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Destino: O Rei Amaldiçoado

Destino: O Rei Amaldiçoado

Autor:: Chris_HL
Gênero: Lobisomem
Livro 2 da trilogia Destino: Em um mundo envolto em mistérios e magia, Eliza se vê conectada ao destino do enigmático Rei Lohan, um homem cujo passado é tão sombrio quanto seu coração. Apesar de ter encontrado o amor nos braços dele, Eliza anseia por desvendar os segredos que o cercam, mergulhando ainda mais fundo nessa relação em busca de confiança e compreensão mútua. Enquanto Eliza embarca na jornada para desvendar a verdade por trás das sombras que envolvem o Rei e sua missão, ela se depara com desafios que superam todas as suas expectativas. A verdadeira natureza de sua própria profecia vem à tona, revelando uma ligação profunda com um povo desprezado pelos lobos. Determinada, ela busca maneiras de ajudar seu amado, sem saber que o destino reserva para ela desafios ainda maiores. Em meio a intrigas palacianas e perigos sobrenaturais, Eliza se vê diante de uma pergunta crucial: será capaz de confrontar seu destino e lutar pela felicidade ao lado de Lohan, ou sucumbirá às forças que tentam separá-los?

Capítulo 1 Amor que transborda

Mergulhei em um sono profundo, enquanto imagens nítidas do quarto de Lohan surgiam diante de mim, algo completamente distinto de qualquer sonho que eu já tivera antes. Ao piscar os olhos, deparei-me com um vasto deserto à minha frente. Enquanto percorria as areias, ansiando por ir cada vez mais longe, percebi minha consciência oscilar, a ponto de me questionar se o que estava vivenciando era mesmo real. À medida que me distanciava, as imagens se tornavam menos nítidas, até que finalmente afundei nas areias, precipitando-me no vazio.

Neste espaço vazio, apenas cordas de energia flutuavam no meio da escuridão, enquanto diferentes sons ecoavam de todos os lados. O sentimento dentro de mim era como uma correnteza turbulenta. Apurei meus ouvidos na tentativa de filtrar os diferentes sons até reconhecer as notas.

- Ai... - Uma pontada de dor invadiu minha cabeça. A música estava desaparecendo, dando lugar a um ruído alto e penetrante. Instintivamente, coloquei as duas mãos contra meus ouvidos, implorando para que o som desaparecesse.

Senti um toque quente sobre minhas mãos e me forcei a abrir os olhos. Lohan estava por cima de mim, suas mãos sobre as minhas. Ele dizia coisas que eu não conseguia ouvir. Pelo movimento de seus lábios, parecia estar chamando por mim. Minha respiração estava acelerada, minha cabeça parecia que ia explodir. Lohan desceu os lábios sobre os meus, e o calor do seu beijo acordou a loba dentro de mim. Enquanto eu me concentrava na voz de Lisa, o som ensurdecedor foi desaparecendo.

- Minha cabeça dói. - Arfei assim que os lábios dele deixaram os meus.

- O que aconteceu? - perguntou-me, preocupado. Ele encostou a testa contra a minha enquanto tentava entender o que se passava dentro de mim.

- O barulho estava muito alto. Achei que ia ficar surda.

- Barulho? - Ele se afastou um pouco, seus olhos atentos a mim. - Não há nenhum som forte por aqui.

Eu não podia acreditar nisso. O som era tão alto que era quase tangível. Senti-me desamparada ao pensar que eu pudesse estar enlouquecendo.

- O que há de errado comigo? - perguntei a Lohan. Era como se eu tivesse vivenciado uma crise enquanto dormia, o que inicialmente me fez acreditar que era algo psicológico. No entanto, tudo estava indo maravilhosamente bem na minha vida. Eu estava com o meu companheiro e não havia mais uma situação estressante o suficiente que justificasse o desencadeamento de uma nova crise.

- Eu não sei, mas vamos descobrir juntos. Está tudo bem agora! - disse-me com a voz gentil. Assenti ligeiramente e ele me puxou contra ele, abraçando-me amorosamente enquanto passava as mãos sobre os meus cabelos.

- O que se passa dentro de mim quando tenho essas crises? O que você sente de mim? - perguntei a ele. Eu já me sentia muito mais calma.

