Logan, Dylan e Tyler, os três irmãos Creed são audaciosos, rebeldes, lindos... e estão em busca do amor!
Dylan Creed é um verdadeiro talento para domar touros e mulheres, mas quando sua filha é abandonada pela mãe aos seus cuidados, ele se vê totalmente perdido em meio a fraldas, mamadeiras e todas as outras manhas de uma garotinha de 2 anos. Não demora muito para que ele perceba que existe somente um lugar onde poderá criar Bonnie: seu rancho em Montana. Mas só isso não basta! É preciso encontrar uma mãe para sua menina e rápido!
Kristy Madison, a bibliotecária da cidade, perde a fala quando Dylan aparece para uma sessão de histórias trazendo um bebê. O homem que deixou uma trilha de corações partidos, incluindo o dela, está de volta. E, quando a paixão decide provar que jamais se extinguiu, Kristy se vê determinada a domar esse caubói de uma vez por todas.
CAPÍTULO UM
Las Vegas, Nevada
Ele soubera durante todo o dia que algo aconteceria, algo totalmente novo e que mudaria sua vida. Tal conhecimento havia lhe provocado um frio na barriga e um arrepio nos pelos da nuca durante a maratona de rodadas de pôquer na sua espelunca de jogatina favorita. Ele ignorara o sutil zumbido na cabeça como sendo nada mais do que uma ligeira distração, pois não tinha os costumeiros elementos de real perigo. Agora, porém, com o maço de notas dobradas, seus ganhos, enfiado no cano da bota esquerda, Dylan Creed sabia que era melhor tomar cuidado, assim mesmo.
No Glitter Gulch havia multidões de pessoas, seguranças contratados pelos mega cassinos para garantir que seus caixas eletrônicos ambulantes não fossem atacados, roubados, ou ambos; policiais e câmeras para tudo quanto é lado. Aqui, atrás do Black Rose Cowboy Bar and Card Room, lar dos jogadores de pôquer da pesada que desprezavam o brilho e o luxo, havia uma luz de rua que falhava, uma lixeira superlotada, um punhado de velhos carros enferrujados e, na periferia de seu campo de visão, uma ratazana do tamanho de um guaxinim.
Apesar de adorar uma boa briga, sendo um Creed de corpo e alma, Dylan não era nenhum tolo. Levar com uma chave de roda na nuca e perder o que havia ganho no dia, mais de 50 mil dólares em espécie, não estava em seus planos.
Ele caminhou na direção da reluzente caminhonete Ford de cabine estendida com a costumeira confiança, e provavelmente devia dar a impressão de ser um infeliz qualquer para quem quer que estivesse escondido atrás da lixeira, ou de um dos outros carros, ou apenas nas sombras.
Alguém definitivamente o estava observando; podia senti-lo agora, com toda a certeza, mas era mais irritante do que alarmante. Cedo na vida, apenas por ser o filho do meio de Jake Creed, aprendera que a presença de outras pessoas carregava a atmosfera de energia.
Apenas por precaução, enfiou a mão dentro da antiga jaqueta jeans, apertando levemente os dedos ao redor da coronha do 45 de cano curto que costumava levar para suas freqüentes jogatinas. Garth Brooks podia até ter amigos em lugares vulgares como o Black Rose, mas ele não. Apenas maus perdedores, ladrões e jogadores astutos andavam por aquela vizinhança, e Dylan Creed encaixava-se na última categoria.
Ele estava a menos de dois metros da caminhonete quando percebeu que havia alguém sentado no banco do carona. Na fração de segundo que levou para reconhecer Bonnie, ponderou se deveria ou não sacar o 45, ou até mesmo o celular.
Bonnie. Sua filha de 2 anos de idade estava de pé no assento, sorrindo para ele através do vidro.
Dylan correu até o lado do motorista, entrou no veículo e perdeu o chapéu quando a menininha se atirou em cima dele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços.
Com o cotovelo, Dylan pressionou a trava da porta no local do apoio para o braço.
- Papai - disse Bonnie.
Pelo menos na cabeça dele, o nome da menina era Bonnie. Sharlene, a mãe, o havia mudado várias vezes, de acordo com o último capricho.
- Oi, querida - disse Dylan, afrouxando um pouco o abraço, pois receava esmagar a criança. - Onde está sua mãe?
Bonnie o fitou com os enormes olhos azuis de cílios espessos. O cabelo louro se encaracolava ao redor das orelhas, e ela estava usando um surrado macacão de alças, uma camiseta listrada e sandálias de dedo.
Tenho apenas 2 anos de idade, seu olhar parecia dizer. Como eu deveria saber onde está minha mãe?
Mantendo o braço ao redor de Bonnie, Dylan virou-se e baixou o vidro da janela.
- Sharlene! - gritou para dentro do estacionamento escuro.
Não houve resposta, é claro, e, pela mudança das vibrações que vinha sentindo desde que atravessara a porta dos fundos do Rose, ele soube que sua antiga namorada havia se mandado. De novo.
Só que, desta vez, deixara Bonnie para trás.
Ele teve vontade de praguejar, até mesmo de esmurrar o volante, mas não fazia esse tipo de coisas na frente da menina. Não após, ao lado dos irmãos, Logan e Tyler, ter crescido em um lar semelhante a um misturador de cimento movido a álcool, sobressaltando-se com qualquer barulho. E não era só isso. Além do fato de não querer assustar Bonnie, estava sentindo-se estranhamente aliviado.
Graças à vida cigana de Sharlene, ele mal via a filha, embora ela sempre desse um jeito de descontar os seus cheques de pensão alimentícia, e ficar separado de Bonnie, sem saber o que estava acontecendo com ela, doía no seu peito como uma ferida na alma.
Bonnie se acomodou no seu colo, encostando a cabeça no peito e dando um ligeiro suspiro trêmulo. Talvez fosse de alívio, talvez de resignação.
A julgar pelo modo como a noite estava indo, ela provavelmente havia tido um dia daqueles.
Dylan apoiou o queixo no topo da cabeça da filha por um instante, os olhos ardendo e a garganta quente, como se ele houvesse tentado engolir a ponta em brasa de um ferro de marcar. Inclinou-se à frente, girou a chave da ignição e engatou a marcha.
Logan. Foi esse o seu pensamento seguinte. Tinha de ir à procura de Logan. Afinal de contas, seu irmão era advogado. E, apesar de Dylan ter dinheiro para pagar qualquer profissional no país, e ele e Logan estarem meio estremecidos, sabia que não havia ninguém mais em quem ele pudesse confiar, ainda mais se tratando de algo de tamanha importância.
Bonnie era filha dele, assim como de Sharlene, e, por Deus, ela merecia um lar estável, roupas decentes, visto que o que estava usando parecia ter forrado a cama de um cachorro por um ou dois anos, e, no mínimo, um pai responsável.
Não que ele fosse tão responsável assim. Passara anos vivendo à custa dos rodeios, e agora vivia à custa do pôquer. Tinha todo o dinheiro de que jamais precisaria graças a alguns investimentos astutos e uma assustadora capacidade de tirar um royal flush em praticamente todos os jogos. Além disso, também já fizera alguns serviços de dublê muito bem pagos para o cinema.
Comparado a Sharlene, apesar de não parar muito tempo no mesmo lugar, era concorrente ao prêmio de pai do ano.
Ele só encontrou o bilhete e a mochila surrada no banco de trás quando desceu do veiculo no South Point, seu hotel preferido. Carregando a adormecida Bonnie nos braços, enquanto aguardava que o manobrista levasse embora a caminhonete, ele leu o bilhete.
Estou com alguns problemas, Sharlene havia rabiscado com sua letra infantil, inclinando-a tanto para a esquerda que ela quase se confundia com as linhas da página do caderno barato, e não posso mais cuidar de Aurora. Agora era Aurora? Bom Deus, o que viria em seguida, Oprah? Achei que deixá-la com você seria melhor do que colocá-la em um lar temporário, já passei por isso, e foi uma droga. Não tente me encontrar. Estou com um namorado, e estamos pondo o pé na estrada. Sharlene.
Dylan esforçou-se para descerrar os dentes. Ajeitou Bonnie no braço de modo a poder pegar o comprovante de estacionamento que o manobrista lhe estendeu e, depois, pegou a mochila. Mandaria buscar suas próprias coisas na casa de Madeline, onde costumava ficar quando passava por Vegas. Madeline não iria gostar muito, mas Dylan não estava disposto a levar a filha de 2 anos para lá.
O South Point era um hotel enorme e bem iluminado. Se, na ocasião, Madeline, uma comissária de bordo, estivesse em um de seus vôos fora do país, ou namorando alguém, Dylan ficava ali sempre que vinha para o National Finais Rodeo, e o local era um estabelecimento apropriado para famílias.
E ele e Bonnie eram uma família.
Após conseguir um quarto com duas enormes camas, ele pediu que o serviço de quarto trouxesse hambúrgueres, porções de batata frita e milk-shakes. Enquanto aguardavam, Bonnie, apenas semiacordada, ficou deitada, encolhida, no seu lado da cama mais longe da porta, com o polegar direito enfiado na boca e os olhos seguindo cada movimento que ele fazia.
- Você vai ficar bem, menina - disse ele.
Ela parecia tão pequena, tão vulnerável, deitada ali com aquelas roupas velhas.
- Papai - ela disse e bocejou com vontade, antes de voltar a chupar o dedo, desta vez com vigor.
- Isso mesmo - Dylan respondeu, virando-se do telefone para a mochila. No seu interior havia mais roupas como a que ela estava usando, uma escova de dentes infantil com as cerdas gastas e uma boneca de plástico nua com cabelo pixaim e rabiscos de tinta azul no rosto. - Sou o seu papai. E parece que eu e você vamos fazer algumas compras, amanhã de manhã.
Não havia pijamas nem meias e, para falar a verdade, nem sequer havia sapatos decentes. Apenas mais dois macacões, mais duas camisetas de aparência miserável, a boneca e a escova de dentes.
Dylan sentiu a fúria entalada na garganta. Maldição, o que Sharlene estava fazendo com o dinheiro que ele enviava para a caixa postal em Topeka todos os meses? Ele sabia, a dizer pelo modo como o vultoso cheque sempre era descontado de sua conta, antes que a tinta secasse, que a avó o apanhava no dia que ele chegava, e enviava o dinheiro para onde quer que "Sharlie" pudesse estar.
Naturalmente, tinha suas suspeitas com relação às despesas de Sharlene. Cocaína, malhas de oncinha e afins, tatuagens para o namorado bobalhão do momento, senão para ela. Bonnie, provavelmente, havia sobrevivido a base de sanduíches e pizza congelada.
Dylan contraiu tanto os maxilares que chegou a doer; fez o esforço consciente para relaxar. Nada daquilo era culpa de Bonnie. Ao contrário dele, ao contrário de Sharlene, ela era inocente, forçada a conviver com as conseqüências dos erros de outras pessoas.
Nunca mais, ele jurou, silenciosamente.
Por mais que quisesse colocar toda a culpa em Sharlene, sabia que não seria justo. Sabia quem e o que Sharlene era quando dormira com ela, quase três anos atrás, após um rodeio, numa cidade da qual sequer conseguia se lembrar do nome. Haviam se enfurnado em um quarto de motel barato e transado durante uma semana; a seguir, cada um seguira o seu caminho. Alguns meses depois, do nada, Sharlene aparecera e lhe dissera que estava esperando um filho dele.
E Dylan soubera que era verdade, muito tempo antes mesmo de pôr os olhos em Bonnie e ver como era parecida com ele, do mesmo jeito que soubera que não estava sozinho no estacionamento atrás do Black Rose.
Abatida de cansaço e, provavelmente, de tanta confusão, Bonnie simplesmente mordiscou quando a comida trazida pelo serviço de quarto chegou, e, em seguida, adormeceu em seu macacão. Será que ela ainda estava tomando leite enriquecido, ou algo parecido? Será que ele deveria mandar o mensageiro do hotel ir buscar leite e mamadeiras na cidade?
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo embaraçado.
Amanhã de manhã, após comprar algumas roupas decentes para a menina, para evitar que o médico ligasse para o Juizado de Menores assim que eles entrassem no consultório, levaria Bonnie a um pediatra para um exame de rotina e para descobrir o que crianças de 2 anos comiam.
Quando teve certeza de que Bonnie estava dormindo profundamente, bem enrolada nas cobertas, ele ligou para Madeline. Ela o estava aguardando, embora, para crédito da moça, não fosse uma hora nem remotamente razoável, visto que o acordo deles era: passar a noite quando de passagem pela cidade.
Ele precisava das próprias roupas, dos apetrechos de barbear, e do seu laptop.
- É Dylan - disse, quando Madeline atendeu.
- Ganhou, amorzinho?
Ela cultivava um sotaque sulista, só que, de vez em quando, dava para se perceber resíduos de Minnesota, com sua ligeira cadência escandinava.
- Sempre ganho - murmurou Dylan, olhando para a filha adormecida.
- Neste caso, devemos comemorar. Encontrar um filme sensual na TV paga e...
- Olhe, Madeline, não vai dar para eu passar aí hoje. Algo... hã... aconteceu...
- Onde você está?
Havia, agora, uma aspereza no tom de voz de Madeline. Ela não era possessiva. Se fosse, Dylan teria desviado 80km de seu caminho só para evitá-la, mas ela havia recusado outras propostas durante a estada dele em Vegas, deixara isso bem claro, e não estava nada feliz de ter levado bolo.
- Estou no South Point - ele começou.
- Que droga! - Madeline exclamou, decididamente irritada.
- Você está com outra pessoa, alguma mulher, não está?
- Não exatamente.
- O que quer dizer com "não exatamente"?
- Estou com a minha filha, Madeline - disse Dylan, esforçando-se para ser paciente apenas porque não queria incomodar Bonnie. - Ela tem 2 anos de idade.
O sotaque retornou.
- Ah, traga-a aqui! Eu adoro bebês.
Por uma fração de segundos, Dylan chegou a considerar a oferta. Depois, recordou-se da tendência de Madeline para fazer sexo espontâneo, o cheiro de fumaça de maconha antiga que costumava impregnar o apartamento dela e a vasilha de camisinhas em embalagens multicoloridas sobre a mesinha de centro.
- Hã... não - disse. - Ela está muito cansada.
Ele pressentiu outra explosão se armando sob o sotaque de Madeline.
- Neste caso, por que se deu ao trabalho de me ligar? - ela ronronou.
Em um instante, ela poria as garras à mostra, prontas para retalhá-lo por completo.
- Preciso de minhas coisas - admitiu Dylan, encolhendo-se ligeiramente, como costumava fazer no playground quando criança, ao se ver prestes a levar uma bolada. - Agradeceria muito se pudesse colocar tudo em um táxi e mandar o motorista trazer aqui.
- Isso jamais passaria pela minha cabeça - Madeline retrucou.
- Eu deixo tudo aí a caminho da boate.
A ligeira ênfase nas últimas palavras foi uma mensagem clara: se ele não ia aparecer, ela é que não ficaria em casa sozinha, vendo televisão.
- Madeline, você não precisa...
- South Point? Foi onde disse que estava, não é?
- Foi, mas...
Ela desligou na cara dele.
Dylan sentou-se na beirada da cama, do lado oposto ao de Bonnie, e apoiou os cotovelos nos joelhos. Madeline iria querer subir direto para o seu quarto, provavelmente, para ver se ele mentira sobre quem estava lhe fazendo companhia, e ele não queria que ela acordasse Bonnie. Mas, a não ser que conseguisse convencer Madeline a mandar suas coisas pelo carregador do hotel, o que não parecia ser muito provável, ele não teria outra escolha.
Teria de deixar Bonnie sozinha para descer até o saguão, e isso não era uma opção.
Vinte minutos mais tarde, o telefone tocou, fazendo com que Bonnie se sobressaltasse das profundezas de algum sonho de bebê, e Dylan saltou na direção dele, atendendo-o com um sussurro:
- Alô?
- Estou aqui embaixo - disse Madeline - Qual é o número do seu quarto, amorzinho?
Dylan conteve outro suspiro. Deus, detestava ser chamado de "amorzinho".
- Doze quatro dois - disse.
Madeline, uma ruiva de pernas compridas, quase tão alta quanto ele, com seu l,80m, não tardou em aparecer à porta com o seu corpo bem feito. Espiando através do olho mágico, ele viu que ela estava acompanhada de um carregador do hotel trazendo um carrinho de malas com suas coisas. A boca brilhante da mulher estava cerrada e os olhos ligeiramente estreitados.
Relutantemente, Dylan a deixou entrar.
Na mesma hora ela examinou o aposento, seu olhar se fixando em Bonnie, enquanto o carregador aguardava educadamente para descarregar as coisas do carrinho. Dylan lhe passou a gorjeta e levou, ele mesmo, para dentro o laptop, o kit de barbear e a sua mala.
- Ela é uma gracinha! - disse Madeline, entusiasticamente, curvando-se sobre Bonnie.
- Não faça barulho - pediu Dylan. - Ela teve um dia difícil.
Uma vida difícil, para ser exato. Assim que se livrasse de Madeline, engoliria o orgulho e ligaria para Logan. Ele e o irmão mais velho haviam feito um certo progresso recentemente, mas o terreno podia ficar acidentado a qualquer instante, e pedir ajuda ao irmão exigiria um bocado dele.
Madeline levou o dedo em riste aos lábios cheios e adejou os cílios falsos. Bastaria colocá-la no seu esplendor de Vegas, com plumas e lantejoulas, vestidos minúsculos, sapatos de salto alto e meia arrastão e Bonnie, na eventualidade da menina acordar e ver uma total desconhecida olhando para ela, teria pesadelos sobre coristas até o fim de seus dias.
Ele pegou Madeline pelo cotovelo e começou a puxá-la na direção da porta.
- Boa noite, obrigado, quanto lhe devo pelo favor? Ela lhe deu um tapinha na face.
- Nós acertaremos da próxima vez que você passar por Vegas - ela disse. Depois, deteve-se. - O hotel provavelmente poderia arrumar uma babá e nós poderíamos...
- Não - disse Dylan, bruscamente.
Graças a Deus, Madeline foi embora, e já foi tarde.
Dylan tomou uma ducha, fez a barba, escovou os dentes e seguiu para a cama, apenas de cueca. Desde a época de escola que não usava pijamas.
Mas, agora, tinha de pensar em Bonnie. Não podia ficar desfilando de cueca na frente de sua filha pequena, mesmo que esta estivesse dormindo.
A paternidade ficava mais complicada a cada minuto que passava, pensou. Ainda mais levando em conta que não sabia nada a respeito do assunto. Sua experiência se limitara a algumas breves visitas a Bonnie sempre que Sharlene se dignava a ficar no mesmo lugar por mais de um mês.
Ele vestiu um par de jeans e uma camiseta e subiu na cama.
Prometeu a si mesmo ligar para Logan no dia seguinte. Ou no próximo, ou no outro dia depois dele...
Kristy Madison andava apressadamente pela enorme cozinha, abrindo uma lata de comida para o seu gato persa branco, Winstone, juntando suas anotações para a reunião daquela noite do clube do livro na biblioteca, pegando o celular de cima da bancada, onde ela o deixara carregando ao dar uma passada rápida em casa para jantar.
Ela desejou poder ficar em casa esta noite, afundar na enorme banheira com pés em forma de garra e ler um livro, mas, afinal de contas, o grupo de leitura havia sido idéia dela. E havia sido uma idéia muito popular, visto que 26 pessoas haviam se inscrito.
Em particular, Kristy se perguntava quantas delas simplesmente queriam dar uma olhada de perto em Briana, o interesse amoroso de Logan Creed. Antes de se envolver com Logan, Briana não passara de mais uma mãe solteira, cujo contracheque vinha do cassino nos arredores de Stillwater Springs, cujos filhos, Josh e Alec, estudavam em casa, e que costumava cuidar da própria vida.
Kristy mordeu o lábio inferior. Pensar em Logan inevitavelmente a levava a pensar em Dylan, e isso ainda era doloroso, embora já fizesse cinco anos desde a última vez em que o vira. Ele havia estado na cidade recentemente, as fofoqueiras haviam se certificado de que ela soubesse disso, mas não a procurara e, mais uma vez, ela se mostrara orgulhosa demais para ir atrás dele.
Olhando para o próprio reflexo no vidro escuro da janela da cozinha, Kristy viu uma mulher esbelta com o cabelo louro cortado pouco abaixo dos ombros, elegantemente despenteado, olhos azuis e uma bela estrutura óssea. Mas havia sombras sob aqueles olhos, o cabelo estava precisando ser aparado, e de que adiantava uma bela estrutura óssea? Ela ficou bem na foto da carteira de motorista. Até onde podia determinar, foi a única vantagem que teve.
