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Desejo Súbito

Desejo Súbito

Autor:: Tatiana Bezerra
Gênero: Romance
"Desejo Súbito" mergulha nas reviravoltas intensas da vida de Rafaela, filha de um respeitado chefe de investigações, cuja existência é drasticamente transformada pela misteriosa morte de seu pai em um acidente de carro. Com sua mãe em coma, decorrente do mesmo incidente, as suspeitas de um crime premeditado pairam sobre a tragédia, instigando Rafaela a buscar uma válvula de escape em uma jornada em direção ao desconhecido, ansiosa por recomeçar. Nesse caminho inesperado, Rafaela cruza destinos com Gael, um ex-mafioso que deixou para trás um passado sombrio para se tornar um CEO de sucesso na indústria hoteleira. Quando uma tentativa de abuso resulta em tragédia, Rafaela se vê envolvida em um turbilhão de segredos, vinganças e paixões proibidas. Gael, impulsionado pela descoberta de que o irmão de Rafaela está vinculado à morte de seu próprio pai, inicia uma perigosa busca por retaliação. No entanto, suas intenções se desviam ao se deparar com uma atração irresistível por Rafaela. O que começa como um jogo perigoso de sedução rapidamente se transforma em um romance ardente e proibido. No epicentro de suas vidas tumultuadas, Rafaela e Gael enfrentam obstáculos inesperados, navegando por uma teia intrincada de conspirações, traições e revelações surpreendentes. Descobrirão que o amor verdadeiro pode surgir nos lugares mais inusitados, desafiando as expectativas e lançando luz sobre um futuro incerto. "Desejo Súbito" é uma narrativa envolvente que explora a força do amor diante das complexidades do passado, desvendando os mistérios da vida e do coração.

Capítulo 1 Destino: Sorte ou azar (Parte 1)

RAFAELA

Mais um feriado de Corpus Christi desenrolava-se, e celebrar esse dia com toda a família reunida já era um ritual estabelecido. Contudo, de maneira abrupta, tudo mudou. Aquela data se tornou uma das piores da minha vida, e, sinceramente, eu não sabia como superaria a perda do meu pai. Quem poderia imaginar que o perderia em um terrível acidente de carro? Desolada, retornei para casa após o ato fúnebre. "Sem dúvidas, o funeral dele ficará marcado para sempre na minha memória!", ponderava. A imagem do caixão descendo à terra me atormentava, um peso esmagador no meu peito. A polícia suspeitava que aquele misterioso acidente tinha motivações criminosas, iniciando uma investigação para verificar a fundação dessa teoria. Eu acreditava firmemente que os investigadores estavam certos. Certamente, aquele acidente poderia ter sido criminoso, dado o fato de meu pai ser um excelente motorista, incapaz de perder facilmente o controle do carro. Talvez sua posição poderosa como chefe do departamento de investigação da polícia federal tenha contribuído para a tragédia. "Tenho certeza que esse cargo pode ter levado meu pai à morte!", pensei, enquanto lágrimas quentes rolavam pelo meu rosto. Ele havia feito muitos inimigos ao longo dos anos, pessoas dispostas a qualquer coisa para calá-lo. Minha mãe também estava no carro e, felizmente, sobreviveu, mas estava internada em coma fisiológico. O médico mencionou que a pancada que ela levou na cabeça quase foi fatal. Ela ainda não sabia que havia perdido o homem que mais amava.

A cada visita ao hospital, meu coração se apertava. Observava sua figura frágil na cama, rodeada por máquinas que a mantinham viva, e desejava poder trocá-la de lugar. A casa, antes cheia de risos e conversas, agora estava mergulhada em um silêncio ensurdecedor. Fotos da nossa família feliz olhavam para mim das paredes, cada uma trazendo uma onda de memórias dolorosas. Precisava ser forte, não só por mim, mas pela minha mãe, que precisaria de mim quando acordasse. As lembranças do último feriado de Corpus Christi pareciam agora uma cruel ironia. Naquele dia, a cidade estava vestida de cores vibrantes e celebrações, mas agora, tudo se tingia de um cinza sombrio e pesado. Enquanto eu tentava lidar com a dor esmagadora da perda, as perguntas sobre as circunstâncias do acidente pesavam incessantemente em minha mente, como um fantasma que se recusava a ser exorcizado. Cada detalhe do funeral estava gravado em minha memória, desde as condolências dos amigos, carregadas de pesar e empatia, até o som solene e ritmado dos passos dos carregadores de caixão, que parecia marcar o batimento de um coração partido.

A incerteza sobre a natureza do acidente apenas intensificava minha angústia, como uma ferida que não parava de sangrar. Eu me encontrava mergulhada em um turbilhão de emoções, uma montanha-russa sem fim de dor, raiva e incredulidade, lutando para aceitar que o meu pai, um homem íntegro e dedicado à justiça, havia sido tirado de nós de maneira tão abrupta e inexplicável. Ele era o pilar da nossa família, a rocha sobre a qual nos apoiávamos, e sua ausência era um abismo que eu não sabia como atravessar. Enquanto aguardava notícias sobre a investigação policial, que se arrastava como uma eternidade, eu me via revivendo os momentos felizes que compartilhamos como família. As risadas durante os jantares, os conselhos sábios que ele sempre tinha na ponta da língua, os abraços calorosos que agora pareciam tão distantes. Cada lembrança era uma faca de dois gumes, trazendo tanto conforto quanto dor. Minha mãe, ferida pelo acidente, lutava pela própria recuperação, e eu estava ciente que ela dependia de mim mais do que nunca. O peso da responsabilidade recaía sobre meus ombros, um fardo que eu carregava com dificuldade, mas também com determinação. Eu me via confrontada não apenas com a perda irreparável, mas também com o desafio de manter as forças intactas diante daquela circunstância. No silêncio da noite, quando tudo parecia mais escuro e a ausência dele mais palpável, eu jurava a mim mesma que encontraria respostas, que descobriria a verdade sobre o que realmente aconteceu.

E, de alguma forma, encontrar a paz que parecia tão inalcançável naquele momento. A partir daquele dia, éramos apenas eu e meu irmão Guilherme. Com vinte e seis anos, ele sempre foi uma figura misteriosa, mas ainda assim, um bom irmão. Embora não fôssemos muito próximos, ele era o único familiar que me restava. Seu pior defeito sempre foi querer ser protetor além do limite, mas eu não o julgava, considerando sua posição como o mais velho. Naquele momento, ele era meu único apoio. Descobri recentemente que Guilherme seguia os passos de nosso pai, trabalhando para a polícia federal. Ele pensava que eu não sabia, e eu preferia que continuasse assim. Nunca concordei com seu envolvimento no mundo da investigação, especialmente porque antes da morte de nosso pai, nossa família sofria constantes ameaças. No entanto, Guilherme já era um homem adulto, e eu respeitava suas escolhas.

Após a morte de nosso pai, Maia, noiva de Guilherme, iria morar conosco, oferecendo apoio emocional. A presença dela trouxe um novo calor à casa que antes parecia vazia e silenciosa. Sentia-me grata por tê-la por perto, mesmo que a sombra dos perigos que nosso pai enfrentava pesasse sobre mim. Eu me sentia perdida, parada no tempo, sem saber o que o futuro me reservava. Dias e noites de angústia se sucediam, chorava em um profundo silêncio. Somente eu sabia a magnitude da dor que sentia. Não seria uma tarefa fácil, pois nunca tinha ficado longe dos meus pais por muito tempo. Estava acostumada a não ter Guilherme por perto, pois ele nunca tinha o costume de permanecer em casa. Sua presença era estranha quando decidia voltar. As paredes da casa pareciam ecoar com a ausência do riso de meu pai e dos passos animados de minha mãe.

O ambiente que antes irradiava calor e segurança agora se tornava uma sombra de lembranças felizes. Guilherme, mergulhado em sua própria dor, tornou-se mais reservado do que nunca. Seus olhos, outrora cheios de determinação, agora refletiam uma tristeza profunda. Eu podia sentir que, assim como eu, ele carregava o peso da incerteza sobre a morte de nosso pai. Em meio a esse turbilhão emocional, a presença de Maia trazia uma sensação de normalidade à casa. Seu cuidado e compreensão suavizavam um pouco a dor que todos compartilhávamos. No entanto, a sombra da investigação pesava sobre nós, e eu não conseguia ignorar a ansiedade que crescia cada vez que Guilherme saía para cumprir seus deveres profissionais. Ainda assim, éramos uma família ferida, mas unida pela tragédia. O futuro permanecia incerto, e eu, mesmo perdida em meu próprio luto, estava determinada a tentar sobreviver à minha tormenta. A jornada seria difícil, mas eu encontraria forças onde pudesse para enfrentar os desafios que estavam por vir.

