Abandonei minha carreira em tecnologia por causa do Eduardo, meu namorado, um professor universitário. Por dez anos, fui a namorada perfeita, sempre o apoiando, mas ele me pagou me traindo com uma aluna, a Bia. No nosso aniversário, ele trouxe a pasta de amendoim favorita dela para a nossa casa - esquecendo da minha alergia mortal - e depois me abandonou para ficar com ela.
Finalmente, fugi para a Europa, mas ele me caçou.
Consumido por uma raiva possessiva, ele me encontrou com meu novo parceiro, o Caio, e o atacou brutalmente. Tive que quebrar uma garrafa de vinho na cabeça do Eduardo só para fazê-lo parar.
Enquanto ele sangrava, ainda tentou me pedir em casamento, jurando que ela não significava nada para ele.
Mas então meu celular tocou. Uma mulher desesperada do outro lado soluçava: "A Bia está na casa da mãe dele! Ela está grávida de um filho dele!"
Foi quando decidi que ir embora não era o suficiente. Eu usaria as mesmas habilidades que sacrifiquei por ele para expor cada uma de suas mentiras e queimar seu mundo até o chão.
Capítulo 1
Ponto de Vista: Ana Luísa Martins
Arrastei a caixa enorme de tralhas sentimentais do Eduardo até a calçada, o papelão raspando no concreto. Era pesada, assim como tudo que ele tinha deixado para trás. Meus músculos gritavam, mas eu não me importava. A única coisa que importava era tirar tudo dali.
Três anos atrás, eu não teria ousado. Teria cuidadosamente separado, etiquetado e guardado cada pedacinho do passado dele. Não mais. Não depois de uma década com ele.
Ao entrar de novo, o apartamento parecia... mais leve. Isso antes mesmo de eu notar o cheiro desconhecido de pasta de amendoim vindo da cozinha. Meu estômago revirou. Tenho uma alergia mortal.
Foi quando eu vi. Um pote de pasta de amendoim crocante pela metade no balcão, ao lado de uma caneca infantil e brilhante que definitivamente não era minha. Foi um tapa na cara, um sinal de alerta vermelho que eu tinha sido cega demais para ver.
Uma calma assustadora tomou conta de mim. Peguei o pote e a caneca sem pensar duas vezes. Foram direto para o lixo, a pasta grossa grudando no plástico, agarrando-se como uma memória ruim.
Meu celular vibrou. Era uma notificação do meu voo. Europa. Em dois dias. O momento era quase poético. Era nosso décimo aniversário.
A porta da frente se abriu com um clique. Eduardo entrou, assobiando uma melodia animada. Ele parou de repente, seus olhos percorrendo a sala visivelmente mais vazia.
"O que aconteceu com a vitrola antiga?", ele perguntou, a voz afiada, cortando o silêncio agradável que eu acabara de criar.
Eu não vacilei. "Estava juntando poeira. Eu doei."
Seu maxilar se contraiu. "Doou? Ana, foi um presente da minha avó. Você sabe o quanto aquilo significava para mim."
Ele sempre fazia isso. Tudo era sobre ele. Seus sentimentos, suas coisas, seu passado. Nunca o meu.
"Estava quebrada", afirmei simplesmente, minha voz sem emoção. "E estava ocupando espaço."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo perfeitamente arrumado. "Você é tão dramática às vezes. A gente podia ter consertado."
Eu apenas o encarei. Ele nem se lembrava da discussão que tivemos no ano passado sobre consertá-la, de como ele prometeu que faria e depois simplesmente a deixou lá. Assim como ele deixou tantas outras coisas em nossa vida, quebradas e ignoradas.
Seu olhar se desviou para a cozinha. Seus olhos se estreitaram, depois se arregalaram um pouco. "Cadê a minha pasta de amendoim especial? Aquela orgânica que a Bia achou pra mim?"
Minha respiração falhou. Bia. Claro. A aluna que ele vinha "orientando" no último ano. A aluna que minha melhor amiga tinha recomendado para uma bolsa de estudos. A aluna que agora parecia estar morando no nosso apartamento.
"Joguei fora", eu disse, minha voz perigosamente calma.
Eduardo riu, um som curto e desdenhoso. "Você tá brincando, né? Vai lá pegar. Acabei de comprar." Ele caminhou até a lixeira, pronto para pegá-la ele mesmo.
"Eduardo", eu disse, com um tremor na voz, "eu te disse, joguei fora. Eu sou extremamente alérgica a amendoim. Você sabe disso."
