Abro os olhos e o cheiro a desinfetante invade-me as narinas. O meu braço está estilhaçado, mas a minha Sofia está segura.
Foi um acidente. Um carro passou o sinal vermelho. Usei o meu corpo para proteger a nossa filha. Pensei que o meu marido, o Diogo, estaria lá para nós.
Mas quando ele chegou, o pânico no seu rosto não era por mim ou pela Sofia. Era pela filha da sua ex-mulher, a Clara, que tinha visto o acidente.
Ele partiu, deixando-me ferida e a Sofia com uma estranha, para consolar "a filha da ex" .
No hospital, a realidade atingiu-me com a força de um soco: este casamento já tinha morrido há muito tempo.
Quando lhe peço o divórcio, ele chama-me egoísta. Quando a minha mãe exige a Sofia de volta, ele volta de mãos vazias, a sua própria mãe a dizer-me que eu era "dramática" e que "estava a fazer um favor".
Como pode um homem abandonar a sua própria esposa e filha feridas, priorizando a família da ex-mulher? E como podem, a sogra e a ex-mulher, conspirar para manter a minha filha longe de mim?
Farta de ser a segunda opção, decidi que esta era a linha final. Chega de sacrifícios, chega de submissão. Esta não seria uma batalha qualquer, mas a guerra pela minha filha e pela minha dignidade.
Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante encheu as minhas narinas. O meu braço direito doía, coberto por uma gaze espessa.
A enfermeira entrou, verificou o meu soro e disse com uma voz suave: "Você acordou. O seu marido, o Senhor Alves, pagou as contas e disse que voltaria mais tarde."
"Onde está a minha filha, a Sofia?", perguntei, a minha voz rouca.
"Ela está bem, não se preocupe. O seu marido levou-a para casa primeiro. Ela ficou assustada, mas está segura."
Senti um alívio momentâneo, mas depois uma sensação estranha tomou conta de mim. O Diogo levou a Sofia para casa? Mas a casa estava vazia. Nós tínhamos acabado de nos mudar para Lisboa, não tínhamos família nem amigos aqui.
Peguei no meu telemóvel com a mão esquerda. Havia dezenas de chamadas não atendidas da minha mãe.
Antes que eu pudesse ligar de volta, uma mensagem do Diogo apareceu no ecrã.
"Helena, a Sofia está com a minha mãe. A Clara também se assustou muito com o acidente, e a mãe está a cuidar das duas. Eu estou a caminho do hospital. Fica aí e não te mexas."
Clara. A filha da sua ex-mulher.
O meu peito apertou. O acidente. Nós fomos atingidos por um carro que passou o sinal vermelho. Eu usei o meu corpo para proteger a Sofia, e o meu braço foi esmagado contra a porta do carro.
O Diogo chegou logo depois, com uma expressão de pânico. Mas quando viu que a Sofia estava apenas assustada e a chorar, o seu alívio foi visível. Ele nem sequer olhou para o meu braço ensanguentado.
A sua atenção foi imediatamente desviada por uma chamada. Era a sua ex-mulher, a chorar histericamente. A filha dela, a Clara, tinha visto o acidente da janela do apartamento do outro lado da rua e estava em choque.
"Eu preciso de ir, Helena. A Clara precisa de mim", ele disse, já a afastar-se.
"Diogo, espera! E a Sofia? E eu?", gritei, mas ele já estava a correr.
Agora, no hospital, a realidade atingiu-me. Ele levou a nossa filha para a casa da avó, para que a avó pudesse cuidar da neta e da filha da ex-nora. Ele deixou-me sozinha.
Respirei fundo e liguei-lhe. Ele atendeu rapidamente.
"Helena? Estás bem? Estou a chegar."
"Diogo, vamos divorciar-nos."
Houve um silêncio do outro lado da linha, depois a sua voz ficou fria. "Estás a brincar? Por causa disto? Eu não te deixei sozinha, paguei a conta. A Clara estava em choque, ela é só uma criança."
"A nossa filha também é uma criança, Diogo. Ela estava no acidente. Eu estou ferida."
