sequestro? - Max ironiza.
- Não. - Davi resmunga e pensa. Fica uns três minutos pensando e depois sorri. Por isso gosto
do meu irmão; ele é prático e inteligente.
- Lembra daquele sítio onde o papai gostava de passar os finais de semanas? - Com olhos
arregalados e uma expressão de eureca, ele me cutuca.
- Claro.
- Fica em Angra, certo?
- Sim. E daí?
Ele abaixa a cabeça e escreve: 4-Afastar Malu do idiota.
- Enzo, vamos armar uma reunião de emergência. Um lugar aonde dá pra ir de carro, como
Guaratinguetá. Na prática, iremos todos de carro. Eu e Max, você sozinho e Malu com Jorge. Ele não
precisa ir, mas vai querer - Davi fala como um vidente, prevendo todos os fatos.
- E do que isso adianta?
- Espere, escute primeiro. Vou descobrir algo para sabotar a ida de Jorge. E, então, você vai
convencer Malu a ir no carro com você.
- E onde será essa tal reunião? - Max questiona. - Temos mesmo reunião marcada lá?
- Aí está o ponto-chave. Temos negócios com uma empresa em Guaratinguetá, lembra? Mas
não haverá reunião, lógico. Eu e Max nem iremos a lugar algum, nem mesmo sairemos do Rio. -
Davi vira-se para mim e aponta a caneta. - Você irá pelo caminho do sítio em Angra, e o carro vai
quebrar no caminho. E, como se não conhecesse o lugar, você levará Malu para o sítio, dizendo que
deve ser de alguém que está viajando. Assim, terá dois dias para conseguir algo com ela. É o
suficiente?
- Perfeito. Mas e todos esses detalhes?
- A gente vai pensar em tudo: desde fazer o carro quebrar até acabar com o sinal de celular.
Vocês ficarão isolados.
- Só uma pergunta - Max levanta o dedo como se estivesse em uma aula. - Vamos bolar todo
esse plano maluco só para Enzo comer a filha de Jonas?
- Vamos aos pontos. - Davi levanta a mão, pedindo calma. - Primeiro: com alguém na
empresa mantendo Malu bem-comida, ela não será uma pedra no nosso sapato. Lembra que esse é o
medo que comentamos hoje mais cedo? Mulher sempre tenta, de alguma forma, querer ser melhor do
que os homens. Sem falar que ela foi humilhada por esse imbecil - ele gesticula apontando para
mim. - Uma mulher ressentida, disposta a se vingar, é pior do que setenta capetas.
- E todo mundo tem medo de capeta - endosso o comentário dele.
- Portanto, Enzo sendo amante dela, ela vai ficar calminha, e não vai querer ir de encontro ao
amante e aos amigos dele. - Davi olha para a gente para ver se estamos acompanhando.
- Isso é um comentário machista. Se alguma mulher te ouvisse, nós perderíamos as bolas -
Max resmunga, fazendo-se de chocado.
Davi dá de ombros e levanta um segundo dedo.
- Segundo: temos de ajudá-lo, ou ele vai acabar trocando os pés pelas mãos, e ferrar com tudo.
E terceiro: vai ser divertido saber que Jorge será um corno.
Max dá risada e toca o punho de Davi com o seu.
Sabia que eu devia chamá-los aqui em casa. Desde pequeno, Davi tem os melhores planos.
Malu nem vai perceber que foi atingida. Quando se der conta, já estará na cama comigo. E eu a
farei suplicar, implorar, como seis anos atrás.
- Ah, Enzo. Amanhã, e até o dia do plano, não coloque tudo a perder. Trate-a como se fosse sua
irmã. Não faça piadinhas, não dê em cima dela. Seja muito profissional e frio, se possível. Se ela
estiver jogando, vai ficar furiosa por você não estar nem ligando para ela. É pedir muito que se
controle?
- Depende. Por quanto tempo vou ter de me controlar?
- Duas semanas - ele decreta.
- Perfeito.
- Então, recapitulando. - Davi aponta a lata de cerveja para mim. - O que vai fazer amanhã?
- Ignorá-la.
- E depois?
- Esfregar uma namorada na cara dela.
- Bom garoto. E você? - Ele se vira para Max.
- Vou rezar para que a amiga de Malu seja gostosa.
Eu e Davi rimos. Max nos olha com desdém.
Nesse instante, a comida que pedi chega. Vamos todos até a cozinha comer e fazer mais
anotações sobre o plano.
Meu dia de vitória começa a se aproximar.
***
Há mil coisas que nós, homens, não devemos deixar uma mulher perceber para conviver
harmoniosamente com ela. Por exemplo, fraqueza. Nunca revele a uma oponente o seu ponto fraco,
pois mais cedo ou mais tarde ela poderá usá-lo em benefício próprio. A menos que a mulher em
questão seja sua esposa e mãe de seus filhos, é melhor manter-se na defesa. Além disso, evite
qualquer carinho excessivo, que demonstre sinal de paixão. Muitas mulheres costumam pisar em
homens que as colocam no altar. Várias preferem os cafajestes que mentem, mas que fodem gostoso.
Perdoem-me pelo que vou falar, mas é a realidade. Na maioria das vezes, homens são trastes,
mas, quando uma mulher cisma de foder geral com a vida de uma pobre vítima masculina, sai de
baixo. Como Davi falou, elas são piores do que setenta capetas juntos. Lílian, por exemplo, só não
ferrou com a minha vida por causa de Davi, que entrou no meio da briga e acabou com a raça dela.
Portanto, o melhor é atirar primeiro, ou seja, agir antes que a mulher o faça.
Esse plano de Davi é tudo o que uma mulher mais abomina. Não há fundamento lógico para o
que estou fazendo, enganar uma mulher e arrastá-la para o meio do nada, longe do namorado, só por
causa de um capricho meu. Uma obsessão, para ser mais exato.
Mas qual o porquê desse plano?
É o que falei há pouco: mil coisas que não devemos deixar uma mulher perceber. E os meus
pontos fracos, com os quais Malu nunca deve sonhar, são: minha loucura obsessiva por agarrá-la,
pois ela irá se fazer de mais difícil do que uma madre superiora, vai pisar com aquele puta
maravilhoso salto alto na minha cara; meu ódio por Jorge, o que ela pode querer usar contra mim, e
vê-la esfregando o babaca na minha cara não será legal; e meu fraco por ruivas, que Malu não deve
nunca suspeitar, jamais. Essas e várias outras coisas.
Já fui casado, convivi com uma mulher. Sei como elas agem, como se comportam, onde se
escondem e o que guardam nas cabecinhas maquiavélicas para ser usado como um arsenal de guerra
em casos extremos.
Malu voltou disposta a me aniquilar. Soube disso no momento em que ela apresentou Jorge
como namorado e olhou exclusivamente para mim, querendo ver minha reação. Só observei,
achando ridículo o fato de ela ter de suportar Jorge só para me atingir. O que Malu não sabe é que eu,
dificilmente, sou derrubado, sobretudo por uma ruiva linda que sente tanto tesão pelo papai aqui.
Que comecem os jogos.