༺ Zara Stevens ༻
- Você é estúpida! Como ousa manchar meu vestido assim? Meu Deus, você é completamente inútil e não serve para nada! - exclamou Madalene, com raiva.
Antes que eu pudesse responder, senti o estalo da mão dela no meu rosto. A bofetada foi tão forte que me fez cair instantaneamente no chão. Além de ser injustamente punida por algo que não fiz, ela jogou a roupa sobre o meu rosto, me humilhando ainda mais.
Respirei fundo e controlei as lágrimas que agora estavam misturadas com raiva, antes de dizer algo. Eu não aguentava mais viver assim ao lado dessa mulher nesta casa.
- Madalene, pode me explicar o que houve desta vez? - perguntei, tentando manter a calma.
- Você está cega? Não está vendo essa mancha enorme no meu vestido? Você é completamente incompetente, garota! Nunca faz as coisas de maneira correta. Seu pai vai saber disso, pois você estragou um dos meus melhores vestidos. - disse ela, ainda irritada.
Desde que meu pai se casou com essa megera e me deixou sob sua responsabilidade, sou tratada dessa maneira. Penso que ele não tem ideia do monstro que ela é ou finge não perceber as coisas e, como sempre, Madalene me tratou.
Examinei a mancha e não me lembrava de tê-la causado. Tinha certeza de que ela estava me culpando por algo que não fiz. Olhei seriamente para ela e disse:
- Eu não lavei esse vestido. Sempre tomei muito cuidado com suas roupas mais finas!
- Ah, pelo amor de Deus, é claro que isso é obra sua. Você arruinou o meu melhor vestido. Sabe, às vezes teria sido melhor se tivesse morrido naquele acidente de carro com a sua mãe. Dessa maneira, eu não precisaria cuidar de alguém tão inútil como você, que não sabe lavar uma roupa direito.
Em alguns momentos, duvidava se aquela mulher era realmente irmã da minha mãe. Ela parecia mais uma serpente venenosa e cruel, usando uma máscara falsa, esperando apenas a morte da irmã para dar o bote e ocupar o seu lugar. Passei a mão no meu rosto para me acalmar, pois se surtasse, poderia ser presa hoje por tentativa de homicídio, e respondi:
- Olha, eu não vou levar a culpa por algo que não fiz. Já disse que não lavei esse vestido!
- Diminua o tom de voz quando falar comigo. Não se esqueça de que está na minha casa e só tolero sua presença aqui porque, infelizmente, você é filha do seu pai. - há momentos em que tenho vontade de voar no pescoço de Madalene e descontar toda a raiva que venho acumulando nos últimos anos.
Mas preciso me controlar porque falta pouco para eu sair daqui. Continuei apenas a observar com certa paciência, algo que adquiri nos últimos anos.
- Mãe, o que está acontecendo? Dá para ouvir seus gritos lá do andar de cima. Ah! Claro, tinha que ser você. Já fez algo da maneira errada, como sempre, não é, Zara?
Márcia era filha dela e minha prima, uma tremenda megera e ardilosa como minha tia. Sempre procurava qualquer motivo para ser tão maléfica comigo, mas eu já estava vacinada contra o veneno dessas duas cobras tóxicas com as quais convivia. Enquanto as observava com certo tédio, Madalene se pronunciou indignada!
- Essa peste simplesmente manchou um dos meus melhores vestidos de festa, mas isso não vai ficar assim. Contarei tudo para o seu pai, e pode esperar, Zara, que o castigo vem.
A bruxa da minha tia saiu furiosa com o vestido nas mãos, subindo as escadas e me deixando sozinha com Márcia. Depois de alguns segundos, notei a dissimulada com um sorriso divertido nos lábios, observando-me como se tivesse aprontado algo.
Estreitei meus olhos, desconfiada, e logo entendi a armação dessa outra cascavel. Aquilo havia sido feito por ela. Respirei fundo, controlando-me para não avançar sobre ela, e disse:
- Não preciso ser detetive para suspeitar que foi você quem manchou o vestido da sua mãe para eu levar a culpa! Você ainda vai me pagar, Márcia, isso é certo.
- E se for eu? O que fará, Zara? Deveria entender, querida prima, que o mundo está contra você. Se contar ao seu pai, em quem será que ele irá acreditar mais? Pensa que ele dará ouvidos a uma filha amaldiçoada que carrega a culpa pela morte da mãe? - o que mais me incomodava na minha tia e na minha prima era que elas usavam a morte da minha mãe para serem maldosas comigo.
