Lisa teve um sobressalto quando viu aquele homem. Já o conhecia de algum lugar! Mas de onde? Ele não parava de encará-la, de uma forma que a fazia sentir-se despida em pleno saguão do hotel. Por que aquele estranho tinha escolhido justamente a ela para seduzir? Lisa não queria parecer uma mulher vulgar, a procura de um amante passageiro com quem se divertir durante as férias, naquela ilha fascinante das Canárias. Mas ao mesmo tempo sentia que hão conseguiria resistir por muito tempo à atração daquele rosto, daquele corpo, que a convidava a viver um paraíso de loucuras e de paixão!
Capítulo I
Alguém a observava, no saguão do hotel. Podia sentir isso na pele, enquanto procurava os rostos conhecidos dos amigos. Virou-se quase sem querer, num impulso, para descobrir de onde vinha aquela força, aquele magnetismo que parecia queimá-la. Se os amigos não chegassem, teria que fugir, ir embora. Mas fugir de quê? De quem? Estava ameaçada, e era só isso o que sabia.
Então, Lisa o enxergou. A primeira impressão que teve da pessoa que a perturbava tanto foi a de um homem alto, moreno e barbudo, com os cabelos mais compridos que o normal.
Juntou forças e fuzilou-o com um olhar de fazer gelar o sangue. A resposta dele foi um sorriso, um gole de bebida no copo alto e uma saudação quase imperceptível.
Ela virou-se, furiosa, mas olhou por trás do ombro, outra vez, já aflita. Será que Myra e Phil não iam mais chegar? Andou em direção à entrada do hotel.
Havia muita gente subindo e descendo a escada em curva, o elevador ia e vinha cheio de turistas, mas, dos amigos, nem sinal. Como combinara encontrar-se com eles no bar, achou melhor voltar. Se aquele sujeito ainda estivesse lá...
E estava. Engraçado, entrar em pânico assim à toa, pensou Lisa. O negócio era procurar um lugar e esperar. Havia uma mesa vazia num canto. Sentou-se e matou o tempo o melhor que pôde, ora observando o lugar por onde entrariam seus amigos, ora fixando o olhar nas montanhas, além dos limites do hotel, onde parecia estar um mundo estranho e fascinante.
Sentiu, mais do que ouviu, um movimento à sua frente e virou-se com um sorriso alegre para cumprimentar os amigos. Mas não eram eles. O estranho sentou-se e esticou as pernas, indiferentemente, por debaixo da mesa, quase tocando os pés dela.
Continuava a encará-la, a cabeça para trás, relaxado, braços cruzados no peito. Usava uma camisa branca, meio desabotoada e calça jeans justa nos quadris estreitos.
Ele tinha o direito de ficar onde estava. Realmente, tinha. Não havia lei que o impedisse de sentar-se ali e encará-la, a não ser o respeito à privacidade alheia.
Lisa pegou uma revista na mesinha a seu lado e folheou rapidamente. Era em espanhol e seu conhecimento dessa língua não passava de umas poucas frases. Desapontada, colocou a revista no lugar, e, levantou os olhos para o desconhecido com uma expressão de desafio. "Ria de mim, e vai ver o que acontece", pensou. Sujeito atrevido!, Não havia desviado os olhos de seu rosto. Ficou vermelha. Que coisa mais fora de propósito perturbar-se com o mero olhar de um desconhecido. Pegou outra revista, olhou bem antes para ver se era em inglês e tentou relaxar.
Lia as frases,, mas ficavam soltas no ar, sem sentido. Não conseguia, nem queria, evitar pensamentos paralelos, o que era mais curioso. Baixou um pouco a revista, o bastante para enxergar por cima dela.
Agora podia observar o homem, pois ele lia a revista em espanhol. Quem sabe era a sua língua? Engraçado, algo nele lhe parecia familiar. Já o teria visto antes? O que a incomodava mesmo nele eram os olhos; logo, os olhos eram a chave do enigma. Mas qual era o jogo?
Droga! Agora estava encarando o homem do mesmo jeito que ele a tinha encarado.
De tanto se esforçar para ler, acabou se interessando por um artigo. Quando os amigos a chamaram, levou um susto.
Afastou-se para o canto, para ceder lugar, e notou que o barbudo também tinha parado de ler e observava os recém-chegados com muito interesse.
Myra e Phil sentaram-se bem juntinhos, de mãos dadas. Estavam casados há cinco semanas e totalmente apaixonados.
Cinco meses atrás, Lisa, Don (seu namorado), Myra e Phil tinham combinado passar as férias juntos. Quando Lisa brigou com Don, ele cancelou a reserva.
- Três é um número ímpar que não dá certo em passeios - afirmou Lisa. - Vou cancelar também.
Myra, que trabalhava na mesma firma construtora que ela, insistiu:
- Se fizer isso, eu e Phil também não vamos. E não quer estragar nossas férias, não é?
Para complicar mais as coisas, eles resolveram casar de repente, sem mais nem menos. Como as férias já estavam pagas, apesar de Lisa insistir de novo em ficar, não admitiram desistência.
- Nessa altura - Phil garantiu -, Myra e eu já seremos um velho casal. Sua presença-só vai ajudar a aliviar o tédio do nosso casamento.
Olhando agora as expressões radiantes, Lisa viu que cinco semanas de casados só havia aumentado o amor deles. Phil inclinou-se para ela.
- Desculpe-a pelo atraso, Lisa. Sabe como são as mulheres: não conseguem resolver que roupa vão vestir.
- Como tem coragem de dizer uma mentira dessas, se foi você que me atrasou! - protestou Myra.
Ele deu de ombros, rindo ainda.
- Sabe como é...
Lisa sorriu.
- Calculo. - Olhou o vestido da amiga. - Você está ótima. Eu estava com você, quando comprou esse vestido, lembra? Na Oxford Street, na hora do almoço!
A outra concordou, distante. Lisa seguiu o olhar da amiga e corou, quando viu que o moreno ainda não tirara os olhos dela, apesar da chegada dos amigos.
Myra fez cara de intrigada e Lisa apertou os lábios, tentando mostrar como achava desagradável a insolência do homem. A amiga sussurrou:
- Quer sair daqui?
Lisa ia concordar quando o homem ficou de pé, fez um sinal com a cabeça para o casal e foi saindo, sem pressa.
- Que história é essa? - perguntou Myra, desconfiada. - Arranjou um namorado?
- Não troquei uma palavra com esse sujeito! Desde que cheguei, ele é que não tirou os olhos de mim, como se eu fosse um quadro numa parede. Fiquei tão irritada!
- Ele gostou de você - explicou Phil, sorrindo. - Se eu não fosse um homem casado, olharia também, e do mesmo modo!
Foram andando para o restaurante, e Lisa se surpreendeu olhando as pessoas que se apinhavam no saguão. Estava ainda com medo de encontrar aquele homem perigoso. Só não sabia é que perigo ele representava. Nem por que, ou para quem se dirigia aquela força.
Ficaram na mesa de costume, perto da janela. Lisa, de frente para a porta de entrada, escutava distraída a conversa dos amigos, tentando rir na hora certa, confiando que eles não percebessem que prestava mais atenção em cada hóspede que entrava.
O estranho chegou pouco depois e teve uma atitude que a surpreendeu. Passou os olhos por ela como se não a reconhecesse. Era demais! Ficou profundamente irritada com isso e, principalmente, por dar tanta importância ao fato.
Como ele jantou com um grupo de homens de negócios, conversando sério, Lisa achou que não devia estar em férias, como imaginara.
Fez força para se esquecer dele e entrar na conversa dos amigos. Era mais uma conversa de namorados, e descobriu que não tinha perdido muito.
- Qual vai ser nosso programa hoje à noite?
- Estávamos justamente discutindo o assunto - respondeu Myra. - Eu quero ficar lendo no salão principal.
- E eu quero levá-las a dançar. Vamos lá, amor. Vai ter o resto da vida para ler.
- Bem, a verdade é que quer que eu faça a sua vontade novamente - disse Myra, jogando para trás os bonitos cabelos castanhos. Suspirou. - Pela última vez. Só hoje. - Virou-se para Lisa e informou, séria: - Nós vamos dançar, mas eu preciso subir para mudar de roupa.
Phil gemeu:
- Outra vez?!
- Por que acha que eu trouxe tantos vestidos?
Ele empurrou o prato de sobremesa.
- Está bem, sei perder.
Myra acariciou sua cabeça.
- Só quero ficar bonita para você, querido.
Phil sorriu para a mulher e disse a Lisa:
- Sabe quando ela fica mais bonita, não sabe?
Lisa riu, e brincou, maliciosa:
- Não sei não, Phil. Me conta.
Ele ficou sem jeito.
- Vocês duas estão me gozando. Lisa, nos vemos no salão de baile... - Olhou para a mulher. - Infelizmente, só daqui a duas horas, mais ou menos!
- Trinta minutos, Lisa, juro. Se o baile não tiver começado, tomamos um drinque. Pegue uma mesa de canto se chegar antes de nós.
Lisa desceu do elevador no segundo andar. O seu quarto dava para um terraço aberto sobre o mar. Sabia que Myra levaria muito tempo para trocar de roupa. Foi para sua janela olhar as rochas que a fascinavam. Entre elas, nasciam plantas estranhas, canteiros rasteiros de flores miudinhas, arbustos com folhas pontudas e muitos cactus. Aqui e ali, palmeiras se agitavam à brisa que refrescava o ar úmido e quente.
O vestido que ia usar era uma mistura de seda, com as cores do arco-íris. Longo, e com um decote que fazia aparecer o bronzeado que ela já adquirira nos dois dias de praia. A gargantilha branca combinava com as sandálias e a bolsa.
Suspirou diante do espelho. Qual o motivo para cuidar tanto de sua aparência? Era uma intrusa, pensou; não com pena de si mesma, mas dos amigos. Apesar de o negarem constantemente, ela sabia que de certa maneira, atrapalhava.
Olhou O relógio. A meia hora de Myra já havia passado, mas não esperava encontrá-los na mesa. Era sempre a primeira a chegar, qualquer que fosse o lugar do encontro.
Nos últimos dias, acostumara-se à espera solitária. Hoje, por uma reação que não entendia bem, ficava nervosa só de pensar em ficar sozinha.
Parou sob o arco do salão de dança e olhou as mesas, muitas das quais já estavam ocupadas. Para seu alívio, viu algumas vazias nos cantos mais escuros.
Ao se dirigir para uma delas, percebeu um grupo de homens no bar, em frente à pista de dança. Eram quatro, e ele estava entre eles.
Sentou-se à mesa e começou a mexer na bolsa; depois, arrumou a gargantilha e alisou os cabelos. Bem, que fazer agora? Virou-se em direção ao bar.
A esperança de que os homens não estivessem lá não se realizou. Estavam, sim, os quatro; mas só um a observava. Embaraçada, olhou para a porta, pedindo a Deus que os amigos aparecessem e a livrassem daquela sensação de solidão no meio de uma multidão de estranhos.
