"Hoje é o aniversário de 25 anos de casamento dos meus pais, então decidi escrever sobre eles aqui no blog.
Tudo começou em 1994, na viagem que meu pai fez após sua formatura. Ele conheceu Marta, minha mãe e naquele verão se amaram intensamente.
Roberto e Marta se entregaram sem nenhuma cobrança e quando o verão acabou ele voltou para São Paulo e ela seguiu sua vida ali em Santos.
No ano seguinte quando ele tratava de negócios com a dona de uma floricultura os dois se reencontraram. Para resumir a história ela havia se mudado e trabalhava lá agora.
Chame de sorte, destino ou Deus, o que importa é que uma força no universo conspirava em favor deles.
Voltaram a sair e quatro meses juntos decidiram se casar, mesmo que os pais fossem contra um casamento tão rápido eles seguiram em frente.
Um mês depois de casados veio à notícia, mamãe estava grávida de mim, Emma. Três anos mais tarde veio meu irmão Cristian.
E vinte e cinco anos depois de terem se conhecido ainda estão apaixonados e em lua de mel, como sempre dizem. Então para esse casal que adora celebrar o amor: meus parabéns, que venham mais e mais anos de felicidade!".
Fechei meu notebook e fiquei pensando como o tempo passava rápido, há sete anos estávamos acabando o ensino médio, eu, Caio e Jenny montamos este blog "junto e misturado", porque era assim que chamavam nosso trio, foi uma tentativa de nos manter unidos mesmo com toda a loucura das nossas vidas.
Fizemos planos para a faculdade e sobre como organizar todo o nosso futuro sem nunca deixar de lado nossa amizade. Afinal Caio estaria em Campinas cursando medicina, Jenny viajando pelo mundo fazendo reportagens importantes para a revista de seu pai e eu em São Paulo fazendo arquitetura, usaríamos o blog para nos manter informados sobre os acontecimentos da vida um do outro, não importando quanto tempo passássemos sem nos falar, poderíamos simplesmente entrar e atualizar nossas fofocas.
Poucas coisas ainda permaneciam de pé depois de todos esses anos.
- Chega de nostalgia por hoje! - murmurei jogando às cobertas para o lado, pronta para me levantar e encarar o dia.
Tomei um banho rápido, escovei os dentes e peguei a roupa mais confortável para o dia na loja. Depois de uma maquiagem rápida desci às pressas, queria passar um tempo com meus velhos antes de correr para a floricultura.
Logo Cris chegaria e junto com ele a nossa surpresa para o casal.
- Bom dia família! - gritei animada, após jogar minha bolsa e os sapatos na porta da cozinha.
Meu pai estava passando café e impregnando a casa com aquele cheiro maravilhoso, o bom café. Eu sabia que ele já tinha levado o café na cama para mamãe, pois já era uma tradição de aniversário.
Ela agora o observava caminhando pela cozinha com sorriso de orelha a orelha. Não queria nem imaginar o motivo do sorriso, mas tinha certeza de que não era pelo simples café na cama, mas algo que envolvia a cama definitivamente.
- Bom dia filha. - ela respondeu finalmente desviando os olhos do marido e estalando um beijo em minha bochecha quando me alcançou, só para voltar os olhos para seu homem a beira do fogão.
- Bom dia. - papai disse se juntando a nós e colocando a garrafa de café cheia na mesa. - Sente-se e coma. - ordenou sorrindo e indo abraçar sua amada.
Vocês devem pensar que esse grude seja apenas pelo aniversário de casamento, mas não se enganem, é assim o bendito tempo todo. Eu e Cris crescemos no meio de toda essa babação e demonstrações de afeto. Às vezes até publicas de mais, como na vez que eles foram pegos transando em um banheiro nas bodas do nosso avô, mas sempre fomos ensinados que se tem amor não tem do que se envergonhar.
Claro que essa parte Cris entendeu totalmente o contrario, no caso dele está mais para: se tem tesão não tem do que se envergonhar.
- Como se precisasse implorar. - murmurei já me servindo, só o cheiro delicioso estava fazendo meu estômago roncar.
- Bom dia! - Cris exclamou feliz fazendo uma entrada sorrateira pela porta dos fundos. Era só pensar no rabudo que ele aparecia. - Feliz aniversário de casamento. - murmurou jogando seus braços em volta dos dois e os abraçando apertado.
- Pelo menos um de nossos filhos não é um completo esquecido! - meu pai resmungou me assistindo devorar o pão.
- Ora ora, eu não esqueci, vocês deveriam dar uma olhada no blog e... - olhei para o relógio na parede. - Seria bom que fossem abrir a porta.
- Mas não tocaram a campainha... - foi tudo o que mamãe teve tempo de falar, poucos segundos antes do som solene da campainha a deixar intrigada.
Ergui as sobrancelhas ao ouvir o som e sorri para o meu irmão de forma conspiratória. Fazia algumas semanas que planejávamos aquela surpresa para os dois e tinha certeza que iriam adorar.
- Como você está, princesa? - Cris perguntou se sentando ao meu lado e cutucando meu prato.