Mas, com o tempo, aprendi a não deixar isso me afetar e respondi de forma sarcástica.
- Ah, cale-se! Você devia ter mais motivos para começar a me criticar. Não vou mais perder meu tempo com você, porque você é inútil e preguiçosa, assim como sua mãe, que vive às custas do meu pai. Antes, o que vocês diziam me afetava, mas hoje nem você, muito menos sua mãe, têm esse poder sobre mim.
- Tenho a vida mantida pelo marido da minha mãe, é diferente! Seu pai sabia que eu vinha de bagagem quando aceitou se casar com a minha mãe. Ele, inclusive, é mais gentil comigo do que com você. - apenas revirei os olhos diante de seu comentário inoportuno e respondi para encerrar o assunto.
- Márcia, este mundo está cheio de surpresas! Espero que, em uma delas, meu pai se interesse por uma mulher mais jovem. Assim, vocês duas serão escorraçadas daqui. Anote ou memorize o que estou dizendo: vocês sofrerão as consequências pelos seus atos, a lei do retorno e ela chega para todos.
Ela me observou de boca aberta pela minha ousadia em dizer aquilo. Acredito que não esperava que, pela primeira vez em anos, eu a respondesse da mesma forma.
Decidi ignorar Márcia e continuar o meu trabalho, pois ainda tinha que resolver meus problemas pessoais. Tenho estudado incansavelmente para conseguir me formar na faculdade de administração. Outra tarefa que não foi fácil: Madalene atrapalhou de todas as maneiras os meus estudos.
Sempre que saio para algum lugar, digo a ela que farei um trabalho extra para comprar algo que preciso. Ela se conforma e fica feliz em saber que estarei limpando o chão dos outros, porém, nem sonha que estou estudando escondida. Se ela soubesse, infernizaria a vida do meu pai para que ele me tirasse esse direito, já que fazia uma lavagem cerebral tão grande nele. Falava o tempo todo mal de mim, e ele nunca me ouvia ou me dava o direito de escolher meu destino.
Sabendo que ele nunca me dará ouvidos ou se preocupará em saber sobre mim, eu faço o meu melhor sozinha e sempre deixo tudo limpo antes de sair de casa. Depois, corro para resolver meus próprios problemas pessoais, e ultimamente um deles tem sido arrumar um jeito de conseguir um emprego e um lugar para morar. Um eu já estava conseguindo resolver, e o outro ainda lutava para conquistar.
Hoje, tenho uma entrevista na empresa do Rodrigo Garcez, um grande CEO do ramo industrial. Dizem que ele é um magnata muito bem-sucedido e jovem. Aos 32 anos, já havia alavancado sua carreira como um dos empresários mais destacados do mercado.
Após caminhar por várias quadras, cheguei à casa da minha amiga Pietra. Ela era a única que me ajudava a prosperar e, principalmente, a crescer. Bati na porta e rapidamente Pietra abriu, observando-me com um sorriso no rosto, e disse:
- Zara, pensei que você não viria mais. Ficaria brava se você perdesse essa oportunidade! Espero que consiga a vaga de emprego para se livrar daquelas duas bruxas.
- Nossa, nem me fale! Tudo o que mais quero na vida é isso. Estou aliviada por saber que na próxima semana meu apartamento estará pronto. Comprei um lugar onde somente você sabe, Pietra. Espero que mantenha esse segredo. - ela concorda comigo e responde, tirando uma roupa que estava toda embalada e guardada no closet.
- Este é o conjunto de roupa casual que você me pediu para lavar. Você disse que deseja estar impecável, então farei uma maquiagem e arrumarei seu cabelo. Precisa estar deslumbrante, pois a aparência é tudo!
- Não me iluda com essas coisas. Só um milagre me faria ficar mais bonita do que isso. - sentei-me no sofá enquanto Pietra pegava sua mala de maquiagem e respondia indignada com meu comentário.
- Odeio quando você se coloca para baixo assim, amiga! Sinceramente, você é bonita, apenas está maltratada devido aos trabalhos horríveis que Madalene faz você passar. Mas darei um jeito nisso e te transformarei em uma Cinderela, serei sua fada madrinha.