Olhou para o grupo, novamente. Agora, os quatro a observavam. O moreno falou qualquer coisa, que os outros escutaram, cheios de atenção. Estariam falando mal dela? Por que riam? Ficou com o rosto pegando fogo. Com certeza, riam dela porque estava sozinha.
Quando viu que o homem se despedia dos amigos e vinha em sua direção, teve a reação mais infantil possível. Começou a se levantar, pronta para fugir. Percebeu a tempo que papel de caipira ia fazer e sentou-se. Apertou as mãos sobre a mesa e ficou olhando para fora, pela janela, tentando descobrir alguma coisa na escuridão.
O barulho de uma cadeira arrastada tirou-a da falsa contemplação. Ele a olhava, sobrancelhas levantadas em interrogação.
- Sinto muito - informou ao homem, rapidamente. - A mesa está ocupada.
- Esperando por seus amigos?
A voz era baixa e falava em inglês perfeito. Logo, essa devia ser sua língua, o que respondia pelo menos à pergunta sobre qual era seu país de origem. Havia, no entanto, muitas outras sem resposta. Por exemplo, qual o motivo de ele também estar nas Canárias, nesse lugar maravilhoso chamado Lanzarote, cuja paisagem era quase lunar.
Outra pergunta que merecia resposta era o porquê daqueles homens terem saído a um simples aceno de cabeça dele. Pareciam amigos, iguais, homens de negócio. Enfim...
- Estou esperando por eles, sim. De modo que, sinto muito, mas a mesa está mesmo ocupada.
- Você só tem dois amigos, não? - Já estava sentado à sua frente. - Mas há quatro cadeiras.
- Dois amigos, mas... - A raiva que sentira de tarde pela audácia do homem voltou. - Gostamos do número três, e não do quatro, se nos dá licença.
Ele nem ligou. Sorriu, recostou-se e passou a mão pela barba.
- Mas no momento só você está aqui. Garanto que não se importa que eu lhe faça companhia até seus companheiros chegarem.
Sacudindo a cabeça, sem falar, Lisa olhou para a entrada, meio desesperada. As pessoas chegavam sem parar, duas a duas, mas o casal que ela queria não aparecia.
- Posso pedir um drinque para você? - A pergunta trouxe-a de volta à presença dele.
- Não, obrigada. - Vou esperar por meus amigos. Mas fique à vontade, peça o seu.
Ele inclinou a cabeça, levemente irônico, e levantou a mão para o garçom que passava. Fez o pedido em espanhol fluente, para surpresa de Lisa. Será que tinha errado sua nacionalidade?
- Está gostando das férias? - perguntou ele, no momento em que a orquestra começava a afinar os instrumentos.
- Bem... acho que sim. Só estamos aqui há dois dias.
Ele olhava para suas mãos e ela percebeu que procurava uma aliança ou anel de noivado.
- Você acha que está gostando? Hum... Nada bom ser a terceira pessoa, não é?
Lisa deu um sorriso. Ele a olhava intensamente e não ria. Ela sentiu um arrepio na espinha ao perceber, de repente, como aquele homem a atraía. Se pelo menos pudesse ver o rosto dele, sem essa barba e o bigode. Um dia, alguma mulher conseguiria convencê-lo a tirar aquilo. Teve um súbito desejo de ser essa mulher...
O garçom colocou a bebida na frente dele, que pagou na hora, com uma bela gorjeta.
- É mesmo desagradável ser a terceira pessoa. Mas guardo segredo. Nem comento com eles.
- Deve haver uma razão para estar sozinha.
Com relutância, ela esclareceu.
- Briguei com meu namorado e ele cancelou a reserva.
Os olhos do homem se apertaram. Depois sorriu, comentando:
- O que a deixou sozinha numa cama dupla.
O comentário enfureceu-a.
- Não, está errado! Tente de novo para ver se acerta, sr... não sei seu nome.
- Cameron. Zander Cameron. Antes que pergunte, é uma abreviatura de Alexander. Você é Lisa. Escutei seus amigos dizerem seu nome. Lisa o quê?
- Maynard - respondeu, seca. Então, ele achava que ela era uma conquista de férias, e que, como não estava acompanhada, ia cair feito um fruto maduro. - Sua mulher também veio, sr. Cameron? Ou talvez sua namorada?
Ele sorriu, percebendo a intenção dela de colocá-lo no lugar.
- Nenhuma das duas.
Lisa olhou para a entrada. Phil estava lá, gesticulando. Zander Cameron seguiu seu olhar.
- Desculpe, por favor. - Ela se levantou e foi abrindo caminho por entre as mesas.
- Sinto muito, Lisa - disse Phil. - Não vamos descer hoje. - Estava todo afogueado. - Não se importa, não é?
Sorriu, compreensiva.
- Esqueça de mim, Phil. Estou bem acompanhada. Uma companhia não convidada, mas, nas circunstâncias, até que foi bom ele aparecer.
- Não é o sujeito que encarou você a tarde inteira? Mantenha distância, hein?
- Conselho do tio Phil? Tudo bem. Sei me cuidar! - "Será que sei mesmo?", perguntou a si mesma, lembrando-se de como ficara magoada quando Don contou que estava gostando de outra.
- Vemos você no café da manhã, Lisa.
Imediatamente, sentiu-se só e vulnerável. À sua volta, todos riam, falavam, dançavam. Estava sobrando de novo, pensou. Não deveria ter vindo. O melhor que tinha a fazer era subir também. Mas deixara a bolsa na mesa. Precisava voltar até lá, quisesse ou não.
- Os amigos não vêm mais? - perguntou Zander Cameron, virando o copo na mão.
Ela não respondeu, franziu a testa, intrigada.
- Que estranho! Sumiu... Podia jurar... Viu alguém pegar minha bolsa?
Ele respondeu com outra pergunta:
- Posso tomar o lugar de seus amigos?
Foi a vez dela mudar de assunto.
- Preciso achar minha bolsa. Por favor, quer me ajudar?
- Primeiro responda à minha pergunta, que depois respondo à sua.
- Está bem! Está bem! Agora diga se viu minha bolsa.
- Uma coisa de cada vez - foi a resposta irritante. - Quer dizer que aceita ficar no baile comigo? - Impaciente, ela concordou. - Bem, vi sua bolsa, sim. Vi quando alguém passou a mão nela.
- E não impediu?
Ele se recostou na cadeira, cruzou as pernas, braços dobrados no peito e um sorriso abrandando as linhas decididas da boca. A música tocava e os pares dançavam.
- A mão que eu vi era a minha. Quer sua bolsa? - Tirou-a do bolso. - Tome.
- Mas por que a escondeu? Sabia que ia me assustar! - Afundou na cadeira.
Ele se inclinou para a frente, mãos cruzadas sobre a mesa. Os olhos castanhos enrugavam-se nos cantos, divertidos... Ou cínicos?
- Ou você é uma grande atriz, ou sua amnésia foi puramente psicológica.
- O que quer dizer? Não está insinuando que deixei a bolsa de propósito, só para ter uma desculpa para voltar?
- Acho que sim.
Lisa puxou a cadeira para trás e levantou-se, mas ele pegou seu braço.
- Você concordou em me fazer companhia, lembra-se, Lisa? O toque de sua mão, o efeito de sua voz de timbre baixo, a atração que irradiava, tudo isso combinado fez com que ela ficasse em guarda. Com vinte e três anos, já sabia o que queria.
Assim mesmo, não podia fingir não gostar da idéia de ter a companhia dele.
- Eu mantenho minha promessa, mas só hoje, sr. Cameron.
- Aceita porque algumas horas comigo são preferíveis a ficar sozinha?
Lisa concordou, sorrindo, sorriso que ele não retribuiu. Que experiência estranha! O homem a intrigava; tudo nele tinha um certo mistério, até o rosto semi-encoberto.
- Posso pedir alguma coisa para você comer? - ofereceu ele. -Não? Um drinque, então?
- Nada, obrigada, sr. Cameron.
- Não dá para me chamar de Zander? - Os olhos castanhos sorriam, agora.
- Você é inglês?
- Inglês? Com um nome como o meu? Ora, senhorita, claro que sou escocês. - Tocou a mão dela, de leve. - Vamos dançar? - Tirou o casaco, colocou-o nas costas da cadeira e levantou-se.
Lisa não podia recusar, nem queria. Aquele rápido toque em sua mão tinha feito com que quisesse ficar mais perto dele. Sentiu-se vencida, completamente perdida. Primeiro Don, agora esse homem. Sabia por que ele estava se aproximando, e não tinha nada a ver com amizade.
- Sinto muito - tentou resistir. - Não quero dançar.
Ele enlaçou sua cintura, puxando-a da mesa.
- Mas eu quero, Lisa, eu quero.
Era bom estar em seus braços, disse Lisa para si mesma. Aquela mão nas costas era um apoio seguro e não a apertava demais. Ele sorriu para ela, que não soube como corresponder, muito desconfiada.
- Tudo bem, Lisa. Tudo bem. Debaixo de toda essa barba tem um cara honesto e bom caráter.
- Pelo menos, é engraçado. Faz sempre as mesmas graças quando tenta fisgar uma namoradinha de verão?
- Está dizendo que não faço sucesso com você? - Ficou sério, os olhos frios, distantes. Levou algum tempo para voltar ao normal. - Acredite: não costumo ter casos inconseqüentes. Sabe que você tem um efeito estranho sobre mim?
- Qual, por exemplo?
- Vontade de bancar o bobo: qualquer coisa para ver você rir.
Havia um significado mais profundo em suas palavras, que ela não entendeu. Queria perguntar por que, mas só disse:
- Gosto muito de rir. Sinto-me bem.
- Então, preciso bancar o palhaço com mais freqüência, não? - Falou suavemente e encostou os lábios em seus cabelos. Lisa não fez objeções apesar de saber que as convenções não a obrigavam a tanto.
- Seus amigos estão em lua-de-mel?
- Sim e não. Estavam noivos quando marcamos essa viagem. Mas resolveram casar, de repente, há cinco semanas. E, por causa dessa viagem, adiaram a lua-de-mel até agora.
- Você não se importa de ser a terceira?
- O que acha?
- Acho que parece um bichinho perdido.
Ela riu.
- Não, no momento. Não, quando... - Quase mordeu a língua.
- Esqueça. - Olhou para longe, por sobre a cabeça dos dançarinos.
A música parou, mas ele não a deixou ir.
- Esquecer o quê? Que não fica triste quando está comigo? Seja boazinha e confesse que estou certo.
- Você é uma boa companhia, sem dúvida.
- Uma das respostas mais evasivas que já ouvi de uma mulher que se recusa u admitir que gosta de um sujeito.
- Gosto de você. Pelo menos, até agora. Mas não acha que é um pouco ridículo? Eu o vi pela primeira vez hoje à tarde. Não sei nada sobre você, que pelo menos sabe que estou aqui de férias. Desconfio que não é o seu caso.
- Quem lhe disse? Ou adivinhou?
- Adivinhei? - Sorriu para ele e voltaram a dançar. - Acertei que está aqui trabalhando, e não em férias?
