Do palco, deleitava-me com os barulhentos aplausos do público após a minha apresentação, pelo menos, era como costumava ser.
Eu, o Kim Ji-hun, costumava ser o nome mais importante da música clássica no meu país, isto até o surgimento do Ko Do-eun, que se tornara o novo maior nome da música clássica no país, deixando-me para trás e, por mais que eu tentasse recuperar o meu lugar, não conseguia. Ele era jovem e bonito, não dava para competir. No entanto, eu não aceitaria ser derrotado tão facilmente.
Após uma apresentação enfadonha com menos que metade do público que costumava ir às minhas apresentações e, sem tanto vigor nos aplausos, voltei para casa. Minha esposa, a Kim Deokman, aguardava-me na sala com um sorriso, ela não pudera acompanhar-me naquele dia porque não sentia-se bem e precisara ir ao médico.
- Você não estava doente? - comecei. - Por que está sorrindo? - perguntei-lhe.
- Querido. - começou, aproximando-se de mim. - Eu estou grávida. - contou-me sorridente e cheia de emoção.
- Grávida? - perguntei-lhe surpreso, porém com um sorriso estampado na face.
- Sim. Grávida. - repetiu a notícia com o mesmo sorriso.
Essa criança pode ser a salvação do meu nome! Pensei, já imaginado-a sendo o próximo maior nome da música clássica dali. Fui, então, imediatamente, abraçar a minha esposa.
- Querida, eu estou tão feliz que quero construir um castelo. - falei e ela apenas sorrira. - É isso. - continuei. - Construirei um castelo próximo à cidade, onde viveremos com nosso filho.
- Querido, não acha que isso é um pouco demais? - perguntou-me ainda sorrindo.
- Não, querida. - respondi-lhe também ainda sorrindo. - E é o que farei.
Investi, então, depois daquele dia, bastante dinheiro na construção de um castelo para viver com a minha esposa e o meu filho. Sendo um dos homens mais ricos do país, para mim, fora um valor justo para a realização daquele sonho.
- Meu filho viverá como um rei e se tornará um rei da música clássica como um dia eu fui. - sussurrei. --Eu lhe ensinarei a sê-lo. - conclui.
Durante os nove meses de gestação da Kim Deokman, continuamos na cidade e, mudamo-nos para o castelo na primavera, assim que o nosso pequeno Kim Jonghyun nascera.
- Seremos uma família muito feliz aqui, querida. - prometi a minha esposa.
Ela apenas sorrira enquanto segurava o nosso filho em seus braços, mas os seus olhos, naquele momento, diziam-me o quanto confiavam em mim e nas minhas palavras.
- Eu te amo, querida. - disse-a.
- Eu também te amo, querido. - disse-me com uma voz suave.
Próximo à uma pequena cidade, um castelo; no castelo, uma família fadada à autodestruição; na família, um jovem... ah!, este que deve carregar o caos de toda a destruição familiar sobre si. Que pesadelo! Como livrar-se de um pesadelo que te acorrenta a alma? É possível um recomeço para alguém que acredita estar inteiramente destruído? Há alguma esperança?
- Corra! - uma voz dizia-me.
Desci as escadas o mais rápido possível e corri, abri as portas e corri, corri até chegar à floresta, estava escuro, era noite.
- Corra! Fuja! - a voz continuava gritando para mim já no portão, o qual eu acabara de atravessar. - Fuja!
Continuei correndo o mais rápido que conseguia, até que esbarrei em alguém.
- NÃO! - Gritei já em prantos. Era ele...
• × • × • × • × •
20:30h
- NÃO! - Gritei ao acordar-me.
Sentei-me na cama olhando fixamente para qualquer parte do quarto. Ainda que eu houvesse já despertado, estava ainda preso naquele pesadelo. Balancei levemente a cabeça para fugir daquilo que mais parecia um transe, respirei fundo, contei até três lentamente, suspirei e levantei-me, peguei o livro que estava lendo até que adormeci e coloquei-o de volta na estante, caminhei diretamente ao banheiro para tomar um banho, após ter banhado, vesti-me e decidi sair, peguei meu carro e fui à um restaurante de comida asiática no centro da cidade, escolhi a minha mesa e pedi sushis e um soju.
Enquanto aguardava a chegada do pedido, observava ao meu redor, todas as pessoas ali estavam acompanhadas e sorriam. Não demorara muito e logo chegara o meu pedido. Após terminar o que fora o meu jantar, levantei-me e notei alguém caminhar na minha direção parando bem à minha frente.
