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Depois da meia-noite - Um  ano com o CEO

Depois da meia-noite - Um ano com o CEO

Autor:: K.W. Bestseller
Gênero: Bilionários
Clarisse está prestes a reencontrar parte de sua família para um banquete de fim de ano luxuoso como ela nunca havia experimentado. Armando corre contra o tempo para cumprirn sua desesperada agenda de trabalho. É nessa tensa realidade de ambs, que um voô atrasado os une, e o que seria uma viagem conturbada se transforma em palco para o inicio de uma grande paixão. Já no Rio de Janeiro, o advogado parte para o campo de ação e a moça se vê enlaçada pelos encantos daquele homem de negócios. O que eles não contavam, era que no meio do caminho para viver uma paixão, surgiriam traições, reviravoltas e muita briga de familia.

Capítulo 1 Clarisse e Armando - I

20 de dezembro

Clarisse olhou-se no espelho pela última vez e limpou o filete de gloss que manchava o canto dos lábios. Depois de uma longa conversa com sua mãe ao telefone, antes de viajar novamente para o Rio de Janeiro, já estava de saco cheio e teria que fingir mais simpatia do que seria possível.

Crispou os lábios, carnudos e peçonhentos, piscando para sua imagem no espelho e saiu do apartamento puxando uma mala extremamente rosa e cintilante.

Fez check-out no hotel e chamou um carro antes mesmo de cruzar o hall. Era famosa por ludibriar os motoristas daquela região, pois por mais que fosse uma mulher de alta classe, tinha que usar de meios impróprios para custear seu estilo de vida caro. O Fiat Argo cantou pneu em frente ao Raru's Hotel e o motorista, que ajustara o espelho retrovisor a fim de encarar melhor Clarisse, quase pulou do banco com o solavanco dado pelo carro. O mané arrancou com o carro sem pôr o pé da embreagem e quase bateu no ônibus à sua frente. A passageira nem se inquietou. Não tinha tempo de se entreter com uma viagem tão barata.

– Obrigada, meu anjo – agradeceu ela quando o carro chegou ao aeroporto.

Curvou-se tão rapidamente e deixou que os olhos avermelhados do motorista brilhassem ao se encontrarem com a curva branda de seu decote empinado. Dois segundos e um filete de baba. Pronto! Clarisse se voltou para a porta giratória, pensando em nunca mais ver aquele cara nojento e com o canto dos lábios ressecados e esbranquiçados. Era normal o uso de drogas em Belo Horizonte tanto quanto no Rio de Janeiro, o que fazia seu trabalho mais fácil. Enganar um cara já entorpecido é como fingir um orgasmo na primeira vez, o idiota nem nota.

O alto falante cantou informando que o embarque era imediato. O voo sairia dali há poucos minutos e os próximos dias já haviam sido previamente calculados. Ela sabia o que os tios estavam preparando. Tinha até sorte de ter sido convidada. O verão passado ainda trazia remorsos e lembranças das discussões à mesa.

Certamente discutirá com Miles e sua esposa querida. A cara de lambisgoia que a Jane tinha era de fazer qualquer piranha vomitar. Embora os tios não notassem, havia algo naquele casamento que não cheirava bem. Por mais que insistissem, Miles não saia do armário e sua mulher não assumia que tudo aquilo não passava de um golpe do baú. Para Clarisse, existia um motivo podre para o matrimonio, nada que ela não pudesse descobrir naquele natal.

Caleb continuava o mesmo e Brian mais safado que da última vez. Ela teria que bancar a puritana do interior para não levantar suspeitas e nem causar intrigas. Agiria na prudência de uma serpente.

Alcançou seu assento 27b, à janela do lado direito e cruzou as pernas ao sentar. Os passageiros ainda estavam embarcando, possibilitando-a de enviar uma mensagem antes de colocar o celular em modo avião:

"Nos vemos às 22h. Mesa 12 para dois. No restaurante do piso 7. Copacabana Palace... Com os cumprimentos de titia."

Ajustou o celular e abriu uma revista. Em duas viradas de páginas, um moço alto sentou-se ao seu lado. Tinha o físico atlético que se notava mesmo sob uma cardigan e calça jeans.

