***ATENÇÃO***
Antes de iniciar a leitura, você deve saber que neste livro pode conter gatilhos para quem sofreu abusos psicológicos e/ou físicos. Não leia caso você seja uma dessas pessoas.
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Eu sempre soube que, quando me casasse, não seria fácil.
Não porque o amor fosse difícil - mas porque o homem que escolhi já vinha tentando moldar a minha pele, minha voz e até meus silêncios, como se eu fosse uma peça de argila nas mãos dele.
No começo, eu achava que isso era cuidado.
Depois, que era ciúme.
E, por fim, que era amor.
Eu era muito nova. Inexperiente. Nunca tinha namorado ninguém antes, e não imaginava que relacionamento nenhum tinha luzes de advertência. Achava que todos os casais enfrentavam brigas que terminavam em desculpas vazias, crises que se repetiam como estações, olhares que pesavam como culpas.
Eu não sabia que aquilo não era amor.
Era controle - mas eu só aprendi a diferença tarde demais.
A única bússola que eu carregava vinha da minha mãe.
A frase dela ecoava dentro de mim como uma oração proibida:
"Filha, nunca deixe um homem levantar a mão para você. O primeiro golpe não é o começo de nada - é o fim."
Cresci ouvindo isso.
Cresci acreditando nisso.
E, ainda assim, tropecei no destino que ela temia.
Aguentei insultos, crises de ciúme, acusações sem sentido. Aguentei a manipulação silenciosa, a vigilância disfarçada de amor. Aguentei tanto que, quando percebi, já não lembrava quando tinha sido a última vez que eu me reconheci no espelho.
E então, numa noite qualquer - a noite que deveria ser de celebração - ele atravessou a linha que minha mãe tinha traçado quinze anos antes.
Não houve aviso.
Não houve discussão que justificasse.
Não houve momento para respirar.
Houve apenas o primeiro golpe.
E depois o segundo.
E o terceiro.
Era uma quarta-feira à noite. Tínhamos saído do trabalho e ido direto a um restaurante para comemorar nossos 15 anos de casados. Eu estava feliz. Superfeliz. Estávamos planejando nosso primeiro filho; eu havia parado de tomar o anticoncepcional e nós estávamos bem - algo que não acontecia há anos.
O restaurante japonês era o nosso santuário particular. O cheiro de vinagre de arroz e gengibre sempre foi o perfume das nossas celebrações.
- Estou feliz por estarmos aqui - eu disse, buscando a mão dele sobre a mesa, um gesto que era, ao mesmo tempo, carinho e um pedido silencioso de trégua.
- Por quê? - Diego perguntou. Ele não sorria com os olhos, apenas com os lábios. Um sorriso de vitrine.
- Porque estamos comemorando nosso aniversário, amor. São 15 anos juntos, não 15 dias. Passamos por tanta coisa que nem imaginei que chegaríamos aqui - respondi, colocando minha mão sobre a dele.
- Pois é, quem diria...
Eu concordei com a cabeça. Eu amava o Diego; continuava apaixonada por ele, mesmo depois de tudo.
- Bom, vamos nos servir? Estou com fome - ele disse, sorrindo e pegando o prato.
- Vamos lá - respondi, indo atrás dele. Já estava acostumada com o jeito seco dele de agir comigo, o modo caloroso da época do namoro foram há muito deixadas para trás, então eu já não me incomodava mais.
No caminho até as ilhas repletas de comida, um homem esbarrou em mim do nada, derrubando meu prato no chão.
- Merda - murmurei, abaixando-me para juntar os cacos enquanto o garçom vinha me socorrer.
- Desculpa, moça, eu não te vi - disse o rapaz, abaixando-se para ajudar.
- Tá, relaxa - respondi, seca, sem olhar para o rosto dele. Eu conhecia o manual de sobrevivência ao lado de Diego: nunca dê abertura, nunca olhe nos olhos de outro homem, nunca sorria para estranhos. Mas o "crime" já estava registrado na mente paranoica dele. Levantei-me, deixando o garçom cuidar da bagunça. - Obrigada - agradeci ao funcionário e fui buscar outro prato.
Ao me aproximar da ilha, notei Diego. Ele me olhava com ódio.
- O que houve? - perguntei, já preocupada.
- Eu estou indo embora - ele disse bruscamente, devolvendo o prato e saindo do restaurante.
- Diego! - chamei, indo atrás. - Diego, espera!
Ele foi direto para o carro. Corri e entrei ao mesmo tempo que ele, com medo de que me deixasse ali, como já fizera uma vez.
- Sai do carro, sua puta - ele disse, agarrando o volante com força.
- Oi? Você está louco? Por que está me chamando assim?
- Eu vi, Ariane.
- Viu o quê?