Ele congelou, a mão pairando sobre a borda da lixeira. Por uma fração de segundo, um lampejo de culpa cruzou seu rosto. Foi rapidamente substituído por irritação.
"Ah, é. Eu esqueci", ele murmurou, parecendo mais contrariado do que arrependido. "Mas estava num pote fechado. Não ia te fazer mal."
Meu sangue gelou. Ele esqueceu da minha alergia que poderia me matar. Por ela. Pela Bia.
"Você costumava ser tão cuidadoso", sussurrei, as palavras com gosto de cinzas. "Você jogou fora tudo com amendoim quando nos mudamos juntos. Você até se certificava de que o restaurante soubesse toda vez que saíamos."
Ele se aproximou de mim, tentando passar um braço pela minha cintura. Seu toque parecia estranho, contaminado. "Ei, ei. Me desculpe. Minha cabeça está em mil lugares. Você sabe como o trabalho é estressante." Ele tentou me puxar para mais perto. "Deixa eu compensar. Vou pedir sua comida favorita. Que tal?"
Ele esfregou a parte inferior das minhas costas, bem onde um nó dolorido de músculo pulsava de dor. Eu gemi, me afastando de seu toque.
"Não acredito que você sugeriu isso depois de ontem", eu disse, minha voz afiada. "Minhas costas ainda estão me matando."
Ele franziu a testa. "Do que você está falando?"
"Da trilha, Eduardo. Quando você tentou se exibir, me empurrando morro acima, e eu escorreguei. Você nem percebeu que eu torci as costas até estarmos na metade do caminho de volta." Minha voz endureceu. "Você estava muito ocupado falando no telefone com a Bia."
Ele se irritou. "Aquilo foi um acidente, Ana. E foi sua culpa por não olhar onde pisava. Além disso, eu te pedi desculpas. O que você quer que eu faça, que me arraste no chão?"
"Não", eu disse, uma sensação estranha e oca se instalando no meu peito. "Só... peça para a Bia fazer o jantar para você hoje à noite. Ouvi dizer que ela é uma ótima cozinheira."
Seus olhos se arregalaram, então um sorriso lento e satisfeito se espalhou por seu rosto. "Sério? Você não se importaria?"
Meu estômago revirou. Ele estava realmente feliz com isso.
Ele tirou um cupom amassado e colorido do bolso. "Aqui. É daquela sorveteria artesanal nova. A Bia adora. Podemos ir juntos amanhã."
Eu peguei o cupom. Era de uma sorveteria vegana e sem glúten. Meus olhos caíram para as letras miúdas. Uma promoção especial para "visitantes de primeira viagem" em sua nova unidade. Eu tinha visto a Bia postar sobre isso em seu story do Instagram na semana passada. Uma selfie dela e do Eduardo, rindo, segurando duas bolas de sorvete vibrantes. A legenda dizia: "Melhor encontro de sorvete da vida! Valeu, Edu!"
Meu celular vibrou. Eduardo olhou para ele, seu rosto empalidecendo. Ele o pegou, de costas para mim, sua voz baixa e sussurrada. "Sim, estou a caminho. Chego em cinco minutos."
Ele se virou, com um olhar apressado no rosto. "Aconteceu uma coisa com a Bia. Urgente. Tenho que ir. Volto mais tarde. Prometo." Ele apertou meu braço uma vez, um gesto fugaz e desconectado, e então ele se foi.
Fiquei ali, com o cupom da sorveteria apertado na mão. Ele nem esperou minha resposta. Saiu correndo da nossa casa, no nosso aniversário, para ir até ela.
Olhei para o papel colorido. Então, devagar, deliberadamente, rasguei-o ao meio, depois em quartos, deixando os pedaços caírem no chão.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Ponto de Vista: Ana Luísa Martins
O barulho do bistrô movimentado era uma distração bem-vinda do silêncio zumbidor dos meus próprios pensamentos. Helena me olhava com olhos arregalados e incrédulos do outro lado da pequena mesa. Fazia meses que eu não saía para jantar com ela. Eduardo sempre tinha uma desculpa.
"Você quer me dizer", Helena começou, sua voz um rosnado baixo, "que ele te deixou no seu décimo aniversário para ir consolar aquela... aluna?"
Tomei um gole do meu vinho, a amargura um conforto familiar. "É mais ou menos isso."