Ela cobriu ele com os olhos e reparou na forma que desligava o iPad e abria um livro. Grande e de capa dura. Tinha até fitilho. Um nerd gostoso do século 21. A evolução nerdiana fora consumada com sucesso. Conforme ele lia, ela o observava, nem notando que o avião já havia saído do chão e tomava seu rumo no céu; sempre com os olhos não vidrados nas mãos dele.

Suas unhas eram cortadas bem rentes às pontas dos dedos. Dedos finos e longos. Por um instante, Clarisse se remexeu na poltrona e sentiu uma umidade na calcinha, derrubando a revista nos pés do homem que lia tão concentrado.

– Sabia que as mulheres são o público mais assíduo dessa revista? – ele falou, erguendo os olhos da revista ao apanhá-la.

Clarisse gemeu dentro de sua mente. O cara deu uma leve apertada em seus dedos ao entregar a revista ou foi apenas a mente dela fantasiando demais?

– Sério? Eu nem imaginava. Leio somente por causa de alguns anúncios. A Prada faz sucesso por aqui também – ela falou, sacudindo a revista entre as mãos. – Você é do Rio?

– Não! Sou da Bahia, estava em Belo Horizonte, como se diz mesmo, à negócios. E agora meus pais querem uma negociação um pouco mais séria e me chutaram pra cá.

Cifrões arderam nos olhos de Clarisse. Nem precisava de fortuna com aquelas mãos, e depois da revelação, ela encarou tudo como um brinde. Sexo e dinheiro eram companhias inseparáveis.

– Ah, que bacana. Eu estou indo para casa dos meus tios. Depois que... hã, bom deixa essa história triste pra lá. – pensou bem, e era melhor não forçar a barra de menina fragilzinha. – Vou passar o natal longe de casa esse ano. E você?

– Pelo visto não serei o único. Estou à caminho do Copacabana Palace. Tenho uma reunião por dia essa semana. Meu pai tem um gosto peculiar por ações e minha mãe não abre mão das terras da família. É, sério, você não tem noção de como essa combinação é irritante.

Era uma coincidência fatal. Clarisse sorriu por dentro e emitiu um risinho de contentamento por fora.

– Sei bem como é – disse Clarisse, caindo os olhos em cima do livro dele. – Nossa, desculpa. Prazer, me chamo Clarisse.

Ela pareceu estabanada estendendo a mão com a claridade dos olhos um pouco ofuscada pela timidez falsa.

– Armando. – Meu Deus, olha essas mãos estendidas pra mim... – Muito prazer.

Sim, muito!

Clarisse apertou levemente a mão de Armando e sentiu suas juntas. Não eram calejadas, entretanto tinham uma rigidez sutil e uma maciez em contraste. Como um Yin Yang sensual.

– Acho que vou ter uma pausa entre as reuniões no fim de semana... Que tal, um café?

– Adoro um bom frappuccino de chocolate, sabia – respondeu Clarisse, aceitando o convite. Perpassou uma perna sobre a outra e correu os dedos pelo joelho, chegando na linha do vestido curto cor de rosa trançado.

Armando não acompanhou seus dedos, estava mais focado no brilho de seus olhos. O livro em seu colo já estava fechado, e Clarisse pode ver o que ele lia tão vorazmente.

– Você estava bem entretido com Macbeth.

– Incrível como uma mulher pode mudar a vida de um homem e fazê-lo se tornar o ser mais vil do universo – comentou ele, apertando a capa do livro.

– Lady Macbeth foi mais que uma simples esposa – rebateu Clarisse.

Aquilo estava à uma rusga de se tornar um conflito de interesses.

– Conhece a trama então?

– Mais do que imagina. Na verdade, levo para a vida alguns de seus... bem digamos, ensinamentos.

Clarisse arqueou as sobrancelhas e seu companheiro, um tanto receoso com o nível da conversa, pigarreou e mudou de assunto. O clima e o mercado de investimentos tornaram-se pautas relevantes. Mesmo a moça não entendendo nada sobre ambos os temas, compreendia muito bem o valor de um homem poderoso e paspalho.

O decorrer daquela conversa foi lento e pouco proveitoso para Clarisse, ao que ela respondia as falas de seu conhecido com respostas automáticas e sussurradas.

– Já tem planos para a tal noite feliz desse ano? – Armando perguntou, parecendo querer dizer mais do que isso.

