- Você tem trinta segundos para consertar isso, ou juro que vou destruir tudo o que sua família tem.
A voz de Gabriel Montenegro corta o silêncio como presságio de um terremoto.
Eu não levanto os olhos da pilha de documentos que acabei de organizar. Seis meses como assistente pessoal do CEO mais temido de Nova York me ensinaram uma coisa: encará-lo durante uma crise é como olhar para o sol. Você só se queima.
- O erro não foi meu - minha voz sai calma, mesmo que por dentro eu esteja trêmula. - O departamento jurídico enviou a minuta errada. Eu só alinhei as páginas.
- Eu não pago você para justificar erros alheios. Eu pago você para impedir que eles cheguem até mim.
Gabriel joga a caneta contra a mesa de mogno. O estalo do impacto ecoa pelo escritório de vidro e aço, na cobertura que domina Manhattan. Lá fora, a cidade brilha como um colar de diamantes sujos. Lá dentro, faz vinte graus abaixo do zero.
Finalmente, ouso olhar para ele.
Má ideia.
Camisa branca desabotoada no primeiro botão. Gravata jogada sobre o encosto da cadeira. Cabelos escuros levemente desalinhados - como se tivesse passado a noite inteira acordado. O que provavelmente é verdade.
Mas o que me prende são os olhos.
Porque eles não são iguais.
O esquerdo é verde - um verde profundo, quase floresta no meio da noite.
O direito é azul - um azul gelado, como o céu minutos antes de uma tempestade.
Heterocromia. Completamente raro. Completamente desconcertante.
Dizem que ele nasceu assim. Dizem que a mãe abandonou a família quando viu os olhos do filho, chamando aquilo de "maldição". Dizem que Gabriel Montenegro nunca perdoou ninguém por isso.
E agora aqueles dois olhos de cores diferentes queimam contra mim. A mandíbula parece esculpida em granito.
Ele é assustadoramente bonito.
E assustadoramente cruel quando quer.
- Vou refazer o contrato do zero - levanto, ajeitando o blazer bege. Minha armadura. Minha camuflagem entre executivos de terno preto. - Devo ter tudo pronto em três horas.
- Duas.
- Gabriel, são cento e quarenta páginas com cláusulas internacionais. Preciso de pelo menos...
- Duas horas. E você vai fazer do meu escritório. Quero ver cada linha antes de ir para o jurídico.
Eu seguro o suspiro.
Quatro dias sem dormir direito. Minha mãe no hospital. Contas vencendo. E agora isso.
- Como preferir - respondo, com a elegância fria que aprendi a usar como escudo.
Ele me observa por um longo segundo. Algo no olhar dele muda - um microssegundo de alguma coisa que não consigo nomear. Cansaço? Culpa? Impossível. Gabriel Montenegro não sente culpa.
- Você está pálida - ele diz, e não parece preocupado. Parece irritado. - Tome um café antes de começar. Não quero erros por cansaço.
- Não estou cansada.
- Está sim. Seus olhos estão inchados.
Minha mão toca meu rosto sem permissão. Ele notou. Claro que ele notou. Gabriel não se tornou bilionário aos trinta e dois anos por ser desatento.
- Problemas pessoais - desconverso. - Não vão interferir no trabalho.
- Tudo interfere no trabalho. Por isso eu não tenho problemas pessoais.
Eu quase rio. Não mesmo. Você só carrega o fantasma de uma ex-noiva que quase te destruiu, uma mãe que te rejeitou e um orgulho que desmoronaria se o mundo descobrisse o que você faz quando as luzes se apagam. Mas eu não digo isso.
Porque eu sou inteligente. E discreta. E sei que o segredo mais precioso de Gabriel Montenegro é o homem quebrado por trás da máscara - e ninguém, absolutamente ninguém, pode descobrir que eu já vi os estilhaços.
- Duas horas - repito, pegando a pilha de papéis. - Vou buscar café e volto.
- Melissa.
Paro na porta.
- Sim?
Ele hesita. Para qualquer outra pessoa, seria imperceptível. Para mim, que passo mais tempo na presença dele do que qualquer ser humano são deveria, é um terremoto.
- Seus problemas pessoais... - a voz dele parece vir de algum lugar mais fundo que o peito. - Resolva-os. Você é útil para mim. Não posso perder tempo treinando outra assistente.
A frase ecoa no silêncio. Para qualquer outra pessoa, seria apenas uma ameaça fria. Para mim, soa como o máximo que Gabriel Montenegro consegue chegar perto de demonstrar preocupação.