- Oi. - falou sorrindo. Era uma bela mulher. - Desculpa, mas notei que é o único sozinho. Está tudo bem?
Apenas ignorei-a com uma expressão neutra e dei um passo na intenção de ir ao caixa, porém, mal me movi, ela deitara levemente a sua mão direita sobre o meu ombro esquerdo, voltei, então, um passo atrás, encarando aqueles lindos olhos castanhos.
- Eu já te vi em outro lugar há alguns dias, mas não falei com você. - aquele sorriso insistia em não sair do seu rosto. - Me chamo Louise. Qual o seu nome?
- Fique longe. - falei num tom normal, mas como se colocasse no meu próprio rosto um alerta de risco.
O seu belo sorriso logo desaparecera, então, tornei a caminhar em direção ao caixa, fiz o pagamento, em seguida direcionei-me à porta e sai dali, entrei no carro e voltei para casa, quando cheguei, caminhei apressadamente para o meu quarto, encarei o meu reflexo no espelho, tirei a camisa e já podia ver todas aquelas marcas pelo meu corpo.
- Não se aproxime das pessoas, não crie afeto. - sussurei e respirei fundo já com os olhos marejados.
- É isso o que as pessoas fazem, elas machucam umas as outras. - podia ouvir, na minha mente, o meu pai dizer-me tais palavras enquanto imprimia em minha pele tais marcas. - Você me machucou ao me decepcionar.
- As pessoas machucam. - sussurrei passando levemente as pontas dos dedos da minha mão direita sobre uma cicatriz no meu ombro esquerdo.
Meu celular vibrara no bolso da minha calça, então, peguei-o para atender.
- Sim.
- Estou indo aí.
- Ok.
Encerrei a ligação, coloquei o celular de volta no bolso, vesti novamente a camisa e fui esperar na sala, não demorara muito e, ali estava ele outra vez.
- Cheguei. - falou ao entrar como se fosse o dono da casa.
- Sente-se.
- Essa sua frieza às vezes me assusta.
Levantei-me e notei que ele ficara um pouco tenso, pude sentir, como se sua tensão emamasse do seu corpo como perfume. Caminhei até a estante, peguei uma garrafa de Whisky que havia ali, dois copos de vidro que serviam mais de enfeite ao lado da bebida, e serví--nos.
- Pegue.
- Obrigado.
- O que você quer dessa vez, Pietro?
- Não sou eu quem quer. - fez uma pausa, mas logo continuou. - A nova exposição dos seus quadros acontecerá em uma semana e os admiradores das suas pinturas querem muito conhecer a pessoa por trás de tais obras de arte.
- Sempre querem. - falei e logo bebi o primeiro gole do Whisky.
- Exatamente. - falou e tomou um gole da bebida, fazendo uma expressão de quem realmente gostara da qualidade da bebida, e, retomando a sua atenção para o assunto do qual falávamos, continuou - E eles não tem nada, você não tem redes sociais, não aperece nas exposições das suas proprias pinturas, e...
- E eu preciso? - interrompi-o.
- Ah... não. Não. - limpou a garganta e engoliu em seco. - Mas seria legal. Não seria?
- Não. - Respondi-lhe firmemente encarando-o.
- Tudo bem. - respirou fundo. - Tudo... bem. - tomou mais um gole do Whisky. - Só é...
- É... o quê?
- É estranho.
- O quê é estranho?
- Eu estou com você há dez anos e nem eu te conheço.
- É melhor assim. - bebi mais um gole da bebida e respirei fundo, relaxando as minhas costas no sofá. - Isso é tudo?
Percebi que ele ficara um pouco tenso novamente, mas logo repondeu-me.
- É. É tudo.
Bebeu o restante que sobrara da bebida no seu copo, levantou-se, caminhou até a estante e colocou o copo de volta ao lado da garrafa de Whisky, então, direcionou-se à porta e, abrindo-a, encarou-me mais uma vez e disse...
- Apenas pensa a respeito.
Dito isto, retirou-se dali e fechara a porta.
- Você realmente não me conhece, Pietro, mas acredite, não iria gostar de me conhecer. - falei como se ele ainda estivesse ali, em seguida, respirei fundo novamente e continuei. - É realmente melhor assim. - sussurrei.
