POV Vinorca Jona
- Nossa! Você ficou sabendo? O Alpha Dante vai voltar. Fiquei sabendo que ele doou uma fortuna pra escola recentemente. Além de lindo, é tão generoso... - comentou Amy, fazendo as outras garotas caírem na gargalhada.
- Nem me fale! Aquele homem é um espetáculo de gostoso - completou outra.
Eu continuei ali, sentada, ouvindo a conversa enquanto tentava enganar o estômago com um copo de água gelada e um pedaço seco de pão.
- Ele voltou - murmurei para mim mesma. Meu pior pesadelo estava de regresso após três anos. Deus sabia o que me aguardava com a presença dele por perto outra vez.
O burburinho de vozes ao redor me deixava inquieta, fazendo meu peito disparar. Minhas mãos começaram a tremer feito varas verdes quando aquele nome proibido ecoou nos meus ouvidos; o estômago embrulhou e um suor frio tomou conta do meu corpo.
- Vinorca, o que você tem? - Amanda chamou minha atenção, me resgatando dos meus pensamentos.
- Nada, Amanda. Só estou comendo - respondi, tentando disfarçar.
- Disso eu sei, mas por que está comendo essa gororoba fria? - perguntou, genuinamente preocupada.
Um sorriso fraco surgiu nos meus lábios ao perceber seu tom de afeto.
Ela era a única alma naquela matilha que se importava comigo.
- Não é nada demais, Amanda. Para falar a verdade, eu até gosto - menti. Mas talvez houvesse um fundo de verdade ali; depois de tantos anos engolindo aquilo, o gosto já nem parecia tão ruim.
Amanda me encarou com um olhar compadecido.
Tinha o coração mais puro do mundo. Às vezes, eu nem conseguia acreditar que ela era amiga de alguém como eu: uma ômega sem loba e sem um tostão furado no bolso.
- Por que não vai jantar lá em casa? Já é fim de tarde, vem comigo - ofereceu, generosa.
- Não posso, tenho uma coisa urgente para resolver - recusei. Eu já estava atrasada. Dante já devia estar em casa e não seria nada bom para o meu lado se eu o fizesse esperar.
Antes que ela pudesse rebater, juntei minhas coisas e saí apressada.
Minha vida já era miserável nos dias normais, mas eu tinha me acostumado. Agora que aquele desgraçado estava de volta, a última coisa que eu queria era dar mais motivos para ele me machucar.
Por piores que tivessem sido estes últimos três anos, ainda foram infinitamente melhores do que o tempo em que ele esteve presente.
Assim que cheguei em casa, entrei o mais rápido que pude.
- Fique quieta! Ficou maluca, garota? - a governanta me repreendeu rispidamente, vindo ao meu encontro.
- Me desculpa - murmurei.
- Guarde suas desculpas para você. Não se esqueça de que o Alpha está aí, então não o tire mais do sério do que ele já está - alertou antes de dar as costas e ir embora.
Soltei um suspiro de alívio. Eu preferia mil vezes levar uma bronca da governanta a ter que encarar a droga do meu irmão alfa.
Ou melhor, meu tutor. Até hoje não sei como ele conseguiu fraudar os papéis para provar que tinha algum parentesco com a minha família e obter minha guarda quando tinha apenas dezoito anos. Mas, segundo a papelada, ele era minha família, meu irmão - meio-irmão, para ser mais exata, já que se apresentou como filho adotivo dos meus pais.
Caminhei a passos lentos rumo ao meu quarto, tomando o máximo de cuidado para não incomodar o alfa ou, na verdade, para evitar ser vista por ele.
Eu não estava pronta para encará-lo, e quanto mais eu o evitasse, melhor.
- Vem cá! - uma voz gélida ordenou. Fiquei paralisada no lugar, não por causa do frio, mas pelo pavor. Eu conhecia aquela voz como ninguém.
Eu sabia muito bem o motivo de o meu quarto ser ao lado do dele. Era quase impossível passar pela porta dele sem ser notada, por mais de mansinho que eu tentasse andar.
