Minha vida era simples, feita de farinha, açúcar e o sorriso da minha irmã Sofia.
Mas o sorriso dela estava murchando, levado por uma doença que exigia um tratamento caríssimo, um valor que, para a nossa realidade, era um universo de distância.
Eu estava desesperada, sem ter a quem recorrer, vendo a vida de Sofia escorrer entre os meus dedos.
Foi então que a loucura me pegou: eu, uma confeiteira, sequestraria Pedro Almeida, o "Playboy do Café" , filho do homem mais rico da cidade.
Eu só queria o dinheiro para salvar Sofia, mas me tornei a pior sequestradora do mundo.
Eu não era uma criminosa; meus dedos eram feitos para decorar bolos, não para amarrar nós.
Ele, um refém mimado e com um tédio irritante, zombava da minha inexperiência, chamando minhas cordas de "ruins" .
Minha primeira ligação pedindo resgate foi um desastre: o pai de Pedro, o Coronel Almeida, desligou na minha cara, achando que trezentos e cinquenta mil reais era "troco de adubo" .
Humilhada, eu desabei, sentindo o peso da minha incompetência me esmagar.
Mas, para minha surpresa, Pedro, o refém, não riu da minha desgraça; ele me ofereceu um pacto: "Eu sou seu consultor de crimes. Meu valor de mercado é muito maior que essa mixaria. Isso é ofensivo" .
Incrível, não? Um playboy preocupado com seu preço no sequestro!
A cada dia, a linha entre nós ficava mais tênue: ele me ensinava a ser uma sequestradora "melhor" , eu cuidava das crises de ansiedade que revelavam as rachaduras por trás da sua fachada arrogante.
Eu sabia que as consequências seriam terríveis, mas ele precisava de ajuda.
O pior pesadelo se tornou realidade quando meu amigo de infância, João, que eu tanto confiava, invadiu nosso esconderijo, seduzido pela ganância.
Ele e seu capanga, Tonhão, só queriam uma parte do resgate, e em meio ao caos, Pedro se jogou na minha frente para me proteger e acabou com a perna quebrada.
Caído no chão, ensanguentado, ele sussurrou: "Não é sua culpa" .
Dr. Ricardo, o médico que eu chamei desesperadamente para socorrer Pedro, chegou e viu a cena: o porão, o refém ferido, eu em prantos.
Ele sabia.
Em um ato de autoconservação e amor inesperado, Pedro, prestes a ser levado para a cirurgia, olhou para os pais, para os seguranças, para o policial, e disse: "Ela me encontrou ferida na estrada. Ela salvou minha vida" .
Ele me salvou.
Dias depois, um recibo chegou: a conta do tratamento de Sofia, totalmente paga.
No hospital, Pedro, com a perna engessada, sorriu e confessou: "Eu acho que estou apaixonado pela pior sequestradora do mundo" .
Eu, uma confeiteira que virou sequestradora por amor à irmã, e ele, o playboy refém que me ensinou a ser criminosa, prometemos um ao outro muitos bolos de chocolate e uma vida juntos.
É uma promessa.
O cheiro de mofo e terra úmida enchia o porão abandonado, o único som era a respiração pesada do rapaz amarrado na cadeira.
Eu o observava das sombras, meu coração batendo forte contra as costelas, um tambor de guerra anunciando o maior erro da minha vida.
Ele se mexeu, a cadeira de madeira rangendo em protesto.
"Sabe, pra uma sequestradora, você é bem silenciosa."
A voz dele, mesmo abafada pela situação, era carregada de um tédio que me irritou mais do que o medo.
"Fica quieto."
Minha voz saiu mais fraca do que eu pretendia.
Ele riu, um som seco, sem humor.
"Qual é o seu nome?" ele perguntou, ignorando minha ordem.
"Isso não é da sua conta."
"Vou te chamar de... Moça da Corda Ruim. Essa corda aqui tá machucando meu pulso. Você não tinha uma de seda? Ou pelo menos um algodãozinho pra forrar?"
Pedro "Playboy do Café" Almeida. Era exatamente o filhinho de papai mimado que as fofocas da cidade pintavam. Eu o conhecia de vista, da confeitaria onde eu trabalhava. Ele sempre entrava, comprava o doce mais caro sem nem olhar o preço e tratava todo mundo com uma superioridade displicente.
Agora, ele era meu refém. Minha única esperança.