Se havia algo que ele amava fazer era roubar comida dos pratos alheios, mas coitado de quem usasse tocar na comida dele, o bicho se manifestava. E isso não se aplicava a pratos apenas, se é que me entendem.
- Eu estou ótima e você? - respondi enquanto comia o mais rápido que conseguia, antes que ele pegasse o resto do meu café.
- Bem também. - ele já estava com a boca cheia e se preparando para colocar um pedaço de bolo inteiro na boca.
Era a educação em pessoa.
Lhe dei uma cotovelada gargalhando de seus hábitos animalescos na mesa, mas já estava acostumada, e antes que ele revidasse escutamos os gritinhos de euforia da mamãe e sorrimos sabendo que tínhamos acertado em cheio.
- Ai meus filhos como vocês são uns amores! - ela falou correndo para nos abraçar já com lágrimas nos olhos.
O presente deles estava no colo de papai, um cachorro que estava há um bom tempo para adoção e que por meses mamãe estava namorando-o na vitrine da petshop.
Além do bichinho havia duas passagens, meu pai, que agora seria obrigado a tirar às suas merecidas férias, nos olhava com um sorriso largo no rosto sabendo que fizemos aquilo para que ele não tivesse como rejeitar.
Tínhamos comprado passagens para Paris. Se quisesse fazer com que meus pais curtissem uma viagem sozinhos teria que ser na base da força, eles se privavam desses pequenos luxos por conta do trabalho e da família.
- Vocês não tem jeito! - papai murmurou entrando no meio do nosso abraço desengonçado. - Obrigado meninos.
- E o bolo? - Cris questionou pulando para fora do abraço e fazendo seu apetite desenfreado ser lembrado.
- O bolo fica por conta da Em. - minha mãe falou, lhe dando um prato para que ele parasse de comer com as mãos e se sentasse de uma vez.
Como se algum dia ele fosse deixar de ser o ogro que era apenas porque ela pedia.
- Apareça de noite e então terá o seu bolo. - murmurei pegando o novo integrante da família no colo. - Você pode trazer a Margo. - o provoquei apenas para vê-lo ficar vermelho.
Mas não se enganem, não havia nada de vergonha ali e sim irritação, ele fugia de contar sobre qualquer um de seus casos, em especial para nossa mãe.
- Margo? O que têm a Margo? - meu pai questionou um tanto desinteressado, preparando seu prato.
- A secretária do seu pai? - nossa mãe entrou na conversa falando mais alto, já o encarando com vários questionamentos se formando em sua cabeça.
Já era de conhecimento geral que não agradava ela nenhum pouco que seus dois filhos, eu com vinte e cinco anos e Cris com vinte e dois, não estivéssemos em nenhum relacionamento sério e muito menos que não parecíamos inclinados a ter um.
- Mãe, pai, não deem atenção a essa maluca. - ele rosnou me fuzilando com os olhos.
Nós dois sabíamos que a qualquer sinal de envolvimento mamãe se meteria e faria de tudo para que o relacionamento desse certo. Em especial com ele que sempre estava trocando de mulheres como quem troca de roupa, nenhuma parava na vida dele por muito tempo.
- Sim, ela mesmo mãe. - continuei entregando-o de bandeja para meus pais. - Vai negar, Cris? - o provoquei mais uma vez antes de ir embora, adorava tripudiar em cima daquele safado sem coração que adorava usar às mulheres ao seu bel prazer.
- Negar o que Emma? - a voz baixa soou como um aviso, mas eu nem me preocupava, Cris era inofensivo.
- Que você e a margo estão saindo! - soltei a bomba, já tinha calçado os sapatos e pegado minhas tralhas, pronta para fugir do ataque de perguntas de mamãe e da raiva de Cris.
- Quem te falou isso? - seus olhos arregalados não escondiam que era verdade, mas seu rosto vermelho mostrava que mais um pouco e ele pularia em cima de mim.
- Eu não preciso de ninguém para me contar, vi como você ficou quando ela chegou no último jantar aqui em casa, como vocês se olhavam. - resmunguei já preparada para correr a qualquer movimento dele. - E também ouvi uma conversa sua com ela outro dia. - contei todos às pequenas coisas que percebi sobre esses dois nas últimas semanas.
Meu pai brincava com o filhote peludo, enquanto minha mãe me encarava fascinada, como se eu estivesse explicando algum segredo complexo do mundo.
E se tratando do meu irmão saindo com alguma mulher mais de uma semana era quase isso.
- Você é uma pessoa horrível sabia? - ele bufou desanimado já lançando seu olhar de "pobre coitado" para nossa mãe.
- Por que vocês acham que tem que esconder às coisas de nós? - meu pai nos questionou sorrindo, já sabendo qual o real motivo do desconforto do filho.
- Porque são meus pais? Não acho que precisem saber de tudo da minha vida. - Cris reclamou amuado.
O desgraçado era cheio de truques para fazer qualquer um cair em sua lábia. O encarei balançando a cabeça diante de sua cara de pau em se fazer de vítima.
- Não vejo nenhum problema em vocês saírem, desde que não misturem nada com trabalho. - meu pai finalizou o assunto, já que os três trabalhavam no mesmo escritório às coisas poderiam sair do controle.
