Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Divórcio, Renascimento e Doce Sucesso
Divórcio, Renascimento e Doce Sucesso

Divórcio, Renascimento e Doce Sucesso

Autor:: Wu Shi Xian
Gênero: Romance
A última coisa de que me lembro foi a dor ofuscante atrás dos meus olhos, e depois a escuridão. Quando os abri novamente, eu estava de volta na minha cama, vinte e cinco anos mais jovem, antes de minha vida se tornar um casamento de fachada com Augusto Sampaio, um Senador da República que me via apenas como um troféu político. Uma memória dolorosa veio à tona: minha morte por um aneurisma, causado por anos de uma tristeza silenciosa. Eu tinha visto uma foto de Augusto, sua namorada da faculdade, Helena, e nosso filho, Caio, em um retiro de família, parecendo a família perfeita. Fui eu quem tirou a foto. Saltei da cama, sabendo que aquele era o dia daquele retiro. Corri para o aeródromo particular, desesperada para impedi-los. Eu os vi lá, banhados pela luz da manhã: Augusto, Caio e Helena, parecendo uma família perfeita e feliz. - Augusto! - gritei, minha voz rouca. O sorriso dele desapareceu. - Carolina, o que você está fazendo aqui? Pare com esse escândalo. Ignorei-o, confrontando Helena. - Quem é você? E por que está indo na viagem da minha família? Caio então se chocou contra mim, gritando: - Vai embora! Você está estragando nossa viagem com a tia Helena! - Ele debochou. - Porque você é uma chata. A tia Helena é inteligente e divertida. Diferente de você. Augusto sibilou: - Olha o que você fez. Você chateou a Helena. Você está me envergonhando. Suas palavras me esmagaram de uma forma que nenhum soco conseguiria. Eu passei anos sacrificando meus sonhos para ser a esposa e mãe perfeita, apenas para ser vista como uma serviçal, um obstáculo. - Vamos nos divorciar - eu disse, minha voz um trovão silencioso. Augusto e Caio congelaram, depois zombaram. - Você está tentando chamar minha atenção, Carolina? Isso é um novo nível de patético. Caminhei até a escrivaninha, peguei os papéis do divórcio e assinei meu nome com a mão firme. Desta vez, eu estava escolhendo a mim mesma.

Capítulo 1

A última coisa de que me lembro foi a dor ofuscante atrás dos meus olhos, e depois a escuridão. Quando os abri novamente, eu estava de volta na minha cama, vinte e cinco anos mais jovem, antes de minha vida se tornar um casamento de fachada com Augusto Sampaio, um Senador da República que me via apenas como um troféu político.

Uma memória dolorosa veio à tona: minha morte por um aneurisma, causado por anos de uma tristeza silenciosa. Eu tinha visto uma foto de Augusto, sua namorada da faculdade, Helena, e nosso filho, Caio, em um retiro de família, parecendo a família perfeita. Fui eu quem tirou a foto.

Saltei da cama, sabendo que aquele era o dia daquele retiro. Corri para o aeródromo particular, desesperada para impedi-los. Eu os vi lá, banhados pela luz da manhã: Augusto, Caio e Helena, parecendo uma família perfeita e feliz.

- Augusto! - gritei, minha voz rouca. O sorriso dele desapareceu. - Carolina, o que você está fazendo aqui? Pare com esse escândalo.

Ignorei-o, confrontando Helena.

- Quem é você? E por que está indo na viagem da minha família?

Caio então se chocou contra mim, gritando:

- Vai embora! Você está estragando nossa viagem com a tia Helena! - Ele debochou. - Porque você é uma chata. A tia Helena é inteligente e divertida. Diferente de você.

Augusto sibilou:

- Olha o que você fez. Você chateou a Helena. Você está me envergonhando.

Suas palavras me esmagaram de uma forma que nenhum soco conseguiria. Eu passei anos sacrificando meus sonhos para ser a esposa e mãe perfeita, apenas para ser vista como uma serviçal, um obstáculo.

- Vamos nos divorciar - eu disse, minha voz um trovão silencioso.

Augusto e Caio congelaram, depois zombaram.

- Você está tentando chamar minha atenção, Carolina? Isso é um novo nível de patético.

Caminhei até a escrivaninha, peguei os papéis do divórcio e assinei meu nome com a mão firme. Desta vez, eu estava escolhendo a mim mesma.

