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Divórcio de Aniversário: A Ascensão da Minha Rainha

Divórcio de Aniversário: A Ascensão da Minha Rainha

Autor:: Liu Jia Bao Er
Gênero: Romance
Meu marido me entregou os papéis do divórcio no nosso aniversário. Era uma "manobra temporária", ele disse, para acalmar sua amante grávida até que ela desse à luz ao seu herdeiro. Depois, ele me abandonou para morrer em uma tempestade e me forçou a doar meu sangue para salvá-la, ameaçando profanar o túmulo dos meus pais quando recusei. Ele me chamou de "bolsa de sangue" e esperava que eu aguardasse pacientemente seu retorno. Ele achava que conhecia sua esposa prática e amorosa. Ele estava prestes a conhecer a rainha que tomaria sua coroa, sua empresa e seu mundo inteiro.

Capítulo 1

Meu marido me entregou os papéis do divórcio no nosso aniversário. Era uma "manobra temporária", ele disse, para acalmar sua amante grávida até que ela desse à luz ao seu herdeiro.

Depois, ele me abandonou para morrer em uma tempestade e me forçou a doar meu sangue para salvá-la, ameaçando profanar o túmulo dos meus pais quando recusei.

Ele me chamou de "bolsa de sangue" e esperava que eu aguardasse pacientemente seu retorno.

Ele achava que conhecia sua esposa prática e amorosa.

Ele estava prestes a conhecer a rainha que tomaria sua coroa, sua empresa e seu mundo inteiro.

Capítulo 1

Ponto de Vista: Alice Ribeiro

Meu marido me entregou os papéis do divórcio no quinto aniversário da empresa que construímos do nada. Ele chamou aquilo de "uma manobra legal temporária".

O papel, nítido e pesado, parecia gelado contra a ponta dos meus dedos, um contraste brutal com o calor da taça de espumante que eu tinha acabado de pousar. Do lado de fora da janela da cobertura, São Paulo brilhava, uma galáxia de luzes que tínhamos conquistado juntos. Aqui dentro, o cheiro do jantar especial que passei a tarde toda preparando enchia o ar, o testamento de uma celebração que acabara de morrer.

"Eu não estou entendendo", sussurrei, minha voz soando como a de uma estranha. Meus olhos percorreram o texto em negrito: Petição de Dissolução de Casamento. Abaixo, em letras bem digitadas, estavam nossos nomes: Caio Lopes e Alice Ribeiro.

Caio afrouxou a gravata, seus movimentos casuais, como se estivesse discutindo os resultados trimestrais. "É simples, Alice. A Kátia está grávida."

O nome dela me atingiu como um soco no estômago. Kátia Werner. Sua nova, e ridiculamente jovem, assistente executiva. O ar fugiu dos meus pulmões em uma corrida dolorosa. A taça de cristal, as luzes da cidade, o rosto perfeitamente bonito de Caio - tudo se transformou em um borrão nauseante. Cinco anos. Cinco anos do que eu pensei ser uma parceria, uma história de amor escrita em noites em claro programando e sonhos compartilhados. Tudo isso, uma mentira.

"Grávida?" A palavra parecia cacos de vidro descendo pela minha garganta. "Você... você me disse que nunca quis filhos. Nós concordamos. Por causa... por causa do que aconteceu comigo." Meu trauma do passado, uma ferida tão profunda que construímos todo o nosso futuro em torno de protegê-la. Ele me abraçou durante os pesadelos e jurou que eu era tudo o que ele precisaria.

Ele teve a decência de desviar o olhar, sua atenção caindo sobre a luz trêmula da vela entre nós. "As coisas mudam."

"Uma manobra temporária", repeti, as palavras com gosto de cinzas. Minha mente se embaralhava, tentando encontrar uma versão da realidade onde isso fizesse sentido. Isso tinha que ser um teste. Um jogo cruel e elaborado para apaziguar uma amante instável. "Você quer que eu assine isso... como uma farsa? Para acalmá-la?"

"Exatamente", disse ele, um sorriso aliviado tocando seus lábios, como se eu finalmente tivesse entendido um conceito de negócio complexo. Ele se inclinou para frente, sua voz baixando para aquele tom familiar e persuasivo que ele usava para fechar negócios. "Ela precisa de segurança. Um contrato. Assim que o bebê nascer e ela estiver estabelecida, podemos rasgar isso. Nada vai realmente mudar entre nós, Alice. Você ainda será minha sócia. Minha esposa, em todos os sentidos que importam."

