A dor ardente em meu rosto foi a primeira coisa que senti.
A voz estridente da minha mãe perfurou meus ouvidos, cheia de fúria: "Sofia Mendes! Você já roubou o namorado da sua irmã Bia! Agora quer roubar o emprego dela também?"
Eu não estava morrendo no hospital como me lembrava; estava em casa, e o calendário na parede marcava 25 de novembro de 2005.
Meu coração deu um salto violento: eu havia renascido. Este era o ano em que, na vida passada, eu morreria em três meses, e meu marido, Rafael Costa, se casaria com minha irmã.
Aquela vida foi uma amarga ironia, mas de volta a este corpo, senti apenas um frio cortante.
Minha mãe contorcida de fúria, as memórias do dia vieram com clareza dolorosa: ela me culpava por "roubar" o emprego que, em sua mente, pertencia à Bia.
Na vida passada, eu cedi, desesperada por sua aprovação; liguei para a agência e desisti da vaga.
Mas agora, ouvi a voz grave de Rafael: "Mãe, a Sofia está errada. De agora em diante, ela vai entregar todo o salário para a Bia."
Ele, em seu terno elegante, exalava uma aura de autoridade que sempre me intimidou, mas agora, meus olhos ficaram vermelhos de raiva, fúria e dor.
Bia, a mestra da vitimização, lamentava falsamente ao meu lado, lembrei que ela nem sequer chamava Rafael de "cunhado".
Na mesa de jantar, o clima tenso se aprofundou. Minha mãe me fuzilou: "Pra que você serve? Nem um herdeiro deu à família Costa!"
Bia, com falsa preocupação, concordou.
A dor em meu coração era excruciante. Na vida passada, essa pressão me destruiu.
Lembrei das suas palavras: "Quero dedicar minha energia à empresa, então não teremos filhos por enquanto". Ele não queria filhos comigo.
Com um sorriso frio, larguei os talheres. "Mãe, já que quer netos, peça à Bia e ao Rafael para tê-los."
O silêncio foi quebrado pelas lágrimas fingidas de Bia. "Sofia, mamãe só estava brincando!"
Rafael, vermelho de fúria, me arrastou para fora. "Você é jornalista, precisa de provas! Acha que acredito em boatos? Vá para casa."
Ele voltou para casa e me deixou na rua. Aquele lar nunca me acolheu, aquela família nunca me amou.
Eu estava paralisada. De repente, ouvi as vizinhas: "Não é a Sofia Mendes? Dizem que as intercambistas chamam a atenção dos homens!"
Eu as confrontei: "Estão espalhando boatos! Vou processar vocês por difamação!"
Elas ficaram chocadas, e eu continuei. Rafael não voltou para casa.
No dia seguinte, fui para a Nova Era, meu primeiro dia de trabalho. A vida que eu deveria ter tido.
A dor ardente em seu rosto foi a primeira coisa que Sofia Mendes sentiu, uma fisgada aguda que a tirou de um torpor profundo e a jogou de volta à realidade. O som estridente de uma voz familiar perfurou seus ouvidos, cheia de raiva e acusação.
"Sofia Mendes! Você já roubou o namorado da sua irmã Bia! Agora quer roubar o emprego dela também? Você só vai ficar tranquila quando a levar à loucura?"
A voz era de sua mãe. O tapa, também. Sofia piscou, a visão embaçada focando lentamente. Ela não estava no hospital, morrendo lentamente como em sua memória. Estava em sua própria casa, a pequena sala de estar inundada pela luz do sol da manhã do Rio de Janeiro. Seus olhos, chocados, moveram-se instintivamente para o calendário pendurado na parede da cozinha.
25 de novembro de 2005.
Seu coração deu um salto violento. Ela havia renascido. Este era o primeiro ano de seu casamento com Rafael Costa, o ano em que ela havia retornado de sua viagem de intercâmbio. Uma onda de emoções a atingiu, a amargura da vida passada misturada com a descrença estupefata do presente. Naquela vida, ela morreria em menos de três meses, e seu marido, o homem que ela amou com toda a sua alma, se casaria com sua irmã, Beatriz Mendes.
A alma de Sofia, em sua vida passada, riu amargamente dessa ironia. Agora, de volta a este corpo, ela não sentia nada além de um frio cortante.
