Em 15 anos atrás...
Maria Cecília
Estudo no Colégio Santa Inês desde pequena, minha mãe que sempre acordou com tudo mesmo trabalhando duro preferia pagar meus estudos ao realizar o sonho em ser cabeleireira, mas quando eu era pequena nunca que teríamos condições para abrir um negócio nosso, pois não era só o curso e sim materiais, produtos, funcionários e sem contar na clientela já que não conhecíamos muita gente na cidade
Éramos eu, minha mãe que sempre me apoia em tudo e em qualquer coisa que eu quisesse fazer, meu pai que sempre foi um problema em nossas vidas, já que tem problemas com bebida e vício em jogo, minha avó que sempre deixa bastante claro que eu sou a neta menos amada da família
E tínhamos também João Paulo que foi meu irmão que eu mais tive responsabilidades na vida, muito cuidei dele para que nossa mãe pudesse trabalhar e nos manter com bons estudos e tudo do bom e do melhor que ela pudesse nos dar, mas Deus o chamou cedo, quer dizer, um desgraçado o atropelou enquanto estávamos vindo da escola para casa
Eu tive apenas algumas escoriações, mas já meu irmão não teve a mesma sorte, tentei puxá-lo para o outro lado para que ao menos ele não se machucasse, mas foi tão rápido que eu não consegui a tempo.
Meu irmão teve várias fraturas pelo corpo e ficou em coma por muitos meses, de início o levamos para um hospital público, mas o motorista que o atropelou mandou que um advogado fosse ao dia seguinte nos procurar e oferecer todo o tratamento do meu irmão
🎞 Flash Back🎞
– Boa tarde! Sou o Dr Carlos Parada e sou advogado do cliente ao qual atropelou João Miguel Reis, ele me deu carta-branca para que transferissem seu filho para um hospital particular que ele arcará com todas as despesas
Blanca – Não é preciso, meu senhor, e espero de coração que seu cliente esteja arrependido após atropelar uma criança inocente por estar embriagado
Dr Carlos Parada – Sim, ele está. E disse que eu só saísse daqui com a transferência do menino
Blanca – Então o senhor ficará plantado aí o resto dos anos, passar bem! – Falou virando as costas
Maria Cecília – Mamãe, pense bem! Sabemos como são os hospitais públicos, hoje tem médicos e amanhã não e sem contar que como iremos arcar com os remédios?
Blanca – Isso não tirará seu irmão do coma Maria Cecília!
Maria Cecília – Por isso mesmo mamãe, vamos fazer isso por ele!
🎞 Fim do Flashback 🎞
Na mesma tarde meu irmão havia sido transferido, cuidei dele por longos meses, eu e minha mãe sempre ficávamos revezando enquanto eu estudava na parte da manhã ela cuidava dele
Quando chegava da escola eu ficava até a metade da madrugada e foi assim por longos 3 meses até o dia ao qual meu irmão veio a falecer e o desgraçado do motorista teve o descaramento de ir ao enterro dizendo que a morte do meu irmão não ficaria em pune, pois ele daria R$100 mil reais, como se a vida dele valesse isso.
Minha mãe e eu quisemos rejeitar, mas minha mãe pensou bastante e já que meu irmão não teria a vida de volta, pelo menos mamãe poderia realizar o sonho dela de ter a profissão que ela sempre quis, de Cabeleireira e eu também poderia ter meus estudos garantidos que era o que eu mais presava na vida e foi assim que minha mãe conseguiu realizar o sonho de ter o próprio negócio dela
3 meses após o falecimento do meu irmão todos tentávamos levar a vida para frente como podíamos, minha avó é claro que me culpou por não cuidar do meu irmão direito e por isso o carro o pegou mesmo toda a família já estando ciente de que o motorista estava alcoolizado e estávamos na calçada, mas eu já estava mais do que acostumada com todos os insultos de vovó
Era mais fácil que saci cruzasse as pernas ou ver cabeça de bacalhau do que vovó algum dia ter alguma palavra de carinho se quer comigo
Mas mesmo acostumada ainda assim eu sofria, tentava entender o porquê de ela agir sempre daquela maneira, mas minha mãe sempre tentava passar pano dizendo ser da idade
6 meses após todo o sofrimento minha mãe foi pega de surpresa. Engravidou de Elizabeth, no início foi bem difícil, pois minha mãe estava perto de se formar a e meu pai como sempre torrava todo o dinheiro que visse pela frente em jogos e bebida, a sorte foi que toda a indenização do meu irmão metade ela usou para montar o salão e pagar o curso e o restante ela colocou em um banco para qualquer eventualidade
Elizabeth nasceu saudável e se tornou o mais novo xodó da casa e sentia que a minha missão de irmã protetora continuaria até o dia que Elizabeth completasse a maior idade
E eu cuidaria dela e faria meu papel de irmã protetora assim como não consegui fazer com João Paulo
Blanca – Filha, não vai à escola hoje?
