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Depois do Adeus

Depois do Adeus

Autor:: Nayara Barbosa
Gênero: Romance
🛵Depois do Adeus🛵 Amélia Duarte aprendeu que às vezes o amor não é o bastante. Depois de tantas perdas, ela descobre que recomeçar também é uma forma de coragem. Entre o fim de um ciclo e o início de uma nova vida, Amélia entende que a verdadeira liberdade nasce quando escolhemos ficar - com nós mesmas. > Porque a vida continua, mesmo depois do adeus.<

Capítulo 1 Prólogo

🛵

Amélia Duarte

Um dia depois de eu ter ido embora, eu chorei, chorei muito, como no dia em que tudo acabou.

Foram cinco anos, mas não penso que tenham sido cinco anos jogados no lixo, não. Pelo contrário - foram cinco anos de aprendizado, de amadurecimento, de uma história bonita vivida, mas que precisava acabar antes que saíssemos ainda mais magoados.

É difícil encerrar um relacionamento de tantos anos quando ainda há amor, mas é gratificante saber a hora de ir embora. A hora de se curar, de ser podada para, no fim, quem sabe, florescer.

O amor tudo suporta, tudo crê, mas o amor não é só dor. Aprendemos que devemos amar o próximo, mas como vamos amar alguém se nem sabemos o que é nos amar?

Às vezes pensamos demais nos outros, ajudamos demais os outros e esquecemos o principal: nós mesmos.

E eu estava precisando desse tempo. Pra mim. Pra me cuidar. Pra... largar essa dependência emocional dele.

Sim, é difícil de assumir, mas essa relação se tornou uma dependência emocional fortíssima.

Por tudo.

Por ter sido abandonada pelos meus pais biológicos.

Por ter perdido meus pais adotivos.

Por ter perdido o meu...

(enfim...)

Por causa de tantas perdas, minha vida se tornou um caos, regada a dependências, ao medo de ficar sozinha, ao medo de não ter ninguém.

Mas eu esqueci que tinha a mim.

Que tenho amigos verdadeiros.

E que, no meio do caos, há quem me ame exatamente como eu sou: imperfeita, tentando juntar meus caquinhos.

E nesse vasto mundo, há uma Amélia que precisa se encontrar e se amar novamente.

---

A chuva caía lá fora, fina e constante, enquanto eu encarava a xícara de café frio sobre a mesa da cozinha da Clara. A casa estava em silêncio, exceto pelo som ritmado das gotas no telhado. Eu me sentia pequena ali - não pela casa, mas pela sensação de vazio que me abraçava desde que fechei a porta e fui embora.

Meu celular vibrou pela quarta vez naquela manhã. O nome dele piscava na tela.

"Caio".

Eu respirei fundo.

Não atendi.

A dor ainda estava muito viva pra que eu conseguisse ouvir aquela voz de novo.

- Ele ainda tá ligando? - a voz de Rebeca soou suave, atrás de mim. Ela entrou devagar, com aquele olhar calmo que sempre parecia entender mais do que eu dizia.

Assenti, sem coragem de olhar pra ela.

- Tá. - foi tudo o que consegui dizer.

Ela se aproximou, colocou as mãos no encosto da cadeira e se inclinou um pouco, me observando com carinho. - E você? Como tá, de verdade?

Minha garganta fechou.

De repente, todo o controle que eu vinha tentando manter desabou.

As lágrimas que eu vinha segurando desde a noite anterior escaparam silenciosas.

Rebeca puxou a cadeira e sentou ao meu lado, sem dizer nada. Apenas estendeu o braço e me abraçou. Um abraço longo, que parecia segurar tudo que eu não conseguia mais carregar.

- Eu... - minha voz falhou - eu achei que fosse mais forte, sabe? Que eu conseguiria só... seguir.

- Você é forte, Amélia. - ela respondeu baixo, sem soltar o abraço. - Só que até as pessoas fortes choram.

Balancei a cabeça, enxugando as lágrimas com o dorso da mão.

- Eu não queria que tivesse acabado. Mas também não queria continuar daquele jeito. Ele me fazia sentir... pequena.

