No Pavilhão Esquecido, eu, Luna, sufocava não só pela corda no pescoço, mas por 21 anos tentando conquistar o amor de quatro homens para retornar à minha casa. Minha missão falhou miseravelmente, e o sistema me negou o retorno.
A única saída era a morte, mas nem isso me foi permitido. Mateus, meu ex-confidente, me resgatou do meu próprio enforcamento, apenas para me lançar outra vez ao desprezo.
Fui arrastada de volta à minha antiga casa, a mansão Varga, onde Leandro, meu irmão, o homem que quebrou meus dedos e me deserdou por causa da "santa" Stella, me tratou como um verme.
Desesperada por finalmente morrer e ir para casa, comi veneno, mas Ricardo, que me apunhalou pelas costas e tirou meu filho, me impediu. Em vez de morrer, fui acusada de um crime que não cometi, presa e torturada novamente.
Nem mesmo quando Felipe, meu amor de infância que me trocou por Stella, tentou me "salvar" como sua concubina, a morte veio. Fui enviada para um suposto convento, apenas para Stella revelar ser outra jogadora do sistema, planejando me torturar e roubar meu progresso.
Mas o jogo virou. Usei uma centopeia venenosa para envenená-la e, enquanto o caos se instalava, corri para o penhasco. Com os lamentos dos homens que um dia me amaram – ou fingiram amar – ecoando atrás de mim, pulei.
Finalmente, estou em casa. Curada da doença, com memórias apagadas. Aqueles que me feriram, agora pagam em sua própria culpa. E eu, livre, peço bolo de fubá.
O ar no Pavilhão Esquecido era frio e úmido, impregnado com o cheiro de mofo que se agarrava às paredes e nunca mais saía. Eu estava de pé sobre um banquinho de madeira bamba, a corda áspera pressionando meu pescoço. Lá fora, o palácio estava em festa, com lanternas vermelhas e risadas que ecoavam à distância, celebrando a noite de festival. Mas aqui, no lugar mais desolado do palácio, não havia nada além de escuridão e um silêncio mortal. Para mim, todo aquele barulho era apenas uma zombaria.
Eu não tinha para onde ir neste mundo. Meu único desejo era voltar para casa.
"Finalmente", sussurrei para o vazio, "vou poder voltar para casa."
Passei vinte e um anos neste mundo. Vinte e um longos anos tentando completar uma única missão: fazer com que os quatro homens mais poderosos do império, os chamados "filhos do céu", se apaixonassem perdidamente por mim. Eu dei tudo de mim, usei todas as estratégias, manipulei, amei, sofri e sangrei por essa missão. Mas, no final, falhei. Falhei de forma miserável.
O sistema em minha mente, que antes me dava instruções e promessas, agora estava silencioso, exceto por uma última e fria notificação: "Falha na missão. As almas dos alvos não foram capturadas. O retorno ao mundo original está negado."
Negado. Essa palavra ecoou em minha mente como uma sentença de morte. Eu não podia aceitar. A única maneira de forçar um retorno, de ver minha família novamente, era morrer aqui. Se o sistema não me levaria de volta, então a morte o faria.
Com o coração pesado, mas com uma determinação de ferro, chutei o banquinho para longe.
A corda se apertou instantaneamente, cortando meu ar. Uma dor aguda e sufocante tomou conta de mim, e meus pulmões queimavam em busca de oxigênio. Minha visão começou a escurecer, e flashes da minha vida neste mundo passaram diante dos meus olhos como um carrossel macabro.
Vi o rosto de cada um deles. Mateus, o amigo que ajudei e que agora me desprezava. Leandro, meu irmão, que me amava mais do que tudo e agora me odiava com a mesma intensidade. Ricardo, o príncipe herdeiro que me prometeu o mundo e depois me apunhalou pelas costas. E Felipe, meu amor de infância, que trocou nossa promessa pela adoração de outra mulher.
Todos eles, em algum momento, me amaram. E agora, todos eles me odiavam. Odiaram-me a ponto de me jogarem neste buraco para apodrecer. Tudo por causa dela, Stella.
A consciência estava se esvaindo. A dor estava diminuindo, sendo substituída por uma estranha paz. Eu estava quase lá. Quase em casa.
Foi quando ouvi um som. Um grito abafado, cheio de pânico.
"Luna!"
E então, um estrondo. A porta do pavilhão foi arrombada com uma força brutal. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, senti um balde de água gelada ser jogado sobre mim, me encharcando e me trazendo de volta à agonia da sufocação.
Uma figura alta e sombria correu em minha direção, cortando a corda com uma adaga. Eu caí no chão, tossindo e engasgando, tentando desesperadamente encher meus pulmões com o ar mofado.
Quando minha visão finalmente focou, vi quem era. Ele usava vestes escuras de monge, e em sua mão, um rosário de contas negras era girado incessantemente. Seu rosto era bonito, mas marcado por uma frieza que congelaria o inferno. Era Mateus. O sumo sacerdote do templo imperial. O homem que eu um dia chamei de amigo.
Eu o reconheci instintivamente.