- Pode deixar pai. - Cris pigarreou enquanto me lançava um olhar altivo, de quem tinha vencido.
Céus! Como éramos infantis.
Desde pequenos sempre fomos competitivos um com outro, mas se nos juntássemos contra alguém éramos imbatíveis, ninguém conseguia nos vencer em nada que decidíssemos fazer unidos.
- Emma, por favor, fique longe dele ok? - mamãe disse pegando o cachorrinho do meu colo e sendo super protetora como sempre. - E com você converso depois rapazinho. - falou encarando Cristian, ele não se livraria tão rápido dessa, ela não ia deixar passar.
- Mamãe eu estou bem. - murmurei contrariada com seu cuidado extremo. - E por favor dê um nome à ele. Já vou indo, alguém tem que trabalhar nessa casa. - os beijei e beijei Cris sorrindo do seu bico de menino mimado. - Sabe que te amo. - sussurrei e segui para porta, mesmo querendo passar o dia em casa com eles.
- Até a noite Pandinha! - o ouvi gritar antes que fechasse a porta e sorri ao ouvir me chamar assim, pelo meu apelido de criança.
O tempo estava como que por um milagre limpo, dificilmente em São Paulo se vê algo assim, mas nunca podia faltar um guarda chuva e uma blusa de frio no kit de sobrevivência paulista.
Um dia e três estações, era quase mágico se não fosse trágico.
- Bom dia Lise. - cumprimentei Elizabeth, a morena maravilhosa que estava encostada a porta da loja me esperando, com uma cara não muito boa.
Elizabeth tinha trabalhado com minha mãe na outra floricultura, até que abrimos mais uma e ela veio me ajudar.
Nossa amizade tinha começado aos poucos, mas ela era agora a primeira pessoa que eu contava qualquer coisa e confiava plenamente. Apesar de não ser cem por cento recíproco, já que ela tinha segredos bem guardados
- Bom dia Em, como você está? Lembre-me de dar os parabéns aos seus pais. - resmungou me ajudando a levantar a pesada porta da floricultura para começar nosso dia.
- Hoje à noite faremos uma festinha, está convidada. - isso era mera formalidade, já que era de praxe todos os amigos e afins fazerem parte de qualquer comemoração na nossa casa, por menor que fosse.
Batizado, estavam todos lá; aniversários, todos enchiam a casa; velórios, não era diferente; formaturas, feriados, comemorações sem sentido algum, não importava o motivo, se convidássemos um ou dois sabíamos que todos viriam também.
- Ótimo, adoro as festas na casa de seus pais. - ela riu cheia de insinuações sacudindo as sobrancelhas e já voltando para a calçada com vasos cheios de flores nos braços.
Como disse meus pais não sabiam ser nada discretos, imagine então os amigos desses dois. Pare para pensar que mamãe era de uma época hippie, então a maioria dos tios postiços que tenho também são da mesma pegada. Musica alta, dança, comida e sem hora para acabar.
O dia passou rápido, por algum motivo as pessoas não estavam dadas a comprar flores hoje. Na verdade homens, em sua maioria. O movimento maior eram nas sextas e sábados, nada como conquistar alguém com um belo buquê.
Dei graças aos céus que assim pudemos fechar mais cedo e eu corri para casa a fim de fazer o bolo da noite.
Era sempre assim desde que havia aprendido a fazer bolos deliciosos, qualquer desculpa era válida para me fazerem ficar na cozinha e eu não reclamava, era realmente uma terapia cozinhar.
Já passava das sete quando os convidados começaram a chegar e eu já estava morta, meus pés pediam por descanso depois do dia em pé na floricultura e depois na cozinha. Mesmo assim eu não podia deixar de curtir a noite com todos os tios e tias que eu tinha ganhado bem antes de nascer.
Eu adorava todos eles, éramos como uma família enorme, meio maluca e cheia de nuances. Era perfeita.
A música alta nos embalava levando todos a dançar, não importava se tocasse Beatles ou Beyonce, todos se apertavam para cantar ou balançar o corpo ao som.
Como sempre a "festinha" virou um festão, mais e mais pessoas chegavam, pessoas além do que prevíamos como sempre. Mas o que podíamos fazer se a cada ano às famílias amigas cresciam, para infelicidade da minha mãe isso não se aplicava à nossa.
Como se sentisse responsável por mudar aquilo assim que ela avistou a pobre Margo, fez questão de não perdê-la de vista. Agora seria só questão de tempo para Cris fugir da garota, apenas para tirar da cabeça de nossa mãe a ideia de um possível casamento.
Não levem a mal, Cristian não era um canalha por completo, só não conseguia se comprometer com ninguém, além da família e amigos ninguém fica na sua vida por muito tempo.
Tirando a parte do mulherengo não tinha uma pessoa mais doce e sincera que ele. Nossa pouca diferença de idade nos fez crescer mais unidos do que qualquer irmãos que eu conhecia.
- Você pode pelo menos disfarçar Emma. - Cris sibilou no meu ouvido me assustando. - Mamãe está à noite toda como um urubu atrás da garota.