Ela olhou para sua mãe, o rosto da mulher contorcido de fúria, e as memórias deste dia exato voltaram com uma clareza dolorosa. Ela e Bia tinham se candidatado à mesma agência de publicidade. Sofia foi aceita por mérito, seu portfólio e experiência do intercâmbio a destacaram. Bia não foi. E agora, sua mãe estava aqui, não para parabenizá-la, mas para culpá-la por "roubar" o que, em sua mente, pertencia a Bia.
Na vida passada, Sofia, desesperada pela aprovação de sua mãe e querendo evitar conflitos, cedeu. Ela ligou para a agência e desistiu da vaga. Mas nesta vida, as coisas seriam diferentes. Ela não seria mais a dona de casa submissa, a filha obediente que sacrificava tudo pela felicidade dos outros. Nesta vida, ela viveria por si mesma.
Sofia respirou fundo, endireitou os ombros e encarou a mãe com uma firmeza que a mulher nunca tinha visto antes.
"Mãe, o emprego na agência de publicidade é por mérito", disse Sofia, sua voz surpreendentemente calma e firme. "Eu conquistei com a minha capacidade, como isso pode ser roubo?"
A mãe de Sofia ficou boquiaberta. Sua filha mais velha, sempre tão quieta e dócil, nunca havia respondido a ela. Ela abriu a boca para soltar outra torrente de repreensões, mas foi interrompida por uma voz grave e melodiosa vinda da porta.
"Mãe, a Sofia está errada em relação ao emprego da Bia. De agora em diante, a Sofia vai entregar todo o seu salário para a Bia até que ela encontre um emprego."
Sofia virou-se abruptamente, o coração congelando no peito. Lá estava ele. Rafael Costa. Seu marido. O futuro diretor de uma grande empresa de tecnologia, atualmente um gerente sênior em ascensão. Seus olhos eram profundos e penetrantes, seus traços faciais bem definidos, um terno elegante cobrindo seu corpo, exalando uma aura de dignidade e autoridade que sempre a intimidou.
Os olhos de Sofia ficaram vermelhos, e uma risada amarga e silenciosa borbulhou dentro dela. Nada havia mudado. Rafael ainda era o mesmo da vida passada, sempre favorecendo Bia, sempre colocando as necessidades e desejos de Bia acima dos dela. E ela, tola, na vida passada, pensava que ele cuidava de Bia por causa dela, como um cunhado atencioso. Que piada. Agora, com a clareza da morte e do renascimento, ela via a verdade. Ele cuidava de Bia por interesse próprio.
Sofia se acalmou, a dor em seu rosto nada comparada à dor em seu coração. Ela o olhou diretamente, o ressentimento vazando em sua voz. "Com que direito você decide por mim?"
Rafael franziu a testa, um lampejo de surpresa em seus olhos profundos. A Sofia de antes nunca o olharia assim, com desafio. Ela sempre o olhava com adoração e um pouco de medo. Antes que ele pudesse formular uma resposta, uma figura mais suave apareceu na porta.
Beatriz Mendes. Seus olhos estavam vermelhos, sua voz embargada, como se estivesse à beira das lágrimas. "Mãe, Rafael, não culpem a Sofia. Somos uma família, eu não me importo! Já preparei o jantar lá em casa, vamos comer juntos!"
Dizendo isso, Bia se aproximou e pegou a mão de Sofia, seu toque suave, mas possessivo. "Sofia, não fique brava, está bem?"
A mesma peça de teatro. Tanto na vida passada quanto nesta, Bia sempre foi a mestre em se fazer de boazinha, a vítima inocente e bondosa, deixando todos os outros no papel de vilões. Sofia foi enganada por essa atuação por anos. Mas não mais. Uma percepção súbita e fria a atingiu. Mesmo depois de casada com Rafael, por todos esses anos, Bia nunca o chamou de "cunhado".
Sofia decidiu esperar para ver o que aconteceria. Ela se deixou ser levada por Bia de volta à casa dos pais, um lugar que nunca pareceu seu lar.
Na mesa de jantar, o clima era tenso. Sofia mal havia pegado os talheres quando sua mãe a fuzilou com um olhar frio.
"Para que você serve? Casou e até agora não deu um herdeiro para a família Costa, nem parece preocupada!"
Bia, ao lado, concordou com uma expressão de falsa preocupação. "Sofia, se você realmente não conseguir engravidar, a gente deveria ir ao hospital para fazer uns exames."
Sofia parou, os dedos apertando o garfo com força. Ela não disse nada. Sua mãe, no entanto, continuou, a voz carregada de desdém.