Bebi o restante do meu Whisky, levantei-me, peguei o copo no qual havia servido o Pietro, fui à cozinha e coloquei os dois copos sobre a pia, então, decidi por voltar ao meu quarto. Já ali, sentei-me na cama e fui lentamente deitando-me, logo, lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto, como as gotas de água numa janela de vidro
- Desculpa, Pietro. - ss palavras saíram trêmulas. - Desculpa... a todos. - eu continuava sussurrando. - As pessoas machucam, eu sou uma pessoa, mas não quero machucar ninguém. - Tentei respirar fundo. - É melhor assim. - Sussurrei.
Tendo dito todas estas palavras, gritei repetidamente o mais alto que pude, abafando cada grito com o meu travesseiro. Cada dia era como um arrependimento de ainda estar vivo, mas no fundo, eu não queria morrer, queria apenas que pudesse ter sido diferente... tudo.
- Eu te odeio, pai! - gritei chorando. - Eu... te odeio. - sussurrei já abraçando o travesseiro.
O tempo fora passando e eu me perdendo cada vez mais nos meus lamentos, até que finalmente cai no sono, tal qual durara algumas poucas horas apenas e a luz do sol logo invadira o meu quarto.
7:00h
Levantei-me para fechar as cortinas e corri de volta para a cama. Tarde demais! Por mais que eu ficasse deitado ali, já não conseguiria mais voltar a dormir, então, sentei-me na cama, espreguicei-me e decidi por levantar-me de uma vez, tomei um banho e troquei-me, em seguida, decidi por ir pintar.
Fui ao ateliê onde fazia as minhas pinturas, que ficava na minha própria casa, coloquei uma playlist de músicas calmas e tristes, vesti o avental, coloquei tintas na paleta, peguei pincéis e determinei-me a terminar o último quadro para a nova exposição. Antes de tocar o pincel com tinta na tela...
- É melhor assim. - sussurrei olhando para a pintura, enquanto lembrava o que o Pietro me dissera algumas horas atrás.
Fiquei alguns segundos encarando a pintura com o pincel próximo à tela, respirei fundo e então, continuei com a pintura. Mas não por tanto tempo quanto havia planejado.
- Por que está tão difícil pintar hoje? - falei, suspirando em seguida. - Não vou me forçar e acabar estragando tudo.
Coloquei a paleta e os pincéis sobre uma mesa, tirei o avental, fui até a sala de estar e sentei-me no sofá. Logo meu celular começara a tocar, era, como já esperado, o Pietro.
- Sim. - falei ao atender.
- Acordou agora?
- Não.
- Já comeu?
- Não.
- Certo. Vamos tomar café juntos, estou indo para a sua casa.
Dito isto, ele encerrara a ligação sem que eu tivesse a chance de dizer-lhe um terceiro não. Continuei sentado ali esperando a sua chegada, o que não demorara muito, alguns poucos minutos e, ali estava ele, entrando pela porta novamente.
- Chegou rápido. Já estava vindo quando me ligou?
- Na verdade... - percebera que não conseguiria enganar-me com uma desculpa qualquer. - Sim.
Ficamos alguns segundos em silêncio, eu sentado no sofá de braços cruzados e ele ainda de pé próximo à porta, percebi que para ele estava sendo um silêncio incômodo.
- O que trouxe na sacola?
- Ah! São alguns biscoitos coreanos que eu sei que você gosta muito e... trouxe também dois milkteas. Você disse que são bons, mas não experinentei ainda. - falou e ficamos em silêncio por alguns segundos novamente. - Vamos para a cozinha.
E lá foi ele à frente, alguns segundos depois, levantei-me e segui-o. Chegando ali, o Pietro já estava colocado a água para ferver e, em seguida, tirando as coisas da sacola e colocando-as sobre a mesa.
- Por que está sempre me tratando bem? - perguntei-lhe. - Já fazem dez anos, não vai me tratar mal uma única vez?
- Olha, você é o cara mais frio que eu conheço. Durante estes dez anos eu nunca vi um sorriso seu, nem sei se um dia já sorriu na vida. Você está sempre dentro da sua bolha e me tratando como se eu fosse alguém insignificante. - dissera tudo sem olhar para mim, enquanto organizava as coisas sobre a mesa. - Mas sabe de uma coisa? - finalmente encarou-me nos olhos, o que de certa forma paralisou-me por dentro.