Dois meses após o funeral...

Dois meses haviam se passado desde que perdi meu pai. A dor ainda era profunda, uma ferida aberta que parecia nunca cicatrizar completamente. Às vezes, mal conseguia sair da cama, envolvida pela tristeza que me consumia. Minha mãe continuava internada, sua figura frágil na cama de hospital era uma tristeza constante que eu relutava em enfrentar. As poucas vezes que reuni coragem para vê-la naquela situação foram angustiantes. Um dia, o neurocirurgião responsável pelo seu caso veio até mim, percebendo meu estado de pânico.

- Olá, Rafaela. Fique tranquila, logo ela acordará! - Ele sentou ao meu lado, tentando me confortar.

- Você pode me garantir isso? Já perdi meu pai, não sei se tenho estrutura para suportar mais uma perda! - Minhas lágrimas escorriam livremente pelo rosto.

- Eu não diria para você ficar tranquila se não soubesse que ela vai acordar. No entanto, não posso precisar o dia e a hora. Pode ser amanhã ou daqui a um ano. - Ele tentou explicar com calma. - Recomendo que não venha vê-la com tanta frequência, isso está afetando você negativamente. Prometo ligar assim que ela acordar. Tente mudar um pouco sua rotina, busque distrações.

- Distrações? Como posso fazer isso? - Suspirei, sentindo-me perdida.

- Seja criativa. Encontre algo que te faça bem. - Ele se levantou e saiu do quarto.

As palavras do médico ecoaram na minha mente enquanto eu contemplava o vazio. A ideia de me distrair parecia impossível diante da intensidade da minha dor. No entanto, aos poucos, comecei a considerar suas palavras. Talvez encontrar algo que me proporcionasse um alívio temporário fosse possível. Num lampejo, sentei-me na beira da cama, permanecendo por mais algum tempo ao lado da minha mãe antes de decidir que era hora de ir embora. Naquela manhã de segunda-feira, após retornar da visita ao hospital, fui direto para casa. Ao entrar no meu quarto, deitei-me e cobri minha cabeça com o edredom, mergulhada em pensamentos.

- Estou decidida! - Exclamei em voz alta para mim mesma. - O médico está certo; preciso mudar minha rotina. Não posso mais ficar trancada no quarto o dia todo, correndo o risco de cair em depressão.

Levantei-me da cama com determinação, olhei no espelho e passei um batom clarinho. Desci as escadas com passos decididos e fui até a cozinha para tomar o café da manhã. Servi-me com um copo de leite gelado e observei o jornal do dia sobre a bancada. Peguei o mesmo para dar uma olhada, sentei-me à mesa, cortei um pedaço de bolo de chocolate e comecei a folhear as páginas. Distraída com algumas fofocas das celebridades locais, meus olhos atentos pararam na sessão de vagas de emprego. Ao percorrer as opções disponíveis, deparei-me com uma que me interessou bastante; o anúncio dizia: "Contrata-se acompanhante." Sem experiência anterior, pensei que cuidar de um idoso não seria difícil. "É provável que precise dar banho, alimentar e fazer companhia até que algum familiar chegue!", pensei, sentindo uma pontada de nervosismo e empolgação ao mesmo tempo. Mal terminei de comer, peguei minha bolsa e já estava prestes a chegar à porta quando a voz do Guilherme me interrompeu:

- Aonde você vai? - Ele perguntou, curioso.

- Vou ver uma vaga de emprego! - Tentei ser breve.

- Vou levar você; depois do que aconteceu com o nosso pai, não quero que fique andando sozinha por aí! Seu "modo super irmão" foi ativado. Após a morte do nosso pai, Guilherme ficou protetor além do necessário, o que estava me irritando.

- Certo, então vamos logo, não quero me atrasar! - Revirei os olhos, tentando disfarçar meu desconforto por seu cuidado excessivo.

- O correto seria você ficar em casa. O dinheiro que nosso pai deixou é suficiente para nós! - Ele tentou me convencer a desistir, mas eu já sabia que ele não concordaria.

- É mesmo, querido irmão? E por que você continua tentando entrar para o departamento de investigação? O que nosso pai deixou não é suficiente? - Perguntei com ironia, vendo sua expressão se contrair de irritação.

- Não misture as coisas, Rafa. Minha situação é complicada e delicada! - Ele respondeu com as sobrancelhas franzidas.

- Isso é sério, Gui? Eu não vou discutir agora; preciso me distrair e quero muito essa vaga. Vamos logo ou irei sozinha! - Decidi, abrindo a porta de casa para sair.

Percebendo que poderíamos passar o dia discutindo, ele soltou um longo suspiro de desapontamento, não insistiu mais e simplesmente pegou as chaves do carro, dirigindo em silêncio até o local desejado. O ambiente no carro estava tenso, com sentimentos não ditos pesando sobre nós. Cada rua percorrida parecia uma extensão da distância emocional que se formava entre mim e meu irmão. O luto e a frustração permeavam o ar, e o silêncio entre nós era tão denso quanto a tristeza compartilhada.

***

Ao chegar no local indicado no anúncio, senti uma certa desconfiança. Esperava encontrar o endereço de uma casa comum, mas diante de mim havia um imenso galpão. O clima era sombrio e pesado, as sombras das árvores dançavam ao ritmo do vento, criando um cenário quase assustador. Gui estacionou o veículo e me analisou com olhos que refletiam a mesma apreensão que eu sentia. Antes que ele tentasse me convencer a desistir, abri a porta do carro rapidamente, sentindo o frio do metal na palma da mão.

- Ei, pode ficar esperando aqui. Não preciso que me acompanhe! - Disse, tentando manter a calma enquanto apoiava-me na janela para trocar algumas palavras.

- Certo, vai lá, mas se demorar muito, vou atrás de você! - Respondeu, com um tom ameaçador na voz que me fez engolir seco.

Revirei os olhos e caminhei em direção à porta de entrada. A cada passo, o som das minhas botas ecoava pelo espaço vazio, aumentando a tensão que sentia. Ao empurrar a porta pesada, fui recebida por um ambiente estranhamente acolhedor, contrastando com o exterior. Uma mulher de cerca de cinquenta anos, com um sorriso que não chegava aos olhos, aproximou-se. Seu cabelo grisalho estava bem arrumado, e suas roupas indicavam uma certa formalidade.

- Em que posso ser útil, querida? - Perguntou ela, com um tom simpático que me fez sentir um pouco mais à vontade.

- Oi, meu nome é Rafaela Oliveira! Vim pela vaga de acompanhante! - Expliquei, e percebi seu olhar se intensificando enquanto me observava atentamente.

- Tem certeza disso? Você é tão jovem e bonita! - Sua surpresa era evidente, e aquelas palavras me deixaram um tanto confusa, como se houvesse algo que eu não soubesse.

Antes que eu pudesse responder, ela continuou:

- Vou anunciar ao senhor Ortega da sua presença! - Disse, retirando-se com passos firmes, deixando-me sozinha na recepção. O ambiente silencioso só aumentava minha curiosidade e nervosismo sobre quem seria o tal senhor Ortega e que tipo de lugar era aquele.

A espera parecia eterna. Cada segundo passava arrastado, enquanto eu observava cada detalhe ao meu redor. Quadros antigos adornavam as paredes, retratando cenas que pareciam sair de outra época. A ansiedade crescia em meu peito, misturada com a expectativa e o medo do desconhecido. Apesar de não ter sido convidada a me sentar, acabei escolhendo uma poltrona confortável e peguei uma revista para folhear. As páginas brilhantes e cheias de imagens não conseguiam prender minha atenção, a curiosidade e a ansiedade falavam mais alto. Levantei-me, incapaz de conter minha inquietação, e comecei a explorar a área de entrada. Uma prateleira chamou minha atenção; ao invés de fotos, os porta-retratos exibiam documentos misteriosos. Peguei um deles, tentando entender o que significavam, mas fui obrigada a colocá-lo de volta ao ouvir a voz da senhora.

- Querida? Por favor, me acompanhe. O senhor Ortega irá lhe atender! - Sua voz suave era quase hipnótica, e eu a segui automaticamente. Ela abriu uma porta imponente, me pediu para entrar e se retirou silenciosamente.

