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Devon

Devon

Autor:: Evangeline.Carrão
Gênero: Romance
"Ele não era nada. Mesmo depois de ser alguma coisa." Olívia Davis a iniciou sua vida muito tarde, a única experiência que tinha era cuidar de alguém doente. Aos 23 anos e sem opções, é contratada para cuidar da Sra. Miller na residência dela. Logo nos primeiros dias na casa, Olívia atende uma ligação muito estranha que continua se repetindo. Do outro lado da linha, Devon se surpreende ao sentir algo além de fome a cada vez que ouve e sente Liv em toda sua estrutura.

Capítulo 1 Prólogo

Acho que devia começar dizendo: Oi, eu sou o Devon. Como você está?

E aí você responde: Bem e você?

Mas você não está aqui para saber do meu bem estar, você veio pelos detalhes sórdidos da história da Liv. Eu sei eu sei. Isso não me ofende, também me intreresso muito mais por ela que por você.

Ainda assim, eu gosto da atenção e vou contar tudo desde o início quando eu não era nada.

Bem, eu já existia a muito tempo, claro. Mas muito longe de ser alguma coisa. No começo, só ficava parado no lugar, esperando algo que nunca acontecia, o tédio me deu fome, uma fome que crescia a cada dia, mês e ano. Os humanos concordam comigo que o tédio dá fome, quanto mais ociosos mais mastigam, observei isso ao longo dos anos.

Eu ouvia sons ao redor, gostava deles mas nunca vinham até mim, então eu olhei em volta, não sei como passei a enxergar, assim como não sei muita coisa a meu respeito, o que importa é que vi troncos imensos cobertos por uma touca verde vistosa de onde vinham os sons, me modifiquei aos poucos, tão lentamente que seria quase impossível perceber, até ser alto como as árvores que eu invejava. E por Deus, minhas folhas eram lindas e adornavam grandes galhos de um marrom intenso, quase preto.

Isso fez os sons virem até mim, pequenos pássaros que pousavam nos meus galhos, piavam, bicavam e partiam. No verão seguinte ele apareceu, um belo gaio-azul com sua barriga branquinha, trazendo gravetos de árvores que eu não via, folhas, terra, cascas. Seu ninho caprichoso ficou pronto em poucos dias, ele se aninhou e se remexeu, deixando ovos minúsculos de cor azulada e pintinhas escuras. Eu quis cuidar mas eram tão deliciosos e ainda estava faminto, então quando nasceram eu os suguei, cada pequeno sopro de seus pulmões, cada batida de seus corações e quanto mais o gaio-azul ficava com seus filhos mais eu o sugava também.

Eu os devorei até a vida deixá-los completamente, vieram muitos outros depois desse, famílias de pássaros dos mais variados, esquilos que se escondiam nas minhas partes ocas, roedores que subiam em meu tronco para se proteger da chuva, coelhos que cavavam tocas entre minhas raízes. Eu devorei todos eles.

As coisas em volta ficaram em paz por um tempo até que algumas árvores foram derrubadas, deixando um espaço vazio no chão, terra batida e preparada, vieram animais diferentes, homens, os primeiros que eu vi, levantaram abrigos e acenderam fogueiras que espantavam qualquer animal que ousasse se aproximar.

Isso me deixou com raiva e com fome. Tá, eu sei que falo muito essa palavra mas é que eu sinto tanta... tanta fome.

Precisei mudar, encolher muitos metros, cruzar troncos e amarra-los com corda mas deixar a parte do centro vazia, colocar uma abertura na frente e cobrir tudo com pele de búfalo pintada, o chão reto e o couro sem furos era convidativo mas ninguém se aproximava de mim.

Foi a época mais difícil da minha longa existência.As mães assustavam os filhos, dizendo que o mal vivia naquela tenda, os velhos contavam lendas sobre o abrigo que surgiu do nada, construído por ninguém, da energia maligna do lugar.

Qual é?! Os Comanches nem sabiam limpar a própria bunda, o que podiam saber sobre mim?

Certo, isso foi meio racista. Mas tente entender, eles me causaram quase cinco décadas de fome, a única comida que eh tinha era insetos e ratos.