Helena bateu o garfo na mesa. "Inacreditável! Depois de tudo que você fez por ele! Desistir do seu emprego incrível em tecnologia, aceitar aquele cargo administrativo chato só para que ele pudesse se concentrar em sua 'brilhante carreira acadêmica'!"
Ela estava certa. Eu tinha sacrificado tudo pelo sonho dele. Minha carreira promissora, minha ambição, minha própria identidade. Fiz isso porque o amava, porque acreditava em nós. Acreditava nele. Agora, eu me sentia... uma tola.
"Eu vou lá e vou falar umas verdades para ele!", declarou Helena, empurrando a cadeira para trás.
Estendi a mão sobre a mesa, segurando seu braço. "Não, você não vai." Minha voz estava calma, quase desprovida de emoção.
Ela me encarou, confusa. "Ana, ele é um narcisista! Um gaslighter, hipócrita... um cafajeste! Você não pode simplesmente deixá-lo sair impune!"
"Ele não vale a pena, Lena", eu disse, e a verdade disso se aprofundou em meus ossos. "Ele não vale outra lágrima, outra discussão, nem mais um pingo da minha energia."
A raiva de Helena se transformou em preocupação. "Eu ainda me sinto responsável. Eu recomendei a Bia para aquela bolsa. Pensei que estava ajudando uma aluna brilhante e carente. Nunca imaginei..."
"Não é sua culpa", interrompi gentilmente. "Eduardo teria encontrado outra pessoa. Nunca foi sobre a Bia. Foi sobre ele."
Ela estudou meu rosto, sua expressão indecifrável. "Você está diferente, Ana. Seus olhos... estão claros."
Eu assenti lentamente. "Acho que sim. Acho que finalmente vejo as coisas como elas realmente são." A verdade era que o amor que eu sentia por Eduardo havia evaporado. Não restava nada além de um espaço frio e vazio.
Era tarde quando finalmente cheguei em casa. As luzes da rua projetavam sombras longas e sinistras. Um nó se apertou no meu estômago. Eu sabia que ele estaria esperando.
No momento em que abri a porta, um silêncio pesado me envolveu. Eduardo estava sentado no sofá, banhado pelo brilho da tela do celular, seu rosto uma máscara de acusação sombria. O ar crepitava com uma tensão não dita.
"Onde você estava?", ele exigiu, sua voz baixa e perigosa. "Eu te liguei uma dúzia de vezes."
Tirei meu celular da bolsa. A tela mostrava uma enxurrada de chamadas perdidas e mensagens dele. Eu nem tinha notado vibrar na minha bolsa. Eu não queria ter notado.
"Meu celular estava no silencioso", respondi, minha voz firme. "Eu estava com a Helena."
Ele se levantou, pairando sobre mim. "Helena? Sério? A essa hora? O que vocês estavam fazendo, afogando as mágoas?" Seus olhos se estreitaram. "Você estava bebendo?"
Encarei seu olhar de frente. "E se eu estivesse?"
Ele zombou. "Você sabe como fica imprudente quando bebe. E quem mais estava lá? Foi aquele colega que fez papel de bobo na semana passada?"
Senti uma onda de fúria fria. Ele estava projetando sua própria culpa em mim. A hipocrisia era sufocante.
"Você me informou sobre seu paradeiro, Eduardo?", retruquei, minha voz subindo um pouco. "Você me disse o que estava fazendo com a Bia a noite toda? Ou esse privilégio é reservado apenas para mim?"
Ele vacilou, seu rosto empalidecendo. Mas antes que pudesse responder, passei por ele e fui para o quarto. Eu só queria escapar de sua toxicidade.
Quando cheguei perto da cama, um movimento súbito no travesseiro me fez pular. Uma criatura pequena e peluda se debateu nos lençóis. Eu ofeguei, tropeçando para trás. Era um porquinho-da-índia. Um porquinho-da-índia muito pequeno e muito assustado.
Antes que eu pudesse reagir, ele correu em minha direção, suas pequenas garras arranhando minha perna. Uma picada aguda, e então uma fina linha de sangue apareceu.
Eduardo entrou correndo, sua voz cheia de pânico. "O que aconteceu?!" Ele viu o porquinho-da-índia, depois minha perna sangrando. Seus olhos se arregalaram. Ele rapidamente pegou a criatura, embalando-a defensivamente. "É da Bia. Ela o deixou aqui mais cedo. Ele deve ter saído da gaiola."