- Um pouco de tudo. Medo, alegria, raiva, dor, dentre vários outros sentimentos que ficam embaralhados. É confuso...

Por muitas vezes, achei incrível que meu companheiro pudesse ter um vislumbre do que eu sentia, mas isso era diferente agora. Temia que meu problema começasse a afetá-lo também por conta da ligação que temos.

- Não quero que se preocupe comigo. - disse-me, quase como se pudesse ler os meus pensamentos. Isso me assustou um pouco. Enterrei meu rosto em seu peito. Eu sabia que não podia bloqueá-lo assim, mas me sentia um pouco melhor quando escondia meu rosto.

- Por acaso, você pode ouvir meus pensamentos?

- Não preciso ler seus pensamentos para entender o que se passa com você.

Apertei-me ainda mais contra ele. Até onde ele sabia sobre tudo o que me aconteceu quando estávamos separados?

- Eu juro que não deixei o William se aproveitar de mim. - Sussurrei com um pouco de peso na consciência ao me lembrar das tentativas inconvenientes do William de me tocar. Eu queria que Lohan soubesse que eu jamais o trairia.

- Eu sei. Do contrário, eu não o teria deixado viver. Não se preocupe, ninguém voltará a te assediar de novo. Você me pertence! - Sua voz estava calma. Afastei meu rosto e encarei seus olhos negros com um sentimento profundo de admiração. Ele é calmo, racional, gentil e, o mais importante, ele é meu!

- Sim, eu sou sua! - Eu não conseguia deixar de sorrir. Meu coração transbordava de amor por esse homem. Minha cabeça já nem doía mais.

- Você realmente sabe como me deixar louco. - Ele sorriu lindamente, e eu sabia o que ele estava pensando. Ele adora me ver feliz, tanto quanto eu amo ver esse sorriso em seu lindo rosto. Isso deixa nossos lobos em êxtase.

Eu poderia ficar o dia inteiro trocando carícias e beijos com meu companheiro, mas havia algumas questões que nos impediam de fazer isso, dentre elas, minha barriga que estava roncando insistentemente, implorando por comida. Eu sabia que não precisava pedir, podia ver pelo rosto do meu companheiro que ele sabia o que eu queria.

Ele me levou primeiro ao lugar onde eu poderia fazer minhas necessidades. Fiquei muito satisfeita em ver que o banheiro dele é relativamente normal, com todos os principais componentes aos quais eu já estou acostumada. Amplo e espaçoso, com uma grande banheira que mais se parece com uma piscina. Ele me puxou para dentro da água e me deitei em seus braços.

- Que temperatura agradável! - falei. As águas eram mornas, um pouco mais quentes do que a temperatura externa. Parando para pensar, desde que cheguei a este mundo, não havia sentido frio nem calor.

- Esta é a melhor época do ano. - comentou Lohan. Ele estava atento a todas as minhas reações, como se achasse fascinante me ver descobrindo o seu mundo.

Me enrolei em uma grande toalha e continuei seguindo-o enquanto ele me apresentava o restante do quarto. O guarda-roupa dele é bem grande. Fiquei surpresa quando ele o abriu, revelando uma fileira interminável de roupas, todas pretas.

- Todas as suas roupas são mágicas? Como pode isso? - Aproximei-me de uma camisa com um design mais básico e a cheirei. O cheiro forte dele me dizia que era feita dos seus pelos. Mesmo que ele tivesse quase meio milênio de vida, ainda assim era muito pelo que precisaria extrair para montar um guarda-roupa assim. Lembrei-me da fraqueza que senti quando podaram os pelos da minha loba e me questionei se realmente valia a pena ter tantas roupas dessa forma.

- Não é difícil. Em breve, este armário estará cheio de peças brancas também. - Olhei para ele, confusa. Como assim, em breve?

- Achei que levasse tempo até conseguir extrair pelos suficientes para se costurar uma roupa mágica.

- Basta extrair uma mecha. Depois disso, os pelos passam por uma técnica mágica de cultivo para que continuem crescendo indefinidamente fora do corpo. É possível criar um estoque relativamente rápido de fios dessa forma, sem muito esforço.

- Então todos os lobos aqui têm suas roupas a partir dos seus pelos?