Apenas dei de ombros. Não discutirei com Pietra sobre isso, pois não leva a nada. Após ela finalizar a maquiagem e me entregar a roupa para vestir e fazer um coque perfeito no meu cabelo, ela dá um sorriso satisfeita com o resultado e disse:
- Caramba! Você nem parece a Zara que entrou aqui antes. Precisa dar uma olhada no espelho, veja! - aproximei-me do espelho e fiquei surpresa com o que vi.
Era eu mesma, aquela mulher bem vestida e bonita?
Será que permiti que Madalene e Márcia roubassem anos da minha vida, sem me dar o devido cuidado, trabalhando demais? Sorri e respondi à Pietra, que me olhava maravilhada com a minha mudança.
- Que surpresa! Nunca pensei que você conseguiria fazer um milagre. Estou ótima. Meu Deus! Olhe que horas são? Tenho que me apressar, ou chegarei atrasada para a entrevista de emprego. Pietra, eu te ligo quando sair de lá.
Ela concorda comigo, então sigo em busca de um táxi na rua. Estou atrasada alguns minutos. Ao me aproximar do edifício onde será a entrevista, decido parar um instante na cafeteria para comprar um copo de café para levar comigo. Ao entrar no edifício, aguardo o elevador abrir e aperto o botão para o último andar.
Quando estou saindo, meu casaco fica preso no elevador. Ah, não! Só pode ser perseguição mesmo. Tento puxá-lo, mas ele não quer soltar, e eu cambaleio para frente, sujando sem querer um homem que surge na minha frente com meu café. Ele se afasta e diz, assustado:
- Ai! Isso está quente? Você está maluca? Como anda com algo assim?
- Desculpe-me, senhor. Não fiz por mal. Deixe-me ajudar. Meu casaco ficou preso no elevador - notei que o homem está bravo e tira o casaco do seu paletó, tentando limpar o excesso de café derramado ali com a mão e reclamando:
- Você deveria tomar mais cuidado da próxima vez! Era só o que me faltava agora: ficar sujo exatamente no momento em que tenho uma reunião de negócios. Eu não mereço isso.
- Me desculpe mais uma vez! Não pretendia causar-lhe esse dano.
Ele dá uma risada irônica e me encara por um instante enquanto eu abaixo a cabeça, envergonhada. Preciso parar de deixar que as pessoas me desrespeitem por tão pouco.
- Suas desculpas não vão tirar a mancha do meu paletó, garota, que deve valer mais do que você está acostumada a ganhar, sua infeliz. Por que está com a cabeça abaixada? Levante seu rosto para eu poder olhar para a desastrada que acabou de me derramar café.
Levanto o rosto depressa para encará-lo. Seus olhos azuis são tão intensos e frios que me fitam de maneira séria. Ele é muito bonito, não posso negar isso. O homem olha-me de cima a baixo com outra expressão.
Respiro fundo e penso: "Zara, você tem que dar o seu show para acabar com tudo e estragar a única oportunidade que tem de se livrar da sua tia e daquela infeliz da prima."
༺ Zara Stevens ༻
Continuei observando o homem com seriedade, mas ele imediatamente alterou sua expressão rígida para uma mais delicada. Desviei meu olhar e notei que ele parecia até constrangido por ter me tratado de maneira grosseira. Com certo constrangimento, ele se desculpou:
- Me desculpe, não pretendia tratá-la inadequadamente. Ocorre que estou bastante nervoso, tenho uma reunião em breve e, como ainda não tenho uma assistente para me auxiliar, acabo ficando estressado.
- Não precisa se desculpar, senhor. A culpa foi minha, não mantive o equilíbrio. Realmente, sou um tanto desastrada...
Comecei a rir nervosamente e ele riu junto comigo. Ele tem um sorriso tão dócil, é encantador e cativante. No entanto, minha distração foi interrompida quando vi a mulher da recepção se aproximar dele e entregar-lhe uma nova vestimenta. Ela se virou para mim e disse:
- Boa tarde, você deve ser a candidata para a vaga de assistente, correto? A sala 07, terceira porta à esquerda, dona Verônica está esperando por você.
- Ah, então você é a jovem que Verônica está aguardando? Se você for realmente minha assistente, estou em apuros. Espero que esse incidente com o café seja um evento isolado - pensei comigo mesma: "Ótimo, era tudo que eu precisava, dar um banho de café no dono da empresa. Realmente, sou uma idiota!"