"Se você não tivesse voltado, a Bia e o Rafael já teriam filhos grandes!"
O rosto de Bia corou instantaneamente e ela abaixou a cabeça, fingindo vergonha. Rafael interveio rapidamente, sua voz cortante. "Mãe, pare de falar bobagem."
Mas o dano já estava feito. O rosto de Sofia endureceu. Na vida passada, sua mãe a pressionou da mesma forma. A pressão a deixou tão estressada que ela não conseguia comer nem dormir direito, desesperada para ter um filho com Rafael. Mas quando ela abordou o assunto com ele, a resposta dele foi fria e distante: "Quero dedicar minha energia à empresa, então não vamos ter filhos por enquanto."
Pensando agora, ela percebeu. Ele provavelmente só não queria ter filhos com ela.
Uma clareza dolorosa a invadiu. Sofia largou os talheres na mesa com um baque suave e um sorriso leve e frio surgiu em seus lábios.
"Mãe, já que você quer tanto netos, então peça para a Bia e o Rafael terem filhos."
O ar na mesa de jantar pareceu congelar. O silêncio foi quebrado pelo som de um soluço. A primeira a reagir foi Bia, os olhos agora cheios de lágrimas de verdade.
"Sofia, a mamãe só estava brincando, por que você levou a sério? Eu sou sua irmã, como eu posso ter filhos com o Rafael?"
Mesmo em meio às lágrimas, ela ainda não mudou a forma como chamava Rafael. Sofia riu friamente por dentro, mantendo o silêncio.
Rafael largou seus talheres, o rosto uma máscara de fúria. Ele olhou para Sofia como se ela fosse uma estranha. "Que bobagem você está falando?"
No segundo seguinte, ele se levantou abruptamente, agarrou o braço de Sofia e a puxou para fora de casa, longe dos olhares da mãe e da irmã.
Do lado de fora, a noite estava começando a esfriar. Rafael a soltou e a encarou, a insatisfação clara em seu rosto. "A mamãe estava brincando, e a Bia só estava preocupada com você. Por que você tem que estragar o clima em casa?"
Sofia olhou diretamente para ele, uma névoa de lágrimas não derramadas embaçando sua visão. "Eu não acho que seja brincadeira. Todo mundo dizia que você e a Bia estavam prestes a ficar juntos naquela época."
Era verdade. Na vida passada, Bia foi quem foi selecionada para o intercâmbio no interior. Mas seus pais, que sempre favoreceram a filha mais nova e frágil, a forçaram a ir em seu lugar. Sofia não queria ir, mas Rafael a convenceu. "Se você for no lugar da Bia, nós nos casaremos quando você voltar", ele prometeu. E por causa dessa promessa, ela foi sem hesitar. Ela trabalhou duro, teve sorte e conseguiu uma vaga para retornar à sua cidade natal depois de três anos. Ao voltar, ela se casou com Rafael, como ele havia prometido, mas o mundo sussurrava que ela havia roubado o namorado de sua irmã. Ingênua, ela acreditou que eram apenas boatos maldosos.
Agora, diante da reação dele, a verdade parecia mais clara.
Rafael ficou em silêncio por um longo momento, a testa franzida. "Você é jornalista, os fatos precisam de provas! Você acredita em boatos? Agora que estamos casados, serei responsável por você até o fim, e é impossível que eu fique com a Bia. Então, pare de pensar bobagens."
Ele a olhou friamente, sua voz desprovida de qualquer calor. "Já que você não quer jantar, vá para casa."
Dito isso, Rafael se virou e voltou para dentro da casa dos Mendes. Quase imediatamente, Sofia pôde ouvir o som de risadas e conversas animadas recomeçando. Era como se a sua ausência tornasse o jantar mais leve e feliz para todos eles.
Ela ficou paralisada no lugar, o vento do outono parecendo penetrar em seus ossos através de suas roupas finas, gelando-a até a alma. Aquela casa nunca a havia acolhido. Aquela família nunca a havia amado. Depois de um momento que pareceu uma eternidade, ela se virou e começou a caminhar para longe.
No caminho de volta para sua própria casa, ela passou por um grupo de senhoras do bairro, sentadas em cadeiras de plástico na calçada, conversando e comendo pipoca. Ao vê-la, uma delas a chamou.
"Não é a Sofia Mendes, a filha mais velha da família Mendes?"