Encontrei-me numa sala pouco iluminada, onde o silêncio era quase tangível. As sombras dançavam nas paredes, criando uma atmosfera inquietante. De repente, uma voz masculina rompeu a quietude.

- Por favor, sente-se. Qual é seu nome e idade, querida? - Perguntou a voz, ainda sem rosto.

Por um momento, procurei a origem daquela voz, até que percebi uma figura sombria no fundo da sala. Meu instinto aguçado me alertava que aquela sombra me observava com intensidade. Cautelosamente, me sentei e respondi à pergunta:

- Meu nome é Rafaela Oliveira, tenho vinte e três anos.

A sombra permaneceu imóvel por um instante, mas a voz continuou:

- Hum, Oliveira? Você tem algum parentesco com José Alberto Oliveira? - A menção ao nome do meu pai fez meu coração disparar, e vi a sombra se mover lentamente, caminhando em minha direção.

- Sim, ele era meu pai! - Respondi, tentando manter a calma enquanto observava a silhueta que se aproximava.

À medida que a figura se aproximava, comecei a distinguir seus traços. Ele era alto, com um rosto marcado pelo tempo e pelos segredos que parecia guardar. Seus olhos penetrantes fixaram-se nos meus, e senti um arrepio percorrer minha espinha. Seus cabelos eram brancos, feitos de bolinhas de algodão, e ele possuía um sotaque diferente de todos que eu já havia escutado.

- Oh, sinto muito pela sua perda. Seu pai foi um grande homem! - Pigarreou, sua voz carregada de uma emoção contida. - Sou Antonio Ortega. Você é uma jovem muito bonita, vou adorar ficar com você, querida! - Seus olhos percorreram-me de cima a baixo, e senti um calafrio.

- Como assim ficar comigo? - Perguntei, extremamente confusa, tentando entender o que ele realmente queria dizer.

O silêncio voltou a preencher a sala, enquanto a sombra de Ortega pairava sobre mim, como se estivesse pesando minha alma, avaliando minha coragem e determinação. Meu coração batia descompassado, e a curiosidade se transformava em um misto de medo e excitação. Estava prestes a descobrir os segredos que aquele lugar guardava, e sabia que não havia como voltar atrás.

- Você será minha acompanhante de luxo! Pagarei por horas trabalhadas e, se me deixar fazer tudo que quero, pagarei em dobro! - Seus olhos brilharam com uma empolgação inquietante, e um longo sorriso se formou nos seus lábios. Meu estômago revirou ao ouvir suas palavras.

"Acompanhante de luxo? Deixar ele fazer tudo que quer? Me pagar em dobro? Será que ele está pensando que sou uma garota de programa?" Pensei, enquanto tentava manter a compostura.

- Desculpe-me, senhor Ortega, mas acho que houve um grande mal-entendido. - Expliquei, tentando controlar o tremor na minha voz.

Ortega deu uma risada baixa, um som que reverberou pela sala como um trovão distante.

- Eu não estou aqui para esse tipo de trabalho. Pensei que a vaga fosse para cuidar de um idoso. Peço desculpas pela confusão que fiz! - Levantei-me e comecei a caminhar até a porta.

O homem se moveu rapidamente, bloqueando a passagem antes que eu pudesse alcançá-la. Seus olhos escureceram e ele segurou meus braços com uma força surpreendente. Tentei me soltar, mas apesar da idade, ele era bastante forte. O desespero tomou conta de mim quando percebi suas intenções. Ele desceu uma das mãos, tentando levantar meu vestido, enquanto tentava me beijar à força.

- O que pensa que está fazendo? Tire as suas mãos de mim! - Tentei empurrá-lo, mas fui impedida por suas mãos fortes. Em um gesto bruto, ele me empurrou e eu caí no chão. Rapidamente, suas mãos agarraram-se aos meus cabelos, arrastando-me para o fundo da sala. - Socorro, alguém me ajude! - Gritei inúmeras vezes, mas minha voz parecia ser engolida pelo silêncio pesado da sala. - Me solta, pelo amor de Deus! - Implorei, enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto. Ele fingiu não ouvir, ignorando meus gritos e súplicas.

"Meu Deus, esse nojento não pode fazer isso comigo! Não posso permitir que isso aconteça!" Pensei, envolvida em um completo desespero. O medo e a raiva se misturaram dentro de mim, e senti uma força inesperada crescer em meu interior.

Com um movimento rápido, aproveitei um momento de distração dele e mordi sua mão com toda a força que consegui reunir. Ortega gritou de dor, afrouxando o aperto em meus cabelos. Aproveitei a oportunidade e me levantei, correndo em direção à porta. Meus dedos tremiam enquanto tentava girar a maçaneta. Atrás de mim, ouvi os passos pesados de Ortega se aproximando novamente. Mais uma vez ele me agarrou pelos cabelos, me puxando com brutalidade. A dor era lancinante, mas uma nova onda de adrenalina correu pelo meu corpo, e soltei um grito de socorro que parecia ecoar mais alto, rompendo o silêncio opressivo do galpão.

- Socorro! Por favor, alguém me ajude! - Berrei com todas as minhas forças, ansiando profundamente que alguém ouvisse e viesse em meu auxílio. A situação tornava-se desesperadora, e por uma fração de segundos, minha mente se voltou para meu irmão, que aguardava do lado de fora do galpão.

"Será que ele me ouviu? Estará estranhando minha demora?" ponderava, enquanto a angústia tomava conta de mim.

De repente, um estrondo ensurdecedor ecoou da porta. O barulho, impactante, reverberou pelo ambiente. Enquanto era lançada para um canto qualquer, pude vislumbrar a silhueta de meu irmão adentrando a sala. Tudo parecia transcorrer em câmera lenta. Ortega tentou alcançar uma arma escondida na mesa, mas Guilherme foi incrivelmente ágil, disparando duas vezes contra ele. O som dos tiros era surreal, como se estivesse ocorrendo em um pesadelo. Ortega cambaleou, seus olhos arregalados de surpresa e dor. Em um movimento lento e quase teatral, ele deslizou até o chão, formando uma imensa poça de sangue ao seu redor. O cheiro metálico do sangue misturou-se ao ar, tornando a cena ainda mais perturbadora. Permaneci estática, em choque, minha mente à beira da insanidade ao compreender o que havia acabado de ocorrer. Guilherme correu até mim, seu rosto uma máscara de preocupação e alívio.

- Rafa, você está bem? - Ele perguntou, a voz tremendo.

- Eu... eu acho que sim... - Respondi, minha voz mal saindo. Os olhos fixos no corpo sem vida de Ortega, a cena gravada na minha memória para sempre.

Guilherme me puxou para cima, me abraçando com força.

- Vamos sair daqui, agora! - Ele disse, me guiando rapidamente para fora do galpão.

Do lado de fora, o ar fresco do dia parecia surreal depois do horror que eu havia acabado de vivenciar. Gui me ajudou a entrar no carro, e nós partimos rapidamente, deixando para trás aquele lugar de pesadelo.

Enquanto o carro avançava pela estrada deserta, as luzes da cidade surgindo ao longe, eu sabia que minha vida nunca mais seria a mesma. A experiência havia me transformado, trazendo à tona uma força e uma determinação que eu não sabia que possuía. As mãos de Guilherme tremiam, e eu podia escutar sua respiração entrecortada à distância. Após dirigir por um tempo, ele parou o carro no acostamento de uma rodovia e respirou fundo.

"Meu Deus, era apenas uma entrevista de emprego! Como isso se transformou abruptamente em um assassinato?" Refleti, mantendo-me paralisada. As imagens do ocorrido passavam em minha mente como um filme de terror, e a realidade do que havia acontecido começava a se infiltrar em minha consciência, deixando-me cada vez mais assustada.

- Gui, você enlouqueceu? Você matou um homem! - Arregalei os olhos, fora de mim e incapaz de controlar as emoções.

- Ele estava tentando algo contra você, o que queria que eu fizesse? Escutei seus gritos e entrei na sala para ver o que acontecia. Quando vi ele em cima de você, acabei enlouquecendo! - Guilherme saltou do carro e andou de um lado para o outro, eu desci logo atrás dele. - Ele queria pegar uma arma, tive que atirar. Era eu ou ele, não tive escolhas! - Colocou as mãos sobre a cabeça, e eu sabia que ele tinha razão. Ele apenas me defendeu.