- Estou aqui para trabalhar... e me divertir. Por que não, nesse clima e nessa paisagem incríveis?
- O que faz aqui?
- Sou engenheiro. Estou construindo hotéis, estradas...
Os olhos dela brilharam.
- Ah, já sei. Trabalho para uma companhia de construção civil. Já ouviu falar na Thistle International?
- É claro. Quem não ouviu? Você trabalha lá?
- No escritório central, em Londres. E você? - Havia uma ansiedade na voz dela que esperava que ele não notasse.
- O mundo é minha casa.
- Ah! - Lisa desviou os olhos, tentando esconder o desapontamento. - A companhia tem escritórios também em Oxfordshire do Norte.
- Já esteve lá? - Ela sacudiu a cabeça. - Prefere trabalhar em Londres?
- Tem suas vantagens. Mas, pensando bem, gostaria mais do interior. É mais calmo, mais bonito.
Houve uma pausa e ele a puxou para mais perto. A experiência era agradável, agradável demais. Havia uma excitação diferente nela, como se seu metabolismo tivesse mudado. E o pior era que o motivo era esse estranho. Depois dessa noite, depois de negar o que ele com certeza lhe pediria mais tarde, talvez não o visse nunca mais.
Capítulo I
Alguém a observava, no saguão do hotel. Podia sentir isso na pele, enquanto procurava os rostos conhecidos dos amigos. Virou-se quase sem querer, num impulso, para descobrir de onde vinha aquela força, aquele magnetismo que parecia queimá-la. Se os amigos não chegassem, teria que fugir, ir embora. Mas fugir de quê? De quem? Estava ameaçada, e era só isso o que sabia.
Então, Lisa o enxergou. A primeira impressão que teve da pessoa que a perturbava tanto foi a de um homem alto, moreno e barbudo, com os cabelos mais compridos que o normal.
Juntou forças e fuzilou-o com um olhar de fazer gelar o sangue. A resposta dele foi um sorriso, um gole de bebida no copo alto e uma saudação quase imperceptível.
Ela virou-se, furiosa, mas olhou por trás do ombro, outra vez, já aflita. Será que Myra e Phil não iam mais chegar? Andou em direção à entrada do hotel.
Havia muita gente subindo e descendo a escada em curva, o elevador ia e vinha cheio de turistas, mas, dos amigos, nem sinal. Como combinara encontrar-se com eles no bar, achou melhor voltar. Se aquele sujeito ainda estivesse lá...
E estava. Engraçado, entrar em pânico assim à toa, pensou Lisa. O negócio era procurar um lugar e esperar. Havia uma mesa vazia num canto. Sentou-se e matou o tempo o melhor que pôde, ora observando o lugar por onde entrariam seus amigos, ora fixando o olhar nas montanhas, além dos limites do hotel, onde parecia estar um mundo estranho e fascinante.
Sentiu, mais do que ouviu, um movimento à sua frente e virou-se com um sorriso alegre para cumprimentar os amigos. Mas não eram eles. O estranho sentou-se e esticou as pernas, indiferentemente, por debaixo da mesa, quase tocando os pés dela.
Continuava a encará-la, a cabeça para trás, relaxado, braços cruzados no peito. Usava uma camisa branca, meio desabotoada e calça jeans justa nos quadris estreitos.
Ele tinha o direito de ficar onde estava. Realmente, tinha. Não havia lei que o impedisse de sentar-se ali e encará-la, a não ser o respeito à privacidade alheia.
Lisa pegou uma revista na mesinha a seu lado e folheou rapidamente. Era em espanhol e seu conhecimento dessa língua não passava de umas poucas frases. Desapontada, colocou a revista no lugar, e, levantou os olhos para o desconhecido com uma expressão de desafio. "Ria de mim, e vai ver o que acontece", pensou. Sujeito atrevido!, Não havia desviado os olhos de seu rosto. Ficou vermelha. Que coisa mais fora de propósito perturbar-se com o mero olhar de um desconhecido. Pegou outra revista, olhou bem antes para ver se era em inglês e tentou relaxar.
Lia as frases,, mas ficavam soltas no ar, sem sentido. Não conseguia, nem queria, evitar pensamentos paralelos, o que era mais curioso. Baixou um pouco a revista, o bastante para enxergar por cima dela.
Agora podia observar o homem, pois ele lia a revista em espanhol. Quem sabe era a sua língua? Engraçado, algo nele lhe parecia familiar. Já o teria visto antes? O que a incomodava mesmo nele eram os olhos; logo, os olhos eram a chave do enigma. Mas qual era o jogo?
Droga! Agora estava encarando o homem do mesmo jeito que ele a tinha encarado.
De tanto se esforçar para ler, acabou se interessando por um artigo. Quando os amigos a chamaram, levou um susto.
Afastou-se para o canto, para ceder lugar, e notou que o barbudo também tinha parado de ler e observava os recém-chegados com muito interesse.
Myra e Phil sentaram-se bem juntinhos, de mãos dadas. Estavam casados há cinco semanas e totalmente apaixonados.
Cinco meses atrás, Lisa, Don (seu namorado), Myra e Phil tinham combinado passar as férias juntos. Quando Lisa brigou com Don, ele cancelou a reserva.
- Três é um número ímpar que não dá certo em passeios - afirmou Lisa. - Vou cancelar também.
Myra, que trabalhava na mesma firma construtora que ela, insistiu:
- Se fizer isso, eu e Phil também não vamos. E não quer estragar nossas férias, não é?
Para complicar mais as coisas, eles resolveram casar de repente, sem mais nem menos. Como as férias já estavam pagas, apesar de Lisa insistir de novo em ficar, não admitiram desistência.
- Nessa altura - Phil garantiu -, Myra e eu já seremos um velho casal. Sua presença-só vai ajudar a aliviar o tédio do nosso casamento.
Olhando agora as expressões radiantes, Lisa viu que cinco semanas de casados só havia aumentado o amor deles. Phil inclinou-se para ela.
- Desculpe-a pelo atraso, Lisa. Sabe como são as mulheres: não conseguem resolver que roupa vão vestir.
- Como tem coragem de dizer uma mentira dessas, se foi você que me atrasou! - protestou Myra.
Ele deu de ombros, rindo ainda.
- Sabe como é...
Lisa sorriu.
- Calculo. - Olhou o vestido da amiga. - Você está ótima. Eu estava com você, quando comprou esse vestido, lembra? Na Oxford Street, na hora do almoço!
A outra concordou, distante. Lisa seguiu o olhar da amiga e corou, quando viu que o moreno ainda não tirara os olhos dela, apesar da chegada dos amigos.
Myra fez cara de intrigada e Lisa apertou os lábios, tentando mostrar como achava desagradável a insolência do homem. A amiga sussurrou:
- Quer sair daqui?
Lisa ia concordar quando o homem ficou de pé, fez um sinal com a cabeça para o casal e foi saindo, sem pressa.
- Que história é essa? - perguntou Myra, desconfiada. - Arranjou um namorado?
- Não troquei uma palavra com esse sujeito! Desde que cheguei, ele é que não tirou os olhos de mim, como se eu fosse um quadro numa parede. Fiquei tão irritada!
- Ele gostou de você - explicou Phil, sorrindo. - Se eu não fosse um homem casado, olharia também, e do mesmo modo!
Foram andando para o restaurante, e Lisa se surpreendeu olhando as pessoas que se apinhavam no saguão. Estava ainda com medo de encontrar aquele homem perigoso. Só não sabia é que perigo ele representava. Nem por que, ou para quem se dirigia aquela força.
Ficaram na mesa de costume, perto da janela. Lisa, de frente para a porta de entrada, escutava distraída a conversa dos amigos, tentando rir na hora certa, confiando que eles não percebessem que prestava mais atenção em cada hóspede que entrava.
O estranho chegou pouco depois e teve uma atitude que a surpreendeu. Passou os olhos por ela como se não a reconhecesse. Era demais! Ficou profundamente irritada com isso e, principalmente, por dar tanta importância ao fato.
Como ele jantou com um grupo de homens de negócios, conversando sério, Lisa achou que não devia estar em férias, como imaginara.
Fez força para se esquecer dele e entrar na conversa dos amigos. Era mais uma conversa de namorados, e descobriu que não tinha perdido muito.
- Qual vai ser nosso programa hoje à noite?
- Estávamos justamente discutindo o assunto - respondeu Myra. - Eu quero ficar lendo no salão principal.
- E eu quero levá-las a dançar. Vamos lá, amor. Vai ter o resto da vida para ler.
- Bem, a verdade é que quer que eu faça a sua vontade novamente - disse Myra, jogando para trás os bonitos cabelos castanhos. Suspirou. - Pela última vez. Só hoje. - Virou-se para Lisa e informou, séria: - Nós vamos dançar, mas eu preciso subir para mudar de roupa.
Phil gemeu:
- Outra vez?!
- Por que acha que eu trouxe tantos vestidos?
Ele empurrou o prato de sobremesa.
- Está bem, sei perder.
Myra acariciou sua cabeça.
- Só quero ficar bonita para você, querido.
Phil sorriu para a mulher e disse a Lisa:
- Sabe quando ela fica mais bonita, não sabe?
Lisa riu, e brincou, maliciosa:
- Não sei não, Phil. Me conta.
Ele ficou sem jeito.
- Vocês duas estão me gozando. Lisa, nos vemos no salão de baile... - Olhou para a mulher. - Infelizmente, só daqui a duas horas, mais ou menos!
- Trinta minutos, Lisa, juro. Se o baile não tiver começado, tomamos um drinque. Pegue uma mesa de canto se chegar antes de nós.
Lisa desceu do elevador no segundo andar. O seu quarto dava para um terraço aberto sobre o mar. Sabia que Myra levaria muito tempo para trocar de roupa. Foi para sua janela olhar as rochas que a fascinavam. Entre elas, nasciam plantas estranhas, canteiros rasteiros de flores miudinhas, arbustos com folhas pontudas e muitos cactus. Aqui e ali, palmeiras se agitavam à brisa que refrescava o ar úmido e quente.
O vestido que ia usar era uma mistura de seda, com as cores do arco-íris. Longo, e com um decote que fazia aparecer o bronzeado que ela já adquirira nos dois dias de praia. A gargantilha branca combinava com as sandálias e a bolsa.
Suspirou diante do espelho. Qual o motivo para cuidar tanto de sua aparência? Era uma intrusa, pensou; não com pena de si mesma, mas dos amigos. Apesar de o negarem constantemente, ela sabia que de certa maneira, atrapalhava.
Olhou O relógio. A meia hora de Myra já havia passado, mas não esperava encontrá-los na mesa. Era sempre a primeira a chegar, qualquer que fosse o lugar do encontro.
Nos últimos dias, acostumara-se à espera solitária. Hoje, por uma reação que não entendia bem, ficava nervosa só de pensar em ficar sozinha.
Parou sob o arco do salão de dança e olhou as mesas, muitas das quais já estavam ocupadas. Para seu alívio, viu algumas vazias nos cantos mais escuros.
Ao se dirigir para uma delas, percebeu um grupo de homens no bar, em frente à pista de dança. Eram quatro, e ele estava entre eles.
