Era uma noite agitada em um hotel cinco estrelas em Richmond, capital da Virginia.
Naquela noite, haviam alguns hóspedes ilustres pelo hotel, que participariam de uma conferência sobre um filme que lançaria na cidade.
Era fim da carreira de uma atriz renomeada da Itália.
A porta da área de serviços, foi aberta bruscamente; um homem, emanando superioridade, apontou o dedo para três camareiras que estavam descansando e as obrigou a se levantarem.
- Você, você e você! Venham comigo! – Disse o gerente, com arrogância, as apressando.
As meninas se entreolharam confusas e as seguiram de imediato. Elas sabiam que, não tinham o direito de recusar a ordem, pois precisavam muito daquele emprego.
O homem, então, as olhou enfurecido e logo deu sua ordem.
- Kate, você está responsável pela área da piscina. Consuelo, você cuidará dos corredores e lembre-se, nada pode estar sujo. Já você Cecília, o quarto principal é seu.
- Por que ela? – Cogitou Kate, torcendo os lábios.
- Porque, se você tivesse feito o seu trabalho direito, eu não teria que estar trocando toda equipe nesse momento. Por favor, apressem-se, uma celebridade está hospedada lá! – Respondeu Arnold, saindo em seguida.
As três meninas, entraram juntas no elevador indo até o último andar. Assim que as portas metálicas se abriram, Cecília saiu, sem olhar para trás.
Ela estava com pressa para cumprir sua obrigação e voltar logo para casa, para descansar. Já faziam mais de doze horas que ela estava trabalhando direto.
Cecília, passou o cartão de acesso na porta e entrou, se assustando com tamanha bagunça que encontrou na suíte. Haviam roupas jogadas pelo chão, garrafas de bebidas em cima da mesa, junto a restos de comidas e até mesmo sujeiras no carpete.
- Que sujeira! – Resmungou ela, respirando fundo pela exaustão.
Em seguida, Cecília foi direto para as portas de vidro da varanda, as abrindo para que o lugar ventilasse.
Ela se sentiu enojada pelo mau cheiro e desrespeito; como os ricos poderiam fingir ser educados perante as televisões, quando, na verdade, eles eram piores que porcos?
Esse era o pensamento de Cecília.
A garota, colocou seu par de luvas de borracha e abriu os sacos de lixo, limpando tudo o que havia de sujo no lugar. Ela já era acostumada com aquele tipo de trabalho, foi o que ela conseguiu depois da morte de sua avó e se dedicava a ele.
Cecília sempre sonhou em ter boas condições, para dar uma vida melhor para sua avó, por isso ela fazia o seu melhor em tudo o que conseguia. Pena que, a mais velha partiu antes da hora, também como os pais da garota.
Cecília olhou incrédula para aquela desordem e recolheu as roupas do chão, as dobrando e colocando em cima da cama. A hóspede daquele quarto não estava lá e provavelmente, voltaria em breve.
Ela, então, colocou seus fones de ouvido e começou a ouvir uma música animada, enquanto continuava com o trabalho.
Em menos de uma hora, Cecília já havia limpado os carpetes, as janelas, trocado os forros da cama, deixando apenas o banheiro para o final.
Cecília havia reparado que, os produtos de limpeza que ela havia levado já haviam acabado. Ela, então, decidiu sair para buscar mais, voltando em seguida e dessa vez com o carrinho de limpeza.
Assim que ela destravou a porta e entrou, alguém já estava a esperando.
- Senhora, me desculpa! – Disse Cecília, abaixando a cabeça.
Ela mal conseguiu ver o semblante da pessoa a sua frente, mas já tinha ouvido falar de que, se tratava de uma atriz italiana.
- É você! – Disse a mulher, com um tom esperançoso.
Quando Cecília ouviu o timbre de voz daquela mulher, levantou o rosto espantada. A impressão que ela teve, era que o eco de sua própria voz tivesse a atingido.
