Meu noivo, um Capo da máfia, prometeu que os analgésicos ajudariam depois do "acidente de carro". Era uma mentira deslavada. O verdadeiro acidente era o temperamento dele, e eu era seu saco de pancadas favorito.
Em meio ao torpor dos remédios, ouvi a verdade. Ele estava ao telefone com seu consigliere, gabando-se de ter roubado meu projeto de um cassino bilionário. Ele ia usá-lo para se tornar Subchefe.
Ele planejava me pedir em casamento e depois usar o código de silêncio do nosso mundo, a Omertà, para me calar legalmente e me impedir de reivindicar meu próprio trabalho. Sua amante, Olívia, seria o rosto público do projeto.
A pior parte foi a verdade sobre o meu aborto espontâneo. Não foi um acidente. Ele e Olívia tinham orquestrado tudo, chamando nosso bebê de "um estorvo" que mataria sua ambição.
Em uma festa, ele provou tudo. Depois de me empurrar no chão na frente de todo mundo, ele foi embora com ela, me deixando ali, num poço de humilhação.
O amor que eu sentia por ele não apenas morreu; transformou-se em uma certeza fria e implacável. Ele havia tirado meu trabalho, meu filho e minha dignidade.
Então, enviei a ele um último e-mail: um arquivo contendo a prova de cada mentira, cada traição e um vídeo de seu abuso. O assunto dizia: "Meu Presente de Casamento". Em seguida, embarquei em um voo só de ida para o Rio de Janeiro para me aliar ao único homem que ele realmente temia. Isso não era um término. Era guerra.
Capítulo 1
O médico prometeu que os analgésicos apagariam a dor do acidente. Ele nunca disse que me forçariam a ouvir a verdade que estilhaçaria minha vida.
Eu estava deitada no sofá, uma dor surda atrás dos meus olhos combinando com a dor no meu joelho machucado. A história oficial era um acidente de carro. Uma batidinha. Uma farsa. A verdade era meu noivo, Heitor Costa, um Capo do clã Medeiros, com um temperamento mais quente que sua ambição.
No limbo nebuloso entre o sono e a vigília, a voz dele veio do corredor. Era baixa e confiante, o som que eu costumava achar tão reconfortante. Agora, era uma lâmina afiada, cortando a névoa em minha cabeça. Ele estava ao telefone com Nuno, seu Consigliere.
"É um projeto de um bilhão de reais, Nuno. Um bilhão. 'Cidade dos Ecos' vai me colocar no mapa. O Don não terá escolha a não ser me fazer Subchefe."
Meu sangue gelou. Meu projeto. Três anos da minha vida, meu intelecto, minha paixão secreta, destilados em um design revolucionário de cassino-resort. "Cidade dos Ecos". Ele disse o nome como se ele mesmo o tivesse parido.
"E a Olívia?" A voz de Nuno era um murmúrio metálico pelo telefone, mas sua desaprovação era nítida.
"Olívia é o rosto", gabou-se Heitor. "A fama dela nos dá a atenção da grande mídia que precisamos. Ela está dentro. Vamos apresentar juntos. Um casal poderoso."
A bile subiu pela minha garganta, uma náusea pior do que qualquer coisa que o remédio pudesse causar.
"E a Fina?", perguntou Nuno.
Heitor riu, um som curto e desdenhoso. "Vou pedi-la em casamento depois que o Don aprovar o projeto. Teremos um grande casamento. Assim que ela for minha esposa, a Omertà a mantém quieta. Ela não pode reivindicar porra nenhuma. É perfeito."
O código de silêncio. Ele planejava usar a lei mais sagrada do nosso mundo para me amordaçar, para me acorrentar ao seu roubo.
"Isso é sem honra, Heitor", disse Nuno, sua voz firme agora. "Você esqueceu do golpe? Quando seu erro quase te matou e ela disse ao seu Capo que o plano estava falho? Ela sacrificou o próprio nome para salvar o seu."
Fechei os olhos com força, a memória uma ferida fresca. Eu havia enterrado aquilo, assumido a culpa, deixando que pensassem que minha mente estratégica tinha uma falha fatal, tudo para proteger a ascensão de Heitor.
"E o bebê?" A voz de Nuno baixou, e meu coração parou. "Foi a Olívia que colocou esse veneno no seu ouvido, não foi? Que um filho te faria parecer fraco. Que mataria sua ambição."