"Você quer se divorciar de mim, casar com ela, ter um filho com ela, e então espera que eu simplesmente... espere?" Eu o encarei, procurando pelo homem com quem me casei. O homem que uma vez traçou a cicatriz na palma da minha mão e me disse que era um mapa da nossa jornada compartilhada. Ele tinha sumido. Em seu lugar havia um estranho, um monstro usando seu rosto.

"Ela é jovem. Um pouco instável. Isso vai acalmá-la", ele explicou, ignorando completamente o furacão que me devastava por dentro. "Pense nisso como um investimento em paz e sossego. Não podemos ter um escândalo afetando a empresa, não agora."

"Então eu sou apenas... um item no seu plano de gerenciamento de crise?"

"Não seja dramática." Ele estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a minha. Seu toque, que antes parecia um lar, agora queimava como uma marca de ferro. Eu recuei, puxando minha mão como se tocasse uma chama.

A rejeição se registrou em seu rosto, um lampejo de irritação. "Alice, nós construímos este império juntos. Você e eu. Isso não muda."

"Tudo acabou de mudar!" Minha voz falhou, o som ecoando na sala silenciosa e opulenta. "Você vai ter um bebê com outra mulher! Você está me pedindo o divórcio! Você enlouqueceu?"

Ele suspirou, o som carregado de impaciência. "Eu sabia que você ia exagerar. Olha, depois de um ano, talvez dois, eu arranjo um divórcio discreto dela. Vou prover para ela e para a criança, claro. Então você e eu podemos nos casar de novo. Ninguém precisa nem saber."

Uma clareza fria e apavorante começou a se instalar no meu peito. "E ela? E o bebê? O que acontece com eles quando você terminar com sua família 'temporária'?"

Ele deu de ombros, um gesto de indiferença suprema. "Ela terá um acordo que a deixará bem para o resto da vida. O garoto terá um fundo fiduciário. É o que homens na minha posição fazem, Alice. É prático." Ele se recostou, a imagem da calma e da razão. "E para te mostrar meu compromisso, eu nem vou contestar a divisão de bens. Você fica com seus cinquenta por cento da empresa. Vai se mudar para o apartamento de luxo nos Jardins. É um bom negócio."

Um bom negócio. Ele estava falando sobre o fim do nosso casamento, a destruição do meu mundo, como se fosse uma transação imobiliária. O homem gentil e amoroso que eu conhecia havia desaparecido. Ele não tinha sido roubado; ele nunca existiu. Este narcisista frio e calculista era o verdadeiro Caio Lopes.

"O que você esperava, Caio?" perguntei, minha voz estranhamente calma. "Esperava que eu te agradecesse?"

"Eu esperava que você fosse inteligente", ele retrucou, sua paciência finalmente se esgotando. "Esperava que você entendesse o que está em jogo. Eu ainda te amo. Você é a única mulher que eu já vi como minha igual."

A lembrança dele sussurrando essas mesmas palavras anos atrás, sob um céu cheio de estrelas em nossa lua de mel, me trouxe uma nova onda de náusea. Ele amava minha mente, minha ambição, minha parceria. Ele amava o que eu podia ajudá-lo a construir. Mas ele nunca me amou de verdade.

"Você está certo", eu disse, as palavras vazias e sem vida. "É um ótimo negócio."

Peguei a caneta que ele tão atenciosamente havia deixado ao lado dos papéis. Seu peso parecia imenso em minha mão trêmula.

Ele me observava, um sorriso presunçoso de vitória já se formando em seus lábios. Ele achava que tinha vencido. Achava que eu cederia, como sempre fiz, pelo bem da empresa, pelo nosso bem. Ele não tinha ideia de que o "nós" a que ele se referia acabara de ter uma morte violenta.

Enquanto meus dedos se apertavam em torno da caneta, o celular dele vibrou na mesa. Ele olhou para a tela, e toda a sua postura mudou. O CEO frio desapareceu, substituído por um olhar de preocupação tão terna que me roubou o fôlego.

"Oi, meu bem", ele murmurou no telefone, sua voz uma carícia suave. "Não, claro que você não está me incomodando. O que foi? Você está bem?"

Eu assisti, congelada, enquanto ele ouvia, a testa franzida de preocupação. Assisti enquanto seu rosto se inundava de adoração, um olhar que ele não me dava há anos. Ele estava olhando para o celular, mas estava vendo ela. Sua nova família.

"O médico disse o quê? Ok, não entre em pânico. Fique exatamente onde está. Estou a caminho." Ele se levantou, guardando o celular no bolso, seus olhos já distantes. Ele já tinha partido.

Ele parou na porta, virando-se para mim como se lembrasse de um detalhe menor. "Apenas assine, Alice. Conversamos amanhã. Me espere aqui."