Maria Cecília – Vou mamãe, eu só vim pegar esse livro já que é aula de matemática e vai ser preciso
Blanca – Tudo bem, eu vou sair com você, hoje é dia de dar a vacina da Elizabeth
Maria Cecília – Minha pimpolha sempre fica quietinha quando toma vacina – Falei dando um beijinho em sua coxa gordinha
Eu ficava bastante animada sempre que ia para a escola, já que eu iria ver o meu príncipe encantado ao qual sou apaixonada desde os meus 7 anos e olha que já tenho meus 15 anos e desde então nunca deixei de amá-lo.
Minha melhor amiga Mariana sempre diz que eu devo me declarar para ele, mas será que ele Bernardo Marrontinne se apaixonaria por uma pessoa simples e filha de uma cabeleireira como eu?
Não que eu tivesse vergonha da profissão da minha mãe, mas como sei que ele era filho de milionário e eu creio que ele jamais olharia para mim
Mariana – Você está esperando o que para contar que ama esse menino a mais de 7 anos?
Maria Cecília – Não sei amiga, acredito que eu nunca vá falar nada
Mariana – Não entendo o porquê, mas se você quer assim
Maria Cecília – Bom, você sabe que eu sou uma pessoa simples e ele é filho de gente rica
Mariana – Não temos tanto contato com ele, mas pelo pouco que vejo falarem, ele só é galinha amiga, mas um homem bonito desse, se ele não fosse galinha ao menos pintinho ele seria – Falou rindo
Maria Cecília – É talvez eu deva me declarar, o não eu já tenho mesmo, se vier um sim será a surpresa
Eu só precisava saber como iria contar se ia ser por carta ou se eu falaria cara a cara e resolvi ser mais cautelosa e colocar todo o meu sentimento no papel aproveitando a hora do intervalo
"Algo em você mexe comigo e não sei o que é, não sei o que em você me prende tanto assim por tantos anos, mas é algo que só você tem e é isso que te diferencia das outras pessoas. Nunca consegui ver isso em ninguém. É algo forte, intenso, algo que vai me levando para um caminho destinado a você e só você, um sentimento que às vezes me dá medo, mas ele acaba rápido assim que você chega e abre esse sorriso tão lindo, quando você está triste consigo tirar a minha própria felicidade só para ver mais um sorriso em seu rosto mesmo que não tenhamos tanta intimidade assim, não digo isso só porque te amo mas também porque um sorriso seu faz o meu dia mudar totalmente, dos meus sonhos, você nunca sai e sempre com o seu sorriso, com os seus olhos que são um castanho tão lindo fazendo com que eu me sinta feliz, com que eu me sinta amada mesmo sem que você saiba, tudo o que vem de você me faz ficar melhor e o destino trouxe você a minha vida, de uma forma tão inesperada, não imaginava que se tornaria assim tão importante, mas se tornou e fez o meu coração bater mais forte, eu sou completamente apaixonada por você, não posso negar e mesmo que eu negasse você saberia que seria a maior mentira do mundo. Minha vida não seria a mesma sem você, me apaixono mais por você a cada dia que passa e quer saber de uma coisa? Quero ter uma vida ao seu lado, planejando, mas agora não sozinha, não pensando somente em mim; mas em nós dois e quero ser feliz, a minha felicidade está em você, te amo em segredo a 8 anos! Assinado: Maria Cecília"
Mariana achou bem brega, mas eu não teria coragem de chegar e falar tudo que eu sentia a tantos anos, então foi a melhor forma, até porque nos falamos pouquíssimas vezes e ele com certeza estranharia
Mariana – E quando você entregará essa carta amiga? Vai agora, não é? – Falou roendo as unhas
Maria Cecília – Não amiga, na hora da saída é melhor! Vou chamar e entregar a ele e enfim ele saberá o quanto o amo
O sinal da escola soou e fomos em direção à sala, mas estava um burburinho estranho, não havia visto Bernardo aquele dia ainda até porque estava escrevendo a carta
Mariana – O que está acontecendo ali? – Mariana perguntou a um grupinho amontoado
– Bernardo Marrontinne brigou feio com o menino do 3º ano sendo suspenso, mas parece que os pais dele o tiraram da escola porque ele não tinha motivos de ser suspenso
Maria Cecília – O Quê? EU PRECISO CORRER – Falei correndo em direção ao portão de saída
Não é possível, agora que tomei coragem de me declarar e abrir meu coração, os pais o tiram da escola assim, corri todo o corredor da escola até chegar no portão principal, mas quando cheguei o porteiro não me deixou sair
É, eu já disse que se eu comprar um anão, ele cresce? Azarada como sou!