Se é tão fácil obter fios para tecer, não faz sentido usar outro tipo de material. Lohan assentiu em confirmação, tirando um conjunto do armário e começando a vesti-lo.

Olhei novamente para aquela camisa e, levada pela tentação, peguei-a e a vesti. Virou praticamente um vestido. Minha loba ficou exultante em termos nosso corpo impregnado com o cheiro dele.

- Fico bem de preto! - Sorri enquanto puxava a gola da camisa dele contra meu nariz para cheirá-la. Eu definitivamente amo esse cheiro.

- Você fica bem de qualquer forma. - Sua voz saiu provocante e acabei virando meu rosto para ele. Havia um sorriso brincalhão em seus lábios e seus olhos me sondavam como se estivesse hipnotizado.

- O que mais há? - perguntei com entusiasmo. Agora que eu estava aqui, ele não precisava mais me esconder as coisas. Eu queria ver com meus olhos tudo que ele prometeu me revelar. - Quero que me mostre tudo!

- Como resistir a um pedido desses?

Capítulo 2 Luríon, a capital real

Lohan pegou minha mão e me levou até um bloco cristalino no lado mais distante do quarto. Atravessamos o bloco como se fosse uma mera ilusão. Além dele, havia uma imensa varanda, com um jardim que parecia sair de um conto de fadas. Tantas flores diferentes, tantos cheiros maravilhosos...

- Uau! Que vista! - sussurrei, caminhando em direção à extremidade da varanda. Raios luminosos provenientes de uma estrela tão brilhante quanto o sol irradiavam sobre uma paisagem que parecia o mais belo quadro que eu já tinha visto. Não tão distante, um grande mar de águas cristalinas de um azul esverdeado. As ondas suaves se desmanchavam contra uma faixa de areia de coloração prateada.

- Nossa! Isso é um palácio de verdade? - Desse lugar, era possível ter um vislumbre da imensa construção em que nos encontrávamos. Estávamos na parte mais alta, no terceiro andar. Era difícil mensurar o tamanho que se estendia para os lados ou para trás.

Olhei para meu companheiro que se aproximava lentamente de mim com um sorriso gentil, seus olhos fixos em meu rosto. Ele é mesmo um rei? Isso é tão inacreditável que minha mente ainda custa a aceitar.

- Nosso lar. - disse-me, colocando sua mão sobre a minha cabeça e acariciando-a. Senti meu rosto esquentar e desviei o olhar, encarando um pouco mais da paisagem. O céu era de um azul mais claro do que no meu mundo, com algumas nuvens de coloração amarelada e brilhante.

Nos arredores, era possível vislumbrar árvores gigantescas, algumas muito mais altas do que o lugar em que eu e Lohan estávamos. Com copas imensas, suas folhas possuíam as mais diversas cores.

- A maior parte da alcateia constrói suas casas nessas árvores. - comentou Lohan. - Esta é Luríon, a cidade real, e ela vai muito além do que seus olhos podem enxergar. É apenas uma pequena fração do meu domínio, a nação dos lobos em Celestria, também chamada de Éldrim.

Eu não costumo me enganar quando o assunto é sentimentos, mas, diferente do que eu pensava, Lohan não é solitário. Todos os lobos neste mundo são seus súditos, e pensar nisso é um pouco assustador para mim. Eu tinha tantas perguntas, mas o medo de fazê-las era maior do que minha curiosidade. Eu precisava processar isso pouco a pouco, ou poderia acabar enlouquecendo.

- Venha! Vamos comer! - chamou-me serenamente, pegando novamente minha mão. Atravessamos o bloco de cristal de volta ao quarto dele. Assim que pisamos no quarto, Lohan soltou minha mão e caminhou em direção à porta de entrada.

Como se eu fosse uma criança descobrindo as coisas, virei-me novamente para o bloco. Parecia tão físico, mas o atravessamos como se fosse apenas uma projeção. Estiquei minha mão na intenção de explorá-lo, mas, surpreendentemente, ela não o atravessou. O bloco era um pouco gelado e completamente palpável agora, e não pude deixar de me questionar como Lohan fazia para atravessá-lo.