Winston, ignorando a vasilha de comida, deixou escapar um miado bem alto e melancólico e se esfregou na bainha do jeans preto de Kristy, deixando para trás um rastro de pelos brancos como a neve.
Agora, teria de tirar pelo das calças... de novo.
Outras mulheres carregavam pastilhas de hortelã e batom nas bolsas, Kristy trazia um bastão recoberto de fita adesiva, para tirar o pelo.
- Eu sei - ela disse gentilmente para Winston. - Você quer se aconchegar comigo no sofá e assistir ao Animal Planet, mas tenho de trabalhar hoje à noite.
A resposta de Winston foi outro miado, e desta vez, ele subiu alguns graus no medidor de "coitadinho".
- Quando eu chegar em casa, você pode comer um biscoito de peixe a mais - prometeu Kristy. - Não vou demorar... No máximo às 9h30, estou em casa.
Insatisfeito, Winston virou-se e avançou por entre as diversas latas de tinta e amostras de papel de parede espalhadas pelo chão da cozinha. Com uma sacudidela desdenhosa de seu felpudo rabo branco, ele desapareceu no interior da sala de estar.
Há uma eternidade Kristy vinha remodelando sua enorme casa em estilo vitoriano, ou pelo menos era esta a impressão que ela tinha. Assim como Winston, estava acostumada a tropeçar nas coisas compradas na Home Depot, mas, de repente, a coisa toda começou a parecer mais uma dor de cabeça sem fim do que a nobre restauração à qual ela dera início assim que assinara os papéis da hipoteca.
- Estou cansada de minha vida - disse para o próprio reflexo. - Quero uma nova.
- Azar o seu - respondeu o reflexo. - Você fez a própria cama e agora vai ter quer dormir nela. Sozinha.
Sem marido. Sem filhos.
Mais alguns aniversários, mais alguns gatos, e poderia passar a ser considerada uma velha solteirona louca. As crianças começariam a dizer que ela era uma bruxa e evitariam a sua casa no Halloween.
Kristy deu as costas à imagem na janela, puxou a alça da bolsa para cima do ombro, jogou o celular dentro da bolsa, assim como suas anotações e uma cópia da seleção do clube do livro daquele mês, e seguiu para a porta dos fundos.
Apesar do quanto pudesse estar se sentindo melancólica, a visão da Biblioteca Pública de Stillwater Springs sempre melhorava o seu humor, e naquela noite não foi exceção. Ela adorava a construção baixa de tijolos, com suas venezianas verdes e o telhado de madeira. Adorava estar rodeada de livros e leitores.
Ela e outras pessoas que haviam crescido nos arredores ou na pequena cidade do oeste de Montana haviam travado algumas batalhas duras para conseguir o dinheiro para construir e estocar a biblioteca depois que a antiga foi destruída num incêndio.
Estacionando a Blazer verde-escura na vaga reservada especialmente para ela, Kristy atravessou apressadamente a porta lateral do prédio. Naquela noite, a área principal da biblioteca havia fechado cedo para reparos hidráulicos em um dos banheiros, mas as duas pequenas salas de conferência estariam abertas, uma delas para o grupo de leitura e a outra para uma reunião dos AA.
Ela pendurou a bolsa num gancho, lavou as mãos na pia da pequena quitinete entre as duas salas de conferência e pôs-se a trabalhar na cafeteira.
O xerife Floyd Book foi o próximo a chegar. Ele veio trazendo uma caixa de livros de seu carro pessoal e cumprimentou Kristy com um sorriso e um aceno da cabeça.
- Sabia que se eu não chegasse aqui rápido demais, você se encarregaria de fazer o café - brincou.
Kristy riu.
- Tudo pronto para a sua aposentadoria? - ela perguntou, arrumando as colunas de copos descartáveis, pacotinhos de açúcar, leite em pó e coisas do gênero.
- Tudo, exceto por mim - Floyd retrucou, atravessando a porta aberta que levava à sala dos AA, já distribuindo os livros e panfletos para a reunião daquela noite. Em Stillwater Springs ninguém era anônimo, mas, para o bem do que era chamado de O Programa, todo mundo fingia não notar quem entrava e saia pela entrada lateral da biblioteca nas noites de terça. - Mal posso esperar a eleição especial. Entregar meu distintivo para Jim Huntinghorse ou Mike Danvers, e tirar a poeira desta cidade dos pés, pelo menos por algumas semanas. Dorothy e eu já estamos com as malas prontas para aquele cruzeiro até o Alasca.
- Falta pouco - Kristy amigavelmente tentou tranquilizá-lo. Até escutar a menção do nome da mulher, ela estivera ocupada demais para notar a ausência da sra. Book. - Dorothy não vem à reunião do grupo de leitura? Ela se inscreveu.
Dorothy Book estava confinada a uma cadeira de rodas, após um acidente automobilístico alguns anos antes, e havia quem dissesse que ela não estava muito bem da cabeça. Kristy sempre gostara de Dorothy, não dava a mínima para o fato de ela ser um pouco diferente, e estivera ansiosa para tê-la na primeira reunião do grupo.
Floyd sacudiu a cabeça. Recentemente, ele vinha dando a impressão de estar muito cansado, gasto até o talo, como a falecida mãe de Kristy costumava dizer. Talvez fosse a expectativa da aposentadoria, o desgaste do trabalho, e a incerteza da eleição especial, mas Kristy tinha a impressão de que ele estava mais cansado do que de costume.
- É difícil para ela subir e descer do carro - contou o xerife para Kristy. - E ela detesta mexer na cadeira de rodas. Estou torcendo para que o cruzeiro lhe devolva um pouco a cor das faces e o brilho do olhar.
Kristy parou de mexer nas coisas do café. Floyd Book era o xerife de um vasto condado. Fora eleito para o cargo quando ela ainda estava no segundo ano da escola, e o mantivera desde então. Até a morte de seu pai, apenas seis meses após o falecimento de sua mãe, Floyd fora uma visita constante no rancho Madison. Ele e o pai de Kristy haviam sido melhores amigos, compartilhando a paixão pela pesca, por cavalgar e juntar as poucas cabeças de gado que Tim Madison havia conseguido manter naquele lugar de difícil sustento.
Kristy sentiu uma pontada ao pensar em perguntar a Floyd, sem rodeios, se algo estava errado e, caso estivesse, o que ela poderia fazer para ajudar. Aparentemente, esta era a noite para lembranças dolorosas virem à tona.
- Está se sentindo bem, Kristy? - perguntou Floyd, cruzando o corredor para colocar a mão forte no ombro dela. - Por um instante, você ficou pálida. Pensei até que fosse desmaiar.
- Estou bem - mentiu Kristy.
Fora criada como uma durona criança de rancho de Montana, que aprendera a dizer que estava se sentindo bem, independente de estar ou não.
Mas o rancho estava abandonado agora, o celeiro tombado para um dos lados, a sólida casa velha vazia. Da última vez em que Kristy se forçara a ir lá e ficar de pé na colina alta onde costumava cavalgar Sugarfoot, seu adorado capão amarelado de crina e rabo brancos, ela, de fato, sentiu o coração se partir em vários pedacinhos.
Seus pais estavam ambos mortos, e ela não tinha irmãos e nem irmãs, nenhuma tia, agora que a tia-avó Millie havia falecido, nem tios, nenhum primo.
Sugarfoot também já havia partido, enterrado em uma cova do tamanho adequado para um cavalo no meio de um matagal nos arredores do rancho Creed. Após 16 anos, mais da metade de sua vida, Kristy ainda chorava quando visitava o local do descanso eterno do seu melhor amigo. As pessoas insistiram que tinha de arrumar outro cavalo; afinal de contas, sempre adorara cavalgar e também era excepcionalmente boa nisso, mas, de algum modo, não tinha mais forças para amar alguma coisa, ou alguém, com tanta intensidade e correr o risco de outra perda.
Já perdera tanto.
Seus pais, Sugarfoot...
E Dylan Creed.
- Kristy? - indagou o xerife, fitando preocupadamente seu rosto. - Talvez seja melhor que vá para casa. Talvez esteja ficando doente. Posso dizer para as senhoras do clube de leitura que a reunião foi adiada.
Kristy esforçou-se para sorrir, endireitou os ombros e fitou o amigo do pai nos olhos.
- Bobagem - disse. - Nós já adiamos uma vez. Só estou um pouco cansada.
Floyd não pareceu muito convencido, mas alguns dos AA habituais estavam começando a chegar, de modo que ele finalmente se virou para ir cumprimentá-los, como vinha fazendo toda terça há vários anos, desde o acidente de carro de Dorothy e o escândalo de ele estar envolvido com Freida Turlow pelas costas de Dorothy. Sentado à mesa da cozinha com o pai de Kristy, ele chorara por causa da dor sofrida por Dorothy, não só devido ao acidente na estrada congelada, mas também porque ele a traíra com outra mulher.
Observando e escutando despercebida do corredor, fora a primeira e única vez que Kristy vira um homem adulto chorar. O pai gentil pousara a mão no ombro de Floyd e dissera:
- É a bebida, velho amigo. É isso que está arruinando a sua vida. Acha que não sei que você carrega um frasco consigo para tudo quanto é lugar que vai? Você precisa fazer alguma coisa.
E Boyd fizera alguma coisa. Juntara-se aos Alcoólicos Anônimos, ficara sóbrio e, até onde Kristy sabia, tornara-se um marido fiel para Dorothy dali em diante.
Kristy deixou a quitinete e seguiu para a sala de conferências do clube de leitura, e, por alguma ironia cósmica, Freida Turlow foi a primeira a chegar.
Um tipo atlético, atraente de um jeito endurecido, Freida, assim como Kristy, era residente vitalícia de Stillwater Springs. Com a exceção da época da faculdade, nenhuma das duas se afastara do lar durante algum período de tempo significativo.
Kristy era uma moça da cidade natal, jamais quisera morar em nenhum outro lugar, mesmo após a morte de ambos os pais, durante o seu ano de caloura na Universidade de Montana. Em contraste, Freida, que era, pelo menos, uma década mais velha, e, na verdade, servira de babá para Kristy nas raras noites em que a mãe e o pai haviam saído para dançar ou jogar cartas com os amigos, parecia não pertencer a Stillwater Springs. Ela era ambiciosa e bem instruída, e virtualmente comandava a agência local de corretores de imóveis. Seu irmão, Brett, era o típico cretino, dormindo no sofá dela, e famoso por roubar dinheiro da irmã em toda oportunidade que tinha.
Esta noite, com o cabelo escuro cortado a Chanel preso na nuca, Freida estava usando moletom e um par de tênis e trazia a escolha para a leitura do mês sob o braço. Assim como Kristy, Freida havia perdido o lar da família, a mini mansão cor de gengibre que pertencia agora a Kristy, e isso era um assunto delicado para ela. Já se oferecera para comprar de volta a velha casa várias vezes, a preços cada vez mais altos, e havia ficado progressivamente mais irritada com cada recusa polida.
Kristy entendia o desejo de Freida de recuperar a mansão em estilo vitoriano, até simpatizava com ele. Mas, com exceção de Winston e do trabalho na biblioteca, que tinha desde que se formara, a casa era tudo que possuía.
Para onde iria, caso a vendesse de volta para Freida?
- Novidades no ramo de imóveis - Freida informou, com uma certa satisfação. - Recebi uma oferta pelo rancho Madison, ou, pelo menos, a promessa de uma oferta.
Kristy gelou. A velha fazenda estava abandonada, mas era grande; no total, quase 30 mil hectares. Uma boa escolha para as estrelas de cinema e altos executivos da indústria aérea que vinham comprando propriedades em Montana ao longo das duas últimas décadas.
Apenas complicações com a legitimação do testamento a haviam deixado fora do mercado durante tanto tempo.
Tecnicamente, o banco local agora era dono do rancho Madison, embora houvesse mantido o nome, pois, desde que aquela parte do estado havia sido assentada, os Madisons moravam naquela terra. Eles executaram a hipoteca dois meses após a morte do pai de Kristy.
Freida se permitiu um ligeiro sorriso arrogante.
Depois, Briana Grant chegou. Havia rumores de que ela e Logan Creed tinham se casado em segredo, ou o fariam muito em breve. E, de qualquer modo, estavam dormindo juntos. Briana, uma mulher bonita, que sempre usava os cabelos ruivo amarelados em uma trança caprichada, com certeza não havia confidenciado a natureza de seu relacionamento a Kristy, apesar das duas serem amigas.
Ao avistar Freida sentada em uma das cadeiras que rodeavam a mesa de reuniões, seu livro aberto diante de si, Briana deteve-se no vão da porta, dando a impressão de que poderia dar meia-volta e sair correndo.
- Entre - insistiu Kristy, sorrindo.
Contudo, por dentro, ainda estava abalada com o comunicado presunçoso de Freida de que tinha uma perspectiva promissora de vender o rancho Madison, e por mais que se esforçasse para se convencer de que não importava, nada parecia estar ajudando.
Briana hesitou, depois, enfrentou o olhar de Freida, ergueu um pouco o queixo e sentou-se à mesa.
- É muita petulância sua aparecer por aqui, depois de todos os problemas que causou ao meu pobre irmão - disse Frieda, sem rodeios.
Briana corou, mas não aceitou a provocação. Tudo que Kristy sabia era que o xerife Book havia detido Brett Turlow para interrogatório algumas vezes, após uma invasão à casa de Briana. Ela não gostava de fofocas.
- Todo mundo é bem-vindo aqui, Freida - Kristy disse, com firmeza.
Apesar da Biblioteca Publica de Stillwater Springs não ser exatamente famosa por ser um centro de controvérsia violenta, Kristy tinha alguma experiência em manter a ordem. Muitos moradores da cidade usavam o lugar como se fosse uma creche gratuita, e, de vez em quando, havia pequenas escaramuças quando dois leitores vorazes queriam pegar o único exemplar de algum best-seller recente.
Freida ficou de pé, seus movimentos rígidos e precisos. Ela pegou a bolsa e o livro e fungou:
- Não sei por que fico nesta cidade, com toda a gentalha que tem vindo para cá.
Dito isto, encenou uma grandiosa saída. Lágrimas apareceram nos olhos de Briana. Kristy sentou-se ao lado da amiga, tomando-lhe a mão.
- Ela é quem tem muita petulância, chamando qualquer um de gentalha, com um irmão daqueles - disse, gentilmente.
Briana fungou, esforçou-se para sorrir, e, depois, assentiu. Ela abraçou o livro da biblioteca como se este fosse um tesouro.
Depois disso, o restante dos membros do clube do livro começou a chegar, em grupos falantes de dois ou três. Quem queria, se servia de café na quitinete, e, embora observassem Briana com interesse, sem dúvida especulando sobre ela e Logan Creed, a incluíram na discussão. De um modo geral, Kristy pensou ao trancar a biblioteca uma hora mais tarde após as duas reuniões terminarem, a noite valera a pena, embora Winston, provavelmente, não fosse concordar.
De volta à Blazer, e sozinha no estacionamento, Kristy agarrou o volante com ambas as mãos e encostou a cabeça nele por um longo instante.
Sentia-se estranhamente nervosa, super alerta, como se algo grande estivesse prestes a acontecer, mas nada grande acontecia em Stillwater Springs, Montana. Pelo menos, não com muita freqüência.
Reunindo as forças, obrigou-se a sentar direito, dar a partida no motor e seguir para casa. Winston estava aguardando, assim como sua banheira com pés em forma de garra, e o excelente livro que ela vinha tentando terminar há uma semana. Talvez o xerife Book tivesse razão. Ela podia estar ficando doente.
E talvez, por fim, a monstruosa lembrança que vinha lutando para manter submersa estivesse prestes a se libertar e lhe arruinar a vida cuidadosamente construída.
Logo de manhã cedinho, após passar meia hora tentando enfiar colheradas do mingau, trazido pelo serviço de quarto, na boquinha firmemente cerrada de Bonnie e, por fim, desistir, Dylan deixou o hotel e foi procurar um Wal-Mart.
Bonnie precisava de uma cadeirinha de carro e um monte de outras coisas.
De modo que ele a colocou no carrinho de compras, e os dois começaram a passear. Dylan calculou o tamanho das roupas dela e Bonnie fez um escarcéu quando o pai tentou experimentar alguns sapatos nela, mas, após uma breve luta, ele venceu. No departamento de brinquedos, ele pegou uma boneca quase tão grande quanto a própria Bonnie, além de tudo, montada em um cavalo de plástico, mas nem nisso ela pareceu demonstrar muito interesse.
- Brinquedos - disse sagazmente uma mulher mais velha, inclinando-se para sussurrar a sua sabedoria - precisam ser de acordo com a idade.
Dylan empurrou para trás a aba do chapéu.
- De acordo com a idade?
A mulher apontou para a caixa contendo a boneca nova sentada sobre o cavalo.
- Isto é para crianças com mais de 5 anos. A sua garotinha não deve ter mais de 2.
- Ela é pequena para a idade - Dylan retrucou automaticamente, pois não gostava de que os outros lhe dissessem o que fazer, mesmo quando tinham razão.
Contudo, assim que a velhinha intrometida dobrou a esquina, ele devolveu a boneca à prateleira e pegou um unicórnio rosa macio com um chifre reluzente e uma crina felpuda. De acordo com a etiqueta, aquele serviria.
E Bonnie, na mesma hora, se encantou.
Após fazer mais algumas escolhas e pagar no balcão, estavam prontos para ir. Dylan fez algumas ligações de sua caminhonete e localizou uma pediatra nos arredores da cidade.
Jessica Welch, doutora em medicina, trabalhava em um centro comercial de luxo. Ela também era bonita, com seus cabelos, castanhos compridos e reluzentes, presos por uma presilha de prata na nuca. Não que fizesse diferença, porém, sempre que Dylan conhecia uma mulher, qualquer mulher, ele notava algumas coisas nela.
- O que temos aqui? - a dra. Jessica Welch perguntou, cutucando Bonnie, que estava com os braços apertados ao redor do pescoço de Dylan.
Bonnie jogou a cabeça para trás e soltou um daqueles gritos estridentes que pareciam atravessar o cérebro de um homem como um furador de gelo. Desde que Dylan chegara com ela na sala de espera, quase 45 minutos atrás, ela estava agarrada a ele. Dylan havia sido o único pai presente, e os olhares que recebera das várias mães aguardando com crianças mais silenciosas e bem-comportadas não eram do tipo que estava acostumado a receber das representantes do sexo frágil.
A dra. Welch não se deixou perturbar. É claro que crianças gritando não eram algo incomum no seu dia a dia.
- Por aqui - disse.
Dylan e Bonnie a seguiram por um pequeno corredor até chegar a pequena sala de exames. Bonnie não parou de gritar, e acrescentou chutes e contorções ao chilique. As hostilidades estavam escalonando.
- Acho que ela está pensando que vai receber uma vacina ou coisa parecida - sugeriu Dylan, sem saber o que dizer.
Àquela altura, Bonnie já havia lhe derrubado o chapéu e estava puxando o cabelo dele com ambas as mãos. A dra. Welch simplesmente sorriu.
- Vamos dar uma olhadinha em você, srta...?
- Bonnie - disse Dylan. - Bonnie Creed. Bonnie Creed. Gostava do som disso. A doutora examinou os papéis na sua prancheta.
- E você é o pai - disse.
Era retórico, uma conclusão e não uma pergunta, mas Dylan se sentiu na obrigação de responder.
- Sou.
- A semelhança já diz tudo - disse a doutora.
Ela logo mostrou que tinha alguns truques na manga. Ao deixar que Bonnie escutasse o coração de Dylan através do estetoscópio, ela conseguiu que a menina ficasse quieta.
- Algum problema de saúde significativo? - perguntou a doutora, encerrando o exame de rotina, coisas como olhar para dentro da orelha de Bonnie com uma lanterninha e espiar a garganta da menina.
- Não que eu saiba - disse Dylan. - Ela estava... hã... morando com a mãe.
- Entendo - retrucou solenemente a dra. Welch.
- Estava torcendo para que pudesse me dizer o que dar de comer para ela e coisas do gênero - prosseguiu Dylan.
Ele sentiu as orelhas ardendo. Àquela altura, a médica provavelmente estaria se perguntando se não deveria notificar as autoridades, ou coisa parecida.
- Suponho que não tenha passado muito tempo com Bonnie - ela disse, pensativamente.
- Foi meio repentino. Sharlene decidiu que não podia mais cuidar dela e a deixou comigo.
Ele provavelmente devia soar e parecer calmo, mas se a dra. Welch pegasse o celular, ele e Bonnie sairiam dali em disparada e correriam para fora da cidade. Droga. Ele devia ter ligado para Logan. Pelo menos, então, teria alguma espécie de orientação legal...
- Precisarei de um número onde poderei entrar em contato com o senhor, sr. Creed.