- Ficou surda? - ele rosnou, furioso, me fazendo praticamente correr para dentro do quarto dele.
Parei na frente dele. Ele estava sentado na cama como um rei, o que só fez o medo me sufocar ainda mais.
Mantive a cabeça baixa, sem audácia para encarar meu algoz nos olhos.
- Seu aniversário está chegando. Falta meio mês, não é? Dezoito anos, certo? - ele questionou, mas permaneci em silêncio, de cabeça baixa.
Não era provocação ou rebeldia da minha parte. Eu só estava morrendo de medo de dizer a coisa errada, deixá-lo irritado e acabar punida. Isso não ia prestar.
- Por que está olhando para baixo desse jeito, como se quisesse abrir um buraco no chão e se enterrar? - esbravejou.
Dava para perceber o tamanho da frustração dele só pelo tom de voz. Por que tinha me mandado entrar se já estava a ponto de explodir? Por que eu tinha que ser o bode expiatório em quem ele descarregava toda a raiva?
- Levanta essa cabeça, Vinorca. Está com medo de mim? - perguntou Dante em um tom sereno, embora a voz grave ainda soasse terrivelmente ameaçadora.
Estremeci ao notar como até a calma dele conseguia ser aterrorizante. Ele ainda tinha a capacidade de perguntar? Eu estava apavorada e sentia que podia me mijar a qualquer momento se ele continuasse com aquele interrogatório.
- O jantar está servido - anunciou uma empregada do andar de baixo.
- Estou com fome, podemos conversar depois - disse, dando meia-volta e escapando do quarto dele.
Eu sabia que não conseguiria fugir dele para sempre, mas ficar longe dele por alguns instantes talvez aliviasse um pouco meu pavor. Ainda assim, meu corpo tremia por inteiro e eu conseguia sentir seu olhar predatório queimando nas minhas costas.
Apressei o passo em direção à sala de jantar enquanto o som pesado de seus passos ecoava atrás de mim, denunciando sua aproximação. A presença dele ali, depois de três anos, estilhaçava qualquer resto de estabilidade que eu tinha. Eu nem fazia questão de jantar, mas aquilo era meu passaporte para escapar dele. Pelo menos por alguns minutos.
Como eu poderia esquecer aquele dia? Há três anos, ele tentou cometer uma barbaridade comigo. Só eu sei como consegui me defender. Foi um dia tenebroso, que plantou um trauma profundo em mim e me fez jurar que nunca mais seria frágil. Decidi que lutaria e dependeria apenas de mim mesma para tudo.
Aquela era a primeira vez em três anos, durante todo o tempo em que ele esteve fora, que uma empregada me chamava para jantar.
Dante não pisava em casa havia três anos. Eu nunca soube o motivo exato, mas ouvi pelos cantos que ele tinha exterminado a Matilha de Prata - nossos maiores inimigos e os verdadeiros culpados pela morte dos pais dele e dos meus. Eu deveria sentir alívio, mas depois de dez anos, eu já nem sabia mais o que sentir.
Fazia dez anos que nossos pais tinham morrido.
Meu pai ficou encarregado de tirar os pais dele e a minha mãe de lá quando o confronto começou, mas eles sofreram um acidente no caminho e ninguém sobreviveu.
Dante culpava meu pai por isso e, como ele já não estava mais aqui, resolveu descontar a vingança em mim. Foi por isso que me adotou. Na época, eu era muito nova para entender, mas a realidade acabou me abrindo os olhos da pior forma.
- O que você está fazendo aí, Vinorca? Ficou parada feito uma estátua por quê? - a voz repentina dele me deu um susto, cortando meus pensamentos. Não me mexi, ciente de quão perto ele estava. Senti a respiração dele roçar no meu ombro, me congelando até a alma, mesmo por cima das roupas.
- Eu te fiz uma pergunta, Vinorca! - sussurrou no meu ouvido. Tentei me afastar, mas meu corpo simplesmente não respondia. Tremores violentos me percorriam. Aquele homem nunca foi normal, e agora parecia ter perdido o resto de sanidade que lhe restava, o que só multiplicava o meu desespero.