Capítulo 2 Destino: Sorte ou azar (Parte 2)

RAFAELA

A mão gelada de Guilherme segurou forte na minha e ele me colocou novamente no veículo. Eu ainda me sentia estranha, completamente anestesiada. Nunca tinha presenciado a morte de alguém antes. "Parece um pesadelo", pensei. Assim que Guilherme se sentou no banco do motorista, rapidamente percebi sua inquietação. Ele virou-se para mim, segurando firme no meu rosto:

- Rafaela, olhe pra mim. Tudo vai ficar bem, você vai ficar bem! - Ele se mostrou atencioso, mas eu não conseguia responder a ele. - Droga, aquele desgraçado certamente tem alguns familiares na máfia mexicana! Vi o sobrenome Ortega em um diploma na prateleira da recepção, e esse sobrenome ficou martelando na minha mente. Agora me lembrei; eles são bastante conhecidos no mundo da máfia. Já ouvi muitas coisas obscuras sobre eles no departamento! - Ele explicou, e notei uma grande preocupação em sua expressão.

- Meu Deus, a mulher! Ela sabe o meu nome; eu disse quando cheguei. Vão descobrir que fomos nós, Gui!

A expressão de Guilherme ficou ainda mais tensa. Ele olhou fixamente para a estrada à frente, como se buscasse uma solução no horizonte.

- Não se apavore. Você não fez nada; fui eu que fiz! Se tiverem que procurar por alguém, virão atrás de mim! - Ele permaneceu estático, notavelmente calmo, enquanto eu estava incapaz de raciocinar direito, sentindo-me à beira de um colapso.

- Eu não posso te perder, Gui. Com a mamãe no hospital, você é tudo que tenho agora! - Sussurrei com a voz embargada, e ele me deu um abraço forte, que parecia um abraço de despedida.

- Mantenha a calma, meu bem! Vamos dar um jeito em tudo isso. - Precisamos ser rápidos e inteligentes. Vou me esconder por um curto período, pelo menos até a poeira baixar. - Disse ele, tentando manter a calma. - Logo vou me livrar deste carro e conseguir outro.

Eu assenti, ainda em choque, mas confiando na determinação e no plano de Guilherme.

- Você vai ficar bem, Rafa. Vamos superar isso juntos. - Disse ele, sua voz agora mais suave e reconfortante.

Eu queria acreditar nele, queria desesperadamente que tudo ficasse bem. Mas, no fundo, sabia que essa era apenas a ponta do iceberg. A máfia mexicana não perdoava, e o sobrenome Ortega carregava um peso perigoso.

- Pedirei a um amigo de confiança, o Diogo, para cuidar de você e da Maia até eu voltar. Ele tem uma pequena empresa de segurança e tenho certeza de que não me negaria esse favor. Não fale sobre o que aconteceu hoje com ninguém, pois estou perto de conseguir uma vaga no departamento e um assassinato na minha ficha agora não cairia bem! - Sussurrou, acariciando meu rosto suavemente. Eu apenas concordei com a cabeça, sentindo uma mistura de medo e gratidão.

Ele guiou o carro em rumo à casa de Diogo. Durante o trajeto, ele fez algumas ligações rápidas e discretas, coordenando os próximos passos. Chegando ao destino, fomos recebidos por Diogo, um homem de aparência robusta e olhar atento.

- Guilherme, é sempre um prazer ver você, embora eu preferisse que fosse em outras circunstâncias. - Diogo disse, com um aceno de cabeça para mim. - Rafaela, certo? Vou garantir que você esteja segura enquanto seu irmão resolve essa situação.

Agradeci silenciosamente, ainda processando tudo o que tinha acontecido. Guilherme e Diogo conversaram em voz baixa por alguns minutos, trocando informações e planejando os próximos passos. Eu observava, tentando assimilar a realidade em que agora estava imersa. Finalmente, Guilherme se virou para mim, sua expressão séria, mas carinhosa.

- Vou te levar pra casa, Rafa. Confie no Diogo, ele vai cuidar de tudo. E lembre-se, não fale com ninguém sobre o que aconteceu hoje. - Disse ele, envolvendo-me em outro abraço apertado, seus olhos preocupados refletindo a intensidade da situação.

Adentramos outro veículo providenciado por Diogo e seguimos de volta para casa em um silêncio que pesava como uma nuvem escura. Ao chegarmos, Guilherme começou a reunir algumas peças de roupa e colocá-las em uma bolsa.

- Voltarei o mais rápido possível.

- Por favor, tome cuidado, Gui. - Implorei, segurando suas mãos por um momento antes de deixá-lo partir.

Guilherme assentiu e se afastou, desaparecendo na noite. Fiquei observando enquanto o veículo se distanciava, perdendo-se no horizonte. Ainda em estado de choque, corri até o banheiro e tomei um banho para me livrar de qualquer possível evidência de sangue. Em seguida, acendi a churrasqueira e incinerei as roupas que usava na hora do ocorrido. "Se a polícia aparecer, não terão provas para me acusar. Sou cúmplice de um crime... isso me torna uma criminosa? O que meu pai pensaria sobre isso?" Meu inconsciente começou a me atormentar com perguntas difíceis de responder. Durante a noite, foi extremamente difícil conseguir pegar no sono, e quando finalmente consegui, acordei com pesadelos terríveis. Cada sombra projetada nas paredes do quarto me fazia lembrar do momento em que tudo desmoronou. A sensação de culpa e o medo do desconhecido me assombravam, transformando a noite em um tormento. Eu precisava descansar. Estava exausta, física e emocionalmente, mas minha mente continuava a girar com perguntas sem resposta, e a imagem de Ortega caindo morto diante de mim não parava de se repetir.

- Céus, não consigo parar de pensar naquele homem! - Suspirei. Ao fechar meus olhos, só conseguia enxergar aquele ser humano nojento e repugnante caindo na minha frente.

A imensa poça de sangue que se formou em volta do corpo passava como um filme na minha memória. A cena se repetia várias vezes, fazendo-me acreditar por uma fração de segundos que, talvez, eu estivesse enlouquecendo.

- Eu só queria poder esquecer tudo isso, queria poder voltar no tempo; com certeza, faria tudo diferente! - Desabafei em voz alta, enquanto as lágrimas escorriam silenciosamente pelo meu rosto.

Cada pensamento, cada imagem, era uma tormenta em minha mente. A sensação de impotência frente ao ocorrido e a incerteza do que o futuro reservava se mesclavam, formando um turbilhão de emoções. Eu buscava desesperadamente uma maneira de apagar aquelas cenas da minha memória, como se pudesse simplesmente apertar um botão e resetar a realidade. O peso da culpa se transformava em uma sombra que parecia querer me engolir, tornando cada respiração um desafio. Desejava ardentemente a capacidade de reverter os acontecimentos, mas a cruel realidade insistia em manter-me mergulhada na angústia e no remorso. Ao amanhecer, me vi encarando o espelho, contemplando uma versão diferente de mim mesma. A vida pacata que levava agora estava manchada por um episódio sinistro. A incerteza do que o futuro reservava me consumia, e a única certeza que permanecia era a ausência de Guilherme. O vazio que ele deixou era tão explícito quanto a angústia que me corroía por dentro.

Os dias seguintes foram uma mistura de medo constante e espera ansiosa por qualquer notícia de meu irmão. Eu me mantinha em contato com Diogo, que me garantia que tudo estava sendo tratado da melhor forma possível. No entanto, a preocupação com a segurança de Guilherme e a incerteza do que ele estava enfrentando me corroía. Durante as noites, ainda era atormentada por pesadelos e memórias do incidente. Diogo fazia o possível para me manter segura e tranquila, mas nada parecia ser suficiente para aliviar o peso que eu carregava. Cada barulho inesperado, cada rosto desconhecido na rua, tudo me fazia lembrar que estávamos vivendo uma fuga constante, e que o perigo poderia estar à espreita a qualquer momento. Lentamente, a rotina começava a se moldar novamente, apesar das sombras que me envolviam. Eu tentava me concentrar em coisas cotidianas, pequenos momentos de normalidade que pudessem trazer algum conforto. No entanto, a ausência de Guilherme e a incerteza sobre seu destino nunca deixavam minha mente. A cada dia, a esperança de que ele voltasse em segurança era a força que me fazia seguir em frente.

Um mês depois...