Dylan lhe deu o número do celular e pegou Bonnie no colo, que estava na beirada da mesa de exames com os braços estendidos. Com um súbito sorriso, a dra. Welch prosseguiu:
- Crianças de 2 anos de idade costumam preferir uma dieta pastosa, um pouquinho de comida de bebê, mas não do tipo para crianças mais velhas. Qualquer coisa que seja fácil de mastigar.
- Nada de mamadeiras e coisa parecida? - perguntou Dylan.
- Um daqueles copinhos com o bico na tampa - a médica disse. - Bonnie precisa de muito leite, e suco também é bom, desde que tome cuidado com a quantidade de açúcar.
Dylan supôs que deveria estar tomando nota. Que diabos de copinho era esse com bico na tampa? E será que quase tudo já não vinha com açúcar?
Já tendo feito bastante papel de bobo, ele preferiu guardar para si as perguntas. Se a médica não achasse que ele era um seqüestrador de crianças seria um milagre.
A dra. Welch aplicou algumas vacinas em Bonnie, que a menina mal notou, fez uma lista de comidas saudáveis para crianças e se despediu. Dylan pagou a conta e ele e Bonnie foram embora. Até estarem 80 quilômetros ao norte de Vegas, ele não parou de procurar uma radiopatrulha no espelho retrovisor a cada cinco minutos.
No final das contas, Dylan não teve de ligar para Logan, pois Logan ligou para ele, em hora inconveniente, como de costume.
Ao que parece, Logan ia se casar com Briana Grant e nada o faria mudar de idéia, foi o que Dylan soube, ao atender a ligação do irmão no seu celular, enquanto estava sentado em um restaurante de caminhoneiros em algum lugar da estrada que levava à sua casa. Bonnie, na cadeirinha alta, insistia em jogar fios de macarrão nele. Ela estava coberta de comida, e ele também.
E estava começando a perder a paciência.
- Olhe, Logan, eu... - Ele se interrompeu quando Bonnie enfiou toda a cabeça no prato e, ao levantá-la, parecia uma Medusa de macarrão. - Pare com isso, droga...
Bonnie simplesmente riu e estufou um pouco o peito, como se aquela lambança de macarrão fosse uma peruca com a qual ela estivesse desfilando.
- Você está com uma mulher? - Logan perguntou.
- Quem dera - disse Dylan. - Vou ter que desligar agora... eu disse para parar... mas chegarei aí assim que puder. Se eu não chegar a tempo, prossiga sem mim.
Depois disso, Dylan mal registrou o que o irmão disse.
Logan lhe pediu para avisar Tyler. Pelo menos, disso ele lembrava. Deveria passar para o irmão caçula o recado de que Logan queria falar com ele, pessoalmente.
Como se isso fosse acontecer. Tyler estava furioso. Não iria ouvir a razão, e Dylan dissera exatamente isso.
Depois, Bonnie começou a jogar macarrão de novo. Desta vez, atingiu a mulher na mesa ao lado bem na nuca. Dylan encerrou o telefonema, tão próximo de pedir a ajuda de Logan quanto antes do irmão ligar, pegou a filha do demônio no colo, jogou algumas notas sobre a mesa para pagar a refeição e se mandou.
Agora, teria de achar um lugar para dar um banho na menina.
Ele a limpou com lencinhos umedecidos, comprados junto com o unicórnio, um troninho de plástico, um pequeno tênis e as roupas novas que ela praticamente já arruinara.
- Popô - ela disse, assim que deixaram a parada para caminhões e voltaram para a estrada. - Papai, popô.
- Não vamos voltar lá de jeito nenhum - Dylan disse. - Provavelmente estamos banidos do lugar, graças a você. Proibidos de pôr os pés ali por toda a eternidade.
- Popô - Bonnie insistiu.
Além de Papai, essa parecia ser a única palavra que ela conhecia. Ele se esgueirara com ela para dentro de, pelo menos, quatro banheiros masculinos desde que haviam deixado South Point, naquela manhã. Prendera-a no assento, de modo que ela não caísse, e fez o melhor que pôde para olhar para o outro lado.
O lábio inferior da menina começou a tremer.
- Popô - disse, melancolicamente.
- Ah, diabos - Dylan resmungou.
Ele encostou a caminhonete, localizou o troninho rosa e o colocou no chão entre alguns arbustos. Depois, desprendeu Bonnie da cadeirinha do carro e a carregou, ainda toda suja de macarrão, até o troninho.
Ele virou-se de costas.
Ela deve ter dado um jeito de abaixar as calças sozinha, porque ele escutou um suave e alegre tilintar. Quando, por fim, Dylan virou-se, ela estava sorrindo para ele, o cabelo coberto de molho de espaguete, e grunhindo agourentamente.
Dylan já havia montado os touros mais malvados do circuito de rodeios, e até conhecer Cimarron, o touro para dar fim a todos os outros touros, jamais havia sido derrubado. Já conseguira se defender em brigas de bar ou lutas em becos onde perder significaria ter a cabeça esmagada de encontro à calçada. Dera um jeito de vencer no blefe os jogadores de pôquer mais durões nas mesas mais duronas nas cidades mais duronas dos Estados Unidos.
Mas uma menininha fazendo popô... Isso era novidade.
- Limpa! - ela pediu, aumentando o seu vocabulário conhecido para três palavras.
- Nem pensar - Dylan disse.
Mas pegou alguns lenços umedecidos da caminhonete e os entregou à filha.
Ela já devia tê-los usado antes, pois quando voltou a passar por ele, estava com as calças levantadas e puxava atrás de si o troninho. Por mais complicada que a situação tivesse sido, Dylan encheu-se de orgulho. A menina era independente para uma criança de 2 anos. Ela tivera até a presença de espírito de se livrar das provas.
- Precisamos de uma mulher - disse para a filha assim que voltaram para a caminhonete. Ele usou outro lenço umedecido para lhe limpar as mãos. Depois, a prendeu na cadeirinha do carro, que era tão complicada que parecia ter sido inventada pela NASA. - Qualquer mulher.
Mas não foi qualquer mulher que lhe veio à cabeça. Foi Kristy Madison.
De jeito nenhum, ele disse para a imagem.
Depois disso, dirigiu por várias horas e, logo após três da manhã, chegaram aos arredores de Stillwater Springs, Montana.
Dylan tinha uma casa no rancho da família. Briana e os filhos estavam morando lá até recentemente, quando foram morar com Logan, mas soube que houvera uma invasão e um pouco de vandalismo, e não sabia se Logan já havia providenciado os reparos.
De modo que seguiu para a casa de Cassie.
Quando pararam na estrada de acesso à casa, Dylan viu a luz que brilhava através das paredes de couro de gamo de sua famosa tenda indígena. Ele passara muitas horas felizes naquela tenda, acompanhado de Logan e ou Tyler, fingindo que eram índios planejando um ataque ao acampamento dos brancos.
Agora, com Bonnie dormindo na cadeirinha, agarrada àquela boneca pelada e suja de tinta, o unicórnio rosa devidamente rejeitado, ele desceu da caminhonete e caminhou na direção da tenda.
Cassie, uma mulher encorpada e singularmente bonita, algo mais próximo de uma avó que ele já tivera, estava sentada observando as chamas baixas que tremulavam na fogueira dentro da tenda. Teria sido uma cena digna de uma foto se ela estivesse usando as vestimentas tribais, contudo calças de malha, apertadas nas costuras, tênis de cano alto verde-néon e uma camiseta com a foto de Custer, com uma flecha atravessando-lhe a cabeça estampada no peito, não tinham o mesmo impacto de um vestido de couro franjado e mocassins.
Porém, a foto de Custer dava um toque especial à cena. A julgar pela sua expressão favoravelmente confiante, a flecha não parecia incomodá-lo muito.
- Dylan - disse Cassie, erguendo o olhar. E ela não parecia muito surpresa.
- Preciso de ajuda - ele disse.
Não adiantava enrolar com Cassie. Ela era capaz de enxergar através das pessoas.
Ela sorriu. Assentiu. Fez menção de se levantar. Dylan estendeu a mão para ajudá-la. E a conduziu até a caminhonete.
Ela inspirou profundamente ao ver Bonnie, ainda dormindo o sono dos justos.
- Sua? - ela sussurrou.
- Minha - confirmou Dylan e, mais uma vez, encheu-se de orgulho.
- Onde está a mãe?
- Só Deus sabe. - Dylan retirou Bonnie da cadeirinha do carro, sua cabeça encostada no ombro dele. - Vou pedir custódia plena, mas, para isso, vou precisar da ajuda de Logan.
- Há muitos advogados neste mundo - Cassie comentou, baixinho. - Por que Logan?
- Porque isto pode ficar... bem... complicado.
- Dylan Creed, você roubou a menina da mãe?
Eles alcançaram o portão, e Cassie abriu caminho até a varanda, mexendo na maçaneta da porta.
Era evidente que ela não conseguia enxergar através dele. Pelo menos, nem sempre.
- Não - disse Dylan. Estava tarde, ou cedo, demais e estava muito cansado da viagem e do esforço de cuidar de uma criança de 2 anos de idade para se aprofundar na história. - Será que pode me dar um pouco de crédito? Não sou um criminoso.
- Mas está olhando por sobre o ombro por algum motivo - sussurrou Cassie, ligando a luz na familiar sala de estar de sua velha casinha.
Ela tomou Bonnie das mãos de Dylan, sussurrando algo tranquilizador quando a menininha se agitou no sono.
- Não tenho a custódia legal - respondeu Dylan. - Até que a tenha, vou tentar não despertar muita atenção, para o caso de Sharlene mudar de idéia. Eu lhe contarei o resto amanhã de manhã.
Cassie lhe fitou os olhos por um longo instante, depois, assentiu novamente.
- Tudo bem - disse, seguindo para o quarto de visitas. - Vou colocar esta criança na cama. Se estiver com fome, tem galinha fria na geladeira.
Grato, Dylan se largou no sofá e, antes que se desse conta, o sol já raiava e Bonnie estava de pé ao lado dele, puxando de leve o seu cabelo.
Ele sorriu, feliz em vê-la. Ela estava usando uma das enormes camisetas de Cassie, presa aqui e ali com alfinetes de segurança, para poder caber, e estava limpa.
Deus abençoe Cassie. Apesar de seus evidentes receios, tinha dado um banho muito necessário em Bonnie, e, provavelmente, também lhe alimentava.
- Papai - disse Bonnie, com um ar angelical, com a mãozinha lhe acariciando o queixo com a barba por fazer.
E, se até então Dylan não sabia que faria qualquer coisa para manter e criar esta criança, a sua filha, ele soube naquele instante.
- Dylan esta na casa de Cassie - disse a cabeleireira de Kristy, Mavis Bradley, quando ela passou lá, na hora do almoço, para dar uma aparada no cabelo. - Vi a caminhonete dele estacionada lá quando estava vindo para o trabalho.
Um arrepio percorreu o corpo de Kristy, em parte por medo, em parte por expectativa. Ela esperou que ele passasse. Se Dylan estava mesmo na cidade, em breve partiria. Era o padrão de comportamento dele. Venha, pisoteie o coração de alguém com o salto da bota e parta novamente.
- E, menos de uma hora antes, Cassie estava na loja comprando fraldas e comida para bebê naquelas embalagens plásticas que custam os olhos da cara - Mavis prosseguiu, antes que Kristy pudesse pensar no que responder. - Foi o que Julie Danvers me disse quando veio fazer as unhas.
Kristy reservou um instante para se sentir aliviada por não ter esbarrado em Julie. As duas não se davam bem, pelo menos no que dizia respeito a Julie, porque, por um breve período de tempo, Kristy havia sido noiva de seu marido, Mike, e ele não encarara bem o rompimento. Agora, os dois tinham dois filhos, uma enorme casa e um próspero negócio, e Mike era candidato a xerife. Era um mistério para Kristy por que essa história em particular ainda não eram águas passadas.
- Interessante - disse Kristy, visto que conhecia Mavis desde a primeira série e sabia que a mulher continuaria a falar sem parar até obter algum tipo de reação.
Todo mundo na região sabia que, outrora, Kristy e Dylan haviam sido muito apaixonados um pelo outro, e Mavis certamente não seria a última pessoa ansiosa para lhe dizer que Dylan estava de volta.
- Agora, para que Cassie precisaria de coisas de bebê, a não ser que...
- Mavis - interrompeu Kristy. - Eu não faço idéia.
- Acha que vai vê-lo?
Kristy deu de ombros. Não adiantava fingir que não sabia sobre o que Mavis estava falando.
- Talvez pela cidade - disse, com uma indiferença que certamente não sentia. - Dylan e eu somos coisa do passado.
- Assim como você e Mike Danvers - retrucou Mavis, astutamente. - Mas isso não impede que Julie suba nas tamancas sempre que ele menciona o seu nome. O que, ao que tudo indica, acontece com um bocado de freqüência.
Kristy precisava ter cuidado para responder essa. Tudo que dissesse se espalharia pela extensa rede de contatos de Mavis, menos de cinco minutos após ela ter pago o corte de cabelo e partido.
- Que bobagem. Mike e Julie estão casados há muito tempo, têm dois lindos filhos e uma vida maravilhosa. E daí que Mike menciona o meu nome de vez em quando? Stillwater Springs é uma cidade pequena. Ele provavelmente menciona o nome de muita gente.
- Bem - disse Mavis, astutamente -, pensei que você, no mínimo, ficaria curiosa quanto ao motivo de Cassie comprar fraldas. E tem também o fato de a caminhonete de Dylan estar parada diante da casa dela, de manhã tão cedinho; ele deve ter chegado durante a noite...
- Não fico nada curiosa - mentiu Kristy, e enfaticamente. Se Dylan tinha um filho, seria a maior das injustiças por parte do universo. Era ela quem queria uma casa cheia de crianças. Dylan jamais quis se assentar, apenas fingiu fazê-lo, por motivos óbvios. - O que Dylan Creed faz, ou deixa de fazer, simplesmente não me interessa.
- Conversa - Mavis disse. - Suas orelhas estão ficando vermelhas.
- Isso é porque você fica me cutucando com a tesoura o tempo todo. Nós já terminamos? Preciso voltar para a biblioteca.
Mavis suspirou, teatralmente.
- A biblioteca - zombou. - Você costumava ser líder de torcida na escola. Foi a rainha do baile de formatura. E a Miss Rodeio Montana, segunda colocada para Miss Rodeio América. Quem pensaria que logo Kristy Madison acabaria em um emprego de solteirona? Isso me lembra uma cena em A felicidade não se compra, na qual Donna Reed é esta velhota infeliz só porque George Bailey jamais nasceu...
- Ah, pelo amor de Deus, Mavis! - Àquela altura, Kristy já estava pronta para saltar da cadeira, para arrancar a capa de plástico e marchar para a rua, mesmo com o cabelo dividido com aqueles idiotas grampos de metal. - Se você não sabe, algumas de nós já deixaram a escola para trás. E qual é o problema em ser bibliotecária?
Mavis recuou um pouco. No espelho que dava de frente para a cadeira, seu rosto pontiagudo pareceu triste.
- Nada - disse, baixinho.
- Sinto muito - disse Kristy, na mesma hora arrependendo-se de sua explosão. - Não quis estourar com você. É só que...
- É só que, quando alguém menciona Dylan Creed, você fica mal-humorada - completou Mavis, gentilmente.
- Então, por que insiste em mencioná-lo? - indagou Kristy, com um tom de voz cansado.
Mavis lhe apertou o ombro com uma das mãos manicuradas.
- Não quis aborrecê-la. Apenas pensei que você poderia ficar contente por Dylan estar de volta. Sei que tem passado por poucas e boas, Kristy. Perder seus pais do modo como perdeu, além do rancho e de Sugarfoot, praticamente de uma vez. Gostaria de vê-la feliz de novo, e você era feliz com Dylan, até aquela briga no dia do enterro do pai dele. Todo mundo em Stillwater Spring pensa da mesma forma... Quero dizer, todos gostariam de vê-la feliz.
Kristy lutou contra as lágrimas, não por causa das lembranças tristes, mas porque estava comovida. Mavis, do seu próprio jeito atrapalhado, de fato, gostava dela, assim como muitas outras pessoas.
- Eu sou feliz, Mavis - disse. - Tenho meu trabalho, minha casa, meu gato...
- Bem, eu tenho meu trabalho, minha casa e quatro gatos, mas ainda é o meu bem quem faz meu coração bater mais forte - argumentou Mavis, alegremente.
- Você tem sorte - disse Kristy.
E estava falando sério. Mavis estava casada com o mesmo homem desde o dia seguinte à formatura do colégio e, embora ela e Bill jamais tivessem tido filhos, era do conhecimento geral que ela e Bill ainda estavam profundamente apaixonados um pelo outro.
Mavis terminou o corte de cabelo sem mencionar novamente Dylan, o que foi um ato de misericórdia, e Kristy voltou correndo para a biblioteca para comer um sanduíche no seu pequeno escritório atrás do balcão de informações. Era quarta-feira, e o dia estava devagar o suficiente para suas duas ajudantes voluntárias, Susan e Peggy, cuidarem de tudo.
Contudo, a hora da história estava chegando, às três da tarde, e isso era o bebê de Kristy. Ainda não havia escolhido um livro, o que a deixava um pouco tensa. Era uma pessoa de detalhes, e poucos detalhes eram mais importantes para ela do que fazer um trabalho bem feito.
De modo que terminou o sanduíche e voltou para a parte principal da biblioteca, seguindo para a seção para as crianças. Escolher a história para ler era sempre uma questão delicada, porque as crianças que se reuniam em círculo aos pés do totem de mentirinha na pequena área de recreação variavam de 3 a 12 anos de idade. As mais turbulentas chegavam após a aula de natação na piscina comunitária, cheirando a cloro e a sol, e sempre um pouco molhadas, e as que tinham mães trabalhando invariavelmente chegavam mais cedo.
Apressadamente, Kristy foi de livro em livro, de prateleira em prateleira.
Por fim recorreu a um que sempre tinha de prontidão, um dos mistérios de Nancy Drew que ela adorara na juventude. Os meninos dariam risadinhas de deboche, e os menores não entenderiam uma palavra, mas ela sabia que, apenas escutar, fazia parte da magia.
Sim, hoje seria O segredo do velho relógio.
Faria bem às meninas escutar sobre a inteligente e perspicaz Nancy e seus alegres assistentes, George e Bess. E a experiência também não faria mal aos meninos. Podia dizer que estava lhes despertando a consciência.
O tempo passou rapidamente, pois Kristy se ocupou registrando uma pilha de livros devolvidos, e quando desviou a atenção de seu trabalho, viu pelo menos uma dúzia de crianças reunidas na área de recreação, aguardando.
- Está na hora do espetáculo - Susan sussurrou, sorrindo. - Deixe que eu termino as devoluções. E hoje também posso ficar até a hora de fechar. Jim está em Choteau com a sua liga de boliche.
Susan, com seus 50 e poucos anos de idade, era supercompetente. O fato de ela ficar significava que Kristy poderia ir embora às cinco da tarde, em vez de às nove da noite, como uma pessoa normal, e pintar pelo menos parte da cozinha antes de esquentar algo para jantar e cair na cama com Winston para ler um pouco antes de dormir.
- Obrigada - disse, apertando ligeiramente o ombro da amiga.
Carregando O segredo do velho relógio, seguiu para a área de recreação e fez uma mesura exagerada quando as crianças começaram a bater palmas e a gritar. Sempre faziam isso, provavelmente porque gostavam de fazer barulho na biblioteca, onde costumava ser proibido, mas, mesmo assim, Kristy se divertia com a demonstração rotineira.
Ela sentou-se no chão, cruzando as pernas.
- Hoje - anunciou -, Nancy Drew.
Como já era de se esperar, os meninos gemeram. As meninas deram risadinhas.
Os que estavam acostumados a permanecer em casa sozinhos ficavam contentes em simplesmente ver um adulto.
Kristy abriu teatralmente o livro. Isso também fazia parte do show. Sempre um floreio. As crianças gostavam. Sua mãe sempre fizera do ato de ler, e de ter alguém lendo para você, uma coisa divertida, usando vozes diferentes para cada personagem e, às vezes, até interpretando parte da história.
Quando ela ergueu o olhar, pronta para começar, seu coração veio à boca, e ela se viu incapaz de dizer uma palavra sequer.
Dylan Creed aparecera do nada. Ele estava sentado, de pernas cruzadas, como Kristy, segurando entre os braços a menininha mais linda que Kristy já vira.
Ela engoliu em seco.
Não havia dúvida de que a menina era dele. A semelhança deixou Kristy sem fôlego.
Os olhos azuis de Dylan dançavam travessamente ao observá-la. Ela pigarreou.
- Capítulo Um - começou. Depois, congelou novamente.