– Na verdade... – ela hesitou. – Meus planos são imprevisíveis. Jantares em família sempre acabam em brigas, e um plano B é mais do que uma carta na manga.

Rapidamente, Armando retirou um cartão de visita de dentro de sua pasta e o estendeu para Clarisse.

– Voìlá... Seu Plano B – ele sorriu, maliciosamente.

A mulher empregou charme ao receber o cartão e retribuiu com um sorrindo bem aberto para Armando. O restante do voo foi calmo e os dois não se falaram mais.

Clarisse pediu um Martini entre uns intervalos da leitura de sua revista e Armando foi conferir documentos para as próximas reuniões que o esperavam em terra firma quando desembarcasse.

– Nos vemos por aí – Clarisse falou pegando sua bolsa e saindo antes dele.

Armando tinha um quê diferente. Algo parecia ser mais do que Clarisse via diante de si. Ele demonstrava meiguice de um jovem rico e humilde criado no interior. O dinheiro e o poder eram pautas da qual ele dizia se abster. Mas, como saber se eram os reais propósitos dele?

A tia Marie não aceitou que sua sobrinha fosse recebida por um estranho quando chegasse ao Rio de Janeiro. Estava na área de desembarque acompanhada por Miles assim que a silhueta magérrima de Clarisse circundou a visão de seu primo.

– Ela cresceu, realmente – sussurrou ele, acreditando falar só para si.

– Pegue somente as malas, querido – falou Marie, crispando os lábios para o filho.

Miles avançou entre a multidão que corria para sair do aeroporto e encontrou Clarisse ao pé da escada rolante. Ela havia trago somente uma mala e uma bolsa.

– Ele fico com isto, priminha – disse pegando a mala e sorrindo para ela.

– Você sempre foi mais atencioso do que os seus irmãos, Miles – rebateu Clarisse. – Onde está titia?

– Ali. Veja.

Os seus braços estavam erguidos na altura de sua cabeça. Só lhe faltava um letreiro para chamar ainda mais atenção. Sem esboçar o desagrado interno pela repleta cafonice da tia, Clarisse correu e a abraçou, baixando seus braços e acabando com aquela cena ridícula.

– Como você está? Cansada por causa do voo, imagino.

– Na verdade, estou ótima, titia. Sabe como eu amo viajar de avião.

– Sei que você ama estar por cima, Clarisse – cochichou Miles.

O rapaz riu e conduziu as duas para o estacionamento. No carro, Clarisse preferiu se sentar ao lado do motorista. Miles dirigia melhor que todos na família, que tomavam multas frequentes todos os meses.

– Tio Claude está bem? – perguntou ela ao primo, baixando o espelho do teto do carro.

– Melhor impossível. Está na empresa, com certeza, a uma hora dessas.

– Seu pai respira trabalho, meu filho – disse Marie, em um tom que parecia que cuspiria no marido se o visse naquele momento.

A mansão não ficava longe do aeroporto, ficava bem localizada no centro da cidade, entre as mais ilustres atrações e eventos que pudessem ser sediados ali.

Poucos minutos depois de deixarem o aeroporto, o carro estacionara em rente a mansão. Marie e Clarisse deixaram Miles com a mala e correram para a porta da frente.

– Alfred vai te ajudar como o carro, querido.

O chofer veio andando rapidamente para junto do garoto e logo saiu com o carro para a garagem. Miles levou a mala de sua prima logo em seguida.

– Onde estão os outros membros dessa família? – bradou Marie correndo pela sala da casa.

Clarisse se sentou enorme sofá e cruzou as pernas, arfando de cansaço. Olhou em volta e viu como estava localizado cada móvel. Algumas coisas eram familiares, outras já haviam sido trocadas e outras redecoradas. Sua tia não passava mais de ano sem mudar a aparência de sua casa, sobretudo de sua sala de estar onde tudo acontecia: Reuniões de família, encontros com amigos e as mais inusitadas discussões documentadas em jornal pela inimiga midiática da família.

– Todos saíram, senhora – respondeu Mathilde, a cozinheira dos Albuquerque.

– Que descaso, meu Deus. Me desculpe por isso, Clarisse, – se apiedou Marie.