Sentou-se à mesa e começou a mexer na bolsa; depois, arrumou a gargantilha e alisou os cabelos. Bem, que fazer agora? Virou-se em direção ao bar.
A esperança de que os homens não estivessem lá não se realizou. Estavam, sim, os quatro; mas só um a observava. Embaraçada, olhou para a porta, pedindo a Deus que os amigos aparecessem e a livrassem daquela sensação de solidão no meio de uma multidão de estranhos.
Olhou para o grupo, novamente. Agora, os quatro a observavam. O moreno falou qualquer coisa, que os outros escutaram, cheios de atenção. Estariam falando mal dela? Por que riam? Ficou com o rosto pegando fogo. Com certeza, riam dela porque estava sozinha.
Quando viu que o homem se despedia dos amigos e vinha em sua direção, teve a reação mais infantil possível. Começou a se levantar, pronta para fugir. Percebeu a tempo que papel de caipira ia fazer e sentou-se. Apertou as mãos sobre a mesa e ficou olhando para fora, pela janela, tentando descobrir alguma coisa na escuridão.
O barulho de uma cadeira arrastada tirou-a da falsa contemplação. Ele a olhava, sobrancelhas levantadas em interrogação.
- Sinto muito - informou ao homem, rapidamente. - A mesa está ocupada.
- Esperando por seus amigos?
A voz era baixa e falava em inglês perfeito. Logo, essa devia ser sua língua, o que respondia pelo menos à pergunta sobre qual era seu país de origem. Havia, no entanto, muitas outras sem resposta. Por exemplo, qual o motivo de ele também estar nas Canárias, nesse lugar maravilhoso chamado Lanzarote, cuja paisagem era quase lunar.
Outra pergunta que merecia resposta era o porquê daqueles homens terem saído a um simples aceno de cabeça dele. Pareciam amigos, iguais, homens de negócio. Enfim...
- Estou esperando por eles, sim. De modo que, sinto muito, mas a mesa está mesmo ocupada.
- Você só tem dois amigos, não? - Já estava sentado à sua frente. - Mas há quatro cadeiras.
- Dois amigos, mas... - A raiva que sentira de tarde pela audácia do homem voltou. - Gostamos do número três, e não do quatro, se nos dá licença.
Ele nem ligou. Sorriu, recostou-se e passou a mão pela barba.
- Mas no momento só você está aqui. Garanto que não se importa que eu lhe faça companhia até seus companheiros chegarem.
Sacudindo a cabeça, sem falar, Lisa olhou para a entrada, meio desesperada. As pessoas chegavam sem parar, duas a duas, mas o casal que ela queria não aparecia.
- Posso pedir um drinque para você? - A pergunta trouxe-a de volta à presença dele.
- Não, obrigada. - Vou esperar por meus amigos. Mas fique à vontade, peça o seu.
Ele inclinou a cabeça, levemente irônico, e levantou a mão para o garçom que passava. Fez o pedido em espanhol fluente, para surpresa de Lisa. Será que tinha errado sua nacionalidade?
- Está gostando das férias? - perguntou ele, no momento em que a orquestra começava a afinar os instrumentos.
- Bem... acho que sim. Só estamos aqui há dois dias.
Ele olhava para suas mãos e ela percebeu que procurava uma aliança ou anel de noivado.
- Você acha que está gostando? Hum... Nada bom ser a terceira pessoa, não é?
Lisa deu um sorriso. Ele a olhava intensamente e não ria. Ela sentiu um arrepio na espinha ao perceber, de repente, como aquele homem a atraía. Se pelo menos pudesse ver o rosto dele, sem essa barba e o bigode. Um dia, alguma mulher conseguiria convencê-lo a tirar aquilo. Teve um súbito desejo de ser essa mulher...
O garçom colocou a bebida na frente dele, que pagou na hora, com uma bela gorjeta.
- É mesmo desagradável ser a terceira pessoa. Mas guardo segredo. Nem comento com eles.
- Deve haver uma razão para estar sozinha.
Com relutância, ela esclareceu.
- Briguei com meu namorado e ele cancelou a reserva.
Os olhos do homem se apertaram. Depois sorriu, comentando:
- O que a deixou sozinha numa cama dupla.
O comentário enfureceu-a.
- Não, está errado! Tente de novo para ver se acerta, sr... não sei seu nome.
- Cameron. Zander Cameron. Antes que pergunte, é uma abreviatura de Alexander. Você é Lisa. Escutei seus amigos dizerem seu nome. Lisa o quê?
- Maynard - respondeu, seca. Então, ele achava que ela era uma conquista de férias, e que, como não estava acompanhada, ia cair feito um fruto maduro. - Sua mulher também veio, sr. Cameron? Ou talvez sua namorada?
Ele sorriu, percebendo a intenção dela de colocá-lo no lugar.
- Nenhuma das duas.
Lisa olhou para a entrada. Phil estava lá, gesticulando. Zander Cameron seguiu seu olhar.
- Desculpe, por favor. - Ela se levantou e foi abrindo caminho por entre as mesas.
- Sinto muito, Lisa - disse Phil. - Não vamos descer hoje. - Estava todo afogueado. - Não se importa, não é?
Sorriu, compreensiva.
- Esqueça de mim, Phil. Estou bem acompanhada. Uma companhia não convidada, mas, nas circunstâncias, até que foi bom ele aparecer.
- Não é o sujeito que encarou você a tarde inteira? Mantenha distância, hein?
- Conselho do tio Phil? Tudo bem. Sei me cuidar! - "Será que sei mesmo?", perguntou a si mesma, lembrando-se de como ficara magoada quando Don contou que estava gostando de outra.
- Vemos você no café da manhã, Lisa.
Imediatamente, sentiu-se só e vulnerável. À sua volta, todos riam, falavam, dançavam. Estava sobrando de novo, pensou. Não deveria ter vindo. O melhor que tinha a fazer era subir também. Mas deixara a bolsa na mesa. Precisava voltar até lá, quisesse ou não.
- Os amigos não vêm mais? - perguntou Zander Cameron, virando o copo na mão.
Ela não respondeu, franziu a testa, intrigada.
- Que estranho! Sumiu... Podia jurar... Viu alguém pegar minha bolsa?
Ele respondeu com outra pergunta:
- Posso tomar o lugar de seus amigos?
Foi a vez dela mudar de assunto.
- Preciso achar minha bolsa. Por favor, quer me ajudar?
- Primeiro responda à minha pergunta, que depois respondo à sua.
- Está bem! Está bem! Agora diga se viu minha bolsa.
- Uma coisa de cada vez - foi a resposta irritante. - Quer dizer que aceita ficar no baile comigo? - Impaciente, ela concordou. - Bem, vi sua bolsa, sim. Vi quando alguém passou a mão nela.
- E não impediu?
Ele se recostou na cadeira, cruzou as pernas, braços dobrados no peito e um sorriso abrandando as linhas decididas da boca. A música tocava e os pares dançavam.
- A mão que eu vi era a minha. Quer sua bolsa? - Tirou-a do bolso. - Tome.
- Mas por que a escondeu? Sabia que ia me assustar! - Afundou na cadeira.
Ele se inclinou para a frente, mãos cruzadas sobre a mesa. Os olhos castanhos enrugavam-se nos cantos, divertidos... Ou cínicos?
- Ou você é uma grande atriz, ou sua amnésia foi puramente psicológica.
- O que quer dizer? Não está insinuando que deixei a bolsa de propósito, só para ter uma desculpa para voltar?
- Acho que sim.
Lisa puxou a cadeira para trás e levantou-se, mas ele pegou seu braço.
- Você concordou em me fazer companhia, lembra-se, Lisa? O toque de sua mão, o efeito de sua voz de timbre baixo, a atração que irradiava, tudo isso combinado fez com que ela ficasse em guarda. Com vinte e três anos, já sabia o que queria.
Assim mesmo, não podia fingir não gostar da idéia de ter a companhia dele.
- Eu mantenho minha promessa, mas só hoje, sr. Cameron.
- Aceita porque algumas horas comigo são preferíveis a ficar sozinha?
Lisa concordou, sorrindo, sorriso que ele não retribuiu. Que experiência estranha! O homem a intrigava; tudo nele tinha um certo mistério, até o rosto semi-encoberto.
- Posso pedir alguma coisa para você comer? - ofereceu ele. -Não? Um drinque, então?
- Nada, obrigada, sr. Cameron.
- Não dá para me chamar de Zander? - Os olhos castanhos sorriam, agora.
- Você é inglês?
- Inglês? Com um nome como o meu? Ora, senhorita, claro que sou escocês. - Tocou a mão dela, de leve. - Vamos dançar? - Tirou o casaco, colocou-o nas costas da cadeira e levantou-se.
Lisa não podia recusar, nem queria. Aquele rápido toque em sua mão tinha feito com que quisesse ficar mais perto dele. Sentiu-se vencida, completamente perdida. Primeiro Don, agora esse homem. Sabia por que ele estava se aproximando, e não tinha nada a ver com amizade.
- Sinto muito - tentou resistir. - Não quero dançar.
Ele enlaçou sua cintura, puxando-a da mesa.
- Mas eu quero, Lisa, eu quero.
Era bom estar em seus braços, disse Lisa para si mesma. Aquela mão nas costas era um apoio seguro e não a apertava demais. Ele sorriu para ela, que não soube como corresponder, muito desconfiada.
- Tudo bem, Lisa. Tudo bem. Debaixo de toda essa barba tem um cara honesto e bom caráter.
- Pelo menos, é engraçado. Faz sempre as mesmas graças quando tenta fisgar uma namoradinha de verão?
- Está dizendo que não faço sucesso com você? - Ficou sério, os olhos frios, distantes. Levou algum tempo para voltar ao normal. - Acredite: não costumo ter casos inconseqüentes. Sabe que você tem um efeito estranho sobre mim?
- Qual, por exemplo?
- Vontade de bancar o bobo: qualquer coisa para ver você rir.
Havia um significado mais profundo em suas palavras, que ela não entendeu. Queria perguntar por que, mas só disse:
- Gosto muito de rir. Sinto-me bem.
- Então, preciso bancar o palhaço com mais freqüência, não? - Falou suavemente e encostou os lábios em seus cabelos. Lisa não fez objeções apesar de saber que as convenções não a obrigavam a tanto.
- Seus amigos estão em lua-de-mel?
- Sim e não. Estavam noivos quando marcamos essa viagem. Mas resolveram casar, de repente, há cinco semanas. E, por causa dessa viagem, adiaram a lua-de-mel até agora.
- Você não se importa de ser a terceira?
- O que acha?
- Acho que parece um bichinho perdido.
Ela riu.
- Não, no momento. Não, quando... - Quase mordeu a língua.
- Esqueça. - Olhou para longe, por sobre a cabeça dos dançarinos.
A música parou, mas ele não a deixou ir.
- Esquecer o quê? Que não fica triste quando está comigo? Seja boazinha e confesse que estou certo.
- Você é uma boa companhia, sem dúvida.
