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Destino de Almas Perdidas

Destino de Almas Perdidas

Autor:: Syra Tucker
Gênero: Moderno
Eu estou morto. Minha alma flutua no ar, observando meus pais, o renomado detetive da cidade e a cirurgiã cardíaca de ponta, olhando para o que restou do meu corpo em um galpão abandonado. É um cheiro horrível de ferrugem e do meu próprio sangue, mas a pior dor vem da memória: o homem que me torturou, um antigo cliente do meu pai, me fez ligar para ele. Meu pai atendeu irritado e, ao saber que seu filho estava com um criminoso, desligou para priorizar o torneio de futebol de Pedro, meu irmão adotivo. "Ele nem se importa", o criminoso zombou. Agora, eles estão aqui, Ricardo analisando meu corpo mutilado como "mais um caso nojento" , e Helena com "repulsa" , incapazes de me reconhecer, mesmo após encontrarem minha identidade. "Não, não é ele. Nosso Lucas... ele é um delinquente, mas não isso. Ele deve ter sumido de novo", minha mãe insiste, com meu pai concordando, agarrando-se à ideia de que eu sou apenas o filho problemático "desaparecido", enquanto Pedro é o filho de ouro em segurança. A voz do meu pai ao telefone com Pedro, cheia de carinho, e depois a sua raiva ao falar de mim, "Que ele se dane, que não volte nunca mais!", ecoam, me mostrando que eu já estava morto para eles há muito tempo. Mas eles estão prestes a descobrir que sua negação terá um custo altíssimo, revelado por um pedaço de papel que engoli antes de morrer: um recibo de farmácia com a prova de que, até o fim, a única preocupação do "delinquente" era com eles.

Introdução

Eu estou morto. Minha alma flutua no ar, observando meus pais, o renomado detetive da cidade e a cirurgiã cardíaca de ponta, olhando para o que restou do meu corpo em um galpão abandonado.

É um cheiro horrível de ferrugem e do meu próprio sangue, mas a pior dor vem da memória: o homem que me torturou, um antigo cliente do meu pai, me fez ligar para ele.

Meu pai atendeu irritado e, ao saber que seu filho estava com um criminoso, desligou para priorizar o torneio de futebol de Pedro, meu irmão adotivo. "Ele nem se importa", o criminoso zombou.

Agora, eles estão aqui, Ricardo analisando meu corpo mutilado como "mais um caso nojento" , e Helena com "repulsa" , incapazes de me reconhecer, mesmo após encontrarem minha identidade.

"Não, não é ele. Nosso Lucas... ele é um delinquente, mas não isso. Ele deve ter sumido de novo", minha mãe insiste, com meu pai concordando, agarrando-se à ideia de que eu sou apenas o filho problemático "desaparecido", enquanto Pedro é o filho de ouro em segurança.

A voz do meu pai ao telefone com Pedro, cheia de carinho, e depois a sua raiva ao falar de mim, "Que ele se dane, que não volte nunca mais!", ecoam, me mostrando que eu já estava morto para eles há muito tempo.

Mas eles estão prestes a descobrir que sua negação terá um custo altíssimo, revelado por um pedaço de papel que engoli antes de morrer: um recibo de farmácia com a prova de que, até o fim, a única preocupação do "delinquente" era com eles.

Capítulo 1

Eu estou morto.

Minha alma flutua no ar, observando a cena abaixo.

É um cheiro horrível, uma mistura de ferrugem, poeira e o cheiro doce e enjoativo do meu próprio sangue.

Meu pai é um detetive particular renomado, o melhor da cidade.

Minha mãe é uma cirurgiã cardíaca de ponta, uma das mãos mais firmes do país.

Eles são um casal poderoso, respeitado por todos.

Mas agora, eles estão aqui, neste galpão abandonado, olhando para o meu corpo.

Ou o que restou dele.

Eu os observo, flutuando acima, e a memória da minha última hora de vida volta com força total.

O homem que me torturou, eu o conhecia. Ele era um antigo cliente do meu pai, um criminoso que meu pai desmascarou e mandou para a cadeia. Ele queria vingança.

E eu fui o peão no seu jogo.

Enquanto ele me machucava, ele pegou meu celular.

"Vamos ligar para o papai", ele disse com um sorriso cruel.

Ele discou o número. Meu pai atendeu.

"Alô?" a voz do meu pai soou irritada do outro lado.

O criminoso colocou o celular no meu ouvido. Eu tentei gritar, gemer, fazer qualquer som que pudesse alertá-lo. Mas minha boca estava cheia de sangue e dor.