Mas tentei manter minha compostura e respondi meio sem jeito:
- Peço desculpas, senhor. Não foi intencional. Minha roupa acabou ficando presa no elevador, como mencionei anteriormente. Entretanto, prometo ser mais cuidadosa da próxima vez. Isso se houver uma próxima vez, né?
- Bom, preciso ir. Tenho que trocar de roupa, estou atrasado. Boa sorte na seleção.
Ele me deu as costas e entrou no elevador acompanhado da secretária. Realmente, me sinto uma idiota. Como pude ter o azar de derramar café na roupa do dono da empresa? Essas coisas só acontecem comigo mesmo.
Balancei a cabeça, afastando os pensamentos negativos, e decidi seguir para a sala onde seria a entrevista, observando o prédio atentamente para me lembrar, caso fosse selecionada.
Assim que entrei, notei que havia outras candidatas para a vaga de assistente e outras para diversas funções da empresa. Muitas pessoas estavam em busca de emprego. Realmente, não está fácil para ninguém.
Esperei minha vez e, depois de alguns minutos, chegou finalmente o momento da minha entrevista. A mulher à minha frente era uma senhora que parecia bem tranquila e gentil. Ela própria sorriu e disse:
- Boa tarde, Zara. Como está? Analisei seu currículo e vi que possui diversos cursos, mas não tem experiência na área. Poderia me explicar o motivo?
- Isso se deve ao fato de eu estar na faculdade, senhora! Não podia trabalhar, mas se me der essa oportunidade, acredito que não irá se arrepender. Sou uma pessoa que aprende rápido, apenas precisarei de orientação. - ela concordou com minhas palavras e, enquanto analisava meu currículo, me questionou novamente:
- Seu currículo é excelente! Inclui até mesmo um curso de idiomas. Uau, você também fala mandarim? Isso é perfeito. Seu Rodrigo viaja muito para esses lugares e precisamos de alguém competente nesse assunto para acompanhá-lo nas viagens...
- Sim, falo fluentemente! Aliás, tenho amigos que também falam essa língua. Como mencionei, sou rápida em aprender, basta me fornecer um relatório completo e eu me capacito rapidamente.
Durante a entrevista, descobri que a senhora se chamava Verônica. Ela era a chefe do RH e continuou a conversar comigo e fazer diversas perguntas. Eu nunca pensei que seria tão difícil conseguir esse emprego, mas estou torcendo ansiosamente para consegui-lo. Quero me livrar de uma vez por todas daquela bruxa da Madelene. Após analisar minhas informações e conversar comigo por um tempo, a dona Verônica disse:
- Olha, Zara! Adorei seu currículo, mas você não tem experiência. No entanto, vamos lhe dar uma chance. Porém, você precisa me prometer que será mais cuidadosa, especialmente quando estiver perto do senhor Rodrigo. Ouvi dizer que você derramou café em sua roupa.
- Foi um acidente! Não foi intencional, dona Verônica. Infelizmente, meu casaco ficou preso no elevador e eu o puxei, não o vendo quando tropecei e derrubei o café. Sinto muito por isso. Até mesmo pedi desculpas a ele. - ela ouviu atentamente o que eu dizia e respondeu, grampeando alguns papéis que estavam em sua mesa.
- Tudo bem, Zara! Como eu disse, vamos lhe dar uma chance. Assinaremos um contrato de seis meses. Se ele gostar do seu trabalho, renovaremos o contrato, tudo bem? Mas, como eu disse, tenha cuidado.
- Não se preocupe, tomarei muito cuidado daqui para frente. Tem mais alguma coisa que eu precise saber?
Dona Verônica me contou sobre o dia a dia de Rodrigo e mostrou-me sua agenda. Realmente, teria muito trabalho como sua nova assistente e, em alguns casos, teria que resolver questões relacionadas à empresa de que ele não poderia cuidar.
Quando ela terminou de me dar todas as suas orientações, pediu-me para eu começar amanhã mesmo, pois, como ele estava sem assistente, as coisas e o trabalho se acumularam. Apenas concordei, balançando a cabeça e ouvindo suas últimas ordens, depois me retirei de sua sala. Peguei meu celular e disquei o número de Pietra, que atendeu na segunda tentativa. E comentei eufórica e feliz:
- Pietra, eu consegui o emprego! Preciso comemorar com você.