– Não se preocupe com formalidades, titia. Com toda a certeza todos tiveram compromissos menos supérfluos do que receber uma caipira como eu.

– Inaceitável – bradou Marie. – Claude poderia ter adiado os compromissos da manhã. Os outros nem mesmo sei porque saíram.

– Ora, vamos, titia, nós duas sabemos que somente você esperava por mim aqui – falou Clarisse. – Caleb e Jane não me suportam e Brian já perdeu tempo demais com namoricos entre primos.

Impressionantemente, ela não era a única prima em que Brian avançara como um leão sobre uma gazela. Há alguns verões, Nathalia viera do Rio Grande do Sul se aquecer nas praias exóticas de Copacabana.

Mesmo que parecesse um complô contra a prima vinda de Belo Horizonte, Claude realmente teve mais compromissos que o normal naquela manhã, Caleb saiu junto com Brian para um encontro com um de seus sócios. Jane, que não morava na mansão, esperava um convite para se reunir com os Albuquerque desde a ultima visita em que Clarisse esteve presente.

– Que tal uma bebida e um pouco de conversa fiada, titia? Isso já me animaria um bocado – sugeriu a moça, levantando do sofá e se encaminhando para a sala de jantar.

– Você é um anjo, meu bem. Vamos logo.

Marie entrou na cozinha e ordenou que uma bandeja de café da tarde para duas em cinco míseros minutos. Mathilde gritou com Rosa e ambas corriam lado a lado para executar a tarefa.

Clarisse buscou sua bolsa e Miles se juntou à ela.

– Deixei tudo no seu quarto – informou ele, quando Clarisse ia lhe perguntar sobre seus pertences.

– Quer me acompanhar até lá?

– Agora não, priminha. Prefiro deixar as loucuras para mais tarde.

Capítulo 2 Clarisse e Armando - II

Ela subiu as escadas da sala, pé ante de pé, ao que seu vestido se agarrava ainda mais ao seu corpo, denotando as tardes de malhação na capital. Havia uma mensagem de texto não lida. Era dele. Uma confirmação para o encontro daquela noite.

Os planos de Clarisse para o natal em Belo Horizonte envolvia meias vermelhas, gorro e muita gostosura, entretanto não seria presenteada por ter se comportado todo o ano. O papai Noel que a visitaria levaria uma recompensa justamente pela moça ter sido uma diabrete o ano todo.

Ela não fazia o gênero comportada, por isso os homens que se envolviam com ela sabiam que estariam mexendo em colmeia. A abelha rainha estava disposta a melar quem que ousasse ser digno de entrar nos seus aposentos.

A moça, sorrindo para a tela do celular acesso, digitou uma mensagem rápida e guardou o aparelho nas dobras do vestido na altura busto. Já que estava no quarto, fechou a porta e foi ao banheiro. Viu sua imagem no espelho e fez caretas sensuais para si mesma.

– Está ai dentro, querida?

Tia Marie bateu, nervosamente, à porta. A moça crispou os lábios, lançou um beijinho para o seu reflexo no espelho e saiu para atender a tia.

– Estava um pouco apertada – falou ela, entortando a perna para sustentar a mentira.

– Há um banheiro no andar de baixo, esqueceu?

– Eu, hã... me esqueci. Na verdade, vim dar uma retocada na maquiagem.

– Vaidosa como sempre. Agora vamos beliscar alguma coisa, meu bem – chamou a tia, conduzindo ela para a sala de jantar.

Mathilde forrou a mesa com pães, doces, sucos e folhados preparados ainda naquela manhã. As duas se sentaram e se serviram aos poucos. Clarisse puxou uma torrada e a cobriu com geleia de morango caseira.

– Mathilde sempre se supera com essas geleias – elogiou Clarisse.

– Morango, goiaba, abobora e framboesa – Marie listou mentalmente os sabores que a cozinheira preparava. – Lembra-me de pedir que ela embrulhe uns potes para você levar de volta.

– Com certeza que vou lembra-la.

– Já conheceu algum bom partido nesse meio tempo?

– Bem, digamos, que a viagem até aqui me rendeu um encontro – disse Clarisse passando o cartão de visita para a tia.