- Me desculpe, Alpha - murmurei, sentindo a raiva dele emanar atrás de mim sem nem precisar olhar para a sua cara.
- Eu sei que você está arrependida, Vinorca, mas por que estava parada aí feito uma tonta? - Ele colou o corpo no meu; o calor dele atravessou minhas vestes, fazendo meus pelos se arrepiarem por inteiro.
Eu não entendia por que a presença dele me afetava daquela maneira, mas com certeza não era nada bom.
- E-eu só estava... - Tentei responder, mas minha garganta secou, como se a voz tivesse sumido.
- Para de tremer e responde direito, Vinorca! - gritou ele, possesso.
Escorei no susto com o berro repentino, fechando os olhos com força e encolhendo os ombros na tentativa de me proteger, embora soubesse que era inútil com ele ali, colado nas minhas costas.
O que esse homem queria que eu dissesse? Perguntei-me. Fiz o possível para me recompor antes de desmaiar de puro pavor.
- Eu te fiz uma pergunta, meu bem. Por que é tão difícil responder? Ficou surda só porque me viu?
"Meu bem?", minha mente gritou.
- Eu volto depois de três anos e, em vez de me dar as boas-vindas, você sai correndo no meio da nossa conversa. E agora se recusa a me responder. Isso não vai acabar bem para o seu lado, meu bem - Dante me alertou, apertando a pegada na minha cintura.
- Me desculpe, Alpha - soltei o pedido de desculpas num suspiro pesado, denso de tensão. Eu estava completamente desequilibrada. O que tinha acontecido há três anos me deixou marcas profundas.
E agora ele estava tentando me ameaçar de novo, e eu simplesmente não conseguia controlar a reação que ele provocava em mim. A mera presença dele me deixava de cabelo em pé.
- Que inferno, garota! Isso é inaceitável. Você come do meu dinheiro, dorme debaixo do meu teto e me vem com um pedido de desculpas xexelento e falso desse? Não tenho paciência para isso - debochou ele, tirando a mão da minha cintura. Ele passou para a minha frente e se sentou à mesa de jantar, que, por motivos que eu desconhecia, tinha apenas duas cadeiras.
Quando eu era criança, este lugar vivia cheio de cadeiras e de gente. Mas tudo mudou depois que Dante assumiu o controle da matilha. Agora, apenas duas empregadas tinham permissão para se aproximar dele. Mais ninguém podia pisar ali. Mesmo na matilha, ninguém sabia que ele tinha me adotado e que eu morava aqui com ele.
- Senta, meu bem - ordenou.
Despertei dos meus devaneios e tratei de me sentar rapidamente na cadeira à frente dele, do outro lado da mesa. Abaixei o olhar e dobrei a atenção nas minhas mãos no colo, esfregando os dedos um no outro, consumida pela ansiedade e pelo medo.
Aquele lugar era proibido para mim. Eu não podia nem ficar de pé ali, e agora estava ali sentada, jantando com aquele miserável. Parecia errado, e no fundo eu sentia que tinha algo muito malcontado por trás daquilo.
A governanta serviu o jantar. Das duas empregadas, ela era a única autorizada a chegar perto de Dante. Nenhuma das duas dava a mínima para mim. Eu não existia para elas, e elas não existiam para mim. A única interação que tinham comigo era para tripudiar da minha cara.
- E então, como estão os estudos, Vinorca? - Dante perguntou assim que a governanta se retirou.
- Vão bem - respondi, sem tirar os olhos do prato e pegando a colher para tentar salvar o resto de apetite que me sobrava.
- É essa a educação que te dão lá? - debochou. Apertei a colher com tanta força que cheguei a marcar os dedos no metal, mas não consegui articular mais nada. O que ele esperava? Depois de três anos, resolveu puxar assunto do nada e achava que eu ia dar trela? Não tinha como.