- Eu sei. - Rebeca respirou fundo. - Às vezes, a gente se acostuma tanto com o pouco que esquece o quanto merece o muito.

As palavras dela me atravessaram.

Fiquei em silêncio por um tempo, olhando pro nada, tentando processar o vazio e o alívio que brigavam dentro de mim.

- Foram cinco anos, Bec. - falei, com a voz trêmula. - Eu planejei tudo com ele. A casa, a família... até o nome dos filhos, acredita? - sorri sem humor. - E agora... não sobrou nada.

- Sobrou você. - ela disse com firmeza. - E isso é mais do que o suficiente.

Aquela frase me desarmou.

Eu baixei o olhar, sentindo uma mistura de vergonha e dor.

- Eu me perdi nele, Bec. Deixei de me olhar no espelho, deixei de sonhar por mim. Tudo era "a gente", nunca "eu".

Rebeca segurou minhas mãos.

- E agora é hora de se encontrar. De sonhar por você.

Silêncio.

Por um momento, só o som da chuva nos acompanhou.

- Eu sinto medo, Bec. - confessei, num sussurro. - Medo de recomeçar. Medo de não dar conta. Medo de estar sozinha.

Ela apertou minhas mãos com força.

- Você já deu conta de tanta coisa, Amélia. Já perdeu tanto, e mesmo assim tá aqui, respirando, tentando. Isso é recomeçar.

As lágrimas voltaram, mas dessa vez não doíam tanto.

Eram lágrimas de quem começava, aos poucos, a acreditar.

Rebeca se levantou, foi até o fogão e serviu duas xícaras de café novo.

O cheiro quente preencheu a cozinha.

- Bebe. - ela disse, colocando uma xícara na minha frente. - A gente começa por aqui. Um café, um respiro e um passo de cada vez.

Eu ri, entre soluços. - Você sempre com esse jeito de psicóloga de esquina.

Ela riu também. - Alguém tem que lembrar você que é humana, né?

A risada dela me fez bem. Pela primeira vez em muito tempo, eu senti o coração aliviar um pouco.

Depois de alguns minutos de silêncio confortável, ela voltou a falar:

- E o trabalho novo?

Suspirei, olhando para o vapor que subia da xícara.

- Eu aceitei. Começo na segunda.

- Isso é ótimo, Amélia! - ela sorriu, orgulhosa. - Tá vendo? A vida tá se abrindo de novo.

- É, mas dá medo. Eu nunca trabalhei fora da loja, nunca tive cargo assim.

- Medo é só o primeiro sinal de que algo novo vai dar certo. - ela respondeu. - Você vai se sair bem.

Fiquei olhando pra ela por um tempo. Rebeca sempre teve esse dom de dizer as palavras certas, sem forçar, sem prometer nada. Só com verdade.

- Eu queria ter metade da tua fé, Bec.

Ela sorriu de canto. - A fé você já tem, só esqueceu onde guardou.

Meus olhos marejaram de novo, mas dessa vez de emoção boa.

Me levantei e a abracei forte.

- Obrigada. Por tudo.

- Não precisa agradecer, Amélia. - ela sussurrou, retribuindo o abraço. - É pra isso que as amigas estão aqui. Pra lembrar que você não está sozinha, mesmo quando acha que está.

---

Mais tarde, quando Rebeca foi embora, fiquei sozinha outra vez.

A casa da Clara estava quieta. Peguei meu caderno e comecei a escrever.

"Querido Deus, obrigada por me permitir ir embora antes de perder a mim mesma."

Fechei os olhos. Respirei fundo. Pela primeira vez em anos, o silêncio não doeu tanto.

Eu não sabia o que viria depois.

Mas, pela primeira vez, eu sentia que o depois do adeus podia, sim, ser um começo.

---

✨ Porque às vezes, o amor mais bonito é aquele que nasce quando tudo o resto acaba.

{...}

Capítulo 2 C.01

🛵

Amélia Duarte

O som do despertador parecia zombar de mim naquela manhã. O mesmo toque, o mesmo horário, a mesma rotina. A única coisa diferente era o peso no meu peito - um peso que me lembrava que tudo o que eu acreditava estar certo já tinha se despedaçado há muito tempo.

