A primeira coisa que senti foi a dor lancinante e o zumbido abafando tudo, a luz branca do hospital cegando meus olhos.
A enfermeira disse: "Sofia, você sofreu um acidente de carro grave. Você está no hospital."
Pedro. Meu filho. "Onde está o meu filho? Ele está bem?"
A hesitação dela, a palavra "cirurgia", meu pânico sufocante. Pedi para vê-lo, mas me disseram que Miguel, meu marido, estava a caminho.
Ele atendeu o telefone, irritado, no meio de uma reunião importante. Eu disse: "Pedro está na cirurgia."
Do outro lado, um silêncio frio. "Acidente? Como assim? Onde vocês estão?"
"No Hospital Central. Miguel, o médico disse que é grave. Você precisa vir agora."
"Eu não posso simplesmente sair, Sofia. Tenho investidores aqui. Vou ver o que posso fazer. Me mantenha informado." E desligou.
Uma hora se arrastou, uma tortura. Miguel não veio, nem ligou de volta.
O médico se aproximou, o rosto sombrio. Ele nem precisou falar. "Sinto muito, Sra. Sofia. Fizemos tudo o que foi possível. As lesões do seu filho eram... extensas demais. Ele não resistiu."
Eu desmaiei.
Acordei, mas fingi estar inconsciente. Ouvi a voz de Miguel. "Ela já acordou?"
"Ainda não, senhor."
"Ótimo. Saia. Quero ficar a sós com minha esposa."
Então, ouvi a ligação dele. "O garoto se foi. O plano funcionou perfeitamente. O freio adulterado... ninguém vai suspeitar. Vão pensar que foi apenas um acidente trágico na chuva."
Meu coração parou. Não foi um acidente. Foi assassinato. E o assassino era o pai dele.
"E a Sofia? Ela sobreviveu, infelizmente. Tenho um plano para ela também. Com a morte do pai dela e a falência da empresa, ela está vulnerável. Vou fazer com que ela assine todos os papéis. E quando ela não for mais útil, vou acusá-la de cumplicidade na fraude. Ela vai para a cadeia, e nós ficaremos com tudo. Ela é fraca, vai desmoronar."
Cada palavra, uma facada. Meu pai, a empresa, meu filho. Tudo planejado.
"Ninguém vai ficar no nosso caminho. Principalmente não um pirralho chorão que só servia para me tirar dinheiro."
Pirralho chorão. Ele estava falando do nosso filho.
Minhas lágrimas não eram de tristeza, mas de puro ódio.
Ele me achava fraca. Achava que eu ia desmoronar.
Naquele momento, deitada na cama de hospital, jurei que não desmoronaria. Eu o faria pagar por cada pedaço da minha alma que ele destruiu.
A caçada havia apenas começado.
A primeira coisa que senti foi uma dor aguda na cabeça, um zumbido constante que abafava todos os outros sons. Abri os olhos devagar, a luz branca do teto do hospital me cegou por um instante. Minha garganta estava seca, e quando tentei me mover, uma dor lancinante percorreu meu corpo inteiro.
"Ela está acordando," ouvi uma voz feminina e calma dizer.
Uma enfermeira apareceu no meu campo de visão, seu rosto expressando uma mistura de alívio e pena.
"Sofia, você consegue me ouvir? Você sofreu um acidente de carro grave. Você está no hospital."
Acidente. A palavra ecoou na minha mente, trazendo flashes de metal se contorcendo, o som de vidro quebrando e o grito aterrorizado do meu filho, Pedro.
"Pedro...", minha voz saiu como um sussurro rouco. "Onde está o meu filho? Ele está bem?"
A enfermeira hesitou, seu sorriso profissional vacilou por um segundo.
"Seu filho está na cirurgia agora, os médicos estão fazendo tudo o que podem. Você precisa descansar, Sofia. Você perdeu muito sangue."
Pânico começou a subir pela minha garganta, gelado e sufocante. Cirurgia. Tudo o que podem. Eram frases que ninguém queria ouvir. Eu tentei me levantar, mas meu corpo não obedeceu.
"Eu preciso vê-lo. Por favor."
"Você não pode se mover agora. Seu marido está a caminho. Tente se acalmar."