- Você dando em cima daquele cara. O que "esbarrou" em você - disse ele, fazendo aspas com os dedos.
Fiquei incrédula. Eu não tinha feito nada; tinha sido até grossa com o sujeito. Mas quando percebi que Diego estava surtando de propósito, já era tarde.
- Diego, você está ficando doido. Eu não estava dando em cima de ninguém. O babaca esbarrou em mim, eu derrubei a merda do prato no chão. Não fiz nada.
- Fez sim, você sempre faz. Eu vi tudo. Vadia. - Ele disse, quanto arrancava com o carro e íamos para casa.
E mais uma vez aquelas palavras me machucaram. Não era a primeira, e nem seria a última vez que ele me chamava de vadia.
O trajeto para casa foi um deserto de palavras. Eu sabia o roteiro: ele gritaria, eu choraria até os olhos arderem, eu pediria desculpas por algo que não fiz e, dias depois, selaríamos a paz com sexo. Para ele, o sexo resolvia tudo
Como meus sogros moram conosco, pensei que a presença deles conteria a briga. Entrei em casa, dei boa noite baixinho e subi. Estava a caminho do banheiro quando ele me agarrou por trás. Em um abraço apertado, pegou-me desprevenida e me virou de frente.
Pela primeira vez em 15 anos, ele fez o que eu jamais esperaria. Veio o primeiro soco. Depois o segundo, o terceiro. Perdi a conta. Senti meu nariz quebrar. O sangue começou a jorrar. Quando ele me deixou no chão e sentou-se na beira da cama para me olhar com desprezo, o choque paralisou meus sentidos.
Por um momento eu não sabia o que fazer. Não sabia se chorava de dor, ou se gritava por socorro.
Depois de alguns minutos tentando entender o que estava acontecendo ali, no nosso quarto, eu soube o que tinha que fazer.
Lembrei das palavras de minha mãe, e a coragem que sempre me faltava nas horas das brigas para ir embora me abateu com todas as forças.
Puxei o ar que restava e gritei:
- SOCORRO!
Na segunda vez que gritei, ele avançou para me bater de novo, mas meu sogro entrou no quarto, arrancando-o de cima de mim. Minha sogra se abaixou, perguntando se eu estava bem. Eu não conseguia responder. Minha voz havia sumido.
- Quer saber de uma coisa? - Diego gritou, com ódio queimando nos olhos. - Pega suas coisas e some! Eu quero a merda do divórcio!
Fiquei encarando aqueles olhos pretos - olhos que um dia, a muito tempo - já me olharam com carinho, com desejo. Enquanto saia sangue pelo meu nariz e boca minha mente travava. Literalmente me dava a famosa "tela azul". Não sabia o que fazer, muito menos o que responder.
Depois de longos minutos, assim que consegui ouvir minha sogra perguntar novamente se eu estava bem, decidi me mexer. Sem dizer uma palavra.
Com o rosto sangrando e banhado em lágrimas, me virei e sai do quarto, dando as costas para o homem que eu mais amei na vida e abandonando nossa história.
Jamais imaginei que fosse acabar assim... com violência.
Minha mãe me criou para nunca, nunca, aceitar que um homem levantasse a mão para mim, e por fim, o homem com quem me casei, em quem confiei, entreguei minha alma e minha vida... me bateu. Depois de 15 anos de casamento.
Não achei que chegaria neste ponto, mas chegou. E tudo por causa de um ciúme paranoico.
O gosto metálico do sangue na minha boca era o batismo de uma mulher que eu não conhecia. Enquanto eu descia as escadas, ouvi o baque surdo de algo quebrando no quarto - provavelmente o abajur que escolhemos juntos em nossa lua de mel - seguido pela voz grave e decepcionada do meu sogro: 'Você se tornou o homem que eu mais desprezo, meu filho'.
Aquelas palavras foram o último prego no caixão do meu casamento.
Atravessei a porta da sala sem pegar uma peça de roupa sequer. As paredes, adornadas com fotos de viagens e sorrisos ensaiados, agora pareciam estranhas, como um cenário de um filme de terror que eu finalmente tinha coragem de abandonar.
O ar frio da noite atingiu meu rosto inchado, e pela primeira vez em quinze anos, o calafrio que senti não foi de medo, mas de uma clareza cortante.
Entrei no carro e segurei o volante com as mãos trêmulas. Olhei pelo retrovisor e não reconheci a mulher de olhos fundos e lábios partidos, mas reconheci o fogo que começava a surgir por trás da dor. Ele achava que estava me expulsando, que o divórcio era a sua arma final. Ele não entendia que, ao levantar a mão para mim, ele havia quebrado as correntes que me mantinham refém da sua paranoia.
Liguei o motor.