– Clarisse, deixe-me ver melhor isso aqui – a mulher altivou os olhos e fez uma carranca de felicidade ao ler. – Hum. Este aqui é empresário e provavelmente tem uma casca de noz no lugar do cérebro. Tirou a sorte grande, meu bem.

– Nem tanto. Eu não sou mulher de cantar vitória antes da hora, titia. Conheci Armando por um simples acaso, agora depende de alguns macetes para levantar toda a vida e as condições em que se encontra essa tal empresa.

Marie sorriu numa forma de parabenizar a audácia da sobrinha. Tomou mais um gole de suco que ela misturou com um liquido transparente de uma garrafa que estava posta atrás da mesa, em um aparador com outras bebidas.

– Alcool uma horas dessas, titia? – ralhou Clarisse, puxando a garrafa de prata da mão da tia e misturando o liquido do conteúdo ao seu suco. – Brindamos, então...

– À audácia feminina – comemorou Marie erguendo a taça.

– Que por sorte está em nosso sangue.

Brindaram em silencio. Marie tornou a guardar sua garrafa pessoal no aparador e mordiscou um pedaço de brioche coberto com requeijão.

– Agora me diga uma coisa, titia, os preparativos para a ceia já estão à postos?

Marie enrugou a testa e lambeu um pouco de geleia que escorria pelos seus dedos.

– Seu tio não tira a ideia da confraternização ser realizada na sede da empresa. Eu já deixei bem claro minhas condições para essa comemoração.

– E... quais são?

– Bom, querida, eu não acho muito produtivo uma comemoração gigantesca para mais de mil funcionários em plena noite de natal. Os solteiros e descompromissados, é claro, vão adorar a ideia de curtir mais de doze horas de balada, bebidas grátis e muita saliência...

– E tem coisa melhor, titia? – Clarisse tomou um gole de suco e piscou para a tia.

– ... imagine as famílias tradicionais e conservadoras que também compõe o quadro de funcionários? Com toda a certeza não vão trocar seus lares e suas ceias para se amontoarem com jovens fedendo a cigarros e álcool. E eu também não estou nem um pouco a fim de participar de festas repletas de proletariado.

Marie e Clarisse riram da declaração e terminaram o café em poucos minutos que se sucederam em mais conversa fiada sobre festas e ceias de natal. A tia estava decidia a não cooperar com os planos do marido, mesmo que ele estivesse disposto à todo custo.

Clarisse, que soubera pela tia da confusão da ultima festa, evolvendo sua prima de São Paulo, tinha em mente que talvez a festa foi adiada para o réveillon, entretanto os seus primos ainda votariam para a decisão final.

Os Albuquerque eram metódicos e regiam sua família como se todos fizessem parte de uma grande empreitada. As maiores decisões e eventos eram decididos por meio de votos. Miles, Brian e Caleb tinham 10% de autonomia cada, tanto nas reuniões de família quanto na empresa. Marie detinha 25% , Claude 30% e os outros 15% ficavam a cargo dos outros acionistas. Nas reuniões de família cada um deles tinha 35% para melhor aproveitamento das decisões.

– Assim que seus primos e seu tio chegarem vamos ter uma votação em família e esse peso vai sair das minhas costas – falou Marie.

– O que te faz acreditar que Caleb, Miles e Brian vão ficar do seu lado, titia?

– Mimos, Clarisse. Esses três não passam de meninos assustados que não deixam a barra da saia da mãe. O segredo é fazê-los crer que são mais do que isso, como eu faço com Claude.

Depois de terminar seu break fast ao lado da tia, Clarisse pôde, enfim, subir para o quarto sem ser incomodada. Sua mala rosa já havia sido deixada lá por Miles antes do primo sair sem avisar.

Se jogou na cama e respirou fundo. Com toda a certeza, aquele quarto fora utilizado por sua outra prima quando a mesma veio passar férias com a família. Nunca tivera contato com ela, nem com a parte da família que se localizava em São Paulo.

Clarisse Correa arriscara alguns pontos cruciais quando decidiu passar o feriado natalino na casa dos Albuquerque. Antes mesmo de cogitar a ideia, uma jornalista sensacionalista havia enviado um email para ela, destacando uma matéria imensa e inescrupulosa sobre Verida Sampaio e o happy hour que acontecera na data em questão da vinda da prima.