Meu marido. Miguel. A menção dele não me trouxe conforto, apenas uma onda de náusea. Eu peguei meu celular na mesinha de cabeceira, a tela estava trincada, mas ainda funcionava. Disquei o número dele, minhas mãos tremendo.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. No quarto toque, ele atendeu. Sua voz estava irritada, impaciente.
"O que foi, Sofia? Estou no meio de uma reunião importante. Não posso falar agora."
Reunião. Meu filho estava em uma mesa de cirurgia, lutando pela vida, e ele estava em uma reunião.
"Miguel," eu disse, tentando manter minha voz firme. "Nós sofremos um acidente. Um acidente grave. Pedro... Pedro está na cirurgia."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Não um silêncio de choque ou preocupação, mas um silêncio frio, calculado.
"Acidente? Como assim?", ele perguntou, sua voz desprovida de qualquer emoção. "Onde vocês estão?"
"No Hospital Central. Miguel, o médico disse que é grave. Você precisa vir agora."
"Eu não posso simplesmente sair, Sofia. Tenho investidores aqui. Vou ver o que posso fazer. Me mantenha informado."
E ele desligou.
Eu fiquei olhando para o telefone, incrédula. A frieza dele era como um soco no estômago. Ele não perguntou se eu estava bem, não demonstrou a menor preocupação com o nosso filho. Apenas negócios. Sempre os negócios.
Uma hora se passou, uma tortura de minutos intermináveis. A enfermeira entrava e saía, checando meus sinais vitais, oferecendo palavras vazias de conforto. Miguel não apareceu. Ele nem sequer ligou de volta.
Então, a porta se abriu. Não era Miguel. Era o médico, o mesmo que eu tinha visto brevemente na emergência. Seu rosto estava sombrio, seus ombros caídos. Eu soube, antes mesmo que ele dissesse uma palavra. Eu soube pelo jeito que ele evitou meu olhar.
"Sinto muito, Sra. Sofia," ele começou, sua voz baixa e pesada. "Fizemos tudo o que foi possível. As lesões do seu filho eram... extensas demais. Ele não resistiu."
O mundo parou. O zumbido nos meus ouvidos se tornou um silêncio ensurdecedor. O rosto do médico se desfez em um borrão, as paredes do quarto pareceram se fechar sobre mim. Uma dor que não era física, mas mil vezes pior, rasgou meu peito. Meu filho. Meu Pedrinho.
Eu não gritei. Eu não chorei. Eu apenas me desconectei. Uma escuridão me engoliu, e eu desmaiei.
Não sei quanto tempo fiquei inconsciente, mas uma dor súbita no meu braço, onde a agulha do soro estava inserida, me trouxe de volta à superfície. Eu não abri os olhos, meu corpo estava pesado demais, minha mente anestesiada pela dor. Mas eu podia ouvir.
A porta do quarto se abriu e ouvi a voz de Miguel.
"Ela já acordou?"
"Ainda não, senhor," respondeu a enfermeira. "O choque foi muito grande. Ela precisa de tempo."
"Ótimo," a voz de Miguel soou perigosamente perto. "Saia. Quero ficar a sós com minha esposa."
Ouvi os passos da enfermeira se afastando e a porta se fechando suavemente. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de Miguel discando um número em seu celular.
"Alô? Resolvido," ele disse, sua voz baixa e conspiratória, completamente diferente do tom que usava comigo. "O garoto se foi. Sim, o plano funcionou perfeitamente. O freio adulterado... ninguém vai suspeitar. Vão pensar que foi apenas um acidente trágico na chuva."
Meu coração parou de bater. Cada palavra era uma facada. Freio adulterado. Plano. O garoto se foi. Não foi um acidente. Foi um assassinato. E o assassino era o pai dele. Meu marido.
"E a Sofia?", continuou Miguel. "Ela sobreviveu, infelizmente. Mas não se preocupe, eu tenho um plano para ela também. Com a morte do pai dela semana passada e a falência da empresa, ela está vulnerável. Vou usar a dor dela, fazer com que ela assine todos os papéis que eu preciso. Vou transferir o que resta do patrimônio do velho para o meu nome. E quando ela não for mais útil, vou dar um jeito de acusá-la de cumplicidade na fraude da empresa. Ela vai para a cadeia, e nós ficaremos com tudo. Ela é fraca, vai desmoronar."