- Uma das respostas mais evasivas que já ouvi de uma mulher que se recusa u admitir que gosta de um sujeito.
- Gosto de você. Pelo menos, até agora. Mas não acha que é um pouco ridículo? Eu o vi pela primeira vez hoje à tarde. Não sei nada sobre você, que pelo menos sabe que estou aqui de férias. Desconfio que não é o seu caso.
- Quem lhe disse? Ou adivinhou?
- Adivinhei? - Sorriu para ele e voltaram a dançar. - Acertei que está aqui trabalhando, e não em férias?
- Estou aqui para trabalhar... e me divertir. Por que não, nesse clima e nessa paisagem incríveis?
- O que faz aqui?
- Sou engenheiro. Estou construindo hotéis, estradas...
Os olhos dela brilharam.
- Ah, já sei. Trabalho para uma companhia de construção civil. Já ouviu falar na Thistle International?
- É claro. Quem não ouviu? Você trabalha lá?
- No escritório central, em Londres. E você? - Havia uma ansiedade na voz dela que esperava que ele não notasse.
- O mundo é minha casa.
- Ah! - Lisa desviou os olhos, tentando esconder o desapontamento. - A companhia tem escritórios também em Oxfordshire do Norte.
- Já esteve lá? - Ela sacudiu a cabeça. - Prefere trabalhar em Londres?
- Tem suas vantagens. Mas, pensando bem, gostaria mais do interior. É mais calmo, mais bonito.
Houve uma pausa e ele a puxou para mais perto. A experiência era agradável, agradável demais. Havia uma excitação diferente nela, como se seu metabolismo tivesse mudado. E o pior era que o motivo era esse estranho. Depois dessa noite, depois de negar o que ele com certeza lhe pediria mais tarde, talvez não o visse nunca mais.
Quando a música acabou, Zander pegou-a pela mão e atravessou o salão.
- Vamos mudar de cenário. Você não se importa, importa?
- Desconfio que, mesmo que me importasse não adiantaria nada. Você não me daria a mínima atenção.
A idéia pareceu diverti-lo.
- Por que pensa assim?
Pararam, esperando o elevador.
- Não sei. Alguma coisa sobre você... - Olhou-o, pensativa. O elevador chegou e entraram. - Não sei por que, tenho a nítida impressão de que já o vi em algum lugar.
Ele apertou o botão.
- Ah, é? Já tivemos um encontro secreto? Será que você é uma das mulheres do meu passado? - Tocou o rosto dela. - Deve estar enganada. Eu me lembraria, sem dúvida.
- Já sei! Numa revista! Não, não foi. Coisa parecida... - Desceram, ele pegou sua mão e foram andando. - Não, não está certo também. Você tem barba e o homem que eu estava pensando não tinha.
- Se fosse você, eu desistia.
Zander andava tão depressa que ela precisava correr ao lado dele. Estavam perto do restaurante da cobertura. Lá dentro quase não havia luz e parecia cheio de gente. Na semi-obscuridade, chegaram a um terraço coberto.
O vento quase tirou a respiração de Lisa. Bem que podia ter trazido um casaco, pensou, estremecendo. Zander não percebeu: olhava para fora, mas seus pensamentos não pareciam estar nas montanhas escuras de cinza e lava, à distância.
- Quanto da ilha você viu? - perguntou, afinal.
- Só o que dá para avistar do meu terraço, de dia. Passamos o resto do tempo na praia.
- Para se bronzear? Não acredito. Foi para isso que veio? Só para ficar morena?
- Faço parte de um grupo de três. Se sou minoria, tenho que ir junto com os dois, não é? Eu duvido que meus amigos vejam muito, além dos próprios narizes. Além disso, ainda é muita bondade deles deixarem que eu vá atrás, atrapalhando os dois.
- Gosta de ir atrás deles?
- Eu... Não, não gosto. Mas também não acho a menor graça em andar com um bando de turistas barulhentos que não conheço.
- Suas férias não estão lá grande coisa, não é? Sabendo que ia sobrar, por que não cancelou sua reserva?
- Fiz o possível, mas insistiram para que eu viesse. Disseram que depois de cinco semanas de casados seriam como um velho casal, mas ainda não conseguem parar de se olhar apaixonadamente.
- Não sei por que se espanta com isso, se tinha um namorado há até tão pouco tempo.
Ela corou.
- Era um namorado, não era meu amante. Pode fazer essa cara de quem não acredita, que nem me importo. Estou falando a verdade.
Ele ajeitou seus cabelos despenteados pelo vento. Não adiantou nada, as mechas voltaram a cair no rosto. Zander afastou-as outra vez, agora usando as duas mãos, e se inclinou de repente beijando-a nos lábios: um beijo de amigo, beijo que não pedia nada, sem grande desejo. Foi por isso que ele gostou e sorriu.
- Você é uma coisinha fofa e macia - ele murmurou com um forte sotaque escocês.
- A quantas mulheres já disse isso nos seus passeios pelo mundo? - Lisa perguntou, meio de brincadeira, mas querendo muito saber a verdade. Era perigoso gostar desse estranho de olhos vivos, muito perigoso mesmo, e a maior bobagem sentir tanto prazer num único beijo.
Ele não gostou nem um pouco da pergunta e ela percebeu pelo olhar que esfriou.
- Centenas, milhares de mulheres. Minhas mulheres estão espalhadas pelo mundo todo. - Percebeu que ela enrijeceu o corpo e puxou-a para mais perto, abraçando-a pela cintura. - Eu estava brincando. Não é meu costume correr atrás de mulheres, aproveitar o que posso, e depois deixá-las para trás.
Lisa sentiu um frio no estômago.
- Mas agora vai fazer uma exceção à regra?
- É o que quer? - Estava sério.
- É claro que sabe a resposta, não é?
- Pelo seu encorajamento de hoje, achei que ia dizer "sim", se eu perguntasse.
Ela se desvencilhou com um empurrão.
- Sinto muito se lhe dei essa impressão. - Olhou para a noite escura e, para seu desapontamento, a voz saiu engasgada. - Não entendo por que uma mulher não pode mostrar que gosta de um homem, sem que ele imediatamente tome isso como sinal de que ela quer ir para cama.
- Ah, então gosta de mim. Já é um bom começo. - Passou o braço por seus ombros. - Vamos, vou levar você para seu quarto.
- É um bom começo de quê? - perguntou ela, ao entrarem no elevador.
- Da amizade que você parece prezar tanto.
De volta ao salão de baile para pegarem suas coisas, passaram pelos três homens com quem Zander havia jantado. Um voltava da pista, abraçado com uma garota bonita e falou bem alto:
- Oi, chefe!
Lisa notou que Zander não respondeu.
- Um de seus amigos lhe chamou.
- Chamou? - foi a resposta desinteressada. Vestiu o casaco e levou-a até a porta por um caminho diferente.
- Por que ele lhe chamou de chefe?
- Alguém tem que dirigir uma construção.
Entraram no elevador.
- Então é você que toma conta? - perguntou, impressionada.
- Bem, não está escrito "patrão" no meu capacete de segurança, mas é o que sou. - Lisa sorriu. - Qual é a graça?
- Homens de alto nível precisam da companhia de mulheres de alto nível, o que significa - olhou-o, desafiadora - que já fui descartada. Vai me deixar e procurar alguém de um nível social mais alto do que uma mera secretária. - Saíram do elevador e ela olhou em volta. - Mas pode não ter sorte. Não há muitas mulheres administradoras dando sopa por aqui, nem mesmo nesses dias ensolarados.
Abriu a porta do quarto, e ele entrou sem ser convidado, agarrando-a pelos ombros.
- Não precisa ser tão agressiva para me ofender. Ainda mais, quando não entende nada do assunto que está falando. - Os olhos castanhos dele fuzilavam. - Homens de alto nível procuram mulheres inferiores em suas escapadas.
Lisa tentou se desvencilhar, mas ele a abraçou com firmeza, deixando que sentisse seu desejo que aumentava, e ela gritou:
- Não faça isso! Não sou quem você pensa!
A boca de Zander impediu qualquer protesto, poderosa, lutando contra os lábios apertados da moça. No fim, ele ganhou, forçando sua cabeça para trás e saboreando a doçura da sua boca, até ela engasgar, sem ar.
Quando se afastaram, Lisa viu que havia raiva nos olhos dele e ficou intrigada. Ela é que tinha sido usada; não seria mais lógico que ela ficasse furiosa?
Seu coração batia, agitado; não, de raiva, mas de excitação. Tirou os braços do pescoço de Zander e descobriu que o bom humor dele, ainda que cínico, havia voltado.
- Homem de classe acaba de encontrar mulher de classe. E, melhor ainda, mulher sem pretensões administrativas. Bem, Lisa, qual é a resposta? Sim ou não?
- Por que tudo isso? - perguntou, sem encará-lo.
- Então, devo entender que sua resposta é não. Sinto muito, Lisa. Boa noite.
Ele a soltou e foi embora. Para tristeza dela, não olhou para trás nem uma vez.
Lisa estava sentada à mesa, sozinha, com a cafeteira vazia sobre a bandeja e um guardanapo amassado do lado. Há muito desistira de procurar os amigos. Com certeza, tinham tomado o café da manhã no quarto.
Continuou de olho na entrada, procurando a figura alta e bronzeada do homem em quem não parava de pensar. Depois de rejeitá-lo na noite anterior, provavelmente nunca mais o veria.
Seus amigos desciam a escada de mãos dadas. Correram para ela, cheios de desculpas, que Lisa aceitou com um sorriso alegre, mas que não vinha do coração. Tudo bem, dizia seu ego mais intolerante, eles estão em lua-de-mel, mas sabiam que ela estava sozinha. Será que não podiam se esforçar um pouco para lhe fazer companhia, como no começo?
- Sem ninguém? - perguntou Phil.
Myra viu Lisa franzir a testa e disse, um pouco ansiosa:
- Você é que vai fazer os planos para hoje.
- Se vocês dois querem ficar sozinhos não se preocupem comigo. Vou ficar muito bem, na piscina, tomando sol.
- Era exatamente o que íamos fazer - falou Myra, e Lisa notou o alívio em sua voz.
Na realidade, não queria passar outro dia de suas preciosas férias se bronzeando. A estranha e misteriosa paisagem da qual só vira pedaços aqui e ali, a atraía irresistivelmente. E aquilo que havia dito a Zander Cameron, de sentir-se muito mal no meio de turistas desconhecidos, era a pura verdade.
- Vou vestir o maio - disse a Myra - e encontro vocês no lugar de sempre.
Ao subir a escada, passou por dois homens com rostos conhecidos. Estavam de macacões brancos e eram os amigos de Zander. Quando se cruzaram na escada larga, um deles, louro e muito jovem, piscou para ela. Lisa ficou espantada e um pouco ressentida com a intimidade, mas retribuiu o sorriso. Ele levantou o indicador, num sinal de "tudo em ordem". Ela não entendeu absolutamente por quê.
Foi ao encontro dos amigos perto das rochas de lavas que despontavam do mar formando um pequeno recife na areia dourada. Sentou-se e colocou a sacola de roupas e as toalhas ao lado. Os dois estavam nadando. Myra a viu e acenou, gritando qualquer coisa que ela não entendeu.