- Eu sabia que você conseguiria, sua vadia! Você sempre foi muito inteligente. Fico feliz por você, mas como eu já tinha certeza da sua vitória. Comprei algumas garrafas de cerveja e petiscos para comemorarmos...
- Eu não acho que seja uma boa ideia! Tenho que trabalhar amanhã.
- Ah, Zara, não estrague esse momento. Algumas garrafas de cerveja não vão fazer você perder o emprego. Agora você pode pegar suas coisas e vir para minha casa. Não precisa mais aguentar aquelas duas bruxas.
- Você tem razão! Meu apartamento está quase pronto. Foram muitos anos economizando, mas agora morarei na minha própria casa. Pegarei minhas coisas. Te vejo em uma hora. Desligarei e pegarei um táxi aqui.
Pietra concordou comigo e encerrei a ligação. Realmente, ela estava certa. Era hora de sair daquela casa. Decidi ir pegar minhas coisas de uma vez por todas. Quando entrei, percebi que a casa estava silenciosa. Ótimo! Assim, não tenho com quem me preocupar.
Peguei meus documentos e minhas malas e comecei a arrumar minhas roupas e objetos. Assim que estava saindo do meu quarto, encontrei minha tia e uma amiga dela na sala. Ao me ver, ela disse, séria:
- Finalmente, sua inútil! Onde você estava para se vestir tão formal e elegante? Tire isso e vá fazer café para servir à visita.
- Se você quer que sua amiga beba café, faça você mesma. Eu não vou mais obedecer nem acatar suas ordens. Apesar de ser minha tia, você não passa de uma bruxa velha. Meu pai está cego e não percebe que você se aproveitou da morte da minha mãe para tomar o lugar dela. - ela caminhou rapidamente em minha direção e levantou a mão para me acertar um tapa.
Mas, dessa vez, segurei sua mão com bastante força. Ela disse, cheia de sarcasmo:
- Escuta aqui, Zara. Você me respeita, além de ser sua tia. Também sou sua madrasta. Pensa que seu pai não ficará sabendo desse seu comportamento? Solte meu braço agora mesmo.
- Nunca mais se atreva a me bater, Madalene. Você não é minha mãe. Essa foi a última vez que você tocou em mim. Se tentar de novo, vai se arrepender. Avise ao meu pai que estou indo embora. Não aguento mais ficar aqui com vocês duas. Mal suporto olhar mais para essa sua cara pintada de maquiagem que mais parece uma palhaça. Prefiro morar na rua do que ficar na mesma casa com você e sua filha.
A empurrei para trás e segui em direção à porta. Antes de sair, ouvi minha ela dizer, com certo deboche, como se estivesse feliz por eu ter finalmente tomado aquela decisão:
- Pois saiba de uma coisa, você já vai tarde! Pelo menos eu não terei que te aturar mais na minha casa, sua bastarda encostada.
- A única encostada aqui é você, sua vagabunda oportunista! Não se esqueça de que essa casa era da minha mãe. Eu não sei como ela nunca desconfiou da cobra que tinha como irmã ao seu lado. Sabe, Madalene, em uma coisa fico feliz: você também não durará nessa casa. Espero que logo meu pai arrume uma amante mais nova e dê um pé na sua bunda com essa sua filha. Agora, eu não perderei mais meu tempo, porque é um alívio sair desse inferno. Finalmente viverei a minha vida. Não sou obrigada a ficar sendo capacho de uma puta velha enfeitada e brega. Vá para o inferno...
Saí caminhando, sentindo a liberdade sobre minha cabeça. Nunca mais teria que suportar aquela mulher. Não me importava se meu pai não gostasse de saber que saí de casa. Ele só acreditava nas palavras dela. Se o vi muito, foi apenas uma ou duas vezes quando estava em casa, então não faria falta.
Madalene nunca me deixava chegar perto dele. Ele já me esqueceu como filha e faria o mesmo, deixando de lembrar que eu alguma vez tive um pai.
Uma nova vida me aguarda daqui para frente, com várias possibilidades. Eu só quero esquecer aquele maldito passado que vivi nos últimos anos e construir uma carreira profissional. Quero ser poderosa e bem-sucedida. Por um momento, lembrei da minha mãe. Se ela estivesse aqui, estaria feliz com cada progresso meu.