"Quem está falando? Pare de brincadeira, eu estou ocupado!", meu pai disse, a impaciência clara em sua voz.

O torneio de futebol do Pedro.

Meu irmão adotivo, Pedro. O filho de ouro.

Eu ouvi os gritos da torcida ao fundo. Ele estava no jogo. Priorizando o jogo de Pedro.

"Seu filho está comigo", o criminoso disse calmamente.

Houve uma pausa.

"Olha aqui, seu desgraçado, se isso for mais uma das palhaçadas do Lucas, eu juro que quando ele voltar para casa...", meu pai começou a gritar.

Então, ele desligou.

O criminoso riu, um som baixo e gutural.

"Ele nem se importa, garoto. Para ele, você é só um problema."

Essas palavras doeram mais do que qualquer faca.

Agora, meu pai está aqui. Ele chegou com a equipe da polícia. Minha mãe veio logo depois, seu rosto pálido sob as luzes frias da perícia.

Eles olham para o corpo no chão. Um corpo mutilado, desfigurado.

Meu pai, o grande detetive, franze a testa.

"Que trabalho nojento. O assassino é um sádico. Queria deixar uma mensagem."

Minha mãe, a cirurgiã que lida com a vida e a morte todos os dias, vira o rosto, uma expressão de repulsa.

"Ricardo, isso é... horrível. Como alguém pode fazer isso com outra pessoa?"

Eles não me reconhecem.

Eles olham para o meu rosto quebrado, para as minhas roupas rasgadas e ensanguentadas, e não veem seu filho.

Eles veem apenas mais um caso, mais uma vítima anônima da violência da cidade.

A ironia é tão dolorosa que quase me faz rir, se eu ainda pudesse.

Meu pai se agacha, o profissional em ação. Ele não toca em nada, apenas observa.

"Múltiplas facadas. Sinais de tortura. O rosto está irreconhecível. Vamos precisar da arcada dentária ou de DNA para identificar."

Minha mãe, Helena, se afasta.

"Não consigo olhar. É desumano."

Eu quero gritar.

Sou eu! Sou eu, mãe, pai! Olhem direito!

Mas minha voz não sai. Sou apenas um espectador silencioso da minha própria tragédia.

Um dos peritos encontra minha carteira, jogada a alguns metros do corpo. Ele a abre com cuidado, usando luvas.

"Temos uma identidade. Lucas Andrade."

Meu nome.

Meu pai pega a identidade. Ele olha para a minha foto, depois para o corpo no chão, e balança a cabeça.

"Não. Não pode ser."

Minha mãe se aproxima, olhando por cima do ombro dele.

"Lucas? Nosso Lucas?"

Ela olha para o corpo novamente, o horror em seu rosto se transformando em negação.

"Não, não é ele. Nosso Lucas... ele é um delinquente, está sempre se metendo em encrenca, mas... não isso. Ele deve ter sumido de novo. Ele faz isso, ele some por dias para chamar a atenção."

Meu pai concorda, aliviado.

"Exatamente. Helena tem razão. O Lucas é um irresponsável, mas não... não isso. O corpo está muito desfigurado. Pode ser qualquer um. Alguém deve ter roubado a carteira dele."

Eles se agarram a essa ideia com uma força desesperada.

A ideia de que seu filho biológico, o "delinquente", está apenas "desaparecido".

Enquanto Pedro, o filho adotivo perfeito, o "bom filho", está seguro, marcando gols em um torneio de futebol.

Eu me lembro de uma vez, há alguns meses. Eu tinha comprado um canivete suíço. Era uma ferramenta, eu gostava de acampar, de montar coisas.

Meu pai o encontrou no meu quarto durante uma de suas "inspeções".

"O que é isso, Lucas? Andando armado agora? Quer virar bandido de vez?"

"Pai, é só uma ferramenta..."

"Não me venha com desculpas! Você está proibido de ter isso. Já não basta a vergonha que você nos faz passar?"

Ele confiscou o canivete.

Agora, olhando para o meu corpo esfaqueado, ele não consegue conectar os pontos. Na mente dele, o filho que ele imaginava que poderia usar uma faca nunca seria a vítima de uma.

A verdade está bem na frente deles, em um corpo que eles se recusam a ver.

E eu entendo, com uma clareza terrível e final.

Não há lugar para mim no coração deles. Nunca houve.

Nem mesmo o sangue que compartilhamos pode mudar isso.

Para eles, eu já estava morto há muito tempo.

Capítulo 2

Minha irmã, Camila, sempre tentou me fazer entender.

"Eles te amam, Lucas. Do jeito deles. É que... o Pedro chegou numa época em que eles precisavam de um recomeço. E você... você os lembra de um tempo difícil."