Ambas se olharam e se surpreenderam com o que viam. Era como se, elas estivessem em frente a um espelho vendo o próprio reflexo.
Elas eram idênticas, com diferença apenas, no tom do cabelo.
Cecília era magra e mediana; o corpo dela, era composto por curvas naturais e sob medida para a sua altura.
Já a mulher em sua frente, era na mesma altura, mas estava de saltos altos. Os cabelos dela eram laranja com lindas ondas e fios brilhantes. Também era nítido alguns pontos com silicones no corpo.
A vaidade estava estampada em cada pedaço do corpo da ruiva, enquanto Cecília, era percebível a sua humildade financeira.
- Eu estava te procurando! – Disse a ruiva, sorrindo.
Ela estendeu a mão e tentou quebrar o gelo, deixando um total espanto na mulher em sua frente.
- Sou Fiorella Scopelli e somos sósias. – Disse a ruiva, com um bom humor.
Cecília hesitou em tocar na mão da mulher a sua frente e então, deu alguns passos para trás.
A ruiva sorriu fraca e abaixou a mão, acompanhando Cecília com os olhos.
- Não se assuste, não somos uma pessoa estranha e eu estou aqui, para te fazer uma proposta. Uma na qual, vai mudar a sua vida! – Disse a ruiva, sorrindo animada.
- Senhora, me desculpa, mas eu estou aqui a trabalho. Eu não quero problemas! – Respondeu Cecília, se afastando.
Ela se abaixou para pegar os sacos de lixo e ao caminhar em direção à porta, Fiorella foi até lá e se encostou na mesma, impedindo que a loira saísse.
- Por favor, Cecília. Não teremos problemas se cooperar comigo! Ao menos escute o que tenho a dizer e eu te juro que, não que será para o seu bem. – Disse ela, de forma insistente.
- Senhorita Scopelli, eu realmente preciso terminar o meu trabalho logo. Eu não sei que loucura está acontecendo, mas não tenho tempo para isso. – Disse Cecília, fazendo menção de andar, mas Fiorella impediu novamente que a loira saísse.
- Por favor, eu não estou brincando e preciso que me ouça! – Disse a ruiva, vendo Cecília largar os sacos no chão e cruzar os braços para a encarar.
- Certo, você tem exatamente cinco minutos. Não me leve a mal, mas eu realmente preciso bater o meu horário.
- Tudo bem! – Respondeu Fiorella, concordando. - Serei breve, então. Eu te pago um milhão de dólares, para trocar de lugar comigo! – Disse a ruiva, fazendo Cecília rir.
A loira, passou os olhos em volta confirmando não haver câmeras no lugar e depois, encarou sua sósia, arqueando uma sobrancelha.
- Isso é algum show interativo? Alguma pegadinha? Por acaso, a senhora está fazendo algum filme desse tipo? Eu estou fora, isso nunca acaba bem. - Respondeu Cecília, voltando a pegar os lixos, mas Fiorella persistiu.
- Dois milhões e não se fale mais nisso! Eu pago, eu realmente irei te pagar. Só preciso que fique no meu lugar passando-se por mim durante um ano, tendo uma vida boa até lá. – Disse Fiorella, mostrando sua feição de desespero.
Ela respirou fundo e de forma desanimada, continuando a falar.
- Eu sei que você está devendo, sei tudo sobre você. Agiotas estão para vir até você e eles realmente podem ser perigosos. Aceite a minha proposta e vá para longe daqui ter uma vida boa em meu lugar! – Disse a ruiva, de forma convincente.
- O que eu terei que fazer? Somente embarcar? – Perguntou Cecília de forma confusa, a vendo confirmar.
- Você embarcará no meu lugar e quando chegar na Itália, a minha notícia sobre o rompimento do contrato já terá se espalhado. Minha família irá te buscar, para te manter em segurança e com isso, você não precisará mais se reocupar, pois terá de tudo.