"Mateus...", minha voz saiu como um sussurro rouco.
Ele me olhou de cima a baixo, seus olhos cheios de um nojo profundo e inabalável. Um vinco de desprezo se formou entre suas sobrancelhas.
"Você não tem o direito de dizer o meu nome."
Sua voz era como gelo, cada palavra uma facada.
"Achei que você já tinha aprendido a ficar quieta neste lugar. Pelo visto, ainda gosta de fazer cena."
Ele se agachou, seu rosto a centímetros do meu.
"Mas tentar se matar? Luna, isso é baixo até mesmo para você."
A ironia era tão densa que quase me sufocou novamente. Anos atrás, fui eu quem o encontrou à beira da morte, um estudioso faminto e doente, abandonado em uma vala. Eu o levei para casa, limpei suas feridas, dei-lhe comida e um lugar para ficar. Naquela época, ele era tímido e grato, e me seguia como uma sombra, prometendo retribuir minha bondade um dia. Eu o guiei, ensinei-o a ler as pessoas, a navegar pelas complexidades da corte. Vi seu potencial e o ajudei a subir, até que ele se tornou Mateus, o poderoso e reverenciado sumo sacerdote.
Ele era meu amigo mais próximo, meu confidente. Ele confiava em mim.
E então Stella apareceu.
Tudo mudou em um piscar de olhos. Uma carta forjada, cuidadosamente plantada em meus aposentos, "provava" que eu estava conspirando contra o príncipe herdeiro, Ricardo. A caligrafia era uma imitação perfeita da minha. A armação foi impecável. Stella chorou, alegando que eu a ameacei para que ela guardasse meu "segredo sujo".
E todos acreditaram nela.
Meu irmão, Leandro, me deserdou e me expulsou do clã. Ricardo, meu noivo, rompeu nosso noivado e me chamou de traidora. E Mateus, meu amigo, foi quem me olhou com mais frieza, como se eu fosse a personificação do mal. Ele foi quem sugeriu que eu fosse trancada no Pavilhão Esquecido, para "refletir sobre meus pecados" pelo resto da vida.
Foram quatro anos. Quatro anos de solidão, fome e humilhação. As criadas me batiam, roubavam minha comida e riam da minha desgraça. Eu lavava suas roupas em água gelada até meus dedos sangrarem. Eu era a escória do palácio, a mulher que todos amavam odiar. E tudo isso, enquanto Stella era celebrada como uma santa, a salvadora que expôs a vilã.
Agora, Mateus estava aqui, olhando para mim como se eu fosse um verme.
"Fazer cena?", consegui dizer, minha garganta ardendo. "Você acha que eu faria tudo isso por atenção?"
Uma risada seca escapou de seus lábios.
"O que mais seria? Você sempre foi assim, Luna. Desesperada por ser o centro do mundo. Quando viu que ninguém mais se importava com você, decidiu usar a morte como seu último truque."
Eu o encarei, a raiva me dando uma força que eu não sabia que tinha.
"Se você realmente acredita nisso", eu disse, minha voz ganhando firmeza, "então por que você veio? O Pavilhão Esquecido é longe do seu templo. Você não deveria estar aqui."
Seu rosto se contraiu por uma fração de segundo. Ele foi pego de surpresa.
"Você não se cansa de me subestimar, não é?", continuei. "Você veio porque ouviu um boato e ficou preocupado. Você veio porque, no fundo, uma parte de você ainda se lembra daquele garoto moribundo que eu salvei."
"Cale a boca!", ele rosnou, a compostura abalada.
"Eu não vou me calar. Você pode mentir para si mesmo o quanto quiser, Mateus. Mas nós dois sabemos por que você está aqui."
Ele se levantou abruptamente, recompondo sua máscara de indiferença. Ele alisou suas vestes, como se tentasse limpar a sujeira do meu contato.
"Eu vim porque o príncipe herdeiro não quer um cadáver apodrecendo em sua propriedade. É um mau presságio."
Ele caminhou até a porta.
"Arrume suas coisas. Você não pode mais ficar aqui."
"E para onde eu iria?", perguntei, a esperança morrendo novamente.
Ele se virou, um sorriso cruel em seus lábios.
"Isso não é problema meu. Sua vida ou morte não significam nada para mim. Apenas saia do palácio. Você é uma coisa suja, e sua presença contamina este lugar."
Ele se foi, deixando a porta aberta.
Eu me levantei com dificuldade, meu corpo todo doía. Peguei o pequeno pacote de pano que continha minhas poucas posses e saí para a noite fria. Eu estava livre do Pavilhão Esquecido, mas para quê? Para morrer do lado de fora dos portões em vez de dentro?
O palácio era vasto. Enquanto caminhava pelos jardins escuros, a lua cheia iluminou a superfície de um grande lago ornamental. A água parecia calma e convidativa.
Se ele não ia me deixar morrer enforcada, então eu encontraria outro caminho.
Sem hesitar, caminhei em direção à borda. O ar da noite estava gelado, mas eu não sentia nada. Minha mente estava focada em um único pensamento: "Mãe, pai, estou indo para casa."
E então, eu pulei.