Então ele se foi. A porta se fechou com um clique, me deixando sozinha com as ruínas da minha vida. O jantar especial estava intocado, seu aroma rico agora uma zombaria doentia.

Me espere aqui.

Uma risada amarga e histérica borbulhou do meu peito. Era o som de uma mulher se quebrando.

Eu não esperei. Peguei minha bolsa e os papéis do divórcio e saí daquela cobertura, deixando as velas queimarem sobre nossa última ceia.

Dirigi direto para o escritório do meu advogado, minhas mãos firmes no volante. As luzes da cidade se borraram através das minhas lágrimas, não mais um símbolo da nossa vitória, mas uma testemunha da minha desolação. Empurrei os papéis sobre a mesa dele.

"Dê entrada", eu disse, minha voz resoluta. "Amanhã, logo cedo."

Ele olhou para o documento, depois para o meu rosto. "Alice, você tem certeza? Há um período obrigatório de reflexão de sessenta dias, mas uma vez que isso for protocolado..."

"Eu tenho certeza", cortei-o, as palavras como pedra na minha boca.

Não havia como voltar atrás. Eu tinha acabado de atear fogo à minha própria vida, e tudo o que eu conseguia sentir era o frio arrepiante e libertador.

Capítulo 2

Ponto de Vista: Alice Ribeiro

Voltei para a casa que havíamos construído juntos, aquela que Caio ainda chamava de "nosso lar". A palavra era uma mentira. Cada canto daquela mansão minimalista e imensa agora parecia contaminado, um museu de uma vida que nunca tinha sido real.

A foto emoldurada na lareira chamou minha atenção. Era do dia em que lançamos nosso primeiro aplicativo, nossos rostos corados de vitória e espumante barato. Éramos tão jovens, tão cheios de fé. Um soluço gutural rasgou minha garganta, e minha mão disparou, varrendo a moldura de prata para o chão. O vidro se estilhaçou, um som que ecoou a quebra dentro do meu próprio peito.

Eu me movi pela casa como uma tempestade, um turbilhão de luto e fúria. Sua coleção de relógios ridiculamente caros, um presente meu, foi espalhada pelo chão de mármore. Os livros de primeira edição que ele tanto prezava foram arrancados de suas prateleiras. Cada objeto que representava nossa história compartilhada se tornou um alvo para a minha dor.

Quando Caio finalmente retornou, horas depois, ele me encontrou sentada em meio aos destroços, um fantasma em nosso palácio arruinado. Ele parou abruptamente, seu rosto uma máscara de incredulidade e raiva.

"Que diabos você fez, Alice?"

Eu apenas o encarei, minha mente um vazio entorpecido e zumbindo. A luta havia se esvaído de mim, deixando apenas uma dor oca.

Ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeito, sua raiva rapidamente se transformando em pena condescendente. "Olha, eu sei que isso é um choque. Você está emotiva. Eu entendo." Ele passou por cima de um vaso quebrado. "Mas destruir propriedade não vai resolver nada. Esta ainda é a nossa vida."

"Eu estou indo embora", eu disse, as palavras mal um sussurro.

"Não seja ridícula. Para onde você iria?"

"Qualquer lugar, menos aqui."

Ele considerou isso por um momento, sua mente já calculando, traçando estratégias. "Tudo bem. Se você precisa de espaço, pegue a casa de praia em Angra. A imprensa vai pensar que estamos apenas dando um tempo. É melhor para a imagem da empresa."

A empresa. Era sempre sobre a empresa. A imagem da minha mãe de setenta anos, cuja saúde frágil não aguentaria um escândalo, passou pela minha mente. Por ela, eu tinha que jogar o jogo dele, só por um tempo.

"Tudo bem", concordei, minha voz vazia.

A viagem para Angra dos Reis foi um borrão. O Oceano Atlântico se estendia ao meu lado, vasto e indiferente. A casa de praia foi nossa primeira grande compra, um símbolo do nosso sucesso. Agora, seria minha jaula dourada.

Ao entrar, um perfume enjoativo e desconhecido me atingiu. Era doce e barato, um cheiro que pairava no ar como uma doença. Meus olhos pousaram na mesa de centro. Uma taça de rosé pela metade, uma marca de batom na borda. No sofá, uma manta de caxemira que eu não reconhecia estava jogada displicentemente.

Para onde quer que eu olhasse, havia sinais dela. Kátia. Um par de saltos agulha jogados perto da porta. Uma revista de fofoca aberta em uma página sobre barrigas de grávidas famosas. Ela não tinha estado apenas na cama dele; ela tinha estado em nossa vida, em nossa casa, por quanto tempo? Uma onda de náusea tão poderosa que dobrou meus joelhos me atingiu. Tropecei até o banheiro, meu estômago se revirando, expelindo o jantar de aniversário que havia se tornado veneno dentro de mim.