Um dos meninos mais velhos começou a entoar:
- Nan-cy! Nan-cy!
Todas as outras crianças seguiram o exemplo. Até mesmo o ser angelical no colo de Dylan começou a bater palmas com as lindas mãos gordinhas, esforçando-se para se juntar à brincadeira.
Dylan soltou um súbito assovio estridente.
O silêncio tomou conta do recinto.
A menininha ergueu a cabeça, fitando-o com curiosidade.
- A moça - disse Dylan - está tentando ler uma história. De modo que é melhor todo mundo ficar quieto e escutar.
De algum modo, Kristy foi capaz de ler três capítulos do livro, mas foi uma apresentação desprovida de brilho e entusiasmo. Seu olhar insistia em se fixar em Dylan, e, sempre que isso acontecia, sentia uma onda de calor subindo pelo pescoço.
Por fim, as mães começaram a chegar para recolher os filhos. Kristy tentou dar a impressão de estar ocupada, mas foi difícil, visto que estava sentada no chão, com nada nas mãos além de um livro de histórias. Pior, suas pernas haviam adormecido, e ela sabia que, caso se levantasse rápido demais, provavelmente cairia de cara no chão.
Diante de Dylan Creed.
Por que ele não foi embora, como todo o resto?
- Belo trabalho - disse ele, e Kristy surpreendeu-se ao se dar conta de que ele estava sentado bem ao lado dela. A menininha estava brincando com os enormes blocos de plástico que os Amigos da Biblioteca haviam fornecido para a área de recreação.
Será que ele estava se divertindo à custa dela?
Kristy engoliu de novo, ruidosamente, para falar a verdade.
- Ela é linda - disse com a voz rouca e inclinando a cabeça na direção da menina.
Dylan assentiu.
- O nome dela é Bonnie - disse.
O que você quer? Era o que Kristy teria perguntado se não tivesse sido tão covarde, mas o que escapou de seus lábios foi:
- Soube que estava de passagem. Ótimo.
Agora, ele iria pensar que ela não deixava escapar nenhuma notícia a respeito de Dylan Creed que aparecesse em seu caminho.
- Não estou de passagem - Dylan retrucou, observando Bonnie com um brilho suave nos maliciosos olhos azuis. - Estou planejando ficar. Demolir aquela minha velha casa, agora que Briana e os meninos não precisam mais dela, e construir uma nova. Também vou querer um celeiro, e alguns cavalos. Talvez até algumas cabeças de gado para juntar à manada de Logan.
Por que ele estava lhe dizendo tudo isso? Será que achava que ela ligava a mínima?
Ela ligava a mínima?
Não, não, mil vezes não.
Controle-se, disse para si mesma.
Tudo bem, então Bonnie poderia ter sido filha dela assim como de Dylan, caso as coisas tivessem sido diferentes. Mas não foram, e esse era o fim da história.
Ela possuía uma casa, um trabalho e um belo gato. Uma vida excelente, droga.
- Que bom - disse ela, esticando as pernas e sacudindo-as sutilmente para ativar de novo a circulação, de modo a conseguir ficar de pé e afastar-se com um mínimo de dignidade. Cuidaria de sua vida. Diria a Susan que estava com dor de cabeça e que não ficaria até às cinco.
Mas isso seria mentira.
Era o seu coração que doía, não a cabeça.
- Como tem passado, Kristy? - perguntou Dylan.
O que era isso, A Semana de Ser Gentil com Antigas Namoradas?
- Bem - respondeu.
Um dos cantos da boca de Dylan inclinou-se para cima em um ligeiro sorriso triste.
- Até a última vez em que falei com Logan, pensei que havia se casado com Mike Danvers.
O nome caiu entre os dois como um enorme peso de chumbo.
Kristy recobrou-se rapidamente, mas não rápido o suficiente. Algo moveu-se no olhar de Dylan enquanto ela estava elaborando uma resposta, mesmo que apenas por uma fração de segundos.
- Não teria dado certo entre mim e Mike - disse.
- Assim como não deu certo entre nós dois - disse Dylan, e por mais que se esforçasse, Kristy não conseguiu interpretar o seu tom.
- Éramos jovens - ouviu-se dizer. - O mundo estava desmoronando. Seu pai havia acabado de morrer naquele acidente, e meus pais...
- Papai! - Bonnie exclamou subitamente, cheia de alegria. - Papai! Papai! Papai!
Ela correu para Dylan, que a tomou nos braços.
- Popô! - Bonnie gritou, triunfantemente. Dylan suspirou.
- Será que se importaria de levá-la ao banheiro feminino? - pediu a Kristy.
Grata por uma desculpa para escapar dele, mesmo que apenas por alguns minutos, e rezando para que suas pernas houvessem acordado, Kristy ficou de pé, deu a mão a Bonnie e a acompanhou até o banheiro.
Como muitas das crianças que vinham à biblioteca eram pequenas, Kristy estava acostumada com a tarefa. Mas esta era a filhinha de Dylan. Ele concebera esta criança finda com alguma mulher desconhecida, não com ela.
Que droga. Quando haviam feito amor todas aquelas vezes, antes de rodeios e morte e tantas outras coisas que se intrometeram entre eles, sempre acabavam escolhendo nomes após o ato. Chamariam um menino de Timothy Jacob, em homenagem aos pais dos dois. E uma menina Maggie Louise, em homenagem às mães...
Quando ela e Bonnie deixaram o banheiro, Dylan as aguardava no corredor, apoiado na parede com aquela graça indolente que parecia emanar de seu próprio DNA.
- Obrigado - disse.
- Não tem de quê. Ele tomou Bonnie nos braços.
- Foi bom revê-la, Kristy - disse, com a voz um pouco rouca.
- Você também - ela respondeu.
Felizmente, Dylan foi embora antes que as lágrimas lhe brotassem nos olhos. Obrigado. Não tem de quê. Foi bom revê-la...
A você também.
Kristy voltou para o banheiro feminino, ligou a torneira de água fria e ficou jogando água no rosto até sentir a ardência diminuir. Mas ainda escutava as vozes, dela e de Dylan, embora, desta vez, elas viessem de muito tempo atrás.
Quando a lua se soltar no espaço, Dylan Creed, e a última estrela se apagar para sempre, eu ainda o amarei.
Ele sorrira, lhe acariciara o cabelo e a beijara, incendiando-lhe novamente as veias.
Você lê demais, brincara. Adoro isso em você. Com você como mãe, nossos filhos terão a chance de ser inteligentes.
Você também é inteligente, Dylan, ela protestara, sendo sincera.
Mas não instruído, ele retrucara. Não sei recitar poesias, como você faz.
E isso importa?, perguntara, com o coração explodindo de ternura. Nada importa além de nós dois, Kristy. Nada importa além de nós dois.
Dar um pulo na biblioteca provavelmente havia sido um erro tático, admitiu Dylan para si mesmo. Havia sido um impulso espontâneo, uma compulsão súbita de ver Kristy novamente, mesmo que de longe.
Contudo, o que aconteceu é que ela havia acabado de reunir um grupo de crianças para contar histórias quando ele e Bonnie atravessaram a porta da frente, e, na mesma hora, ele se viu atraído para o círculo. Era como se houvesse bater de tambores e uma fogueira, como a que havia na tenda de Cassie. O círculo de crianças exercia o mesmo tipo de atração visceral, primordial.
Kristy ainda era linda. Cinco anos sem ele por perto para lhe complicar a vida só haviam servido para deixá-la ainda mais bonita. Ela parecia mais centrada e serena do que antes, embora ele tivesse ficado satisfeito de ver que sua presença inesperada a abalara um pouquinho.
A única parte ruim foi a mágoa que vislumbrou nos olhos de Kristy, quando se deu conta da identidade de Bonnie.
Ele olhou para a filha, presa na cadeirinha do carro e agarrada à boneca suja de tinta. Se pensasse bem, o brinquedo provavelmente deveria ser queimado, visto que devia ser uma central de germes, mas Dylan não conseguia se forçar a tirar a boneca da menina. Talvez, depois, quando Bonnie estivesse dormindo, ele banharia a coisa em desinfetante ou algo assim.
Enquanto isso, dirigindo pelas ruas escuras de Stillwater Springs, ele teve o cuidado de se manter dentro dos limites de velocidade. A última coisa de que precisava era Floyd Book, ou um de seus delegados, parando-o e pedindo alguma prova de que ele não havia cometido rapto paterno. Ele tinha o bilhete de Sharlene, encontrado em sua caminhonete com Bonnie e a mochila, mas quem poderia dizer se isso valeria alguma coisa?
Logan poderia, é claro. Logan poderia providenciar a documentação e colocar tudo em ordem.
Ele seguiu para o rancho, em parte na vã esperança de que Logan pudesse estar lá, e, em parte, porque este era o seu lar.
- Foi aqui que cresci - disse para Bonnie, ao passarem sob a placa recentemente consertada dizendo Stillwater Springs Ranch, pendurada sobre o portão principal.
- Não - disse Bonnie, alegremente, mordendo o cabelo de roqueiro punk da boneca.
Quatro palavras, agora. Sem dúvida, a menina estava desenvolvendo um vocabulário impressionante.
O trabalho no celeiro já estava quase terminado. Estava sustentado por vigas novas e o telhado havia sido substituído.
Dylan estacionou a caminhonete e baixou o vidro da janela, quando um dos trabalhadores veio na direção dele, sorrindo.
Ele reconheceu Dan Philips, um sujeito que se formara alguns anos à frente dele na Stillwater Springs High.
- Logan está por aí? - perguntou Dylan, embora soubesse a resposta.
Dan sacudiu a cabeça.
- Viajou para Las Vegas para se casar.
- O celeiro está ficando bonito - comentou Dylan. Detendo-se, Dan lançou um olhar na direção de Bonnie.
- Não sabia que era um homem de família, Dylan - disse, com um sorriso.
- Sou cheio de surpresas - retrucou Dylan. - Sabe se Logan providenciou o conserto da minha casa após a última invasão?
- Fui até lá com uma equipe e eu mesmo tratei disso. Logan pediu para trazer para cá as coisas de Briana e dos meninos, e também me encarreguei disso.
Já era alguma coisa, Dylan pensou, embora estivesse incalculavelmente desapontado por Logan não estar em casa. Ele e Bonnie podiam comprar algumas coisas para comer e se mudar agora mesmo. Cassie os recebera bem, mas sua casa era pequena, e ele não queria abusar de sua hospitalidade mais do que o necessário.
- Parece que todo mundo da velha guarda resolveu aparecer prosseguiu Dan, quando Dylan já estava prestes a passar a marcha e seguir para a sua casa, para descobrir o que, além de comida, ele e Bonnie precisariam providenciar. - Acabo de ver Tyler. Ele está enfurnado naquele chalé velho, nas margens do lago, e me pediu para não dizer a ninguém que estava aqui. Mas não acho que ele se importaria de você saber.
Dan estava enganado, mas Dylan não viu motivo para dizer isso.
- Vou dar uma passada lá para dizer oi - ele respondeu, tranqüilamente.
Se eu tiver sorte, meu irmão caçula não vai me botar para correr com uma carabina.
- Em seguida, vamos começar a trabalhar na casa - disse Dan, assentindo na direção da casa antiga. - Vamos fazer umas modificações bem sofisticadas. Para começo de conversa, uma nova suíte do casal e uma cozinha de última geração.
Dylan sorriu. Logan ainda esperava continuar, estabelecer-se ali e criar um bando de filhos com Briana.
Ele acreditaria quando o último deles crescesse e se casasse.
Por outro lado, considerando como ele mesmo se sentia a respeito da própria filha, era possível que Logan, de fato, estivesse determinado a "fazer o nome dos Creed voltar a significar alguma coisa", como costumava dizer.
- Até mais ver - Dylan disse para Dan, pois era o que se costumava dizer na roça quando se queria fazer uma saída rápida, porém educada.
Dan assentiu, saudou-o displicentemente e voltou ao trabalho.
Dylan seguiu para a sua própria casa. - Popô - disse Bonnie solenemente, enquanto sacolejavam através do pasto, contornando o pomar e o cemitério.
Mais cedo ou mais tarde, teria de visitar o túmulo de Jake, mas isto estava longe de estar no topo de sua lista.
- Agüente as pontas - respondeu Dylan, em tom afável. - Estamos quase em casa.
- É PURA tolice ficar toda nervosa só porque Dylan Creed apareceu na hora da história com a menininha mais linda do universo - Kristy disse para Winston, muito após o sol se pôr, enquanto, de pé no topo da escada de armar, ela dava outra demão de tinta amarelo-sol no batente da arcada que separava a cozinha da sala de jantar.
Winston, tendo acabado de devorar o seu costumeiro banquete, alisava meticulosamente uma das patas dianteiras e nada comentou.
- Quero dizer, não é como se ele tivesse problemas para atrair mulheres - Kristy prosseguiu, limpando uma gota de tinta do nariz com a manga da enorme camisa de homem que comprara no bazar de caridade justamente para serviços que faziam muita sujeira.
- Miau - Winston disse, com indiferença.
- Foi só uma surpresa, mais nada.
Entediado, Winston virou-se, afofou o rabo felpudo e seguiu preguiçosamente para a sala de estar. Ele gostava de se deitar na escrivaninha antiga diante das janelas da sacada e ficar assistindo ao mundo passar. E ele passava muito lentamente em Stillwater Springs. As vezes, demorava horas para um carro passar.
- É sempre assim - Kristy disse, para a cozinha vazia. - Ninguém me escuta.
No instante seguinte, alguém bateu na porta dos fundos, e Kristy ficou tão surpresa que quase caiu de cima da escada. Afinal de contas, o que havia de errado com ela?
- Entre! - gritou, pois era o que se fazia em Stillwater Springs. Quando o xerife abriu a porta e entrou, ela ficou surpresa, mas não o suficiente para ir de cabeça no chão.
- Não deveria simplesmente gritar "entre" desse jeito - Floyd disse, retirando o chapéu de xerife e colocando-o sobre a bancada. - Eu podia ser um forasteiro, louco para esquartejar alguém. - Um ligeiro sorriso esboçou-se no canto de sua boca, suavizando a expressão séria do rosto. - Não estamos mais nos velhos tempos, Kristy.
Kristy pousou o pincel na bandeja de alumínio amarelo-sol e desceu da escada, sorrindo. Café? - perguntou. Floyd sacudiu a cabeça, suspirando.
- Estou tentando cortar - disse. - Está me deixando acordado durante a noite.
Kristy ficou parada ali, aguardando que ele fosse ao ponto de sua visita.
- Importa-se de sentar-se? - perguntou o xerife, com a voz cansada.
Oh-oh, Kristy pensou. Lá vem bomba.
Assim que ela se sentou à mesa, Floyd se acomodou na cadeira diante dela.
- Acho que você sabe que o banco enfim resolveu a confusão da legitimação do testamento referente ao rancho - ele disse, baixinho. - E Freida tem um astro do cinema pronto para comprá-lo.
Sentindo um nó na garganta, Kristy assentiu.
- Ela me disse que o rancho ia ser vendido, agora que o processo legal foi completado.
Ela estava curiosa quanto ao motivo de Floyd ter passado ali para lhe contar isso.
- É um rancho antigo - prosseguiu Floyd, com uma expressão séria no rosto. - Ao longo dos anos, um bocado de coisas aconteceu ali.
Kristy sentiu um frio na barriga.
- Floyd, o que está querendo dizer?
- Acho que pode haver um corpo enterrado na propriedade - disse o xerife.
O queixo de Kristy caiu e, após parar por um instante, seu coração disparou. A lembrança monstruosa despertou nas profundezas de seu cérebro.
- Um corpo? Floyd suspirou.
- Posso estar enganado - falou, mas a expressão de seu rosto dizia que ele não achava estar.
- Bom Deus - exclamou Kristy, atordoada demais para dizer qualquer outra coisa, e, ao mesmo tempo, estranhamente pouco surpresa.
O xerife parecia aflito.
- Havia um homem... Ele trabalhou para o seu pai durante um verão, quando você era bem pequenininha. Um andarilho, jamais soube direito o seu nome. Homens como ele iam e vinham o tempo todo, detendo-se apenas para ganhar alguns dólares em um rancho qualquer. Mas, certa vez, tarde da noite, Tim me acordou com um telefonema, dizendo que havia problemas sérios, e que eu precisava ir logo para lá. Tim não parecia ele mesmo. Por um instante, pensei estar falando com outra pessoa. No final das contas, ele flagrara este sujeito, o andarilho, tentando fugir da casa com parte das jóias de sua mãe e todo o dinheiro que tinham à mão, que não era pouco, pois ele havia acabado de vender algum gado em um leilão naquele dia. Houve uma luta, foi tudo que Tim me disse. Houve uma luta. Eu me vesti e segui para o rancho o mais rápido possível. E, quando cheguei lá, seu pai mudou a história. Disse que o andarilho havia ido embora, e já havia ido tarde. O pavor tomou conta de Kristy, mas ela disse.
- Então, deve ter sido a verdade.
Jamais soubera do pai mentir a respeito de nada, por mais conveniente que pudesse ser.
Mas o xerife Book voltou a sacudir a cabeça. Seus olhos pareceram afundar no rosto e Kristy pôde lhe notar as olheiras.
- Aceitei a palavra dele porque Tim era meu melhor amigo, mas havia muito mais por trás daquela história, e eu sabia disso. A aparência de Tim parecia ainda pior do que sua voz ao telefone. Era uma noite fria, mas ele estava suando, e havia sujeira sob suas unhas e nas suas roupas. Sabe como ele sempre se lavava antes do jantar, Kristy, e isso já foi bem depois da meia-noite.
Kristy não conseguia falar, não conseguia se forçar a fazer a pergunta óbvia: Será que o xerife Book achava que seu pai havia matado um homem?
- Poucos dias depois - prosseguiu o xerife, claramente forçando as palavras -, numa manhã de domingo, dei uma passada no rancho para dar uma olhada, quando sabia que seus pais estariam na igreja. E achei o que supus ser uma cova recém-feita naquele matagal perto de onde a propriedade se encontrava com a dos Creed.
Kristy sentiu uma onda de alívio. Ele havia visto a cova de Sugarfoot naquela manhã, não a de um ser humano. Mas o seu alívio durou pouco. Na ocasião, Sugarfoot ainda estava vivo e muito bem.
Floyd estendeu a mão sobre a mesa, apertando a dela, que estava fria como gelo.
- Perguntei a Tim o que havia lá. Ele me disse que um velho cachorro havia aparecido no seu celeiro, e morrido ali, e que ele havia enterrado a pobre criatura no meio daquelas árvores. - Ele voltou a deixar escapar um suspiro. - Eu era o xerife. Deveria ter chegado ao fundo daquilo, tanto no sentido literal quanto no figurativo, mas não foi o que fiz. Queria acreditar no seu pai, de modo que acreditei, mas sempre tive minhas dúvidas e, agora que estou prestes a me aposentar, preciso saber o que aconteceu. Não é apenas o café que me deixa acordado durante a noite, são certas pendências.
Kristy pensou que ia passar mal.
- Você vai... exumar... Floyd assentiu.
- Sei que Sugarfoot está enterrado ali, Kristy - ele disse, bruscamente, mal conseguindo fitá-la nos olhos -, e farei de tudo para não mexer muito nos restos dele. Mas, de uma vez por todas, tenho de ver se há um cão naquela cova com ele, ou um homem.
- Sinceramente, acha que meu pai, seu melhor amigo, assassinaria alguém e, depois, recorreria a tantos extremos para ocultar o corpo?
Kristy começou a se sentir tonta. Seu coração estava em disparada, e o cheiro da tinta, até então passado despercebido, agora trazia bile quente à sua garganta.
Não se lembre, sussurrou uma voz nos recônditos sombrios de sua mente, onde espreitavam enxaquecas e pesadelos. Não se lembre.
Baixinho, o xerife Book disse:
- Acho que, de fato, houve uma briga, e que as coisas escaparam ao controle. Se Tim realmente matou o andarilho, foi um acidente, e ninguém jamais me convencerá do contrário. Ele deve ter ficado furioso, Tim, quero dizer, com você e sua mãe na casa isso teria tornado aquela uma luta que ele não poderia ter se dado ao luxo de perder. No lugar de Tim, eu teria ficado apavorado com o que o sujeito poderia fazer se eu não conseguisse detê-lo.
Kristy ficou de pé, com toda a intenção de sair correndo para o banheiro, depois, largou-se de volta na cadeira.
- Mas papai ligou para você - murmurou. - Será que teria feito isso se tivesse matado alguém?
- Ele estava em pânico, Kristy. Provavelmente ligou primeiro e pensou depois.
- Papai já se foi, assim como a mamãe. Você está prestes a se aposentar. Será que não podemos deixar a coisa toda para lá?