Resolveu dar um pouco de sossego ao casalzinho e foi nadar quando eles voltaram. Demorou bastante tempo dentro d'água. Quando saiu, encontrou-os abraçados na areia e sorriu. "Sorte a de vocês por terem se encontrado", pensou. Negava-se veementemente a pensar que existisse inveja em seu coração. Será que havia?
Já era meio-dia e Lisa estava inquieta. Myra e Phil pareciam dormir, agarradinhos como sempre. Ela se levantou devagar, amarrou os cabelos ainda úmidos num rabo-de-cavalo, e foi andando em direção ao recife de lava. Subiu nas pedras e encontrou um lugar bom para sentar, com os pés na água gelada.
Alguém gritou e ela virou a cabeça, automaticamente. Um homem estava ali perto, na areia. Reconheceu-o na hora: era o louro que tinha piscado para ela. Sorriu para ele e virou-se de novo para a água clara. Por alguma razão que não podia explicar, não gostava dele. "Se eu o ignorar, ele vai embora".
Mas o homem não foi. Logo, estava sentado a seu lado, puxando conversa:
- Sozinha?
Lisa ficou quieta.
- Está aproveitando as férias?
Ela fez que sim com a cabeça.
- Sorte sua. Eu estou aqui a trabalho.
- Não parece.
Ele riu, satisfeito por ter conseguido umas palavras dela.
- Todos precisam se divertir pelo menos um pouco, não? Você não parece estar se divertindo muito. - Tocou o braço dela de leve. -Não podíamos nos divertir juntos?
Sem responder, Lisa entrou na água e atravessou a barreira de pedras que levava a baía.
- Ei! - gritou o rapaz. - Não fuja de mim assim!
- Obrigada por conversar comigo - gritou por sobre o ombro -, mas estou feliz com meus amigos! Não estou atrás de um namorado de verão. Sinto muito.
- Ora, muito bem. - O rapaz suspirou. - Não dá para ganhar todas. Tchau! - Afastou-se.
Lisa pegou uma toalha e curvou-se para enxugar as pernas e os pés. Sem querer, levantou a cabeça e viu o rapaz fazer um sinal com o polegar para baixo para um homem alto, magro, bronzeado... e barbudo.
Olhavam para ela e conversaram. Zander Cameron concordava com o que o outro dizia, com acenos de cabeça. Lisa sentiu uma onda de fúria dominar seu corpo. Então, ele a estava testando, usando um dos amigos como isca!
Virou-se de costas para os dois, soltou os cabelos e começou a secá-lo. Duas mãos seguram as delas de repente.
Desvencilhou-se e o encarou, furiosa.
- Agora que já me testou e me achou de bom nível moral, acha que pode me dar a honra de sua companhia outra vez, não é? Pois não quero, obrigada. Pode ir fazer esse favor a outra mulher. Há muitas, escolha à vontade...
Os olhos dele ficaram frios como o vento da praia. Girou nos calcanhares e começou a subir o declive que levava ao hotel.
Ia embora. E tinha que encarar o fato de que estava indo embora de sua vida. No momento em que percebeu isso, que ia perder aquele homem por causa de um orgulho bobo, percebeu também que havia sido mais tola ainda de deixar que em tão pouco tempo ele se tornasse tão importante para sua felicidade.
- Zander, não vá! - O pedido foi feito com toda a espontaneidade e ela se recriminou por revelar sua vulnerabilidade. Havia posto uma arma na mão dele e, sendo o homem que era, com certeza a usaria.
Zander parou imediatamente, mas não se virou. Sem fôlego, Lisa esperou que ele continuasse, mas não foi o que aconteceu. Virou-se e parou a uma certa distância dela.
- Por quê? Me acha útil, é isso? Uma companhia? Ou resolveu achar que você e eu fazemos um casal simpático, afinal de contas?
Seu distanciamento e ironia, deixaram Lisa sem fala por um instante. Estava usando a arma que ela lhe dera. Mais alguns momentos e a golpearia.
- Gosto de você, Zander, já lhe disse. Gosto da sua amizade.
"É muito mais do que amizade o que sinto por ele", dizia seu coração. "Muito mais. Como posso ser burra a ponto de me envolver tão depressa? Será que não aprendi nada com Don sobre a inconstância dos homens?"
Só que esse homem não se parecia com Don. De jeito nenhum. Era só ficar perto dele para sentir sua força, que a envolvia toda.
Zander aproximou-se, sorriu para ela e abriu os braços. Lisa refugiou-se neles, o rosto encostado em seu peito. A barba picava sua testa, e ela riu.
- Atrapalha muito. Por que não raspa isso?
- Isso eu não faço.
- Mas quero ver o homem escondido atrás dessa barba.
- Talvez não gostasse do homem.
- Talvez eu o amasse.
Uma sombra de amargura passou pelo rosto dele.
- Aposto que não. Você o odiaria. - Beijou-a. - Um dia, vou pegar esse sorriso e guardar no bolso.
- Para sempre?
- Para sempre.
Lisa sorriu, mas sentiu-se perturbada.
- Você nunca o jogaria fora, nem mesmo quando as férias acabassem e a gente não se visse mais? - Continuou a olhá-lo dentro dos olhos. - Mesmo quando for casado e cheio de filhos?
- Já lhe disse: sou um cidadão do mundo. O que um homem como eu ia fazer com mulher e filhos?
Era uma pergunta que ela não sabia responder. Fechou os olhos para esconder a pontada de dor que sentiu. Ele diminuíra a força de seu abraço e ela pôde perceber, então, Myra e Phil no alto das rochas, observando-os.
Sabia que os dois iam mostrar todo o tato que tinham e desaparecer, de modo que acenou convidando-os a se aproximar.
- Meus amigos estão ali.
- Deixe-os em paz. Só podem querer um ao outro. Com certeza, estão encantados por você ter encontrado um par.
Quando Lisa se deu conta, os amigos já tinham ido embora. Dessa vez, teve que admitir um certo alívio por se comportarem com tanta discrição?
Zander desceu as mãos pelas costas dela, acariciando-a, com o olhar perdido no mar. Sem saber por que, Lisa teve a impressão de que ele sofria e pensava em outra pessoa. Era como se acariciasse uma lembrança penosa.
- Zander? Quem você está agradando? Não sou eu. Você está tão longe! Alguma antiga namorada?
Ele sorriu, de leve.
- Uma garota que conheço.
Lisa fez que sim com a cabeça, esperando demonstrar que compreendia que ele não queria excitá-la, mas que estava com saudade de alguém. Depois, sentou-se na areia e ele se deitou a seu lado.
- Está de folga hoje?
Zander correu o dedo por sua espinha, fazendo com que se arrepiasse toda.
- Eu sou o patrão. Fico de folga quando quero.
Lisa desenhava com o dedo na areia dourada.
- Deve ser gostoso poder fazer o que a gente quer.
Um braço musculoso a agarrou pela cintura, puxando-a para trás.
- Não faço sempre o que quero. Só às vezes. - Começou a acariciar seus seios. - Você é tão macia...
- Como é que sabe? - perguntou, e só então percebeu o desafio em suas palavras.
Protestou quando ele a fez virar e deitar em seus braços, bem juntinho, coração batendo contra coração.
- Estou com sede - anunciou Lisa, só para ser tomada de surpresa quando ele levantou o corpo um pouco e beijou-a.
- Melhorou?
Ela sacudiu a cabeça, muda, ganhando outro beijo, mais ousado ainda.
- E agora?
- Melhorei, melhorei. - Desvencilhou-se dele. - Mas eu não quis dizer isso, você sabe muito bem. - Começou a mexer na bolsa e perguntou: - Essa barba não incomoda, neste calor?
- Você não tem nada com isso, o problema é meu. - Vendo-a franzir a testa, magoada com a grosseria, continuou, mais delicado: - Além disso, já disse que você não ia gostar do homem atrás dela.
Lisa tirou uma garrafa de água mineral da bolsa e respondeu:
- Pura bobagem. Você é o mesmo homem com barba ou sem barba.
- Pensei que estava com outro tipo de sede.
Lisa sorriu e tirou a tampa de borracha.
- Concordo em mudar de assunto. - Quando ia levar a garrafa à boca, parou. - Não trouxe copo. Se importa se eu não me comportar como uma garota bem educada?
- Sabe de uma coisa? Gostaria que fizesse isso o tempo todo. De preferência, numa noite de lua cheia, sem ninguém por perto.
A única resposta dela foi um sorriso rápido. Zander ajoelhou-se e segurou seu rosto. Os olhares dos dois cruzaram, e uma emoção diferente começou a brotar entre eles.
Passaram-se alguns segundos nervosos. Os lábios de Lisa tremiam, antecipando o beijo. Beijo que não veio. O momento passou. Zander soltou-a e ela bebeu um gole de água, oferecendo depois a garrafa a ele, que também bebeu.
Lisa ficou olhando para o mar, abraçando os joelhos. Era demais u prazer que sentia de estar com esse homem. Parecia conhecê-lo há anos, era como se ele a completasse. Impossível saber o que sentia por ela. Mas seria bobagem acreditar que representava algo mais do que outra mulher em sua longa lista de conquistas.
Lisa estava em pé junto da janela do terraço, olhando para o sol poente. Pensava na despedida de Zander.
- Jante comigo - havia dito, não como uma pergunta.
- Vou jantar com Myra e Phil.
- Hoje não vai. Esqueça.
Mesmo que ele não estivesse tão decidido, ela não ia querer discutir. A prudência tentava avisá-la para se lembrar de Don e conservar distância desse homem. Mas preferia se enganar, dizendo a si mesma que era só uma amizade de verão.
Pegou o telefone e ligou para Myra e Phil. Myra atendeu e, quando soube do jantar, ficou encantada.
- Ele está caidinho por você, Lisa. Observamos os dois hoje à tarde. Acredite na velha tia Myra que sabe reconhecer amor à primeira vista.
Lisa negou cada palavra, mas a amiga lhe desejou boa sorte.
- Aproveite o máximo - aconselhou, antes de desligar. - Se gosta dele, e acho que gosta, não faça cerimônia. Afinal de contas, quando as férias se acabarem, você não vai vê-lo nunca mais, não é?
Foi com essa idéia na cabeça que ela olhou para o relógio de pulso, contando os segundos até os ponteiros chegarem no momento exato que tinham combinado. Estava fazendo o possível para não demonstrar ansiedade, mas a vontade era de sair correndo até o elevador.
Havia tão pouco tempo até o último dia, até o momento da partida! Tão pouco tempo para estar com ele!
Logo depois já estava fechando a porta do quarto e saindo apressada. Zander a esperava encostado na parede, o olhar perdido, como se resignado a uma longa espera. Ela nunca se esqueceria como seus olhos se iluminaram num sorriso ao vê-la.
Recusou-se a perguntar a si mesma o que significava aquilo. Estendeu a mão num gesto espontâneo, mas formal. Ele puxou-a para si e,Lisa riu de pura felicidade. Olhou rapidamente em volta e viu que; Myra e Phil ainda não tinham aparecido para jantar.