- Eu vou pensar! – Respondeu Cecília, hesitante. Fiorella então, suspirou e desencostou da porta, olhando para Cecília com compaixão.
- Não pens demais! Aceite esse dinheiro e pague a dívida da sua família. Vá para outro lugar e comece de novo. Depois de um ano, você conseguirá o suficiente para voltar e ser dona de um ótimo negócio, eu te garanto!
- Como sabe da minha vida? Como chegou até mim? – Perguntou Cecília, confusa por estar diante de uma pessoa, que dizia conseguir mudar a vida dela.
Mas Cecília se perguntou, será que aquela mulher estava blefando?
- Isso não é importante. Do mesmo jeito que cheguei até você, outros podem fazer o mesmo. Aceite essa chance e suma. Enquanto você viver a sua vida de forma tranquila, irei cuidar do resto, mas para isso, somente você poderá me ajudar. – Disse Fiorella, percebendo faltar pouco para convencer a mulher em sua frente.
Cecília suspirou mostrando o seu cansaço e olhou para sua sósia, diretamente. Ela analisou bem aquelas palavras, pensando por si que, àquela talvez poderia ser a melhor oportunidade de sua vida.
- Eu irei pensar! – Respondeu Cecília, vendo o sorriso de Fiorella. A ruiva teve um bom pressentimento e por isso, foi inevitável esconder a satisfação da conquista.
Igreja de Gesu, Palermo, Sicília.
O lugar estava silencioso, já se passavam das duas da tarde, quando alguns passos pesados, foram ouvidos indo em direção ao confessionário.
Padre Guilhermo terceiro, estava dentro do oratório com suas atividades rotineiras, quando ouviu uma voz rouquenha e assustadora, através das grades de madeira.
- Padre, eu vim me confessar! – Disse um jovem, causando arrepios no senhor de bata. Ele se ajoelhou sobre uma almofada que havia no chão, repetindo a mesmas ações dos fervorosos fiéis, que procuravam limpar suas almas dos pecados cometidos.
O mais velho, respirou fundo e sem o olhar diretamente, entregou um envelope pardo, como haviam o ordenado que fizesse.
- Eu estava a sua espera! Diga filho, o que tanto te aflige? – Disse o padre, mostrando sua preocupação, porém, sua voz saiu trêmula.
Mesmo ele sendo um homem licenciado pela igreja para dar a absorção aos fiéis, ele também temia o jovem, que estava do lado de fora da grade de madeira.
- Me desculpe padre, mas se aqui tiver provas de que ela me traiu, eu mesmo a matarei! – Disse Hugo entre dentes, mostrando a sua fúria.
Hugo se levantou, agarrando fortemente o envelope entre seus dedos, mas antes de passar pela porta, ele ouviu o padre lhe dando a absorção.
- Nel nome del padre, del figlio e dello spirito santo. Possa Dio prendersi cura di quest'anima peccatrice. – Disse o padre o seu famoso bodão, fazendo o sinal da cruz.
Ele pedia para que Deus cuidasse da alma de Hugo, já manchada pelos pecados e sangue de muitos.
Hugo caminhou em passos firmes até a saída da capela, entrando em um Maserati, tendo um motorista o guiando apressadamente para longe dali.
Ele não disse nada, até que um de seus homens e braço direito, quebrasse todo o silêncio.
- E aí? Manteremos a missão? – Perguntou Luigi, estendendo a mão, recebendo o envelope.
- Cercatelo! – Disse Hugo, irritado, ordenando que procurassem sua esposa.
Hugo sentiu seu sangue ferver, ao abrir o envelope e ver sua esposa aos beijos com um homem americano na foto.
Ele é uma pessoa de sangue fria, que não mede esforços para se vingar.
Hugo havia dado todo luxo para Fiorella; até mesmo deixou que ela continuasse com sua carreira artística, permitindo que ela não abandonasse o trabalho que tanto dizia amar.