Sua mãe não aprovara a viagem, brigara com Marie mesmo antes da irmã se casar com Claude e, a partir de então, assumir seu sobrenome e começar a arrotar arrogância em festas de caridade do Rio de Janeiro.

Clarisse não tinha queda por seus primos, ao contrário de Verida, seus planos eram mais ambiciosos do que seduzir parentes e conquistar ações majoritárias da empresa. Ela já havia estudado muito bem cada um de seus familiares com que dividiria a casa nos próximos dias. Conhecia suas personalidades e iria jogar conforme eles estavam acostumados.

Ela bancaria a moça do interior que finge ser a puritana vingenzinha e está louca para fisgar seu milionário, seja ele quem for. Homens são os seres mais previsíveis, e ao simples modo de ataque, ela acionaria suas armas intelectuais, e como uma serpente quieta em seu covil que espera um mínimo ruído de seus predadores, ela daria o bote certeiro.

Capítulo 3 Clarisse e Armando - III

21 de dezembro

Antes mesmo de todos na casa despertarem, Mathilde já se colocava de pé e esperava por Rosa, sua auxiliar nas tarefas da mansão.

– Anda, menina. O seu Claude já, já desce aqui e se o café dele não tá pronto, já viu. – A copeira se agitava para cima de Rosa e corria por toda a cozinha pegando pratos e xicaras.

– Calma, mulher – falava a auxiliar. – O café tá pronto. Já pôs a mesa?

– Já pus tem muito tempo.

– E você madrugou na cozinha, é?

– Não interessa. Anda logo. Termina de arrumar o café os pães na mesa e volta pra cá e vê se a copa tá limpa.

Rosa saiu bufando da cozinha com o bule de café fumegante na mão. Alguém vinha descendo a escada e parado junto ao ultimo degrau, olhando para a sala de estar. A auxiliar viu uma cabeleira preta presa sobre um capuz e deduziu ser a prima distante.

– Dona Clarisse? É a senhora? – Ela chamou, depositando o bule em cima da mesa.

Uma mulher saiu do cômodo escuro e encarou Rosa. Era Clarisse. Estava vestida com um robe preto com capuz.

– De pé a essa hora, senhora? Acordou com o barulho daqui de baixo...?

– Não se preocupe, meu bem. Tenho costume de acordar cedo. Posso me servir de café?

– Bem... – Rosa se empertigou com a ação de Clarisse em querer tomar café antes dos seus tios descerem para a sala de estar.

– Pode sim, dona Clarisse. – Rosa se intrometeu na conversa e respondeu.

A mulher apertou o cordão do robe e despiu-se do capuz. Rosa e Mathilde a observaram atônitas se sentar à mesa e encher uma xícara de café.

– Seu Claude não vai gostar disso – sussurrou Rosa para Mathilde. – O homem não gosta nem que a esposa dele se sirva antes dele descer.

– Eles que são ricos que se entendam – rebateu Mathilde.

Na sala de estar, Clarisse puxou o celular do bolso do robe e abriu na tela uma página do Instagram enquanto tomava seu café. Algumas fotos e vídeos surgiram diante de seus olhos, fazendo a moça sorrir para uns rostos e torcer o nariz para outros.

Dentre esses supostos desconhecidos, a moça clicou na foto de um homem alto, trajado com um paletó preto de risca de giz, segurando uma pasta de couro nas mãos. Seus olhos eram familiares. Ela visualizou o perfil da conta. Era de Armando.

O perfil não tinha muitos seguidores tampouco fotos e vídeos variados. Não passava de um portifolio para o rapaz demonstrar seu trabalho como administrador, havia mais folders ilustrativos com regras e passo a passo do que poses do novo administrador.

Rosa e Mathilde já tinha enchido a mesa de pães e alguns croissants. Clarisse mordiscou um e tomou um gole de café. No andar, alguns passos bateram no assoalho e Marie adentrou à sala.

– Você tem a mania da sua mãe, Isse. – Marie deu um tapinha no ombro da sobrinha e puxou uma cadeira. – Lembro que sua vó brigava comigo por dormir demais...

– ... e elogiava mamãe por acordar com as galinhas – completou Clarisse. – Ela continua assim.