Eu nasci quando a carreira deles estava apenas começando. Eles eram jovens, ambiciosos, sempre trabalhando. Eu era um fardo, uma distração.

Pedro foi adotado anos depois, quando eles já eram bem-sucedidos, estáveis. Ele era o troféu, a prova de que eles podiam ter uma família perfeita.

Camila, a primogênita, era a jornalista observadora, sempre tentando manter a paz, sempre tentando me proteger.

Mas ela não está aqui agora. Está em uma viagem de trabalho em outro estado.

E eu estou aqui, observando meus pais analisarem a minha morte como se fosse um quebra-cabeça.

"A brutalidade é extrema", diz meu pai para um colega detetive. "Isso não foi um latrocínio. Foi pessoal. Ódio. Vingança."

Ele anda pela fábrica abandonada, seus olhos de detetive captando cada detalhe.

"O assassino conhecia o local. É isolado. Ninguém ouviria os gritos."

Minha mãe, Helena, está conversando com o médico legista. Sua voz é clínica, desprovida de emoção.

"A causa da morte provavelmente foi a perda de sangue, mas os ferimentos no rosto... foram feitos para desfigurar. Para apagar a identidade. Isso vai dificultar o trabalho de vocês."

Eles são tão bons em seus trabalhos. Tão competentes.

É uma pena que tenham falhado tanto como pais.

Eu flutuo perto deles, um fantasma em meu próprio funeral.

É quase engraçado. Eu sempre senti que dava trabalho a eles. Agora, morto, eu lhes dei o maior caso de suas carreiras.

Talvez agora eles me deem um pouco de atenção.

O celular do meu pai toca novamente. Ele olha para a tela e seu rosto se suaviza instantaneamente.

"Oi, campeão!"

É Pedro.

"Pai, nós ganhamos! Eu fiz dois gols! Onde vocês estão? A mãe não atende."

A voz de Pedro é animada, cheia de orgulho. O bom filho.

"Estamos... trabalhando, filho. Um caso complicado. Sua mãe está aqui comigo."

Meu pai olha para minha mãe, que força um sorriso para ele.

"Diga a ele que estou orgulhosa", ela sussurra.

"Sua mãe está muito orgulhosa de você, Pedro. Nós dois estamos. Escuta, vamos nos atrasar um pouco. Vá para casa com o motorista, ok? Peça o que quiser para o jantar."

A gentileza na voz do meu pai é algo que eu raramente ouvi dirigida a mim.

"E o Lucas?", pergunta Pedro. "Ele não apareceu. Tentei ligar, mas o celular dele está desligado. Aquele idiota, ele disse que vinha."

A expressão do meu pai se fecha novamente. A raiva volta.

"Não se preocupe com o Lucas. Ele deve estar por aí, fazendo suas besteiras de sempre. Quando aquele moleque aparecer, ele vai ter uma conversa séria comigo."

Desligado.

O celular está desligado porque o assassino o quebrou depois que meu pai desligou na minha cara.

Mas eles não sabem disso. Para eles, é só mais uma prova da minha irresponsabilidade.

Minha mãe suspira, passando a mão pela testa.

"Eu não sei mais o que fazer com o Lucas, Ricardo. Ele não tem jeito. Eu passo o dia inteiro salvando a vida de estranhos, mas não consigo salvar meu próprio filho de si mesmo."

Uma pontada de algo que não consigo nomear atravessa seu rosto.

"Outro dia, ele me deixou um bilhete na porta da geladeira. 'Mãe, não se esqueça de tomar suas vitaminas. Você parece cansada'. Fiquei olhando para aquele bilhete... por um longo tempo."

Por um segundo, um vislumbre de dor, de arrependimento.

Mas então ela balança a cabeça, como se para afastar o pensamento.

"E agora ele some no dia do torneio mais importante do Pedro. É de propósito, Ricardo. Para estragar o momento do irmão."

Meu pai coloca um braço em volta dos ombros dela.

"Eu sei, Helena. Eu sei. Mas não vamos deixar que ele estrague. Hoje a noite é do Pedro. Vamos focar nisso. O Lucas que se dane."

"O Lucas que se dane."

As palavras ecoam no galpão vazio.

Eu me sinto frio. Mais frio do que quando o sangue parou de correr nas minhas veias.

É um frio que vem da alma.

Eles continuam a me culpar, a me julgar, mesmo quando meu corpo está a poucos metros deles.

A preferência deles por Pedro não era apenas uma preferência.

Era uma sentença.

E eu acabei de cumprir a minha.

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