- O quê? - perguntei-lhe, no entanto, como se não tivesse interesse.
- Eu sei que você tem os seus motivos, ninguém é assim sem um sério motivo. Mas não lhe pergunto porque sei que não me contará. - deu um leve suspiro e um breve riso silencioso. - Eu respeito o seu espaço. E... independente do que tenha acontecido, eu... - respirou fundo. - Eu sei que você não é uma pessoa ruim. Pode me tratar mal se quiser, ou a outras pessoas. Porém, eu sei que só está tentando se proteger de algo, ou querendo nos proteger, mesmo não sabendo do que se trata. E isso não é ser uma pessoa ruim.
- Você não me conhece.
- Não vai conseguir me convencer do contrário do que eu já disse. - falou com firmeza soltando um leve e breve sorriso em seguida.
Já não haviam mais em mim palavras que eu pudesse dizer diante de tudo o que o Pietro já dissera, apenas continuei ali, parado, olhando-o.
- Vamos nos sentar. - disse ele.
Sentamo-nos à mesa...
- Aqui... - pegou o celular procurando algo nele. - Essas são as fotos do espaço onde acontecerá a próxima exposição dos seus quadros. Veja. - etregou-me o celular.
Olhei as fotos em silêncio e entreguei-lhe o celular.
- O que achou? - perguntou-me animado.
- Quem escolheu o lugar?
- Eu mesmo. Pessoalmente.
- Se foi você quem escolheu, então, está bom pra mim.
- Gostaria de ir conhecer o espaço pessoalmente também? - perguntou-me ainda mais animado.
- Não.
Levantou-se para checar se a água já estava quente o suficiente, e, já estava, então, apagou o fogo, abriu os copos de milktea, rasgou os sachês que vieram dentro, e colocando o conteúdo em cada copo, adicionara, por fim, a água.
- Se nunca bebeu milktea, como sabe preparar exatamente como deve ser?
- Não subestime a minha capacidade de fazer chás.
- Certo. Senhor chá. - falei e ele soltara uma leve risada.
- Vamos comer. - falou e sentou-se novamente à mesa. - Nossa! Isso é realmente bom! - exclamou ao tomar o primeiro gole da bebida.
- Como eu disse.
Ele encarara-me fixamente, observando cada peça de roupa que eu estava vestindo.
- O que está olhando?
- Não está com calor? Como consegue estar sempre com roupas pretas ou apenas com tons escuros e ainda com mangas longas?
- Isso é o de menos. - suspirei levemente. - Esqueça isso.
- Então... e esse colar com uma chave de pingente que você nunca tira? Tem algum significado? Nunca perguntei.
- Pietro.
- Sim?
- Não seja curioso. - falei como se o estivesse alertando sobre algum perigo e ele engoliu em seco.
- Como vão as pinturas para a exposição?
- Falta terminar uma. Mas...
- Mas?
- Não estou conseguindo.
- Posso dar uma olhada?
- Não.
Ele sorrira como se já soubesse a resposta e só houvesse perguntado para ouvir-me dizê-la.
- Do que está sorrindo?
- Nada. Vamos terminar de comer, tenho um compromisso daqui a pouco.
- Posso saber o que vai fazer?
- Claro. Vou ao local da exposição para marcar os espaçamentos para os quadros, já que a única coisa que você me deu até agora foram as medidas.
- Não seja assim. Você é sempre o primeiro a ver todas as minhas pinturas. Mas ainda não terminei a última dessa exposição.
- Me deixe ser dramático.
- Que seja.
- Então... eu sou especial pra você, não é?
- Quer que eu te bata?
- Esquece. Eu passo. - falou dando uma breve risada.
Terminamos o nosso café da manhã.
- Bem... eu vou indo. Tem certeza de que não quer vir junto?
- Já tem a minha resposta.
- Certo. - falou e deu uma leve risada. - Até mais.
Levantou-se e saira dali. Logo levantei-me também, peguei todas as embalagens que estavam sobre a mesa e, como eram descartáveis, joguei-as na lixeira que ficava ao lado da pia e decidi por ir para meu quarto. Chegando ali, peguei meu notebook que estava na mesma estante que os livros, sentei-me na cama e pesquisei, pela primeira vez, o meu nome, na verdade, o nome que usava como pintor, Si-woo, meu pseudônimo.