Já se passaram 13 anos desde que ela faleceu. A única coisa que ainda mantenho viva são as lembranças e os momentos felizes ao seu lado. Até aquele maldito acidente, até hoje não, temos qualquer tipo de pista de quem o provocou.
Minha mãe acabou não resistindo aos ferimentos e faleceu. Meu pai ficou inconformado e jogou a culpa em mim. É claro que Madalene também teve culpa nisso, pois ela dizia que eu era culpada por tudo. Olhei para o céu mais uma vez enquanto estava no carro e pensei:
"Eu me sinto tão sozinha, mãe. Só queria que a senhora estivesse aqui! Já passei por tanta coisa e sempre tive que ser muito forte para não enlouquecer. Mas ainda conquistarei o meu lugar no mundo e serei muito feliz."
Cansei da vida me dando migalhas. De agora em diante, cada lágrima será esquecida, e as noites tristes serão apagadas da minha memória. Desde que aprendi a ser sozinha e me amar em primeiro lugar, cada tombo que levo me faz levantar ainda mais forte.
༺ Rodrigo Garcez ༻
Meu dia não começou bem. Estava atrasado para uma reunião quando, acidentalmente, recebi um banho de café de uma garota desastrada no caminho para o elevador. Inicialmente, briguei com ela, mas ao ver seu rosto lindo e sua expressão arrependida, rapidamente me acalmei. Seu rosto de anjo e aqueles olhos verdes tristonhos me fizeram sentir pena de ter agido assim.
Ela tentou me ajudar, mas só piorou a situação na minha roupa. Felizmente, sempre ando com um paletó reserva, e uma secretária me ajudou trazendo a trocar de roupa.
Não posso faltar à reunião. É crucial para o Grupo Garcez. Foram meses de negociação com esses empresários australianos para conquistar este contrato de investimento em petróleo. Preciso ser convincente e convencê-los a assinar conosco.
Cheguei ao prédio onde ocorreria a reunião e respirei aliviado. Estava marcado em um restaurante chique de Nova York, com uma vista deslumbrante. Meu sócio, ao meu lado, cumprimentou os empresários e iniciou a discussão, enfatizando o investimento que iríamos fazer.
O grupo se interessou e decidiu assinar um contrato de dois anos, prorrogável com base nos resultados. Patrick ficou feliz com o negócio fechado, e no helicóptero, a caminho da partida, sorriu e disse:
- Nossa, mas foi tão fácil como passar manteiga no pão! Tenho certeza de que eles vão adorar o nosso trabalho, Rodrigo, e vão querer prorrogar esse contrato.
- Calma! Não vamos com tanta sede ao pote, meu amigo. Uma coisa de cada vez. Trabalharemos direito e entregaremos o projeto para que eles fiquem satisfeitos. Assim, quem sabe, eles resolvem prorrogar esse contrato. Já é uma grande vitória conseguir dois anos à frente das demais empresas. - Patrick concorda comigo e responde, lembrando de um dos executivos.
- Sabe? Aqui entre nós, foi tão engraçado ver aquele executivo, Rodrigo. Aquele cara devia fazer a sobrancelha, lembrou-me até o desenho do Naruto, onde ele chama um dos ninjas de sobrancelhudo. Na hora, tive que me controlar para não rir da situação que minha cabeça me pregava naquele momento.
- Meu Deus! Você é terrível. Já pensou se tivesse dado risada? Com toda a certeza, o homem questionaria o motivo. Não faça mais isso. Quando for assim, levante-se e diga que vai um instante ao toalete. Eu não gosto de perder negócios e muito menos o meu tempo com palhaçada, Patrick! - ele percebeu que afirmei isso sério, mas não se importou em soltar uma gargalhada e respondeu.
- Ah, amigo, me desculpe. Não tem como evitar isso. O cara parece que nunca ouviu falar numa lâmina de barbear, parecia um homem das cavernas. Se ele tiver pelos assim no corpo, como tinha na sobrancelha, coitada da mulher dele.
- Patrick, seria melhor você calar a boca! Você está sendo um idiota. Desde quando a intimidade do cara é da sua conta? - ele me lança um olhar malicioso e responde:
- Nem quero pensar sobre isso! Já imaginou quando ele está fazendo aquelas coisas na hora H? Nossa, quantos pelos será que o...