"Aprendi com você, seu desgraçado", uma voz sussurrou no fundo da minha mente. Levantei a cabeça e me deparei com o olhar dele, que parecia perfurar minha alma, semeando um pavor viscoso no meu peito.
- O quê? - Os olhos dele diziam muito mais do que suas palavras - muito mais do que minha cabeça conseguia processar, com certeza.
- Eu só quero comer em paz - respondi com uma coragem que nem sabia que tinha, tentando acalmar meus nervos e conter os pensamentos que turbilhonavam na minha cabeça.
Comer até me fartar de verdade era raridade. Geralmente era só pão seco, porque ele tinha me adotado, mas não tinha a hombridade de me dar uma refeição decente. Mas ali estava eu, diante de uma refeição de verdade. Por isso, foquei na comida, apesar de o meu estômago já ter embrulhado.
- Paz? Você não merece nem essa comida, nem essa vida. É um desperdício do meu dinheiro sustentar uma vadia como você, que não sabe nem dar valor - escorrachou ele, zombando da minha cara.
Esmaguei o punho por baixo da mesa. Até parecia que ele me tratava feito uma princesa. Eu sabia muito bem da missa a metade. Ele só me dava este teto para morar. Fora isso, o que mais ele tinha feito para ter esse orgulho todo?
- O senhor tem razão. Sendo assim, com sua licença - respondi com falsa cortesia, me levantando e soltando a colher no prato. Dei as costas e comecei a andar antes que ele desfiasse mais algum insulto.
BAM!
POV Vinorca Jona
- Como você tem coragem?! - ele gritou, me fazendo sobressaltar no mesmo instante.
Era fato: ele me mataria ali mesmo, sem pensar duas vezes.
Tentei dar mais alguns passos para fugir dali, para alcançar algum lugar seguro, qualquer lugar que fosse melhor do que continuar onde eu estava. Mas minhas pernas simplesmente não obedeciam.
Eu precisava correr; era só o que eu sabia, mas meu corpo e minha mente entraram em um estado de transe que me impedia de reagir.
- Porra, Vinorca! Você esqueceu o que eu disse da última vez?! - ele exigiu, a voz ecoando.
Consegui sentir o calor das palavras dele se alastrando pelo meu corpo entorpecido.
Como eu poderia esquecer o que ele tinha dito? Eu jamais esqueceria, disso eu tinha certeza. Todos os dias, todas as noites, eu me lembrava do que tinha acontecido três anos atrás.
Aquele foi o dia em que esse monstro destruiu a pouca paz que me restava - muito mais do que quando me adotou, dez anos atrás.
Três anos atrás, eu era ingênua, mas não burra.
Aquela tinha sido a primeira vez que rejeitei Dante.
- Um dia você vai me implorar - o tom gélido saiu de sua boca.
Foram exatamente essas as palavras dele.
Depois disso, ele deixou o bando sem dar aviso prévio, e eu nunca mais pedi outro favor ou outra refeição a ele; sobrevivi apenas trabalhando em empregos temporários.
- Me responde. Agora!
- Ahhhhhhh! - gritei de terror ao ouvir o barulho ensurdecedor de algo se despedaçando atrás de mim. Nem ferrando eu tinha coragem de me mover, muito menos de olhar para trás para ver o que estava acontecendo ou como o lugar tinha ficado.
Mesmo sem olhar, eu tinha certeza absoluta de que não era algo agradável de se ver.
O medo e a ansiedade tomaram conta do meu corpo, fazendo meu coração disparar. Eu me sentia completamente indefesa.
- Olha para mim, Vinorca. Eu já te disse isso da última vez. Eu te avisei que, se continuasse com essa atitude, não me responsabilizaria pelo que aconteceria depois - Dante deixou a ameaça pairando no ar.
Eu não consigo, gritei em pensamento.
- Eu vou terminar o que deixei pela metade três anos atrás. Você pode ter opções, mas a decisão final é minha - continuou ele, deixando o tom rouco e ameaçador ecoar pelo espaço.