- Onde estão seus três colegas?
- Lá no bar. - Foi com ela até uma mesa, no escurinho, seguindo o maitre que puxou a cadeira com um gesto exagerado.
- Você também estaria no bar, se não tivesse me escolhido para a mulher do seu verão? - Provocou-o de propósito, esperando uma resposta malcriada que não veio.
- Estaria lá, se você não me escolhesse com esses olhos azuis e essa carinha de menina perdida.
- Eu escolhi você? Ficou me olhando, encarando, parecia...
Zander deu risada de sua indignação.
- Você adorou, confesse. Agradou à sua feminilidade saber que um homem a deseja. Principalmente, logo depois de brigar com um namorado, o que sempre é um trauma.
Lisa examinou o cardápio e fingiu não ligar para as palavras dele.
- Trauma? Já ouvi falar que muita gente sente isso. Eu não sei. Mas talvez você saiba, por experiência própria.
Fez-se um longo silêncio, e ela nem teve coragem de olhar para ele. Sua pergunta tinha sido indelicada, e não o conhecia muito bem para saber qual seria sua reação.
Zander afinal respondeu, muito sério.
- Sugiro, de agora em diante, só vivermos o presente.
- Nenhum passado, nem futuro? Só presente? - Ele concordou com a cabeça e ela continuou: - Para mim está ótimo.
"Ah, mas é claro que me importo com o futuro", pensou, mordendo os lábios trêmulos.
- Então, está combinado. Vamos escolher o jantar?
Lisa não entendeu o espanhol do cardápio, achou a tradução embaixo estranhamente fora de foco e colocou-o de lado.
- Escolha você, Zander. Deve saber o gosto de todos os pratos.
O garçom aproximou-se. Enquanto Zander fazia o pedido, ela correu os olhos pela sala, viu os amigos e acenou. Myra sorriu, encorajando-a.
- Eles parecem contentes de terem se livrado de você. É por isso que está saindo comigo? Para deixar o casal de pombinhos sozinho? É por isso que quer que eu seja seu amigo?
- Amigo?
- Amizade. Não é isso que você valoriza tanto entre um homem e uma mulher?
Talvez com outros homens e outras mulheres, mas não com você!, teve vontade de dizer.
- E daí? Acho que você também só se aproximou de mim porque estava enjoado de seus amigos e queria um pouco de companhia feminina.
- Muita esperteza sua em descobrir tudo, Lisa. Dou o troco ao seu comentário. Acho que está comigo para evitar o vazio deixado pela briga com seu namorado.
Ele falou aquilo como um desafio, esperando que ela protestasse, mas Lisa nem tentou. Só disse:
- Nós não tínhamos combinado nada de passado nem de futuro?
- Menina escorregadia e medrosa, hein? Primeiro, acerta um golpe com um desafio imprudente; depois, se esconde do contra-ataque e pede uma trégua.
Lisa sorriu e imitou seu sotaque escocês:
- Ah, então sou uma fujona dos diabos, hein?
- Vou ter que lhe dar umas aulas para melhorar o seu sotaque.
- Não preciso de aulas. Depois de algumas semanas com você por perto falando desse jeito, não tenho como não ficar fluente. - Quis morder a língua pelo que acabara de falar. - Esqueça que eu disse isso.
- Tudo bem. Já apaguei. Nem passado, nem futuro. - Pegou o cálice de vinho que o garçom acabara de servir. - Vamos brindar ao lugar e ao momento.
Lisa brindou e beberam.
Na hora do café, Zander perguntou:
- Gostaria de um guia manso mas inexperiente para visitar a ilha?
Os olhos dela brilharam.
- Você me leva?
- Tire o brilho desses olhos lindos quando olhar para mim, senão, faço qualquer coisa que você quiser, Lisa.
- Zander - esticou a mão e cobriu a dele, sobre a mesa -, se você me mostrar a ilha, eu o amarei para sempre.
- Jura? - Fingindo que já ia se levantar. - Então, vamos! A oferta de uma vida em seus braços é boa demais para eu resistir!
- Eu não queria dizer nesse minuto!
- Ora, então vou ter que esperar até amanhã para começar a eternidade de uma vida feliz.
- As eternidades felizes já não estão na moda.
Ao saírem do restaurante, Lisa virou-se para acenar para Myra e Phil, mas eles tinham ido embora. Viu o rapaz loiro, amigo de Zander, que lhe fez um sinal de polegar para cima. Desviou o olhar, irritada.
- Esse seu amigo podia parar com isso. Deve haver uma razão. Está animando você? Apostou com ele que me levaria para cama antes da fim das férias?
Estavam no saguão, agora, e Zander sorriu.
- Não, mas você acabou de me dar uma idéia.
Lisa puxou a mão que ele estava segurando e começou a subir a escada, mas não foi muito longe. Zander passou o braço por sua cintura, fazendo-a parar.
- Não sabe brincar nem um pouquinho, garota?
A raiva de Lisa evaporou-se na hora e começou a rir.
- O que vai fazer hoje à noite? Dançar, outra vez?
- Se é o que quer.
- Não se preocupe comigo: só me convidou para jantar. Se quiser dançar, há um monte de mulheres que adorariam ser seu par. Sabe, moças que vieram juntas, mas estão solitárias, assim mesmo.
- Só tenho necessidade dessa moça solitária. De mais nenhuma.
- Sinto muito. - Foi subindo a escada. - Mas essa moça solitária não está à disposição da necessidade alheia. Vou para o meu quarto.
Ele a seguiu, sem dizer nada, sem indicar qual era sua intenção. Lisa parou ao chegarem no segundo andar.
- Muito obrigada por me trazer até aqui. Obrigada também pelo jantar.
Zander riu, percebendo sua estratégia.
- Muito bem. O prazer foi todo meu.
Ela foi indo em direção à porta, procurando a chave na bolsa e tentando ignorá-lo.
- Deixe comigo. - Tirando a chave de sua mão abriu a porta.
Irritada, ia se despedir num tom seco, mas ele foi mais rápido e entrou no quarto.
- Quer que eu vá embora?
Toda a decisão de Lisa foi por água abaixo.
- Pode ficar um pouco, contanto-que não veja nisso um convite ou sinal de que quero...
- Não, não vou pensar nada disso.
Zander foi até as portas abertas do terraço e ficou lá, olhos fixos na imensidão. Lisa sentou-se na cadeira de vime e olhou-o de soslaio. Continuava absorto na paisagem.
Depois de algum tempo, percebeu que ela o observava e sorriu, voltando a ser o homem que ela conhecia. Mas não bastaria só conhecê-lo? Era preciso sentir aquela profunda estima por ele?
Na verdade, ela sentia mesmo uma necessidade profunda de senti-lo perto. Era uma amizade de verão, lembrou com firmeza. Nem mais nem menos. Claro que não era um romance de férias. Um beijo, brincadeiras, risadas... e nada mais.
- Lisa? Seus amigos estão ali.
Ela se debruçou na grade da varanda e viu Myra e Phil subindo nas rochas de lava.
- Parecem dois moleques.
- Acho que está com inveja.
Já ia protestar, mas parou, dando de ombros.
- Encontraram a felicidade e fico contente. Só espero que dure.
- O que não aconteceu com você?
- Se está se referindo ao meu namorado, nunca chegamos a nos amar de verdade.
- Foi por isso que ele se apaixonou por outra, mais liberada e animada?
- Diferente de mim, é o que quer dizer? Posso muito bem rir, falar bobagem e brincar como qualquer pessoa.
- Sei que pode. - O tom era calmo, mas provocador.
- Você sabe que posso. - Ficou com raiva porque ele parecia estar se divertindo. - Se quer saber, a mulher que o roubou de mim era mandona e prepotente. Ele adorou.
- Alguns homens gostam. Eu, não.
- Ah, é? Quase me enganou.
- Eu podia fazer você pagar por essa ironia toda. Mas não vou fazer isso... ainda. - Lisa sentiu um arrepio de excitação ao ouvir essas palavras.
Escutaram um gritinho na praia e viram Myra quase cair de uma pedra. Phil segurou-a com força. Lisa desviou o olhar do casal abraçado, louca para ser amada daquele jeito. Mas o que não admitiria nem para si mesma era por quem queria ser amada tanto assim.
- Onde é que você mora? - perguntou Zander.
- Num subúrbio a oeste de Londres, não muito longe do meu «trabalho.
- Sozinha?
Ela não se lembrou da promessa de não se meterem na vida um do outro.
- Morava com Myra num apartamento de dois quartos. Agora moro sozinha. E você?
Na penumbra, achou que seus olhos castanhos endureciam.
- Já lhe disse: pelo mundo.
- Mas com certeza tem uma casa? Um teto sobre sua cabeça? - Ele não teve pressa para responder. - Ou mora com outra pessoa?
- Para uma conhecida de pouco tempo, você faz perguntas demais. É assunto meu o lugar onde descanso a cabeça para dormir, não é, srta. Maynard?
Será que ele sabia como essa resposta machucava?
- Você me fez o mesmo tipo de pergunta e eu não fiquei enfurecida. Respondi com educação.
Ele espreguiçou-se, estendeu a mão para ela e puxou-a. Segurou seu queixo.
- Aceite minhas desculpas. Agora mereço um sorriso? - Os olhos castanhos a observavam com tanto carinho, que ela não teve saída, senão rir. - Mais um para a minha coleção.
- O que vai fazer com eles? Colocar num álbum, feito um colecionador de selos?
- Gosto quase tanto do sorriso quanto de você.
- Então, quando a gente se separar para sempre, vai rasgar cada sorriso meu e colocar no lugar sorrisos mais preciosos, como o da mulher que amar o bastante para se casar.
Ele beliscou seu queixo, machucando-a.
- O amor é uma emoção que nós dois não devemos discutir.
Levou-a para dentro do quarto e fechou as portas de vidro. Beijou-a, então, com tanta força que sua cabeça inclinou-se para trás. As mãos de Zander estavam frias e acariciantes, subindo pelo ombro dela e parando no decote como se esperassem um protesto. Como não veio, os dedos curiosos continuaram sua busca, descendo aos poucos, devagar.
Quando ele segurou seu seio por dentro do vestido, Lisa engasgou, sem fôlego. Lutou para se livrar, mas só conseguiu que ele a abraçasse e beijasse mais forte, acariciando o mamilo rijo, deixando-a louca de desejo.
Não importava que não soubesse nada sobre Zander, que sua identidade fosse um mistério que não conseguia desvendar. Só sabia que estava sentindo o que jamais sentira por outro homem, nem mesmo por Don. E era um desconhecido! Ficava excitada ao se encostar nele, e sua personalidade a envolvia num círculo mágico, que a excluía do resto do mundo.
Quando ele parou de beijá-la, tirou a mão de seu seio, mas não a soltou inteiramente.
- Acho você irresistível - disse, rouco.
- Não sei como pode dizer isso. Só nos encontramos ontem.