Virei o rosto e lá estava ele.

Caio dormia tranquilamente, de costas pra mim, respirando fundo, como se o mundo estivesse em paz. Por um breve segundo, imaginei que o pesadelo da noite anterior não passava de mais uma daquelas discussões que acabam em lágrimas e promessas vazias. Mas não era. Era real. Tudo nele ainda doía - o jeito que me olhava desconfiado, o modo como transformava qualquer gesto em uma ameaça à masculinidade frágil que eu já não reconhecia.

Quando ele se levantou, ajeitou o cabelo, me deu um beijo rápido na testa e disse:

- Bom dia, meu amor. - Como se nada tivesse acontecido.

A naturalidade dele me cortou por dentro. Eu apenas assenti, calada, fingindo que ainda havia "nós". Mas a verdade é que já fazia tempo que só existia ele - e eu, perdida dentro de uma versão de mim mesma que não sabia mais quem era.

Enquanto ele tomava banho, fiquei sentada na cama, observando o reflexo do sol batendo no espelho do guarda-roupa. Aquele quarto era o mesmo desde que eu tinha quinze anos. Eu tinha crescido ali, acreditando que amor era sinônimo de entrega total. Que era normal abrir mão de si por alguém.

Mas amor não era isso. Amor não era viver pisando em cacos de vidro, tentando não sangrar mais do que o necessário.

Peguei o celular.

Meus dedos tremiam. O coração parecia gritar dentro do peito. Eu já tinha ensaiado aquela mensagem dezenas de vezes, mas nunca tive coragem. Até agora.

> "Eu preciso de um tempo pra mim, Caio."

Enviei antes que o medo me fizesse desistir.

A resposta veio em segundos.

> "Tempo? Quanto?"

Suspirei fundo, fechei os olhos.

> "Não sei... Eu preciso me encontrar. Eu não sei mais quem sou."

A bolinha de digitação surgiu quase imediatamente.

> "Tem algo errado aí. Você diz que precisa de um tempo depois que brigamos porque tinha caras olhando pra você naquela festa?"

Senti um nó subir pela garganta. Era sempre assim. Ele distorcia tudo. Eu só queria paz, e ele queria controle.

> "Caio, eu estava com você. Do seu lado. Se eu sou sua mulher, você tem que confiar em mim. Agora está insinuando que eu te traí? Isso é o cúmulo do absurdo! Há um ano estamos brigando sem parar. Estamos nos afastando e só eu estou tentando. Você mudou. Se tornou manipulador, possessivo e... doente de ciúmes. Isso é loucura."

> "Loucura é você querer acabar com um relacionamento de 5 anos por uma discussão besta. Certeza que você tem outro."

As palavras me atravessaram como uma lâmina fria.

Li uma, duas, três, quatro vezes.

Meu corpo tremia. Meus olhos queimavam. Eu só conseguia pensar: como ele pôde?

Eu tinha apenas quinze anos quando entreguei tudo a ele - tempo, inocência, confiança, corpo e alma. Ele foi meu primeiro homem, meu primeiro amor... e agora me acusava de algo que eu jamais fiz.

> "Eu preciso de um tempo."

> "Quem dá tempo é relógio. Se quer um tempo, é melhor terminar."

Meu coração parou por um instante.

Eu podia simplesmente implorar pra ele mudar. Fazer o que sempre fiz: pedir desculpas, chorar, prometer tentar mais. Mas algo dentro de mim - algo que eu achava morto - se levantou.

Era o meu limite.

> "Okay. Acabou."

Demorei um segundo pra entender o que tinha acabado de escrever. Minhas mãos suavam, o peito doía, mas... havia um alívio estranho ali.

Um silêncio.

Uma liberdade tímida, nascida da dor.

> "Amélia, você não tá falando sério."

> "Você quis assim. Adeus."

Desliguei o celular.

As lágrimas vieram de uma vez, sem piedade. Apoiei as mãos na pia do banheiro e encarei meu reflexo. Os olhos inchados, o rosto pálido, os lábios tremendo.