Minha respiração foi ficando cada vez mais curta, e senti meu corpo inteiro se render diante do tom de ordem dele.
Com o coração na mão, me mexi e vi o caos que ele tinha causado. Pratos e comida estavam espalhados pelo chão, e a mesa, que já estava virada, fora partida ao meio.
Nem queria imaginar o que aconteceria se ele fizesse aquilo com o meu pescoço.
Esse mero pensamento fez minha pressão disparar.
Como você pôde esquecer que ele mandou você olhar para ele?, minha consciência me alertou.
Levantei os olhos para encará-lo. O olhar dele parecia perfurar minha alma. Se um olhar pudesse matar, aquele com certeza seria o meu fim.
- Assim que se faz, garota esperta, Vinorca. Essa sim é você. E não se esqueça de que está aqui para pagar pelos pecados dos seus pais. Eles morreram e te deixaram para trás com a conta dos erros deles, sem dó nem piedade, porque nunca deram a mínima para você - cuspiu ele, transbordando veneno.
As palavras cheias de ódio me perfuraram o peito, fazendo meu coração sangrar de dor. Meus pais não eram nada do que ele dizia.
O ódio e a raiva no olhar dele eram límpidos, sem o menor esforço para escondê-los.
Eu era só uma criança quando eles perderam a vida tentando proteger os pais do Dante. Mas eles falharam. O Dante também perdeu os pais naquele acidente.
Só que o que ele nunca entendeu, ou nunca quis aceitar, é que ele não foi o único a perder a família. Eu também perdi a minha.
Pelo que me lembro, meus pais nunca me odiaram. Eles sempre me cobriram de amor e carinho.
E o Dante sabia disso. Meus pais não eram os monstros que ele tentava pintar.
Por que eu tinha que pagar por pecados que nunca cometi? E se eu resolvesse culpar os pais dele pela morte dos meus?
Ainda me lembro vividamente de quando os perdi, quando eu era pequena. Mas o Dante já tinha dezoito anos naquela época e, mesmo assim, não tinha um pingo de compaixão por mim.
- Por favor... - implorei, com as lágrimas finalmente transbordando. Eu não queria chorar, pelo menos não na frente desse monstro, mas o que eu podia fazer? As palavras dele doíam mais do que eu conseguia suportar.
- Ficou magoada? É assim mesmo que tem que ser, baby. Mas eu odeio isso. Não me vem com essa sua cara feia de choro. Para de chorar - ele ameaçou.
Mesmo assim, as lágrimas continuavam rolando pelo meu rosto. Eu simplesmente não conseguia controlar. Eu não era um robô para ligar e desligar minhas emoções quando ele bem entendesse.
- Você não vai escutar nada do que eu estou tentando te enfiar na cabeça, não é? - Dante rosnou e cruzou os braços, deixando claro o quanto odiava ver suas ordens desobedecidas.
Mas não era nada disso que eu estava tentando fazer. A verdade é que eu só não conseguia parar de chorar. Eu não queria parecer fraca. Comecei a enxugar o rosto nas mangas do meu blusão, de forma bruta e rápida, para não dar a ele a satisfação que tanto procurava.
Eu nem estava tentando cruzar o caminho dele. Por que diabos ele tinha que se ofender com absolutamente tudo o que eu fazia?
Se eu simplesmente respirasse, já seria motivo suficiente para deixá-lo irritado sem razão alguma.
- Eu quero ir embora - disse, tentando firmar a voz para não parecer um pedido de socorro. Mas é claro que a minha voz me traiu.
- Quer ir embora para onde? Esta casa é minha, e não se esqueça de que você não vai a lugar nenhum sem a minha permissão. Disso você pode ter certeza, senhorita Vinorca Jona - ele deu um passo à frente, esmagando os cacos de vidro sob a sola dos sapatos.
Meu corpo todo tremeu com violência à medida que ele se aproximava, sem me dar um segundo sequer para respirar.
Ele me agarrou pela cintura. Me choquei contra o peito rígido dele, e minha respiração descontrolou de vez, me deixando completamente desestabilizada.