Porteiro – Aonde pensa que vai mocinha?
Maria Cecília – Preciso entregar isso a Bernardo! Me deixe sair, por favor – Implorei
Mas ainda assim o porteiro não me deixou sair, só estava Bernardo do lado de fora do carro e como vi que tinha uma brecha aberta na mochila dele, eu joguei a carta com o intuito de cair dentro da mochila, mas a carta caiu no bueiro próximo onde Bernardo estava e claro que ele não viu
Consegui ver a carta caindo por entre as grades, fiquei totalmente sem ação e conseguia escutar a música "oh no, oh no, oh no, no, no"
É foi por um fio, agora mesmo que Bernardo jamais saberá que eu o amo a tantos anos
Mariana – Maria Cecília! – Veio correndo – Conseguiu entregar a carta a ele?
Maria Cecília – Que nada, amiga! Ele ainda não tinha entrado no carro, só os pais dele e como a mochila dele estava aberta por conta do skate ainda eu joguei querendo que entrasse na mochila
Mariana – E entrou?
Maria Cecília – Foi por um fio, mas ela caiu no ralo
Mariana – Que azar amiga! – Falou me abraçando
Fui para casa desolada e pensando que talvez jamais voltarei a ver o menino que amo a mais de anos.
Maria Cecília
Dia seguinte e não estava nem um pouco a fim de levantar da cama para ir à escola, já que o meu maior motivo não iria mais para escola e faltava pouquíssimo para concluir o ano, me despertei dos meus pensamentos quando ouvi batidas na porta
Fernando – Maria Cecília, acorda! Sua mãe mandou que eu lhe chamasse para ir à escola
Maria Cecília – Hoje não papai! Não estou bem
Fernando – O que você tem? Não está com cara de estar doente! – Falou colocando a mão em minha testa
Maria Cecília – O senhor não tem cara de bebum e viciado em jogo, mas é e nem por isso eu lhe digo nada - Falei enquanto me agarrava mais ao travesseiro
Fernando – Maria Cecília, eu lhe exijo respeito! Você não está falando com seus amiguinhos de colégio e anda, vá tomar banho logo e se arrumar para a escola
Maria Cecília – "Eu lhe exijo respeito!" quem vê até pensa mesmo que tem toda essa bola para falar dessa maneira – Debochei indo em direção ao banheiro
Para ser sincera, seria mais um milagre meu pai estar em casa àquela hora da manhã, já que ele virava a noite bebendo e jogando Pôquer com os amigos
Sai do banho indo em direção à cômoda para pegar meu uniforme, comecei me arrumar e pensar que seria um longo dia na escola já que eu não teria o meu combustível que me levava a ir à escola todos os dias
Terminei de me arrumar quando ouvi o chorinho fino que eu jamais poderia confundir, era o de minha irmã Elizabeth, mas o que ela estava fazendo àquela hora também em casa? Minha mãe sempre a levava com ela para o salão
Maria Cecília – Por que minha irmã está chorando?