Caio chegou mais tarde, me encontrando na varanda, olhando fixamente para as ondas. Eu tinha aberto todas as janelas, desesperada para arejar o cheiro sufocante dela, mas era inútil. Estava nas paredes.

"Ela esteve aqui para um retiro de trabalho no mês passado", disse ele, sua voz desprovida de desculpas. "Eu deveria ter mandado limpar a casa."

Eu não respondi. Não conseguia. Aumentei o volume do meu celular, deixando uma playlist aleatória de rock pesado explodir pelos alto-falantes, uma tentativa fútil de abafar o som do meu mundo desmoronando.

E então eu ouvi. Através da música, vindo do celular dele que ele havia deixado na mesa. Uma voz suave e risonha.

"Sinto sua falta, Caio. O bebê também sente sua falta. Ele não para de chutar, bem onde sua mão estava esta manhã."

Meu sangue gelou. Ele? Ela sabia que era um menino. Eles tinham uma vida, um mundo secreto onde falavam sobre os chutes do filho deles. Não era um caso. Era uma substituição. Eu estava sendo substituída.

Caio finalmente notou minha imobilidade e se aproximou, seu rosto uma máscara de paciência forçada. "Alice, precisamos conversar sobre isso racionalmente."

Virei as costas para ele, caminhando até a beira do deck, a maresia fria no meu rosto.

Ele me seguiu, sua voz insistente. "Isso não precisa ser o fim. É apenas um desvio."

Manti meus olhos no horizonte, recusando-me a dar a ele a satisfação de uma resposta. Distraído, frustrado, ele olhou para o celular para responder a ela. Ele estava tão consumido por sua nova vida que não viu a mancha de rosé derramado no deck.

Seu sapato de couro caro escorregou. Ele tropeçou para trás, seus braços se agitando, e colidiu com a pesada mesa de vidro onde costumávamos tomar café da manhã.

O mundo explodiu em uma chuva de som e dor.

Senti um calor cortante atravessar meu braço. Algo quente e úmido escorria pela minha pele. Olhei para baixo. Um grande caco da mesa quebrada estava cravado no meu antebraço. O balde de gelo, um presente de nosso casamento, tinha sido lançado pelo impacto, atingindo minha cabeça com um baque surdo e doentio.

O mundo inclinou, o belo pôr do sol se transformando em um vórtice escuro e giratório.

A última coisa que ouvi antes da escuridão me engolir foi a voz de Caio, crua com um pânico que soava terrivelmente real.

"Alice! Meu Deus, Alice!"

Capítulo 3

Ponto de Vista: Alice Ribeiro

Acordei com o cheiro estéril de antisséptico e o bipe abafado de uma máquina. Minha cabeça latejava em um pulso doentio e rítmico, e meu braço estava envolto em uma bandagem apertada. Um hospital.

Do quarto ao lado, ouvi os gritos frenéticos de uma mulher, pontuados pelos murmúrios tranquilizadores de Caio. Kátia. O som revirou meu estômago.

A porta do meu quarto se abriu com violência. Caio estava lá, seu rosto pálido e tenso, sua camisa salpicada com o que percebi, com um choque, ser o meu sangue.

"Ela está sangrando", disse ele, a voz tensa de pânico. Ele não estava olhando para mim, mas para o médico que o seguiu. "A Kátia. Ela sofreu um acidente de carro a caminho daqui. Ela está grávida. Ela está perdendo o bebê."

Ele finalmente se virou para mim, seus olhos frios e desesperados. "Elas têm o mesmo tipo sanguíneo. Alice, você tem que doar sangue para ela."

Minha mente entrou em curto-circuito. Ele estava pedindo a mim, sua esposa ferida, para doar meu sangue para salvar a vida de sua amante e do filho deles.

O médico deu um passo à frente, sua expressão grave. "Senhor Lopes, sua esposa tem uma concussão e uma perda de sangue significativa devido ao próprio ferimento. Ela não está em condições de doar sangue."

"Eu não me importo!" Caio retrucou, sua voz ecoando no pequeno quarto. Ele caminhou até a minha cama, suas mãos agarrando a grade. "Alice, este é meu filho. Meu herdeiro. Você tem que fazer isso."

Ele estava olhando para mim, mas eu sabia que ele não me via. Ele via uma solução. Uma bolsa de sangue compatível.

"Não", sussurrei, a palavra arranhando minha garganta seca.