- Deus sabe que ela só precisava de um pouco de esperança para continuar vivendo. - debochei, gargalhando em seguida com sua careta.
Cris puxou meu corpo começando a dançar em volta da sala, me obrigando a controlar meu surto de riso assim que viu que tínhamos chamado a atenção de algumas pessoas, em especial das duas mulheres que ele estava evitando como se fosse o próprio diabo.
- Obrigado por fazê-la me notar aqui. - ele resmungou ainda balançando nossos corpos ao som de Treasure do Bruno Mars.
- Você não vai afastá-la só por causa da mamãe, certo? - perguntei mesmo já sabendo a resposta.
- Todos tem sua hora de ir Emma, sabe que detesto despedidas, então uma mensagem com um emoji quem sabe. - encarei o homem a minha frente que olhava para a bela mulher do outro lado da sala enquanto calculava o que fazer para afastá-la de sua vida, e meu peito doeu por ele, eu sabia o que tinha causado tudo aquilo e isso me magoava ainda mais.
Meu irmãozinho era lindos, os cabelos castanhos ondulados lhe davam um ar descontraído e molecão que eu sabia que ele era, quando estava de terno era a perdição das mulher, mas quando não usava nada além de shorts para correr causava problemas de torcicolo. Isso sem falar no sorriso, sabe aqueles homens que você olha e fala céus que lindo e assim que ele abre o sorrisão bonito e sexy você diz não vale nada, mas eu sentava? Esse é meu irmão.
Doía saber que ele nem ao menos se dava a chance de amar e ser amado. Deus sabe que se eu pudesse estaria fazendo isso.
- Cris, não precisa fugir sua vida toda. - murmurei chamando sua atenção de volta a mim.
Quando seu olhar encontrou o meu não precisou nenhuma palavra sobre o que se passava em nossas mentes. Cris apenas desviou o olhar, já tomando distancia e se fechando.
- Agora não. - falou batendo nos bolsos até achar às chaves do carro. - Essa é minha deixa para curtir a noite fora daqui. Tchau pandinha. - acenou já a caminho da porta.
Encarei minha mãe, que agora estava de cara feia do outro lado da sala, e só pude dar de ombros, não queria estragar a noite dela também com velhos problemas nossos, então o melhor era me fazer de desentendida, estávamos aqui para comemorar e não chorar.
E foi isso o que fiz, rodei pela casa conversando, comendo e dançando, não havia coisa melhor.
Depois de altas horas conversando, rindo e dançando eu me rendi ao cansaço e fui para a casa com Lise, a última coisa que precisava no dia era ouvir a festa obscena e nada discreta dos meus pais na noite de aniversário.
A semana passou rápido a quinta já havia chegado, meus pais já iriam viajar no dia seguinte e eu estava eufórica. Não me lembrava quando tinha sido a última vez que esses dois tinham tirado mais do que apenas um par de dias para ficarem juntos, sem filhos, sem trabalho, sem família.
- Eu já falei que não dá amor. - ouvi a voz mansa do meu pai atravessar a porta do quarto enquanto me arrumava para o trabalho.
- Então eu não vou! - foi a resposta decisiva e alta de minha mãe.
Abri a porta do quarto apenas a tempo de só ouvir seus passos firmes descendo as escadas.
- O que foi? - questionei olhando meu pai parado na soleira da porta encarando o caminho que a mulher tinha acabado de fazer.
Ele estava com uma cara péssima, o que significava que além da pequena discussão ele estava com problemas na empresa e não tinha colocado para fora. Era sempre assim, uma coisa levava a outra.
- Sua mãe não tem jeito, quando ela coloca uma coisa na cabeça é impossível alguém tirar. - ele disse, parecendo cansado de mais para explicar os motivos, antes de voltar para o quarto.
Já vi que teria que arrancar dela o que estava acontecendo.
- Mãe? - gritei descendo as escadas correndo, parei analisando a sala, mas sem sinal dela. Apenas a porta de correr que dava para o quintal estava aberta me dizendo que ela estava ali, não foi nenhuma surpresa vê-la sentada no banquinho em baixo da árvore. - O que aconteceu?
- Seu pai não quer me deixar levar Tom na viagem. - ela resmungou emburrada.
Tom, o nome que ela decidiu dar ao peludinho não me agradou nada, mas ela era a dona então me contive em reclamar.
- Mas mamãe é uma viagem para vocês aproveitarem, sem trabalho, sem filhos, só vocês e a cidade do amor.
- Mas ele não pode ficar sozinho! - ela quase gritou alterada na defensiva.
O que estava acontecendo com ela? Não podia ser apenas isso, ela não faria esse escândalo todo por causa do cachorro.
- Obrigada pela parte que me toca. - fiz minha melhor cara de ofendida, tentando descontrair e tirar sua atenção disso para assim ela soltar a língua e falar a verdade.
- Filha sabe que não o quero perto de você, pode ficar doente. - sua voz amuada ao se referir a mim e doença em uma frase me deu a deixa.
Era isso! Sabia que não podia estar fazendo esse estardalhaço todo por nada. Lá estava novamente sua preocupação desmedida comigo atrapalhando sua vida, a vida da nossa família.