Eu estava tão faminto quando o primeiro homem de pele clara apareceu, ele não teve medo, não deu ouvidos aos locais. Selvagens como ele dizia, mesmo assim preferia dormir em um rede entre as árvores. Na primeira tempestade ele arriscou, o devorei em uma noite. Quando os companheiros o acharam com a pele ressecada a ponto de rachar, sangue preto saindo de seus olhos e ouvidos, sinais de uma refeição bem feita.

Isso me fez ganhar minha fama, diziam que um demônio vivia ali dentro. Se eles soubessem que eu devoraria esse demônio também. Mesmo que eu só fosse descobrir o que era anos mais tarde.

Felizmente, para mim, homens brancos adoram acabar com tudo o que encontram. Os nativos foram expulsos, aos poucos, empurrados para mais fundo na floresta, hoje eles vivem em uma reserva em Oklahoma, ouvi isso de um burguês que batia na esposa lá pela década de 60.

Ao meu redor as coisas evoluíram, ruas foram cavadas, eu fui deixado em paz por um tempo, aparentemente os lotes próximos ao rio eram mais interessantes.

Mas a civilização avança, e meus arredores foram tomados por cabanas de caça, me tornei uma delas, transformando o couro de búfalo em madeira, fiquei camuflado, o que era ótimo.

A cidade foi crescendo e como para frente só tinha o rio, a escolha foi construir próximo á floresta. As construções ficaram maiores e tinham quintais, jardins, pomares. Quando elas chegaram até mim, com famílias pobres o suficiente para não questionar sobre uma casa abandonada, eu finalmente tive abundância.

As vezes eles não ficavam tempo o suficiente para definhar, mas davam uma boa quantidade de energia, ás vezes demoravam demais e morriam.

Nunca quis realmente matá-los, fossem homens, mulheres, crianças, animais de estimação. Mas eu não tinha como evitar, eram deliciosos. Derretiriam na boca se eu tivesse uma.

E eu tinha tanta fome.

Não parei de me aperfeiçoar. Sou um tanto vaidoso, sabe?! Me orgulho da minha estrutura de madeira, vidro, ferro. Meus encanamentos nunca fazem barulho, meu telhado aguenta qualquer tempestade, meus móveis são confortáveis aos olhos e ao corpo.

Capítulo 2 Olívia

Antes mesmo de Colin Miller estacionar em frente ao número 46 da Darlington Trail, eu já estava com os olhos nele. Um belo sobrado colonial de paredes altas, janelas antigas que pareciam construídas com a casa, a varanda convidativa e até mesmo os vidros circulares em cores vivas que enfeitava a porta, tinham um charme único.

Ele era lindo, desde a calçada até o telhado.

- Chegamos - Collin freou, fazendo meu corpo dar um tranco, o milésimo desde que me pegou na rodoviária - pronta para conhecer sua companheira?

- Não vejo a hora, Sr. Miller.

Collin era bancário, desses de meia idade que usam a camisa social larga por dentro da calça apertada com um cinto, tinha grana mas também muitos gastos e preocupações em excesso. Talvez daí sua calvície precoce.

Desci do carro me sentindo aliviada, Collin era tão desajeitado quanto gentil, seu óculos de aro fino escorregou até a ponta do nariz enquanto suas mãos se ocupavam com minhas malas.

- Precisa de ajuda? - ofereci, embora a bagagem fosse minha.

- Só abra a porta, por favor.

Se eu soubesse o que aconteceria ali dentro, teria aproveitado cada passo no caminho de pedra até os degraus da frente como uma marcha nupcial, agora eu mal me lembro, virei a maçaneta mas a porta não abriu.

- Ah, eu me esqueci. Está trancada - ele soltou as malas no chão, a nécessaire rolou até a cerca branca, Collin tropeçou ao tentar impedir.

- Eu pego. Porque não abre a porta enquanto isso?

Apanhei a nécessaire e algo me chamou a atenção. A cerca era lisa e bem lixada, mas havia algo bem abaixo da última curva, uma letra P entalhada, muito pequena que só seria possivel ver chegando bem perto ou se soubesse que estava ali. Isso me lembrou da minha infância, quando as coisas ainda eram boas.l e eu podia aprontar como uma criança normal.

- Srta. Davis? - olhei para Collin por cima do ombro - você vem?