Clarisse apagou a tela do celular e o cobriu com o robe. Sua tia já enchia uma xicara e mordia uma rosquinha de leite que havia passado manteiga fresca. Marie esperava por Claude. Faltava 2 dias para a ceia de véspera de Natal, e as compras precisavam ser feitas.

Rosa teria que se desdobrar para acompanhar Mathilde na correria que se instalaria na mansão dali algumas horas. Miles e Claude vinham descendo as escadas, numa conversa nada estimulante sobre carros e cavalos.

– Você ainda vai ver muita coisa desse universo, garoto. – Claude vinha descendo as escadas quando se deparou com a sobrinha e a esposa sentadas à mesa. – De pé tão cedo, Marie? Que surpresa. Clarisse por outro lado puxou a mãe.

Marie revirou os olhos e continuo bebericando seu café.

– Mamãe levanta antes do sol nascer – confirmou a sobrinha.

– Imagino que tenham muito trabalho na... bem, chácara de vocês.

– Na verdade, papai comanda uma fazenda enorme – corrigiu Clarisse com um ar de superioridade. Ela sabia que o tio adorava menosprezar quem quer que ganhasse menos dígitos que ele na conta bancária. O que Claude não tinha em mente era que, Alberto Correa Campos, pai de Clarisse, herdara o triplo de terras que tinha há dois anos com a morte de seu pai, fundador dos negócios agropecuários desse outro lado da família.

O tio crispou os lábios e emitiu um meio sorriso.

– Certamente que sim. – Claude não era um homem que se dobrava fácil, sobretudo por uma mulher, entretanto se recusou a iniciar uma discussão com Clarisse na mesa do café da manhã.

– Miles está te incomodando, tio Claude? – Clarisse pegou uma torrada e encarou Claude, animadamente.

– Eu? Só acho que hipismo e camaros são assuntos distintos. Um homem tem suas preferencias, não tem? – ponderou Miles, passando manteiga fresca numa rosquinha salgada.

– Bobagem. Homens são homens. Há vários assuntos que incluem nossa personalidade. Se abster de opinião é um sinal de fraqueza intelectual masculina – Claude discordou.

Clarisse riu e Miles a acompanhou. Dar continuidade numa afirmação bizarra era se submeter a concordar que loucos não rasgam dinheiro. Claude e Marie trocaram poucas palavras. O marido não tirava da cabeça a ideia de uma confraternização na empresa e a mulher já havia esboçado planos mais íntimos para a família.

A sobrinha se divertia com a briga entre os dois. Decidia a plantar ainda mais discórdia, do contrario não teria uma solução viável para a ceia de natal em conjunto, ela sugirou algo mirabolante.

– Uma festa aqui na mansão parece algo bem suscetível para ambos darem uma trégua.

– Você está doente, querida? Deve haver algo a mais no seu café? – Marie riu alto da ideia de Clarisse. – Acha que vou abrigar uma multidão de empregados na minha sala, sentando-se no meu sofá e bebericando meu vinho?

Soberba era a marca registrada dos Albuquerque. Marie esbanjava dinheiro por onde passava. Adquiria bens que não tinha necessidade, andava pelas ruas da cidade, de loja em loja, brandindo seu cartão e expurgando qualquer boa fama que a cercava.

A mansão tinha uma estrutura gigantesca, e mesmo se o tamanho da casa fosse um problema, bastava uns míseros telefonemas e Claude reservava o melhor lugar do Rio de Janeiro para sua festa de natal. Não havia um motivo real para a resistência de Marie em fazer a tal confraternização.

Clarisse arqueou as sobrancelhas e pensou a respeito. Desde que chegara a tia não parara de falar na objeção em deixar que o marido realizasse uma comemoração com os funcionários. Provavelmente havia algo mais escuso nisso que um simples mal gosto.

– Clarisse, meu bem, escuta aqui a tia. Não tem possibilidades de eu ceder nessa discussão. Se Claude quiser um jantar em família, ele terá. Do contrário, Pode passar a ceia ao lado de funcionários no botequim da praia de Copacabana, pois na minha casa não entra ninguém que não divida nosso tipo sanguíneo.

– Menos Mathilde e Rosa, mamãe. Você não sabe cozinhar sem elas – Miles caçoou, rindo alto.

– Pois bem, faça como quiser. – tio Claude tomou o café numa golada só, sujando os fios do bigode. – Eu tenho trabalho hoje cedo. Bom dia, Clarisse.