"Ouvi dizer que você foi intercambista e voltou! Dizem que as intercambistas são as que mais chamam a atenção dos homens lá do interior, Sofia! Diga a verdade para nós, não vamos contar para ninguém, você tinha vários namorados lá?"
Sofia parou, o corpo tenso. Esses rumores a perseguiam desde que ela voltou. Na vida passada, ela sempre os ignorou, não querendo criar problemas. Mas agora, ela não aguentava mais.
Ela endureceu o rosto e encarou as mulheres. "Vocês estão espalhando boatos! Se eu ouvir isso de novo, vou processar vocês por difamação!"
As senhoras se entreolharam, chocadas com sua resposta direta. Sofia não esperou pela reação delas e saiu apressadamente. Mas mesmo enquanto se afastava, ela ainda podia ouvir suas vozes queixosas.
"Não acredito que ela voltou virgem. E mesmo assim, o gerente Costa ainda quis casar com ela. Não sei que feitiço ela jogou nele!"
Sofia acelerou o passo, deixando as palavras desagradáveis para trás.
Naquela noite, Rafael não voltou para casa. Ele apenas enviou um de seus subordinados para avisá-la que ele teria uma viagem de trabalho no dia seguinte e que passaria a noite na empresa para se preparar. Se era verdade ou não, Sofia não se importava mais. Ela foi para a cama cedo, o cansaço daquele dia pesando sobre ela. Na manhã seguinte, ela acordou, vestiu-se e foi para a agência de publicidade para seu primeiro dia de trabalho. A vida que ela deveria ter tido.
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Sofia mergulhou de cabeça no trabalho na agência de publicidade Nova Era. A rotina agitada era um bálsamo para sua alma ferida. Como recém-contratada, ela estava constantemente ocupada, correndo para entrevistas, redigindo artigos, aprendendo os meandros da agência. Ela mal tinha tempo para pensar em Rafael ou em sua família. E era exatamente isso que ela queria.
Passou-se meio mês. Numa manhã, assim que Sofia entrou na redação, o editor-chefe, um homem mais velho e respeitado chamado Sr. Almeida, convocou todos para uma reunião urgente.
"Atenção, pessoal", disse ele, a voz ressoando pela sala. "A agência decidiu iniciar uma reportagem aprofundada sobre as questões étnicas em regiões fronteiriças. É um projeto de grande importância nacional. Uma equipe especial será estabelecida na fronteira, e precisamos de jornalistas com espírito de sacrifício e dedicação. Alguém se voluntaria?"
Os olhos de Sofia brilharam. Ela se lembrava desse projeto da sua vida passada. As reportagens que saíram dessa iniciativa foram monumentais. Elas trouxeram a atenção do mundo exterior para os problemas enfrentados pelas comunidades na fronteira, impulsionando diretamente a reforma social, o desenvolvimento econômico daquelas regiões e promovendo a unidade nacional. Era um trabalho que tinha um significado real, um propósito.
No entanto, após as palavras do Sr. Almeida, um silêncio desconfortável pairou sobre a sala. Apenas algumas mãos se levantaram hesitantemente. Para a maioria dos jornalistas ali, as regiões fronteiriças eram vistas como lugares pobres, atrasados e perigosos. Ninguém queria ir para lá sofrer, longe do conforto do Rio de Janeiro.
Sob o olhar de todos, Sofia deu um passo à frente, sua decisão tomada em um instante.
"Editor-chefe, eu me voluntario!" sua voz soou clara e firme.
Renascida, Sofia não queria mais ser prisioneira de um casamento sem amor e de uma família que a rejeitava. Ela usaria o tempo que desperdiçou com Rafael na vida passada para fazer algo que importava, para contribuir com o país.
O Sr. Almeida olhou para ela, uma expressão de admiração em seu rosto. Ele a chamou para seu escritório.
Depois de fechar a porta, o editor-chefe hesitou por um momento. "Camarada Sofia, fico muito feliz com sua disposição. Sua coragem é louvável. Mas esta viagem será longa. Pode durar de cinco a mais de dez anos. Você e o gerente Costa se casaram há pouco tempo, ele concordaria com sua partida por tanto tempo?"
Sofia pensou por um momento, mas sua expressão permaneceu determinada. Ela sabia que precisava resolver sua situação com Rafael antes de partir. O divórcio era inevitável.
"Editor-chefe, pode ficar tranquilo", ela garantiu. "Eu resolverei isso."