"Eu sei! Mas a Sofia está bem! A tua lesão não é fatal! A Clara tem um trauma psicológico, é diferente! Porque é que não consegues ter um pingo de empatia?"
Empatia. Ele pedia-me empatia.
"Traz a Sofia de volta para mim, Diogo. Agora."
"Não sejas ridícula. Ela está a dormir com a Clara. Não vou acordá-las agora. Precisas de descansar e parar de ser tão egoísta. Falamos amanhã."
Ele desligou.
Olhei para o teto branco do hospital. Egoísta. Eu era egoísta por querer a minha filha comigo depois de um acidente traumático.
Tentei ligar novamente, mas a chamada foi direta para o correio de voz. Ele tinha-me bloqueado.
As lágrimas que eu segurava finalmente caíram. Não eram lágrimas de tristeza, mas de uma clareza dolorosa. Este casamento tinha acabado há muito tempo. Eu apenas me recusava a ver.
No dia seguinte, o Diogo apareceu com um saco de fruta e um sorriso forçado.
"Como te sentes? O médico disse que precisas de mais alguns dias de observação."
Ele colocou a fruta na mesa de cabeceira, evitando o meu olhar.
"Onde está a Sofia?", perguntei, a minha voz sem emoção.
"Ela está bem. A minha mãe levou-a e à Clara ao parque. Elas precisam de se distrair."
Ele falava da Clara como se ela fosse nossa responsabilidade. Como se o seu bem-estar fosse tão importante quanto o da nossa própria filha.
"Eu quero o divórcio, Diogo."
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Helena, já falámos sobre isto. Estás a exagerar. Foi uma situação de emergência."
"Uma emergência onde escolheste a filha da tua ex-mulher em vez da tua própria família."
"Eu não escolhi! Eu cuidei de todos! A Sofia está segura, tu estás a ser tratada. Qual é o problema?"
"O problema é que tu nem sequer olhaste para mim, Diogo. O teu primeiro instinto foi correr para a Clara. O problema é que a minha filha está a ser consolada pela mesma mulher que me odeia, enquanto eu estou aqui sozinha."
"A minha mãe não te odeia!", ele defendeu-a instantaneamente.
"Ela odeia. E tu sabes disso."
Ele ficou em silêncio. A sua mãe, a Dona Amélia, nunca me tinha perdoado por não ser a Inês, a sua primeira nora perfeita.
"Não vamos tomar decisões precipitadas enquanto estás magoada e emocional", disse ele finalmente, num tom paternalista. "Pensa na Sofia. Queres que ela cresça numa família desfeita?"
Era sempre o seu trunfo. A Sofia. Ele sabia que eu faria qualquer coisa por ela.
Mas desta vez, algo tinha mudado. O acidente não tinha apenas partido o meu osso, tinha partido a ilusão que eu mantinha.
"Sim, Diogo. Eu quero que ela cresça longe disto. Longe de um pai que a trata como uma segunda opção."
A sua cara endureceu. "Isso não é verdade e tu sabes."
"É? Então porque é que, há dois meses, perdeste o recital de ballet dela para ires ao jogo de futebol do filho do novo namorado da Inês? Porque é que lhe deste o tablet que eu disse que não queria que ela tivesse, só porque a Clara tem um igual?"
Ele não tinha resposta. Apenas me olhava com uma mistura de raiva e frustração.
"Tu estás a tornar as coisas impossíveis, Helena."
"Não. Tu tornaste-as impossíveis."
A porta do quarto abriu-se e a minha mãe entrou, com o rosto carregado de preocupação. Ela olhou do meu braço engessado para a cara tensa do Diogo.
"Filha! Eu liguei tantas vezes! O que aconteceu?"
Antes que eu pudesse responder, o telemóvel do Diogo tocou. Ele olhou para o ecrã e a sua expressão suavizou-se instantaneamente.
"É a Inês", disse ele, como se isso explicasse tudo. "Tenho de atender."
Ele saiu do quarto para falar ao telefone, deixando-me ali com a minha mãe e o silêncio pesado.