Capítulo 1

A última coisa de que me lembro foi a dor aguda e ofuscante atrás dos meus olhos. Depois, a escuridão.

Quando os abri novamente, eu estava encarando o dossel de seda familiar da minha cama. O sol da manhã entrava pela janela, do mesmo jeito que fez nos últimos vinte e cinco anos.

Minha cabeça não doía. Meu corpo parecia leve, até mesmo jovem. Olhei para minhas mãos. Estavam lisas, sem as manchas de idade que haviam começado a aparecer.

Uma memória dolorosa veio à tona. Minha vida, todos os vinte e cinco anos dela, se desenrolou em minha mente. Um casamento de fachada com Augusto Sampaio, um ambicioso Senador da República que me via apenas como um troféu político. Uma esposa perfeita para ficar ao seu lado, organizar sua casa e criar seu filho.

Ele nunca me amou. Seu coração pertencia à sua namorada da faculdade, Helena Castro. Por vinte e cinco anos, eles mantiveram um caso emocional bem debaixo do meu nariz. Todos sabiam. Nossos amigos, sua equipe, até mesmo nosso filho, Caio. Todos, menos eu.

Augusto nunca se casou com Helena. Ele dizia às pessoas que era porque ter uma lobista poderosa como esposa pegaria mal para sua carreira política. A verdade era mais simples. Ele precisava de uma esposa que fosse uma serviçal de luxo, alguém para gerenciar sua vida para que ele pudesse focar em sua ambição e em seu "único e verdadeiro amor". Eu fui essa tola conveniente. Helena era sua parceira; eu era a empregada.

Minha morte foi tão solitária quanto minha vida. Eu vi uma foto de Augusto, Helena e nosso filho Caio em um retiro de família. Eles pareciam a família perfeita. Fui eu quem tirou a foto.

O estresse, os anos de uma tristeza silenciosa, tudo culminou em um aneurisma fatal.

Enquanto eu morria, ouvi meu próprio filho, Caio, gritar com a governanta:

- Por que ela está fazendo essa bagunça no chão? Que vergonha.

Agora, eu estava de volta. De volta ao começo.

Pulei da cama. Eu conhecia aquele dia. Era o dia do retiro de doadores no sítio particular do senador na Chapada dos Veadeiros. O dia em que eles estavam partindo sem mim. O dia em que tirei aquela foto.

Não perdi um segundo. Vesti um vestido simples e corri para fora de casa, sem nem me preocupar com os sapatos. Eu tinha que impedi-los. Eu tinha que mudar esta vida.

O aeródromo particular estava agitado com funcionários e seguranças. Abri caminho pela multidão, meu coração batendo forte no peito. Procurei por eles freneticamente.

Então eu os vi. Parados ao lado do jato, banhados pela luz da manhã. Augusto, bonito e carismático como sempre, estava ajustando a gola da camisa do nosso filho de oito anos, Caio. Helena Castro estava ao lado deles, a mão apoiada no ombro de Caio, um sorriso gentil no rosto. Eles pareciam tão naturais juntos, uma família perfeita e feliz.

Uma onda de náusea me atingiu. Esta era a cena que me assombrou, a imagem da traição deles.

- Augusto! - gritei, minha voz rouca.

Os três se viraram. O sorriso de Augusto desapareceu quando me viu. Seu rosto se endureceu de irritação.

Ele caminhou em minha direção, sua voz baixa e furiosa.

- Carolina, o que você está fazendo aqui? Pare com esse escândalo.

Ignorei-o e olhei para além dele, para Helena.

- Quem é você? E por que está indo na viagem da minha família?

Helena deu um passo à frente, sua expressão uma máscara de preocupação gentil.

- Carolina, você deve estar confusa. Sou Helena Castro, uma velha amiga de Augusto. Ele me convidou para o retiro.

- Uma velha amiga? - soltei uma risada amarga.

Augusto agarrou meu braço, seu aperto forte.

- Chega, Carolina. Pare com essa palhaçada. Helena é nossa convidada.

De repente, um corpo pequeno se chocou contra mim.

- Vai embora! - Caio gritou, me empurrando com força. - Você está estragando nossa viagem com a tia Helena!

O empurrão me fez cambalear para trás. Meu corpo ficou gelado, um arrepio que não tinha nada a ver com o ar da manhã. Olhei para meu filho, meu próprio filho, me olhando com tanto ódio.