Mas uma coisa não era segredo para toda Sicília, ele não permitia traições e todos sabiam que, quem agisse de forma leviana com ele, não teria o direito clamar por segunda chance.
Esse seria o mesmo destino para Fiorella.
O carro foi indo com velocidade pela estrada, rumo ao mosteiro da cidade. Lá, era onde Hugo e seus capangas, faziam seus encontros frequentes, decidindo onde seria o próximo passo.
Assim que Hugo chegou com Luigi e Cristovam no mosteiro, oito de seus homens estavam nas ruínas o esperando.
Hugo se virou de costas para eles e levou as mãos até os bolsos da calça social justa, olhando para a paisagem que as montanhas o revelava.
Para Hugo, aquela imagem era seu ponto de equilíbrio em meio ao caos.
- Senhor Scopelli! – Chamou Romero, um dos informantes de Hugo, vendo o homem de postura ereta e personalidade fria, se virar lentamente para o olhar. - Ele é um fotógrafo particular da Senhora. Eles mantiveram encontros frequentes a três semanas diretas, desde sua viagem ao exterior.
- Mais alguma coisa sobre ela e esse "bastardo"? – Perguntou Hugo, voltando os olhos para as montanhas.
- Parece ser apenas um caso. Ele tem passagens marcadas para a Rússia, partirá ele e a esposa, cujo nome é Cecília Mantovanni, amanhã à noite. – Disse Romero, ouvindo um suspiro longo.
- E ela? O que achou sobre ela? – Perguntou Hugo, voltando a olhar seu informante.
- Senhor, o nome dela está registrado em uma passagem de volta, no voo americano, para amanhã as quinze horas. Ela está voltando, senhor!
- Rossi! – Chamou Hugo, vendo o homem ir apressado até ele, segundos depois.
- Sim senhor! – Respondeu um de seus funcionários de confiança.
- Peçam que organize a casa de Catânia, iremos receber a senhora Scopelli, com estilo! – Disse Hugo, com rispidez travando o maxilar. Ele exibia um olhar frio e gélido, fazendo com que todos em sua volta, amedrontassem.
- Sim senhor! – Respondeu o homem, saindo apressado, sendo acompanhado por mais alguns.
...
Hugo havia chegado em casa antes mesmo de escurecer e ao entrar com o carro pelos enormes portões de ferro, logo avistou Mirella e Cássia na varanda, cada uma com uma taça de vinho bordô.
- Querido, achei que não voltaria hoje. Como estão as coisas na cidade? – Perguntou Cássia, indo até o filho, o receber no início dos degraus da pequena escada.
- Estou cansado, podemos falar sobre isso depois? – Perguntou Hugo, subindo as escadas direto, abrindo em seguida as enormes portas de madeira da entrada.
- Onde está sua mulher, irmão? – Perguntou Mirella o provocando, antes mesmo que ele entrasse na mansão.
Hugo se virou para ela, exibindo seus olhos escurecidos.
- Ela está a caminho. – Disse Hugo, a respondendo com um timbre gélido.
- Ficamos sabendo que ela anunciou o fim da carreira publicamente. Ela realmente está bem em voltar? – Perguntou Cássia, desconfiando da situação.
- Por que não as perguntam diretamente, quando chegar? Eu estou cansado. - Disse ele friamente, as dando de costas em seguida.
Com isso, elas logo entenderam que, ele não estava para conversa e então o deixaram ir.
Hugo recusou o jantar e foi direto para seu antigo quarto. Ele morava naquela enorme mansão de paredes antigas, antes de se casar. Depois, ele e Fiorella, optaram por uma casa tradicional na cidade.
Ficar na casa da mãe às vezes era mais viável para ele, somente quando estava lá a negócios.
Hugo, era um dos homens mais respeitado e temido em toda Sicília.