O lado de dentro era bem diferente do que eu imaginava, as grandes janelas cobertas por grossas cortinas não deixava muita luz entrar, apesar de escura, a casa era bem cuidada e aconchegante, da porta eu podia ver um longo corredor que dava para o banheiro, à direita estava a escada e pouco antes dela uma passagem circular, por onde Collin me guiou. Passei por cima das malas deixadas na entrada e o acompanhei.

- Sala de visitas, não é muito usada pelo que pode ver, os sofás estão quase novos mas a lareira vai ser útil no inverno, pode usar se ainda estiver aqui. Atrás daquela porta tem um escritório - ele apontou para a frente da casa - vai encontrar as contas lá, receitas antigas e esse tipo de coisa, também tem um computador com internet. Está na faculdade, não é?

- Curso técnico, na verdade.

- Pode estudar ali se quiser- e seguindo para o outro lado - aqui é uma sala de qualquer tipo, não achei utilidade para ela, mas trouxe um equipamento de ginástica.

- E o piano?

- Não sei se funciona, tentei dar fim mas é grande demais para passar pela porta.

- Se ele entrou, tem um jeito de sair. Mas é melhor assim, quem sabe não arrisco algumas notas?!

Collin olhava para o instrumento com as mãos na cintura, como se aquele fosse um quebra cabeças bem difícil de montar.

- A maioria dos móveis veio com a casa - deu de ombros, por fim - essa é a última sala desse lado, sala de tv - ele entrou no próximo cômodo, e apontou para uma outra porta - aqui dá para o banheiro e tem outra saída no corredor, é o jeito mais fácil de passar para o outro lado.

Ele abriu e mesmo achando aquilo estranho eu o segui, os cômodos pareciam todos interligados como o corpo humano, embora suas funcionalidades fossem questionáveis, quer dizer, quem coloca duas portas em um banheiro de visitas? Quem não precisa de privacidade, eu imagino.

Passamos por outra abertura em arco do outro lado do corredor, a sala de jantar era grande, diferente das outras, muitas cadeiras em torno de uma mesa comprida e um lustre imenso acima. No final uma porta balcão que dava para a cozinha e a saída dessa de volta ao hall.

- E é isso no térreo, mas acho que vai ficar mais tempo lá em cima - Collin subiu alguns degraus e precisou parar para descansar.

- O senhor está bem?

- Não sei como vocês conseguem fazer isso - ele suspirou pesadamente, sua gentileza alegre dando lugar a algo mais sombrio - não me entenda mal, Srta. Davis, mas cuidar da minha mãe tem me deixado doente também.

- Está com ela há quanto tempo?

- Uns cinco meses desde que a última cuidadora se demitiu. Foi difícil encontrar alguém para tempo integral.

Eu sabia que o horário não era o problema, para tal, a maioria das cuidadoras cobraria três vezes o que o Sr. Miller estava disposto a pagar. E era por isso que ele me contratou, sem experiência comprovada, sem estudo e de outro estado. Se alguém arrisca colocar uma pessoa sem nenhuma referência para cuidar da vida da própria mãe em uma casa cheia de analgésicos é por que está sem opções e por sorte eu também não tinha muitas.

A escada dava para uma janela que quase ocupava a parede toda e no pequeno espaço acima do banheiro no andar debaixo, havia uma mesa pequena com um telefone vermelho mas nenhuma cadeira, os dois lados da escada traziam um corrimão da mesma madeira escura do piso e se fechavam em um quadrado perfeito, o corredor largo tinha suas paredes cobertas por papel de parede florido em tons de azul e mostravam duas portas de cada lado.

- Todos os quartos estão mobiliados mas acredito que ficará mais à vontade neste - Collin abriu uma porta à direita.

O quarto era grande, pegava a cozinha e a varanda.

- Está ótimo, Sr. Miller.

- Bem, tem um envelope com uma quantia para emergências na mesa do telefone mas você pode me ligar se precisar de algo - ele olhou para os quatro cantos do chão enquanto batia nos bolsos - certo, acho que é isso, então. Alguma dúvida?

- Acho que devia me apresentar a Margareth.

- Ah, sim - ele pareceu envergonhado e fez sinal para que eu o seguisse até a porta em frente a minha - mãe?

Ele abriu devagar e entrou.