- Esta é uma viagem de família? - perguntei, minha voz trêmula. - Então por que eu não estou nela?

- Porque você é uma chata - Caio debochou. - A tia Helena é inteligente e divertida. Diferente de você.

As pessoas começaram a olhar, cochichando entre si. Os olhos de Helena se encheram de lágrimas, e ela olhou para Augusto com uma expressão magoada.

- Augusto, talvez a culpa seja minha. Eu não deveria ter vindo.

A atuação dela foi perfeita. Augusto e Caio imediatamente se abrandaram, sua raiva se voltando para mim.

- Olha o que você fez - Augusto sibilou. - Você chateou a Helena. Você está me envergonhando.

- Ela está certa, pai. A mamãe é sempre tão vergonhosa - disse Caio, sua voz escorrendo desdém. - Por que você não pode ser mais como a tia Helena?

Suas palavras me devastaram de uma forma que nenhum soco conseguiria. Pensei em todos os anos que passei criando-o, gerenciando a casa, sacrificando meus próprios sonhos e identidade para ser a esposa política e mãe perfeita. Eu cozinhava seus pratos favoritos, ajudava com o dever de casa, organizava suas festas de aniversário. Eu fiz tudo.

E aos olhos deles, eu era apenas uma serviçal. Redundante. Um obstáculo para a família perfeita deles com Helena.

Helena, a mestra da manipulação, interveio novamente.

- Carolina, não fique chateada. Claro que você pode vir conosco. Adoraríamos ter você. - Ela sorriu, mas seus olhos estavam frios.

Seu pedido de desculpas falso só piorou as coisas. Fez-me parecer a irracional.

- Viu? - disse Augusto, seu tom condescendente. - Helena está sendo graciosa. Agora, você vem ou vai continuar com essa cena patética?

A viagem foi um tipo especial de inferno. No avião, Augusto e Caio sentaram-se com Helena, rindo e conversando. Eu sentei sozinha, um fantasma invisível em minha própria vida. Lembrei-me de uma conversa da minha vida passada, Augusto dizendo a um amigo: "Carolina é uma boa esposa. Ela é... prática. Mas Helena, ela entende minha alma."

As palavras ecoavam em minha cabeça, um lembrete constante da minha vida desperdiçada.

Quando chegamos ao sítio, os pais de Augusto estavam lá. Seus rostos se fecharam ao me ver. Eles adoravam Helena, sempre a tratando como sua verdadeira nora.

Durante todo o fim de semana, fui ignorada. Eles elogiavam a inteligência de Helena, suas percepções políticas, sua elegância. Agiam como se eu nem estivesse ali.

Na manhã final, todos se reuniram no mirante para uma foto em grupo.

- Mãe, vem tirar uma foto pra gente! - Caio chamou, me acenando. Ele me empurrou para longe quando tentei ficar ao lado de Augusto. - Não, você não na foto. Você tira.

Meu sangue gelou. Estava acontecendo de novo. O exato mesmo momento.

Olhei para eles, posando juntos contra o deslumbrante cenário da chapada. Augusto com o braço em volta de Helena, Caio encostado nela, todos os três sorrindo para a câmera. A família perfeita.

Minhas mãos tremiam enquanto eu levantava a câmera. Vi a imagem através do visor, a imagem que literalmente me matou. Vi a vida que perdi, o amor que nunca tive, a família que nunca foi minha.

Lágrimas embaçaram minha visão, mas eu as forcei a voltar. Pressionei o botão do obturador. Clique. O som foi ensurdecedor no ar silencioso da montanha.

Na descida da serra, Augusto nem mesmo esperou por mim. Ele e Caio caminharam à frente com Helena, suas risadas ecoando em minha direção. Eu caminhei sozinha, meu corpo e alma exaustos.

Quando voltamos para nossa casa no Lago Sul, em Brasília, o abuso continuou.

- Carolina, pegue meus sapatos - ordenou Augusto, largando sua mala no chão.

- Mãe, estou com fome. Faça um lanche para mim - exigiu Caio, sem nem olhar para mim.

Algo dentro de mim se partiu. A raiva e a dor de duas vidas, de vinte e cinco anos sendo tratada como lixo, transbordaram.

Eu estava parada no meio do grande hall de entrada, cercada pela vida que construí para eles, uma vida onde eu não tinha lugar.