O primeiro, foi seu pai, Giuseppe, antigo dono da cadeira de ouro da família Scopelli. Em seguida, veio seu tio Bernard e agora, era a vez dele, o terceiro homem que restou na família.
Hugo carregava o nome da família nas costas, dando continuidade ao trabalho de seus pais. Nada e nem ninguém na Sicília, sem a permissão de Hugo. Ele costumava dar liberdade aos negócios involuntários, desde que não fugissem de suas regras.
Era extremamente proibido o tráfego de menores e a omissão de ganhos sobre os negócios. Ele mais cobrava de casas de jogos e dívidas de agiotas.
Hugo também era um deles; o rigoroso chefe da máfia.
Ele não era de um tanto ruim, muitos o procuravam quando precisavam. A questão era quando faltavam com a palavra e fugiam dele, Hugo ia diretamente cobrar.
E era nesse momento, que diziam sobre ele não ter piedade e nem coração.
Mas essa, era uma frase dos endividados; já as mulheres, pensavam diferente. Elas costumavam fazer de tudo para ter uma oportunidade na cama do Homem.
Hugo além de ser um homem milionário e frio, também era dono de uma beleza comparada aos livros de mitologia grega.
O homem era alto e forte, dono de uma perfeita silhueta e aparência máscula. Ele tinha a pele não muito clara e os olhos eram verdes, como os de folhas frescas. Os cabelos eram curtos e a barba estava sempre bem-feita, mesmo sendo grande.
Ele tinha o hábito de se exercitar com frequência e também, de ter uma bela dama o acompanhando durante as noites. Isso começou, desde que sua esposa saiu da Itália, o deixando disponível para as mulheres.
Hugo não tinha o extinto de fidelidade, mas questionava a esposa e sempre a jurou castigar, caso descobrisse de algo.
Para homens com o poder que ele tinha, somente a opinião deles contava.
Hugo estava tão tomado de fúria, que sua vingança começou naquela mesma noite, quando uma de suas garotas entrou pelo quarto quase desnudas.
- Por que demorou? – Perguntou Hugo, entre dentes, vendo a mulher sorrir de forma lasciva.
Em silêncio, ela caminhou até ele, se desfazendo da fina camisola que a cobria. Hugo travou o maxilar e como um animal descontrolado, ele a jogou na cama, dando a ela uma noite quente de prazer.
Aeroporto Internacional de Richmond.
Cecília empurrava sua mala pelo saguão, acompanhada por uma e mais dois seguranças. Ela se sentiu insegura, pois havia pensado que, Fiorella iria até lá , mas não a viu.
Eles entraram juntos no avião e foram todos se acomodarem em seus assentos. Assim que Cecília passou os olhos pelo lugar, se encantou com a vista.
- Eu só vi um desses pela televisão! – Cochichou Cecília, para a manager de Fiorella, que estava bem ao seu lado. - Acha mesmo que isso vai dar certo?
- Você já se olhou no espelho? As chances de isso dar errado, são nulas. – Respondeu, a italiana, tirando um pó compacto da bolsa, passando em Cecília. - Só preciso esconder essas sardas.
Assim que Beneditte disse aquilo, a primeira atitude de Cecília foi levar as mãos no rosto, para as esconder.
A italiana riu da atitude da garota e voltou a se encostar em sua poltrona.
- É, acho que não será fácil. Você é o oposto dela. – Resmungou Beneditte, suspirando fundo, continuando a falar em seguida. - Lembre-se, sorrir sempre e sem doçura., mostrando autoridade. Não deixem que te vejam nua, a final, você é mais magra.
- Pode deixar. A partir de agora, serei Fiorella Scopelli! – Disse Cecília, respirando fundo.
- Não! A partir de agora, você será a senhora Scopelli e não Fiorella. Ela usava o primeiro nome apenas como meio artístico. – Respondeu Beneditte, olhando fixamente para Cecília, que prendeu a respiração ao sentir uma enorme pressão nos ouvidos.