- Você vai ficar bem - murmurei pra mim mesma, tentando acreditar. - Você precisa ficar bem.

Tomei um banho rápido, vesti o uniforme da loja e saí. O ar da rua era leve demais comparado ao peso que eu carregava por dentro. Montei na moto e deixei o vento secar o resto das lágrimas.

Hoje eu tinha que ser forte.

Hoje eu tinha que começar do zero.

---

As horas no trabalho passaram arrastadas. Eu sorria para os clientes, atendia com educação, mas por dentro estava em frangalhos. Cada toque no celular me fazia pular de susto. Cada notificação, um medo: será ele?

Mas Caio não mandou mais nada. Nem um áudio, nem uma ligação.

O silêncio dele foi a confirmação que eu precisava - e a dor que eu não queria sentir.

Quando o relógio marcou meio-dia, pedi pra sair pro almoço. Peguei a moto e fui direto à casa dos pais dele. A mesma casa onde eu morei nos últimos anos, a mesma que guardava todas as lembranças que agora eu precisava deixar pra trás.

A sogra me recebeu com um sorriso hesitante.

- Oi, minha filha... Caio me contou que vocês brigaram.

Eu apenas balancei a cabeça, tentando disfarçar o choro.

- Eu só vim pegar umas roupas. - respondi, firme. - O resto eu pego outro dia.

Ela me olhou com pena. E eu odiei isso. Odiei ser olhada como quem perde.

- Vocês se amam tanto, Amélia... pensa com calma, viu?

- Eu pensei por cinco anos. - cortei, sem conseguir disfarçar a voz embargada. - Agora eu preciso pensar em mim.

Subi as escadas com o coração na garganta. Cada passo ecoava como um adeus.

Abri o guarda-roupa e comecei a jogar roupas dentro de uma mochila. Cada peça que eu dobrava parecia arrancar um pedaço de mim.

A camiseta que ele usava pra dormir.

O casaco que comprei pra ele no nosso primeiro inverno juntos.

A foto colada no espelho, sorrindo, sem saber o que o tempo faria com a gente.

Quando desci, a sogra me abraçou.

- Cuida de você, tá?

Assenti, com lágrimas nos olhos.

- Sempre cuidei dele... acho que agora é minha vez.

Saí sem olhar pra trás.

O vento da tarde bateu no meu rosto e levou consigo um pouco da dor.

Enquanto pilotava, percebi que não fazia ideia de quem eu era fora dele. Não sabia o que gostava, o que queria, o que me fazia sorrir. Eu tinha me tornado a sombra de uma relação doente - e agora precisava aprender a ser luz de novo.

---

Quando cheguei à casa da minha prima Clara, ela abriu a porta antes mesmo de eu descer da moto.

- Meu Deus, Amé! O que aconteceu? - perguntou, assustada, ao ver meu rosto.

- Acabou, Clara. Eu terminei com o Caio. - A voz saiu trêmula, mas verdadeira.

Ela me puxou pra dentro e me abraçou com força.

- Finalmente, prima... finalmente você fez o que devia ter feito há muito tempo.

Desabei nos braços dela. Chorei tudo que não chorei nos últimos meses. O alívio e a dor se misturaram, como chuva caindo em terra seca.

- Eu tenho medo, Clara. Eu não sei viver sem ele.

- Você tem medo porque ele te fez acreditar que não podia. Mas pode, Amé. Você é forte. Sempre foi.

- Forte? - soltei uma risada amarga. - Eu me anulei por ele. Esqueci quem sou.

- Então agora é hora de se lembrar.

Ela me guiou até o quarto de hóspedes e deixou que eu ficasse sozinha por um momento. Sentei na cama e olhei pra mala aberta, as roupas amontoadas, o caos que refletia exatamente o que eu sentia por dentro.

Peguei o celular.

Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação.

Pela primeira vez, Caio estava realmente em silêncio.

E foi nesse silêncio que eu percebi: o amor não deveria doer tanto.

Não deveria me fazer ter medo de ser eu mesma.

Deitei na cama, respirei fundo e fechei os olhos.