Recebendo essa garantia, o Sr. Almeida pegou um carimbo e bateu com força em uma ordem de transferência sobre sua mesa. "Ótimo! Então você pode partir depois do Ano Novo!"
Depois do Ano Novo. Faltavam apenas dez dias. Em dez dias, ela poderia deixar Rafael para trás, seguir seus ideais e começar uma nova vida. Só de pensar nisso, Sofia sentiu um peso enorme ser tirado de seus ombros.
Naquela tarde, ela acompanhou um colega mais experiente para fazer uma entrevista em um grupo de dança e teatro local. A entrevista correu bem e, quando terminaram, Sofia estava prestes a ir embora quando seu colega a puxou pelo braço.
"Camarada Sofia, espere. Aquele não é o seu marido, o gerente Costa? Você não quer ir cumprimentá-lo? Mas... quem é aquela mulher ao lado dele?"
Sofia seguiu o olhar do colega e seu coração afundou. Rafael estava lá, em pé e conversando animadamente com o diretor do grupo de dança. E ao lado dele, sorrindo, estava Bia. Sofia nem sabia que ele tinha voltado de sua suposta viagem de trabalho.
Eles não a viram. Ela não sabia o que eles tinham conversado antes, mas de onde estava, pôde ver o diretor do grupo de dança rir alto e apertar a mão de Bia com entusiasmo. A voz do diretor, um pouco alta demais, chegou claramente aos ouvidos de Sofia.
"Já que é uma pessoa indicada pelo gerente Costa, eu com certeza cuidarei bem dela!"
O ar pareceu ficar mais rarefeito. Na vida passada, Sofia sabia que Bia tinha entrado para este grupo de dança, mas ela nunca soube que Rafael a tinha ajudado a conseguir o emprego. Ela se lembrou com uma amargura cortante de como ele era "correto" e "justo". Na vida passada, depois que ela cedeu seu emprego na agência e ficou desempregada em casa, ela timidamente perguntou se ele poderia ajudá-la a encontrar um emprego, qualquer coisa. A resposta dele foi uma recusa severa e cheia de princípios: "Encontrar um emprego depende da sua capacidade. Se você não tem capacidade, não pense em atalhos!"
Mas agora, ali estava ele, usando sua influência para abrir um atalho para Bia. O amor e o não amor eram, de fato, muito diferentes.
Sofia piscou para afastar a dor em seus olhos e forçou um sorriso para o colega. "Ele parece ocupado. Não vou incomodá-lo."
Ela se virou para sair, mas era tarde demais. Bia a notou.
"Sofia! O que você está fazendo aqui?" a voz dela soou falsamente surpresa.
Sofia se virou lentamente enquanto Rafael e Bia se despediam do diretor e caminhavam em sua direção. O colega de Sofia, percebendo o clima estranho, deu uma desculpa rápida. "Camarada Sofia, eu vou indo na frente. Nos vemos na agência."
Ele saiu, deixando-os sozinhos. Quando eles pararam na sua frente, Sofia respondeu calmamente. "Vim para uma entrevista."
Ao ouvir isso, os olhos de Bia escureceram por um momento antes de ela assumir uma expressão de admiração invejosa. "Tenho tanta inveja da Sofia por ter um emprego decente e estável na agência de publicidade. Diferente de mim, que não sei fazer nada e só posso contar com a ajuda do Rafael para conseguir uma chance."
A doçura venenosa em suas palavras era quase palpável. Sofia sorriu levemente, um sorriso que não chegava aos seus olhos.
"Acho que sou eu quem deveria invejar você. Você tem a ajuda do meu marido, enquanto eu só posso contar comigo mesma."
As pessoas do grupo de dança que passavam por perto ouviram o comentário e lançaram olhares curiosos e estranhos na direção deles. O rosto de Bia empalideceu, a máscara de inocência rachando por um segundo.
Rafael imediatamente se virou para Sofia, o rosto fechado de raiva. "Sofia, pare com isso! Eu arranjei esse emprego para a Bia porque você roubou o dela primeiro. Eu só queria que ela pudesse se sustentar. Como esposa de um gerente, seu coração não consegue nem aceitar sua própria irmã?!"
A repreensão indelicada, dita em público, a atingiu. Sofia apertou os dedos, a garganta seca. Ela não disse mais nada. Bia foi rapidamente convidada para dentro para começar seus trâmites no grupo de dança, e Rafael, sem dizer mais uma palavra, agarrou o braço de Sofia e a levou para casa.