Aquela era a primeira vez que Cecília estava em um avião.
Fiorella havia cuidado de todos os detalhes sorrateiramente; para que aquela viagem acontecesse.
Quando Cecília concordou, ela não sabia, mas seus dados já haviam sido roubados por Fiorella, que agiu meticulosamente contra ela.
Fiorella comprou uma passagem para a Rússia no nome da então garota, com Ronald, amante de Fiorella. Ela agendou, em seguida, um voo de volta para Itália em seu próprio nome. Dessa forma, Hugo não desconfiaria.
Cecília estava realmente integrada ao personagem; os cabelos estavam ondulados e com um laranja vivo. Os olhos azuis brilhantes, foram necessários ser tampados por uma lente acinzentada, apenas para diminuir o brilho.
Foi Fiorella quem cuidou desses detalhes também.
Só tinha um problema; Cecília tinha lindas sardas no rosto. Graças a maquiagem que Fiorella usava, nunca foram vistas uma se quer.
Ela tinha um certo preconceito com sua aparência e algumas coisas, Fiorella resolveu cirurgicamente. Até mesmo ela, invejou o corpo de Cecília, quando a viu nua.
Ela sabia que, a garota que ocuparia seu lugar, tinha uma aparência sexy e pura, da forma que deixaria todos encantados, principalmente Hugo.
Mas a partir daquele momento, o eu Hugo fizer com Cecília não era problema mais dela, a final, ela achou justo a garota ser entregue de bandeja, já que viveria com ele.
Não se tem uma vida boa, sem sacrifícios; pensou Fiorella, antes de sair do salão sem se despedir.
No avião, já haviam se passado bastante tempo. Cecília ouviu com atenção, tudo o que Beneditte havia dito. Ela foi ensinada sobre como deveria andar, assistiu a alguns vídeos de Fiorella desfilando no tapete vermelho e até mesmo sobre a forma de como a artista italiana tratava as pessoas.
Ela, também, aprendeu sobre o nome e personalidade de cada parente. Dos que Fiorella gostava e sobre as que ela não suportava; como Mirella e Cássia.
Beneditte também, mostrou fotos da casa, das estilistas particulares e até mesmo sobre o amigo gay, que arrumava o cabelo de Fiorella com frequência.
Cecília se intrigou e sorriu, deixando sua companheira confusa; ela pensou que, toda a personalidade que ela detestava, estava vendo diante de seus olhos, em uma gêmea.
Depois de tantas horas estudando, eles se alimentaram e Cecília acabou pegando no sono. Ela teve os eletrônicos trocados e cada último detalhe estava sendo cuidado por Beneditte, já que estavam se aproximando de seu destino.
Aeroporto de Palermo, 10:00 AM.
Assim que chegaram na Itália, Cecília sentiu-se desconfortável. O fuso horário havia arrancado seis horas de seu dia e parecia surreal para ela.
Antes de desembarcarem, Beneditte deu seus últimos retoques, colocando máscaras, goro e até mesmo touca nos cabelos. Ela havia informado sobre uma possível confusão no aeroporto, já que Fiorella causou isso, para saber se ela chegaria na Itália como haviam combinado.
Claro que, a desculpa seria o fim da turnê, da estrela revelação de toda Sicília.
- Fiorella, preciso te contar uma coisa. – Disse Beneditte, terminando com os últimos detalhes. - Não fique brava comigo, mas eu só poderia te contar quando chegássemos aqui.
- O que foi? Eu por acaso serei vendida para um traficante? – Perguntou Cecília, assustada. - Eu tenho hepatite e meu fígado já está quase acabado.
A italiana sorriu, ao ouvir aquilo. Ela pensou até em ajudar Cecília, pois havia cuidado dela.
- Você é casada. – Disse Beneditte, prendendo os olhos por lamentação.