O vazio doeu, mas junto dele havia uma semente de esperança.

Amanhã seria outro dia - e talvez, só talvez, o começo da mulher que eu sempre quis ser.

{...}

Capítulo 3 C.02

🛵

Amélia Duarte

O terceiro dia foi o mais difícil.

Não porque a dor tivesse aumentado - mas porque eu já não tinha forças pra fingir que ela passaria logo.

Chorei.

Chorei como no primeiro dia, quando decidi ir embora.

Chorei como no segundo, tentando convencer meu coração de que era o certo.

E chorei agora, no terceiro, porque entendi que o amor, quando não é leve, deixa feridas que não cicatrizam da noite pro dia.

Hoje era domingo. O dia em que eu buscaria o que restava da minha vida - minhas roupas, meus objetos, pedaços de lembranças e tudo o que sobrou da mulher que fui ao lado dele.

O dia em que eu precisaria ser mais forte do que a saudade, mais firme do que o medo.

O dia de me reerguer.

Clara e Rebeca estavam comigo desde cedo.

Clara, minha prima, sempre prática, dirigia o carro com o rosto sério e decidido, como se quisesse absorver a minha dor pra que eu não sentisse tanto.

Rebeca, minha amiga desde os tempos de escola, estava encostada na porta, mexendo no celular e tentando me distrair com piadas bobas.

Mas nada realmente distraía. A mente da gente tem o péssimo hábito de voltar exatamente onde mais dói.

- Tem certeza que quer fazer isso hoje, Amé? - perguntou Clara, virando o rosto pra mim.

Assenti devagar.

- Se eu adiar, vou acabar voltando atrás. E eu não quero mais viver assim.

Rebeca suspirou, apoiando a cabeça no banco.

- A gente vai com você até o fim, tá? Se ele tentar falar algo, eu juro que desço do carro e mostro pra ele o significado de "respeita o espaço da mulher".

Apesar da dor, sorri fraco.

- Não precisa brigar, Beca. Eu só quero paz.

Ela bufou. - Paz é o mínimo que ele devia te dar.

A viagem até a casa dos pais dele foi silenciosa. O som do motor parecia acompanhar o ritmo lento do meu coração. Pela janela, vi as ruas que percorri tantas vezes de mãos dadas com ele - o mercadinho onde comprávamos pão, a esquina onde ele me esperava de moto, o parquinho onde rimos no nosso primeiro encontro.

Tudo agora parecia um cemitério de lembranças.

Quando chegamos, o ar ficou pesado. O portão estava aberto, e a casa - a mesma onde vivi os últimos cinco anos - parecia menor, mais fria, como se já não me pertencesse.

- Quer que a gente entre com você? - perguntou Clara.

Balancei a cabeça.

- Ainda não. Se eu cair, vocês me seguram, tá?

Ela assentiu e desligou o carro.

Desci com passos hesitantes. O barulho do cascalho sob meus pés ecoava alto demais.

Respirei fundo antes de bater na porta.

Mas eu nem precisei.

A porta se abriu.

E ele estava lá.

Caio.

Os olhos fundos, o cabelo bagunçado, a barba por fazer.

Aquela imagem - tão familiar e tão distante - fez meu coração disparar por reflexo, mas logo o medo e o instinto de autoproteção falaram mais alto.

- Amélia... - ele disse num sussurro. - Amor, por favor...

Senti as mãos dele tocarem as minhas, quentes, trêmulas, desesperadas.

Mas eu me desvencilhei.

- Caio, não faz isso. - minha voz saiu fraca, mas firme. - Não insista. Eu não tô fazendo bem pra você, e você não tá fazendo bem pra mim.

Ele mordeu o lábio inferior, os olhos marejados.

- E o nosso filho?

O ar sumiu dos meus pulmões.

Senti o chão girar por um instante.

A ferida mais profunda, ele sabia exatamente onde estava.

- Caio, não toca nesse assunto... - pedi num sussurro, desviando o olhar. - Você sabe como me dói.

Ele deu um passo à frente, e as palavras saíram em desespero:

- Nós demos frutos, Amélia! Como você pode simplesmente ir embora?