A voz dele era calma, metódica, a voz de um monstro. O pai dela. Meu pai. A empresa. A morte dele não foi um ataque cardíaco causado pelo estresse da falência. Miguel tinha causado tudo. A ruína, a morte do meu pai, e agora, a morte do meu filho.
"Sim, o nosso futuro está garantido, meu amor. Ninguém vai ficar no nosso caminho. Principalmente não um pirralho chorão que só servia para me tirar dinheiro."
Pirralho chorão. Ele estava falando do nosso filho. Do corpo pequeno e frágil que eu tinha carregado por nove meses, que eu tinha amado mais que a minha própria vida.
Lágrimas silenciosas começaram a escorrer pelo meu rosto, quentes contra a minha pele fria. Não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas de ódio. Um ódio tão puro e intenso que queimava o luto, transformando-o em uma couraça de gelo.
Meu casamento era uma farsa. Meu marido era um assassino. Ele tinha tirado tudo de mim: meu pai, meu filho, minha empresa, minha honra.
Ele achava que eu era fraca. Achava que eu ia desmoronar.
Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, fingindo estar inconsciente enquanto o assassino do meu filho sussurrava seus planos diabólicos, eu fiz uma promessa. Eu não ia desmoronar. Eu ia sobreviver. E eu ia fazer Miguel pagar por cada lágrima, cada gota de sangue, cada pedaço da minha alma que ele havia destruído.
A caçada havia apenas começado.
Eu mantive os olhos fechados, regulando minha respiração para parecer que ainda estava profundamente adormecida. O som dos passos de Miguel pelo quarto era o único barulho, um ritmo medido que me causava arrepios. Ele achava que tinha vencido, que seu plano era infalível.
A porta se abriu novamente e a voz do médico soou, cautelosa.
"Sr. Miguel, sua esposa sofreu múltiplas fraturas na perna esquerda e uma concussão. Ela precisa ficar em observação e, assim que estiver estável, precisará de cirurgia na perna."
"Cirurgia?", a voz de Miguel era cortante. "Não. Eu vou transferi-la para uma clínica particular. Os médicos da minha família cuidarão dela."
"Mas senhor, não é aconselhável movê-la agora," o médico insistiu. "O transporte pode agravar as lesões. Os especialistas aqui são excelentes..."
"Eu não me importo com a sua opinião," Miguel o interrompeu, a arrogância pingando de cada sílaba. "Prepare os papéis da transferência. Agora."
Ouvi o médico suspirar, derrotado. Ele sabia que não podia discutir. Os ricos sempre conseguiam o que queriam. Ouvi seus passos se retirando e a porta se fechando mais uma vez.
Miguel se aproximou da cama. Senti sua presença pairando sobre mim, seu hálito com cheiro de café caro e mentira.
"Ah, minha querida Sofia," ele sussurrou, e eu senti seus dedos frios tocarem meu rosto. Tive que usar toda a minha força de vontade para não recuar. "Você não sabe o favor que me fez. Esse acidente... foi uma tragédia, claro. Perder nosso Pedrinho... meu coração está partido."
A ironia era tão venenosa que quase me engasgou. Ele acariciou minha bochecha com uma ternura falsa que me revirou o estômago.
"Mas agora, poderemos recomeçar. Só nós dois. Sem distrações. Você vai se recuperar, e nós vamos viajar, como sempre quisemos. Vamos para a Grécia. Você se lembra?"
Ele estava falando da viagem que eu sonhava em fazer, a viagem que ele sempre adiava por causa de "reuniões importantes". A mesma desculpa que ele usou enquanto nosso filho morria.
A porta se abriu de novo, mas desta vez os passos eram mais leves, acompanhados de um perfume floral enjoativo.
"Ela ainda está apagada?", uma voz feminina e afetada perguntou.
Clara. A amante. O "meu amor" do telefonema.
"Sim. A coitadinha está exausta," disse Miguel, seu tom mudando para um de falsa compaixão. "Clara, meu amor, que bom que você veio."