- Já chega, essa conversa está ficando estranha demais! Proponho mudarmos de assunto. Eu realmente não quero saber da vida sexual do cara.
Ele soltou uma gargalhada e mudamos de assunto para algo relacionado à empresa. Era por volta das quatro da tarde quando percebi alguém batendo na porta e entrando. Era Dona Verônica, que sorriu e me disse:
- Olá, meu querido! Então, eu já contratei a nova assistente. Ela começa amanhã.
- Nossa, finalmente! O que essa pessoa tem de especial? Por que você dispensou todos os outros candidatos ao longo da semana? Ninguém tinha lhe agradado. - ela olha algo na sua prancheta e responde de forma dócil.
- Lembra que você estava procurando alguém que falasse mandarim? Então, ela fala essa língua e também tem um currículo ótimo. Só não tem experiência, não posso esconder isso de você, chefe.
- Se ela aprende rápido, não tenho do que reclamar. Mas me diga: como é o nome da sortuda? - percebo que dona Verônica desvia os olhos antes de dizer.
- Não posso esconder isso do senhor chefe também. Foi a garota que derrubou café em você mais cedo.
Olhei surpreso para ela. Realmente, a garota deveria ter um bom currículo para passar na seleção. Só esperava que esse desastre dela não lhe acompanhasse. Cocei a cabeça preocupado e respondi, olhando para dona Verônica.
- Meu Deus! Só espero que ela não me jogue café novamente. Dona Verônica, você poderia ter escolhido outra candidata, hein?
- Mas é porque ela tem um currículo bem capacitado, meu querido. Veja só. - peguei o currículo de suas mãos e verifiquei as qualificações da garota, que se chamava Zara.
Fiquei surpreso com suas habilidades e qualidades. Ela parecia ser muito esforçada e inteligente. Passei a mão na barba e disse:
- Realmente, o currículo dela é perfeito! Faremos um teste de 6 meses. Se ela passar, poderá trabalhar por mais tempo ao meu lado. Agora, preciso resolver algumas coisas. Tenho uns e-mails para responder. Se precisar de algo, me avise, Verônica...
Ela concorda e se retira da minha sala enquanto começo a checar meus e-mails. Vejo que tem uma nova mensagem de Márcia. Que garota insuportável! Até a excluo da minha caixa de entrada. Meu amigo me apresentou para ela, desde então ela vive infernizando minha vida. Notei na hora que ela era uma interesseira. Odeio mulheres desse tipo e não quero nem sequer perto de mim. Que ela vá dar um jeito de ganhar seu próprio dinheiro.
Trabalhei muito cedo para conseguir tudo o que tenho e não suporto mulheres desse jeito, que vivem caçando um homem rico para casar. Não é que eu seja pão duro, mas sou o tipo de pessoa que percebe o interesse de certas mulheres por mim. Geralmente, não é por minha pessoa que elas se interessam, e sim pelo meu dinheiro. Só quero alguém ao meu lado que me ame de verdade.
De repente, o rosto daquela mulher de mais cedo surge em minha mente. Seu jeito desastrado e preocupado era engraçado. Sorrio ao lembrar disso. Ela parecia ser uma menina muito simples, porém com um futuro promissor. Coloquei meu paletó para ir embora. Finalmente, meu expediente havia chegado ao fim, e eu poderia ir para meu apartamento.
Assim que cheguei na entrada do meu condomínio, vi Márcia. Meu motorista me olhou por um momento, e eu disse para ele passar direto. Era só o que me faltava: essa garota está me perseguindo de todas as maneiras! Eu não suporto isso.
Ela se colocou na frente do carro e perguntou por mim. Meu motorista apenas confirmou que eu não estava lá, pois ele só havia vindo até meu apartamento para buscar uma mudança de roupa para mim. Márcia tentou conversar um pouco mais, mas ele encerrou o assunto e fechou o vidro. Ótimo, eu não quero ter nenhum tipo de contato com ela. Quem sabe, evitando-a, ela me esqueça mais rapidamente.
Quando entrei em meu apartamento, tirei meus sapatos e me joguei no sofá. Nossa, que dia estressante! Ainda bem que a reunião acabou bem. Agora eu poderia relaxar e me preocupar com outras coisas. Andei até meu quarto e decidi tomar um banho; só queria minha cama.