As lágrimas caíram antes que eu pudesse conter.

- E o nosso fruto não está aqui. - minha voz tremia. - Não tenho nada que me prenda a você. Deus levou o nosso filho pra que eu pudesse ter uma chance de recomeçar longe de você.

Ele recuou, atordoado, como se cada palavra fosse um golpe.

- Não diz isso... - murmurou. - Você não pode dizer isso.

- Posso, Caio. - respirei fundo, limpando as lágrimas. - Eu te amo. E provavelmente vou te amar por muito tempo. Mas esse amor... ele tá me matando aos poucos.

As mãos dele tremiam. Ele tentou me tocar novamente, e eu dei um passo atrás.

- Por favor - continuei. - Não usa a memória do nosso filho em vão. Não transforma a dor que a gente passou numa moeda de troca pra eu continuar aqui. A perda dele já foi mais do que eu podia suportar.

Por um instante, o silêncio nos envolveu.

O vento balançou a cortina da janela, e eu ouvi o som distante de Clara chamando meu nome.

Ele abaixou a cabeça.

- Eu não sei viver sem você.

- Aprende. - sussurrei. - Eu também vou precisar aprender.

Dei as costas e caminhei até o carro.

Cada passo parecia uma despedida de tudo o que eu fui.

Clara e Rebeca me esperavam de portas abertas.

Rebeca levantou imediatamente, avaliando a expressão dele de longe.

- Ele tentou te tocar? - perguntou, em voz baixa, mas carregada de raiva.

- Tentou... - murmurei. - Mas eu consegui dizer tudo que precisava.

Clara segurou minha mão e me puxou pra dentro do carro.

- Então bora. O que ficou pra trás não te pertence mais.

Assenti, engolindo o choro.

Olhei pela janela enquanto nos afastávamos.

Caio ainda estava lá, parado no portão, me observando ir embora como quem assiste a própria vida se desmanchar.

E talvez fosse exatamente isso que estava acontecendo - com ele, e comigo também.

---

O caminho de volta foi silencioso.

O rádio tocava uma música lenta, e eu me peguei olhando o céu, tentando entender onde Deus se encaixava em tudo aquilo.

Talvez Ele tivesse me poupado.

Talvez tivesse me arrancado daquele lugar pra que eu pudesse renascer.

Clara quebrou o silêncio.

- Você quer passar na loja amanhã? O gerente ligou perguntando se você tá bem.

Assenti.

- Quero. Preciso voltar à rotina. Se eu ficar parada, eu desabo.

- É isso aí - disse Rebeca, mexendo no espelho retrovisor. - Você vai recomeçar, Amé. E dessa vez vai ser por você, não por ele.

Sorri de leve.

- É o que eu quero. Recomeçar por mim.

---

Chegamos na casa de Clara pouco antes do entardecer.

Ela me ajudou a descarregar as malas, enquanto Rebeca fazia café na cozinha.

O cheiro me trouxe lembranças boas - aquelas de antes de tudo desandar, quando eu e Caio ainda éramos dois adolescentes rindo à toa, sem saber o peso que o amor podia ter.

Depois que elas foram dormir, fiquei sozinha na sala.

A luz do abajur iluminava metade do sofá, e o silêncio da casa parecia gritar os meus pensamentos.

Peguei o celular e abri a galeria. As fotos ainda estavam lá - sorrisos, viagens, datas, promessas. Tudo congelado num tempo que já não existia.

Apaguei uma por uma.

Cada toque na tela era uma facada e, ao mesmo tempo, um alívio.

Quando a última imagem sumiu, o coração apertou.

Mas logo senti algo diferente - um espaço, um respiro.

Um começo.

Fui até a janela e olhei o céu estrelado.

As lágrimas vieram de novo, mas dessa vez não doíam tanto.

Senti que, em algum lugar, o meu filho estava olhando por mim.

- Eu vou ser forte, meu amor - sussurrei. - Por mim. Por você.

E ali, sozinha, entre o silêncio e as lembranças, percebi que talvez o "adeus" não fosse o fim.

Talvez fosse só o início de uma nova chance de viver.

{...}

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