Minha mãe dizia que o amor não dói; se dói, é outra coisa. Eu ia descobrir o que era viver sem essa 'outra coisa'.
Minha primeira parada seria a delegacia - não por vingança, mas porque os próximos quinze anos da minha vida pertenciam apenas a mim.
Podia até estar agindo sem pensar, no automático, mas para mim, violência física era algo que eu jamais, jamais aceitaria, e Diego sabia disso, ele sempre soube.
Por um momento minha cabeça quis racionalizar o ocorrido para tentar justificar as atitudes dele, mas balancei a cabeça e me forcei a entrar no modo automático de novo, somente assim eu iria conseguir sair de todo o poço de sofrimento que era esse casamento.
O estacionamento da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) estava vazio sob a luz neon fria que fazia meu sangue parecer preto. Eu não conseguia chorar; meus olhos estavam pesados demais, a pele ao redor deles latejando em um ritmo próprio.
Entrei na recepção e o silêncio foi quebrado pelo barulho das minhas chaves caindo no chão.
Quando a atendente levantou os olhos, sua expressão mudou de tédio para um choque contido.
Eu já tinha lido sobre isso nos jornais e revistas, mas viver a triagem era diferente.
- Preciso de um laudo. - Minha voz saiu estranha, o lábio cortado dificultando a pronúncia. - Meu marido... ele me bateu.
A burocracia começou.
Enquanto o médico limpava os ferimentos com um antisséptico que ardia como fogo, ele não fazia perguntas invasivas, apenas anotava os danos com uma precisão cirúrgica: Edema periorbital, possível fratura de septo nasal, escoriações na face. Cada palavra dele era uma peça de evidência que eu usaria para enterrar meu passado.
- Você quer registrar a ocorrência agora? - O médico perguntou, olhando-me com uma compaixão que quase me fez desmoronar. - Temos uma equipe da Polícia Civil que pode vir até aqui.
Assenti.
Eu sabia que, sob a Lei Maria da Penha, eu tinha direito à proteção imediata. Enquanto esperava o investigador na sala de observação, meu celular vibrou no bolso.
Era uma mensagem do Diego.
'Ariane, volta para casa. Eu perdi a cabeça, você sabe como eu fico quando você me provoca. Vamos conversar. Eu te amo.'
Li a mensagem através do meu único olho que ainda abria totalmente. O 'eu te amo' dele agora soava como uma ameaça, ele nunca, nunca mandava mensagens dizendo "eu te amo", ou até mesmo falava as palavras para mim, era como se ele fosse tão frio que não sentisse nada.
Meu coração doeu. Doeu muito. E uma vontade de chorar, misturada com a dor, começou a aparecer – como se eu tivesse perdido um membro do meu próprio corpo – e então entendi que não era só o meu coração que doía. Tudo doía. E então me lembrei, novamente, o porquê tudo doía.
Bloqueei o número.
Aquela versão da Ariane que pedia desculpas por ser agredida tinha ficado caída no chão do quarto.
Quando o policial entrou com o papel do depoimento, eu não hesitei. A raiva crescendo dentro do meu peito como um tsunami que não é possível ser parado.
- Eu quero uma medida protetiva. E quero que ele saiba que, desta vez, não haverá próxima.
***
Eu poderia ter ido para qualquer lugar. Poderia ter ido para a casa da minha mãe, dos meus tios, amigas, primas.
Mas não queria isso.
Não queria responder a perguntas que eu nem mesmo tinha respostas.
Eu só queria paz. Sossego. Pelo menos por uma noite.
Depois de sair da delegacia eu fui até um hotel no centro da cidade. Pelo menos lá não fariam tantas perguntas.
- Boa noite, gostaria de reservar um quarto. - Eu disse a moça da recepção que estava prestando atenção no celular. Quando ela olhou para cima e viu o meu rosto, inchado e roxo, o queixo dela foi ao chão. - Fica tranquila, já fui à delegacia denunciar o abuso. Será que você pode ver se tem um quarto disponível?
A recepcionista só balançou a cabeça em concordância e fez o seu trabalho. Levou-me até o quarto e antes que ela fosse embora me disse:
- Eu sinto muito pelo que aconteceu com você. Já vi minha mãe passar por isso, portanto, eu entendo. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em pedir.
Eu assenti, e fechei a porta.
Exausta, não sabia se caia na cama e dormia, ou se tomava um banho. No fim, optei por tomar um banho, precisava trocar de roupa, tirar aquela que havia ficado suja de sangue.
Passei pelo espelho do banheiro antes de abrir o chuveiro, e decidi me olhar.
Foi um erro. Não deveria ter olhado.
Meus olhos? Bom, eu quase não conseguia vê-los. Fiquei me perguntando como consegui dirigir.
Minha boca? Se eu já tinha lábios fartos, depois dos socos eles triplicaram de tamanho.