O cheiro de comida no ar fez minha barriga roncar novamente. Virei-me para Lohan. Duas senhoras de médio porte e cabelos brancos passavam por ele de cabeças baixas, com bandejas de alimentos na mão, uma delas usando um vestido castanho claro e a outra um vestido cinza. Eu podia perfeitamente imaginar como são seus lobos só por conta de suas roupas.

Elas colocaram a comida sobre uma mesa redonda próxima a uma das janelas e, antes de saírem, elevaram seus olhos na minha direção. Os olhos de ambas eram em tons de castanho e me sondavam com curiosidade. Elas trocaram olhares entre si e sorriram antes de saírem silenciosamente.

- Parece bom! - comentei com Lohan enquanto me sentava ao lado dele na mesa. Havia uma variedade enorme de pratos, todos com aparência apetitosa. Embora eu não pudesse reconhecer pelo cheiro quais são os ingredientes que os compõem, tinha certeza de que algo eu ia gostar, visto que havia opções de sobra. - Mas é comida demais...

- Acostume-se, querida. Quero que tenha sempre o melhor. Tudo o que possuo está à sua disposição. - disse-me amorosamente, fazendo meu rosto esquentar de timidez. Assenti em resposta, meu coração batendo forte dentro de mim. É a primeira vez na vida que alguém cuida de mim e me mima de verdade. Geralmente, eu precisava me esforçar muito e lutar pelas coisas que queria, mas este não é mais o caso.

"Sinto que vou explodir de felicidade.", comentei com Lisa, sentindo seus sentimentos se alinharem perfeitamente aos meus. Será que finalmente poderei relaxar e ter uma vida normal?

- Companheiro, por que ninguém olha para você? É proibido olhar diretamente para o rei? - perguntei, tentando mudar o assunto para algo que não fosse sobre mim, mas sobre ele. Tudo o que mais quero é poder conhecê-lo, o homem que tanto amo e que está realizando os meus maiores sonhos.

- Sim. - respondeu com uma voz mais séria. Ele pegou um pedaço de algum tipo de tortilha e elevou-o até minha boca. Timidamente, aceitei o gesto e mordi aquele pedaço, atenta à explosão de sabores na minha boca. Tinha um pouco de acidez e um toque agridoce ao mesmo tempo. Era estranhamente bom! - Neste mundo, você é a única que tem permissão para olhar para mim.

- Por quê? - perguntei logo após engolir o que estava na minha boca. Os olhos de Lohan estavam sérios, como se minha pergunta o tivesse incomodado. Ele baixou o olhar, seus lábios se entreabriram algumas vezes como se estivesse incerto sobre como responder à minha pergunta.

- Neste mundo, todos os reis e rainhas nascem com uma profecia. A minha profecia definiu que as coisas deveriam ser assim. - respondeu por fim, quase como um sussurro.

Muitas coisas se passaram pela minha cabeça com essa informação. Uma delas foi a lembrança do julgamento em que Lohan disse que havia uma profecia a meu respeito. Isso significa que eu estou mesmo destinada a ser a rainha dele. Outra coisa que não pude deixar de pensar é que eu não conceberia um filho ao Lohan tão facilmente quanto gostaria, a menos que a profecia de um novo rei surgisse.

Por fim, perguntei-me se a questão da longevidade de Lohan está relacionada ao cumprimento da profecia. Se a rainha dele nasceria séculos depois, necessariamente ele deveria viver esse tempo para que a profecia se cumprisse. Lembrei-me de quando ele reclamou sobre eu ter demorado e acabei soltando uma risada suave. Aquela pergunta fazia todo o sentido para mim agora.

- E qual é a sua profecia? - Tudo isso era muito intrigante. Eu mal podia esperar para saber toda a verdade! Voltando ao velho Lohan, meu companheiro preferiu ignorar a minha pergunta como se não tivesse me ouvido.

- Companheiro, por que não me responde? Achei que não guardaria mais segredos de mim. - O silêncio dele era frustrante.

- Não fica assim, minha rainha. - Lohan colocou a mão sobre a minha. Ouvi-lo me chamar de rainha me deixou um pouco envergonhada, o suficiente para apagar o sentimento ruim que se formava dentro de mim. - Só penso que ainda não é hora para você saber disso. Há uma ordem para tudo, e há outras coisas que precisa aprender e descobrir primeiro.