- Sabe, Vinorca... esse seu jeito, você estremecendo nos meus braços, me deixa muito satisfeito. Mas você se tornou uma garota mimada, e eu sei exatamente como domar a minha coelhinha rebelde - ele sussurrou no meu ouvido, me abalando até o último fio de cabelo.
Eu estava praticamente morta. Agora eu sabia que ninguém conseguiria me salvar.
- Coelhinha, por que você é assim? Primeiro escândalo por qualquer coisa, depois fica toda tímida. Isso não me agrada. Se você quer tanto assim se impor, por que não faz do jeito certo, baby bunny? - Dante murmurou, e seus lábios roçaram o lóbulo da minha orelha.
Minha mão foi automaticamente para o ombro dele. Eu me agarrei a ele com força, me odiando internamente por ver como um simples gesto dele era suficiente para despertar desejos em mim.
Não se esqueça de que ele é seu meio-irmão, minha consciência me alertou no mesmo instante em que senti um frio intenso no estômago.
- O que... o que você está tentando fazer? - perguntei com os lábios trêmulos.
Senti o contato úmido da saliva dele no meu ouvido enquanto ele o sugava devagar. O toque dele era dolorosamente gostoso.
Por mais que eu o desprezasse e odiasse a ideia do seu toque, tudo mudava quando ele finalmente colocava as mãos em mim.
Causava uma sensação avassaladora - algo que eu jamais sonhei sentir. Me deixava perturbada e, ao mesmo tempo, me fazia ansiar por mais.
- O que você acha que eu estou fazendo, coelhinha? - ele perguntou com a voz rouca.
Aquelas palavras mandaram um arrepio por todo o meu corpo, fazendo minha cabeça girar como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo.
- Eu não quero pensar... - soltei o ar desesperada enquanto a língua dele lambia a minha orelha com suavidade.
- Mas eu quero que você pense, Vinorca. Pense em mim. Pense em como nós dois podemos ficar juntos - ele murmurou de forma sedutora, o hálito quente queimando na minha pele.
Tentei empurrá-lo, mas meu próprio corpo tinha outros planos.
Era como se minha carne jogasse contra mim, completamente fora do meu controle.
- Não... - murmurei, tentando recuperar o domínio de mim mesma, tentando sufocar os pensamentos selvagens que invadiam minha mente.
Mas meu próprio corpo me traía. Ele já ansiava pelo toque dele, querendo mais e mais.
- Por que não, Vinorca? Você sabe que quer isso tanto quanto eu - ele sussurrou, a voz transbordando desejo.
- Não! Para! - gritei, tentando me soltar do braço dele, mas ele só apertou ainda mais o cerco.
- Shh... não luta contra isso, Vinorca. Só se entrega - ele soprou contra o meu pescoço, enviando calafrios por toda a minha espinha.
Eu estava presa na armadilha dele, tanto física quanto mentalmente. A batalha interna entre o desejo e a razão me corroía por dentro, me despedaçando.
No fundo, eu sabia que era errado. A natureza proibida do que existia entre nós gritava na minha cabeça, me lembrando das consequências que nos aguardavam.
Mas a atração hipnótica que ele exercia sobre mim era inegável. Era uma dança perigosa de emoções, me puxando para a beira do abismo a cada segundo que passava.
- Não.
POV Vinorca Jona
Mesmo tentando rejeitar ele e o seu toque...
Borboletas flutuam no meu peito toda vez que ele me toca. É algo que acende um fogo em mim, como se cada pedaço do meu corpo estivesse em chamas.
Apesar de saber o quão imoral é sentir isso, me recuso a me deixar afogar por esse sentimento. Ele é meu meio-irmão, o homem que me adotou.
- Eu já peguei leve com você por ter saído do quarto antes. Se continuar esticando a corda, não respondo pela sua segurança - alertou Dante, dominador.
Antes que ele dissesse mais alguma coisa, eu o empurrei e saí em disparada, sem olhar para trás, consumida pelo pavor.