Bia. De novo. Os arranhões queimavam, mas a traição doía mais.
"Você deixou um porquinho-da-índia entrar no nosso apartamento?", perguntei, minha voz mal um sussurro. "Eduardo, eu sou alérgica a pelos de animais. Você sabe disso. Tive que doar a Mimi, minha gata, quando nos mudamos para cá por causa das suas alergias."
Ele fez uma careta. "É diferente. Isso é um porquinho-da-índia, não um gato. E a Bia precisava de alguém para cuidar dele. Ela estava muito chateada."
Chateada? E eu? E a minha segurança? Meu bem-estar?
"Acho que preciso de uma vacina antitetânica agora", eu disse, virando-me para longe dele.
Ele colocou o porquinho-da-índia de volta na gaiola, um lampejo de culpa cruzando seu rosto. "Eu te levo. Agora mesmo."
Nesse momento, seu celular tocou. Ele olhou para a tela, depois para mim, com uma expressão preocupada no rosto. "É a Bia de novo. Ela está muito angustiada."
Meu peito se apertou. Ele nem precisava dizer. Eu já sabia sua escolha.
"Vá", eu disse, minha voz plana, desprovida de qualquer calor. "Vá consolar ela, Eduardo. Você claramente é melhor nisso do que em ser um parceiro."
Ele hesitou por um segundo, depois pegou as chaves. "Eu volto assim que puder, prometo. Apenas espere aqui." Ele me olhou, um apelo desesperado em seus olhos.
Eu o observei ir, a imagem de suas costas se afastando um lembrete gritante de todas as outras vezes que ele escolheu alguém ou outra coisa em vez de mim. Eu sabia, com uma certeza arrepiante, que ele não voltaria esta noite. Ele não se importaria.
Ponto de Vista: Ana Luísa Martins
Lembrei-me do dia em que pedi demissão da empresa de tecnologia. Eduardo havia pintado um quadro de uma vida doméstica serena e solidária, onde eu administraria nossos assuntos e ele conquistaria o mundo literário. Ele chamou isso de nossa "sinergia de casal poderoso". Eu chamei de uma gaiola dourada. Ele só queria uma base estável e segura. Ele disse que meu trabalho de alto estresse o estava distraindo. Eu acreditei nele. Eu o amava.
Então, aceitei o emprego administrativo na universidade que ele encontrou para mim. Era perto do escritório dele, de baixa pressão e, o mais importante, me permitia estar disponível para ele.
A ironia não me escapou. Agora, meu trabalho muitas vezes significava que eu cruzava com ele no campus, navegando pela regra não dita de que devíamos agir como conhecidos educados. Ele insistia nisso. Dizia que evitaria "fofocas desnecessárias" sobre um professor namorando uma funcionária administrativa. Eu vi o que era: ele tinha vergonha de mim, ou, no mínimo, vergonha de nós.
Hoje, eu precisava da assinatura dele em um pedido de bolsa. O celular dele ia direto para a caixa postal, e minhas mensagens não eram lidas. Isso era um comportamento típico do Eduardo. Então, caminhei até o escritório dele, um nó de pavor se apertando no meu estômago.
Do lado de fora de sua porta, uma pequena fila de alunos esperava. Reconheci alguns, com os olhos grudados em seus celulares, outros segurando nervosamente livros didáticos. Suspirei, tomando meu lugar no final da fila.
Ele costumava me dizer que seu horário de atendimento era sagrado, dedicado exclusivamente ao crescimento intelectual de seus alunos. "Sem distrações, Ana", ele dizia, "nem mesmo de você."
Nesse momento, a porta do escritório se abriu. Bia surgiu, o cabelo perfeitamente despenteado, um sorriso tímido brincando em seus lábios. Ela praticamente flutuou passando pelos alunos que esperavam, que resmungaram baixinho.
"Algumas pessoas simplesmente recebem tratamento especial", ouvi um aluno sussurrar, alto o suficiente para eu ouvir. "O professor Monteiro sempre tem tempo para a Bia. Ela praticamente mora no escritório dele."
A porta se fechou atrás dela, abafando os sons abafados de dentro. Meu estômago se contraiu. Não era apenas fofoca. Era verdade. Eu sabia no fundo da minha alma, em cada chamada ignorada, cada olhar distante, cada nova preferência que ele desenvolvera de repente.