Meu nariz? Quebrado e estava meio torto. Logo meu nariz, que era tão bonitinho. O médico não quis colocar no lugar na hora, eu já estava com dor suficiente e ele disse que eu não precisava de mais uma no combo todo.
Além de tudo inchado, estava roxo. Roxo puro, como a minha cor favorita.
Eu enfim, comecei a chorar. Não sei de onde vieram as lágrimas, porque eu sentia que não poderia haver nenhuma dentro de mim, mas havia.
Meu mundo tinha desabado em uma única noite, em questão de horas.
Eu não conseguia raciocinar direito. Estava entrando em parafusos. Não conseguia entender onde foi que eu errei, qual era realmente o erro e como tudo pôde ter acabado assim, do nada. Minha cabeça girava e doía. Sempre me considerei uma mulher pé no chão, controlada em questão de sentimentos, mas agora? Eu só queria gritar até perder a voz, mas não podia, eu precisava me controlar.
Respirei fundo e entrei embaixo do chuveiro. Tentei passar as mãos no rosto mais não conseguia, estava dolorido demais, inchado demais. Deixei que a água morna caísse pela minha face, tentando assim aliviar um pouco da dor e rezando a Deus para que a dor fosse embora pelo ralo junto com a água e as lágrimas que agora não conseguia mais conter. O vapor parecia carregar o cheiro de hospital que ainda grudava em mim. Cada gota que escorria pelo meu nariz torto era um lembrete físico de que o 'nós' tinha morrido, e o que sobrava ali, debaixo do chuveiro, era apenas o que ele não conseguiu quebrar: minha vontade de sumir para me encontrar.
Após sair do banho, enrolei a toalha no corpo, e me lembrei que não havia pegado nada. Nem roupas, nem mala, literalmente nada. Eu simplesmente sai, deixei tudo para trás.
A dor de cabeça que comecei a sentir só piorou. Onde eu iria conseguir roupas sem ter que precisar sair daquele quarto?
Lembrei da recepcionista, e que ela tinha dito que eu poderia pedir qualquer coisa, ela me ajudaria né?
Peguei o telefone e disquei o número, deu dois toques e ela logo entendeu.
- Recepção, boa noite. - disse a voz do outro lado da linha.
- Oi, eu, hã... - comecei a falar, antes que me arrependesse de ter ligado. - Lembra que você disse para mim que se eu precisasse de algo eu poderia pedir?
A moça ficou muda na linha por alguns instantes, talvez ela estivesse tentando se recordar de com quem havia falado.
- Ah, sim claro.
- Será que poderia me arrumar algumas roupas? Eu vim embora sem nada. Sai de casa só com a carteira. - perguntei hesitante, não sabendo se ela iria me ajudar.
Um minuto de silencio se passou e ela logo respondeu.
- Claro. Eu tenho uma troca no meu armário aqui, posso levar para você. Assim você consegue sair e ir comprar mais. Pode ser?
Juro que fiquei aliviada no momento, e quase chorei de novo.
- Sim, perfeito. Obrigada. - disse desligando o telefone e sabendo que em poucos minutos ela bateria na porta.
Fiquei ali, enrolada na toalha e esperei. Depois de alguns minutos, ouvi as batidas leves. Levantei-me e abri a porta, deixando a recepcionista entrar.
- Aqui estão. - Ela disse me entregando uma muda de roupas e uma sacola com algo dentro. - Meu nome é Clarissa.
- Eu sou a Ariane. - disse pegando a muda das mãos dela. - Muito obrigada pela ajuda. Eu juro que te devolvo, limpinhas.
- Fica tranquila. Você precisa mais delas do que eu. - disse ela com um sorriso leve no rosto. - Espero que o desgraçado que fez isso com você pague.
- Eu também. - Respondi baixinho olhando para o chão.
- Vou te deixar em paz. O café começa amanhã às 07 horas. - Ela disse e saiu do quarto fechando a porta trás de si.
E eu fiquei sozinha.
Por um momento, fiquei olhando para a porta que tinha acabado de se fechar. E pensei em como a Clarissa tinha sido gentil. Na maioria das vezes, duvido que alguém ajudasse outra pessoa sem fazer perguntas, ou sem questionar qual a real história através do meu rosto roxo.
Por fim me mexi.
Enquanto eu me trocava, chegaram mensagens no meu celular de dona Eva, mãe do Diego, minha agora, ex-sogra.
"Oi, onde você tá?".
"Estamos preocupados.".
"Claudio esmurrou o Diego, ele perdeu a paciência enquanto perguntava o que tinha acontecido.".
"Você vai voltar??"
Não respondi nenhuma das mensagens.
Simplesmente me deitei na cama, bloqueei o celular e fui dormir.