- Eu sei. E ele é bem bonito! – Respondeu Cecília com humor, fazendo a italiana abrir os olhos assustada.
- Você sabia? – Perguntou Beneditte, espantada.
- Achei as fotos no celular dela. Bom, acho que precisamos ir, não é? – Disse Cecília, já entrando no personagem. Ela foi na frente e os seguranças carregaram todas as malas da mulher, indo atrás dela em seguida.
Assim que Cecília desceu as escadas, ela sentiu um arrepio em sua pele, ao ver um homem parado em sua frente, com uma expressão séria.
Era como se ela estivesse em um dos filmes que gostava de assistir aos finais de semana, sobre máfias e gângster; mas sem fugir da realidade, pois Cecília sabia que na realidade era diferente das ilusões da televisão.
O homem dava dois de Cecília; ele usava um terno cinza que realçava seu corpo e que por falar nisso, foi uma das coisas que mais chamou a atenção em Cecília.
Ele era forte, de ombros largos, pernas e cochas torneadas e tinha um belo traseiro.
Quando ela subiu os olhos, não dava para ver seus olhos através dos óculos escuros, mas ela viu que ele tinha uma linda silhueta.
Cecília suspirou e logo se aproximou, vendo um lindo sorriso nos lábios do homem.
- Como foi a viagem, senhora? – Perguntou o homem, abrindo os braços.
- Foi bem querid... - Antes que ela respondesse, Beneditte a cutucou e cochichou.
- Esse é o primo. Ele é chamado assim, porque é o braço direito do seu marido. Chame-o de Ítalo. – Disse a italiana em um tom baixo, apontando em outra direção. - Aquele é seu marido.
Quando Cecília se virou, se espantou com a cena; um homem, de terno grafite, com o corpo duas vezes mais robusto que ítalo, se aproximava.
Dava para sentir o poder a quilômetros, Hugo estava indo na direção de Cecília, acompanhado por mais três homens bem vestidos.
Ele arrancaria suspiros de todos ali, se não conhecessem a fria personalidade do homem, junto a sua péssima reputação. Só que isso, não tirava os traços atraentes do homem.
A aparência dele, era melhor do que a de Ítalo; o chefe deles, tinha mais pernas e braços, era mais robusto e tinha uma áurea negra. Um olhar de Hugo, já era o suficiente para que muitos se sentissem intimidados; menos Fiorella.
- Primo! – Disse Hugo, deixando seus homens e caminhando até a nova Fiorella. Ele estranhou, sua esposa não sorrir e o cumprimentar como sempre e então, ele travou o maxilar, tirando os óculos em seguida.
- "Mia Moglie" como foi a viagem? – Perguntou Hugo, encarando a ruiva de cima a baixo, notando algumas diferenças no corpo dela. Ele achou que, a esposa estava mais magra do que o costume e também abatida.
- Senhor Scopelli! – Respondeu ela em um tom frio, agradando ao homem em sua frente. Ela o olhava nos olhos e ao invés de sentir medo, Cecília se encantou com a beleza dele.
Ela não deveria julgar o livro pela capa!
Hugo a abraçou e depositou um beijo no topo da cabeça dela, inalando o perfume de seus cabelos. Não tinha amor ali, mas ele ainda teria que encenar, para que ninguém percebesse sua fúria.
- Espero que tenha descansado e aproveitado bastante, porque a partir de agora, não terá um dia de paz. – Cochichou Hugo, fazendo com que o corpo todo de Cecília se estremecesse.
Naquele momento, ela entendeu o porquê de Fiorella ter escondido sobre o marido. Ele parecia um homem perverso, mesmo encenando o contrário.
Hugo deu de costas e ao perceber que sua esposa não o seguia, ele a olhou por cima do ombro e sorriu para ela.
- Vamos, tenho uma surpresa para você. Aposto que está ansiosa para chegar em casa!