Parei na porta, aquele quarto era muito familiar, tirando a mobília antiga e o papel de parede escuro. Os cilindros de oxigênio tinham o mesmo tom de verde, assim como os aparelhos brancos com o som de bipe que eu já conhecia.

- Ela não interage muito - Collin parecia perdido ao lado da própria mãe.

- Oi, Margareth. Eu sou a Olívia - me aproximei da cama, cada passo mais difícil que o outro. A mulher olhava o céu peloo vidro mas não acho que tivesse ciência do azul claro ou das nuvens brancas.

- Os médicos não deram um tempo exato mas só vai piorar, até...

- Eu entendo.

- Preciso ir agora, acho que não esqueci nada.

Collin estava muito incomodado, principalmente depois de ver a mãe, era como se quisesse fugir dali e nunca mais voltar. Eu o entendia, teria feito o mesmo. Infelizmente eu não tive essa opção.

- Eu sei o que fazer a partir daqui, Sr. Miller. Não se preocupe.

Ele assentiu e o acompanhei até a porta, não era difícil perceber o que ele sentia, culpa, medo, arrependimento, exaustão. Mesmo que ele ficasse, esse sentimento não iria embora, não importa o quanto ele fizesse, nunca seria igual ao que a mãe fez ao lhe dar a vida.

As chaves ainda estavam penduradas na fechadura então tranquei. Esperei por vários minutos até que Collin tomasse coragem para ligar o carro e voltei para o andar de cima, dessa vez levando as malas comigo.

As deixei no corredor, pegando apenas as folhas que Collin havia mandado por email sobre os cuidados com Margareth, junto com o contato de sua antiga cuidadora, ainda faltavam algumas horas para encerrar o dia então entrei no quarto da idosa para verificar seus sinais.

Margareth era uma senhora de oitenta anos, com a saúde muito debilitada embora não fosse possível fazer um diagnóstico preciso, os órgãos dela estavam falhando pela idade. Ela fazia drenagem linfática todos os dias e usava fraldas, seu corpo vivia apoiado por travesseiros para evitar atrito e mesmo assim haviam feridas causadas pela inércia.

- Tudo em ordem por aqui - constatei ao verificar os aparelhos - só vou trocar esse travesseiro, está bem?

Arrastei o travesseiro entre seus joelhos e ela abriu levemente as pernas. Voltei meus olhos para as folhas sobre a cômoda onde dizia 'invalidez'.

- Certo, acho que invalidez não quer dizer paralisia. Desculpe, ainda estou aprendendo os termos médicos. Vou ter mais cuidado com suas pernas na próxima vez.

Margareth não demonstrou sinal algum de consciência.

Eu só não entendia porque ela ficava na cama o dia todo se tinha alguma locomoção. Apliquei analgésico pela sonda e Margareth fechou os olhos cerca de dois minutos depois. Coloquei a máscara de oxigênio que ficaria com ela a noite toda, apaguei a luz e saí.

Desci as escadas, era estranho andar por uma casa tão antiga com piso de madeira sem que nenhum deles rangesse, na cozinha pude perceber o que estava ali com a casa e o que tinha sido posto pelo Sr. Miller.

Tirei um macarrão com queijo do congelador mas ao abrir o micro-ondas vi que estava imundo, impossível de usar, dei preferência para o forno antigo. Liguei em 230º e fechei. Me preparava para dar uma olhada no escritório quando ouvi meu celular tocar.

Corri para o andar de cima antes que o som de Pretend We're Dead do L7 acordasse Margareth e atendi sem nem olhar quem ligava.

- Alô!

- Oi, linda.

- Betsy? Oi.

- Como foi o primeiro dia?

- Bom, Collin só me pegou na estação às duas da tarde, então fiquei pouco tempo aqui, Margareth é quase um vegetal então acho que vai ser meio parado.

- Está chamando seu patrão pelo primeiro nome? Me diz, ele é bonito?

- Não e eu tenho namorado. Mas ele é legal, meio confuso mas legal.

Peguei as malas e as carreguei para o quarto enquanto falava.

- Você tinha um namorado. Mudou de estado, é a hora certa de dar um pé na bunda dele.

- É, mas ele está desempregado agora então vai tentar algo por aqui também.