"Em alguns dias acontecerá a exposição com os novos quadros do grande pintor anônimo, Si-woo. Será que um dia vamos conhecer a pessoa por trás dessas grandiosas obras de arte?"
- Esqueçam essa possibilidade. - sussurrei.
Desliguei o notebook e coloquei-o de volta onde estava, então, decidi por voltar ao ateliê e tentar continuar a pintura do último quadro para a exposição.
13h
Enfim, a pintura do último quadro para a exposição que aconteceria em alguns dias estava quase finalizada, mas decidi dar uma pausa, estava cansado e ainda não havia comido nada além do café da manhã.
- Que fome. - sussurrei.
Saí do ateliê e retornei ao quarto, caminhei diretamente ao banheiro, banhei-me e, de volta ao quarto, vesti-me, saí de casa e, de carro, fui à um restaurante próximo.
Já ali e com o cardápio à mesa, pronto para fazer o pedido, meu celular começara a tocar, novamente, o Pietro.
- Sim.
- Estou indo aí.
- Não estou em casa.
- Onde está?
- Num restaurante.
- Que bom, também estou com fome.
- Vou mandar o endereço por mensagem.
Encerrei a ligação e compartilhei a localização.
Pietro: Estou bem próximo, chego em um minuto. Espere por mim.
Estava com muita fome, porém, decidi esperá-lo. E, de fato, não demorara muito, e ali estava ele.
- Já pediu algo?
- Você disse para esperar.
- É verdade. - Falou soltando uma breve e silenciosa risada. - Vamos pedir, então.
Fizemos, então, os pedidos.
- Continuei pintando o último quadro hoje.
- Finalizou? - perguntou-me animado.
- Falta pouco.
- Estou ansioso para ver os novos quadros. - falou sorrindo. - Ah! Já está tudo certo quanto ao espaço para a exposição.
- Ótimo.
- Você realmente não quer ir conhecer?
Quando eu estava pronto para responder-lhe, chegaram nossas comidas.
- Humm... parece bom. O cheiro está ótimo.
- Tanto faz. - sussurrei.
- Bom... sobre o que eu pergun...
- Vamos comer. - interrompi-o.
- Ok. Vamos comer. - concordou já olhando para a comida. - Cheira muito bem.
O Pietro sempre provava todo tipo de culinária nova que surgisse, não importava o quão bom ou ruim fossem.
- Gosta mais de mim ou de comida? - perguntei-lhe.
- O quê?! - falou soltando uma risada. - Gosto dos dois, não posso viver sem alimento e nem sem você.
- Sei.
- Não acredita?
- Claro. - fiz uma breve pausa. - Se não comer, você morre.
- Está com ciúmes?
- Quer morrer?
Ele riu do que eu disse e em seguida provou a primeira colherada da sua comida.
- Nossa! - exclamou e logo bebeu um copo d'água. E comecei a encará-lo. - Muito apimentado. Eu devia ter ido devagar. Mas... - fez uma pausa. - Hmm... muito bom. Aprovado. - falou já pegando outra colherada.
- Eu não te entendo.
- Não precisa. - falou rindo.
De fato, não entendia o seu humor, mas gostava de como ele agia, era espontâneo e sincero.
- E você? Gostou da sua comida?
- Consigo engolir.
- Bem direto como sempre. - Disse com um leve sorriso silencioso.
- Isso é ruim?
- Bom... eu já me acostumei. Então, pode apenas ser você mesmo comigo.
O Pietro era sempre capaz de me entender, não importava sobre o que se tratava, ele apenas entendia e aceitava. Era também a única pessoa em quem eu confiava e aceitava ter por perto, mas era frio com ele porque não queria que criasse expectativas sobre mim e, por isso, acabasse magoado. Essa dor eu conhecia muito bem, então, era melhor assim.
Ao terminarmos a refeição, fiz o pagamento e saímos dali. Já fora do restaurante, enquanto caminhávamos até os nossos carros...
- Ainda não conhecia esse restaurante. Gostei. - disse o Pietro.
Enquanto ainda caminhávamos, um artista de rua começara a tocar o seu violino, o que me fizera paralisar ali olhando fixamente para aquele homem, era um som familiar.
- Por que parou de repente? - perguntou-me, logo notando o motivo. - Ah. Gostou da música, não é? - perguntou-me sorrindo.
Já não conseguia dizer uma única palavra.
- Jonghyun?