Cheguei ao meu quarto e bati a porta com força. O que vai ser de mim se ele continuar me dominando desse jeito?
Parece que não tenho controle sobre mim mesma; meu corpo responde ao dele em uma língua própria. Ele é a própria personificação da paixão, uma força avassaladora que me enche de uma ansiedade que eu preferia não alimentar.
Arranquei as roupas, jogando tudo no chão, e entrei no banheiro minúsculo do meu quarto caindo aos pedaços. Um banho era urgente para desacelerar meus pensamentos fora de controle.
Mesmo estando atordoada, encontrei uma força inacreditável dentro de mim para conseguir empurrá-lo.
Liguei o chuveiro e deixei a água fria escorrer pelo meu corpo.
Maldito seja. Eu não posso esperar nada deste lugar, nem a miséria de uma água morna para me confortar neste frio.
E ainda assim, ele se acha no direito de fazer o que bem entende comigo.
Que tipo de hipócrita ele é? Estou completamente perdida na vida, sendo submetida a humilhações constantes.
À medida que a água gelada acalmava minha pele, a tensão ia se dissipando. Era uma sensação maravilhosa, que aquietava minha mente e abrandava aquele arrepio que queimava por dentro.
Tentei me concentrar, mas tudo parecia fora do lugar.
Deixei os pensamentos de lado, desliguei o chuveiro e me sequei na toalha. Vesti meu pijama e me encolhi na cama, deixando para trás aquelas fantasias perturbadoras.
Fechei os olhos e fiz um esforço enorme para esquecer tudo o que estava acontecendo comigo.
"O que está acontecendo?" Senti meu corpo paralisar conforme a escuridão me engolia. Que loucura. Eu só estava tentando dormir, não era?
Tentei me mexer e entender a situação, mas a única coisa que eu conseguia enxergar era um breu sem fim naquele lugar desconhecido.
- Como você está se sentindo, Vinorca? - uma voz chamou, fazendo minha espinha gelar. Eu conhecia aquela voz. Virei a cabeça na direção do som.
- Pai? - sussurrei, vendo meu pai ali, no meio daquele abismo negro. Uma onda avassaladora de emoções me atropelou e as lágrimas desceram sem controle pelo meu rosto. Fazia dez anos que eu não via meus pais.
Só eu sei o tamanho da saudade que sinto deles. Ao ver meu pai, desabei em choro, corroída por uma dor insuportável.
- Não chore, Vinorca - pediu ele, carinhoso.
- Como o senhor pode me pedir isso, papai? Por que o senhor está assim? Como pôde deixar sua filha neste lugar? O senhor nem me levou com você... Não está vendo como eu venho vivendo aqui sem vocês dois? - perguntei, sentindo meu coração se despedaçar no peito. A dor estava me devorando viva.
- Eu não tive escolha, Vin. Eu só quero que você seja feliz, minha filha. Você sabe o quanto sua mãe e eu amamos você - ele sorriu, triste.
Como ele podia estar triste? Era eu quem devia estar triste, não era? Por que ele dizia que se importava e queria minha felicidade, se a única coisa que conheci desde o dia em que os dois morreram foi dor? Venho sofrendo há dez anos.
O que mais ele esperava de mim?
- Sabe, Vin, a Deusa da Lua sempre reserva o melhor para cada um de nós. Pode ser difícil para os filhos que ela ama, mas acredite em mim, não é de todo mau. Só espere para ver; a sua hora vai chegar. Acredite em você, minha Vin!
- Eu não consigo. O senhor matou os pais do Dante? O que aconteceu há dez anos? Foi culpa da minha mãe? Eu não acredito nisso, mas por que o Dante me odeia tanto? - Finalmente dei voz à pergunta que guardava no peito há dez anos.
Eu nunca soube como meus pais e os pais dele morreram naquele dia. Eles deveriam levar os pais do Dante para um lugar seguro em um blindado. Então como foi que todos perderam a vida?
E por que o Dante guarda tanto rancor de mim?