Na manhã seguinte, eu estava mais disposto. Assim que cheguei à empresa, vi a garota de ontem. Ela se aproximou de mim sorrindo e me entregou um copo de cappuccino. Até olhei surpreso pelo gesto. Dessa vez, ela não me jogou nada para que eu me queimasse.
- Senhor Rodrigo! Tomei a liberdade de preparar um cappuccino para você, para me desculpar pelo que aconteceu ontem.
- Nossa, obrigado! Muito gentil da sua parte. Você já sabe quais são suas funções? Porque preciso de uma pasta importante! - ela foi até sua mesa, pegou alguns papéis e respondeu com um sorriso.
- Está aqui! Como cheguei cedo, organizei tudo para que o senhor não precisasse se preocupar em procurá-la. Dona Verônica já me colocou a par de quase tudo. Estou deixando tudo bem organizado.
- Isso é perfeito! Continue assim e você ganhará pontos comigo. Bom, eu entrarei, porque tenho uma videoconferência. Se eu precisar de algo, eu te chamo. - ela balançou a cabeça, concordando e respondeu:
- Perfeitamente, senhor! Será um prazer auxiliá-lo no que for preciso. Que você tenha uma ótima reunião.
Assenti e entrei na minha sala, soltando um suspiro e pensando: "Lá vamos nós para mais um dia de trabalho. Só espero que essa nova assistente não me apronte mais nada. Fiquei um pouco traumatizado quando ela derramou café na minha roupa. Minha sorte foi que não estava quente demais, mas foi bem assustador."
Mas tenho que entender que ela poderia estar nervosa ontem e acabou acontecendo aquele desastre todo. Decidi focar no meu trabalho, pois tenho muitas coisas para resolver e outra reunião para liderar. A vida de um CEO nem sempre é fácil, há tantas coisas para fazer. Fico me perguntando como dou conta de tudo. Isso nem sempre é fácil.
Era por volta das 15:00 da tarde quando Zara apareceu com uma pasta de arquivos para me entregar. Observei a funcionária dessa vez calmamente e percebi o quão bonita ela era. No entanto, não acredito que seja o tipo de mulher que esteja procurando um relacionamento. Ela me tirou da minha distração ao comentar:
- Então, Senhor... está tudo aí, o que havia pedido para mim mais cedo?
- Ah, sim, acredito que sim. Deixa eu verificar logo. - abri a pasta e a examinei seriamente.
Por que não consigo evitar o contato visual com essa garota? Novamente, ela interrompe meus pensamentos, dizendo:
- Bom, qualquer coisa, o senhor me chame se precisar de algo!
- Zara, desculpe-me por perguntar algo assim a você. Sei que não é assunto da empresa, mas você tem namorado? - percebi que ela ficou vermelha imediatamente com essa pergunta e respondeu meio desconfiada.
- Como é? Senhor, eu não entendi a sua pergunta? O senhor está me questionando se tenho namorado?
Caramba, e agora o que direi para ela? Com toda certeza, ela quererá saber por que estou querendo essa informação se ela é solteira, mas darei um jeito de disfarçar a situação.
- Bom... Zara, é que geralmente todas as minhas assistentes acabavam deixando o cargo pelo serviço pesado ao meu lado. Seus parceiros as cobravam demais, e eu queria saber se você é uma pessoa totalmente disponível ou tem alguém na sua vida?
- Ah! Não, senhor. Nem se preocupe com isso. Sou uma mulher solteira e estou procurando um rumo na vida. Não planejo arrumar compromissos agora. - não pude evitar sorrir ao saber que ela não tinha namorado, mas sabia que teria que ter bastante cuidado se quisesse que ela me notasse.
- Sendo assim, fico mais aliviado sabendo que não estou atrapalhando sua vida sentimental. Estava analisando os papéis e não se preocupe, tudo que preciso atualmente está aqui...
- Nesse caso, vou cuidar das outras tarefas por enquanto, senhor. Com licença.
- Está certo. Cuide das coisas da melhor maneira possível! Se precisar de ajuda, não hesite em procurar a Dona Verônica. Até mais, Zara.
Ela concorda com minhas palavras e sai da minha sala. Percebi que a nova assistente parece um pouco desconfortável na minha presença, suas bochechas estão ruborizadas. Será um sinal de que ela também está atraída por mim? Isso passa pela minha mente naquele momento.