Só assinto e saio.
No corredor, apoio a testa contra a parede fria de vidro fumê. O celular vibra no bolso do blazer. Uma mensagem do hospital.
Sua mãe precisa de novos exames. A conta de ontem ainda não foi paga. Entraremos em contato com o setor de cobrança amanhã.
O chão some por um segundo.
Fecho os olhos e respiro fundo.
Quanto tempo até eu desmoronar? penso. Quanto tempo até o castelo de cartas desabar?
Não há resposta.
Só há a verdade fria de que estou pendurada por um fio - e que o homem que pode me salvar é o mesmo que me destruiria sem hesitar se descobrisse o quanto eu já estou no limite.
Entro no elevador.
Duas horas e quarenta e sete minutos.
Foi o tempo que levei para refazer o contrato do zero, revisar cada cláusula e ainda tomar café suficiente para não desmaiar em cima do teclado.
Gabriel não reclamou do atraso. Isso já era um sinal de que algo estava errado.
Ele passou a manhã inteira em ligações. Porta fechada. Voz baixa. E aquele olhar - os dois olhos de cores diferentes fixos na tela do computador como se estivesse assistindo o próprio funeral.
Eu conhecia aquela expressão.
Era o rosto que ele fazia quando o mundo estava desmoronando e ele fingia que nada tinha acontecido.
- Terminou? - perguntou, sem tirar os olhos da tela, quando coloquei os documentos na mesa dele.
- Revisei três vezes. Todas as cláusulas estão dentro do exigido.
Ele nem olhou para os papéis. Assinou em silêncio.
- Gabriel... - comecei, contra meu melhor julgamento. - Você está bem?
O olho azul gelado encontrou o meu primeiro. Depois o verde floresta. Um segundo de cada cor. Como dois veredictos diferentes sobre a mesma alma.
- Não faça perguntas que você não quer ouvir a resposta.
E assim, ele me dispensou.
O escritório ao lado do dele era pequeno. Gabriel mandou instalar ali quando me contratou - disse que não queria ficar gritando pelo interfone toda vez que precisasse de algo.
"Se você vai ser minha assistente pessoal, vai ser pessoal mesmo."
Na época, eu não sabia se aquilo era um elogio ou uma ameaça.
Hoje, continuo sem saber.
Sentei e abri meu laptop. Tinha e-mails para responder, a vida inteira de um bilionário para administrar enquanto a minha própria pegava fogo.
O celular vibrou.
Hospital.
"Sra. Santoro precisa de autorização para o novo tratamento. O valor é de US$ 47.000,00. A conta total em aberto é de US$ 82.300,00."
Eu ganhava bem. Quinze mil por mês. Mas minha mãe estava internada há oito meses. Meu pai tinha sumido depois de deixar uma dívida de duzentos mil que eu nem sabia que existia.
Era como tentar encher um balde furado.
Antes que eu pudesse abrir o primeiro e-mail, a porta do escritório de Gabriel se abriu com violência. O vidro fumê bateu na parede.
- Melissa! - a voz dele ecoou pelo corredor. - Vem aqui. AGORA.
Corri.
Quando entrei, ele estava de pé atrás da mesa, as duas mãos apoiadas no mogno, a cabeça baixa. A televisão de setenta polegadas na parede estava ligada.
Manchete em vermelho:
MONTENEGRO CORP: ESQUEMA DE SUBORNO E PROPINA?
Documentos vazados indicam que o CEO Gabriel Montenegro teria pago propina a autoridades internacionais.
Meu coração parou.
- O que... - minha voz sumiu.
- Alguém plantou documentos falsos no sistema - ele levantou a cabeça. Os olhos de cores diferentes queimavam. - Documentos que não existem. Mas que agora estão na mão da imprensa, do Ministério Público e de cada acionista que eu tenho.
A voz dele estava calma demais.
Isso era péssimo.
- Quem faria isso? - perguntei, embora já soubesse a resposta.
Ele riu. Um riso curto, sem humor.
- Quem você acha?
Camila.
Camila Montenegro. A ex-noiva. Herdeira de uma das famílias mais ricas de Nova York. Loira. Elegante. Sorriso perfeito. E uma crueldade tão bem escondida que só quem convivia com ela percebia.
Ela tinha tentado voltar três vezes nos últimos meses. Ele recusou as três.
- Os documentos vazados são falsos, certo? Dá para provar?
- Dá. Em três meses de perícia.