Um mês havia se passado desde o fatídico incidente que envolveu Guilherme e eu. Graças aos céus, ninguém havia nos procurado até aquele momento. Durante esse período, permaneci reclusa em casa, observando o mundo pela janela embaçada pelas gotas incessantes de uma chuva melancólica. Foi então que avistei um carro prata estacionado do outro lado da calçada. Seus ocupantes, vigilantes discretos, eram os seguranças que Diogo havia designado para proteger a mim, a Maia e minha mãe. Trocavam-se meticulosamente, garantindo uma vigilância constante, especialmente nos horários de maior vulnerabilidade. Meu celular tocou, e ao atender, reconheci a voz de Guilherme do outro lado da linha. Uma onda de alívio e alegria me invadiu ao saber que ele estava vivo e seguro.

- Como você está? Quando volta? - perguntei, meu entusiasmo transparecendo na voz.

- Não se preocupe comigo, estou em um lugar seguro! Parece que nada de ruim vai acontecer. Maia decidiu vir ao meu encontro. Ela vai precisar que você a substitua por alguns dias! Já cansei de dizer a ela para não se preocupar em trabalhar, mas é tão teimosa quanto você; nunca me ouve! Não tenha medo, sempre haverá alguém te vigiando à distância. Ela vai passar aí em casa para pegar algumas coisas para mim! - explicou Guilherme com tranquilidade, sua voz soando confiante.

- Combinado, pode deixar que farei isso - respondi, minha voz um sussurro calmo.

- Obrigado, logo estarei de volta em casa, fique segura! - Ele encerrou a ligação.

A conversa trouxe uma mistura de emoções: alívio por saber que Guilherme estava seguro, mas também uma tensão latente, a constante lembrança do perigo que ainda nos envolvia. O som da chuva lá fora parecia ecoar meus próprios sentimentos, uma melodia de incerteza e esperança enquanto eu esperava pelo retorno seguro de todos aqueles que amava. Uma mistura de alívio e ansiedade tomou conta de mim. Saber que Guilherme estava a salvo proporcionava algum conforto, mas a ideia de assumir o trabalho de Maia e a constante vigilância deixavam claro que a normalidade estava longe de retornar às nossas vidas. O peso do acontecimento continuava a me assombrar, e as semanas seguintes prometiam ser desafiadoras. Respirei fundo, preparando-me para os desafios que estavam por vir.

Nossa conversa foi breve, mas foi o suficiente para tranquilizar meu coração inquieto. No entanto, mesmo com a notícia reconfortante da sua voz, a atmosfera ao meu redor permanecia carregada de tensão. Cada gota de chuva parecia ecoar a incerteza do que o futuro reservava, e a vida pacata que antes conhecia agora estava permeada por uma sombra sinistra. A espera angustiante pela resolução desse pesadelo persistia, fazendo-me questionar quando e se teríamos a oportunidade de reconstruir nossas vidas. Maia era proprietária de uma loja que vendia cestas de café da manhã, flores e bichinhos de pelúcia, um negócio antigo da família dela.

Decidi ir até lá para aprender antes que ela fosse ao encontro de meu irmão. A loja ficava a cerca de oito quadras de distância, e meus seguranças particulares começaram a me seguir discretamente. Caminhando pela rua, aproveitei para verificar minhas redes sociais, mas nada de interessante apareceu. Continuei a andar, absorta em meus pensamentos, até que algo no céu capturou minha atenção. Fui cativada por um espetáculo celestial pós-chuva magnífico, uma obra-prima da natureza. As nuvens formavam padrões incríveis, refletindo as cores do pôr do sol que se desenhavam no horizonte. Guardei o celular e, após uma breve pausa em uma sorveteria para apreciar um sorvete, segui para a loja de Maia. Ao entrar, encontrei-a cuidando das plantas com seu habitual carinho e dedicação.

- Maia - chamei suavemente, anunciando minha chegada enquanto observava-a com admiração. - O Gui me ligou para falar sobre a viagem, estou aqui para aprender tudo o que precisar antes de você partir. Não quero fazer besteiras.

- Oi Rafa, não tem muita complicação. Os nomes das plantas estão nessa pasta, cada um com uma foto na frente. E os bichinhos de pelúcia, geralmente, a pessoa escolhe no balcão! - explicou ela, com um sorriso amigável.

- Certo, só espero não fazer nada errado! - murmurei, sentindo um leve nervosismo.

- Qualquer dúvida, pode me ligar! Olha lá, acabou de entrar um cliente. Atenda ele, assim você já começa a colocar em prática! - Maia apontou para um homem que acabara de entrar na loja.

Concordei com um aceno e me dirigi ao cliente, um rapaz incrivelmente bonito, o mais atraente que já tinha visto. Tentei não demonstrar minha surpresa diante de sua presença, mas seu charme era irresistível. Respirei fundo e me aproximei, esperando que minha voz não tremesse demais.

- Boa tarde, seja bem-vindo. Em que posso ajudá-lo? - Tentei esbanjar simpatia, mas minha voz saiu um pouco falha e inaudível, o nervosismo começava a me afetar.

- Olá, estou à procura de lírios brancos. Já busquei por toda cidade e não os encontrei em lugar algum! - Ele se aproximou, seu perfume envolvendo-me com sua fragrância agradável.

- Hum, digamos que hoje é o seu dia de sorte! Temos lírios brancos aqui! - Meu entusiasmo falou por mim, enquanto eu me alegrava por ele ter escolhido uma planta que eu conhecia bem.

- Isso é ótimo, que alívio! Pensei que teria que dirigir até outra cidade para consegui-los! - Um sorriso charmoso iluminou seu rosto, aumentando ainda mais sua atratividade.

- Só um momento, vou pegar para o senhor - avisei, tentando manter a compostura enquanto me dirigia às prateleiras para buscar os lírios solicitados.

A interação com o cliente foi uma montanha-russa de emoções, mesclando a excitação do trabalho novo com a presença magnética daquele homem desconhecido, mas irresistível. Após alguns minutos de busca, finalmente encontrei a planta solicitada entre tantas outras. Enquanto retornava ao cliente, meu tênis desamarrado se tornou um obstáculo inesperado, e acabei levando um tombo espetacular. "Não acredito nisso, que vergonha. Por que sempre sou tão desastrada?" pensei, fechando os olhos com frustração. Ao abrir os olhos, deparei-me com o cliente parado bem à minha frente, sua mão estendida em minha direção com a intenção de me ajudar. Fui imediatamente atraída pelos seus fascinantes olhos verdes esmeralda, que se fixaram nos meus com uma intensidade hipnotizante. Por um breve momento, fiquei completamente atordoada.

"Meu Deus, esses olhos são os mais lindos que já vi! Não me lembro de ter visto nada tão belo quanto eles antes!", pensei, quase sem acreditar na sua profundidade e brilho. Retornando à realidade, respirei fundo e estendi minha mão, aceitando sua gentil ajuda. Ao tocar sua pele, uma sensação arrebatadora percorreu todo o meu corpo, como se uma descarga elétrica estivesse atravessando cada músculo, célula e nervo. Uma onda repentina de apreensão me dominou, deixando-me confusa e inquieta na sua presença.

- Desculpe pela minha desajeitada performance! Hoje é meu primeiro dia nesta função, estou aprendendo as engrenagens do trabalho. Preciso assimilar tudo rapidamente, pois amanhã enfrentarei atendimentos solo, sem a supervisão da proprietária - Expliquei, nervosa, enquanto lutava para não deixar transparecer o desconforto que sentia.

- Parece arriscado! Vão mesmo te deixar lidar com atendimento sozinha? - Ele olhou para mim, um sorriso contido brincando em seus lábios.

- Vou embalar sua encomenda! - Respondi, desviando o olhar. Ofereci um sorriso forçado, embora me sentisse um pouco magoada. Enquanto caminhava até o balcão, minha mente girava. "Esse foi o sorriso mais falso da minha vida! Como ele pode brincar assim comigo no meu primeiro dia?"

Entreguei os lírios ao homem, e seus olhos, embora sombrios, me prendiam com uma intensidade surpreendente, quase hipnótica.

- São quinze reais! - Murmurei, estendendo a mão para receber o pagamento. Ele me entregou uma nota de cinquenta.

- Não tenho troco, posso buscar? - Sugeri, sentindo-me um pouco insegura sob seu olhar penetrante.

- Pode ficar com o troco! - Determinou, seus olhos não desviando dos meus.

- Não, não posso aceitar. Trocarei e volto em breve! - Respirei fundo, decidida a manter minha postura.

- Então deixe como crédito! Pagarei só pela diferença em futuras compras. O que acha? - Ele propôs, suavizando o tom.

- Farei um vale compras para você! Seu nome, por favor? - Anotei rapidamente em meu bloco, tentando ignorar a sensação estranha que sua presença provocava.