Tirei o celular do bolso, um aparelho velho e rachado. A tela de bloqueio mostrava a foto de Sofia, minha irmã. Ela sorria, mas seus olhos já mostravam o cansaço da doença, a mesma doença que precisava de trezentos e cinquenta mil reais para ser tratada.
Um valor que, para mim, era um universo de distância, mas que, para o pai dele, o todo-poderoso Coronel do Café, era troco.
A responsabilidade pesava nos meus ombros. Eu não era uma criminosa, eu fazia bolos. Meus dedos eram feitos para decorar com glacê, não para amarrar nós. Mas o desespero te transforma, te empurra para lugares escuros que você nunca imaginou existir.
"Eu não estou brincando," eu disse, tentando injetar firmeza na minha voz. "Seu pai vai pagar, e você vai voltar pra casa."
"Meu pai?" ele bufou. "Boa sorte com isso. Aquele homem é mais pão-duro que o Tio Patinhas. Ele vai é tentar negociar pra pagar metade."
De repente, a respiração dele mudou. Ficou rápida, ofegante. O peito dele subia e descia em um ritmo assustador.
"Ei, o que foi?" perguntei, dando um passo à frente, contra minha vontade.
"Ar... eu preciso de ar," ele ofegou, os olhos arregalados de pânico. "Esse lugar... tá me sufocando. As paredes... estão se fechando."
Uma crise de ansiedade. O médico de Sofia tinha me explicado sobre elas. Eu vi minha irmã passar por isso algumas vezes. É um terror que vem de dentro, irracional e avassalador.
Droga. Eu sequestrei um playboy com defeito.
Minha mente gritava para deixá-lo ali, para ser a sequestradora durona que o plano exigia. Mas meu corpo agiu por instinto. Corri até a pequena cozinha improvisada no canto do porão e enchi um copo com água da torneira.
Aproximei-me dele com cuidado, como se ele fosse um animal assustado.
"Aqui, bebe."
Segurei o copo em seus lábios. Ele bebeu em goles desesperados, a água escorrendo pelo seu queixo.
"Respira fundo," eu disse, minha voz agora suave, a mesma que eu usava com Sofia. "Puxa o ar pelo nariz, solta pela boca. Devagar."
Ele tentou me obedecer, o corpo todo tremendo. Fiquei ali, ao lado dele, repetindo as instruções, até que o ritmo de sua respiração começou a voltar ao normal. O pânico em seus olhos deu lugar a uma exaustão profunda.
Ele me encarou. O sarcasmo tinha desaparecido, substituído por algo que eu não consegui decifrar. Curiosidade, talvez.
"Obrigado," ele murmurou, a voz rouca.
Eu me afastei, sentindo o chão sumir sob meus pés. O que eu estava fazendo? Eu era a sequestradora. Ele era a vítima. Não era para eu cuidar dele.
Ele limpou a garganta, a postura arrogante voltando aos poucos, como uma armadura sendo reerguida.
"Então," ele disse, com um meio sorriso. "Você faz isso sempre? Sequestra as pessoas e depois vira a enfermeira particular delas?"
Eu não respondi. Apenas voltei para o meu canto escuro, confusa.
Ele me observou por um longo tempo. O silêncio se estendeu, denso e desconfortável.
"Você é a pior sequestradora do mundo," ele finalmente concluiu, mas desta vez, não havia zombaria em sua voz. Era uma constatação. E, por algum motivo doentio, aquilo me deu um pingo de esperança.
Talvez ser a pior sequestradora do mundo fosse a única forma de eu conseguir sair dessa sem perder o que restava da minha alma.
A primeira ligação foi um desastre.
Usei um celular descartável e um aplicativo para distorcer a voz, mas minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o aparelho cair. Do outro lado da linha, a voz do pai de Pedro, o Sr. Almeida, era exatamente como eu imaginava: fria, cortante e impaciente.
"Alô? Quem fala?"
"Eu... eu estou com seu filho," gaguejei, a voz robótica do aplicativo soando ridícula.
Houve uma pausa.
"E daí?"
Fiquei sem ar. "E daí? Ele foi sequestrado! Eu quero um resgate."
"Quanto?"
Meu coração parou. Era a hora. "Trezentos e cinquenta mil reais."
Silêncio. Um silêncio tão longo que achei que a ligação tinha caído.
"É só isso?" ele finalmente perguntou, e o desprezo em sua voz era palpável. "Você sequestra o meu filho por uma quantia que eu gasto em adubo pra fazenda?"