Olhei para meu marido e meu filho. Minha voz era baixa, quase um sussurro, mas caiu como um trovão na sala silenciosa.

- Vamos nos divorciar.

Augusto e Caio congelaram. Eles me encararam, seus rostos uma mistura de choque e incredulidade.

Augusto se recuperou primeiro. Ele deu um passo ameaçador em minha direção, seus olhos se estreitando.

- O que você acabou de dizer?

Encarei seu olhar, o meu calmo e firme.

- Eu disse, vamos nos divorciar, Augusto.

Ele zombou, um olhar de desprezo no rosto.

- Você está tentando chamar minha atenção, Carolina? Isso é um novo nível de patético, mesmo para você.

Caio interveio, imitando o sorriso de seu pai.

- É, mãe. O pai está prestes a concorrer à presidência. Você acha que ele vai deixar você estragar tudo? Vou te dar uma chance de retirar o que disse.

Olhei para seus rostos arrogantes, tão certos de seu poder sobre mim. Um sorriso frio tocou meus lábios. Caminhei até a escrivaninha onde Augusto guardava seus documentos legais, peguei os papéis do divórcio que seu advogado havia redigido anos atrás como um "plano de contingência" e assinei meu nome com a mão firme.

Eu não precisava mais deles. Desta vez, eu estava escolhendo a mim mesma.

Capítulo 2

Augusto e Caio encararam o papel assinado sobre a mesa, suas bocas ligeiramente abertas. A confiança que tinham momentos atrás desapareceu, substituída por um lampejo de choque.

Virei-me para o advogado da família, que estava presente para algum outro assunto.

- Qual é o prazo de reflexão obrigatório para um divórcio neste estado?

O advogado, atrapalhado, ajeitou os óculos.

- Trinta dias, Sra. Sampaio. Mas a senhora pode retirar o pedido a qualquer momento durante esse período.

Augusto e Caio soltaram um pequeno suspiro de alívio. As palavras do advogado pareceram restaurar sua arrogância. Claro, ela vai retirar. Ela sempre retira.

A postura do meu marido se endireitou, e o olhar familiar e condescendente voltou ao seu rosto.

- Trinta dias, Carolina. Vou te dar trinta dias para você cair em si.

Caio sorriu.

- Você só está blefando, mãe. Você vai voltar rastejando em uma semana, implorando para o pai te perdoar.

As palavras foram feitas para machucar, e machucaram. Uma parte de mim, a parte que os amou por tanto tempo, sentiu uma dor surda. Mas mantive meu rosto uma máscara calma.

- Trinta dias - repeti suavemente. - No momento em que acabar, eu vou embora.

Augusto soltou uma risada fria.

- Veremos.

Ele se aproximou, o cheiro de seu perfume caro, um cheiro que uma vez achei inebriante, agora apenas cheirava a engano.

- Estou curioso para ver por quanto tempo você consegue manter isso.

Seu telefone vibrou, cortando a tensão. Ele olhou para a tela, e o canto de sua boca se ergueu em um sorriso verdadeiro. Era um sorriso que eu não via direcionado a mim há anos. Era para Helena.

Ele atendeu a chamada, sua voz instantaneamente quente.

- Helena? O que houve? Sua voz parece fraca.

A cabeça de Caio se ergueu.

- A tia Helena está doente? - ele perguntou, sua voz cheia de preocupação genuína.

Augusto assentiu, já se movendo em direção à porta.

- Ela não está se sentindo bem. Vamos ver como ela está.

Eles saíram correndo, uma dupla frenética de pai e filho, me deixando sozinha no hall de entrada. Eles nem me deram um segundo olhar.

Caio parou na porta, virou-se e fez uma careta infantil e feia para mim.

- Espero que a gente nunca mais te veja. Você não é nada comparada à tia Helena.

A pesada porta de carvalho se fechou, o som ecoando na casa silenciosa. O último resquício de calor se esvaiu de mim, deixando-me fria até os ossos.

Mecanicamente, subi as escadas. Fiz uma mala, pegando apenas as coisas que eram verdadeiramente minhas antes de Augusto. Os livros de história da arte da faculdade, alguns vestidos simples, o medalhão da minha avó.

Olhei ao redor do quarto principal, para o closet cheio de vestidos de grife escolhidos para eventos políticos, para as prateleiras de livros sobre política e história que eu lia para acompanhar o mundo de Augusto. Minha vida inteira havia sido curada para servi-lo.