- Se pudermos viver sabendo o que sabemos. Não acho que eu seja mais capaz de fazer isso... Já estou pagando o preço com uma úlcera. Será que você consegue ir adiante como se nada tivesse sido dito, Kristy?
Ela mordeu o lábio inferior.
- Não - disse, tristemente.
Se havia restos humanos enterrados com Sugarfoot, ou, mais precisamente, sob ele, o escândalo se espalharia por todo o estado de Montana. A lembrança de Tim Madison, aquela de um homem decente, trabalhador e honrado, seria alvo de tudo quanto é tipo de especulação.
Como será que ela lidaria com isso?
- Por que agora? - perguntou, fechando os olhos brevemente, na esperança de que o aposento parasse de girar. - Depois de todo esse tempo, Floyd, por que agora.
- Já disse - ele respondeu, gentilmente. - Minha aposentadoria. E, com a propriedade à venda, e algum idiota de Hollywood pronto para trazer escavadeiras para abrir espaço para quadras de tênis e coisas do gênero...
Kristy gelou. É claro que sabia que alguém, um dia, compraria o rancho Madison. Era uma propriedade de primeira. Mas jamais considerara a possibilidade de que alguém poderia destruir o túmulo do pobre Sugarfoot.
Lágrimas lhe encheram os olhos, e velhas feridas foram abertas novamente.
- Sinto muito - disse o xerife Book.
- Quando ele morreu - Kristy murmurou -, quero dizer, Sugarfoot, eu também quis morrer. Juntar-me a ele naquela cova e deixar que me cobrissem de terra.
- Você havia acabado de perder sua mãe - lembrou Floyd. - E seu pai já estava doente. Era muito para uma jovem suportar. Mas você conseguiu suportar, Kristy. Você seguiu em frente, seguiu vivendo, como deveria ter feito.
Um silêncio demorado e difícil tomou conta do aposento. Kristy o rompeu, dizendo:
- Você está sabendo do rebuliço que isso vai provocar se você encontrar... se você encontrar alguma coisa.
Com seriedade, Floyd assentiu.
- Talvez eu esteja errado. Não há necessidade de agitar toda a comunidade se houver realmente apenas um cachorro compartilhando a cova de Sugarfoot, Posso manter a coisa toda na surdina, Kristy, pelo menos por enquanto. Porém, estamos falando de Stillwater Springs, e o povo daqui não sabe manter a língua quieta. A notícia pode se espalhar, e é por isso que vira falar com você primeiro. Para que esteja de sobreaviso em caso de... Bem, você sabe.
Kristy assentiu.
O xerife ficou de pé para ir embora.
- Você vai ficar bem? - perguntou. - Se quiser, posso ligar para alguém.
- Ligar para alguém - Kristy repetiu, tolamente.
Quem? Quem neste mundo inteiro, de ponta-cabeça e confuso, deixaria tudo de lado para vir correndo segurar a mão da bibliotecária? Dylan, pensou.
- Talvez você não deva ficar sozinha.
- Estou bem - disse Kristy. Resposta automática.
Uma grande mentira.
- Tranque a porta depois que eu sair - Floyd mandou. Kristy assentiu.
Mas ele já havia ido embora há muito tempo, antes que Kristy sequer se levantasse da cadeira.
No final das contas, apesar de parcamente mobiliada, a casa estava habitável. Dylan achou que ele e Bonnie poderiam morar ali com conforto, se não com estilo, mas ele precisaria improvisar algum tipo de cama para ela, arrumar-lhe uma cômoda.
Mais compras, pensou amargamente.
E com uma menina de 2 anos de idade.
- Oba - murmurou.
- Popô - Bonnie disse.
- Aprenda outra palavra - retrucou Dylan.
O troninho rosa ainda estava na casa de Cassie, de modo que mais uma vez, ele teve de segurar Bonnie de bumbum de fora sobre a privada, e esperar.
No final das contas, Cassie se ofereceu para ficar de babá em sua própria casa, enquanto Dylan providenciava a comida e outras necessidades.
Ele comprou uma caminha para Bonnie, um nível acima de um berço, com proteção lateral que podia ser levantada e abaixada. Era branca, com detalhes em dourado; francês provinciano, a vendedora da única loja de móveis em Stillwater Springs a chamara. A peça, ela disse, foi projetada para crescer com a criança.
Dylan pagou em espécie, e a mulher prometeu entregar logo de manhã cedo. Ele ainda precisava de outras coisas, mas como tinha planos de botar mesmo a casa abaixo, não conseguia se ver torturando a si mesmo com a compra de um sofá decente ou de uma mesa de jantar nova. Poderia arrumar tudo isso mais tarde, ou talvez o trailer, que ele pretendia alugar e colocar na propriedade como moradia temporária, viesse com algo.
Mas a menina precisaria de leite pela manhã, para colocar no seu copo com biquinho, além de cereais.
De modo que ele decidiu encarar a mercearia da cidade.
Assim que levou tudo de volta para o rancho e guardou, seguiu para a casa de Cassie, para apanhar Bonnie. Ela poderia, naquela noite, dormir na cama que já estava na casa quando Briana se mudou para lá, e Dylan ficaria no velho sofá desconfortável.
Pelo menos, ele e Bonnie estariam em sua própria casa. Já era um começo.
Ao passar diante do cassino, teve vontade de parar a caminhonete, mas, por ora, ele estava fora das rodadas de pôquer. Afinal de contas, era pai.
Tinha responsabilidades agora.
E, por mais estranho que pudesse parecer, gostava da sensação. Estava tudo bem, com exceção da coisa do popô e do macarrão voador.
Definitivamente, se quisesse que isto desse certo, precisaria de uma esposa.
Na mesma hora pensou em Kristy.
- Ah, claro - começou a falar consigo mesmo em voz alta. - Simplesmente entre na biblioteca um dia desses e sugira deixar tudo que aconteceu para trás, porque, afinal de contas, você tem uma filha de 2 anos e está precisando de uma mãozinha para criá-la.
Dito assim, realmente parecia uma péssima idéia.
E Kristy provavelmente o acertaria na cabeça com o livro pesado mais próximo.
Ainda assim, Bonnie precisava de uma mãe, e ele não conseguia pensar numa candidata melhor do que Kristy Madison, com sua suave voz de contadora de histórias e sua praticidade serena. Se ele tinha de engravidar alguém, por que não podia ter sido ela, em vez de Sharlene?
Aí está uma pergunta inútil.
Depois do que acontecera no dia do enterro de Jake, Kristy o riscara de seu caderno, e ficara noiva de Mike Danvers. O bom e velho Mike, presidente do corpo estudantil, escoteiro e futuro dono da concessionária Chevrolet do pai.
Ele jamais seria preso por se meter em uma briga com os próprios irmãos no enterro de um dos membros da família, não o Mike. Não senhor, ele era o próprio cidadão sólido, não um Creed arruaceiro. Bastaria uma só palavra de Kristy para ele correr para a joalheria para dar a entrada naquele enorme anel de diamantes que lhe dera.
Como Dylan estava pensando nessas coisas, e cm outras muito piores, quando estacionou diante da casa de Cassie, ele precisou de um ou dois segundos extras para se dar conta de que o enorme utilitário Cadillac branco, que estava estacionado ao lado da tenda, provavelmente pertencia a Tyler.
A insígnia de rodeio na janela de trás foi a pista decisiva. Somente campeões tinham aqueles decalques de fivela de prata e, entre outras coisas, Tyler era um perito domador de cavalos selvagens.
Ele também fez comerciais para a TV, e pousou seminu para calendários de caubóis. Copiando a idéia de Dylan, também fizera alguns trabalhos de duble, embora, graças a Deus, jamais houvessem se encontrado no mesmo set de filmagem.
Dylan não estava nada pronto para lidar com o irmão caçula naquele momento. Contudo, ir embora também não era uma opção. Para começo de conversa, jamais fora de fugir de confrontações, a não ser que fossem com mulheres. Viera buscar Bonnie, e não iria embora sem ela.
Sendo assim, desceu da caminhonete e caminhou até a porta da frente de Cassie.
Era melhor acabar logo com isto. Informaria a Tyler, se é que Cassie já não o havia feito, que Logan estava querendo falar com ele, pegaria Bonnie e suas coisas e iria embora.
Quando Dylan entrou, Tyler estava de quatro no chão, com Bonnie nas costas, agarrando a gola da camisa dele com uma das mãos, e erguendo a outra no ar, ao estilo dos domadores de cavalo.
E ela riu quando ele se ergueu, tomando todo o cuidado para não derrubá-la.
Sem dúvida nenhuma, ela era uma Creed. Graças a Deus era menina, ou provavelmente acabaria no circuito, arriscando a vida por um pouco de adrenalina e um incerto prêmio em dinheiro.
Dos três irmãos Creed, Tyler era o mais novo, o mais alto, e o que tinha o pavio mais curto. Seu cabelo era escuro como o de Cassie, e ele o usava cortado à altura da gola da camisa.
Ele virou a cabeça, viu Dylan e parou de se mexer. Tirando Bonnie cuidadosamente de suas costas, ficou de pé.
Seus olhos azul-escuros estavam gelados ao se esticar, atingindo toda a sua altura.
Quando criança, levara o maior jeito para a música, tanto que ela fluía das cordas de seu violão barato e de quase tudo que fazia. Contudo, com as bebedeiras de Jake e o suicídio da mãe quando ele ainda era jovem, algo havia morrido em seu íntimo e jamais revivera.
- Logan está querendo falar com você - disse Dylan, pois com Tyler até mesmo "olá" era terreno perigoso.
- Foi o que eu soube - Tyler respondeu. - É claro que estou me lixando.
Prometendo um biscoito para a menina, Cassie puxou Bonnie para a cozinha, depois dela lançar olhares preocupados de um irmão para o outro.
- Se está tentando me tirar do sério, Ty, vai ter que se esforçar mais. O que o traz de volta a Stillwater Springs?
- Estava prestes a lhe fazer a mesma pergunta - respondeu Tyler, virando-se para olhar quando a risadinha de Bonnie veio da cozinha. - Gracinha de menina - ele acrescentou e, por uma fração de segundos, seu olhar se suavizou, - Bonnie, não é?
- Isso mesmo - Dylan disse, aguardando a explosão.
Ele e Tyler já haviam tido vários arranca-rabos ao longo dos anos. A briga após o enterro de Jake havia sido apenas um deles. Algumas temporadas atrás, haviam se encontrado no mesmo rodeio, e a namorada de Ty, provavelmente querendo deixá-lo com ciúmes, havia se atirado para cima de Dylan.
Ele não mordera a isca, mas a namorada, Dylan não conseguia se recordar do nome dela, havia largado Tyler, passado a noite toda fora e alegado que estivera com Dylan, no seu quarto de hotel. Não era verdade, só que havia outra mulher compartilhando a sua cama e ele não curtia ménages à trois, mas Tyler, com seu eterno mau humor, não acreditou nele.
Teria havido uma briga, ali mesmo nos bastidores da arena no rodeio, se dez outros caubóis não houvessem se intrometido para apartá-los,
- Vou indo, agora - disse Tyler. - Só vim dar um alô para Cassie.
Dylan assentiu. Não fora só isso, é claro. Até onde sabia, Tyler não pusera os pés em Stillwater Springs desde que o xerife Book os soltara naquela manhã, após o enterro de Jake. Mas sabia que não arrancaria uma resposta do irmão.
- Até a vista - disse.
- Não se eu o vir primeiro - retrucou Tyler.
Quando crianças, havia sido uma brincadeira comum entre eles. Agora, Tyler estava falando sério.
Uma sensação desanimadora se apossou de Dylan. De qualquer modo, ele e Logan estavam se falando, embora ainda tivessem muito a resolver. Mas podia dizer que o mesmo não iria acontecer com Tyler.
Tyler era um lobo solitário e, obviamente, pretendia continuar assim.
- O que ele estava fazendo aqui? - Dylan perguntou a Cassie, na cozinha, após Tyler ter ido embora.
Lá fora, com um rugido, ele deu partida no utilitário. Ela estava sentada à mesa, com Bonnie no colo, habilmente colocando papinha na boca da menina.
- Por que não perguntou a ele? - foi a resposta de Cassie.
Há anos que a mulher vinha tentando promover a reconciliação dos três, fazer com que agissem como irmãos, e, apesar da falta quase total de sucesso, ainda parecia acreditar que isso pudesse acontecer.
- Acho que teria mais sucesso perguntando para o poste de totens da biblioteca - disse Dylan, abrindo a geladeira e pegando uma lata de refrigerante.
Antes de Bonnie, teria se servido de uma cerveja, mas como nunca se sabia quando teria de correr com uma criança para o pronto-socorro com alguma enfermidade súbita, achara melhor deixar a bebida de lado.
Cassie sorriu para si mesma.
- Você esteve na biblioteca? Dylan abriu a lata e deu um gole.
- Não sei se você está a par, mas eu sei ler. Quando criança, fui disléxico, mas aprendi a compensar.
- Não foi isso que eu quis dizer - Cassie disse, docemente.
Quantas noites ficara sentada com ele, repassando as "lições especiais" que lhe foram passadas após uma bateria de exames de leitura?
- Ah - disse Dylan. - É, vi Kristy, se é o que quer saber.
- E?
- Eu a vi.
- Puxa, não me sobrecarregue com tanta informação. Dylan suspirou.
- Eu a vi. Ela ainda está linda. Ainda leva jeito com crianças. Fim da história.
- Ou o começo - disse Cassie, sorrindo para Bonnie.
- Não vá tendo idéias - alertou Dylan, embora, em se tratando de Kristy, ele próprio já estivesse tendo idéias.
Cassie não poderia saber disso, a não ser que estivesse usando sua visão de raios X.
- Pobre Kristy - ela disse com um ar solene, até mesmo triste, franzindo a testa ao olhar por sobre a cabeça de Bonnie, além de Dylan, fitando um mundo invisível pelo qual apenas ela era capaz de navegar.
- O que quer dizer com "pobre Kristy"? - perguntou Dylan, sabendo que não deveria fazê-lo, mas preocupado demais para resistir.
Quando Cassie se preocupava com as pessoas, elas costumavam enfrentar problemas severos e imediatos.
- É que lhe faz falta um amigo, só isso. Não era só isso, claro.
Dylan pousou a lata de refrigerante na mesa com um ruído surdo. Ele a teria jogado fora, mas Cassie costumava reciclar.
- O que está acontecendo? - exigiu saber, baixinho. - Não teve outro de seus sonhos...?
- Não - respondeu Cassie. - Apenas sei dessas coisas. - Ela se animou. - Pode chamar de um velho truque indígena.
- Cassie - Dylan insistiu. - Conte-me.
- Vá vê-la - respondeu Cassie, fitando-o no rosto. - Ela está sozinha, na casa dela. Cuidarei de Bonnie. Eu lhe darei um banho e o jantar e a colocarei para dormir.
- Não posso simplesmente aparecer na porta dela, Cassie. O que vou dizer? "Oi, minha avó adotiva me mandou?"
- Você pensará em algo.
- Estava planejando levar Bonnie para o rancho.
- Isso pode esperar, Dylan. Não sei se o mesmo pode ser dito com relação a Kristy.
- Ela provavelmente vai dar com a porta na minha cara.
- Você é um menino grande. Lide com isso.
Dylan suspirou. Jamais havia levado muito a sério as supostas habilidades mediúnicas de Cassie, e ela certa vez admitira que dizia para as clientes de taro qualquer coisa que achasse que elas queriam escutar, mas havia ocasiões em que seus instintos passavam perto demais da trave para se ignorar.
Ele curvou-se, deu um beijo no topo da cabeça de Bonnie e foi embora.
Dez minutos mais tarde, estava batendo à porta de Kristy, ainda se perguntando o que diabos iria dizer para explicar sua presença ali.
Quando abriu a porta, ela estava usando calças velhas, uma camisa de homem e um bocado de tinta amarela.
E estivera chorando. Os olhos estavam inchados e as narinas avermelhadas nas bordas. Ver Kristy em lágrimas era arrasador, mas, pelo menos, até onde sabia, desta vez, não era a causa delas.
- Está tudo bem? - perguntou Dylan, abalado.
Dito como um verdadeiro mestre das palavras, pensou taciturnamente. Sempre fora capaz de resolver ou sair de qualquer situação na conversa, exceto quando tal situação envolvia Kristy Madison.
- Não - ela disse. Sua voz estava um pouco trêmula. Depois, ela se atirou para cima dele, envolvendo-lhe o pescoço com os braços.
- Não!
Bom Deus.
Deveria ser proibido por lei cheirar tão bem quanto Kristy cheirava, uma sedutora combinação de grama viçosa após uma pesada chuva de primavera, folhas queimando no outono, algum tipo de talco e solvente de tinta. Por um precioso instante, Dylan simplesmente a segurou nos braços, inspirando seu perfume, fechando os olhos bem apertados para resistir à onda de emoções que sentia.
Como a maioria dos momentos preciosos, aquele foi breve.
Kristy rapidamente estremeceu em seus braços, empurrando-se para trás, erguendo o queixo e fungando. A vulnerabilidade nos seus olhos azuis cor de centáurea transformou-se em desafio.
- Sinto muito - ela disse formalmente, como se ele fosse um desconhecido em quem ela esbarrara num aeroporto lotado, não o primeiro homem com quem fizera amor. - É só que, recentemente, tenho estado sob muita pressão e...
Dylan inspirou profundamente, deixou escapar um suspiro enquanto fechava atrás de si a porta da frente da casa de Kristy, e enfiou os polegares nas alças do cinto de sua calça.
- Kristy - disse. - Sou eu, Dylan. Algo aconteceu com você, ou não teria quase me derrubado na porta de sua casa.
Kristy deixou escapar um suspiro como resposta, e seus ombros normalmente retos desabaram de tal modo que Dylan sentiu um aperto no coração.
- Entre - disse ela, com o mesmo nível de entusiasmo que poderia ter demonstrado com um terrorista visitante usando um colete de dinamite.
Dylan não viu motivo para comentar que já havia entrado, simplesmente seguiu Kristy casa adentro, esperando ir dar na cozinha. Quando o povo de Springs tinha algo a discutir, ou simplesmente queria jogar um pouco de conversa fora, costumava reunir-se ao redor de uma mesa, com um bom bule de café e a geladeira à mão.
Ele visitara a enorme casa em estilo vitoriano, uma ou duas vezes, com o pai, quando Jake passava para receber algum contracheque atrasado do velho Turlow. Na época, o lugar lhe parecera escuro e opressivo. Mas Kristy o alegrara consideravelmente, com cortinas de renda e muitas paredes de amarelo-claro. O piso era de carvalho reluzente, provavelmente raspado até a própria madeira e, depois, reenvemizado. Isso também devia ser trabalho de Kristy. Ela gostava de muita luz e muito espaço, e costumava sonhar que, um dia, moraria na casa dos Turlow.
Isso só servia para mostrar que alguns sonhos podiam se tornar realidade.
Uma enorme escada de armar estava logo na entrada da cozinha. Kristy a rodeou e Dylan abaixou-se para passar por entre as pernas da escada.
- Café? - ela ofereceu. Dylan pôde notar o esforço no rosto dela, porém, não demorou muito, e Kristy não resistiu à tentação de acrescentar: - Não devia passar debaixo de escadas.
-- Isso e uma superstição boba - Dylan retrucou, com um sorriso. - E, sim, por favor, eu gostaria de um pouco de café.
- Não estava me referindo à superstição - insistiu Kristy, com ar de superioridade, ficando na ponta dos pés para pegar duas canecas de jogos diferentes de dentro do armário. - Coisas podem cair na sua cabeça, como um balde de tinta.
- Vejo que ainda está esperando que o céu lhe caia na cabeça.
Dylan sorriu, mas seu íntimo se retorcia de tensão, como um parafuso apertado além da conta. Ele se arrependeu daquelas palavras irreverentes assim que as viu se registrarem no rosto de Kristy. Por trás da tênue fachada de coragem, ela estava ruindo.
Talvez o céu estivesse mesmo caindo.
- Vai me contar o que há de errado - ele insistiu -, ou vou ter que saber pela internet?
O rosto dela ficou ruborizado. Serviu o café, levou as duas canecas até a mesa, e puxou uma cadeira com um movimento hábil de um dos pés.
- Pelo amor de Deus - disse irritadamente -, sente-se.
- Só depois de você - retrucou Dylan. - Sou um cavalheiro. Ante a resposta, Kristy fungou e largou-se na cadeira. Para piorar ainda mais a situação, revirou os olhos uma vez.
Dylan sentou-se na cadeira ao lado da dela, distraidamente acariciando o enorme gato que saltou para o seu colo.
- O xerife Book esteve aqui ainda há pouco - Kristy começou a dizer, com o cotovelo apoiado na mesa e o queixo descansando tristemente na mão.