Ele desligou.
Fiquei encarando o celular, o som da linha morta ecoando no porão. Eu me senti uma idiota. Uma completa e total idiota.
Do outro lado do cômodo, Pedro começou a rir. Não era uma risada alta, mas um som baixo, de quem está se divertindo com a desgraça alheia.
"Eu te avisei," ele disse, balançando a cabeça. "Trezentos e cinquenta mil. Ele achou que era um trote. Provavelmente pensou que era um dos amigos dele pregando uma peça."
A vergonha queimou no meu rosto. Eu queria gritar, queria bater em alguma coisa, mas tudo que consegui fazer foi sentar no chão frio, derrotada.
"O que eu faço agora?" sussurrei para mim mesma.
"Primeiro, você vai me desamarrar," disse Pedro, com uma naturalidade assustadora. "Depois, a gente vai pedir um valor decente."
"A gente?" Eu o encarei, incrédula. "Não existe 'a gente' . Eu sequestrei você!"
"E está fazendo um péssimo trabalho, se me permite dizer. Eu estou tentando te ajudar. Pense em mim como um... consultor de crimes. Meu valor de mercado é muito maior que essa mixaria. Isso é ofensivo."
Ele parecia genuinamente ofendido. A vaidade dele era tão grande que até mesmo em um sequestro, ele se preocupava com o seu preço. Era absurdo, mas, no fundo, eu sabia que ele tinha razão.
"Por que você me ajudaria?" perguntei, desconfiada.
"Porque eu quero sair daqui. E, francamente, estou entediado," ele respondeu, dando de ombros. "E porque, se meu pai pagar pouco, meu status social vai lá pra baixo. Imagina a vergonha? O filho do Coronel do Café valendo menos que um trator usado."
Hesitei por um momento. O plano estava ruindo. Eu não tinha outra opção. Com um suspiro de derrota, peguei a faca que usava para cortar frutas e me aproximei dele. Cortei as cordas que prendiam seus pulsos e tornozelos.
Ele se levantou, esticando os braços e as pernas, fazendo uma careta.
"Finalmente. Achei que meu sangue não ia mais circular."
Ele andou pelo porão, examinando o lugar com um olhar crítico.
"Ok, vamos ao trabalho," ele disse, parando na minha frente. "Não vamos mais ligar. Ligações são rastreáveis e amadoras. Vamos escrever uma carta. É mais clássico, mais dramático."
Ele pegou um pedaço de papel e uma caneta que eu tinha deixado sobre uma caixa.
"Exija um milhão e meio," ele começou a ditar. "Não, melhor. Dois milhões. E não peça em dinheiro. Peça em diamantes não rastreáveis ou algo do tipo. Dá mais impacto."
Eu o observava, atônita. Ele estava completamente envolvido, como se estivesse planejando uma festa de aniversário, não o próprio resgate. Ele me instruiu sobre as palavras a usar, o tom a adotar, como criar um senso de urgência sem parecer desesperado.
"E não esqueça de colocar uma ameaça. Algo como 'se a polícia for envolvida, as consequências serão terríveis' . Meu pai adora um bom clichê."
No final, tínhamos uma carta de resgate que parecia saída de um filme. Era assustadora, profissional e convincente.
"Agora, como vamos entregar isso?" perguntei.
"Deixe em um lugar público. Na caixa de correio da capela no centro da cidade. É neutro, poético até," ele sugeriu, com um sorriso satisfeito.
Depois que tudo estava planejado, um silêncio estranho se instalou entre nós. Eu o observava, tentando entender o que se passava em sua cabeça. Ele não parecia um refém. Ele parecia... um parceiro.
O cansaço finalmente me venceu. Me encolhi em um colchão velho no canto e fechei os olhos, exausta demais para ficar de guarda.
Naquela noite, eu tive um pesadelo. Eu estava em um banco, tentando depositar o dinheiro do resgate na conta do hospital. Mas toda vez que eu digitava o número da conta, os dígitos se embaralhavam, se transformavam em símbolos sem sentido. O gerente do banco ria de mim, o rosto dele se transformando no rosto do Sr. Almeida.
Acordei em um pulo, o coração disparado. O porão estava escuro e silencioso, exceto pela respiração calma de Pedro, que dormia tranquilamente na cadeira, agora sem amarras.
Uma sensação terrível me invadiu. A sensação de que, mesmo com a ajuda do meu refém, eu estava prestes a cometer um erro ainda maior.