Não mais.

Dirigi até o salão mais caro de Brasília.

- Corte tudo - eu disse ao cabeleireiro, apontando para meu cabelo longo e cuidadosamente mantido. - Quero algo novo.

Horas depois, olhei para uma estranha no espelho. Meu cabelo era um bob curto e chique que emoldurava meu rosto, fazendo meus olhos parecerem maiores e mais brilhantes. Eu parecia... livre.

Em seguida, fui às compras. Comprei as roupas vibrantes e estilosas que eu sempre admirei secretamente, mas nunca ousei usar, roupas que gritavam "Carolina" em vez de "esposa do Senador Sampaio".

Quando me olhei no espelho novamente, usando um vestido vermelho ousado, mal me reconheci. Eu não era mais uma sombra subjugada. Eu era uma mulher de substância, de estilo.

Para comemorar, entrei em um restaurante renomado, um lugar que Augusto e eu só íamos para bajular doadores.

Enquanto era levada à minha mesa, congelei.

Lá, em uma mesa de canto, estavam sentados Augusto, Caio e Helena. Pareciam uma família feliz em um jantar de comemoração. Um garçom se desmanchava em elogios:

- Vocês três formam uma família tão adorável.

Uma dor aguda atravessou meu peito. Tentei me virar, sair antes que me vissem.

Mas era tarde demais. Os olhos afiados de Helena já haviam me localizado. Seu sorriso educado vacilou por um segundo, substituído por uma surpresa genuína com minha transformação.

Augusto e Caio seguiram seu olhar. Seus queixos caíram. Eles me encararam como se tivessem visto um fantasma.

- O que você está fazendo aqui? - exigiu Caio, sua voz acusadora. - Está nos perseguindo?

Encarei seu olhar com calma.

- Estou jantando. É uma coincidência.

Virei-me para sair, não querendo entrar em confronto. Mas Helena, sempre a atriz, levantou-se rapidamente e pegou meu braço.

- Carolina, não vá! Já que estamos todos aqui, por que não se junta a nós?

Ela me puxou em direção à mesa, seu sorriso doce como sacarina.

- Augusto, querido, por que você não pega um cardápio para a Carolina? Tenho certeza de que ela está com fome. - Ela então acrescentou, como se fosse um pensamento posterior: - Ah, mas eu já pedi todos os meus pratos favoritos.

A implicação era clara. Esta era a mesa dela, o jantar dela. Eu era um detalhe.

Augusto olhou para mim, um lampejo de confusão em seus olhos.

- Carolina, o que... o que você gosta de comer?

A pergunta era tão absurda que era quase engraçada. Estávamos casados há vinte e cinco anos. Ele não tinha ideia de qual era minha comida favorita. Eu passei inúmeras horas aprendendo suas preferências, suas alergias, o ponto exato que ele gostava da carne. Ele não sabia nada sobre mim.

Caio interveio impacientemente.

- Pai, não se preocupe com ela. Ela pode comer o que sobrar.

Chamei o garçom eu mesma. Pedi os itens mais caros do cardápio: a lagosta, o bife de wagyu, uma garrafa de champanhe vintage.

Augusto e Caio me encararam incrédulos.

- Onde você conseguiu dinheiro para isso? - perguntou Caio, seu tom afiado.

Tomei um gole lento de água.

- Eu ainda sou a Sra. Augusto Sampaio, pelo menos por mais vinte e nove dias. Como esposa de um senador, acredito que tenho direito a uma parte de nossos bens. Por anos, todo esse dinheiro foi gasto em você e seu pai. Agora, é a minha vez de aproveitar.

A testa de Augusto se franziu.

- O que você está tramando, Carolina?

Olhei-o diretamente nos olhos, minha voz firme.

- Não estou tramando nada, Augusto. Estou apenas jantando. E esperando o prazo de reflexão terminar.

Capítulo 3

A refeição foi um evento tenso. Assim que os pratos principais chegaram, um garçom, correndo pelo corredor, tropeçou.

Uma sopeira de sopa de lagosta quente voou pelo ar, indo direto para nossa mesa.

Em uma fração de segundo, Augusto se lançou, não em minha direção ou de seu filho, mas em direção a Helena. Ele jogou os braços ao redor dela, protegendo-a completamente com seu corpo.