- Três meses? A empresa não sobrevive três meses com essa acusação. O contrato com os japoneses cai amanhã.
Gabriel me olhou. O olho verde parecia cansado. O azul, furioso.
- A única saída rápida - falei devagar - é mudar a narrativa. Um anúncio. Algo maior que o escândalo. Família. Tradição. Estabilidade.
Gabriel estreitou os olhos.
- Meu casamento com Camila ia fazer exatamente isso.
Ia. Passado.
- Você ainda pode se casar - eu disse, sem pensar. - Com outra pessoa.
Silêncio.
O tipo de silêncio que vem antes de tempestades.
- Melissa - ele falou meu nome como se estivesse experimentando um veneno novo. - O que você está sugerindo?
- Nada. Só estou dizendo que, tecnicamente, casar agora resolveria o problema de imagem.
Tecnicamente.
Ele se afastou da mesa. Caminhou até a janela. As costas largas, os ombros tensos.
- Camila ligou há vinte minutos - disse, de costas para mim. - Disse que não vai mais me ajudar. Que o escândalo é grande demais e que ela não vai sujar o nome da família dela por minha causa.
- Os documentos vazados exigiam acesso ao servidor privado da holding - olhei para ele, juntando as peças. - O servidor que a Camila usava quando vocês ainda dividiam o teto.
Gabriel soltou um riso sem humor.
- Ela jogou o jogo dela. E eu perdi.
Ele se virou de repente. O olho verde flamejou. O azul gelou.
- Mas não vou perder tudo.
Naquele momento, o celular dele tocou. Depois o meu. Depois os dois ao mesmo tempo.
Imprensa. Conselho. Acionistas. Advogados.
O inferno.
Atendemos. Apagamos incêndios. Por duas horas, fui secretária, negociadora, psicóloga e alvo de gritos que não merecia.
Quando finalmente o último telefone silenciou, me apoiei na parede do escritório dele e deixei a cabeça cair para trás.
- Eu preciso de um café - sussurrei.
- Você precisa de mais do que café.
Abri os olhos.
Ele estava na minha frente. Muito perto. O cheiro amadeirado do perfume dele invadiu meus sentidos. E aqueles olhos - verde e azul - estavam fixos nos meus.
- Gabriel...
O maxilar dele travou. A distância entre nós parecia ter sumido, e pela primeira vez, o controle dele parecia por um fio.
- Case comigo.
CAPÍTULO 3
- O quê?
A palavra saiu antes que eu pudesse pensar. Só saiu. Seca. Direta. Exatamente como eu me sentia naquele momento.
- Case comigo - ele repetiu. A voz estava baixa. Grave. Certa demais. Como se já soubesse que eu ia dizer sim antes mesmo de eu saber. - Um ano. Contrato legítimo.
Olhei para ele. Realmente olhei. O rosto cansado, as olheiras fundas que a maquiagem da riqueza não conseguia esconder, a mandíbula tensa como pedra. Os olhos - aquele absurdo de um verde e um azul - estavam fixos em mim com uma intensidade que me tirava o ar.
- Você está louco - eu disse. Mas minha voz já não estava tão firme.
- Estou desesperado. São coisas diferentes.
Ele não se mexeu. Continuava a centímetros de mim. Eu sentia o calor do corpo dele, o cheiro amadeirado do perfume misturado com alguma coisa mais forte - estresse, talvez. Café. Noites sem dormir.
- Você precisa de dinheiro, Melissa. - A voz dele baixou ainda mais. Agora era quase um sussurro. - Eu sei das contas do hospital. Eu sei do seu pai. Eu sei que você está se afogando e fingindo que sabe nadar.
Meu sangue gelou.
Não porque ele soubesse. Mas porque ele falou aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se tivesse o direito de saber. Como se a minha vida fosse um arquivo aberto na mesa dele.
- Você vasculhou minha vida. - Minha voz saiu baixa. Controlada. Mas por dentro, alguma coisa se revirava. Raiva. Vergonha. Medo.
- Você trabalha para mim. Saber da sua vida é minha obrigação.
- É invasão. É - procurei a palavra certa - nojento.
O olho azul brilhou. O verde escureceu.
- É negócio. - Ele deu um passo para trás. O ar gelado do ar-condicionado voltou a tocar minha pele. - Você aceita o contrato, eu pago todas as dívidas da sua família. Sua mãe faz o tratamento. Você respira de novo.