- Continue - pediu Dylan.
Seus olhos se encheram de novas lágrimas.
- Ele acha que meu pai pode ter... pode ter matado alguém.
Surpreso, Dylan baixou a caneca que havia acabado de pegar e fitou Kristy por um instante, aguardando o final da piada. Tim Madison, um assassino? Impossível. O pai de Kristy fora um homem gentil, de fala mansa, trabalhador e generoso com o pouco que tinha.
Por outro lado, Jake Creed havia sido dono de um mau gênio lendário, e caso o xerife Book tivesse achado que ele havia apagado algum pobre sujeito, Dylan poderia ter acreditado. Embora não aceitasse bem críticas a Jake, ainda mais quando vinham de seus irmãos, no fundo jamais tivera ilusões quanto ao tipo de homem que o pai fora.
- Isso é loucura - disse, por fim.
Kristy voltou a fungar, experimentou um gole do café, fez uma careta e voltou a pousar a caneca sobre a mesa.
- Eu sei. Mas o condado vai mandar abrir a cova de Sugarfoot. Ele tentou amenizar o fato, mas Floyd claramente acredita que meu pai matou um homem, provavelmente por acidente, e o enterrou com... com...
Dylan queria expulsar o gato de seu lugar e puxar Kristy para o colo, oferecendo-lhe todo o consolo de que era capaz, mas não se moveu. Ela amava Sugarfoot, o seu antigo cavalo, com uma intensidade quase sagrada.
Do modo como não o amara.
Quando por fim ele falou, as palavras lhe arranharam a garganta como se houvesse engolido arame farpado enferrujado.
- Suponha que, de fato, encontrem um corpo na cova, além do de Sugarfoot? Seus pais já se foram, Kristy, assim como Sugarfoot. Isto não poderá fazer mal a nenhum deles.
Burro, burro, Dylan pensou no instante seguinte, passando os dedos pelo cabelo ao se ver tomado de frustração.
Talvez não pudesse fazer mal aos Madison, nem ao cavalo... mas poderia afetar Kristy.
Ela vivera toda a sua vida em Stillwater Springs ou em seus arredores. Era o lar dela, o único lugar onde já quisera estar, o que acabara sendo grande parte dos problemas entre eles, anos atrás. Ela era a perfeita dona do lar, ele, um arruaceiro e um caubói de rodeio com uma tendência a pegar a estrada.
Bem-vindo ao Hotel dos Corações Partidos. Kristy mordeu o lábio inferior, estendeu a mão manchada de tinta e a fechou sobre a de Dylan, esforçando-se para sorrir.
- Sei que não teve intenção de dizer o que disse - ela falou, com uma gentileza que chegou a feri-lo.
Crescendo com Jake e os irmãos, e depois montando no circuito profissional, estava acostumado à rudeza. Era capaz de ser gentil, especialmente com Bonnie, ou com um animal ferido ou perdido, mas ver-se alvo das gentilezas de outros era diferente, e extremamente perturbador.
Dylan pigarreou. Preparando-se para fazer outra tentativa, visto que era um Creed, e, por conseqüência, a persistência era uma de suas características mais marcantes. Mesmo quando isso significava afundar cada vez mais, ele era incapaz de parar de cavar.
- Por que nunca arrumou outro cavalo, depois de Sugarfoot? - ouviu-se perguntar.
Diabos, também não tivera a intenção de dizer isso. Simplesmente escapuliu de sua língua, antes que ele tivesse a chance de laçá-lo e amarrá-lo.
Um olhar distante e pensativo se fixou nos olhos mais azuis do que o azul de Kristy.
- Custa dinheiro manter um cavalo - ela disse, após um bom tempo. - Muito dinheiro. Bibliotecárias não costumam ganhar nenhuma fortuna, Dylan.
- Você comprou esta casa - argumentou Dylan.
- Recebi uma pequena herança quando minha tia-avó faleceu, um ano e meio atrás - disse Kristy, num tom de voz que dizia que ela não sabia por que estava lhe contando isto, visto que era pessoal. - Dei a entrada na casa e me mudei.
O gato havia ficado entediado. Tendo espalhado pelos brancos na camiseta de Dylan, devia ter achado que seu trabalho ali havia terminado. Agora, estava dando patadas em um ratinho de brinquedo no chão da cozinha.
- Você e o gato de sua tia-avó - murmurou Dylan, lembrando-se de como Kristy sempre quisera uma família grande e muitos bichinhos de estimação. Sendo filha única, ela sempre dissera que era solitária demais.
- Ah, Winston não pertencia à tia Millie - retrucou Kristy. - Ele era de Freida Turlow e, quando ela se mudou, após eu comprar a casa, ele começou a aparecer na porta nas horas mais diversas do dia e da noite. Desde então, Freida está aborrecida comigo, como se achasse que eu o seduzi para afastá-lo dela, ou coisa parecida.
Dylan lembrava-se claramente de Freida Turlow. Ela tentara seduzi-lo na noite de seu 16° aniversário e, se já não estivesse apaixonado por Kristy, poderia até ter aceitado a oferta.
- Freida está sempre aborrecida com alguém - comentou, mal se contendo de dizer em voz alta que, deparando-se com a opção de morar com a majestosa srta. Turlow ou com Kristy, ele teria feito a mesma escolha que o gato.
Os olhos de Kristy ficaram tristes. Por um instante, esquecera-se da possibilidade de um iminente escândalo, mas agora Dylan pôde perceber que a folga terminara.
- Se as suspeitas de Floyd se provarem verdadeiras, Freida vai ser a pior de todas - disse, com um ligeiro desespero.
- O que você fará se ele estiver certo? - Dylan arriscou-se a perguntar.
Ficou surpreso ao sentir tanta ansiedade para saber a resposta. Seria a maior das ironias se, justamente quando havia decidido aquietar-se, estabelecer-se no rancho e montar um lar para a filha, Kristy decidisse deixar a cidade para sempre.
- Não sei - ela respondeu. - Acho que.,. Acho que poderia estragar tudo... A casa, meu trabalho na biblioteca... - Ela se interrompeu e fez outra tentativa de se explicar: - Sabe como são as cidades pequenas, Dylan. Já foi ruim quando meus pais morreram com uma diferença de menos de um ano, e o rancho foi tomado devido a dívidas e impostos atrasados. Todo mundo sentiu pena de mim. As pessoas jamais deixariam uma história dessas morrer, e não sei se conseguiria enfrentar novamente toda aquela pena e fofoca.
Toda aquela pena e fofoca.
Kristy deu a impressão de querer voltar atrás naquelas palavras, engasgar-se com cada uma delas antes de proferi-las novamente. Dylan supunha que devia ter havido muita fofoca quando ele voltou para Stillwater Springs para lhe pedir que esperasse por ele, alguns meses após o rompimento, depois do enterro de Jake, e ela esfregou no seu nariz o enorme anel de noivado de Mike Danvers, e basicamente lhe disse para dar o fora. Contudo, sempre supusera que qualquer porção de pena houvesse sido reservada para ele.
Fora um dos motivos para ficar fora durante tanto tempo. Quando ainda era um menino esfarrapado, com o notório Jake Creed por pai, fora alvo de toda a pena que poderia suportar. Cestas de caridade deixadas na porta da frente no Natal, Dia de Ação de Graça e Páscoa. Beatas de igreja bem-intencionadas lhe oferecendo as roupas usadas dos filhos. E todo o resto.
Contudo, a maior das razões havia sido a própria Kristy.
Ele já montara os touros mais malvados do circuito de rodeios. Já havia machucado as mãos e quebrado o nariz em inúmeras brigas de bar, e estava pensando nas que vencera, porém sabia que ver Kristy cuidando de seus afazeres de esposa pela cidade, pegando correspondência no Correio, empurrando um carrinho pelo supermercado, mais cedo ou mais tarde engravidando do filho de outro homem, seria o suficiente para destruí-lo.
De modo que, com exceção de breves visitas, quando trouxera seu touro, Ciraarron, de volta para o rancho, sem saber o que fazer com ele, e contratara Briana Grant, agora Creed, para cuidar de sua casa vazia, ele ficara o mais longe possível.
Bonnie, e o fato de Logan ter lhe contado, durante sua última visita, que Kristy ainda estava solteira, haviam mudado tudo.
Aceitar tudo isso ainda demoraria um bocado.
E agora podia haver um corpo se decompondo na antiga propriedade dos Madison.
Seu café havia esfriado, mas como a conversa tinha morrido, e ele não sabia o que fazer para avivá-la novamente, ele tomou um gole da bebida.
Aí estava outra coisa que não havia mudado. O café de Kristy ainda era horrível. Ele sorriu ante o pensamento.
- Fale-me de sua filhinha - disse Kristy e, pelo modo como fez o pedido, ele soube que ela vinha reunindo coragem para fazê-lo durante o silêncio.
- Você provavelmente deve saber tanto a respeito dela quanto eu - Dylan admitiu, - Ela tem 2 anos de idade. Seu nome é Bonnie. Ela gosta que leiam para ela em voz alta.
Kristy pareceu relaxar um pouco, embora ainda pudesse perceber uma tensão no ar.
- Posso supor que a mãe dela não esteja mais na jogada?
- Só Deus sabe onde está Sharlene - disse Dylan, suspirando. Ele fitou Kristy nos olhos e não desviou o olhar. - Sharlene foi um erro, não há como negar. Mas Bonnie, bem, ela é a prova de que algo de bom provém de qualquer situação.
Qualquer situação que não um túmulo de cavalo em um matagal tranqüilo, acrescentou a voz na cabeça dele. Agora que tivera a chance de pensar um pouco, sabia instintivamente que o xerife e seus homens encontrariam algo além dos ossos de Sugarfoot quando cavassem o buraco.
O sorriso de Kristy foi triste.
- Eu o invejo - disse.
Mais uma vez, Dylan foi pego de surpresa. Esquecera-se da capacidade de Kristy de surpreendê-lo, uma das coisas que mais amava nela.
- Por quê? - perguntou, sinceramente confuso.
- Porque tem uma filha - ela disse lentamente, e com uma divertida paciência.
- Só torço para que possa ficar com ela - ele respondeu.
A preocupação de que Sharlene pudesse mudar de idéia e tomar Bonnie de volta jamais abandonava os recônditos escuros de sua mente, e ameaçava se apossar de Dylan quando este menos esperava.
Kristy ergueu uma das sobrancelhas, aguardando.
- Assim que Logan voltar de Vegas, vou dar entrada no pedido de custódia plena - ele explicou. - Até então, estou mais ou menos ao sabor da maré.
Ele estudou Kristy, lembrando-se... não, lembrando-se não era a palavra certa, já que, em primeiro lugar, não havia esquecido... como era bom tê-la novamente nos braços.
- Você não a... roubou, roubou?
- È a segunda pessoa que me pergunta isso - retrucou Dylan. - Não, não seqüestrei minha filha. Sharlene a deixou na minha caminhonete enquanto eu estava dentro de alguma espelunca em Las Vegas, jogando pôquer, junto com um bilhete dizendo que não podia mais cuidar dela.
Kristy ficou boquiaberta.
- Ela deixou uma criança sozinha numa caminhonete?
- Ela estava em algum lugar por perto, de olho.
Como se isso fizesse alguma diferença. Dylan provavelmente jamais saberia o que Sharlene teria feito se ele não houvesse encontrado Bonnie. Mesmo que um dia viessem a ter uma conversa racional, era pouco provável que Sharlene fosse ser sincera e franca.
- Ah, sim - Kristy disse, ceticamente. - Isso muda tudo.
- Sharlene não é a pessoa mais esperta que já conheci - admitiu Dylan. - Mas, do jeito maluco dela, acho que estava fazendo o que achava ser melhor.
Kristy recolheu um pouco as garras e voltou a suspirar.
- Se estava se sentindo sufocada com as responsabilidades de criar Bonnie, por que não ligou para você e pediu ajuda?
Dylan não gostou da resposta que lhe veio à cabeça, e gostou ainda menos de dizê-la em voz alta.
- Ela provavelmente achou que eu diria não, e não quis me dar essa chance.
Um breve silêncio se seguiu, durante o qual Kristy fitou Dylan intensa e demoradamente.
- Você teria dito não? - por fim, ela perguntou.
- É claro que não - ele disse, um pouco ofendido. - Bonnie é minha filha.
- Com licença - Kristy contra-argumentou. - Mas conheço sujeitos que teriam se casado com a mãe de suas filhas.
Fácil assim, ela o deixara irritado. Era outra coisa que havia esquecido sobre Kristy, seu dom de tirá-lo do sério.
- Eu não amava Sharlene - ele disse, com seriedade -, e ela, com certeza, não me amava.
- Algum dos dois amava Bonnie?
Dylan teve de descerrar os dentes antes de responder.
- Jamais deixei de mandar o cheque da pensão - disse.
- Muito nobre de sua parte. - Kristy o desafiou, dobrando um dos joelhos e sentando sobre a perna, que era outra coisa que ele se lembrava a respeito dela. A testa da moça estava franzida e seus olhos ligeiramente estreitados. - Alguma vez viu Bonnie, antes de encontrá-la em sua caminhonete? Cuidou dela quando seus dentes estavam nascendo, ou ela estava gripada? Por acaso carrega a foto dela na carteira?
- Sim - rosnou Dylan, inclinando-se um pouco à frente. - Eu via Bonnie sempre que conseguia alcançar Sharlene. Não, não estava lá quando os dentes dela nasceram, nem quando estava gripada. - Ergueu-se, tirou a carteira do bolso de trás da calça e a abriu para mostrar a foto 3x4 da única pessoa que tinha certeza absoluta de que amava, no mundo todo. A mãe de Sharlene me enviou isto - ele completou, surpreso com a própria fúria. Afinal de contas, nada disso era culpa de Kristy, pelo menos, não diretamente. - Junto com a conta da plástica nos seios que Sharlene fez. Ao que parece, as duas acharam que ela teria mais chances de conseguir um marido com um belo par de faróis altos.
Kristy enrubesceu.
Dylan não se importou. Se ela queria pegar pesado, tudo bem.
- Você pagou.
Por um instante, Dylan não soube ao certo se havia escutado a pergunta direito.
- O quê?
Um sorriso provocante se esboçou nos cantos da boca sensual e altamente beijável de Kristy.
- Você pagou a conta da plástica nos seios?
- Não. Ela riu.
E, depois, surpreendentemente, ele também riu.
- Seu café ainda é horrível - disse Dylan.
- E você ainda se deixa tirar do sério com facilidade demais.
- Deixo mesmo?
- Deixa.
Ele precisava ir embora, apanhar Bonnie na casa de Cassie e levá-la para o rancho. Mas, primeiro, precisava ter certeza de que Kristy ficaria bem.
Avistou um pequeno quadro-negro na parede ao lado da porta dos fundos. A lista de compras de Kristy estava nele, com sua letra de bibliotecária, firme e cheia de curvas, e Dylan cruzou a cozinha até lá, pegou um pedaço de giz gordinho, e rabiscou o número de seu celular em baixo de brócolis.
- Ligue para mim - disse para Kristy, virando-se para vê-la retirar as canecas de sobre a mesa, com movimentos rápidos e eficientes. - Caso precise de qualquer coisa.
- Não vou - ela respondeu. - Quero dizer, precisar de alguma coisa.
A teimosia, o orgulho dela. Ele estava começando a se lembrar de tudo.
- Por que não se casou com Mike? - perguntou ele.
Sentiu que merecia essa pergunta. Afinal de contas, a vida era um toma lá, dá cá.
Ela suspirou e se voltou para ele. Ele podia dizer que Kristy estava fazendo um tremendo esforço para fitá-lo nos olhos. - Caí na real - ela disse. O que diabos ela queria dizer com isso?
- Mike é um bom homem - ela prosseguiu, quando Dylan nada disse. Embora houvesse entrado pela porta da frente, estava na dos fundos agora, com uma das mãos na maçaneta. - Ele merecia ser feliz.
- Ele me parecia um bocado feliz naquela noite em que encontrei vocês dois na taverna do Skiwie.
A imagem tomou conta de seus pensamentos. Podia muito bem estar de volta naquele bar escuro, observando Mike e Kristy dançando ao som da música lenta que tocava na vitrola automática, Kristy certificando-se de que Dylan visse muito bem o diamante que brilhava em sua mão esquerda. Podia sentir a serragem e as cascas de amendoim sob as solas das botas, sentir o cheiro de cigarro e de cerveja.
- Eu o estava usando - admitiu Kristy, sem rodeios. - Quando me dei conta disso, rompi o noivado. Alguns meses mais tarde, ele casou-se com Julie. Fim da história.
Fim da história? Após aquela noite na taverna, Dylan havia deixado Stillwater Springs, seus pneus levantando cascalho, jurando jamais voltar a pôr os pés em sua cidade natal. Passara a maior parte daquele ano afogando as mágoas em uísque barato, evitando cobradores e dando as costas à única coisa na qual era realmente bom: montar touros.
Na verdade, provavelmente teria bebido até a morte se um velho amigo, um palhaço de rodeio aposentado chamado Wiley, não o houvesse segurado pela gola da camisa, certa noite, após pagar a sua fiança para tirá-lo da cadeia, e ameaçado ligar para Logan se Dylan não desse um jeito em sua vida rapidamente.
Kristy não era a única que tinha orgulho. Embora ele e Logan ainda estivessem estremecidos na época, Dylan sabia que o irmão mais velho o acharia e provavelmente o internaria na clínica de desintoxicação mais próxima. Não desejara que Logan o visse no fundo do poço. Sendo assim, deixara de lado a bebida, exceto pela cerveja ocasional, ficara sóbrio e voltara para o circuito de rodeios tão logo arrumara dinheiro para fazer a inscrição.
Mas nada disso era da conta de Kristy.
- Obrigado pelo café - disse e foi embora.
Dylan era muito bom em ir embora. Muito bom em ir embora.
Kristy ajeitou as canecas na pia por alguns instantes, depois decidiu lavá-las mais tarde, quando não estivesse propensa a quebrá-las. O que ela estava esperando?
Bem, com certeza não estava esperando que ele fosse aparecer na sua porta da frente naquela noite, isso era certo. E, se alguém houvesse lhe dito que ela... bem, se atiraria em cima dele do modo como fez, ela teria dito que a pessoa estava louca.
O mais difícil de encarar era a noção de que, se ele a houvesse beijado, ela teria deixado Dylan fazer amor com ela, ali mesmo na entrada da casa.
O pensamento a deixou toda arrepiada. E ansiosa.
Levando em conta a freqüência com que faziam amor, quando ainda estavam juntos, era de se surpreender que ela não houvesse engravidado.
As coisas teriam sido tão diferentes se houvesse sido ela a conceber o filho de Dylan Creed, e não esta tal de Sharlene, com seu silicone nos seios.
Seu olhar voltou-se para o quadro-negro e o número do celular de Dylan, escrito com força e às pressas e tombando para a direita. Como se ela fosse ligar para ele, mesmo que dez ladrões invadissem a casa e, ainda por cima, esta estivesse em chamas.
Ela marchou até o quadro-negro, e, decididamente, apagou o giz azul com a palma da mão, deixando para trás uma mancha comprida.
Contudo, apagar os números não adiantara muito.
Este já estava fixo em sua memória, como as letras do antigo letreiro sobre o portão do rancho Stillwater Springs.
Ela encostou a testa no quadro-negro.
E as lágrimas voltaram. Mais uma vez.
Ela já perdera tanto: os pais, Sugarfoot, o rancho Madison, o lar e a família que ela e Dylan poderiam ter compartilhado, caso não houvessem sido tão esquentados.
Winston se enroscou ao redor de seus tornozelos, miando com incerteza, e uma lágrima pingou na cabeça dele. O gato olhou para cima, com curiosidade, tentando descobrir se estava chovendo.
A expressão dele fez Kristy rir.
E rir a fez endireitar os ombros, secar as faces com as costas de uma das mãos e se recompor.
Talvez fosse um tremendo escândalo quando o xerife Book abrisse a cova de Sugarfoot.
Talvez Dylan Creed houvesse voltado de vez para a cidade, com a filha, o sorriso malicioso e o corpo fatal para as mulheres.
Ela não era nenhuma frangota assustada, e estava acostumada com problemas.
Fosse lá do que pudesse aparecer em seu caminho, ela arrumaria um jeito de lidar. De algum modo.
A primeira noite na casa do rancho foi insone para Dylan, e não só porque passou metade dela tentando consolar Bonnie, que começara a chamar a mãe durante o lanche que fizeram para o jantar e só parará quando adormecera em seu peito, após um último suspiro soluçante.
Sentado no sofá surrado, que, como a cama e a mesa da cozinha, havia estado lá desde que o último Creed, seu tio-avô Mick, havia morado e morrido ali, com o queixo apoiado sobre a cabecinha coberta de suor de Bonnie, Dylan sentiu-se verdadeiramente desesperado.