- Tudo bem, ele pode ficar com Cris. - ofereci esperançosa de que ela aceitasse e não estragasse as férias de aniversário de casamento só por minha causa.
Como se não bastasse todos os anos que minha família foi privada de ter uma vida normal, por minha causa, minha mãe ainda queria desistir de viver.
- O Cris fica tanto em casa que em dois dias ele morreria de fome. - ela completou citando um fato, meu irmão não conseguiria cuidar nem de um cacto, que dirá de um filhotinho.
- Então que tal ele ficar com a Lise? Ela pode levá-lo a floricultura durante o expediente e vou saber se ele está sendo bem cuidado ou não. - era perfeito, não tinha erro. - Pare de dar desculpas, nós duas sabemos o porquê de tanta preocupação, e eu vou ficar bem. - dei o assunto por encerrado quando ela pensou em protestar.
Ela me olhou sem graça, sabendo que havia sido pega no pulo.
Nem toda a terapia que tinha feito havia ajudado, era como se o instinto materno dela vivesse ligado em duzentos por cento vinte e quatro horas por dia, em primeiro lugar na vida dela estava eu depois a si mesma, ela simplesmente não se dava sossego.
- Ok, eu vou, mas tem que me prometer que não vai ficar com Tom por perto e tomar seus remédios direito. - ela barganhou como se eu fosse sua bebezinha ainda e não uma mulher de vinte e cinco anos. - Vou ligar todos os dias para conferir mocinha.
- Por favor, mamãe, você está enlouquecendo o papai, vá se desculpar com o homem que te ama e que a propósito está com problemas. - murmurei tirando seu foco de mim. Não ia nem responder sobre minha medicação e todos os outros cuidados que ela sabia que eu tinha todos os dias.
Releve sua mãe, era como se as palavras da terapeuta ressoassem em minha mente.
- Ele está não é? Mas nunca me conta nada sem ser pressionado. - respondeu com um sorriso sacana.
- Você sabe bem como arrancar isso dele. - insinuei e dei risada quando a vi corar, quem visse até pensaria que ela era tímida ou envergonhada.
A safada, com todo o respeito, com certeza ficou vermelha só de pensar nas coisas que faria. E foi com isso que ela me deixou ali, entrou sem mais nenhuma palavra e foi minha hora de terminar de me arrumar e correr para a floricultura, antes que Lise me matasse por deixá-la plantada me esperando.
Quando contei a Lise sobre ela ficar com Tom a garota nem hesitou, concordou já eufórica. Ela adorou a ideia, mesmo que parte de mim temesse que fosse apenas para ela ter uma desculpa de poder ver meu irmão.
Não podia aguentar a ideia de minha amiga ter uma queda por Cris, sabendo o safado incorrigível que ele era eu sofria por ela. Não era um bom caminho a se seguir.
Na manhã seguinte Cris foi levá-los ao aeroporto bem cedo e se prontificou a me pegar em casa para me deixar na floricultura.
Podem acreditar eu não tinha carta, por inúmeros motivos, mas o mais forte deles era que eu entrava em pânico com o simples pensamento de ter um automóvel sobre meu controle.
- Almoça comigo hoje maninha? - ele questionou assim que parou na porta da loja e eu me virei para esquadrinha seu rosto cínico. Ele estava fugindo da Margo. - Passa no escritório lá pelas uma, tenho uma reunião antes disso. Lise pode te levar, né.
Cris nem ao menos me esperou responder, já abrindo a porta do carro e me empurrando para fora. Um doce, o verdadeiro cavalheirismo.
Foi quase uma missão impossível manter Tom longe das flores por toda a manhã na loja. Lise e eu estávamos a ponto de enlouquecer em como a pequena bola de pelos podia ser sorrateira e terrivelmente baderneira. Era só desviar os olhos um segundo que ele estava enfiando as patas em algum vaso, ou mordendo algum fio, por isso demos graças quando finalmente deu o horário combinado.
- Cris vai me pagar por me fazer subir lá em cima. Estou morrendo de fome, ele não podia mexer aquela bunda branca e descer de uma vez. - reclamei pela ligação que tinha acabado de fazer, com a voz de sua secretária dizendo que ele ainda estava em reunião, de verdade eu estava com o estômago colado as costas a essa altura.
- E que bela bunda branca. - frisei meus olhos na direção da descarada, mas Lise só sabia gargalhar.
Céus, ela ainda nem tinha visto a bunda dele e já estava sonhando.
- Oi Emma, ele ainda está em reunião. - pela cara dela ele já tinha passado da hora e muito, a coitada parecia tão verde de fome quanto eu.
Emma: Talvez demore um pouco aqui, ele está terminando uma reunião.
- Susan, sabe o que acho melhor você ir pro seu almoço. - falei para a pobre coitada assim que enviei a mensagem para Lise.
- Não, acho melhor esperar seu irmão, talvez ele precise de algo e eu tenho que estar aqui. - a mocinha polida e prestativa como sempre. Ela teria seu couro arrancado se continuasse sendo passiva assim.
Não que meu irmão fosse folgado ou coisa do tipo, na verdade era o oposto, trabalho e família eram as únicas coisas que ele levava a sério na vida, por isso dava o sangue.