Este era um argumento válido. Muitas vezes, para se entender a lógica final de algo, é necessário estudar o caminho primeiro. Assim como todos os resultados matemáticos têm uma fórmula antes, todo o presente tem um passado por trás. Agora que eu estava com meu companheiro, não precisava ter pressa. Confiava plenamente que ele me guiaria da melhor forma possível.

Capítulo 3 Coletando informações

- Ei, você não tem que trabalhar? - perguntei rindo. Ele estava mordiscando minha orelha de uma forma que me fazia cócegas. Passamos a maior parte do dia em seu quarto namorando, e ele não dava sinais de que ia parar.

- Não quero trabalhar. - respondeu ele de um jeito manhoso. - Não pretendo me separar de você tão cedo!

- Então me leve junto. Adoraria conhecer a sua rotina. Quero saber tudo sobre o meu companheiro! - Sorri para ele e acabei sendo presa a um longo e demorado beijo. Isso é tão bom! A verdade é que eu também não queria me separar dele por nada, nem por um segundo. Como era possível ficar tão viciada assim em uma pessoa? Nunca achei que eu seria dessas...

Nada nos interrompia neste quarto, a não ser que meu companheiro o permitisse. Ele podia emitir ordens a distância aos seus servos por meio de telepatia, parecido com a comunicação mental dos lobos com o alfa, só que para ele não parecia haver um limite de distância para isso.

Como rei, ele mostrou para mim que podia fazer o que quisesse e me manteve trancada com ele por vários dias consecutivos. O único contato que tínhamos com o exterior era a entrada de servos quando ele próprio solicitava algo.

- Um rei pode mesmo ficar tanto tempo isolado? Isso não vai te trazer problemas? - perguntei enquanto jantávamos. Eu não estava insatisfeita, apenas preocupada.

- Tudo está sob o meu controle. - respondeu confiantemente. - O que não cabe a mim, o conselho e os alfas dos clãs podem lidar.

- O que é o conselho? - Agora que ele mencionara esse nome, lembrei que um tal de Horace o convocou a falar com o conselho logo que chegamos.

- O conselho é composto pelos anciões de maior sabedoria, em sua maioria antigos alfas e reis. Eles são responsáveis pela ordem e o cumprimento das leis de Éldrim.

- Antigos reis? Quer dizer que seus ancestrais ainda estão vivos? - perguntei, perplexa.

- Apenas meu avô, meu bisavô e meu tataravô, que é também o ancião mais velho do conselho com mais de oito mil anos.

- E o seu pai? - Havia um misto de sentimentos dentro de mim. Há coisas que eu deveria aceitar sem questionar, porque não dava para processar só pela razão.

- Meu pai está morto. - respondeu Lohan tão baixo que eu quase não o ouvi. A sensação que tive é que essa é uma ferida profunda no coração dele. Não quis perguntar as circunstâncias porque tinha certeza de que ele não iria me responder.

- Todos vocês vivem tanto assim? De onde vim, se chegarmos a cem anos é muito. - Respondi desanimada. Não é que eu almejasse viver milênios. Eu gostava do ciclo do mundo de onde vim. Era natural e inevitável, só que é completamente incompatível com a realidade do meu companheiro. Eu não envelheceria ao lado dele e isso era triste.

- Depende do resultado do teste da provação. Geralmente, os seres de maior poder conseguem desacelerar seu relógio biológico e viver por milênios, mas a maioria da população comum não vive mais do que dois a quatro séculos. - respondeu Lohan, me olhando profundamente. - Uma das coisas que teremos que trabalhar com você é o seu potencial para passar nesse teste. Preciso que viva muito tempo ao meu lado, minha rainha.

- O que é esse teste? O que terei que fazer? - perguntei, um pouco mais animada. Eu precisava agarrar até mesmo a mínima chance que eu tinha de viver mais tempo com ele.

- O teste da provação é uma prova particular que todo ser mágico pode realizar quando desperta seu poder. Sobre o que você terá que fazer, não há como prever. O teste é individual, e, uma vez que se entra na câmara dos deuses, qualquer coisa pode acontecer. O que há para ser feito é diferente para cada um.

- Câmara dos... deuses? - repeti pausadamente. - Elas realmente existem?