- Gael. E, sinceramente, ser chamado de senhor por alguém tão bonita como você me faz sentir um ancião. Chame só de Gael daqui em diante! - Seu sorriso era cativante, mas seus olhos mantinham um mistério que me deixava intrigada.

Ele piscou brevemente, um gesto que fez seu charme transbordar além do esperado. Meu foco já não estava no vale compras; de alguma forma, fui cativada pelos olhos verdes que pareciam me hipnotizar.

- Certo, Gael. Poderia me dizer seu segundo nome? - Minha voz tremia ligeiramente.

- Não há necessidade. Você se lembrará de mim quando eu voltar! Coloque apenas Gael, tenho certeza de que será suficiente! - Ele afirmou com convicção.

"Esse rapaz é bem convencido, mas ele está certo. Com certeza vou me lembrar dele. Impossível esquecer esses olhos e essa boca marcante," refleti, enquanto o observava atentamente, o sorriso dele ecoando em minha mente como uma promessa de encontros futuros.

- Aqui está, você tem um crédito de trinta e cinco reais na loja! - Entreguei o vale, percebendo minhas mãos levemente trêmulas.

- Eres una mujer muy hermosa y fascinante. - Ele proferiu em espanhol.

- Desculpe, não entendi! - Franzi a testa, um pouco perplexa diante da situação inusitada.

- Você é uma mulher muito bonita e fascinante! Foi isso que eu disse em espanhol.

- Muito obrigada! Você é da Espanha? - Minhas bochechas queimavam de vergonha.

- Sou do México. Estou no Brasil há oito anos! - Ele sorriu calorosamente.

O sotaque dele era estranhamente familiar, ecoando lembranças do homem com quem tivemos aquele incidente. "Será que ele conhece aquele senhor? Não, deve ser apenas uma coincidência. Ele é simpático demais para ter qualquer ligação com aquele velho asqueroso!" Meu instinto de detetive entrou em alerta.

- Posso saber o seu nome, bela moça? - Perguntou ele, com uma polidez que contrastava com o mistério em torno de sua presença.

- Claro, meu nome é Rafaela! - Respondi, sentindo uma pontada de desconfiança, mas deixando escapar meu nome com um olhar cauteloso.

- Rafaela... um belo nome para uma bela dama! E qual é o seu sobrenome? - Ele parecia interessado, seus olhos meticulosamente observando cada gesto meu.

- Apenas Rafaela, isso é suficiente! - Uma ironia sutil se refletia em meu rosto, provocando nele uma análise minuciosa. Certamente, ele estava intrigado comigo.

- Foi um grande prazer conhecê-la! - Em um gesto cortês, ele se dirigiu em direção à porta.

- Igualmente! - Liberei um longo suspiro ao vê-lo partir. Estranhamente, fiquei por alguns segundos remoendo pensamentos. Algo inexplicável me impeliu a revelar meu sobrenome a um completo estranho.

"Como isso é possível? Meu pai sempre me ensinou a nunca confiar em estranhos, e aqui estou eu, me abrindo completamente para um!" - Pensei, refletindo sobre a peculiaridade da situação. Quando ele estava prestes a abrir a porta para sair, exclamei: "É Oliveira!" Nesse instante, ele bloqueou seus passos, ergueu uma sobrancelha e me encarou com certa perplexidade.

- Meu sobrenome é Oliveira - expliquei, sentindo uma mistura de nervosismo e curiosidade quanto à sua reação. Ele assentiu com a cabeça, como se ponderasse algo.

- Então, nos vemos por aí, Rafaela Oliveira! - Um belo sorriso se formou entre seus lábios, iluminando seu rosto. Respirei fundo enquanto o observava se afastando, meu coração batendo mais rápido do que o normal.

Sobressaltei-me quando Maia surgiu repentinamente atrás de mim:

- O que foi isso? - Uma expressão nada amigável cobria seu rosto.

- Meu Deus! - Coloquei a mão sobre o peito. - Que susto, Maia! Não foi nada demais. Ele apenas perguntou meu sobrenome, e eu resolvi falar; foi só isso! - Expliquei, tentando acalmar sua preocupação.

- O rapaz é muito bonito, mas não fui com a cara dele! - Ela resmungou, e revirei os olhos diante de sua reação impulsiva.

- Muito me admira você dizer isso! Esqueceu que é noiva do meu irmão? Ninguém vai com a cara dele nessa cidade! - Cruzei os braços, lançando lhe um olhar irônico.

- Não vou ficar discutindo com você agora! Estou com muitas saudades do Gui! Consegue fechar a loja para mim? - Ela perguntou, mudando de assunto abruptamente.

- Claro que fecho, pode ir! - Concordei imediatamente, vendo-a partir apressada. Deixei escapar um suspiro, sentindo a intrigante presença do homem enigmático ainda pesando em minha mente.

Após a saída da última cliente, tranquei as portas da loja com um suspiro de alívio. Conectei o fone de ouvido no celular e coloquei nas orelhas, buscando uma música animada para animar o caminho de volta para casa. Cantarolando e fazendo caretas para mim mesma, segui pelas ruas movimentadas até chegar ao portão de casa. Maia já estava de saída quando cheguei. Ela se despediu de mim de uma forma estranha, como se soubesse algo que eu não sabia.

- Eu voltarei assim que possível. Tente manter a minha loja intacta e cuide-se! - Ela me abraçou com força, deixando-me intrigada com suas palavras enigmáticas.

- Quando você retornar, eu já terei vendido sua loja, talvez até a troque por algumas migalhas! - Brinquei, tentando dissipar o clima tenso.

- Não ouse fazer isso, mocinha! - Ela riu da minha provocação, embarcou em seu carro e partiu, deixando-me com uma sensação estranha no peito.

A noite caía lentamente sobre a cidade, e eu me perguntava sobre o que Maia tinha em mente. Seria algo relacionado à loja, ou algo mais pessoal? Aquela despedida, tão carregada de significado, me fez refletir sobre o que estava por vir.

***

Eu estava faminta, com um vazio no estômago que gritava por comida, mas a preguiça monumental de cozinhar me dominava completamente. A ideia tentadora de saborear uma pizza começou a se firmar em minha mente, tornando-se irresistível. Decidi na hora: "É isso, vou me deliciar com uma pizza!" O trajeto até a pizzaria era curto, então escolhi caminhar. Mantive meu ritual habitual com celular e fones de ouvido, perdida nas batidas das músicas que tanto amava. Enquanto caminhava, eu não resistia e me pegava cantarolando as letras, às vezes até arriscando uma dancinha improvisada na calçada. Ao chegar na pizzaria, escolhi uma mesa estratégica para desfrutar da minha refeição. Optei pela mini pizza sabor marguerita, uma escolha sempre certeira que nunca me decepcionava. Enquanto aguardava, avistei meus seguranças não muito longe dali, ocupando uma mesa.

Poderia tê-los convidado para se juntar a mim, mas lembrava das instruções claras de meu irmão para que mantivessem uma distância respeitosa e não se envolvessem diretamente comigo. A atmosfera no ambiente era acolhedora, com o aroma tentador de queijo derretido e tomates frescos envolvendo o ar. Eu me sentia aliviada por estar ali, desfrutando de um momento de tranquilidade e prazer simples, mesmo que breve. Após quitar minha conta, decidi fazer uma breve parada na farmácia antes de retornar para casa. A necessidade urgente de adquirir um medicamento natural para induzir o sono se fazia presente, os últimos acontecimentos turbulentos estavam impactando severamente meu descanso. Eu sinceramente ansiava que o remédio trouxesse o alívio desejado.

Optei por tomá-lo ali mesmo na farmácia, esperando uma ação rápida. Retirei-me em seguida, seguindo de volta para casa em uma caminhada solitária. Apesar das turbulências que marcaram meu dia, naquele momento, senti um peso sendo aliviado. A distração proporcionada pela loja da Maia e a combinação da caminhada com músicas suaves, sem dúvida, contribuíram para esse conforto. Aproveitei para contemplar o crepúsculo lentamente se instalando sobre a cidade. Ao atravessar a porta de casa, já sentia o cansaço se abater. Meu estômago, pesado pela farta refeição, não foi obstáculo para a sensação de relaxamento que começava a me envolver. Graças aos céus, o medicamento começava a fazer efeito e, felizmente, consegui adormecer, finalmente encontrando um refúgio temporário do tumulto recente em minha vida.

Capítulo 3 Uma ideia desastrosa

GAEL

México, Tijuana, 2016.