- Querida, tenho certeza que meu irmão sabe fazer muitas coisas sozinho e no seu contrato diz que você só pode sair com seu chefe? Duvido disso, então se erga dessa cadeira e vá para seu almoço. - eu sabia bem que não, aquela era uma empresa sim, mas uma empresa familiar.
A última coisa que meu pai colocaria no contrato das funcionarias seria morrer de fome esperando seu chefe na sua mesa.
E se Cris precisasse de alguma coisa ele que conseguisse sozinho, com a fome que eu estava faria ele sair voando daquela sala em alguns segundos.
A moça ainda me olhava incerta, mas eu já tinha perdido as contas de quantas vezes tive que fazer isso com as secretárias do meu pai.
- Ok, mas se ele precisar vou estar com meu celular em mãos, vou almoçar aqui mesmo na copa. - ela falava prestes a correr e minha vontade era de empurrá-la antes que perdesse mais tempo se sentindo culpada pelo idiota do meu irmão.
Me joguei largada em sua cadeira e peguei novamente meu celular para conferir se Lise tinha respondido.
Lise: Não tem problema, minha chefe também vai se atrasar kkkkk.
Enquanto digitava alguns "k" e uma resposta engraçadinha a porta do escritório se abriu e meu irmão deu o ar da graça.
Não me incomodei nem de erguer a cara da tela, já arrastando meu corpo para fora da cadeira.
- Vamos, Lise está esperando com Tom e não quero que ele faça xixi no carro dela. - murmurei sem olhá-lo.
- Emma querida, este aqui é Guilherme Monteiro. - tive que fingir olhar para o homem e murmurei um oi, pois estava mais concentrada em minha conversa com Lise. - Ora essa seja menos mal educada. - Cris reclamou arrancando meu celular de minhas mãos.
- Ei qual é o seu problema? Você que está sendo o mal educado agora! - exclamei nervosa, mas a risadinha baixa ao meu lado me fez girar nos calcanhares.
E encarar o deus grego parado ao lado do meu irmão. Seus olhos em um tom de mel ou verde, não sabia dizer ao certo, estavam espremidos por conta do sorriso imenso enquanto ele debochava da nossa ceninha infantil.
A boca era perfeita, o rosto quadrado, uma barba crescendo. Eu me perdi esquadrinhando o estranho e me peguei pensando se o cabelo de um tom de loiro escuro, ou castanho claro talvez, era tão macio quanto parecia.
Apesar de estar usando um terno azul escuro perfeitamente alinhado e desenhado em seu corpo, o cabelo com os fios longos e para trás dava um ar todo casual. Eu tive certeza de estar salivando nesse momento e, pior, que ele já havia notado minha falta de discrição em despi-lo com os olhos.
Pisquei rapidamente e desci do Olimpo, que era onde esse deus com certeza habitava, voltando para a terra.
- Está rindo de mim senhor... Como é mesmo seu nome? - questionei em um tom brincalhão, mas sem sorrir.
- Guilherme, Guilherme Monteiro. - me respondeu e estendeu a mão. Mãos grandes, largas, um aperto firme, mas gentil, Céus! - E não Senhora, não estava rindo de você, jamais faria isso. - ele falou entrando na brincadeira e tentando esconder um sorriso travesso.
- Só Emma e que bom que não está rindo de mim, seria muito deselegante e já nos basta um sem educação aqui. - rosnei a última parte me virando para meu irmão.
- Dois meu amor, não se esqueça de que você foi pior. - ele respondeu indo em direção ao elevador.
- Ora ora, não me irrite Cristian, sou mais velha que você. - o provoquei e tentei, mesmo que em vão, arrancar meu celular de suas mãos.
A última coisa que precisava agora era ficar passando vergonha, tentando alcançar meu celular enquanto aquele homem ao lado me olhava, então me limitei a fuzilar ele com o olhar, com sorte ele cairia no chão duro.
- Mais velha? São irmãos? Cris, você nunca me disse que tinha uma irmã e ainda por cima mais velha, vejam só. - disse o deus de modo galante, mais para mim que para Cris.
- Você também nunca fala de sua irmã, se não fosse a mídia jamais saberia que ela existe. - Cristian murmurou contrariado.
- Você é um galinha e eu selo pela minha irmã. - ele respondeu Cris e ponto pra ele. -Agora linda como sua irmã é quase um crime não apresentá-la para os amigos. - ele me encarou do mesmo jeito que eu havia feito segundos atrás e eu estreitei os olhos em sua direção.
Ele estava flertando comigo? É isso mesmo produção?
Bem se ele era tão bom amigo assim do meu irmão deveria valer tanto quanto o mesmo, ou seja, nem um tazo furado.
- Emma é melhor descermos, Lise acha que Tom vai fazer o número dois. - Cris quebrou a áurea esquisita entre nós e eu o peguei sorrindo enquanto mexia desavergonhadamente no meu celular.
- Não dentro do carro!!! - quase gritei e corri para o elevador - Andem vocês dois, eu não vou ser responsável de limpar a sujeira dele. - eles entraram rapidamente foi ai que notei não ter pegado meu celular de volta. - Com licença. - disse tomando o celular de Cris, que ria de algo que leu.