Era como se eu tivesse voltado no tempo e pudesse sentir o meu pai ali, obrigando-me a aprender a tocar as suas músicas, repreendendo-me e punindo-me a cada vez que eu não conseguia realizar a sua vontade.
Enquanto já chorava, cai ao chão de joelhos.
- Mande-o parar. - sussurrei tapando os ouvidos. Mas não me referia ao artista, eu já não estava mais ali, estava afogando nas minhas mais sombrias lembranças.
- Jonghyun?
A voz do Pietro para mim estava distante, e na minha mente, transformava-se nos gritos do meu pai. Naquele momento passara por nós um casal com um filho pequeno, o qual era repreendido pelos pais por algum motivo, do outro lado da rua, um vendedor de objetos de couro demonstrava a resistência de um chicote, agredindo o chão com o mesmo. Na minha mente, tudo aquilo tranaformava-se em más recordações do passado.
- Mande-o parar.
- Jonghyun. - falou o Pietro já levantando-me, abraçando-me e tirando-me dali. - Vamos.
Chegando à uma praça próxima dali, sentamo-nos em um banco e então...
- Jonghyun. - Falou segurando o meu rosto, fazendo-me assim, olhar-lhe nos olhos. - Você está bem? - Perguntou-me e a preocupação se expandia por cada palavra que saia de seus lábios.
Apenas fiz que não com a cabeça, lentamente, enquanto ainda chorava silenciosamente, não era capaz de falar uma palavra sequer naquele momento. Ele respirara fundo e não hesitara em abraçar-me com força.
- Está tudo bem. - sussurrou enquanto acariciava o meu cabelo para acalmar-me. - Vai ficar tudo bem.
Ficamos abraçados por alguns instantes, até que já estava mais calmo, estava com a minha cabeça deitada em seu ombro, então, ergui-a.
- Se sente melhor? - perguntou-me com um tom misto de preocupação e leve alivio, e fiz que sim com a cabeça. - Certo...
- Eu não quero que ele volte. - falei com tom de medo.
- Ele... quem?
Olhei-o profundamente nos olhos com um olhar penoso, mas logo desviei meu olhar para baixo.
- O que aconteceu?
Por um instante pensei em contar-lhe tudo, porém, decidi por não fazê-lo, ele não precisava saber.
- Obrigado por estar aqui. - agradeci-o e levantei-me em seguida.
- Aonde vai?
- Para casa.
Ele apenas suspirou, fez que sim com a cabeça e levantou-se em seguida. Caminhamos juntos até o meu carro.
- Quer que eu vá junto? Você não parece estar bem para dirigir. - falou enquanto eu entrava no carro.
- Pietro. - comecei, já no acento.
- Sim?
- Eu nunca estou bem. - disse-lhe encarando-o nos olhos, então, voltei o olhar para a estrada, fechando a porta do carro, ligando-o em seguida e, enfim, saindo dali.
Enquanto voltava para casa, pensava sobre o que acontecera.
- Até quando você vai continuar me assombrando? - Sussurrei, suspirando em seguida.
Já em casa, caminhei direto para o quarto, fui ao banheiro, encarei-me no espelho por alguns segundos e decidi por tomar um banho. Após banhar-me e vestir-me com roupas longas e folgadas, deitei-me na cama e fiquei ali até que, finalmente, cai no sono.
21h
Acordei-me com o meu celular tocando, era mais uma ligação do Pietro.
- Sim.
- Como você está?
- Com fome. - falei após tentar pensar por alguns segundos.
- Como sempre. - Pude ouvir um riso seu. - Não comeu mais nada o dia inteiro?
- Não. Estava dormindo até agora.
- Vá comer, então. Qualquer coisa pode me ligar.
Fiquei em silêncio, então ele continuou.
- Bem... só queria saber como estava. Vou desligar agora.
- Pietro. - falei logo que ele terminou de falar, antes que encerrasse a ligação. - Obrigado. - Pude ouvir o seu riso mais uma vez.
- Não tem que me agradecer. - Ficamos em silêncio por alguns segundos. - Agora vou desligar. Se cuide, por favor.
Ele encerrara a ligação, então, levantei-me, guardei o celular no bolso e desci para preparar algo que pudesse servir de janta. Chegando à cozinha, peguei um lámen, alguns temperos, preparei tudo e comi, em seguida, voltei ao meu quarto, li um pouco e voltei a dormir após alguns instantes.