Nesse momento, sua mãe, Leonor Lopes, entrou no quarto. Uma mulher formidável que sempre me olhou com um desdém mal disfarçado. Seus olhos, frios e afiados, pousaram em mim.

"Alice", disse ela, sua voz escorrendo falsa simpatia. "Eu sei que isso é difícil. Mas pense naquela pobre criança inocente. Meu neto. Certamente, você não o deixaria morrer?"

A chantagem emocional era sufocante. A imagem de um bebê morrendo, uma vida inocente presa nesta bagunça monstruosa, surgiu em minha mente. Meu próprio passado, a perda que havia cavado um buraco permanente em meu coração, subiu para me sufocar.

Contra todo instinto de autopreservação, eu assenti. Um único movimento brusco.

A transfusão me deixou fraca e tonta, uma versão esvaziada de mim mesma. Mais tarde, enquanto tentava, trêmula, servir um copo de água, minhas mãos tremendo demais para segurar a jarra, ouvi risadas do quarto ao lado. Risadas altas e aliviadas.

Puxei meu suporte de soro comigo, meus pés descalços frios no chão de linóleo, e me arrastei até a porta do quarto de Kátia, que estava entreaberta.

Lá estavam eles. Um retrato de família perfeito. Caio estava sentado na beira da cama dela, dando-lhe uvas na boca. Leonor acariciava o cabelo de Kátia, mimando-a.

"Você foi tão corajosa, minha querida", dizia Leonor. "Apenas descanse. Você precisa ser forte para o meu neto."

"Ele vai ser um CEO, igual ao papai", Kátia riu, colocando a mão de Caio em sua barriga ainda lisa. "Eu posso sentir."

Caio sorriu, um olhar de orgulho puro e absoluto em seu rosto. "Ele será. Um herdeiro dos Lopes. Finalmente vamos ter uma família de verdade."

Suas palavras, destinadas a ela, foram uma adaga no meu coração. Nossa família, a que havíamos construído, aparentemente não era real.

"E ela?" Kátia perguntou, sua voz se tornando petulante enquanto gesticulava vagamente na direção do meu quarto. "E a bolsa de sangue ao lado? Ela não vai causar problemas, vai?"

O sorriso de Caio se contraiu. "A Alice sabe o lugar dela. Ela é uma mulher prática."

"Prática?" Leonor zombou. "Ela é uma mulher de carreira estéril e de coração frio. Caio, você precisa finalizar esse divórcio. Meu neto não pode nascer com essa mulher ainda ligada ao nome da nossa família."

"Eu vou cuidar disso, mãe", disse Caio, seu tom apaziguador. "Assim que a Kátia e o bebê estiverem estáveis, vou garantir que a Alice assine o que for necessário. Eu prometo."

O quarto girou. Tropecei para trás, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. Uma enfermeira me encontrou caída contra a parede, meu rosto pálido.

Caio saiu correndo, sua expressão uma mistura de irritação e preocupação passageira. "Alice? O que você está fazendo fora da cama?"

A voz chorosa de Kátia o seguiu. "Caio, minha cabeça dói! Volta!"

Instantaneamente, sua atenção voltou para ela. "Estou indo, meu bem." Ele me deu um último olhar desdenhoso antes de desaparecer de volta no quarto dela, me deixando sozinha no corredor frio e estéril.

Esperei a noite toda por ele. Para ele voltar. Para ver como eu estava. Para dizer algo, qualquer coisa. Ele nunca veio.

Por volta das 3 da manhã, ele apareceu na minha porta, uma sombra contra a luz fraca.

"Sinto muito que você tenha ouvido aquilo", disse ele, a voz baixa. "A Kátia está apenas... emotiva. Os hormônios."

Eu apenas o encarei, o homem que havia prometido me amar na saúde e na doença. O homem que havia segurado minha mão cinco anos atrás em um hospital como este e jurado que superaríamos nossa própria perda juntos.

Lágrimas, quentes e silenciosas, começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu não estava chorando apenas pelo casamento que acabou. Eu estava chorando pelo homem que nunca existiu, pelo amor que tinha sido uma invenção da minha imaginação.

Ele estendeu a mão para tocar meu rosto, e eu me afastei. O movimento, por menor que fosse, foi um abismo se abrindo entre nós.

Sua mão caiu. "Descanse um pouco, Alice", ele murmurou, sua voz tingida com uma culpa que era pequena demais, tarde demais.

Enquanto ele se afastava, senti algo dentro de mim finalmente, irrevogavelmente, quebrar. Era meu coração, se estilhaçando em um milhão de pedaços no chão frio do hospital.

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