Lohan parou de comer por um instante e cruzou as mãos sobre a mesa. De alguma forma, eu sentia que ele acreditava nisso, não sei se pelo seu olhar ou por sua expressão. Minha hipótese se confirmou com as palavras que ele pronunciou:

- De onde veio este mundo? De onde vem toda a magia? Nunca os vimos, mas sabemos que há uma força maior que controla tudo isso. O destino está escrito por essa força e as profecias dadas aos sacerdotes são a única forma como sabemos o que querem e esperam de nós. Nossa liberdade é diretamente afetada pelas bênçãos e maldições que nos conectam ao nosso destino. Quem escreve o nosso destino? Somos nós ou eles?

- Os dois - respondi. É confuso, mas real. Como lobos, quem determina quem será companheiro de quem? Qual é o critério? Esse é o único detalhe sobre a fé na deusa Luna que eu nunca encontrei respostas para refutar. Achei que eu tinha escolhido você, mas eu já era o seu destino, certo?

Ele assentiu afirmativamente com a cabeça. Era como se até mesmo nossas escolhas já tivessem sido escritas por algo maior, além da nossa compreensão.

- Eliza Singer, você é o meu milagre! - falou Lohan amorosamente. Havia um brilho especial em seus olhos negros. - A probabilidade de eu encontrar minha companheira nas condições impostas pelos deuses era quase nula e sem garantias. Eu poderia facilmente ter perdido você.

- O que quer dizer?

- Não vê? - Ele segurou minha mão com firmeza e aproximou o rosto do meu. - Éramos de mundos diferentes, incapazes de nos encontrar e reconhecer um ao outro como companheiros. Ainda assim, você me encontrou quando ninguém sabia que eu estava lá e ainda por cima escolheu me amar mesmo sem nunca ter me visto e contra todas as possibilidades. Foi você quem cumpriu as condições para que pudéssemos estar juntos agora, neste momento. O único nome que encontro para isso é milagre!

O amor só acontece quando ambos escolhem se amar. Sim, escolhi amá-lo, e mesmo que ele não dissesse que escolheu me amar também, eu sabia que ele tinha feito a mesma escolha que eu, ou do contrário, jamais teríamos nos encontrado pessoalmente. Ele escolheu continuar se encontrando comigo na cachoeira todos os dias, escolheu estar lá por mim sempre que eu precisava dele e escolheu me salvar. Seus gestos valiam muito mais do que dizer um milhão de vezes que me ama, mas ainda assim, eu esperava que um dia, pelo menos uma vez, ele pudesse pronunciar essas palavras para mim.

Resolvi usar as informações que eu tinha para persuadi-lo. Era melhor agirmos logo para ganhar tempo, do que deixar o tempo passar e perder a chance de vivermos um longo futuro juntos. Meu apelo quanto a me preparar para a provação surtiu efeito, e ele finalmente decidiu que era hora de sair do quarto.

- Não vou te deixar sair assim. - Ele bloqueou o meu caminho e percorreu meu corpo com o olhar. Eu estava só com a camisa dele, mas pensei que estava coberta o suficiente. Seus olhos desaprovadores me diziam que não.

- O que eu uso então? - perguntei inocentemente. Meu vestido era a única roupa que eu tinha. Ele fora levado pelas servas há uns dois dias e ainda não o tinham trazido de volta. Junto com o vestido, elas levaram várias mechas de pelos da minha loba.

- Até que suas roupas fiquem prontas, você ficará aqui. - Seu tom impositivo não deixava margem para discussão. Fiquei parada vendo-o sair. As portas se fecharam automaticamente após sua saída, e não pude deixar de procurar uma maçaneta ou algum botão de controle.

Não consegui entender como a porta funcionava. Parecia ter um sensor de presença que respondia apenas a ele. Foi inútil tentar, assim como foram inúteis todas as minhas tentativas de sair para a varanda. Eu estava presa aqui dentro.

- Pelo menos é uma prisão confortável e tem o cheiro dele. - falei comigo mesma, sorrindo enquanto saltava sobre a cama e abraçava o travesseiro dele. Eu não conseguia me cansar ou ficar entediada aqui, ainda mais quando ele estava comigo.

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