Não esperava que criar uma criança fosse fácil, não era isso. Agora que a novidade de ficar com ele estava passando, Bonnie estava sentindo a falta de Sharlene, e provavelmente isso só tenderia a piorar.
Você é um sujeito durão de verdade, Creed, disse para si mesmo, silenciosamente. Quando Bonnie começara a chorar e gritar, ele mesmo teve vontade de chorar com ela. Em pânico, quase ligou para Cassie, pronto para implorar ajuda.
Cassie? A quem estava querendo enganar?
Queria mesmo era ligar para Kristy.
Mas quando diabos é que Logan e Briana iam voltar mesmo de sua maldita lua de mel? Briana era mãe, e uma boa mãe, pelo que pudera ver, e ela, com certeza, saberia o que se devia fazer quando uma criança começava a chorar e não parava.
A batida na porta o sobressaltou.
Tomando cuidado para não acordar Bonnie, ele ficou de pé e a carregou consigo através da cozinha, cruzando a marca escura no piso, gasto por décadas de pés passantes. Tyler o fitou através do vidro. Dylan franziu um pouco a testa, depois assentiu. Tyler entrou.
- Aquele touro velho no pasto é seu? - perguntou, como se jamais houvessem trocado palavras duras, muito menos socos.
- É - Dylan sussurrou. - O que sabe a respeito de crianças? Tyler sorriu.
- Só que essa aí é uma das mais bonitinhas que já vi.
Bonnie estremeceu de encontro ao peito de Dylan, choramingando um pouquinho. Mesmo através da camisa, o rosto dela parecia quente de encontro ao ombro dele. Ele a carregou até o quarto e a depositou cuidadosamente na cama, certificando-se de que a boneca de borracha manchada de tinta com o cabelo em pé estivesse ao alcance dela, e voltou silenciosamente para a cozinha.
Quando lá chegou, Tyler já estava revirando os armários.
- Não tem uísque? - perguntou.
- Hoje em dia, só bebo cerveja - respondeu Dylan baixinho, tentando imaginar o motivo da inesperada visita. Apostaria cinco contra dez que não era uma visita social. - Na geladeira.
Tyler abriu a porta da geladeira e recuou como se houvesse encontrado uma cascavel pronta para atacar lá dentro.
- Da marca mais barata?
- Cerveja é cerveja. E fale baixo, está bem? A menina berrou sem parar por três horas, e provavelmente vai começar novamente se você a acordar.
Tyler pegou uma lata de cerveja do pacote de seis e a abriu. Era impossível interpretar a expressão de seu rosto.
- Ela está doente ou coisa parecida?
- Não sei. Sua testa me pareceu quente, quando eu a estava segurando, ainda há pouco.
O incompreendido caubói cantor desapareceu. Tyler parecia alarmado. Ele deixou de lado a cerveja. Afinal de contas, era mesmo de marca barata, e seguiu para o quarto, onde curvou-se sobre Bonnie, levando as costas dos dedos à face da menina.
Ele franziu a testa, olhando para Dylan, que estava parado na entrada do quarto.
De volta à cozinha, Tyler disse:
- Acho que ela está com febre. Você tem aspirina infantil?
- Não - disse Dylan, mais apavorado do que queria dar a perceber ao irmão. - Ela estava triste, antes. Como eu disse, ela chorou um bocado. Provavelmente é apenas isso.
- Por que ela estava chorando? - Tyler exigiu saber, como se achasse que Dylan tivesse beliscado a menina, ou coisa parecida.
- Ela queria a mãe - respondeu Dylan.
Tyler não era a maior das ajudas, mas era melhor do que nada.
- Ah - o irmão caçula disse, voltando a pegar a lata de cerveja, e dando um gole.
- É, ah - Dylan disse, irritado.
- Ainda acho que deveríamos levá-la ao médico.
- Puxa, toda essa preocupação. É quase como ter um irmão.
Tyler franziu a testa, zangado.
- Vou até a cidade comprar aspirina infantil - ele disse. - Quando estiver lá, perguntarei ao farmacêutico se ele acha que Bonnie precisa de atenção médica.
Contra a própria vontade, apesar de tudo que havia acontecido entre ele e Tyler ao longo dos anos, Dylan sentiu um súbito alívio, e algo muito parecido com afeição. Estava engolindo em seco, quando Tyler, seguindo para a porta, prosseguiu:
- Eu já volto.
Poucos instantes depois, Dylan escutou o veículo do irmão dando a partida lá fora.
Ele voltou a dar uma olhada em Bonnie. Apesar de poder ter jurado que ela, de fato, estava com febre, achou melhor ficar andando de um lado para o outro na sala, de modo a não lhe incomodar o sono.
Quando Tyler voltou, 45 minutos mais tarde, trouxe a aspirina infantil, xarope contra tosse, um bichinho de pelúcia de origem indeterminada e um termômetro digital.
- Se isto aqui marcar mais de trinta e oito e meio, de acordo com o farmacêutico, Bonnie deve ser levada para o pronto-socorro.
Dylan franziu a testa, examinando o estranho bastão de plástico na sua alegre embalagem verde.
- Onde esta coisa... vai?
Tyler riu. Ele representava uma imagem e tanto, de pé ali na cozinha de Dylan, com sua preocupação de tio. O caubói durão, despejando sobre a mesa o cachorrinho de brinquedo, se é que é isso que o bicho era, o frasco de aspirina e um vidro de xarope para tosse infantil.
- Na orelha dela, cérebro de minhoca - disse.
- Ah - Dylan disse, estreitando os olhos para ler as instruções na embalagem.
Tyler tomou a coisa toda de suas mãos.
- Me dê isso aqui - disse em seguida. - Bill, o farmacêutico, me explicou como usar.
- Ótimo - disse Dylan.
- Esbarrei em uma amiga sua enquanto estava na drogaria - comentou Tyler. - Talvez você tenha companhia a qualquer minuto.
- O quê? - exclamou Dylan, ficando irritado de novo.
Tyler sorriu, voltando a vasculhar o interior da sacola da farmácia, retirando um pacote de lenços umedecidos esterilizados. Maldição, ao que parecia, o velho tio Ty havia pensado em tudo.
- A coisa precisa ser esterilizada - ele disse.
- Quem...?
Tyler esfregou bem o termômetro, livrando-se de todos os incômodos germes de Dylan, e foi até Bonnie.
- Trinta e sete - anunciou em tom de voz baixinho porém triunfante, após, com gentileza, enfiar a ponta do termômetro no ouvido direito de Bonnie. - Ela provavelmente está bem.
De súbito, Dylan sentiu-se inexplicavelmente territorial.
Bonnie era sua filha. Deveria ter sido ele a lhe tirar a temperatura.
Como se em resposta direta ao seu pensamento, ela acordou naquele exato instante, olhou ao redor, e, depois, deixou escapar um gritinho agudo, seguido de um melancólico:
- Mammãàããeeee!
- Vejo o que quis dizer - Tyler disse.
Dylan vagamente escutou a batida na porta. Ele tentou pegar Bonnie nos braços, mas ela se debatia como se houvesse sido criada por lobos.
Naquele instante, Kristy entrou no quarto, como uma deusa vingadora, e tomou Bonnie nos braços.
- Pronto, pronto - murmurou, acariciando as costas de Bonnie. Aos poucos, muito aos poucos, o silêncio foi tomando conta do quarto. - Eu estou aqui, minha querida. Eu estou aqui. Tudo vai ficar bem.
Por sobre a cabeça de Bonnie, Kristy lançou um olhar para Dylan do tipo: "O que diabos estava fazendo com ela?"
- Ela estava sem areia para a caixinha do gato - explicou Tyler.
- Ha? - Dylan perguntou, ofendido com o olhar de Kristy, mas, ao mesmo tempo, muito aliviado por ela estar ali.
- Foi por isso que esbarrei com Kristy na drogaria. Ela passou lá para comprar um pouco de areia para a caixinha do gato.
- Podia ter me avisado - rosnou Dylan, depois que Kristy já havia carregado Bonnie para fora do quarto.
- Ah, diabos - Tyler respondeu, presunçosamente. - Aí, não teria tido graça nenhuma.
CAPÍTULO CINCO
Algo aconteceu com Kristy enquanto ela segurava a filha de Dylan, ali na velha casa de rancho, naquela noite de verão quente. Algo sagrado, inexplicável e eterno, o tipo de mudança que acontece uma ou duas vezes na vida, se tanto. A um nível quântico, foi como o encontro e a fusão de dois universos em rota de colisão.
Bonnie também pareceu sentir. Ela olhou para Kristy com os olhos arregalados e surpresos, depois, jogou os bracinhos ao redor do pescoço da moça e se agarrou como se sua vida dependesse disso.
- Mamãe - disse.
Kristy não teve coragem de corrigir a criança. Por sobre a cabeça de Bonnie, seu olhar se encontrou com o de Dylan. Ela viu seu queixo se cerrar e uma tempestade azul brotar em seus olhos.
- Você está com giz na testa - ele disse.
Ainda lidando com o próprio caos interno, Kristy simplesmente o fitou, sem compreender.
- Acho que vou voltar para o chalé - disse Tyler.
Kristy mal escutou, teve apenas a mais vaga das sensações do rapaz deixando a cozinha da casa e saindo para o mundo escuro além da porta, enquanto ela, Dylan e Bonnie permaneciam onde estavam, como os sobreviventes atordoados de um impacto de meteoro. Tão móvel quanto uma estátua de pedra, Kristy nem sequer conseguia engolir, quanto mais falar.
Dylan rompeu o encanto, adiantando-se e estendendo os braços para Bonnie.
Uma resistência visceral de mãe loba tomou conta de Kristy, quase dolorosa de tão intensa, mas Bonnie era a filha de Dylan, não dela. De qualquer modo, ainda era racional o suficiente para saber isso.
De modo que entregou a menininha. Parecia que uma parte vital dela estava sendo arrancada.
Dylan murmurou para a filha, agora adormecendo de encontro ao seu ombro, e a carregou de volta para o quarto. Como se puxada por um cordão umbilical invisível, Kristy os seguiu.
Por um milagre, Bonnie adormeceu quase imediatamente, talvez exausta de tanto gritar.
Kristy, lentamente retornando a um estado que se assemelhava a normalidade, encontrou o banheiro e fitou o próprio reflexo no espelho sobre a pia. Uma grande mancha de giz azul marcava a testa, de quando ela encostara no quadro-negro na sua própria cozinha, mais cedo naquela mesma noite, como a marca de algum primitivo ritual de iniciação.
Ela abriu a torneira de água, enxaguou as mãos e lavou o giz do rosto.
Quando retornou à cozinha, Dylan estava lá, servindo café. Ele parecia exausto e sério.
- Eu estava apenas tentando ajudar - disse Kristy sem se desculpar, lembrando-se da expressão do rosto dele quando estendera as mãos para pegar Bonnie, há poucos minutos.
Ele sorriu debilmente, erguendo a caneca de café em um brinde pouco entusiasmado.
- Eu sei - disse, com a voz rouca. - E agradeço.
Kristy estava louca para perguntar se ele sentira o mesmo que ela, quando estava segurando Bonnie nos braços, mas não ousou fazê-lo. Por que ele haveria de ter sentido alguma coisa, parado a vários metros de distância?
- Você pareceu muito zangado - ela arriscou, após vários instantes reunindo coragem. - Quando Bonnie me chamou de mamãe.
- Não estava zangado - disse Dylan, estendendo uma xícara para Kristy. Estava frustrado, apavorado. - Ao que parece, não sou muito bom nesta coisa de pai.
Kristy viu a vulnerabilidade no olhar e na sua fisionomia, e ficou comovida. Jamais soubera de Dylan Creed ter medo de alguma coisa, ou de duvidar de si mesmo, quanto a nada. Mas uma menininha foi capaz de mudar isso.
- Dê uma chance a si mesmo - ela disse, aceitando o café oferecido. - Ainda é novo nisso.
- Quando ela grita por Sharlene desse jeito - Dylan começou, dando-lhe as costas para fitar a noite escura através da janela acima da pia. - Acaba comigo.
Kristy teve vontade de cruzar o recinto e pousar as mãos nas costas firmes e musculosas de Dylan, mas se conteve. As coisas estavam loucas demais. Sentia-se atordoada e confusa. Estava na beirada de algo monumental e perigoso, e um movimento errado a faria cair no precipício.
Ele virou-se, fitando-a, e ela sentiu outra mudança, quase tão surpreendente quanto a primeira. O que estava acontecendo ali?
Se deixasse a casa, será que encontraria o mundo mudado, as estrelas em lugares diferentes, a lua preenchendo a maior parte do horizonte em vez de mover-se como um pequeno balão sobre o contorno das montanhas?
Parecia alarmantemente possível.
- O que faço, Kristy, na próxima vez em que Bonnie chamar a mãe? E na vez seguinte? O que é pior, o que faço quando Sharlene a quiser de volta?
Ela colocou a caneca de café sobre a mesa e caminhou até Dylan, ignorando aquele algo incendiário que se espalhava pela atmosfera, pronto para explodir ante a menor das fagulhas. Pousando as mãos no antebraço dele, Kristy inclinou a cabeça para lhe fitar o rosto aflito.
- Você consegue fazer isso, Dylan - disse, baixinho. - Está apenas cansado e um pouco sobrecarregado, só isso.
Ela lhe beijou a testa, rápida e gentilmente. Fagulhas!
Apesar do perigo, Kristy encostou a cabeça no ombro de Dylan, envolvendo a cintura esbelta do caubói com os braços, sem apertar. Suspirou, porque era bom demais estar novamente tão perto de Dylan. Ele era maciço e quente, duro e forte, e quando a abraçou, foi como se Kristy houvesse voltado para casa. A cura do que estava quebrado em seu interior, a correção de erros antigos e esquecidos, uma ligeira e doce bênção.
Ela enfim entendeu.
Ainda amava Dylan Creed. Provavelmente, jamais havia deixado de amar.
Ao se dar conta disso, sentiu a garganta se fechar e lágrimas de desespero começarem a lhe arder nos olhos. E, inteiramente fraca, sentindo toda a sua força de vontade evaporar, apoiou-se nele.
Ele a sentiu estremecer e, com o dedo sob o queixo dela, ergueu-lhe o rosto, de modo que Kristy tivesse de fitá-lo.
- Acho que estamos com um tremendo problema aqui - ele murmurou.
- Eu também - retrucou ela. - Eu também.
Ela viu uma variedade de emoções passarem pelo rosto de Dylan, como reflexos na água. Depois, o abraço dele se afrouxou, e ele a segurou um pouco afastada de si, com as mãos em seus ombros.
- Vá para casa, Kristy - disse Dylan. - Se ficar aqui mais tempo, vamos acabar na cama. E não acho que você esteja pronta para isso. Talvez eu também não esteja.
Por mais difícil que pudesse ser, Kristy sabia que ele tinha razão, quanto a tudo. Suas próprias emoções estavam à flor da pele, e qualquer decisão que tomasse naquele estado poderia ter conseqüências extremas.
Sendo assim, mordeu o lábio inferior e assentiu, lentamente.
Antes de partir, queria dar uma última olhada em Bonnie, mas talvez não conseguisse ir embora, se o fizesse. De modo que seguiu para a porta dos fundos, Dylan caminhando atrás dela, e desceu os degraus da varanda. Quase correu na direção da Blazer, que a aguardava no escuro, sua bolsa ainda no banco de trás, junto com a areia para o gato que havia ido comprar, e as chaves ainda penduradas na ignição.
Ela provavelmente havia deixado o motor ligado quando chegou, e Tyler devia ter desligado quando foi embora.
Assim que ela estendeu a mão para abrir a porta do motorista, Dylan a segurou pelo braço, virando-a para si.
E ele a beijou, súbita e profundamente, e com tanta intensidade que ela quase se derreteu. Quando ele terminou, Kristy olhou para cima e para o lado, atordoada demais para fitá-lo nos olhos. Acima de suas cabeças, estrelas pareciam se chocar em indistintas explosões prateadas.
Dylan pousou uma mão em cada uma das faces de Kristy, forçando-a a olhar para ele.
- O... O que foi isso? - ela perguntou abalada, assim que recuperou o fôlego.
- Eu pedi que fosse embora - ele respondeu, a voz rouca como cascalho seco em uma estrada do interior curtida pelo sol. - E foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Ainda acho que é a coisa certa a se fazer, mas isso não significa que seja o que eu quero. Preciso que saiba disso, Kristy.
Por mais complicada que fosse a explicação, Kristy a entendeu, porque era exatamente o que estava sentindo. Ela queria ficar, entregar-se completamente a Dylan, e na manhã seguinte poderia ir para o inferno.
- Você... Você me liga, se Bonnie precisar... A voz na cabeça de Kristy a interrompeu. Se Bonnie precisar de você?
Caia na real, Madison. Você não é a mãe dela, e nada vai mudar isso.
- Eu ligo - prometeu Dylan, bruscamente. - Agora, vá, Kristy. Eu a quero muito, e não vou conseguir me controlar durante muito tempo.
Ao mesmo tempo alegre com as palavras dele e profundamente ciente de que estava pisando em terreno muito perigoso, Kristy sentou atrás do volante da Blazer. Por mais estranho que pudesse parecer, não pôde deixar de notar o vazio do interior impecável do veículo, não havia nenhuma cadeirinha de bebê presa no banco de irás, nenhum brinquedo espalhado pelo chão, nenhum copinho com tampa no console. Nada de listas de compras ou correspondência, nada além da sua bolsa.
Era definitivamente o carro de uma bibliotecária solteirona. Ah, como gostaria da gloriosa bagunça de uma vida movimentada e feliz.
Dylan lentamente fechou a porta, recuou um passo, acenando quando ela olhou para trás mais uma vez antes de seguir com a Blazer para casa.
Não que não gostasse do seu trabalho, ou da enorme tela de pintor que era a sua casa. Antes de Dylan, antes de Bonnie, Kristy havia sido capaz de se convencer de que era o bastante.
Agora, tinha certeza de que não era.
Queria ser esposa e mãe, assim como bibliotecária. Droga, ela queria ter uma vida sexual.
Dirigindo através da noite escura, Kristy baixou o vidro da janela.
Não estava preparada para voltar para a cidade, muito embora soubesse que Winston esperava por ela. De modo que fez a volta conhecida, quando alcançou a caixa postal vermelha tombada com o nome Madison desbotado, a ponto de ser quase invisível, escrito na lateral. Ela sacolejou pela esburacada estrada de acesso, inspirando profundamente quando os faróis iluminaram a velha casa, há muito abandonada, na qual ela crescera.
O celeiro enfim havia tombado sobre si mesmo, e o pátio e os canteiros, outrora o orgulho de sua mãe, estavam cobertos de ervas daninhas.
O sentimento de perda acometeu Kristy com força total, de maneira tão recente como se esta houvesse acabado de acontecer.
Ela passou pela casa, sacolejando pelo pasto, seguindo na direção de um agrupamento de árvores onde Sugarfoot e, talvez, a vítima de um assassinato estavam enterrados.
A mais tênue das lembranças perturbara sua mente, trancada a sete chaves, porém, lutando para se libertar.
Será que ela vira alguma coisa, escutara alguma coisa, naquela noite tão distante?
O pensamento lhe embrulhou o estômago, e uma enxaqueca ameaçou começar. Ela inspirou profundamente, até sentir aliviar a sensação agourenta.
Desligando a Blazer, ficou sentada por alguns instantes com os olhos fechados, tentando se recordar. Tentando não fazê-lo.
A velha casa era pequena. Se tivesse acontecido um desentendimento entre o pai e aquele andarilho, como ela poderia ter deixado de saber? Como a mãe poderia ter deixado de saber?
Ainda assim, nada lhe veio à cabeça.
Ela desceu do carro, caminhando na direção da cova de Sugarfoot.
Era um caminho que fizera com freqüência durante os últimos anos, nas mais variadas horas do dia ou da noite. Ela não deixou de se dar conta de que raramente visitava os túmulos dos pais, exceto nos aniversários de cada um, no Dia de Finados, e, às vezes, durante a semana do Natal.
Já aceitara a morte deles, pelo menos, conscientemente. Sabia que as almas de Tim e Louise Madison não podiam ser contidas em um caixão. Mas com Sugarfoot era diferente. Era como se não apenas o seu cavalo, mas toda a sua vida estivesse enterrada ali. Todos os seus sonhos, suas esperanças, toda a sua fé em que as coisas poderiam mudar para melhor.
O xerife Book, ela logo descobriu, já havia estado ali. A cova em si não parecia ter sido perturbada, mas o monte de terra estava cercado por fita amarela, suportada por alguns gravetos fincados no chão.
Realmente aconteceria, ela percebeu, atordoada.