Respirar. Aquela coisa simples que eu não fazia direito há meses. Acordar sem o peso de saber que a conta do hospital tinha vencido. Dormir sem calcular quanto faltava para o próximo pagamento. Viver sem aquela corda invisível no pescoço apertando um pouco mais a cada dia.
- E eu ganho a esposa perfeita para a imprensa - ele continuou, como se estivesse lendo minha mente. - Alguém discreta. Inteligente. Que já sabe como eu funciono.
- E depois de um ano? - perguntei. Não porque eu me importasse. Mas porque precisava ouvir.
- Depois de um ano, você pega seu dinheiro, compra uma casa em algum lugar bonito e esquece que eu existi.
- Regras - eu disse, realmente considerando aquele absurdo. - Quais são?
Ele ergueu a sobrancelha. Não esperava que eu fosse direta. Talvez esperasse lágrimas. Dramas. Talvez esperasse que eu caísse aos pés dele de joelhos, agradecendo pela esmola de um milhão de dólares.
Ele não me conhecia.
- Sem amor - ele disse, enumerando nos dedos. - Sem ciúmes. Sem filhos. Quartos separados.
- Nada de sexo? - A pergunta saiu mais prática do que desconfortável. Porque eu não estava desconfortável. Isso era negócio.
- O contrato não proíbe. Mas não exige.
Anotei mentalmente. Cláusulas vagas. Perigoso.
- Sem filhos - ele reforçou, a voz endurecendo ainda mais. - Herdeiros trazem advogados, disputas de custódia e fragilidades que eu não posso me dar ao luxo de ter.
- Perfeito - respondi friamente. - Não pretendo colocar uma criança no meio dessa nossa mentira. Quanto? - perguntei.
- Um milhão de dólares. Pagamento integral no divórcio.
Balancei a cabeça.
- Meio milhão na assinatura. O resto no divórcio.
Ele hesitou. A veia no pescoço pulsou. Eu vi o cálculo acontecendo atrás daqueles olhos de cores diferentes - o homem de negócios pesando prós e contras, riscos e benefícios.
- Quinhentos mil na assinatura - ele concordou. - Quinhentos mil no divórcio.
- Meio milhão na assinatura - estipulei, cruzando os braços. - E mais um milhão no divórcio. Você não vai sentir falta.
O canto da boca dele se curvou. Quase um sorriso.
- Você é boa nisso.
- Sou boa no que faço. Por isso você me contratou.
Por isso você está me pedindo em casamento, pensei. Porque eu sou útil. Porque eu funciono. Porque eu não quebro.
A verdade é que eu já estava quebrada. Só aprendi a fingir que não.
Gabriel caminhou até a mesa. Pegou uma caneta. Girou entre os dedos. Um hábito nervoso que poucos viam.
- Tem mais uma coisa - ele disse, sem olhar para mim.
- Fala.
- A imprensa vai investigar você. Vão querer saber de onde você veio, quem é sua família, por que aceitou casar comigo. - Ele levantou os olhos. O verde e o azul brilharam sob a luz do fim da tarde. - Vão tentar destruir você para me destruir. Camila vai liderar o coro.
Engoli em seco.
- Eu sei me defender.
- Não é de você que eu estou falando. É da sua mãe. É do seu pai. É das dívidas. Tudo vai vir à tona. Tudo vai ser usado contra nós.
- E o que você sugere? Que eu desista antes de começar?
- Estou sugerindo que você saiba no que está se metendo. - Ele jogou a caneta sobre a mesa. O estalo ecoou pelo escritório. - Não vai ser um casamento de conto de fadas. Vai ser uma guerra. E você vai estar na linha de frente.
Uma guerra.
Eu já estava em uma guerra. Só não tinha ninguém lutando ao meu lado.
- Quantos dias eu tenho para pensar? - perguntei. Porque mesmo sabendo a resposta, mesmo sabendo que eu ia aceitar, eu precisava daquele tempo. Precisava fingir que tinha escolha.
- Nenhum. - Gabriel se aproximou de novo. Agora eu sentia o hálito dele; café e menta. - A imprensa vai destruir minha empresa em quarenta e oito horas. O conselho me deu um ultimato: se eu não apresentar uma solução oficial e abafar o escândalo até segunda-feira de manhã, o contrato com os japoneses é cancelado. As ações já estão despencando.
Ele parou a centímetros de mim.
- Eu preciso de uma resposta agora.
Olhei para as minhas mãos trêmulas, escondidas nos bolsos do blazer bege. Pensei na UTI do hospital, nas cobranças, no abismo que estava a um passo de me engolir. Dei o passo à frente.
- Aceito.