Eu estava visitando alguns familiares, como fazia todos os anos, aproveitando a oportunidade para me afastar um pouco do meu pai e desfrutar de momentos relaxantes e de desconexão. Enquanto descansava, o celular rompeu a paz com insistência; era a secretária do meu pai. "Estranho, ela raramente me liga. Deve ser algo muito sério!", pensei, com apreensão. Atendi imediatamente:

- Senhor Gael? - A voz de Soraia tremia do outro lado da linha.

- Sim, sou eu. O que houve, Soraia? - Minha voz saiu apressada.

- Seu pai... ele foi assassinado! - Ela foi direta, e a notícia me atingiu como um soco no estômago. Levei alguns segundos para processar aquilo.

- Assassinado? Como assim? Foi um acidente? Uma briga? - Perguntei, incrédulo e angustiado.

- Não, nada disso. Não tem relação com a máfia. Acho melhor o senhor voltar o mais rápido possível. - Sua explicação foi rápida, mas eu já estava mentalmente a caminho.

- Estou indo. Chego aí em algumas horas! - Encerrei a ligação, com o coração acelerado enquanto corria para fazer as malas. - Maldição, quem teria coragem de fazer isso com meu pai? Não descansarei até encontrar o responsável por essa tragédia! - Desabafei em voz alta, os pensamentos tumultuados enquanto enfrentava a dolorosa realidade que se impunha diante de mim.

Meu pai era um dos pioneiros na máfia mexicana. A separação dele e da minha mãe aconteceu quando eu tinha doze anos e meu irmão Dario, dezesseis. O motivo do divórcio permaneceu obscuro; qualquer tentativa de abordar o assunto era rapidamente repreendida. A influência da máfia permeava minha família paterna, cada membro com diferentes graus de envolvimento. No entanto, eu era o menos inclinado a me integrar. Decidi me desconectar completamente depois de tirar a vida de duas pessoas, que depois se revelaram inocentes. Esse fato me consumiu; eu havia destruído cinco vidas, incluindo a minha. Duas crianças ficaram órfãs por conta da confusão que fiz ao confundir seus pais com um casal que havia roubado uma quantia considerável da minha família. Mais tarde, descobri que esses pais tinham histórico de abuso contra os filhos, o que trouxe um pouco de alívio. Depois do incidente, prometi a mim mesmo nunca mais me envolver com esse lado obscuro da vida. Romper com esse mundo não foi tarefa fácil, especialmente porque eu era o herdeiro do trono deixado por meu pai na máfia mexicana.

A organização operava com uma rígida hierarquia, onde meu irmão assumiria o comando e, na sua ausência, eu ocuparia o seu lugar. Na máfia, todos fazíamos um juramento de lealdade chamado "punciuta", que envolvia a extração de algumas gotas de sangue sobre uma imagem sagrada, simbolizando nossa promessa de queimar como as chamas em caso de traição. Eu e Dario realizamos aquele ritual quando éramos crianças, um batismo que recordo apenas parcialmente, dado que eu tinha apenas cinco anos na época. Por sorte, minha mãe conseguiu persuadir meu pai a formalizar um documento crucial. Essa conquista me concedeu o livre arbítrio para abandonar tudo quando decidi não mais fazer parte daquele mundo. A redação desse registro em meu nome foi uma batalha silenciosa, vencida nos bastidores pela determinação incansável de minha mãe. Durante o incidente com o casal, meu pai precisou viajar para outra cidade para obter esse papel vital. Sem ele, meu desligamento definitivo não teria sido possível. Com o documento em mãos, reafirmei meu compromisso e retirei-me por completo dos assuntos relacionados à máfia.

No caso de ter filhos no futuro, estariam livres de participar por obrigação, a menos que escolhessem fazê-lo por vontade própria ao atingirem a maioridade. O motivo exato pelo qual minha mãe insistiu na obtenção desse documento valioso permanecia envolto em mistério para mim. Ela nunca forneceu explicações, mas sua ação me deixou profundamente grato por ter considerado meu bem-estar acima de tudo. Ela parecia conhecer seus filhos melhor do que qualquer um. Meu irmão sempre me via como um fracasso, argumentando que eu tinha um coração excessivamente sensível. Após a tragédia com nosso pai, o direito ao trono passaria para Dario. Com trinta anos, quatro anos mais velho que eu, ele sempre esteve imerso no mundo da máfia, em completo contraste com minha trajetória.

Posteriormente, herdei uma renomada rede de hotéis que meu avô materno deixou para mim em seu leito de morte. O negócio era multimilionário, compreendendo cinco hotéis de luxo espalhados por Dubai, Japão, Grécia, EUA e Brasil. Entre eles, o estabelecimento brasileiro era o que eu mais acompanhava de perto, pois foi onde escolhi uma cidade como meu lar. À frente dos meus vários empregados e alguns sócios, destaca-se Zayn Al-Abadi, um parente distante por parte de minha mãe, ex-sargento bem treinado e sócio minoritário no hotel de Dubai. Além de colher benefícios da parceria no hotel, Zayn escolheu empreender estabelecendo sua própria empresa de segurança. Isso proporcionou-me vantagens ao disponibilizar seus treinamentos para meus seguranças, a maioria deles ex-funcionários de agências secretas. Entre esses seguranças, Matias sobressaía-se como meu braço direito, alguém em quem eu depositava plena confiança, compartilhando com ele todos os meus segredos e estratégias. Sua habilidade meticulosa e lealdade inabalável tornaram-no não apenas um guarda-costas, mas um confidente indispensável em um mundo onde confiança era uma moeda de extrema importância.

***

Retornei ao Brasil, sentindo um imenso alívio ao avistar o avião pousando no aeroporto de Guarulhos. O voo foi extremamente estressante, uma mistura de exaustão com a angústia latente pela recente perda de meu pai, agravada pela pressa em chegar. Ao desembarcar, encontrei Matias à minha espera com a limusine preta. Rapidamente, embarquei, seguindo em direção à casa onde meu pai vivera até recentemente. Considerava a possibilidade de adquirir um carro menos ostensivo; afinal, meu BMW tinha sido destruído em um acidente envolvendo um conhecido, o que me deixava um tanto reflexivo. No trajeto para casa, tirei o celular do bolso do paletó, decidido a informar um antigo amigo, Arthur, sobre o ocorrido. Conhecíamo-nos desde a infância, e sempre considerei sua orientação valiosa. Era crucial compartilhar a notícia com ele, para obter algum consolo e direção neste momento doloroso. Matias estacionou o veículo com habilidade, e ao entrar na residência, fui recebido por Soraia, a mulher que dedicou sua lealdade a meu pai durante anos.

- Gael, que bom que chegou. Uma moça interessada na vaga que seu pai anunciou foi até o galpão. Houve gritos, e um homem entrou, atirando após arrombar a porta. Tive que fugir com medo. - Soraia explicou, incapaz de conter as lágrimas que marejavam seus olhos.

- Sabe dizer o nome dela, Soraia? - Questionei, atento aos detalhes cruciais.

- Rafaela Oliveira, se não me engano. - Respondeu, ainda emocionada com o susto recente.

- Rafaela Oliveira... Será que tem alguma relação com o falecido detetive José Alberto Oliveira? Ótimo, Soraia. Vou investigar sobre a Rafaela; pode ser uma pista valiosa. E meu irmão, já chegou?

- Ele está na Itália, envolvido em negociações cruciais. Pediu para você assumir tudo e prometeu retornar em breve. - Ela explicou, com a voz embargada, revelando o habitual distanciamento emocional de meu irmão em relação às questões familiares.

- Tipicamente meu irmão, sempre colocando os "negócios" acima de tudo. - Suspirei, refletindo sobre as prioridades dele e o peso que isso impunha sobre mim.

Organizei meticulosamente o cerimonial fúnebre, enquanto meu irmão, distante como sempre, apenas confirmava por mensagem o que já era evidente: ele não participaria da despedida. Após a comovente cerimônia, senti uma urgência intensa de desvendar o mistério que envolvia o assassinato de meu pai; o luto não podia ser o destino final. Determinado a buscar justiça, mergulhei de cabeça nas investigações, desenterrando pistas sobre Rafaela e explorando qualquer possível ligação com o enigmático detetive José Alberto Oliveira. Cada descoberta abria portas para um labirinto de intrigas, levando-me a desvendar os segredos ocultos por trás dessa trama sombria, onde cada sombra escondia uma nova revelação a ser confrontada.