Escavariam a cova de Sugarfoot.
E encontrariam um corpo humano.
Kristy levou a mão à boca, receando estar prestes a vomitar. Não entendia como sabia que as suspeitas do xerife Book estavam corretas, mas sabia.
Ela inspirou fundo várias vezes até a náusea melhorar.
Seus olhos estavam secos. Lágrimas não conseguiriam amenizar a certeza que lhe perfurava a alma.
- Sinto muito, Sugarfoot - sussurrou, antes de virar-se para ir embora. - Eu sinto muito.
Ela voltou para a Blazer, seguindo para Stillwater Springs, sem olhar para a casa velha ao passar por ela. Ao chegar em casa, acariciou o descontente Winston e colocou a areia fresca no caixote dele.
Ela tomou uma demorada ducha quente e vestiu uma de suas enormes camisetas, como costumava fazer todas as noites.
Subiu na sua cama enorme e profundamente vazia, pretendendo ler um pouco, na esperança de acalmar o cérebro agitado, mas as palavras recusavam-se a ficar paradas nas páginas.
Inclinando-se, Kristy apagou o abajur.
Winston saltou para a cama, aconchegando-se ao lado dela.
Conforto felino.
Ela sorriu ante a devoção do animal, acariciando-lhe as costas sedosas com uma das mãos.
Dormir, provavelmente, estava fora de cogitação, mas tinha de tentar. Precisaria abrir a biblioteca pontualmente às nove, na manhã seguinte, independente do que quer que estivesse acontecendo em sua vida.
Porém, o sono acabou vindo e, quando veio, a pegou de surpresa, sufocante e pesado.
Estava escuro e silencioso, do modo como apenas a noite no interior era capaz de ser, exceto pelas batidas fortes do seu coração e a respiração estranha e acelerada do homem de pé ao lado de sua cama. Embora estivesse de olhos bem fechados, a única defesa real de uma criança contra os monstros que se esgueiravam para fora do armário, ela podia sentir o olhar dele sobre si.
Papai!, Gritou, silenciosamente. Papai, me ajude!
E a porta do seu quarto se abriu estrondosamente.
Houve uma briga violenta, palavrões foram proferidos com vozes alteradas.
Kristy só abriu os olhos após escutar a voz da mãe, que a apertou de encontro ao peito macio.
- Ele a machucou, Kristy? Você está bem?
Os barulhos horrendos, agora, vinham de mais longe, da cozinha escura.
A porta dos fundos se abriu com um ranger alto e bateu contra a parede da varanda.
Mais palavrões, pesados e violentos.
Apavorada, Kristy agarrou-se à mãe.
Eles estavam lutando, seu pai e o homem.
Quando é que iriam parar?
E se seu pai se machucasse?
Foi então que escutou o ruído ensurdecedor.
A carabina que o pai guardava na prateleira mais alta da despensa. Como menina do interior, Kristy foi capaz de reconhecer o som.
A mãe de Kristy soltou um grito, um berro agudo e trêmulo de medo.
O som puxou Kristy, tremendo, de volta para a superfície da consciência. Ela correu para o banheiro e vomitou no vaso sanitário, até não haver mais nada para botar para fora.
Esperou até o dia raiar para ligar para o xerife Book.
- Sei o que aconteceu - disse, sem emoção, quando ele atendeu o telefone de sua casa com um sonolento alô.
- Kristy? - Floyd perguntou. - É você?
- Sei o que aconteceu - ela repetiu.
- Você está bem?
Ela sacudiu a cabeça e se deu conta de que ele não podia vê-la.
- Não - disse.
Menos de 15 minutos mais tarde, Floyd estava batendo na sua porta dos fundos, usando roupas civis, de aparência amarrotada. Ela não tinha trocado a camiseta, mas, em nome do decoro, havia colocado um sutiã e vestido calças de moletom.
Kristy teve uma estranha sensação de não estar no próprio corpo ao descrever seu sonho para o xerife, de pé ali na cozinha, com as paredes amarelas recém-pintadas e os primeiros raios de sol entrando pelas janelas.
Esta deve ser a sensação de estar fora de si, pensou distraidamente.
- Achei que devia ter sido algo do gênero - disse Floyd, quando ela terminou.
Em algum momento, ele deve tê-la ajudado a se sentar, pois Kristy ficou surpresa de se ver sentada, em vez de em pé, e não tinha nenhuma lembrança de ter feito a transição.
- E agora? - perguntou, mal reconhecendo a própria voz. - O que acontece agora?
Floyd suspirou. Puxou uma cadeira e sentou-se diante dela, do outro lado da mesa.
- Escavaremos hoje mesmo - disse baixinho. - Depois, o legista levará o corpo, caso haja mesmo um corpo, para ser examinado em busca de evidências. Provavelmente haverá jornalistas pela cidade, fazendo perguntas e tirando fotos. Não vou mentir para você, Kristy, por algum tempo não vai ser fácil. - Ele se interrompeu, corando, desviando o olhar por um instante, antes de voltar a fitá-la. - Mas as coisas melhorarão com o tempo, até voltarem ao normal.
- E meu pai será lembrado como um assassino.
- Tim Madison será lembrado como um homem protegendo a filha e a esposa - o xerife argumentou, com firmeza. - Mesmo que houvesse confessado a coisa toda, Kristy, ele jamais teria sido condenado.
- Foi isso que lhes causou câncer, sabe - Kristy ouviu-se dizer, sua voz atropelando as palavras de Floyd como um rio em câmera lenta. - Mamãe e papai, é claro. Saber o que realmente aconteceu naquela noite. Guardar o segredo. Eles devem ter tido tanto medo...
O xerife Book estendeu a mão, apertando a dela.
- Não há como saber disso - disse, gentilmente. Após longa pausa, perguntou: - Ele a machucou, querida? O andarilho?
Ela sacudiu a cabeça. Havia tantas coisas das quais não tinha certeza, mas, quanto a isso, não tinha dúvidas. Ela devia ter gritado pelo pai naquela noite, e não apenas no silêncio apavorado de seus pensamentos. Ele chegara a tempo.
- Não - disse, mas estremeceu friamente, dando-se conta da extensão do perigo no qual estivera.
- Quer que eu chame Dylan? - Floyd perguntou.
Kristy o fitou brevemente. Apagara o número do celular de Dylan do quadro-negro. Por que o nome dele foi passar pela cabeça de Floyd?
Floyd sorriu, evidentemente lendo seus pensamentos pela expressão do rosto dela.
- Vi a caminhonete dele parada aqui em frente, ontem à noite - explicou. - Enquanto fazia minha ronda.
- Não chame Dylan - ela disse. - Estou bem.
- Tem certeza? Não está com uma cara muito boa, se é que não se importa de eu dizer.
- Tenho de abrir a biblioteca às nove - disse ela.
- Que se dane a biblioteca! A história não vai parar se ela ficar fechada por um ou dois dias.
Ele não entendia. Ela não podia simplesmente fechar as cortinas e aguardar que o céu lhe caísse sobre a cabeça, que os repórteres lhe batessem à porta e o telefone tocasse sem parar com trotes e pedidos de entrevistas. Tinha de seguir em frente, continuar se ocupando, ou enlouqueceria por completo.
- Vou ficar bem - insistiu, sem muita convicção, aparentemente para convencer o xerife Floyd Book.
Ele inclinou-se em sua cadeira, estudando-lhe os olhos preocupados.
- Isto pode ficar difícil antes de terminar, Kristy. Por que não deixa a cidade por uma semana ou duas, ou, até mesmo, por um mês? Desapareça até que o pior tenha passado.
Não estava acostumada a fugir das coisas. Tim e Louise Madison não a haviam criado dessa forma. E Stillwater Springs era o seu lar, o olho da tempestade que estava chegando, é verdade, mas também o lugar onde ela precisava estar para melhor suportá-la.
E ela a suportaria, ou morreria tentando.
A MOBÍLIA do quarto de Bonnie foi entregue logo de manhã cedinho e, tendo passado a noite insone, Dylan se viu resmungando um bocado ao arrumar as coisas.
Bonnie, por outro lado, havia dormido como um anjo da mais pura inocência e, como resultado, estava com o diabo no corpo. Enquanto ele apertava o último parafuso na armação da cama, ela deu um jeito de derrubar o colchão que estava apoiado na parede e, na mesma hora, começou a pular sobre ele.
- Bonnie - disse Dylan.
Ela o ignorou. Uma criança cheia de saúde, subitamente havia ficado surda.
- Bonnie.
Ela o encarou, seus olhos travessos e arregalados.
- História - disse.
- História?
De onde tinha vindo isso?
Bastou pensar um pouco para descobrir. Bonnie havia se encantado com Kristy, e a associara à visita à biblioteca. Daí: história.
- Não temos nenhum livro - ele disse.
- História! - insistiu Bonnie, pulando com mais força e mais alto.
É claro que ela queria Kristy, e não mais um capítulo de Nancy Drew.
- A não ser que queira escutar um artigo da Western Horseman, está sem sorte. - Ele havia encontrado uma pilha mofada da revista favorita do tio numa prateleira no porão, e era tudo que tinha à mão para ler. - E pare de pular... agora.
Bonnie permitiu-se mais um pulo, depois aterrissou no meio do colchão, rindo, como uma criança selvagem. Se ela já era assim aos 2 anos, como seria aos 16?
Era melhor nem pensar nisso.
O celular de Dylan tocou no seu bolso, e ele o atendeu sem olhar o identificador de chamadas.
- Alô?
- D-Dylan?
Sharlene. E estava chorando.
Ele passou o unicórnio rosa para Bonnie, torcendo para que isso a mantivesse ocupada, e caminhou tranqüilamente para a cozinha. Seu coração estava na boca.
- O que quer? - indagou, apoiando-se com uma das mãos na bancada.
Podia escutar Bonnie pulando novamente no colchão.
- Cometi um erro - balbuciou Sharlene. - Quero Aurora de volta.
Dylan fechou os olhos. Receara este momento, sabendo que ele estava vindo, mas, ainda assim, não estava preparado para ele.
- Eu a chamo de Bonnie - disse, calmamente. - E ela vai ficar comigo.
- Clint disse que me levaria para buscá-la, desde o Texas. Tem de devolvê-la para mim, Dylan. Não posso viver sem... Bonnie.
Clint, é claro, era o namorado. Certamente durara mais do que seus antecessores, embora, até onde Dylan soubesse, pudesse ter havido uma troca de guarda no curto período de tempo desde que Sharlene abandonara Bonnie em Vegas.
- Deveria ter pensado nisso antes de abandoná-la na minha caminhonete, Sharlene - Dylan disse.
Os pulos haviam parado. De soslaio, ele pôde ver Bonnie no vão da porta, observando-o, com o lábio inferior fazendo um beicinho. Depois, começou a chupar o polegar.
- Você não sabe como foi - Sharlene argumentou, lamentosamente. - Perdi todo o meu dinheiro nos caça-níqueis e Clint ficou furioso comigo, e eu sabia que você tomaria conta de...
- Bonnie - Dylan completou, severamente. - Olhe, nós não vamos falar sobre isso agora. Tem boi na linha, entendeu?!
- Pelo menos, me diga que ela está bem.
Dylan ficou furioso. Toda esta preocupação vinda de uma mulher que abandonara, durante a noite, a filha de 2 anos de idade para se virar sozinha em um estacionamento atrás de um dos piores bares de Las Vegas.
- Ela está bem - disse.
Bonnie tirou o dedo da boca apenas tempo o suficiente para dizer, aflitamente:
- História.
Tradução: Kristy. Eu quero Kristy.
- Se não pudermos conversar agora, conversaremos em alguns dias - Sharlene continuou, muito confiante, para alguém que provavelmente teria dificuldades para arrumar dinheiro para cruzar os estados que separavam o Texas de Montana, mesmo de ônibus. - Sei que está em Stillwater Springs, Dylan. E estamos a caminho, Clint e eu.
Descobrir onde ele estava não devia ter exigido um grande intelecto. Ele falara um bocado de sua cidade natal, dos irmãos e do rancho quando os dois estavam juntos. Talvez Sharlene fosse mais esperta do que ele supusera. De algum modo, ela advinhara que ele lutaria para ficar com Bonnie, faria qualquer coisa para protegê-la.
Ela queria alguma coisa.
Mais especificamente, dinheiro.
Ele detestava se deixar enrolar, mas detestaria ainda mais perder a filha.
- Diga logo, Sharlene - disse.
- Se tivéssemos alguns milhares para nos ajeitarmos, até Clint acertar com uma das companhias de petróleo...
- Vocês fariam o quê?
- Poderíamos alugar uma casa. Nos estabelecermos e tudo mais. Depois, em alguns meses, traríamos Bonnie para casa...
Bonnie está em casa, Dylan pensou. E de modo algum deixaria Sharlene levar sua filhinha para o Texas, para morar sob o mesmo teto que esse idiota do Clint, fosse ele lá quem fosse. O que aconteceria com a menina da próxima vez que Sharlene torrasse a sua pensão alimentícia e decidisse que não podia tomar conta de Bonnie?
- Quanto, Sharlene?
Se Bonnie havia se dado conta de com quem ele estava falando, não deu sinal. Apenas o observava, sugando com força o polegar.
Ele escutou enquanto Sharlene consultava o namorado, a voz abafada. Ela provavelmente havia coberto o bocal com a mão.
- Três mil - disse, por fim. - Eu lhe darei o número da conta para o qual poderá transferir o dinheiro. Antes do fim do dia, Dylan.
- E, em troca, eu ganho...
- Mais alguns meses com Bonnie.
A sem-vergonha depravada estava disposta a vender dois ou três meses da vida da filha. Dado o histórico de Sharlene, ele não devia ter ficado surpreso, mas ficou.
- Tudo bem - disse, após um longo instante lutando para manter o controle. Ele encontrou um papel e um envelope velho numa das gavetas da cozinha. - Pode me dar a informação.
Ela o fez, sua voz doce e melódica, agora que conseguira o que queria.
- Antes do fim do dia - repetiu, a título de despedida. E bateu o telefone na cara dele.
Ele pegou Bonnie no colo e os dois seguiram para a cidade.
A primeira coisa que fez foi transferir o dinheiro para Sharlene.
Não que os três mil dólares fossem lhe fazer falta. Não passavam de trocados quando comparados às ações que tinha da empresa de Logan, e ganharia tempo para entrar com o pedido de custódia plena. Apesar de tudo isso, ceder ao que não passava da mais pura extorsão era algo muito duro de engolir.
Assim que fez a transferência, acabou seguindo na direção da biblioteca.
Precisava estar perto de Kristy mesmo que apenas por um tempinho e, além do mais, Bonnie não parava de repetir "História".
Kristy estava atrás da mesa da recepção, quando entraram. Ela ergueu na mesma hora a cabeça, como se um alarme houvesse disparado, ou coisa parecida.
Embora estivesse claramente tentando fingir que estava tudo bem para os freqüentadores da biblioteca, Kristy parecia ter sido atropelada por um caminhão. Com inquietante clareza, Dylan foi capaz de enxergar através da encenação dela.
- Acho que precisamos de uns livros - disse, de modo pouco convincente, ao chegar à mesa da recepção. - Bonnie fica insistindo que quer história.
Havia profundas olheiras no rosto de Kristy e ela parecia abatida, como se houvesse perdido 5kg de um dia para o outro. Com pesar, Dylan lembrou-se que as autoridades estavam prestes a revirar o túmulo de seu cavalo, onde esperavam encontrar o corpo de um homem que o pai dela supostamente havia assassinado.
Ele estivera tão envolvido com os próprios problemas, o telefonema de Sharlene no topo da lista, que quase se esquecera daquilo que Kristy estava enfrentando.
- Acho que posso ajudá-lo com isso - ela disse, com uma alegria enfática.
Contudo, as palavras soaram vazias e forçadas.
Ela contornou a mesa piscando para Bonnie, que estava agarrada ao pescoço de Dylan como uma trepadeira, e os conduziu na direção da seção das crianças. Ela selecionou George o curioso. Lua da boa noite e Todo mundo faz popô.
Dylan olhou duas vezes para o último.
Kristy sorriu ligeiramente.
- Bem - disse -, é verdade, você não sabe?
- Não vou ler esse em voz alta - disse Dylan, sentindo-se enrubescer. - De qualquer modo, Bonnie já tira isso de letra. Pode confiar.
- Covarde - respondeu Kristy. - Não se trata de saber como fazer. Trata-se de ficar à vontade com as funções normais do corpo.
Por que ele simplesmente não ficara na caminhonete? Seguido para Missoula, ou algum outro lugar, onde tinham livrarias de verdade, e comprado para a menina uma pilha de histórias alegres que ele não se envergonharia de ler?
Decididamente, ela levou as três escolhas até a mesa, onde as pousou para registrar suas saídas.
- Bem, o que posso fazer por você.
Então era isso. Ela se recordava de sua dislexia, e provavelmente achava que ele era iletrado e que precisava de toda a prática que pudesse conseguir.
Dylan ficou ao mesmo tempo comovido e ofendido.
Ele inclinou-se à frente, sussurrando em sua orelha exatamente o que ela poderia fazer por ele, e se divertindo com o tom rosado que se espalhou pelas faces de Kristy. Pelo menos isso lhe deu um pouco de cor. Antes, estava pálida como leite.
- Dylan Creed - balbuciou, lançando olhares nervosos ao redor, como se preocupada que um dos frequentadores da biblioteca pudesse ter escutado. - Eu estava lhe oferecendo um livro.
Ele simplesmente sorriu. Com o braço livre, gesticulou para que ela percorresse as prateleiras e lhe encontrasse um volume. Bonnie estava encaixada na dobra do outro braço, remexendo-se, querendo ir brincar perto do poste de totens com um bando de outras criancinhas.
- Está na hora da história? - ele perguntou, colocando Bonnie no chão, para que ela pudesse se juntar às outras crianças.
- Não - Kristy disse. - As mães estão todas no cabeleireiro, ou no dentista, ou fazendo compras.
Ela caminhou decidida na direção das estantes, e Dylan a seguiu. Chegando à seção do M, ela pegou Lonesome Dove, de Larry McMurtry.
- Eu já li - Dylan disse. - Cinco vezes. Nem tive de mover os lábios. Quer me fazer algumas perguntas quanto à história?
A irritação brilhou nos olhos dela, rapidamente seguida de mágoa.
- Você pode ter assistido à minissérie - disse.
- Também assisti - admitiu Dylan, assentindo na direção do livro nas mãos dela. - Ele começa com dois porcos tentando matar uma cobra. Não me recordo se o mesmo acontecia na versão para a TV.
Kristy olhou para ambos os lados.
- Preciso falar com você. Em particular. Dylan deu-se conta de que, desde que entrara na biblioteca e avistara o rosto de Kristy, vinha esperando aquilo.
- A que horas você larga o trabalho? - perguntou, observando Bonnie de soslaio, perguntando-se se passaria o restante de sua vida com medo de alguém levá-la quando ele não estivesse olhando.
- Às cinco. Susan vai me cobrir.
- Comprarei alguns bifes e jantaremos lá em casa, então - retrucou ele. - Assim que Bonnie dormir, conversaremos.
Ela pareceu hesitante, depois assentiu.
Posso levar alguma coisa? Ele sacudiu a cabeça. Era apenas um jantar, não uma noite de pura diversão sob os lençóis, mas estava empolgado com a idéia.
- Tenho de levar alguma coisa - ela repetiu. Dylan não se deu ao trabalho de protestar novamente. Era o que o pessoal do interior costumava fazer, quando era convidado para jantar na casa de outras pessoas. Eles apareciam com uma fôrma de bolo coberta com alumínio, ou uma salada em vasilha plástica tampada. Ele estava longe há tempo demais.
- Neste caso, traga o que quiser - disse. Depois disso, trataram apenas de negócios. Ele requisitou um cartão de biblioteca, o primeiro que já tivera na vida, e retirou os livros para Bonnie, incluindo aquele sobre popô.
Bonnie não queria ir embora, mas sorriu de orelha à orelha ao ver os livros.
- História - disse.
- História - Dylan confirmou.
A próxima parada foi na seção de alimentos do Wal-Mart. A mercearia local havia fechado há muito tempo e Dylan sentia falta do lugar, apesar de já ter sido pego roubando um pacote de chicletes lá, aos 7 anos de idade, e Jake ter lhe dado uma coca até chegarem à caminhonete.
Ele pegou os filés e as batatas para assar, coisas para a salada e alguns temperos. Também comprou leite para o copinho de Bonnie, e um frango assado para o almoço.
Assim que pagou por tudo em um dos caixas, ele colocou Bonnie e as compras na caminhonete e seguiu para casa, preferindo tomar um caminho diferente, simplesmente porque tinham tempo. E foi assim que Dylan se viu com o cavalo.