Fernando – Ela está enjoadinha por conta da vacina e disse a sua mãe que a deixasse aqui comigo porque as clientes reclamariam de toda hora ouvir chororô
Maria Cecília – Você cuidando de uma criança? É bem duvidoso! - Estranhei
Fernando – Não irei cuidar, em breve sua avó está chegando e ela que cuidará
Maria Cecília – Sendo assim, fico mais tranquila até porque Elizabeth é o mais novo xodó dela e jamais a trataria mal assim como faz comigo
Fui para a escola tranquila em sabe que estaria a controle, passei no salão rapidinho e dei um beijo em mamãe e no caminho encontrei com Mariana
Mariana – Bom dia amiga, sua cara está péssima!
Maria Cecília – É bom que combina comigo não é mesmo?
Mariana – Amiga você não pode ficar borocochozinha assim não, eu andei procurando e sei que Bernardo tem uma prima que estuda lá na escola, quem sabe você não consegue o endereço dele com ela
Maria Cecília – Mas nem sei o nome dela e nem nada - Disse cabisbaixa
Mariana – Não se preocupe que eu sei de tudo, é só me seguir que você ficará na boa
Chegamos à escola e Mariana me fez a seguir igual cachorrinho de madame para cima e para baixo atrás da tal menina que era prima de Bernardo, super famosa, mas que eu jamais a vi e soube de sua existência
Mariana – Vocês viram uma menina loirinha, dos olhos claros que se chama Ana? – Perguntou a um grupinho que estava na cantina
– Ali – Falou apontando
Mariana – Vamos Maria Cecília, coragem! Peça o endereço do Marrontinne e vamos até lá, se essa carta caiu no bueiro é certeza que é o destino falando para que você se expresse cara a cara para ele
Maria Cecília – Ou então é o destino estampando na minha cara que eu jamais o terei, eu já até desisti de me declarar sab... - Falei enquanto Mariana me puxava pelo braço
Mariana – Ana? – Mariana me cortou – Essa é Maria Cecília, ela e seu primo Bernardo tem um assunto que ficou pendente e soubemos que ele saiu da escola, não é mesmo? Enfim, pode nos passar o endereço dele ou algum contato?
Ana – Ih se é mais um casinho do meu primo, eu já te deixo ciente de que ele não vale nada gracinha – Falou dando uma piscadinha para mim
Maria Cecília – Não é nada disso, é que... – Me embananei toda
Ana – Eu entendo! Meu primo realmente é um canalha, mas um canalha bonitão e sortudo, não precisa ficar tímida! Irei te passar o endereço e até te levo lá gracinha, mas não diga jamais que eu que lhe dei o endereço, meu tio é todo misterioso e não gosta que Bernardo leve casinhos para casa
Mariana – Mas ela não é nenhum casinho dele não, bom... ainda não né? – Falou sorrindo para meu lado
Maria Cecília – Cala o focinho, Mariana! Vamos logo embora antes que você arraste mais a minha cara pelo chão da escola até chegar a piscina, tamanha a vergonha – Falei a puxando pela mão
Ana – Não precisa ficar tímida, não gracinha, eu entendo o que esteja se passando, mas não ligue, até porque não adianta um pitéu como você sofrer pelo meu primo. Aqui está o endereço e lembre-se, jamais diga quem lhe deu – Me estendeu o papel com endereço
Mesmo mais vermelha que o boletim de Mariana, ainda assim peguei o papel e sai a passos fundo com a mesma
Mariana – Viu? Não foi tão difícil e pelo que vi, aquela ali curte de manga a banana né?
Maria Cecília – Quê?
Mariana – Não percebeu não? Senti o cheiro de couro de longe, aquela ao lado dela deve ser alguma namoradinha, não duvido nada!
Maria Cecília – Mariana, não delire! Vamos logo para a casa, quero tomar um banho e me arrumar bem bonita para ir até lá
Pegamos o ônibus e Mariana desceu no mesmo ponto que eu, já que ela queria ir junto comigo para que eu não desistisse de abrir meu coração no meio do caminho, até pensei em escrever outra carta, mas depois do fim trágico que a outra levou eu preferi não insistir mais e o único papel que vou querer ver, são cédulas em dinheiro