Lise: Emma anda logo, se ele fizer cocô no meu carro eu vou sair, deixar ele lá e matar você depois.
Ao que meu irmão respondeu:
Emma: Deixe-o ai, não me importa se ele fizer, estou flertando com um gato.
- Seu imbecil! - gritei ganhando a atenção dos dois - Você sabe que se ela levar essa mensagem a sério e o deixar sujar o carro vou limpar com sua cara.
- Que mensagem Emma? - o bonitão perguntou, murmurando meu nome com uma entonação de prece, não gostei nada daquilo, homens como ele eram um verdadeiro perigo.
- É Emma, que mensagem? - Cris provocou querendo colocar mais lenha na fogueira.
Nem morta eu repetiria o conteúdo da mensagem na frente dele. Fui salva pelo gongo, quando as portas do elevador se abriram e eu corri para fora.
Por sorte avistei de longe Lise e Tom, que estava no chão ao seu lado já fazendo seu cocozinho na calçada, mas o que me preocupou foi ver dois seguranças perto dela e pela postura dos dois homens a coisa não estava nada boa.
Comecei a correr só de imaginar a grande merda que iria se tornar, pois se algum deles fosse grosseiro com ela, minha amiga ia mostrar o quanto o inferno estava perto da terra.
- Lise! Lise! - eu gritei, torcendo para que chamasse a atenção do trio e os fizessem parar.
Maldita hora que coloquei saltos tão altos, era quase impossível correr com aquelas merdas. Cris passou por mim em direção ao barraco, que cada vez ficava mais escandaloso com os gritos de Lise.
- A SOLTEM AGORA! - ele ordenou antes mesmo de chegar perto, os seguranças se viraram confusos com a ordem, quando claramente o que estavam fazendo era uma ordem do superior deles.
- Senhor essa moça estacionou na vaga de seu pai e ainda soltou o cachorro para fazer suas necessidades aqui. - eu consegui ouvir quando cheguei perto o suficiente, mal reparei que Guilherme não andou nem um passo a frente, me acompanhou em cada passo.
- Fui eu que estacionei Juan, desculpe, me esqueci de avisar, e o cachorro é da mamãe. - expliquei para um dos mais velhos seguranças na empresa, ele sabia bem como podíamos ser malucos.
Apoiei-me nos joelhos tentando recuperar o fôlego. Merda, eu estava muito fora de forma!
- Você é mesmo a pessoa mais destrambelhada que existe Emma. - Cris rosnou me deixando mais fula da vida com ele. - Não podia ter avisado antes de subir.
- A culpa é sua Cristian, se tivesse atendido a ligação eu não teria subido, não teria demorado e isso não ia acontecer!
Pronto lá estávamos nós dois fazendo escândalo agora, parecia simplesmente mais forte.
- Eu estava em reunião minha querida, Guilherme e eu perdemos a hora.
- Então o Senhor Monteiro aqui tem uma parcela de culpa também. - decidi olhando o ser com pinta de modelo ao nosso lado que observava a cena com certa graça no olhar. - Ótimo mais alguém pra limpar o coco.
- Isso é uma discussão de família, como acabou em mim? - ele questionou com aquele sorriso preguiçoso no rosto, que só o deixava mais sexy e o pior é que ele sabia o efeito que tinha, dava para dizer pelos seus olhos brilhando em animação.
- Com você...
- Chega! Por mais que eu esteja adorando isso, e eu estou, quero comer e acho que o Tom também, depois da coisa linda que ele fez ali perto das plantas. - Lise nos interrompeu, colocando um ponto final na discussão idiota.
Depois de passarmos em um drive-thru decidimos ficar no parque, Tom teria espaço para correr e poderíamos comer em paz.
- Garota você não estava mentindo na mensagem, ele é um gato mesmo! - Lise comentou quando nos afastamos para ir ao banheiro.
- Eu não mandei mensagem nenhuma gata, foi o Cris. - rebati ainda irritada com a cara de pau dele. - Você acha mesmo que iria babar por um homem?
- O que eu sei é que se fosse um metido a Mr. Darcy você com certeza estaria babando, mas aquele ali amiga você tem que concordar, todas babam é simplesmente algo inevitável.
- Eu não estava, tá legal? - resmunguei. Só era o que me faltava, eu sabia que tinha reparado mais do que deveria, mas eu ia continuar negando até que o inferno congelasse.
- Se você não estava ok, mas que ele estava salivando em cima de você, isso estava!
- Hahaha. - gargalhei de verdade, com vontade, até a barriga doer. - Não viaja Lise, e vamos logo antes que eles percam Tom de vista.
Sentamos no chão embaixo de uma enorme árvore enquanto comíamos. Cheguei a pensar que o deus grego não ousaria sentar no chão e arriscar sujar o belo terno, mas ele o fez assim como todos nós.
Talvez ele não fosse tão fresquinho como pensei.
Eu e Cris brigamos quase o tempo todo, como sempre, mas Lise tratou de fazer um verdadeiro questionamento a Guilherme, ela parecia até minha mãe tentando desvendar a vida inteira de um possível candidato.