***

Haviam se passado alguns dias desde que Matias e eu finalmente descobrimos o endereço de Rafaela.

- Ainda bem que ela mencionou seu nome para Soraia; caso contrário, eu nunca encontraria a pessoa que matou meu pai! - Comentei, enquanto Matias concordava com a cabeça, compartilhando do meu sentimento de determinação.

Dedicamos dias à investigação, meticulosamente reunindo todas as informações necessárias. Descobrimos que Rafaela era de fato filha do detetive José Alberto Oliveira e que tinha um irmão chamado Guilherme, associado ao departamento de investigação da polícia federal. Indicava-se que ele seguia os passos do falecido pai, recentemente vítima de um acidente suspeito. A mãe dos irmãos permanecia internada em estado vegetativo após o incidente que a polícia local suspeitava ser criminoso. Após um período de vigilância na casa, notamos sempre alguém fazendo a segurança do lado de fora. Cansados de dias sem movimentação, prestes a desistir, ordenei a Matias que nos levasse embora. No entanto, ao ligar o motor do carro para partir, avistei uma moça muito bonita passando pela porta da frente. Ordenei a Matias que desligasse o veículo, percebi que os homens parados em frente à casa começaram a segui-la. Mantendo uma distância segura, Matias foi atrás deles para investigar mais a fundo. Observamos a moça entrando em uma loja de flores.

- Matias, se notar qualquer movimento suspeito daqueles dois homens no carro, atire sem hesitar! - Avisei antes de descer do veículo, e Matias concordou imediatamente.

Fiz uma breve pausa para evitar chamar a atenção dos vigias. Em seguida, adentrei o estabelecimento determinado a descobrir mais sobre o que Rafaela realmente sabia e seu possível envolvimento nos acontecimentos recentes. Dentro da loja, os perfumes das flores misturavam-se com o suspense que envolvia o ar. Ao atravessar a porta, deparei-me com a visão da garota engajada em uma conversa com outra mulher. Em poucos instantes, ela dirigiu-se rapidamente na minha direção. Fui atendido por ela, percebendo que era uma moça extremamente atraente. Algo nela capturou minha atenção, embora eu não conseguisse definir com precisão o que era; no entanto, deixou-me profundamente impressionado. À medida que ela se aproximava para prestar atendimento, senti a urgência de assumir o papel de cliente.

"O que devo pedir? Nunca fui hábil com nomes de plantas", refleti, indeciso. No final das contas, optei pelos lírios, a primeira planta que veio à mente. Enquanto ela separava o meu pedido, a garota, num momento desajeitado, tropeçou e caiu. "Como alguém com esse perfil poderia estar envolvido em um assassinato?", questionei-me. Estendi minha mão para ajudá-la a levantar-se e, ao tocá-la, percebi a suavidade e a delicadeza de sua pele. "Ela é realmente bonita", pensei, minha mente dividida entre a atração crescente e o dever que me levava ali. "Preciso me concentrar. O que estou fazendo? Não posso permitir esses pensamentos! Não posso deixar que ela me distraia. Estou aqui apenas para vingar a morte de meu pai; não tenho tempo para distrações!", forcei-me a lembrar, tentando reafirmar meu propósito.

O dilema entre a atração irresistível e a busca implacável pela verdade intensificava-se a cada momento. Seus olhos exibiam um enigma fascinante, brilhando com um encanto misterioso. Algo nela capturava minha atenção de maneira irresistível, e eu sabia que essa intensa atração poderia complicar ainda mais minha missão. Após entregar meu pedido, ela me surpreendeu com um vale-compras de trinta e cinco reais, já que o caixa não tinha troco. Saí da loja apressadamente, sem conseguir articular uma palavra naquele momento. Me sentia atordoado pela inesperada gentileza. Sem saber o que fazer, senti a necessidade de continuar observando-a de longe, urdindo um novo plano para me reaproximar. Retornei ao carro, tentando agir discretamente. Durante o trajeto, coloquei o vale-compras na carteira e cogitei jogar os lírios em um latão de lixo. No entanto, antes de tomar uma decisão, refleti melhor e decidi preservá-los. A incerteza sobre os próximos eventos aumentava a tensão que se acumulava dentro de mim.

- Definitivamente, foram os quinze reais mais mal gastos da minha vida! - Exclamei ao entrar no veículo. - Sua esposa aprecia plantas?

Afrouxei o nó da gravata em meu pescoço enquanto Matias me encarava.

- Sim, ela gosta bastante! - Respondeu ele.

- Então, leve os lírios para ela, não tenho uso para isso! - Entreguei as plantas em suas mãos. Rapidamente, Matias abriu o porta-malas e as colocou dentro.

- Obrigado, senhor! - Murmurou ele ao retornar ao veículo.

Dirigimos de volta ao ponto inicial, próximo da casa de Rafaela, onde passamos o restante da tarde estacionados, concentrados na vigilância e entediados. Não demorou muito para que a mesma moça com quem Rafaela conversava na loja entrasse na casa.

- Será que são parentes? - Perguntei a Matias, tentando entender a conexão entre as duas mulheres.

- Parece que sim! Precisamos nos informar sobre isso, senhor! - Respondeu ele com seriedade.

- Pois é, não podemos deixar nada de fora; qualquer informação pode ser importante! - Suspirei, sentindo a tensão aumentar. Algum tempo depois, vi Rafaela também voltando. - Não é possível, ela está... dançando?

Franzi o cenho, perplexo diante do comportamento inusitado de Rafaela.

- E pelo visto, ela também está soltando a voz! - Matias sorriu discretamente, como se visse algo familiar naquilo tudo.

- Essa garota parece ter algumas ideias fora do comum! - Comentei, observando os gestos engraçados que ela fazia.

- Parece que ela está se divertindo bastante, senhor! - Ele gargalhou, achando graça na situação.

- Quem em sã consciência sairia pelas ruas dessa cidade desse jeito? Certamente não é algo que se presencia todos os dias! - Afirmei, perplexo com o comportamento peculiar da garota. A cena inusitada adicionava mais um elemento enigmático à complexa trama que eu buscava desvendar.

Enquanto a observava por um tempo, me peguei, por um breve instante, fixando meu olhar em seus lábios.

"Puxa vida, ela tem uma boca notavelmente carnuda," pensei involuntariamente, deixando-me levar por pensamentos inapropriados. "Preciso parar de deixar minha mente vagar por caminhos tão impróprios!" Chamei minha atenção, repreendendo-me mentalmente. Meu celular tocou no bolso da calça, arrancando-me da imersão. Retirei-o para atender, deparando-me com o nome de um dos meus funcionários na tela:

- Senhor Gael, encontramos o Guilherme. Qual é a próxima ação? - Perguntou Paulo, sua voz carregada de urgência.

- Não tome nenhuma medida por agora! Tenho planos mais elaborados para tê-lo sob controle. Temos uma vantagem: a irmã dele! - Avisei, encerrando a ligação com determinação.

A descoberta de Guilherme adicionava uma nova dimensão à nossa busca pela verdade, e a presença de Rafaela tornava-se uma peça crucial no jogo complexo que se desenhava. Minha mente estava agora focada em como utilizar essa vantagem estratégica da melhor forma possível. Naquele instante, a ideia de me aproximar da querida irmã, a quem Guilherme tanto prezava, surgiu como um raio de esperança. "Vou conquistá-la e desestabilizá-la! Embora não tenha certeza da sabedoria dessa ideia, é a única solução que me veio à mente agora. Até que um plano melhor se apresente, é nisso que devo me agarrar!" Refleti, um turbilhão de determinação misturado com uma pontada de incerteza. Com o binóculo em mãos, aproximei-o dos olhos e observei cada movimento dela dentro da casa com atenção intensa. Fiquei atônito ao testemunhar o momento em que ela se despiu para tomar banho.

"Nossa, ela é verdadeiramente sedutora! Não vejo obstáculos para compartilhar momentos íntimos com ela!" Meu pensamento persistente fez com que eu engolisse em seco. Refletindo sobre a situação, percebi que minha hesitação permeava aquele momento, tornando-o ainda mais intenso e conflitante. As linhas entre vingança e atração se entrelaçavam, deixando-me em uma encruzilhada moral profunda. A busca pela verdade se tornava cada vez mais complexa, levando-me a questionar até onde estava disposto a ir para alcançar meus objetivos. Cada passo adiante parecia trazer tanto promessa quanto perigo, e eu me encontrava lutando contra impulsos contraditórios de desejo e justiça.

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