No carro, o silêncio era pesado e opressivo. Eles deveriam ser o casal mais íntimo, mas não trocaram uma única palavra durante todo o caminho.
Ao chegarem em casa, Sofia foi direto para o quarto. Ela só queria ficar sozinha. Mas Rafael a chamou antes que ela pudesse fechar a porta, seu tom um tanto estranho, quase forçado.
"Depois que terminei minha missão, comprei um vestido para você em Salvador. Experimente."
Sofia se virou, surpresa. Tanto na vida passada quanto nesta, era a primeira vez que ele lhe dava um presente. E parecia ser a primeira vez que ele cedia, tentando uma espécie de reconciliação. Uma parte dela, a parte antiga e tola, sentiu uma pequena pontada de esperança. Ela acabou não recusando. Pegou o vestido da caixa que ele lhe estendeu e foi para o quarto se trocar.
Quando ela saiu e se olhou no espelho de corpo inteiro da sala, ficou surpresa. O vestido floral vermelho realçava sua figura esbelta. O design acinturado marcava sua cintura fina, tornando-a muito atraente. Sofia não esperava que a roupa lhe caísse tão bem.
Atrás dela, Rafael olhava para sua figura, e seus olhos escureceram um pouco. "O vestido ficou muito bom em você. Você deveria se arrumar mais assim. Aprender com sua irmã, ser como uma mulher de verdade."
O sorriso de Sofia congelou e se desfez. Uma piada. Era tudo uma piada cruel. Até mesmo em um momento como esse, ele a comparava a Bia.
"Na agência de publicidade, preciso me movimentar muito para as reportagens", disse ela, a voz fria como gelo. "Esse tipo de roupa não é adequado."
Dito isso, ela voltou para o quarto, tirou o vestido com movimentos bruscos e o jogou no fundo do armário, como se fosse algo sujo. Ela pegou suas roupas de banho e foi direto para o banheiro, precisando da água quente para lavar a sensação de humilhação.
Cerca de meia hora depois, Sofia voltou para o quarto. Ela olhou para a cama de casal e viu que havia apenas um cobertor. Desde que se casaram, Rafael sugeriu que dormissem em camas separadas, ou pelo menos com cobertores separados. Ele disse que quando estivessem prontos para ter filhos, eles poderiam realmente dormir juntos. Na vida passada, Sofia morreu sem nunca ter dormido na mesma cama que Rafael.
Naquele momento, vendo o único cobertor arrumado na cama, Sofia presumiu que ele dormiria no sofá. Ela estava prestes a pegar seu próprio cobertor no armário. Inesperadamente, assim que ela se virou, Rafael a puxou pelo braço.
"Esta noite, vamos dormir juntos."
Sua voz era rouca, e havia um desejo em seus olhos que ela não via há muito tempo. Se fosse na vida passada, ela teria ficado extasiada. Mas naquele momento, Sofia sentia apenas repulsa.
Ela puxou a mão com força, libertando-se de seu aperto. "Não precisa. Ainda prefiro dois cobertores."
Sem esperar por uma resposta, ela pegou seu cobertor do armário, arrumou-o do seu lado da cama e se deitou, virando as costas para ele.
Rafael ficou parado, olhando para a figura rígida de Sofia deitada na cama. Sua testa estava franzida, a expressão desagradável. "Sofia Mendes, você está muito estranha ultimamente. Antes, você era tão sensata, mas agora parece uma rebelde. Você só fica feliz me desafiando em tudo, não é?"
Sob a luz amarelada do abajur, os olhos de Sofia congelaram. A "sensatez" de que ele falava... Era ela engolindo todas as suas mágoas em silêncio. Era ela suportando a exploração de sua família sem reclamar. Era ela, na vida passada, trabalhando incansavelmente por esse casamento e entregando sua vida, apenas para no final ser considerada um "desperdício de tempo".
Essa "sensatez", ela não a queria mais nesta vida.
Mas Sofia não queria discutir. Ela estava cansada demais para isso. Ela apenas fechou os olhos e disse suavemente, a voz abafada pelo travesseiro. "Talvez seja o trabalho. Muito cansativo."
Ao ouvir isso, Rafael suprimiu a estranha sensação de irritação em seu coração. Ele pensou que talvez fosse apenas sua imaginação, que ela estava realmente cansada. Ele se deitou na cama, do outro lado, o espaço entre eles parecendo um abismo.
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