Não tive tempo de reagir. O líquido escaldante espirrou em meu braço e peito. Uma dor lancinante me atravessou, e eu gritei.

Antes que eu pudesse processar a dor, Caio se arrastou, não para me ajudar, mas para chegar até Helena. Ele me empurrou para o lado.

- Saia da frente! - ele gritou.

O empurrão me fez cair no chão. Meu cotovelo bateu no mármore duro com um estalo doentio. Olhei para baixo e vi sangue escorrendo pela manga do meu vestido vermelho novo.

Caio me ignorou completamente. Ele correu para o lado de Helena, seu rosto pálido de preocupação.

- Tia Helena, você está bem? Você se machucou?

Augusto já estava cuidando dela, verificando gentilmente se havia alguma queimadura.

- Helena, meu amor, você está bem? - ele murmurou, sua voz carregada de preocupação.

Os três formavam um pequeno círculo de ansiedade, completamente alheios a mim, caída no chão, com o braço queimando e o cotovelo sangrando.

Eu era a única que estava ferida. Mas eu era invisível.

Caio finalmente virou a cabeça, seus olhos ardendo de fúria.

- A culpa é toda sua! - ele gritou para mim. - Você é um azar! Tudo de ruim acontece quando você está por perto!

Augusto me lançou um olhar de puro desprezo, como se eu tivesse orquestrado o incidente inteiro apenas para arruinar o jantar deles.

Ele ajudou Helena a se levantar, seu braço firmemente em volta da cintura dela.

- Vamos levá-la ao hospital, por precaução - ele disse suavemente para ela. Então, ele e Caio a escoltaram para fora do restaurante, deixando-me no chão frio e duro.

Ao saírem, Caio se virou uma última vez.

- Eu queria que você desaparecesse para sempre! - ele gritou.

Os outros clientes olhavam, alguns com pena, outros com curiosidade mórbida. Levantei-me, meu corpo dormente. Senti a queimadura na minha pele, a dor latejante no meu cotovelo, mas a ferida mais profunda era a que eu não podia ver.

Peguei um táxi para o hospital sozinha.

O médico na emergência estava sério. A queimadura era de segundo grau e meu cotovelo estava fraturado.

- A queimadura já está mostrando sinais de infecção - ele disse. - Precisamos interná-la.

Preenchi a papelada sozinha, minha mão tremendo. Fui admitida em um quarto padrão, o cheiro de antisséptico enchendo meus pulmões.

Nos três dias seguintes, ninguém ligou. Ninguém visitou. Era como se eu tivesse deixado de existir.

As enfermeiras do andar cochichavam ao passar pelo meu quarto. Falavam sobre o charmoso Senador Sampaio e seu filho adorável, que passavam cada momento acordados na suíte VIP, mimando a bela lobista que havia sofrido um "choque terrível".

Uma noite, passei pelo andar VIP. A porta do quarto dela estava entreaberta. Eu os vi. Augusto estava aplicando pomada gentilmente em uma pequena mancha vermelha no braço de Helena. Caio segurava um copo de água para ela, sua expressão de pura adoração.

Helena suspirou dramaticamente.

- Augusto, sinto muito pela Carolina. Espero que ela esteja bem. Você acha que ela ainda está falando sério sobre o divórcio?

Augusto nem levantou o olhar de sua tarefa.

- Ela só está fazendo birra. Ela vai superar. Ela sempre supera.

Caio deu uma risadinha.

- É. Ela não consegue sobreviver sem a gente. Ela vai voltar e pedir desculpas logo.

Helena soltou outro suspiro suave.

- Você deveria ser mais legal com ela. Só para manter a paz.

- Ela vai voltar - disse Augusto com certeza absoluta. - Ela não tem para onde ir.

Fiquei congelada no corredor, suas palavras ecoando em meus ouvidos. Meus anos de concessões, de engolir minha dor, de colocar as necessidades deles antes das minhas - eles viam tudo como uma fraqueza, uma ferramenta para me controlar.

Meus dedos se fecharam em um punho, minhas unhas cravando na palma da minha mão.

Aquele foi o momento em que algo dentro de mim realmente morreu. A parte de mim que se agarrava a um pingo de esperança, a parte que ainda amava o homem com quem me casei e o menino que criei. Tinha acabado.

Eles estavam certos em uma coisa. Eu não sobreviveria sem eles.

Eu iria prosperar.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022