Pensei em todas as horas que passei esperando por ele, por sua atenção, por apenas um fragmento do homem que eu pensava conhecer. Senti uma profunda autopiedade, depois uma onda de raiva. Como pude ser tão cega? Tão tola?
Alguns minutos depois, a porta se reabriu. Eduardo estava lá, parecendo perfeitamente composto, uma pilha de papéis na mão. Ele olhou para os alunos que esperavam, então seus olhos pousaram em mim. Sua expressão era indecifrável.
Dei um passo à frente. "Eduardo, preciso da sua assinatura no pedido da bolsa Calloway. O prazo é até as cinco."
Ele assentiu secamente. "Entre."
Eu o segui para dentro de seu escritório. Ele se sentou atrás de sua mesa, gesticulando para que eu colocasse os papéis. Enquanto eu fazia isso, ele se inclinou, sua voz baixa. "Tente não deixar ninguém nos ver saindo juntos. Aparências, você sabe."
Meu coração endureceu. Aparências. Sempre aparências. Para ele, elas importavam mais do que a realidade. Mais do que nós.
Saí de seu escritório, o pedido de bolsa agora assinado, minha mão um pouco mais firme do que estava ao entrar. Toda a troca pareceu um pesadelo. Eu era sua secretária glorificada, um segredinho sujo que ele mantinha escondido.
A confraternização do corpo docente naquela noite foi igualmente dolorosa. Meu trabalho exigia que eu estivesse lá, socializando, garantindo que tudo corresse bem. Eduardo, por outro lado, estava lá para brilhar.
Eu o observei do outro lado da sala lotada, seu sorriso carismático cativando um círculo de professores mais jovens. Bia estava ao seu lado, pendurada em cada palavra dele, sua adoração irradiando como um farol.
Eu me movi pela sala, recolhendo copos vazios, conversando fiado, fazendo meu trabalho. Ao passar por um salão privado mal iluminado, ouvi risadas estrondosas saindo. Os sons de uma festa, uma celebração.
A curiosidade, ou talvez o masoquismo, me puxou para mais perto. Espiei lá dentro. Eduardo, cercado por um grupo de seus alunos mais favorecidos e alguns professores juniores, estava no centro das atenções. E bem ao lado dele, rindo, estava Bia.
"Professor Monteiro, à sua pesquisa inovadora!", um aluno brindou, levantando um copo.
"E à Bia, por ser uma musa tão inspiradora!", outro acrescentou, piscando para ela.
Bia corou, piscando os cílios para Eduardo. "Ah, parem com isso, gente."
Eduardo riu, seu braço casualmente apoiado no ombro de Bia. Então, alguém gritou: "Um brinde! Ao nosso professor favorito e sua aluna favorita! Bebam, vocês dois!"
Bia pegou um copo. "Professor, você fará as honras?", ela perguntou, sua voz doce como mel.
"Claro, minha querida", respondeu Eduardo, seus olhos brilhando.
"Um brinde ao futuro!", alguém gritou. "E um brinde a... um brinde cruzado!"
A sala explodiu em aplausos. Eduardo e Bia se olharam, então, com uma hesitação quase imperceptível de Eduardo, eles entrelaçaram os braços, seus copos tilintando. Enquanto bebiam, seus olhos se encontraram e, então, em um movimento lento e agonizante, seus lábios se roçaram. Um beijo compartilhado e íntimo.
Minha respiração falhou. O mundo inclinou. Uma sensação aguda e ardente se espalhou pelo meu peito, queimando meus pulmões.
Então, alguém olhou para cima, seus olhos encontrando os meus. As risadas morreram instantaneamente. Um silêncio caiu sobre a sala. Eduardo, com os olhos ainda em Bia, virou lentamente a cabeça. Seu olhar pousou em mim, arregalado de surpresa, depois um lampejo de pânico.
Ele começou a se mover, um passo em minha direção. Mas Bia, ainda agarrada ao seu braço, o puxou de volta. Ela me olhou, um sorriso triunfante brincando em seus lábios, depois apertou o braço de Eduardo possessivamente.
Meu celular vibrou na minha mão. Uma mensagem de Eduardo. *Ana, não é o que parece. Foi só uma brincadeira boba. Por favor, me deixe explicar.*
Olhei para as palavras, depois para ele, parado ali com ela. A explicação já estava pintada em seu rosto. Fechei os olhos, uma única lágrima traçando um caminho pelo meu rosto. Então, calmamente, pressionei o botão de desligar do meu celular, mergulhando a tela na escuridão.