Betsy nunca gostou muito de Justin e era recíproco, por essa razão minha amizade com ela acabou sendo deixada em segundo plano, inclusive tínhamos um esquema para ela me ligar. Eu não salvava seu número e se atendesse o telefone com um 'pode falar' era porque Justin estava perto então ela dizia que era engano e desligava. Isso não era um grande problema para nós duas e ter um pequeno segredo me ajudava a manter a ideia de que eu era um ser pensante independente dele.

- Justin está sempre desempregado. Olha, você quem sabe da sua vida, mas o Texas era pra ser seu recomeço não pode levar sua vida antiga com você, Liv.

- Eu sei, mas não posso simplesmente terminar quando ele mais precisa de mim.

Abri a mala e comecei a esvaziá-la sobre a cama.

- E quando você precisou?

- Eu tenho que desligar.

- Não, espera. Não vou tocar nesse assunto, me desculpe.

- Tudo bem, é só que essas não são assim tão simples.

- E como é morar em uma casa de rico?

- Não é uma casa de rico - ri, esquecendo totalmente a discussão anterior - é aconchegante, tem muitos cômodos mas pequenos.

- Se você fizer um bom trabalho, quem sabe eles não deixam a casa como herança para você.

- Você vê filmes demais.

- Pode acontecer.

- E eu não ia querer essa casa, é antiquada e o papel de parede é horrível.

- Pode derrubar e fazer um lava rápido. Quem sabe assim o Justin não trabalha um pouco.

- Betsy?

Ela era assim, se desculpava e minutos depois fazia de novo. Por sorte nossa conversa foi interrompida por um som alto e estridente do telefone fixo tocando.

Ah, Deus. Só de lembrar que foi assim que começou sinto toda minha pele arrepiar.

Capítulo 3 Devon

A primeira coisa que pensei ao ver o carro estacionar e Colin pegando as malas no porta malas foi: 'oba, mais comida'.

A primeira coisa que pensei ao ver Liv foi basicamente a mesma coisa, exceto que com ela eu queria que fosse mais lento.

Geralmente eu presto muita atenção nas pessoas quando elas chegam, depois tendem a me deixar entediado, algumas eram mais intrigantes que outras mas Colin me cansou nas primeiras duas semanas, a coisa mais interessante que ele fez nesses meses foi prender o dedo no aparelho de ginástica e levar cinco pontos, toquei piano feito doido quando ele foi ao hospital, Margareth adorou. Além disso ele era fraco demais, sua mãe estava comigo fazia um ano e meio e ainda viva enquanto ele em poucos meses já sangrava pelo nariz. Trazer uma nova cuidadora era o mínimo que podia fazer para me livrar do tédio.

Esperei ansiosamente até que ele fosse embora. As pessoas são mais interessantes quando estão sozinhas. Achei que Liv fosse abrir os armários e xeretar atrás de tudo que fosse de valor, não para roubar mas por curiosidade, ao invés disso ela subiu e entrou no quarto da Maggie.

Sim eu chamo a comida pelo apelido, fica menos cruel durante o processo.

Bem, notei que os cuidados de Liv eram bem diferentes dos de Rosa, a antiga cuidadora, ela olhou para a paciente de um jeito muito parecido ao que jovens mães olham para seus bebês.

Ao longo dos séculos eu ouvi muitas pessoas dizerem 'eu te amo', nunca entendi o significado disso, mas se fosse para apostar eu diria que era o que Liv sentia isso enquanto trocava as almofadas da idosa. Isso era algo para se pensar..

Ela desceu e abriu a geladeira, tirou uma embalagem e o colocou no forno.

"Macarrão com queijo? Vamos, Srta. Davis, você pode fazer melhor que isso."

O celular tocou me deixando frustrado.

Outra coisa sobre mim é que eu enxergo, escuto e há alguns anos passei a sentir cheiros, por isso me mantenho limpo, por isso também, percebi que o macarrão com queijo sem graça de Liv estava queimando no forno.

"Acabou de chegar e já vai me incendiar", eu teria bufado.

Voltei minha atenção para ela bem a tempo de ouvi-la dizer que meus papéis de paredes eram ruins.