Enfatizando o nome da sobrinha, o homem saiu batendo os pés escada acima.

– Foi algo que eu disse?

– Não ligue para esse velho turrão do Claude. Faltam só 2 dias para o natal e a lista de preparativos é mais longa que meu limite do platinum.

Piada de rico nunca tinha graça. Clarisse sorriu por modéstia, mas também se retirou da mesa.

– Volto já.

À caminho do banheiro, no andar de cima, Brian deu um esbarrão bem saliente em Clarisse.

– Desculpe, eu...

– Calma, priminha. Foi minha culpa – falou o cara. O olhar dele era mais provocador do que suplicante em um pedido de desculpas. – Eu já estava indo tomar café.

– Pois, eu já terminei o meu – rebateu Clarisse. – Sua mãe e seu irmão ainda estão lá. Pode ir.

– Acho que te acompanhar seria melhor. – Brian chegou ainda mais perto dela e falou bem próximo ao seu rosto.

O celular no bolso do roupão de Clarisse vibrou. Ela gemeu baixinho. O aparelho estava posto bem em cima de sua região intima.

– Pelo visto você curte brincadeiras caseiras, não é mesmo?

– Isto é um celular, seu imbecil – ela xingou, puxando o aparelho. – Mas, acho que faz melhor que o seu. Com licença.

Ela bateu forte em seu ombro quando correu para o banheiro. Baixou a tampa do vaso e se sentou para ler uma mensagem.

Armando a seguira de volta. E ainda por cima, deu match em muitas de suas fotos. Ela riu e guardou o celular. Não era mais uma adolescente boba para se alegrar de algo tão ínfimo.

O primeiro contato entre um homem e uma mulher sempre será tido como um momento decisivo. O homem pode estar cheiroso, arrumado, todo engomadinho e ainda parecer um tremendo babacão. Não é isso que importa. A mulher sabe muito bem que o contato entre ela e um homem pode ser destruidor se não fluir da maneira certa.

Não é nenhum dos dois que dita essa tal maneira. Os saltos altos e uma bolsa de grife também não. Nem perfume ou batom. O que dita e marca para sempre o relacionamento entre ambos, a partir do primeiro contato, é o famigerado elo.

Alguns filósofos do amor o chamam também de química. Essa suposta química faz uma mulher correr para o banheiro quando recebe uma notificação besta – em sua opinião – de um aplicativo para adolescentes, trazendo uma ação feita por um homem com quem teve seu primeiro contato em um avião.

Clarisse podia não estar interessada em Armando, mas algo atraiu sua atenção por longos minutos sentada naquele banheiro.

A moça não sabia bem o que era, então decidiu anotar tudo o que lembrava sobre ele.

Lista sobre tudo o que lembro dele. Foi assim que ela a chamou. Ela pontuou:

Cabelos bonitos, lisos e cheirosos – dava para sentir o perfume do creme de cabelo dele enquanto conversávamos.

Seu toque – quando ele roçou os dedos na minha mão, ao devolver minha revista – fiquei toda arrepiada, mas é normal, né.

O perfume amadeirado dele – só direi isso: Espetacular.

O sorriso dele era meio bobo.

– Ponto, garota besta. Agora, sim, está parecendo uma adolescente, Clarisse Correa. – O seu reflexo no espelho fez uma careta e ela saiu do banheiro, indo direto para o quarto.

Segurando forte o aparelho em suas mãos, ela sofria um dilema: Retribuía ou não o tal match? Era somente uma curtida no perfil de Armando e ele não pararia de persegui-la. E era não queria aquilo. Um homem preso na barra de sua calça? Nem pensar!

– Seja o que Deus quiser. – Ela deu uns cliques na tela do celular e o jogou na cama, pulando por cima e agarrando o travesseiro.

Estava feito. Ela dera o match.

– Que palavra estranha. Match. Invasão de privacidade, isso, sim.

Mas, agora não tinha mais volta. Tinha que esperar a reação da outra parte envolvida. Então, ela preferiu dar um tempo da rede social e viver a realidade. Tia Marie sairia para fazer compras de natal, ela a acompanharia. Tomou um banho rápido e ficou olhando para sua mala.

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