Senti o colchão afundar do outro lado da cama. Eles achavam que eu era um objeto inanimado, um obstáculo temporário em seu caminho para a felicidade.
"E o garoto?", ela perguntou, sem rodeios.
"Já foi. Tudo conforme o plano," respondeu Miguel. "Agora só precisamos cuidar dela. O médico queria operá-la aqui, mas eu já arrumei a transferência para a clínica do Dr. Alves. Lá, teremos controle total."
"Bom," disse Clara. "E os papéis da empresa? Ela precisa assinar logo, antes que algum advogado da família do velho apareça."
"Eu sei. Vou dizer que é para resolver o funeral do pai dela e do Pedro. Com a dor, ela nem vai ler o que está assinando. Vai confiar em mim," ele disse, com uma risada baixa e presunçosa.
Confiar nele. A palavra era uma piada de mau gosto.
"Mas e se ela demorar a acordar? Ou se ela se lembrar de algo?", a voz de Clara tinha um tom de ansiedade.
"Não se preocupe," disse Miguel. "Eu tenho uma coisinha para garantir que ela fique... calma e cooperativa por um tempo."
Ouvi o som de algo sendo desembrulhado, um plástico farfalhando.
"O que é isso?", perguntou Clara.
"Um sedativo forte. O Dr. Alves me deu. Uma pequena dose no soro dela vai mantê-la grogue, confusa. Fácil de manipular. Quando ela acordar, não vai se lembrar de nada direito, vai pensar que é efeito dos analgésicos."
Não. Eles tidak podiam fazer isso. Se eu ficasse sedada, não conseguiria pensar, não conseguiria planejar minha fuga, minha vingança. O pânico começou a borbulhar sob a minha fachada de inconsciência.
"Dê aqui," disse Clara, sua voz cheia de uma crueldade casual. "Deixa que eu faço. Tenho mais prática com agulhas."
Senti o toque frio dos dedos dela no meu braço, perto da entrada do cateter do soro. Meu corpo inteiro se enrijeceu. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa.
"Espere," a voz do médico soou da porta, surpreendendo a todos nós. "O que vocês estão fazendo?"
Miguel se virou rapidamente. "Doutor? Pensei que tinha mandado você preparar os papéis."
"Eu preparei, mas a enfermeira me alertou que a senhora aqui," a voz de Clara era puro veneno, "é uma amiga da família e queria ajudar a trocar o soro."
"Isso é medicação particular. Não é da sua conta," rosnou Miguel.
"Tudo que é administrado a um paciente neste hospital é da minha conta," o médico respondeu, sua voz firme. "E eu não autorizei nenhum sedativo adicional. A Sra. Sofia já está com a medicação necessária para a dor. Mais que isso pode ser perigoso."
"Perigoso?", Miguel riu. "Não seja ridículo. Eu sou o marido dela. Eu sei o que é melhor para ela."
Ele se aproximou do médico, sua voz baixando para um tom ameaçador. "Agora, se você não quer ter problemas na sua carreira, sugiro que você volte para a sua sala e esqueça o que viu aqui. Entendido?"
Houve um momento de silêncio tenso. Eu podia sentir a luta interna do médico, sua ética contra o medo. Por fim, ouvi seus passos hesitantes se afastando. Ele tinha desistido. Eu estava sozinha.
Miguel voltou para a cama.
"Idiota intrometido," ele murmurou.
"Anda logo com isso, Miguel," apressou Clara. "Vamos sair deste lugar fedorento."
Senti a agulha perfurar a borracha do meu acesso venoso. Um líquido gelado começou a se espalhar pela minha veia, uma sensação estranha e pesada. O pânico deu lugar a uma clareza desesperada. Eles estavam me drogando.
Eu precisava lutar.
Mas meu corpo não me obedecia. A escuridão nas bordas da minha consciência começou a avançar, espessa e pegajosa. A última coisa que senti foi a mão de Clara dando um tapinha condescendente no meu braço.
"Durma bem, querida," ela sussurrou. "Quando você acordar, o mundo será um lugar muito, muito diferente."
A escuridão me engoliu por completo, e a dor, o ódio e o medo se dissolveram em um nada absoluto.