O ar saiu dos meus pulmões em um suspiro silencioso. As brigas fabricadas. O estresse que ele havia criado deliberadamente. A discussão pública onde ele me empurrou, a queda... o aborto espontâneo que eu culpei na minha própria fraqueza. Não foi um acidente. Foi uma estratégia.
"Olívia é o meu futuro", declarou Heitor, sua voz fria e final. "A Fina é... conveniente. Ela é leal. Esse é o valor dela."
Conveniente.
Leal.
Meu coração não se partiu. Ele se estilhaçou em um milhão de fragmentos de gelo. O amor que eu sentia por ele, o futuro que eu havia construído em minha mente, tudo isso foi incinerado. Nas cinzas, algo novo e duro começou a se formar.
Fiquei perfeitamente imóvel, minha respiração regular, fingindo o sono profundo de quem está dopada e quebrada. Esperei até ouvir a porta da frente bater.
Então, peguei meu celular. Meus dedos tremiam, mas minha mente era uma lasca de gelo. Abri um aplicativo de mensagens criptografadas e encontrei um nome que não contatava há anos. Um nome que Heitor temia.
Leandro Alencar. O Don do clã mais poderoso da cidade. Anos atrás, em um gala de caridade, ele chamou minha análise não solicitada das finanças de um rival da "história" mais brilhante que ele já tinha lido.
Minha mensagem tinha cinco palavras.
"Tenho uma proposta de negócios."
Meu celular vibrou na mesa de centro quase que instantaneamente. Uma resposta. Dele.
Leandro: "Uma proposta inesperada e intrigante. Estou ouvindo."
Meus polegares voavam desesperadamente pela tela, as palavras jorrando de mim como uma confissão. Contei tudo. O plano de Heitor. O projeto roubado. A vida que eu estava prestes a deixar para trás. Meu desejo de me aliar a ele, o único homem em nosso mundo que já havia olhado para mim e visto minha mente primeiro.
Apertei enviar, meu coração martelando contra minhas costelas.
Leandro: "Eu me lembro de você, Serafina. Do gala. Sua análise foi impecável. Fiquei tão impressionado que pedi para tirarem uma foto espontânea sua naquela noite. Está em uma estante no meu escritório. Venha para o Rio. Amanhã. Conversaremos."
Uma foto. Ele tinha uma foto minha. Uma onda de validação tão poderosa que quase fez meus joelhos dobrarem me percorreu. Ele não tinha esquecido.
Minha determinação se instalou em meus ossos, fria e dura como aço. Minutos depois, eu havia reservado um voo só de ida para o Rio de Janeiro para a noite seguinte.
Heitor não voltou para casa naquela noite. Quando liguei para sua assistente, Clara, a voz dela foi seca. "Ele está em uma reunião de estratégia até tarde com a Sra. Moraes, Fina. É para o novo projeto."
A mentira era tão descarada que era quase engraçada.
Ele finalmente entrou pela porta na manhã seguinte, cheirando ao perfume enjoativo de Olívia e à sua própria satisfação presunçosa. Ele beijou minha testa, um gesto que agora fazia minha pele arrepiar.
"Tenho uma surpresa enorme para você hoje à noite, meu bem", disse ele, seus olhos brilhando. "Algo que vai mudar tudo para nós."
Eu apenas sorri, uma expressão plácida e vazia que eu havia aperfeiçoado ao longo dos anos. "Mal posso esperar."
Naquela noite, ele me levou a um grande evento que celebrava o domínio de seu clã. O ar estava denso com fumaça de charuto, colônia cara e o murmúrio baixo de homens perigosos fechando negócios. Heitor estava em seu elemento, pavoneando-se.
Então, ele agarrou minha mão e me puxou em direção ao palco.
"O que você está fazendo?", sibilei, tentando recuar.
"A surpresa", ele sussurrou, um sorriso triunfante se espalhando por seu rosto.
Ele me conduziu ao centro do palco, sob o brilho total dos holofotes. A sala ficou em silêncio. Ele se virou para mim, o rosto uma máscara de adoração para a multidão, e se ajoelhou. Ele ergueu uma caixa de veludo, um diamante ridiculamente grande piscando lá dentro.
Meu estômago se revirou. Era isso. A armadilha pública.