Aquilo foi demais, eu me cuido para atrair mais pessoas a cada geração, as pessoas se sentem confortáveis e acolhidas, eu sou vintage como uma socialite com fogo de palha para levar uma vida pacata disse uma vez, pouco antes de ir embora ao descobrir que o Ebay não entregava aqui.

Quando Liv chegou já entregava, só para registro.

O importante é que Olivia Davis estava me difamando e tentando me matar, antes que eu pudesse pensar em mais alguma coisa o telefone tocou, ele não devia tocar, sei disso porque assim que a empresa de telefonia veio e fez furos em mim para passar fios que acabam ficando pendurados, eu os queimei. Muitas vezes até que desistiram. Disseram aos moradores que era o magnetismo do solo, se é que fazia sentido.

Sem telefone fixo por aqui. E mesmo assim ele estava tocando, era como uma cócegas vibrando por mim, Liv correu desesperada para manter a casa silenciosa.

- Alô.

Eu a ouvi, alto e nítido, muito mais perto e claro que qualquer outro som.

- Alô.

Não podia ser, eu não podia estar ligando para ela porque isso era algo totalmente novo e irreal, eu já tinha tido interações com algumas pessoas, batendo nas paredes e deixando palavras nos espelhos mas nunca algo assim.

- Oi? - arrisquei.

- Quem está falando?

- Você... tá me ouvindo?

- É, estou ouvindo. Com quem você quer falar?

Eu poderia ficar horas aqui tentando descrever o que eu senti naquele momento e ainda assim não conseguiria. Estava animado, ansioso, com medo, confuso e furioso, ela tinha dito que eu era antiquado.

Sério. Não foi legal.

- Er... forno.

Desliguei, ou esse é o termo mais correto para encerrar nossa conversa. Ela desceu correndo sem ao menos colocar o telefone no gancho. Naquele momento tive certeza que ela ia acabar me matando.

Ela desligou o forno, pegou a embalagem com um pano de prato e quase se queimou no processo, colocou embaixo da torneira e abriu, fazendo uma nuvem de fumaça subir até o teto da cozinha. Quase não acreditei nisso, meu teto ficaria preto e eu teria que limpar pouco a pouco por vários dias para não parecer suspeito.

Liv olhou pela janela, desconfiada. Fechou a cortina antes de conferir se a porta estava trancada, então pegou o celular e fez uma ligação. Enquanto chamava, ela tremia, ansiosa mas nada animada.

Sabe quando você tem que tirar um curativo mesmo tendo certeza que vai doer? Então, era assim que ela parecia.

- Alô? Oi, Justin - ela parou no meio da escada olhando para cima - eu só liguei para dizer que estou indo dormir. Quando você chega no Texas? - seus olhos estavam no telefone vermelho fora do gancho - está bem, até amanhã.

Estranho para namorados não dizer 'te amo' ao final da ligação.

Ela subiu e colocou o telefone no lugar, olhando para fora da única janela sem cortina, a maior da casa. Eu mantinha assim porque gostava como a luz da lua iluminava meus papéis de parede horríveis, como disse Liv.

Observei com atenção seus traços, ela era bonita, talvez você dissesse que ela estava acima do peso, mas houve um momento na história que Liv seria considerada a moça mais gostosa em todo o país. O cabelo castanho descia até o meio de suas costas em um rabo de cavalo preso no alto, pequenas manchas de Sol salpicavam seus ombros e seus olhos escuros pareciam dois puxadores de gaveta de tão grandes.

Liv voltou para o quarto de Maggie, ela sabia que a senhora não acordaria até o outro dia de manhã, mesmo assim, se sentou na poltrona e manteve os olhos fixos no leito, aos poucos sua cabeça pesou, tombando pro lado à medida que adormecia, notei sua pele arrepiada e seus membros encolhidos. Aumentei o aquecimento para deixá-la mais confortável. Não queria que ela ficasse doente porque quando fracos, os humanos morrem mais rápido.

Bem, eu queria acreditar nisso.

Ela passou a noite ali, acordando, dormindo e se assustando. Vários pesadelos em poucas horas, eu queria descansar mas não conseguia parar de olhar, me lembro de vê-la descer e preparar café, depois apanhar o jornal e jogar no lixo sem ao menos abrir.

'Nem as palavras cruzadas? É, Olivia. Você tem minha atenção.'

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