Como ele pode remoer a morte dos próprios pais sem nem levar em conta que eu também perdi os meus?
Ele nunca me deu uma resposta clara, ou talvez me faltasse força e coragem para enfrentá-lo e exigir a verdade.
- Eu quero saber, papai. Eu confio em vocês dois, mas por que o Dante não consegue? O senhor viveu com ele por tantos anos antes de eu nascer. Até os pais dele eram grandes amigos seus e da mamãe. Vocês eram como uma família. Então como tudo mudou tão de repente? Eu não entendo, e ele nunca me explica nada. Eu preciso que o senhor me dê uma resposta - falei, me afogando nas lágrimas.
Não sei se meu pai tinha essa resposta, mas eu precisava saber. Depois de todos esses anos, eu finalmente tinha a chance de falar com ele, e não deixaria essa oportunidade escapar. Esperei dez anos pela verdade que esconderam de mim - e talvez até dos olhos atentos do Dante.
Na minha ignorância, eu pagava por coisas que jamais fiz. Eu tinha o direito de saber antes que ele me acusasse de algo em que nem eu, nem meus pais, jamais estivemos envolvidos.
- Confie em você, Vinorca. Lembre-se: se você tiver fé em si mesma, nada pode dar errado - respondeu ele, com um sorriso.
- Eu estou tentando, papai, juro que estou, mas não aguento mais isso - desabafei, as palavras saindo trôpegas e confusas.
Só eu sei a agonia que enfrentei nesses últimos dez anos.
O homem que eu considerava minha família, a pessoa em quem eu confiava e me apoiava, despedaçou meu coração frágil no mesmíssimo dia em que me adotou.
Ele continuou quebrando o coração de uma criança em mil pedaços.
E, ainda assim, apesar de tudo, meu coração insiste em buscar o afeto da mesma pessoa que torna cada respiração minha um suplício.
Eu não tenho mais vontade de viver. Só quero um pouco de paz, algo que esta vida simplesmente não pode me dar.
- Não diga isso, Vin. Nós acreditamos em você, e eu sei que você pode mudar o que quiser. Siga suas convicções e nunca deixe ninguém pisar em você.
Antes que eu pudesse responder, a escuridão o engoliu. Tentei me levantar, mas não consegui.
- Por favor! - gritei.
Abri os olhos e me vi encharcada de suor, ainda presa naquele mesmo lugar infernal, no mesmo quarto. Olhei ao redor e percebi que já era de manhã.
Então quer dizer que eu não estava apenas tentando dormir, mas acabei pegando no sono e vi meu pai num sonho?
Mas como ele conseguiu falar comigo? Parecia tudo uma alucinação.
Tentei me acalmar, puxando o ar bem fundo. Eu precisava espantar aquela ansiedade que me sufocava.
Depois de três anos, as mesmas sensações voltavam à tona. Apesar do caos que virou minha vida nesse tempo, eu tinha encontrado um pouco de paz depois que ele foi embora, torcendo para que nunca mais voltasse.
Agora tudo ficou ainda mais complicado, e eu não faço ideia de como enfrentar isso.
Não tenho ninguém para me segurar nos braços e dizer que está aqui por mim. Tenho medo de que, mesmo no futuro, eu continue completamente sozinha.
Em poucos dias, meu aniversário de dezoito anos vai chegar. Todo lobo, até mesmo os ômegas, espera ansiosamente por esse dia, porque ele marca o início da busca por seus companheiros. É o dia com o qual todo lobo sonha.
Diante das circunstâncias, não sei se algum dia vou experimentar essa sensação. Eu também queria tanto encontrar um homem a quem pudesse amar de todo o coração, alguém com quem eu pudesse dividir minhas cicatrizes, minhas lágrimas e meus medos.
Mas eu sei que o Dante nunca vai permitir que isso aconteça. Ele não suportaria ver minha felicidade.
O que não entra na minha cabeça é por que o Dante, em uma idade em que já deveria ter encontrado sua própria companheira, se recusa a fazer isso e prefere passar o tempo me torturando.
Vai saber.