Mas eu sabia como lidar com os amigos gatos do meu irmão, tinha aprendido isso desde cedo e a maioria deles havia se tornado amigos meus também. A diferença com Guilherme era que eu não fazia ideia da sua existência, esse nome não me vinha a cabeça quando meu irmão falava dos amigos. Então acreditei piamente que essa era a razão da minha curiosidade.
Quando terminei me levantei e fui até a lixeira mais próxima, aproveitando para tirar Tom de perto de toda aquela comida, antes que ele comesse qualquer porcaria, foi então que reparei de relance Guilherme me acompanhando com o olhar.
O que diabos ele estava olhando? Será que tinha sujando meu bumbum no chão? Passei as mãos para limpar, mas não senti nada.
Distraída com o pensamento coloquei Tom no chão para fazer uma inspeção melhor, mas não levou nem um segundo para que o pestinha corresse para o lado oposto.
- Ora, Tom que diabos. VOLTE AQUI! - gritei essa última parte enquanto tentava correr com os malditos saltos.
O vi correr atrás de alguns pombos, pulando para tentar alcançá-los quando voaram, aproveitei e comecei a tirar meus sapatos para poder correr melhor, mas ele rapidamente afugentou todos e voltou a correr, só que dessa vez em direção ao lago.
- Cris, merda! Ele vai morrer! - gritei ainda correndo como uma doida, até que alguém passou correndo ao meu lado.
Até que enfim meu irmão tinha feito algo que prestasse, mas assim que se virou eu dei de cara com Guilherme, ele tinha alcançado Tom poucos passos antes que a bola de pelos caísse no lago.
Parei minha corrida inútil observando a cena e apoiei as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego. Eu precisava fazer algum exercício, estava acabando comigo essas corridinhas.
O semideus sorriu enquanto vinha em minha direção. Deus que sorriso era aquele? Imagino que ele conseguisse tudo o que quisesse sorrindo assim, principalmente calcinhas ao chão. Franzi minha testa com o pensamento, se era isso que ele estava esperando conseguir de mim estava muito enganado.
- Que merda é essa Emma? Se orienta mulher. - sussurrei pra mim mesma tentando voltar ao meu normal.
Ele chegou me entregando o meu par de sapatos.
- Oh - ergui minhas sobrancelhas, ele conseguiu parar para pegá-los e ainda alcançar Tom antes de mim. - Obrigado. - murmurei sem jeito e quando ergui meus olhos para os dele novamente ele ainda estava me encarando.
Com certeza ele me ouviu suspirar alto, pois seu sorriso de lado aumentou visivelmente, isso só ajudou a confusão em minha barriga aumentar. Eu podia dizer que era fome e não nervosismo? Podia. Me virei rapidamente para fugir dele antes que o homem acabasse com minhas estruturas.
- Você corre muito bem. - sua voz soou rouca atrás de mim. Deus porque ele queria puxar conversa logo agora?
- Não tanto para impedir que ele quase se afoga-se. - murmurei fazendo carinho no pequeno pestinha grudado contra seu peito, me distrai encarando as casinhas dos botões e torcendo para que alguma se abrisse e eu pudesse dar uma olhadinha em seu peitoral. Emma sua ridícula! - A propósito obrigado por isso também.
- De nada. - respondeu com o maldito sorriso ainda grudado no rosto. Queria lhe dar um tapa para que sumisse com aquela expressão.
- Vamos? - murmurei para meu irmão e Lise que ainda estavam sentados com um sorriso zombeteiro no rosto.
De muita ajuda os dois.
- Foi um prazer conhecê-la Senhorita. - Guilherme falou de forma galante ainda com o tom de flerte se pendurando na janela do passageiro.
Tínhamos acabado de estacionar na frente da empresa despejando os dois homens problemas e eu estava começando a me perguntar se voltaria a vê-lo. Talvez eu devesse ter perdido mais tempo admirando o homem.
- Digo o mesmo Senhor Monteiro. - murmurei entrando no seu joguinho.
- Deus, quando você me chama assim me sinto como meu pai. - dei uma risada da falsa careta que rapidamente se transformou em um sorriso sexy, fazendo com que me perdesse na sua expressão, aquilo desconcertava qualquer um. - Espero que possamos nos encontrar logo.
Ouvi meu irmão o chamando e antes que pudesse prever ele se aproximou ainda mais e me deu um beijo no rosto, um beijo demorado e perigosamente perto da boca. Me deliciei com o cheiro másculo invadindo minhas narinas, não tinha coisa melhor que homem lindo e cheiroso. Então o infeliz se afastou partindo com aquele sorriso convencido estampado no rosto.
Segui o dia tentando não pensar no sorriso ridiculamente bonito daquele homem e não me importar com os seus flertes, há muito tempo não me pegava dando atenção a esse tipo de bobagens.
Só faltava agora o destino me levar por esses caminhos tortuosos. Eu não queria me dar ao luxo de me envolver com ninguém e todos sabiam disso até bem de mais, mas o que eu poderia fazer se ele estivesse de verdade no meu destino?