- Não consegui tirar os olhos de você desde que a vi. Que tal chamar de atração à primeira vista?
Lisa franziu a testa, pensativa.
- Só ontem, e parece há tanto tempo. - Agitada, desvencilhou-se, alisando o vestido. - Não podemos nos envolver demais. Acho que não devemos nos encontrar de novo.
Ele prendeu seus braços para trás, apertando-a contra o corpo.
- Por que lutar? A atração está aqui, para nós dois. Ceda, Lisa. Eu já me dei por vencido.
Ela se soltou.
- Acabei de levar um fora. Don era bom, simpático, mas eu sabia que não era o homem certo para mim. Assim mesmo, doeu. Não quero ser magoada de novo, Zander.
Ele ficou sério, tão sério que ela se espantou.
- Está dizendo que ficaria magoada quando a gente se separasse, mesmo depois de me conhecer só por alguns dias?
Olhou-o, muda. Se dissesse "sim", revelaria o segredo que ainda não contara nem para si mesma. Se respondesse "não", mentiria. Ficou calada.
Ele também. Continuou a olhá-la, mas sem a emoção de antes. Estava escapando dela, podia sentir. Lisa agarrou os ombros dele e encostou o rosto em seu rosto.
Zander acariciou suas costas, os quadris, os seios. Ela sentiu sue agitação e, num gesto puramente instintivo, colocou as mãos sobre as dele, fazendo com que parassem em sua cintura, num esforço inexplicável para acalmá-lo. Ele afastou-a com toda gentileza, roçando os lábios na boca macia.
- Boa noite, Lisa.
Ela o viu ir para a porta e sentiu uma onda de frustração e carência.
- Vou ver você amanhã?
Zander sorriu.
- Olhe à sua volta. Talvez eu esteja por aqui.
Lisa levantou-se cedo. Para sua surpresa, Myra e Phil a estavam esperando no saguão do hotel.
- Esperamos ter feito a coisa certa, ontem - disse Myra, ao irem juntos para a mesa do restaurante.
- Vocês estavam tão bem juntos - comentou Phil -, que achamos que seria uma pena interromper.
- Tudo bem. Para ser franca, achei que fizeram a coisa certa, sim. Eu... gosto dele.
Só que não sabia se era correspondida. Zander tinha dito muita coisa lisonjeira, mas os homens sempre dizem, quando querem uma mulher.
- Vão se ver hoje? - perguntou Myra, interessada. - Sabe, tem pouco tempo para conhecê-lo e...
- Sabem o que dizem - completou o marido. - Romances de verão não duram.
Lisa riu, depois ficou séria ao ver o grupo de quatro homens que entrava. Zander não olhou em sua direção.
- Vou ver, sim. Está bem ali, numa reunião com os colegas.
- Colegas? - perguntou Phil, surpreso. - Não me diga que está aqui trabalhando?
- Está. Engenharia civil. E ainda por cima, os outros o chamam de patrão. Eu ouvi.
- Patrão de quê? - perguntou Myra. - De onde ele é?
Lisa deu de ombros.
- Perguntei e não me respondeu. Disse que o mundo é sua casa.
- Talvez seja um empreiteiro ou qualquer coisa parecida. Aluga seus serviços de consultoria, e assim tem que viajar muito.
- Ele já ouviu falar na firma onde nós trabalhamos?
Lisa confirmou e resolveu mudar a conversa para águas mais seguras. Não queria continuar falando sobre Zander Cameron. Sua amizade com ele era coisa muito preciosa para ser discutida displicentemente com outras pessoas, mesmo que fossem amigos.
- Vou pegar alguma coisa para comer. Vocês vêm também?
Para chegar ao bufê, era preciso passar pelos quatro. A discussão os absorvia completamente, notou Lisa desapontada. Já servida, voltou, pronta a ser completamente ignorada outra vez. Assustou-se quando o rapaz loiro virou a cabeça e piscou para ela. E ficou mais espantada, quando Zander fez cara feia.
"Uma hora me conhece, outra me desconhece. Que coisa irritante! Bom, dá para dois jogarem esse joguinho", decidiu ela, sentando-se e rindo com os amigos. Quando os quatro homens se levantaram e Zander Cameron saiu com eles sem olhar em sua direção, perdeu a alegria fingida. Não se importava se Myra e Phil percebessem que não conseguia mais achar graça na conversa deles.
Passou a manhã com os dois, fazendo compras nas lojas do hotel. Depois, deram uma volta pela cidade de Arrecife. O sol estava quente e o vento embaraçava os cabelos e levantava as saias das mulheres. Descobriram o caminho até a igrejinha branca de São Gines e olharam os barcos de pesca que formavam a maior frota pesqueira das Canárias.
De volta ao hotel, Myra e Phil subiram a escada correndo, mas Lisa preferiu ficar um pouco no saguão, dizendo a si mesma que precisava de um descanso antes de ir para o quarto. Afundou numa das poltronas vermelhas. No íntimo, sabia qual era a verdadeira razão de estar ali. Seus olhos corriam pela sala cheia de gente, procurando a figura alta e de barba. E encontraram.
Ele estava recostado no bar, copo na mão, daquele jeito indolente tão conhecido, olhando-a de alto a baixo como se nunca a tivesse visto antes. Tomou um gole de uísque e continuou a observá-la. Estava perto o bastante para ver que ficava vermelha.
"Agora, é minha vez de fingir que ele não existe."
Encarou-o também e subiu a escada, empertigada; cada batida de seu salto no mármore mandava a mensagem de que não queria vê-lo nunca mais na vida.
Ainda furiosa, fechou com força a porta do quarto. Tirou a roupa e tomou um banho de chuveiro morno e relaxante. Saiu do banheiro enrolada numa toalha, sentindo-se mais animada, e ficou um fôlego, quando deu com o homem em pé, braços cruzados, encostado na porta. Há quanto tempo estaria ali?
- Esse quarto é meu. Saia daqui!
- Se não me quisesse aqui, teria trancado a porta.
- Eu tranquei, tenho certeza. - Mas não estava tão certa assim.
- Então, como foi que entrei?
Era uma boa pergunta e a irritou pela lógica.
- Está bem. Você está certo e eu, errada. Entrou, mas agora dê meia volta. - Ajeitou a toalha debaixo dos braços e o empurrou, aflita.
Zander nem se mexeu.
- Cheguei ao meu destino: aqui, no seu quarto. Em resposta ao olhar que me deu ao subir a escada, com a clara mensagem de "siga-me".
Empurrando-o pelo peito, ela explodiu.
- Era um olhar de "desapareça"! Não desafiei, nem convidei.
Ele era irremovível como uma montanha. Baixou a cabeça mas olhou-a primeiro.
- Por que seus lábios estão tremendo, Lisa? Excitação ou medo?
Era impossível responder, pois sentia as duas coisas. Apertou a toalha contra o corpo, com medo de que caísse a única barreira entre eles.
- Está com medo? De mim? - insistiu.
- Estou sim, Zander, Por favor, saia daqui.
A resposta dele foi apertá-la nos braços, abrindo seus lábios macios e saboreando até o mais fundo que um beijo permitia. Lisa viu-se abraçada ao pescoço dele, aceitando tudo, como se fosse direito de Zander tomá-la toda para si, como se lhe pertencesse para sempre. Um instante depois, sentiu a toalha ser tirada, devagar. Hipnotizada pela força do olhar dele, deixou que a toalha caísse, sem o menor protesto. Naquele momento, poderia ter feito com ela o que quisesse. Mas nem a tocou. Foram seus olhos, outra vez muito sérios, que traçaram um caminho de fogo por seu corpo. Pararam na curva empinada dos seios, desceram pela cintura, quadris, e coxas.
- Você é tão linda quanto eu imaginava. - Abaixou-se, pegou a toalha de novo e a enrolou nela. Falou, já da porta. - Espero você no saguão depois do almoço. Vamos dar uma volta.
Ele estava lá, esperando, quando Lisa desceu.
- Obedeci às suas ordens: estou aqui.
- E de boa vontade?
- Não.
- Que mulher de coração mais duro!
- Pelo contrário, é muito sensível.
- Podia pedir que me provasse isso.
- Podia, mas eu me recuso a obedecer a todos as suas ordens. Pode ser o patrão de muita gente, mas não é o meu, sr. Cameron.
Ele piscou, divertido.
- Vamos embora e pare de resmungar.
De mãos dadas, ela o seguiu até o carro. Logo saíam da cidade e entraram na paisagem misteriosa e escura da ilha.
- Nunca vi nada assim! - disse Lisa. - Para todo lugar que se olha, só se vê esse chão negro. É tudo tão vazio!
- Estou aqui para preencher esse vazio - Zander brincou, dirigindo como se conhecesse o caminho de cor.
- Que vergonha! Por que não deixam assim como está: toda essa grandeza, todas essas montanhas misteriosas....
- E onde você e os outros turistas ficariam, quando quisessem visitar o lugar? Dormiriam em barracas sobre essa poeira negra? Se não fosse por nós, nem estaria aqui. - Manobrou o carro para sair do caminho de um ônibus de turismo. - Aliás, acho irônico, para dizer o mínimo, você desaprovar uma nova construção. Não sabia que a Thistle International, a companhia onde trabalha, também constrói?
Lisa recostou-se no assento.
- Claro que sabia, mas trabalho no Departamento de Pessoal: lido com gente, e não com projetos. Myra é secretária de um dos diretores. Ela sugeriu que viéssemos para cá nas férias depois que ele lhe contou como era o lugar.
- Então, pense duas vezes antes de criticar.
- Acho sua lógica infalível, mas não posso deixar de criticar a mania que os homens têm de estragar esses lugares maravilhosos com tijolos e cimento.
- Um ponto, srta. Maynard. Ainda bem que não está empregada no departamento de projetos da companhia.
Irritada, virou-se para brigar com ele e descobriu que sorria, divertido. Suspirou aliviada e continuou a olhar o panorama das montanhas e vales semi-escondidos, o céu azul sem nuvens e a névoa que cobria o mar.
- Tudo isso é fascinante. Como outro planeta. Como se formou isso aqui?
- Vulcões. Não há água e quase nenhuma chuva, mas os habitantes da ilha conseguem plantar uvas e fazer vinho. Há figueiras e árvores cítricas. Plantam também milho, cebola e tomate nessa terra seca. À noite, há um orvalho pesado e aprenderam a usá-lo.
- Devem trabalhar muito.
- Têm que sobreviver. Em 1730 houve uma série de erupções vulcânicas devastadoras que duraram uma semana. Aconteceram outras, no século passado. A lava preta que você vê à nossa volta vem dessas erupções. Cobriu um solo muito fértil.
- Mas as pessoas lutaram...
Ela olhou em volta.,
- Mesmo assim, parece o céu, comparado com o clima que temos.
Zander sorriu.
- É, parece que estamos mesmo no céu. É o efeito que você causa em mim.
O que ele queria dizer? Queria alguma coisa dela? As perguntas se amontoavam em sua cabeça. Confusa, brincou:
- Sabe fazer um elogio generoso, meu senhor.
- Não é elogio, é a pura verdade.