Quando ele abriu a boca para falar, uma comoção irrompeu da multidão. Uma mulher gritou.
Era Olívia Moraes. Ela estava agarrando o peito, o rosto pálido, antes de desmaiar dramaticamente no chão.
Caos.
Heitor não hesitou. Ele largou a caixa do anel, que bateu e rolou pelo palco. Ele me abandonou, ainda de pé ali no holofote, e saltou para a multidão. Ele alcançou Olívia em segundos, pegando sua forma inerte em seus braços, bancando o herói para as câmeras e para o submundo reunido.
Enquanto ele a carregava em direção à saída, ela levantou a cabeça do ombro dele. Seus olhos encontraram os meus do outro lado da sala.
E ela deu um sorrisinho vitorioso.
A humilhação foi um golpe físico, mas por baixo dela, uma calma estranha se instalou em mim. Ele havia tomado a decisão por mim. Ele havia facilitado as coisas.
Virei-me e saí do palco, desaparecendo de volta nas sombras. Eu estava indo para o Rio de Janeiro.
De volta ao apartamento que não parecia mais meu, comecei a fazer as malas. Fui implacável. Cada foto, cada presente, cada lembrança do homem que eu pensei amar foi para um saco de lixo preto. Eu não estava apenas fazendo uma mala; estava apagando nossa vida.
No dia seguinte, fui ao meu trabalho de meio período. Era uma pequena produtora independente, um trabalho civil que me mantinha sã e conectada a um mundo fora do clã. Minha chefe, Mariana, ouviu com um olhar de compreensão triste e cansada enquanto eu pedia demissão. Meus colegas, Davi e Clara, me abraçaram, dizendo que sempre acharam Heitor um babaca manipulador. O apoio simples e honesto deles foi um bálsamo para meus nervos em frangalhos.
Meu celular vibrava incessantemente. Heitor. Ignorei até a décima ligação.
"Oi, meu bem", disse ele, a voz despreocupada, como se nada tivesse acontecido. "Sobre ontem à noite, desculpe por aquilo. A Olívia é tão dramática. Enfim, estive falando com uma cerimonialista. Estou pensando em um casamento na primavera na fazenda..."
A arrogância pura e estonteante daquilo. Ele genuinamente pensava que eu ainda era dele.
Ao fundo, ouvi a voz dela, aguda e exigente. "Heitor, saia do telefone. Precisamos falar sobre minha cobertura na imprensa."
"Preciso ir", disse ele abruptamente, e a linha ficou muda.
Algumas horas depois, meu celular vibrou novamente. Não uma ligação, mas um alerta de notícias de um site de fofocas. A manchete dizia: "O Novo Casal do Poder: Heitor Costa e Olívia Moraes Comemoram Seu Novo Projeto". A foto era deles, brindando com taças de champanhe, o braço dele possessivamente em volta da cintura dela.
Uma raiva fria e limpa me invadiu, cristalizando-se em uma única certeza, dura como diamante. Isso não era um término. Era uma guerra.
Então, um número desconhecido ligou. Quase mandei para a caixa postal, mas algum instinto me fez atender.
"Serafina?" A voz estava carregada de uma preocupação familiar. Era Nuno.
"Heitor... ele teve algum tipo de colapso. Algo com a Olívia. Ele está no Sírio-Libanês. Está chamando seu nome."
"A Olívia está com ele?", perguntei, minha voz assustadoramente firme.
Uma pausa. "Ela o deixou na emergência e foi embora."
Claro que ela fez. E uma parte traiçoeira de mim - a antiga e tola cuidadora - sentiu um lampejo indesejado de algo. Não pena. O fantasma de um dever que eu carreguei por muito tempo. Eu fui sua rocha por tanto tempo que o instinto de firmá-lo estava gravado em meus ossos.
"Por favor, Serafina", a voz de Nuno estava esgotada. "Ele está um caco."
Fechei os olhos. Uma última vez. Isso não era um ato de cuidado. Era a ruptura final. Eu tinha que vê-lo quebrado para finalmente me libertar.
"Eu vou", eu disse.
Enquanto ligava meu carro e saía para a rua, em direção ao hospital, fiz um voto silencioso. Este seria o último sacrifício, o ato final de uma vida que eu estava deixando em cinzas, e a última coisa que eu faria por Heitor Costa.